Gatinho azul da Liberdade e Luta E o poema sujo de Ferreira Gullar – e os rituais laicos “nacionais e populares” de Trotsky. (02.04.2018)

02/04/2018

(Ferreir Gullar, nascido em 10 de setembro de 1930 – Poema Sujo, publicado 1977 – conhecido desde 1975)

Há Muitas Noites na Noite, de Silvio Tendler – sobre o Poema Sujo)

um bicho que o universo fabrica

e vem sonhando desde as entranhas

Poema Sujo, Ferreira Gullar, capa da primeira edição.

Poema Sujo, Ferreira Gullar, capa da primeira edição. Editado em 1976.

azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu

319-deangle-dan-c-do-marfim-3 - Memória e Altar- coleção Rogério Cerqueira Leite

Meu comentário.

Naqueles anos me incomodava muito saber que tinha esta frase no Poema Sujo de Ferreira Gullar. Comprei o livrinho porque minha musa, meu amor platônico, era uma militante que amava este poema. Eu amava era Castro Alves, uma coisa ridícula para os padrões da Liberdade e Luta. Hoje acho o poema de Ferreira Gullar do cacete e volto a ler Castro Alves com toda a revolta dos meus 16 anos.
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São os stalinistas que vão chamar Liberdade e Luta de Libelu. Libelu era a designação

Oficina, Macumba Antropófaga, SESC-Campinas (32)

Oficina, Macumba Antropófaga, SESC-Campinas (32).JPG

para gente festeira e inconsequente. Socialismo de festa e de orgia sexual. E  da droga, apesar de os militantes da OSI, que dirigiam a tendência liberdade e Luta ,serem expulsos ou excluídos se usassem droga. E mesmo hoje, Libelu, é uma maneira de desmerecer toda a importância que teve aquele pequeno grupo por colocar no debate a necessidade de lutar pelas “Liberdades Democráticas” e depois por um Partido Operário Independente e depois pela Assembléia Constituinte Livre e Soberana. Foram propagandas que causaram impactos, apesar do grupo minúsculo que era a OSI.
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“No plano da arte gráfica é possível aprendermos com a criatividade revolucionária que a LIBELU possuía. Enquanto que os stalinistas confeccionavam cartazes com foices, martelos e figuras cinzas, assexuadas e uniformizadas, a LIBELU desenhava no centro do seu cartaz um gatinho. Abaixo da imagem do pequeno felino surgia a seguinte frase: NEM TODOS OS GATOS SÃO PARDOS. Ou seja, existe diversidade (estética, sexual étnica, filosófica, etc) e o marxismo precisa lidar de modo revolucionário com esta questão. A atitude criativa da LIBELU”

Gatinho azul da Liberdade e Luta

Gatinho azul da Liberdade e Luta.

Será possível ignorar ” o nacional e popular”? – E a vida como é que fica?

“Que opor-lhe? Opomos, é certo, às superstições em que assenta a base do ritual, a critica marxista, a relação objectiva com a natureza e as suas forças. Mas esta propaganda cientifica e critica não resolve o problema: desde logo, porque não atinge ainda, nem atingirá durante longo tempo, mais do que uma minoria de pessoas; depois, porque essa própria minoria sente a necessidade de encarecer, de elevar, de enobrecer a sua vida pessoal, pelo menos nos momentos mais importantes.”(7)

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lavadeira do abaeté -JOSÉ PANCETTI

lavadeira do abaeté -JOSÉ PANCETTI. “sem musa aqui não fico Odorico”

“Sem musa aqui não fico Odorico”
Frase atribuída da José Pancetti, quando foi para a Bahia a convite de seu amigo Odorico Tavares. Outra frase atribuída a Pancetti, que era chamado de comunista. “Partido Comunista me explora”.
As musas não morreram, a arte figurativa também não – é só olhar os muros das grandes cidades. Nem mesmo as vanguardas morreram.Mesmo a arte comtemporânea tem algo de figurativo e até utilitário.(2) Tudo ao mesmo tempo agora.
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Os rituais laicos. “O Nacional Popular” não morreu e não deve morrer.

careta de Cazumbá, Maria Mazzillo-pg.51

careta de Cazumbá, Maria Mazzillo-pg.51

Vivemos hoje o crescimento de seitas evangélicas. A maioria apoia a direita. Todas elas atacam a cultura popular do Brasil. Em particular a Umbanda que os pentencostais, maioria destas seitas, atacam. Até mesmo alguns militantes atacam a Umbanda, assentando seus argumentos num pretenso purismo do Candomblé.
O que não podemos esquecer é que grandes manifestações populares são influenciadas pela Umbanda e semelhantes. O Maracatu rural e seus cantos da jurema. Aqui a Umbanda recupera a mata e a cultura indígena.

Reisado de Caretas, por Samuel Macedo

Reisado de Caretas, por Samuel Macedo

Na festividade de reis, os caretas do Reisado, dançam cantam e principalmente contam todas a mentiras possíveis para despistar os soldados de Herodes que procuram o menino Jesus. Uma festa religiosa, com bebida, música e mentiras. E máscaras.E sobem nos telhados, gritando que “vão fazer coco” e outras frases escatológicas, para atrapalhar a reza.
“A Gente brincava cinquenta, sessenta cazumbas num terreirão bonito, todos com caretas simples…
“Na hora da reza, pra atrapalhar o rezador, a gente fazia essas estripulias. Enquanto o pessoal tava rezando a gente tava fazendo toda essa macacagem. Trepava no alto do barracão, arrancava palha, gritava que queria fazer cocô” – idem pág. 28″(10))

Artesão Abel Teixeira - Foto Neidson Moreira (O Imparcial)

Artesão Abel Teixeira – Foto Neidson Moreira (O Imparcial) (Maranhão de Amanda)

No Bumba-meu-boi do Maranhão os cazumbas, mascaradas e paramentados, também vão na contramão da normalidade. Quando estão com a máscara, pais-de-família, ou crianças e mulheres, fazem a maior algazarra, brincam com os passantes, fazem disputas entre si, fingem brigar. Ao tirarem a máscara voltam à “seriedade” e ao bom comportamento.(5)

Foto de Caetano Veloso foi publicada nas redes sociais pelo coletivo Mídia Ninja

Foto de Caetano Veloso foi publicada nas redes sociais pelo coletivo Mídia Ninja

Além do mais as máscaras podem ser reatualizadas em momentos cruciais da nossa história. E provocar debates importantes. E quem diz que não podemos e devemos burlar a democracia, este momento privilegiado de luta, mas também do exercício supremo da sociedade de controle e controladora.
“É uma violência simbólica proibir o uso de mascaras. Dia 7 de setembro, todos deveriam ir às ruas mascarados”, disse Caetano, segundo o Mídia Ninja. O coletivo jornalístico divulgou informações sobre o encontro com o compositor em suas páginas no Facebook e no Twitter.(6)
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jurema entidade de umbanda de origem indígena.(4)

Maracatu Cambinda Brasileira desfilou em sua cidade natal, Nazaré da Mata,

Maracatu Cambinda Brasileira desfilou em sua cidade natal, Nazaré da Mata-Pernabuco.

O município de Nazaré da Mata, em Pernambuco, capital do Maracatu de Baque Solto
“Dona Biu, uma das remanescentes da família fundadora, também falou sobre o que mantém a agremiação de pé. “Depois de Deus, Rei Salomão e a Jurema Sagrada”, disse referindo-se à religião predominante no maracatu de baque solto. O Cambinda Brasileira desfila na passarela oficial da cidade do Recife, nesta terça-feira (13), onde disputará o título do Carnaval 2018.”(3)
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link

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(1).MARANHÃO DE AMANDA(Não é o de Zé Sarney que seria odiável. É o Maranhao de Amanda que é amorável, amável, digno de ser amado.. Significado do Nome Amanda
Amanda: Significa “digna de amor”, “amável”, “aquela que deve ser amada”.

(2)- Parangolés e Penetráveis: a influência japonesa em Hélio Oiticica.
(3)- Maracatu Cambinda Brasileira desfilou em sua cidade natal, Nazaré da Mata, nesta segunda-feira (12)-por Paula Brasileiro
(4)- TORÉ E JUREMA: EMBLEMAS INDÍGENAS NO NORDESTE DO BRASIL – Rodrigo de Azeredo Grünewald
(5)careta de CAZUMBA (livro)
(6)- Caetano Veloso cobre rosto e divulga apoio a máscaras em protestos no RJ
(7)- Questões do Modo de Vida-Leon Trotsky
(8)- A crítica de arte hoje, Ferreira Gullar
(9)- PEDRO VERMELHO, de “UM RELATÓRIO PARA UMA ACADEMIA” , um conto de Kafka
Um grafiteiro que leu Franz Kafka.

(10)- careta de CAZUMBA (livro)-29/03/2018


Dos escombros de PAGÚ , livro de Tereza Freire. E outros apontamentos.

16/05/2012
Comprei o livro por causa de Pagú. O título me causou uma estranheza. Depois da leitura, justifica-se. O PCB, stalinista, escangalhou a vida e a possível obra de Pagú. Ela é realmente uma escombro. O livro mostra que foi um época de grande violência e de grandes escolhas. Eu que durante anos curti o mito Pagú, também saí meio arranhado. Não deveria ser novidade, para mim, que o stalinismo traz sempre consigo brutalidade e horror. CLIQUE SOBRE FOTOS E TEXTOS PARA VÊ-LOS MAIOR.

Tarsila, A NEGRA, MAC/USP, 1923. Destaco que pintava negros. E já nesta obra, buscava novas formas de expressão modernas que antecipavam seu ABAPURU de 1928.

Portinari, baile na roça, 1924. Pintura bem conservadora, parece-me. Mas registra-se, em 1924, portanto naquele ambiente que antecedeu Pagú, havia já em Portinari uma preocupação em registrar o negro. O que vai ser uma tônica de sua obra. Lembremos que ele foi sempre ligado ao PCB, partido que sempre ignorou a questão do negro. O que várias tendências de esquerda ainda faz até hoje. Centro mesmo da estratégia não é mesmo de nenhuma organização de esquerda.

Ainda Tarsila. Que em 1924 pintava o carnaval com a presença pertinente dos negros. O que parece não fazer parte da reflexão da esquerda da época. Neste livro de Tereza Freire a questão, em nenhum momento aparece. A ausência é significativa tanto lá em 1930, como fico atento pelas ausências agora. Acho que é preciso registrar a falta desta questão fundamental e explicar porque foi deixada de lado lá. E é preciso retomar as reflexões que foram feitas na ficção e nas ciências sociais. Voltando a Tarsila. E em questões formais, o quadro de Tarsila também é inovador. Pelo estilo e pelo conteúdo. Vejamos que o revolucionário em arte não se confunde com um panfleto, nem com uma confissão de intenções. Mesmo na ciência social isso pode acontecer. Casa-Grande & Senzala é um livro escrito por Gilberto Freyre, e publicado em 1 de dezembro de 1933, tido como um homem de direita, colocava no centro do debate a questão do negro, ignorada por toda a esquerda, mesmo a não stalinista; claro que a visão ideológica é a do senhor, mas o centro da reflexão é a contribuição avassaladora dos negros para toda a cultura brasileira. A pintura de Tarsila faz uma escolha pela vida, pela festa, pela alegria. Afirmar a vida é revolucionário. O compromisso com a morte é cristão, o supra-sumo do reacionário, qualquer que seja as “boas” intenções. Outros que gostam de carne morta são os burgueses que a acumulam em forma de dinheiro, para transformar em capital, para comprar mais carne barata no mercado, que segundo canta Elza Soares, é a carne negra. Que é a maioria da classe operária no Brasil. Também me chamou a atenção as figuras esguias, alongadas, lembrando a influência que tiveram as esculturas africanas na arte européia desde o início do século XX.

Di Cavalcanti , SAMBA, 1925. A presença dos negros. E a sensualidade. A vida, claro que não existe sem o desejo. Não esqueçamos que o Samba ainda não havia ganhado sua forma atual que se deu pela aparecimento do rádio e das gravações elétricas. Deu Noel Rosa e outros grandes. Curiosamente a ilustração dos versos de Raul Bopp , “coco é Pagú” que consagrou o apelido, foi feita por Di Cavalcanti. Novamente a questão. Qual os livros de ficção ou da ciência colocam, naquele período, a questão negros. Na pintura estou me surpreendendo, cada vez que vou tentando me alfabetizar. Mas cada ausência vai me deixando indignado. Não li o “Parque Industrial” e, então, não sei se Pagú ignorou a questão ou não. Seus desenhos, dos Croquis, parece não incorporar a paisagem humana da Bahia, onde foram feitos. Vou ter que ler o panfletário, no dizer dos comentaristas citados no livro, “Parque Industrial”.

1928 foi o momento que Pagú entrou em contato com Tarsila e Oswald. Visitando a Casa deles. Ou como Tereza Freire, citando Flávio de Carvalho, era vestida e penteada pelo casal. Logo depois se torna amante e mulher de Oswald.

Pagu – Di cavalcanti, para os versos de Raul Bopp,1929. Versos estes que tornaram público o apelido PAGÚ.

Capa do livro de Augusto de Campos que recolocou Pagú em circulação. Infelizmente um livro que li e não me lembro nadinha.

Saibam ser Maricons. Um enfoque claramente moralista, implicando com o modo ser dos homossexuais paulistas. O livro de Tereza Freire não toca no assunto. CLIQUE SOBRE O TEXTO PARA VÊ-LO MAIOR.

Vilar, ex-secretário Geral do PCB, em 1932, foi expulso. Um dos “argumentos” é que fora degenerado pela burguesa Eneida. Isso é fichinha perto dos crimes do Stalinismo. Mas me doeu saber que Pagú foi capaz de usar sua amizade para enganar e trair à serviço dos crimes do PCB. Ela que já se dizia desiludida depois de visitar a União Soviética e ver os burocratas vivendo em luxo e dispêndio, e ela topando com crianças maltrapilhas e esmolando pelas ruas. O camarada militar que a recebia disse que era porque “essa gente é vagabunda”. E tinha passado pela França onde, entre os surrealistas, com que militou e morou junto, havia uma viva discussão sobre o stalinismo. Não foi ingenuidade, mas servilismo. Isso que entristece. E realmente justifica o nome do livro “Dos Escombros de PAGÚ”.

O livro fala em desenho modernista. Mas vendo pinturas de Tarsila, já em 23, e mais ainda em 28, parece muito menos moderno. Ou será por ser desenho?[/captio

[caption id="attachment_2390" align="aligncenter" width="300"] No blog, de onde saiu esta tira, blog que será relacionado abaixo, diz que Pagú imitava os traços de Tarsila. Preciso conhecer um pouco dos desenho da época.

Aqui uma citação de um manifesto de Pagú, de 1950, onde ela faz um balanço das degradações que o PCB lhe impusera durante 10 anos, de 1930 a 1940. Mas, neste trecho escolhido por Tereza Freire, há mais uma queixa das exigências que o PCB lhe fizera, para usar o sexo como chamariz para pessoas de interesse do partido stalinista. Mas minha expectativa era de que Pagú mostrasse o que significa fazer o papel de espiã, como fazia a KGB, a polícia da burocracia russa. Expediente totalitário. Espero ler o “Verdade e Liberdade” e constatar que isso apenas ficou fora da citação de T. Freire.

Capa do livro de Thelma Guedes que analisa o “Parque Industrial” de Pagú. Que está citado aqui como bibliografia, pois não li. O livro de T. Freire mostra que Parque Industrial foi um livro para agradar ao PC, quando o PC a rejeitava. O panfleto também foi rejeitado pelo PCB, conforme seu segundo filho, Geraldo Galvão Ferraz.

Aqui Pagú ataca as feministas burguesas. Nelas inclui Maria Lacerda de Moura que se proclamava anarquista. Ataca suas festas e liberalidade sexual. É um ponto de vista pantanoso, pois católicos, direita radical e, infelizmente, naquela época, como hoje, gente que se diz comunista. Coitado do Engels. Inutilmente escreveu “A origem da família, propriedade e estado”. Mas ela também ataca a reivindicação de mais liberdade sexual. E, assim como os anarquistas, o direito de voto para as mulheres. Claro que a maioria das mulheres proletárias, sendo analfabetas, não votariam. A campanha com a cara operária seria agregar o direito de voto para analfabetos. Pagú militou no PCB durante 10 anos. Ela fez parte dos erros, inclusive dos mais graves, do PCB. Ela escolheu. Viajou. Viu. Mas tomou decisões equivocadas. O livro mostra bem isso e por isso chama “Dos Escombros de Pagú”. Ela pagou e fez outros pagarem alto preço por escolher o stalinismo.

ps. Na pág. 158 há uma afirmação de que a corrente Menchevique, “a princípio”, liderada por Trosty, propunha aliança com burguesia e que a corrente Bolchevique, liderada por Lenin se opunha. Isso é verdade em 1917. Mas aí Trotsky era Bochevique.
Em 1902, quando houve a cisão entre Mencheviques e Bolcheviques, o debate não era sobre aliança, mas sobre como organizar o partido da social-democracia, como chamavam. Em 1905 Trotsky, depois de ser presidente do soviet dos trabalhadores, aos 25 anos, terminada a revolução, escreve o “Resultado e Perspectivas”, propondo o que chamaria mais tarde de revolução permanente. Ou seja, nenhuma etapa, negando qualquer papel da burguesia numa revolução.E Lenin não propunha aliança com a burguesia, mas só vai concluir que ela é mesmo incapaz de qualquer iniciativa democrática em abril de 1917. E aí, Lenin e Trotsky, já no mesmo partido Bolchevique, se opõem ferozmente à política de aliança dos Mencheviques. Política de aliança com a burguesia que será sim, a política da burocracia stalinista e todos os seus partidos, principalmente a partir de 1928. O que custou derrotas e mais derrotas para o proletariado.

BLOGS CONSULTADOS:

Sendas de Bashô MAC/USP
Ensaio » Pagu: Literatura e Revolução

OS CROQUIS

LADY’S COMICS

PATRÍCIA RHEDER GALVÃO

MUSEUSEGALL

HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA

MULHERES II

SÓ PARA AJUDAR O PESSOAL DO PRÉ-VESTIBULAR

Tarsila do Amaral, Academia n. 4, 1922 – por Fernanda Pitta


JORNAL DO PORÃO N. 2

09/12/2009

28 de agosto de 2009

Ele devia ter uma apresentação. Ele teve um número zero, mesmo antes de ter nome. Não é um jornal, mas um e-mail. Não é um e-mail, pois acabo enviando-o para quem não pediu. E para não continuar sendo deselegante peço às pessoas que se sintam incomodadas, tenham um pequeno trabalho, mas me avisem para tirá-la da lista.

A primeira idéia deste Jornal do Porão era atender um repto, há anos feito, pelo meu amigo Mário Medeiros, para que eu escrevesse memórias. Resisti por anos. Sempre tinha uma desculpa diferente para não fazê-lo. E hoje, de manhã, ou de madrugada, parece que encontrei uma resposta, corri para escrever, pois à tarde posso achar outra explicação. É que sempre disse que odeio memórias, mas acho que na verdade amo demais. Exatamente porque não tenho memória. E também não acho que minha vida foi medíocre, pelo contrário, acho que tive uma vida grandiosa, desde a mais tenra idade. O que justificaria um memória. Mas hoje de manhã achei que minha relutância em escrever memória era porque gosto de contá-la em voz alta. E conto-a de maneira diferente para conforme a pessoa que está ouvindo. Sem nunca inventar, mas sempre diferente, sempre uma outra história. Como se não houvesse passado. Que o passado nem passou, pois o presente toma conta da história. E que não há futuro. E minha vida consiste em contar minhas histórias para mim e para os amigos. E que depois de escrevê-las eu não teria mais memória; e estaria matando, todas as vezes que contasse uma, um pedaço do futuro. Conclui que eu nem existo, sou uma memória que se faz presente. Então porque resolvi matar o que me mantém vivo? Já disse que quero agradar o meu amigo Mário que, além de cientista, é contista. Quem sabe ele não melhora esta minhas memórias com sua capacidade de ficção e eu possa ficar melhor na fita sem ser cabotino. Outra explicação é que talvez eu queira ir matando aos poucos o que me mantém vivo, para quando muito velho, não ter que carregar fardo muito pesado. Mas meu intuito é só entregar aos leitores, se houver, as partes mais leves, ou torná-las assim.

No número 1 do Jornal do Porão tentei ser o mais leve possível diante de uma situação que achei muito grave. Não quis fazer discursos e a gritaria que normalmente faço diante dos poderes do mundo com quem tenho um incompatibilidade de gênio. Me dei mal. A principal acusação dos sensores é que eu estava tratando problemas sérios com galhofa. Então tentei, hoje, enveredar por memórias, coisa que são só minhas, cortando as asas agourentas da realidade, e faça , realmente, um número mais leve do Jornal do Porão e me poupe também de ser convocado para mais uma passagem numa sala qualquer de admoestação.

Dos meus leitores, se houver, dos meus amigos que tenho, aceito todas as críticas e principalmente as galhofeiras. Que sério mesmo só o próximo beijo da amante e o afago dos amigos.

PRIMEIRA HISTÓRIA

Não é a primeira da minha vida, mas que para mim é muito cômica. Quereria contá-la em 10 linhas como faz Dalton Trevisan depois de 50 anos de treino em cortar, burilar as mesmas histórias. Só que, infelizmente, não terei nem 50 minutos.

Digo que meu herói sou eu mesmo. Que não quero viver, vivendo vida dos outros. Mas meu primeiro herói, nada de novo para uma criança, foi um dos irmãos mais velho dos 7 mais velhos que eu. Nasceu, acho tresloucado. Comecei a vê-lo montando burro bravo, andando em pé sobre os cavalos, toureando vaca de bezerro novo. Mas a primeira história deste meu grande herói tresloucado, desdentado e feio eu não vi, mas ouvi contar de fontes seguras – meu pai.

A professor da escola de roça, escola contígua a própria casa, com 9 aos sem receber salários – assim eram as professores da roça em Minas.
A escola tinha três séries, todas juntas, e a professora só tinha feito até a terceira série. Podia ser um heroína, mas era na verdade uma torturadora consumada. Eu vi. Ela batia e jogava a cabeça do seu próprio filho, seu aluno, na lousa até o sangue manchar o chão e verde da lousa ficar mais escuro.

Aqui a história que prometi cômica. Dona Nininha colocou, como fazia sempre, depois de espancar, colocou meu irmão de castigo no quarto de dormir dela, o mais perto da sala de aula. Quando terminou a aula vem ela aos berros puxando meu irmão pelas orelhas, para o riso, um imenso riso dos 40 diabinhos que invadiram o quarto para ver o colchão pontilhado de vários e vários montes de fezes verdes, moles e fedidas, como eram as nossas fezes em Minas, onde comíamos de tudo que topássemos, principalmente pedaços e torrões deliciosos de terra vermelha ou branca. Cada um delas com seu sabor . E cada degustador com sua preferência.

Assim como nunca serei Trotsky , nunca analisarei como Freud, nunca escreverei como Dostoievsky, nunca pude fazer esta obra revolucionária que meu herói, meu irmão, meu grande herói hoje e sempre, meu caro Zé Geraldo. Ele não acreditava em Deus, nem eu. Então, que sua natureza prevaleça nos nossos filhos.

ERRATA
11 de Setembro de 2009
No Jornal do Porão n. 2 escrevi censor com s.
Escrever censor com s é quase um elogia a eles. Eles geralmente não entendem nada. São burocratas arrecadores de impostos na Roma antiga, mas principalmente burocratas. E além do mais não têm senso algum. Cometi um trocadilho involuntário. O máximo que um censor é capaz de fazer é um censo.

Houaiss

sensor (Datação c1928)

Acepções
■ adjetivo e substantivo masculino
diz-se de ou dispositivo que responde a estímulos físicos (calórico, luminoso, sonoro, pressional, magnético, motor) e transmite um impulso (mensurável ou operante) correspondente

Etimologia
ing. sensor (c1928) ‘id.’ < lat. sensus, part.pas. de sentíre ‘perceber pelos sentidos, sentir, ter sentimento, conhecer, experimentar uma sensação ou sentimento’ + -or; ver sens- e sen(t/s)-

Homônimos
censor /ô/ (s.m.)