Revolução dos Cravos, (des)esperança.

19/06/2012

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REVOLUÇÃO DOS CRAVOS, 25 de abril de 1974

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Grând0la Vila Morena.

38 anos depois ainda quase vou ás lágrimas com esta música bem piegas que foi escolhida para deflagrar a revolução dos cravos. Curioso é como a memória dos afetos está cima de qualquer crítica ou razão.  Como é perigoso e belo acreditar que opressão está acabando.  Não que não desconfiasse de um bando de coronéis. Mas o coração dizia ao cérebro: “quem sabe?”.

E para rir de nós mesmos, pois eu não era o único a querer se enganar. A gente precisava cultivar a esperança. E para rir da gente e da Revolução dos Cravos, revolução de coronéis, a gente cantava

Quero ser como uma toupeira...

Assim mesmo. A música canta “eu vou ser como uma toupeira”. A gente sabia. Mas eu não sabia o que era Grândola. Pensava que era gôndula. Talvez misturasse portugueses com venezianos já que eram navegadores. Tudo conspirava para o “romantismo” revolucionário, assim  penso hoje, mas lá eram  mares de Camões e Fernando Pessôa, este último um moda na década de 70, com Bethânia e Caetano. E o sentimental, místico, astrólogo Fernando Pessôa, misturava-se com revolução.

Claro que fui ao google e sei que Grândola  é uma região da Portugal. Mas naqueles anos a gente não fazia revolução com google, era mimeógraofo  [até  um minuto atrás achava que se escrevia mimiógrafo, como falávamos.  E sei agora que uma marca comercial inglesa Mimeograph. E, provavelmente ninguém com menos de 40 anos sabe que aparelho é este]. Parece óbvio na letra da música,/ Grândola, vila morena/: suponho que é   uma vila de influência moura por ser morena. Nada disso eu sabia, nem procurava saber. Queria cantar e esperar e me emocionar.

Cartaz de Siné(Maurice Sinet), Sempre Fixe, 11 de maio de 1974, cf. Revista Camões. Na revista Camões, link no fim da página, tem uma reprodução grande.

A esperança cobra um preço pago com pedaços de  cérebro.  Lia 5 jornais de portugal todos os dias, de alguns não esqueço o nome como “SEMPRE FIXE”. Nunca soube o que quer dizer este título. Nem sabia de que tendência era o jornal, eu que era simpatizante do trotskismo. E até hoje achava que o jornal era semanal. Talvez as semanas esperançosas fossem mais curtas. Ainda tinha A República, Avante… Os jornais eram uma espécie de narcótico que espicaçava minha imaginação. Como um compromisso de sofrer a revolução de além mar na própria pele, como navegando num mar de letras. Acho que era mais uma festa dos sentidos do que… Recuso-me a escarnecer aquela época. Rir dela sim. Mas “Ronda”, de Caetano Veloso vai sempre me lembrar é a esquina onde comprava, semiclandestinamente, aquela montanha de jornais.

Procurei este cartaz na pelo google por horas. Este é o cartaz do Sempre Fixe da minha (des)esperança.

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Com o google à mão, hoje, 38 oito anos depois, sei o que é Sempre Fixe. Sei o que é um jornal republicano de 1910-1927. E que em 1974 teve uma segunda fase. Que tendência, em 1974, continuo sem saber. Acho que a ignorância permitia sonhar com grandes mudanças por lá.
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Me lembro também que a música de Chico Buarque de Hollanda, “Tanto mar”, proibida no momento da revolução, composta em homenagem à Revolução dos cravos, quando lançada era de uma lamento só, pelos sonhos quem foram pró brejo.

tanto mar, Chico Buarque de Hollanda

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links

01 . Jornais portugueses fundados a partir de 1974
02.Revista Camões : 25 anos da revolução de abril.

03. Blog fonte da capa do Sempre fixe

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