procerão, um conto de 1984.

23/06/2012

procerão

Procerão, 1

Procerão, 2

Procerão, 3

Procerão, 4

Procerão, 5

……………………………………………………………………………………………………………………………………..

Sonhava ser jogar de futebol, por mais que fosse um aplicado perna-de-pau e sabia disso. O sonho era um lenitivo para dormir. Um sonífero para esquecer. Um auto-engano para espantar a dureza do trabalho na roça e depois do colégio interno onde cheguei semi-analfabeto, tendo que estudar latim. Sempre lembro com pena e um certo regozijo do chute formidável que dei na gramática Ragon. Mas defendo que o latim volte às escolas secundárias .Cinco décadas depois, falar 50 anos parece que as coisa fica pior, sonho  dando grandes chutes, principalmente sonho acordado, apesar de chutar fraquinho fraquinho. E com as duas pernas como pelé. E fico rindo de tamnha asneira e durmo feliz. Assim sonho com pintura sem saber desenhar um patinhos, começando com um dois. Com desenho e arquiteturas. Fui construir um caminhão de madeira para meu filho e, ao final, consegui um trenzinho pintado de vermelho e verde. Pior, foi duro descartar dele depois. Fiz discursos revolucionários em meio a uma simples greve. E diante de qualquer criança pedindo esmolas, mesmo daquela criança que Pagú deu esmolas, em 1933, nas ruas de Moscou, em sonho com revoluções. E continuo brigando com Elis Regina e Belchior, pois acho sonhar melhor que viver. Claro que viver sonhando.

Em 1984 eu sonhava em ser escritor, mesmo notando que qualquer um que eu lia escrevia melhor que eu. Este conto, talvez foi a última tentativa, foi o marco da minha desistência. Nunca mais escrevi senão panfletos sindicais. E depois viciei-me em e-mails, fingindo que escrevo cartas, hoje um gosto solitário.  Ainda tenho a mesma covardia de 1984.  Mas não repudio esta pequena história.  Gosto dela, tanto que guardei. E aqui publico.

Tive a tentação de dedicar ao meu amigo Mário Augusto Medeiros da Silva,  xará e coloborador, esporádico, deste blog. Um vingança por ele ficar insistindo que eu devo escrever.

E escrevo isso, e leio sempre todas as coisas, ao som de alguma música exagerada, melhor, toda música é um exagero. Neste momento uma música árabe, dilacerada, com Yo-Yo-Ma . Que justifica qualquer desatino.  A maior das artes.  Que na minha república dos sonhos,  desafiando Platão, poetas, dramaturgos, humoritas, deviam ser seres privilegiados e protegidos, inatingíveis. E os músicos deveriam ser mesmo tratados com deuses, assim mesmo como  eram tratados os artistas de rock. Deuses  como eu acho que são Jimi Hendrix e Bach. E filósofos só seriam aceitos se frequentassem um baile funk e dançassem.

Como não danço, ninguém deve acreditar em nada que escrevo.