Em defesa do Jornal do Porão, de seu criador e de todos nós.

04/03/2013

IDÉIAS SE COMBATEM COM IDÉIAS

Publicado em 14 de novembro de 2009.

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ARQUIVOS PÚBLICOS EM PERIGO.

Incêndio na biblioteca do IEL. Qual será o próximo? 

Republico porque por escrever e-mails defendendo o Arquivo Edgard Leuenroth me custou várias e várias admoestações, pressões, chamadas nos cantos, nas salas, para ouvir ameaças veladas, algumas explícitas, outras aos brados. Depois por falar do descalabro que era a situação da biblioteca do IFCH que inundou, torrencialmente, como foi torrencial a inundação no AEL (não foram infiltrações, nem goteiras, nem os destelhamentos atualmente constantes no AEL, mas inundação torrencial, colocando em risco memoráveis acervos. Contra o silêncio conivente dos responsáveis e sua pressão constante sobre quem ousou perguntar , onde estão e quem são os responsáveis e que medidas tomaram para que não mais aconeça. Mas aconteceu novamente no IEL.

É preciso mudar, radicalmente, a maneira de tratar os acervos e documentos da história.  Não são medidas paliativas, mas mudanças.  É preciso mudanças urgentes e centralizadas. É preciso ter um órgão central para cuidar desse patrimônio histórico, tonto do AEL, CEDAE, Centro de Memória e bibliotecas. É só fazer uma visita a cada um desses prédios para ver diferenças enormes de equipamentos, de condições para a preservação (armários, ar-condicionado, prédios, recursos técnicos) para logo se notar que a própria disparidade de tratamento expõe o problema.  Essa multidão de locais serve a uma coisa óbvia: criar diretorias, poderzinhos, chefias aos montes. É indefensável.  E os prédios não tem condições. O melhor deles, ou a pirâmide branca, concentra problemas gravíssimos: Ar-condicionado de 600 mil reais que nunca funcionou e inundou torrencialmente o arquivo, janelas que vivem caindo, telhado que destelha a qualquer tempestade de verão. Estamos falando do melhor. Não fui à Unicamp, mas garanto que se houve incêndio no biblioteca do IEL a primeira coisa que suportará é estes predinhos fuleiros, os “pinotinhos”.

É preciso de um arquivo único. Num mesmo prédio. Com diretoria única e enxuta (nada dessa proliferação de inúteis chefias). Com um tratamento que merece a memória das lutas e da culttura desse país. Nada da suntuosidade novo-rico de um tal BORA. Que um prédio para todos os arquivos tenha um andar, por exemplo, para obras raras.

É preciso de um único prédio para todos os arquivos, e até mesmos para as bibliotecas, planejado para alta-segurança (como se faz com os inúteis prédios militares no mundo todo – suponho). Ar-condicionado dimensionado por firmas de renome. E um corpo de bombeiro (com funcionários públicos concursados), com permanente treinamento, com funções de prevenção cotidianamente supervisionadas e relatadas, com um contingente que trabalhe durante 24 horas. Acho que já corremos riscos demais.

E dinheiro. Recente reportagem dava conta de que havia “restos de caixa” enormes da Fapesp e das Universidades. A Unicamp, recentemente, comprou uma fazenda. Provavelmente para sua megalomania tecnológica. Mais provavelmente para trabalhar para o agronegócio e indústrias. Com essa rendição completa ao capitalismo quem acredita que a Unicamp se preocupará com arquivos e memórias? E as chamadas ciências humanas, seus dirigentes e professores, com seu complexo de vira-latas não chiarão. Espremidos chiam baixinho, se chiarem.

O ditado popular “Bom cabrito não berra” é um difamação dos rústicos e briguentos cabritos. Talvez o lado ultra-conservador da mentalidade popular quer transformar o cabrito, tão rústico, montanhês, devoratudo, altivo, marrento, escandaloso,  num desprezível carneiro. A mesma mente que quer transformar  a luta em  colaboração cidadã.

Foram exatamente os próceres da ciências humanas, tão  admirada esquerda universitária, a tentar me calar. Mário Medeiros, aluno dessa esquerda universitária, ainda, e espero, não corrompido e não será corrompido, espero, e como dói a esperança, pelos cargos e comissões, pode e pôde, ainda, se solidarizar com o debate que , mesmo sob pressão e ameaças, continuei propondo. E continuo. Vida longo a esse meu amigo Mário Medeiros.

Escrito por Mário Martins de Lima, editor desse, em 04/03/2013

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Doutorado, Mário Medeiros

Doutorado, Mário Medeiros

Mário, leitores e colaboradores do Jornal do Porão,

Como prometi, escrevo.

Só pude fazer isso agora, com pouco mais de tempo e depois de ler as mensagens enviadas pelos outros, além das do antigo Editor/ Redator-Chefe do Jornal.

Este texto não é só um desagravo em favor de Mário Martins de Lima, meu xará, meu amigo de todos esses anos na Unicamp. É também uma tentativa de defender o livre pensar, a expressão do posicionamento perante os fatos. Coisas que nosso editor chefe sempre defendeu.

Idéias se combatem com com idéias. Contra um texto, outro texto. Contra um manifesto, outro manifesto.

O ato de acochambrar pelo poder, alcoviltar, escorchar e tomar atitudes numa relação de desigualdade (chefe-subordinado) é o elogio da estupidez. O chefe que precisa usar da força – censurar, chamar em sala, beco, alcova, colocar no canto, ameaçar, impor-se pelo cargo – demonstra que a sua suposta autoridade não possui nenhuma legitimidade, para além do cargo institucional e do medo que inspira. Respeito, então, nem se fale. É um estúpido. Uma besta com polegares. É indigno de ser chamado de intelectual, de pensador. É o ato de um delinqüente acadêmico, de homem-dispositivo, na melhor acepção que deram a esses termos Maurício Tragtenberg e Franciso Foot Hardman.

Mário Martins edita seu Jornal do Porão corajosamente. Expondo aquilo que observa, que deduz, que pensa, que conclui dos fatos quotidianos, referente à Universidade, ao seu local de trabalho, à cidade que adotou, ao país em que nasceu e aos fatos que viveu nos últimos quarenta anos de história. Ganha muito com isso. O debate com alguns interlocutores sérios e abertos lhe faz bem. Mas também ganha a violência quotidiana da censura, da ameaça, da intimidação. Ossos do ofício. Alegria e dor da atividade.

Suas opiniões, até mesmo por alguns dos leitores do seu Jornal, foram consideradas fortes, incômodas, desagradáveis ou deselegantes.

Curiosamente, a não ser pelos chefetes ilegítimos e os cidadãos delinqüentes, jamais o adjetivo mentiroso (ou seus sinônimos) foi associado às opiniões que expõe.

Ele não gosta de memórias. Presenciei, há algumas semanas, na companhia de nosso atual editor – Newtinho Peron – um momento raro: Mário Martins dando uma entrevista para dois estudantes. O tema era “Ignorância”. Pediam os dois estudantes que meu xará discutisse sobre isso. Algo que parece tão geral não o melindrou. E ele ali, numa sala do AEL que tanto defende, expôs o que pensava sobre o assunto. Tomando a idéia de ignorância como fio condutor, Mário repassou a sua origem, de como passou de trabalhador rural, cortador de cana no interior de Minas Gerais, a um dos principais líderes da greve de Campinas em 1978. De sua vinda a São Paulo com a mão na frente e outra atrás, em meados dos anos 1960 a aluno de Ciências Sociais na PUC-SP, tendo como mestre Maurício Tragtenberg. De operário que lia livros de Marx sentado nas latrinas fétidas das fábricas ao militante da Libelu e do PT. Do apreço por Freud, dos filósofos alemães, de Euclides da Cunha, Guimarães Rosa, Dostoiévski e toda boa Literatura que lhe caia nas mãos. De música clássica, de história do cinema, de Poesia Concreta, da paixão pela Tradução e o estudo das línguas, dos debates sobre os problemas nacionais. Do futebol, do sexo, das relações humanas, vista pela Psicanálise e pela Sociologia. E, principalmente, do silêncio dos intelectuais – o que sempre mais o incomoda e o que mais combate.

Mário Martins não gosta de memórias. Eu tomei como ofício entender as memórias alheias. Eu sempre quis que ele escrevesse as suas – coisa que ele revelou numa das edições deste Jornal. E começou a fazê-lo. Mas parou. Entretanto, quem o conhece e tem a possibilidade de trocar dedos de prosa com ele – o que não é difícil – sabe que as suas memórias perpassam os debates que ele propõe. Mas não é a memória morta, dos fatos assentados e bem organizados que o encanta. É a a vida, o eu como potência, a pulsão da vida que o faz detonar os fatos que viveu, atrelá-los com o presente e, de alguma maneira, provocar seu interlocutor. Sempre um provocador, o Mário Martins.

Com Mário Martins o debate é sempre franco, aberto, sem meandros, direto. Olho no Olho. Idéia com idéia, contra idéia outra idéia. Em voz alta, sem sussurros, sem modulação menor. Alguns dos seus interlocutores – como foi dito por leitores desse jornal – não concordam com o tom, melindram. Eu já discuti muitas vezes com meu xará. Já disse e ouvi coisas ásperas. E isso nunca me fez perder o respeito ou perder o seu respeito. Idéia com idéias, idéias contra idéias.
Gosto de memórias, ao contrário de Mário Martins. Mas, como ele, não gosto de contar as minhas. Farei aqui uma breve licença a nós dois.

Greve de 2011

Greve de 2011

Conheci meu xará na primeira greve que participei na minha vida. Era o meu primeiro ano de Unicamp, meus primeiros meses, em 2000. Houve uma manifestação, na Praça da Reitoria, em apoio a greve dos funcionários públicos. Eu fui até com alguns amigos, todos ingressantes em Ciências Sociais. Falas, debates, carro de som, alto-falantes etc. O comum nas manifestações. Ainda existia o antigo bandejão na praça, que estava lotada. As pessoas passavam, olhavam, paravam. Alguns estudantes de vários cursos estavam por ali e, como se aproximava o horário do bandejão abrir, ficavam. Debaixo de uma árvore, perto do carro de som, de camiseta e calça azul, um homem com bigode, altura mediana interpela um membro do sindicato que falava no carro de som. Ele não precisava de microfone. E o que mais me chamou atenção é que a maioria das pessoas ali o conheciam – funcionários e estudantes, alguns professores. O homem com bigode e todo vestido de azul falava alto, grosso, gesticulava muito. Em resposta, recebia o apoio de várias pessoas que estavam na Praça. Questionava de dedo em riste quem falava no carro de som. Pediram que falasse ao microfone. As idéias eram claras, diretas, distintas. Podia-se discordar delas. Causavam estranhamento em alguns. Mesmo com microfone, o homem de azul não baixou o tom de voz. Gritava. Estava indignado com o sindicato, com os funcionários, com os professores, com a reitoria, com os estudantes, com todos. Refletia, conclamava à reflexão, expunha fatos, denunciava, propunha. Recebia aplausos, jamais uma vaia. Sinais de apoio, como também sinais de desaprovação. Mas ninguém jamais correu ao microfone para lhe dizer “É mentira!” Ou o chamou de mentiroso na praça. Mesmo os interlocutores acusados de desleixo com as lutas dos trabalhadores o respeitaram. Jamais um mentiroso. Contras idéias que lhe foram lançadas, retornou com outras.

Não sei porque eu associei o homem de bigode e todo vestido de azul com o nome de Pedro. Alguns meses depois eu comecei a fazer uma pesquisa, cuja fonte material descobri que se encontrava no AEL. Fui até lá e eis que o homem de azul – acho que agora sem bigode – era o atendente do arquivo. Não tive dúvidas. “Bom dia, seu Pedro”. Cometi dois equívocos no mesmo cumprimento. Chamá-lo de senhor e trocar o nome. O primeiro ele corrigiu na hora. O segundo demorou muitas semanas para corrigir – o que serviu para muita piada ao meu respeito. Na minha primeira pesquisa, de iniciação científica, comecei e consolidei minha amizade com o meu xará. No balcão de atendimento do AEL, muitas vezes, conversamos horas em pé. Fomos tomar café na sala dos fundos ou fora do arquivo. Discutimos ásperamente. Trocamos confidências, livros, cds. Descobrimos gostos comuns e divergentes. Enfim, nos tornamos amigos. Conhecemos outros amigos, que formaram um negócio aberto chamado O Café das Cinco. Por quê o nome? Porque às 17h, cinco da tarde, acaba o expediente no AEL. E durante muitos meses, vários de nós, amigos do Mário Martins, chegamos perto do horário do aquivo fechar para tomar um café com ele. Muitas vezes, alguns dos seus chefes o censuraram por aquela concentração no balcão e na porta do arquivo. No Café das Cinco, sediado no cantina da Matemática, ficamos muitas vezes até o Marcão – dono da cantina – fechar. Fazendo o quê? Trocando idéias, debatendo idéias, compartilhando idéias, combatendo idéias, refutando idéias. Em alto e bom som. Podia parecer às vezes que estávamos até brigando. E quem sabe estivéssemos? Mas ali todos se respeitavam por suas idéias, pela defesa dos seus argumentos. Ali não era lugar de mentiras, de ficar em silêncio, de sussurrar, ameaçar, melindrar. Olho no olho, cara a cara. Idéia com idéia. Contra idéia, outra idéia. Futebol, literatura, sociologia, política, sexo, homossexualismo, família, paternidade, maternidade, cinema, música, dança, pesquisas, greves, memórias, textos (nossos)… tudo discutimos ali. Trocamos livros, impressões, discos. Várias monografias, dissertações, teses e livros agradecem o Café das Cinco e seus membros. E, especialmente, Mário Martins de Lima. O Bigode. O Homem de Azul. O Bartleby Falante (ver Hermam Mellville). O Velho Safado (ver Charles Bukowiski). O Porteiro do AEL. O xará. O Mário.

Francamente. Diretamente. Prá valer, como tem que ser.

Acho que está bom essas duas memórias.

Escrevi no começo que este texto é um desagravo em favor do Mário Martins de Lima, meu xará e meu amigo.

É também uma defesa do Jornal do Porão, este espaço democrático que o Mário criou para poder expor suas e nossas idéias.

Mas é também uma defesa daquilo que tem pautado as relações e ações do Mário, das quais muitas pude estar presente e observar.

IDÉIAS COM IDÉIAS, CONTRA IDÉIAS, OUTRAS IDÉIAS. CONTRA UM TEXTO, OUTRO TEXTO. FRANCAMENTE. DIRETAMENTE. DEMOCRATICAMENTE.

Mário Augusto Medeiros da Silva

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links

01.Biblioteca do Iel na Unicamp é atingida por incêndio

02. Incêndio atinge prédio da biblioteca do Instituto de Letras da Unicamp

03. nota da Unicamp (sobre o incêndio)
04. Fotos dos Estragos na Biblioteca IEL Unicamp
05. Incêndio na biblioteca pública Luis Bessa, Belo Horizonte
06.Fogo destruiu interior de casa que foi moradia de poeta Castro Alves.
07 Presença de dois vigias minimizam o incêndio na Biblioteca Luis Bessa, projetada por Oscar Niemayer
08.Chuva inunda sala de obras raras de biblioteca da UFRJ Alba Valéria Mendonça, O Globo, 3 de dezembro, 2003 (com obras raras)
09.Chuvas inundam arquivos do Instituto Micael, Peruíbe
10.A privataria arruina a Biblioteca Nacional, Elio Gaspari


Falo no Jardim

02/12/2012

Biblioteca Mário

A editora da Unicamp e Ateliê Editorial, numa esmerada edição, publicaram o livro de João Ângelo Oliva Neto. Poemas ao deus Priapo. Poemas eróticos ao falo. E magnificas ilustrações coloridas, coisa rara em publicações universitárias. São publicações caras, mas deixo de lado muita coisa para ir comprando, nas feiras anuais. Reclamo, mas não me arrependo de ter comprado objetos tão caros.Falo no Jardim, Ateliê Editorial, Unicamp (2)

Falo no Jardim, Ateliê Editorial, Unicamp - Biblioteca Mário IX-090.001 On001f

Falo no Jardim, Ateliê Editorial, Unicamp – Biblioteca Mário IX-090.001 On001f

Falo no Jardim, Ateliê Editorial, Unicamp (2)

Sei que vou esperar sentado um publicação equivalente, com o mesmo esmero, com tantas ilustrações sobre a história da xoxota. Sei que ela tem papel positivo, de sortilégio, em muitas culturas. Mas seria maravilhoso um livro do mesmo porte do Falo no Jardim. A Unicamp tem uma grande parte, até mesmo maioria, de mulheres nos seus cursos. Na área de humanas, com certeza, é a maioria. Seria de esperar uma pressão para que houvesse uma publicação dessa.

Perdi um livro chamado História de V. Sem ilustrações. No prefácio ou introdução uma antropóloga critica a autora por, conservadoramente, usar a horrorosa palavra vagina. Pior que isso só o termo vagido para o choro de recém nascido. Nem mesmo usa vagina, dá a entender usando um grande V na capa, História da V.

Já mencionei aqui neste blog que o quadro de Gustave Coubert, A Origem do Mundo,  foi censurado por 128 anos. Pior. Lacan o escondeu por décadas e fazia uma espécie de cerimônia para mostrá-lo.  Apenas porque, realisticamente, pintou uma xoxota, quando há pintos em profusão pelos quadros, estatuária, desenhos; e por toda a cultura popular, inclusive nas expressões comuns, muitas que antes ofensivas viraram elogios, como “do cacete” e muitas outras. Não conheço nada parecido com a xoxota. Vi muitas mães ensinarem as filhinhas a chamá-la de baratinha, mas pela repulsa que as baratas causam, o diminutivo não alivia muito. Assim como a mania de ligar xoxota a coisa feia ou mesmo desagradável.

Enquanto não conhecer um bom livro, bem editado, bem ilustrado, vou aqui tentando juntar algumas ilustrações das artes, pintura, poesia, desenho, escultura… que dê um tratamento apaixonado ao corpo da mulher. Aqui, neste blog de elogios e loas, e não de crítica e denúncia,  ignorarei o que não for homenagem.

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A carne, a arte arde, a tarde cai
No abismo das esquinas
A brisa leve traz o olor fulgaz
Do sexo das meninas

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fulgaz

No Dicionário Aulete online não existe Fulgaz. Também no Aurélio edição de 1978. Consta Fulgor que é brilho e Fugaz que é passageiro, ligeiro, momentâneo. Talvez Caetano Veloso juntou as duas palavras. Um sexo que passa ligeiramente, mas brilhantemente.

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galeria

No Dicionário Aulete online não existe Fulgaz. Também no Aurélio edição de 1978. Consta Fulgor que é brilho e Fugaz que é passageiro, ligeiro, momentâneo. Talvez Caetano Veloso juntou as duas palavras.
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Esse post será sistematicamente atualizado.

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Atualização 28/08/2012

links para este mural de Jamie McCartney

Agradecimentos fervorosos à minha amiga que enviou os links. Fui ao Google e é o esperado. Um monte de abordagens politicamente corretas. Protestos contra cirurgias, este moralismo tolo e inútil. Perdi a paciência e não procurei muito não. Onde tem alguém para ver a beleza das xoxotas. O próprio mural de Jamie McCartney não tem cor, talvez próprio para um consultório ginecológico. Assim como um coleção de moldes de gesso num consultório de dentista. Era preciso um mural com cores e pelos. Xoxotas negras, brancas, asiáticas, mestiças… de todos os tipos.

01. Folha de São Paulo
02. Folha de São Paulo

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Atualização 30/10/2012

KUBIN, Alfred -todessprung (morte súbita)-1902

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01/11/2012
Otagawa School – shunga

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02/12/2012
Arlindo Daibert.

Daibert, Arlindo

Daibert, Arlindo

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26/07/2013
Enviada por Priscila Salomão
Jami Aka

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atualização, 25/09/2014

ALENA KUPCIKOVA, 2 ALENA KUPCIKOVA, Aukční síň Vltavín Aukční síň Vltavín, Alena Kupikova Aukční síň Vltavín Pêlos, cláudia ohana.2 Pêlos, cláudia ohana.3 Pêlos, cláudia ohana

 

Alena Kupčíková


Campinas tem monumentos importantes?

14/07/2012

Campinas tem alguma importancia cultural? O povo de Campinas de algum acesso a objetos, eventos, arquitetura, espaços ou qualquer movimento cultural?
Quem se importa com isso?
Ao clicar sobre estas primeiras fotos terá acesso ao album completo “Monumentos de Campinas I” e outros albuns.


Manumentos Campinas 056

Upload feito originalmente por Jornal do Porão




Manumentos Campinas 049

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Manumentos Campinas 033

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A Unicamp fecha e apodrece à noite, nem mesmo ensino noturno tem que não seja umas migalhinhas. Imensos prédios públicos na escuridão e fomentando a ingnorância. Isso mesmo, é uma espécie de elemento provocador da ignorância, pois se aqueles monstrengos de prédios, dinheiro do público, repito do público, ali sem qualquer utilidade. É um acinte. É um dizer brutal de que “temos prédios, instalações, máquinas, equipamentos, mas os pobres é que se fodam”. O próprio movimento estudantil não fala nisso. Os “donos” dessa “universidade pública” chamada Unicamp, são patrocinadores da ignorância e da exclusão de negros e pobres.
E a prefeitura de Campinas, esta do fantasioso e eficiente slogan “primeiro os que mais precisam” não propõe nada no setor cultura. As titicas que existiam, como a Estão Cultura, está paralisada, semimorta. As atividades de rua, miseráveis atividades do governo anterior, foram extintas.
E continuo a falar dos monumentos, praças e ruas. O prefeito do “primeiro os que mais precisam” deixa, como seus antecessores deixaram, os trabalhadores serem ofendidos com um nome numa “praça” que não existe. Um canteiro debaixo de um viaduto na Barão de Itapura. Ofendem Tim Maia. Tentam humilhar Noel Rosa que para alguns, como eu, é o maior e mais inventivo compositor popular brasileiro. Um gênio da música e do humor.

Este prefeito que nada construiu, em 6 anos, mamando às golfadas no dinheiro farto de Lula, não só não construiu ou iniciou nada importante no terreno cultural, como acabou com algumas pífias iniciativas e aquilo que tem deixa perecer.
É caso do “monumento aos trabalhadores do café” que foi construído em 1927, pelo bi-centenária da introdução do café no Brasil. Não qualquer placa identificando o escultor. Não há qualquer discussão sobre a importância deste monumento. E até a cerquinha para protegê-lo está toda danificada. E agora a perigosa fiqueira cresce nos vãos e rachaduras ponde em perigo o próprio suporte do monumento.
Como este monumento aos “trabalhadores do café” narra a saga protagonizada por imigrantes europeus, negros e mulheres, o prefeito do “primeiro os que mais precisam” aproveita para continuar ofendendo imigrantes pobres, negros e mulheres, ou seja, a maioria que construiu Campinas e este país.

“A data aceita pela maioria dos historiadores como sendo a da fundação de Campinas é 14 de julho de 1794, quando da inauguração da tosca capela, coberta de sapé, no local onde hoje se situa o monumento de Carlos Gomes, no centro da cidade.” http://pedrobondaczuk.blogspot.com.br/2007/07/fundao-de-campinas.html

MAIS LIDOS DE 2011
Até esta data, 03/05/2012, foram 112 consultas.


Teatro da Unicamp. Um teatro público.

06/07/2012

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Teatro sem público: deve ser a grande sacada da vanguarda da Unicamp

“História
O Globe Theatre original foi construído em 1599, por uma companhia de teatro a qual Shakespeare pertencia. Em 1613, a construção foi destruída pelo fogo, em um ensaio para a peça Ricardo VIII. No ano seguinte, a arena foi toda recomposta, mas em 1642 foi fechada por conta da pressão pública dos puritanos, maioria na região na época. Dois anos depois, o Globe Theatre foi demolido.
Na década de 1970, o diretor e ator norte-americano Sam Wanamker fundou o Shakespeare Globe Trust, um grupo que tinha como objetivo reconstruir uma companhia semelhante ao teatro fechado de Shakespeare. A tarefa parecia impossível com a arquitetura do século 20, mas Wanamaker persistiu e finalmente o Shakespeare Globe foi aberto ao público em 1997 muito próximo ao local do antigo Globe Theatre.” http://mapadelondres.org/

Onde era o antigo Teatro Municipal de Campinas. Hoje uma praça bem suja. Com um monte de barracas de camelôs. Local onde mora e dorme muitos mendigos, inclusive durante o dia. Um imenso espaço vazio, concretado e sujo. Obra do prefeito Ruy Novaes. Depois Orestes Quércia(MDB). Chico Amara(PMDB)l. Magalhães Teixeira(PSDB), Jacó Bittar(PT), Toninho(PT), Isalene(PT), Hélio Santos(PDT), todos juntos para manter campinas como uma cidade sem cultura, sem imagem, sem debate cultural. Esses promotores da barbárie.
Acho o local ideal para erguer um moderno teatro municipal. Acho que é o local ideal para construir o teatro da Unicamp. Onde os estudantes poderiam testar se realmente aprenderam a fazer teatro na escola, enfrentando aqueles “que vão para ver”. Um teatro dentro de uma escola, como vai ser o teatro da Unicamp é um teatro para não ser visto, é um contra-senso. Ou uma comédia.

O Teatro Municipal de Campinas Carlos Gomes. Construído por Ramos de Azevedo. Localizado entre as ruas Treze de Maio e Costa Aguiar, foi inaugurado em 1930. Foi demolido, em 1965, pelo prefeito Ruy Novaes. Tinha capacidade para 1.300 lugares. No seu lugar foi construído o Teatro Municipal Castro Mendes. Com metade dos lugares.E esse Castro Mendes[que está fechado há alguns anos e ninguém parece sentir falta] teve uma vida intermitente. Mais vazio e seco, como se vivêssemos num sertão. Campinas é uma espécie de deserto cultural, mesmo tendo duas grandes universidades e milhares de estudantes.
Como o Teatro do Centro de Convivência está também está fechado para reforma, atualmente, Campinas não tem nenhum teatro público. Enquanto isso tem centenas de departamentos universitários. Será que universidade é cultura?

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Teatro do IA, UNICAMP, ao fundo Ginásio da Unicamp que deveria ser um lugar que se prática ginástica(mas está entregue a fantasmas). Como teatro vem do grego, lugar onde se vai para ver, deveria ser diferente.
Este teatro será, se tudo continuar como é a UNICAMP, uma parasita da cidade de Campinas, este teatro será para os estudantes de artes cênicas da Unicamp, montarem esporádicas peças, onde o público são seus próprios colegas. Onde o aplauso é quase compulsório. Mesmo porque na próxima apresentação quem era ator vai ser público. Um espécie de troca de figurinhas. Será que que o IA da UNICAMP forma atores, dramaturgos, encenadores, iluminadores. Seria interessante fazer um levantamento. Um coisa é certa, para a cidade de Campinas, existir uma escola de artes cênicas não contribui em quase nada para qualquer movimento cultural na cidade. Acho que nem mesmo a maioria dos estudantes da Unicamp, em qualquer época, se dá conta que existe uma escola de teatro na unversidade.
Nada de novo. Este imenso teatro da Unicamp, provavelmente, servirá apenas para continuar a política de exclusão social. Deverá também sobrar alguns cargos de comissão, cujo topo será ocupado por um professor, com o nome pomposo de diretor do teatro. Será que sairá algum teatro mesmo. Ou apenas um grande prédio abandonado.
Temos precedente. O Ginásio da Unicamp não tem jogos. Lá, que já teve shows, não tem mais. Já teve até festa de fim de ano para os funcionários, com grandes artistas convidados, não tem mais faz muitos anos. É uma grande estrutura para nada. A feira de livro que acontecia lá não acontece mais faz muitos anos. Mesmo o pouco que se fazia não se faz mais. É um imenso e suntuoso prédio onde não acontece nada. Talvez seja o tal NONADA.
O governo deveria usar o mesmo montante de dinheiro e investimento para criar um teatro, de verdade, no centro da cidade. E também criar financiamento para grupos de teatro, de verdade, que estão em busca de um público verdadeiro e não este público de faz de conta.
O governo deveria sustentar companhias de repertório, como faz o governo inglês. Ninguém nega que a Inglaterra tem teatro e cultura teatral.

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Campus de Limeira, aos pedaços.

10/01/2011

É exagero. É. Mas um prédio de 2 anos de uso neste estado que linguagem traduziria tal descalabro? Quem acompanha este jornaldoporao sabe que no Campus de Campinas é a mesma coisa. Ar-condicionado de 600 mil reais que não funcional. Prédio novo que afunda. Janelas de um prédio inteiro, de um ano de uso, que não podem ser abertas pois caem. Ou seja, não são janelas. Prédio da Física que antes de inaugurar começou a afundar. Biblioteca do IFCH que também fora inundada, com obra abandonada. É outros prédios também abandonados por empresas que falem. Há trabalhadores que não receberam décimo terceiro salário de dois anos atrás, por conta de empresas que faliram.
Tinha prometido nem mais tocar neste assunto de tanto que é recorrente, comum, cotidiano e banal ver nosso dinheiro ser doado à empresas terceirizadas irrresponsáveis e fraudulentas. Mas agora surgiu em Limeira um blog com o intuito de denunciar o mesma festa macabra com o dinheiro público, lá em Limeira. E este pequeno texto tem o intuito de apresentar este blog LARANJAS E BIJUTERIAS. (blog que também publica os desenhos da revista Miséria e de João da Silva). ou seria PIORQUETANUMFICA?

Veja também vídeo com inundação no Campus da Unesp de Bauru

 

ARTIGOS SOBRE O MESMO ASSUNTO:

00. Inundação na Biblioteca Nacional
atinge revistas e jornais antigos

01. MAUSOLÉU DE OURO, PIRÂMIDE BRANCA, emBORA…
02. Infiltrações no AEL, dentro e fora
04. AEL mais uma janela caiu (1)
05. Pequeno Diário de Uma Tragédia Anunciada
06. FOTO Pequeno Diário de Uma Tragédia Anunciada


Basta de estupros na Unicamp

02/12/2010

Ontem, na Unicamp teve um ato contra as opressões, chamado pelo coletivo feminista e pelo Grupo feminista Pão e Rosas.
Veja fotos no Flickr; clique sobre a foto e acessará o album flickr com todas as fotos.


ato contra opressões (158)

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

Havia muita indignação contra os estupros e assédio que vem acontecem no Campus.
Mas sejamos realistas. Vai continuar acontecendo. E dava para prever e foram várias vezes previsto que ia acontecer.
Simples. A universidade é quase vazia à noite, num desperdiço de caros espaços e numa acinte aos pobres e negros excluídos do ensino público. Vamos encher a universidade de ensino noturno, de atividades noturnas, de equipamentos de atendimento ao público, de teatros, de shows e orquestras, de encontros da comunidade externa, como MST ou sem teto, com congressos estudantis, com cines-clube ou dezenas de possíveis atividades que atraiam a pessoas das cidades em volta. Mas principalmente um vasta rede de ensino noturno, de todos os cursos, com o mesmo número de vagas do diurno. A Unicamp à noite repleta de carros, ônibus coletivos, leitores nas bibliotecas, pesquisadores nos arquivos, cantinas e restaurantes abertos…


ato contra opressões (141)

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

O que falta para completar este quadro. Uma vigilância no Campus como a que tínhamos a reitoria acabou com ela. Precisamos de um vigilância concursadas. Todas as vezes que ouvimos um especialista de segurança eles dizem que segurança é feita com guardas de quarteirão. Um segurança conhecida por todos e que todas a conhecida e até amiga de quem seria “vigiado”.  Mas foi exatamente com uma vigilância deste tipo que a reitoria acabou, para por no lugar empresas terceirizadas. De um capitalismo chinfrim que vive falindo e aumentando ainda mais a insegurança.

Resumamos. A Unicamp, principalmente à noite, é um paraíso para ladrões e estupradores e molestadores. E com esta fama que está adquirindo tudo pode piorar.

E a responsabilidade é e será da reitoria

A maioria das pessoas que leram isso aí não acreditam que é possível mudar este quadro. Parece muito natural a escravização chamada terceirização. Mas gostaria de dar um notícia de companheiros na Argentina. Os ferroviarios, 2000 trabalhadores terceirizados, na estação La Roca, acabam de ser efetivados. A luta custou a morte de um trabalhador.  E pasmem, morto a mando do próprio president do sindicato. E no entanto continuaram e agora venceram. Aqui, um dia, isso será possível.

Podemos exigir neste momento, na Unicamp, vigilantes não terceirizados. É um momento oportuno par a isso.

CHAMADA:
Publicamos aqui a última contribuição da Revista Miséria Para o Jornaldoporao. Visitem a página da Revista Miséria. Que colobora constantemente com este blog. E colobora também com outras publicações, como você poderá ver ao abrir a página da Revista Miséria. Além disso, como já dissemos aqui em outras ocasiões, a Revista Miséria é uma das coisas mais importates que aconteceram na Unicamp, desde que conheço a Unicamp (nestes últimos 29 anos). A revista em papel, para mim, é mais importante que on-line.Aqui o endereço

Festival Interunesp contra as opressões, Marília
Coletivo Feminista convoca Festival Interunesp


A Delinqüência Acadêmica, por Maurício Tragtemberg

19/11/2010

Este artigo publicado em 1978. Publicado aqui neste Jornal do Porão em 19 de novembro de 2009 é um dos textos mais lidos do Jornal do Porão. Mas ainda pouco lido. A biblioteca da da Faculdade de Educação da Unicamp tem uma coleção de Maurício Tragtemberg. Mas o que significa Maurício Tratgemberg para os professores da Unicamp?
Ano a ano republicarei este texto dele , esperando respostas.

Assim como Maurício Tratgtemberg, é convenientemente esquecido Paulo Freire. Que não devemos cansar de lembrar, foi escolhido como Reitor e quem ficou em 14o. lugar na consulta, o Dr. Pinotti, foi quem assumiu. E assim a coligação que escolheu Pinotti, o décimo quarto colocado, manda na Unicamp até hoje. Mais de 20 anos de mando. Será que esta coligação, herdeira de Pinotti, tem algum mérito próximo a Paulo Freire e Maurício Tragtemberg?

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por Maurício Tragtenberg* [* Texto apresentado no I Seminário de Educação Brasileira, realizado em 1978, em Campinas-SP. Publicado em: TRAGTENBERG, M. Sobre Educação, Política e Sindicalismo. Sã Paulo: Editores Associados; Cortez, 1990, 2ª ed. (Coleção teoria e práticas sociais, vol 1)]

O tema é amplo: a relação entre a dominação e o saber, a relação entre o intelectual e a universidade como instituição dominante ligada à dominação, a universidade antipovo.

A universidade está em crise. Isto ocorre porque a sociedade está em crise; através da crise da universidade é que os jovens funcionam detectando as contradições profundas do social, refletidas na universidade. A universidade não é algo tão essencial como a linguagem; ela é simplesmente uma instituição dominante ligada à dominação. Não é uma instituição neutra; é uma instituição de classe, onde as contradições de classe aparecem. Para obscurecer esses fatores ela desenvolve uma ideologia do saber neutro, científico, a neutralidade cultural e o mito de um saber “objetivo”, acima das contradições sociais.

No século passado, período do capitalismo liberal, ela procurava formar um tipo de “homem” que se caracterizava por um comportamento autônomo, exigido por suas funções sociais: era a universidade liberal humanista e mandarinesca. Hoje, ela forma a mão-de-obra destinada a manter nas fábricas o despotismo do capital; nos institutos de pesquisa, cria aqueles que deformam os dados econômicos em detrimento dos assalariados; nas suas escolas de direito forma os aplicadores da legislação de exceção; nas escolas de medicina, aqueles que irão convertê-la numa medicina do capital ou utilizá-la repressivamente contra os deserdados do sistema. Em suma, trata-se de “um complô de belas almas” recheadas de títulos acadêmicos, de um doutorismo substituindo o bacharelismo, de uma nova pedantocracia, da produção de um saber a serviço do poder, seja ele de que espécie for.

Na instância das faculdades de educação, forma-se o planejador tecnocrata a quem importa discutir os meios sem discutir os fins da educação, confeccionar reformas estruturais que na realidade são verdadeiras “restaurações”. Formando o professor-policial, aquele que supervaloriza o sistema de exames, a avaliação rígida do aluno, o conformismo ante o saber professoral. A pretensa criação do conhecimento é substituída pelo controle sobre o parco conhecimento produzido pelas nossas universidades, o controle do meio transforma-se em fim, e o “campus” universitário cada vez mais parece um universo concentracionário que reúne aqueles que se originam da classe alta e média, enquanto professores, e os alunos da mesma extração social, como “herdeiros” potenciais do poder através de um saber minguado, atestado por um diploma.

A universidade classista se mantém através do poder exercido pela seleção dos estudantes e pelos mecanismos de nomeação de professores. Na universidade mandarinal do século passado o professor cumpria a função de “cão de guarda” do sistema: produtor e reprodutor da ideologia dominante, chefe de disciplina do estudante. Cabia à sua função professoral, acima de tudo, inculcar as normas de passividade, subserviência e docilidade, através da repressão pedagógica, formando a mão-de-obra para um sistema fundado na desigualdade social, a qual acreditava legitimar-se através da desigualdade de rendimento escolar; enfim, onde a escola “escolhia” pedagogicamente os “escolhidos” socialmente.

A transformação do professor de “cão de guarda” em “cão pastor” acompanha a passagem da universidade pretensamente humanista e mandarinesca à universidade tecnocrática, onde os critérios lucrativos da empresa privada, funcionarão para a formação das fornadas de “colarinhos brancos” rumo às usinas, escritórios e dependências ministeriais. É o mito da assessoria, do posto público, que mobiliza o diplomado universitário.

A universidade dominante reproduz-se mesmo através dos “cursos críticos”, em que o juízo professoral aparece hegemônico ante os dominados: os estudantes. Isso se realiza através de um processo que chamarei de “contaminação”. O curso catedrático e dogmático transforma-se num curso magisterial e crítico; a crítica ideológica é feita nos chamados “cursos críticos”, que desempenham a função de um tranqüilizante no meio universitário. Essa apropriação da crítica pelo mandarinato universitário, mantido o sistema de exames, a conformidade ao programa e o controle da docilidade do estudante como alvos básicos, constitui-se numa farsa, numa fábrica de boa consciência e delinqüência acadêmica, daqueles que trocam o poder da razão pela razão do poder. Por isso é necessário realizar a crítica da crítica-crítica, destruir a apropriação da crítica pelo mandarinato acadêmico. Watson demonstrou como, nas ciências humanas, as pesquisas em química molecular estão impregnadas de ideologia. Não se trata de discutir a apropriação burguesa do saber ou não-burguesa do saber, mas sim a destruição do “saber institucionalizado”, do “saber burocratizado” como único “legítimo”. A apropriação universitária (atual) do conhecimento é a concepção capitalista de saber, onde ele se constitui em capital e toma a forma nos hábitos universitários.

A universidade reproduz o modo de produção capitalista dominante não apenas pela ideologia que transmite, mas pelos servos que ela forma. Esse modo de produção determina o tipo de formação através das transformações introduzidas na escola, que coloca em relação mestres e estudantes. O mestre possui um saber inacabado e o aluno uma ignorância transitória, não há saber absoluto nem ignorância absoluta. A relação de saber não institui a diferença entre aluno e professor, a separação entre aluno e professor opera-se através de uma relação de poder simbolizada pelo sistema de exames – “esse batismo burocrático do saber”. O exame é a parte visível da seleção; a invisível é a entrevista, que cumpre as mesmas funções de “exclusão” que possui a empresa em relação ao futuro empregado. Informalmente, docilmente, ela “exclui” o candidato. Para o professor, há o currículo visível, publicações, conferências, traduções e atividade didática, e há o currículo invisível – esse de posse da chamada “informação” que possui espaço na universidade, onde o destino está em aberto e tudo é possível acontecer. É através da nomeação, da cooptação dos mais conformistas (nem sempre os mais produtivos) que a burocracia universitária reproduz o canil de professores. Os valores de submissão e conformismo, a cada instante exibidos pelos comportamentos dos professores, já constituem um sistema ideológico. Mas, em que consiste a delinqüência acadêmica?

A “delinqüência acadêmica” aparece em nossa época longe de seguir os ditames de Kant: “Ouse conhecer.” Se os estudantes procuram conhecer os espíritos audazes de nossa época é fora da universidade que irão encontrá-los. A bem da verdade, raramente a audácia caracterizou a profissão acadêmica. Os filósofos da revolução francesa se autodenominavam de “intelectuais” e não de “acadêmicos”. Isso ocorria porque a universidade mostrara-se hostil ao pensamento crítico avançado. Pela mesma razão, o projeto de Jefferson para a Universidade de Virgínia, concebida para produção de um pensamento independente da Igreja e do Estado (de caráter crítico), fora substituído por uma “universidade que mascarava a usurpação e monopólio  da riqueza, do poder”. Isso levou os estudantes da época a realizarem programas extracurriculares, onde Emerson fazia-se ouvir, já que o obscurantismo da época impedia a entrada nos prédios universitários, pois contrariavam a Igreja, o Estado e as grandes “corporações”, a que alguns intelectuais cooptados pretendem que tenham uma “alma”.[1]

Em nome do “atendimento à comunidade”, “serviço público”, a universidade tende cada vez mais à adaptação indiscriminada a quaisquer pesquisas a serviço dos interesses econômicos hegemônicos; nesse andar, a universidade brasileira oferecerá disciplinas como as existentes na metrópole (EUA): cursos de escotismo, defesa contra incêndios, economia doméstica e datilografia em nível de secretariado, pois já existe isso em Cornell, Wisconson e outros estabelecimentos legitimados. O conflito entre o técnico e o humanismo acaba em compromisso, a universidade brasileira se prepara para ser uma “multiversidade”, isto é, ensina tudo aquilo que o aluno possa pagar. A universidade, vista como prestadora de serviços, corre o risco de enquadrar-se numa “agência de poder”, especialmente após 68, com a Operação Rondon e sua aparente democratização, só nas vagas; funciona como tranqüilidade social. O assistencialismo universitário não resolve o problema da maioria da população brasileira: o problema da terra.

A universidade brasileira, nos últimos 15 anos, preparou técnicos que funcionaram como juízes e promotores, aplicando a Lei de Segurança Nacional, médicos que assinavam atestados de óbito mentirosos, zelosos professores de Educação Moral e Cívica garantindo a hegemonia da ideologia da “segurança nacional” codificada no Pentágono.

O problema significativo a ser colocado é o nível de responsabilidade social dos professores e pesquisadores universitários. A não preocupação com as finalidades sociais do conhecimento produzido se constitui em fator de “delinqüência acadêmica” ou da “traição do intelectual”. Em nome do “serviço à comunidade”, a intelectualidade universitária se tornou cúmplice do genocídio, espionagem, engano e todo tipo de corrupção dominante, quando domina a “razão do Estado” em detrimento do povo. Isso vale para aqueles que aperfeiçoam secretamente armas nucleares (M.I.T.), armas químico-biológicas (Universidade da Califórnia, Berkeley), pensadores inseridos na Rand Corporation, como aqueles que, na qualidade de intelectuais com diploma acreditativo, funcionam na censura, na aplicação da computação com fins repressivos em nosso país. Uma universidade que produz pesquisas ou cursos a quem é apto a pagá-los perde o senso da discriminação ética e da finalidade social de sua produção – é uma multiversidade que se vende no mercado ao primeiro comprador, sem averiguar o fim da encomenda, isso coberto pela ideologia da neutralidade do conhecimento e seu produto.

Já na década de 30, Frederic Lilge[2] acusava a tradição universitária alemã da neutralidade acadêmica de permitir aos universitários alemães a felicidade de um emprego permanente, escondendo a si próprios a futilidade de suas vidas e seu trabalho. Em nome da “segurança nacional”, o intelectual acadêmico despe-se de qualquer responsabilidade social quanto ao seu papel profissional, a política de “panelas” acadêmicas de corredor universitário e a publicação a qualquer preço de um texto qualquer se constituem no metro para medir o sucesso universitário. Nesse universo não cabe uma simples pergunta: o conhecimento a quem e para que serve? Enquanto este encontro de educadores, sob o signo de Paulo Freire, enfatiza a responsabilidade social do educador, da educação não confundida com inculcação, a maioria dos congressos acadêmicos serve de “mercado humano”, onde entram em contato pessoas e cargos acadêmicos a serem preenchidos, parecidos aos encontros entre gerentes de hotel, em que se trocam informações sobre inovações técnicas, revê-se velhos amigos e se estabelecem contatos comerciais.

Estritamente, o mundo da realidade concreta e sempre muito generoso com o acadêmico, pois o título acadêmico torna-se o passaporte que permite o ingresso nos escalões superiores da sociedade: a grande empresa, o grupo militar e a burocracia estatal. O problema da responsabilidade social é escamoteado, a ideologia do acadêmico é não ter nenhuma ideologia, faz fé de apolítico, isto é, serve à política do poder.

Diferentemente, constitui, um legado da filosofia racionalista do século XVIII, uma característica do “verdadeiro” conhecimento o exercício da cidadania do soberano direito de crítica questionando a autoridade, os privilégios e a tradição. O “serviço público” prestado por estes filósofos não consistia na aceitação indiscriminada de qualquer projeto, fosse destinado à melhora de colheitas, ao aperfeiçoamento do genocídio de grupos indígenas a pretexto de “emancipação” ou política de arrocho salarial que converteram o Brasil no detentor do triste “record” de primeiro país no mundo em acidentes de trabalho. Eis que a propaganda pela segurança no trabalho emitida pelas agências oficiais não substitui o aumento salarial.

O pensamento está fundamentalmente ligado à ação. Bergson sublinhava no início do século a necessidade do homem agir como homem de pensamento e pensar como homem de ação. A separação entre “fazer” e “pensar” se constitui numa das doenças que caracterizam a delinqüência acadêmica – a análise e discussão dos problemas relevantes do país constitui um ato político, constitui uma forma de ação, inerente à responsabilidade social do intelectual. A valorização do que seja um homem culto está estritamente vinculada ao seu valor na defesa de valores essenciais de cidadania, ao seu exemplo revelado não pelo seu discurso, mas por sua existência, por sua ação.

Ao analisar a “crise de consciência” dos intelectuais norte-americanos que deram o aval da “escalada” no Vietnã, Horowitz notara que a disposição que eles revelaram no planejamento do genocídio estava vinculada à sua formação, à sua capacidade de discutir meios sem nunca questionar os fins, a transformar os problemas políticos em problemas técnicos, a desprezar a consulta política, preferindo as soluções de gabinete, consumando o que definiríamos como a traição dos intelectuais. É aqui onde a indignidade do intelectual substitui a dignidade da inteligência.

Nenhum preceito ético pode substituir a prática social, a prática pedagógica.

A delinqüência acadêmica se caracteriza pela existência de estruturas de ensino onde os meios (técnicas) se tornam os fins, os fins formativos são esquecidos; a criação do conhecimento e sua reprodução cede lugar ao controle burocrático de sua produção como suprema virtude, onde “administrar” aparece como sinônimo de vigiar e punir – o professor é controlado mediante os critérios visíveis e invisíveis de nomeação; o aluno, mediante os critérios visíveis e invisíveis de exame. Isso resulta em escolas que se constituem em depósitos de alunos, como diria Lima Barreto em “Cemitério de Vivos”.

A alternativa é a criação de canais de participação real de professores, estudantes e funcionários no meio universitário, que oponham-se à esclerose burocrática da instituição.

A autogestão pedagógica teria o mérito de devolver à universidade um sentido de existência, qual seja: a definição de um aprendizado fundado numa motivação participativa e não no decorar determinados “clichês”, repetidos semestralmente nas provas que nada provam, nos exames que nada examina, mesmo porque o aluno sai da universidade com a sensação de estar mais velho, com um dado a mais: o diploma acreditativo que em si perde valor na medida em que perde sua raridade.

A participação discente não constitui um remédio mágico aos males acima apontados, porém a experiência demonstrou que a simples presença discente em colegiados é fator de sua moralização.

* Texto apresentado no I Seminário de Educação Brasileira, realizado em 1978, em Campinas-SP. Publicado em: TRAGTENBERG, M. Sobre Educação, Política e Sindicalismo. Sã Paulo: Editores Associados; Cortez, 1990, 2ª ed. (Coleção teoria e práticas sociais, vol 1)

[1] Kaysen pretende atribuir uma “alma”à corporação multinacional; esta parece não preocupar-se com tal esforço construtivo do intelectual.

[2] Frederic LILGE, The Abuse of Learning: The Failure of German University. Macmillan, New York, 1948

 


Você pode também abaixar o arquivo em pdf. Basta clicar no link abaixo:

A Delinqüência Acadêmica – Maurício Tragtenberg


CONCEITOS RETIRADOS DOS TEXTOS ABAIXO, CUJO TÍTULO E CONTEÚDO DO ORIGINAL SÃO MANTIDOS AO CLICAR NOS LINKS.

1. DELINQUÊNCIA ACADÊMICA, de Maurício Tragtemberg

2. BAGRINHOS, do texto de Alfredo Marques

3. HOMEM-DISPOSITIVO, do texto de Francisco Foot Hardman

4. FIM DA UNIVERSIDADE PÚBLICA, do texto de Marilena Chauí

5. ETHOS DE GANGUE, do texto de Luiz Felipe Pondé

6. MIKE BONGIORNO, do ensaio de Umberto Eco

7. CASTA DOS INTOCÁVEIS, da entrevista de Chico de Oliveira

8. CARTA DOS PROFESSORES DO IFCH, “O IFCH ESTÁ AGONIZANDO”