ANJO NEGRO, Nelson Rodrigues.

22/08/2012

Anjo Negro, Nelson Rodrigues-1948-Orlando Guy-Nicette Bruno. FUNARTE: Brasil , Memória das Artes. http://www.funarte.gov.br/brasilmemoriadasartes/imagens/imagens-fotos/page/119/.

 

Um resumo muito bom sobre “Anjo Negro”

“O que, na peça, é fadado ao silêncio? O que não pode ser mostrado e, ao mesmo tempo, é explicitado no texto? Nelson aponta para a problemática racial em que, certamente, se articulam os subsídios para uma teoria social do Brasil, onde se destaca a violência como fator de base dos fundamentos estruturais do modelo étnico-social brasileiro. A peça explicita a vivência de amor/ódio num casal inter-racial e a ambigüidade diante de sua linhagem mestiça. O estilo poético-realista de Nelson Rodrigues revela, de maneira perturbadora, temas adormecidos no inconsciente. Ele revolve esse universo profundo do espectador trazendo à consciência o recalcado e utiliza-se da tragédia para falar do racismo. Assim, remete-nos ao drama grego: a tragédia, pois somente o trágico daria conta de desvendar essa realidade brasileira relegada às trevas – o racismo. Algo da ordem do trágico, tal qual é explicitado no drama grego, pode estar muito próximo de nós, se considerarmos que, enquanto humanos, vivenciamos as emoções que o perpassam.”  Resumo Comentado:

  Liliane Negrão Pinto, Mestranda (Instituto de Estudos da Linguagem), UNICAMP |Eliana Maria Delfino, José Tiago Reis Filho, Sílvia Regina Gomes Foscarini, Wanda Avelino – Círculo Psicanalítico de Minas Gerais | Seleste Michels da Rosa, formada em Letras (UFRGS), especialista em Literatura Brasileira (PUCRS) e mestranda em Literatura Brasileira (UFRGS)

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” O autor, em várias ocasiões, afirma ter escrito o personagem para seu amigo Abdias representar, pois, segundo ele, era o “único negro do Brasil”.” em “Resumos Comentados: Anjo Negro de Nelson Rodrigues”

” A singularidade Ismael contrasta com a grande galeria de homens e mulheres rodriguianos, onde, em determinado momento da ação, os personagens retiram as máscaras e se apresentam, inesperadamente, na mais completa nudez psíquica.” Idem
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UM NEGRO COMO PROTAGONISTA DE UMA PEÇA EM 1948.

Diz Ruy Castro, em documentário do SESI, que Nelson Rodrigues ficou muito frustrado de ter que aceitar um ator não negro, maquiado, fazer o papel de Ismael, o médico negro da peça.  Orlando Guy foi escalado para que a censura do Ministério da justiça liberasse a peça –  que havia sido interditada.

“Orlando Guy fará o marido preto. O argumento de que não é negro retinto não é válido. Considerado o caso de um estrito e honesto ponto de vista teatral – o único que importa – basta, que sua discreta maquilage e seu desempenho dramático dêem a ilusão do “negro Ismael”. E não teremos direito à menor restrição. E se Ziembinski o escolheu entre muitos que se candidataram ao papel deve-se a que o tipo de Orlando Guy era o único que correspondia à concepção do tipo X que o ensaiador polonês exigia.”, Nelson Rodrigues, para o Correio da Manhã de 02/04/1948, dia da estréia da peça.

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O ODOR E O NOJO: o racista é movido a paixão e violência.

“Reflexões sobre o Racismo”, por Jean-Paul Sartre

Fui à  leitura no SESI/Campinas e  fiz a leitura caseira do texto, sob a influência de Sartre, pois é um influência de mais de 40 anos  de “Reflexão dobre o Racismo”. O livro da Difusão Européia do Livro tem dois textos, o primeiro sobre o anti-semitismo e o segundo sobre o racismo contra os negros. Mas o texto sob cujo olhar vejo a questão racial é, particularmente, o primeiro, o texto que estuda o anti-semitismo. É um texto que vai elencando absurdo trás absurdos, risíveis incoerências das falas dos racistas anti-semitas. Mostrando a irracionalidade completa. É pura paixão e violência.  Usando aqui a terminologia de Sartre, o anti-semita é um ser inautêntico.

No resumo citado acima, e é um resumo, falta uma coisa essencial que está bem chamativo no texto de Nelson Rodrigues que a repulsa da mulher branca ao cheiro e ao suor do negro. Esta invenção odiosa vai ser um dos temas mais agudos da análise de Sartre. A repulso ao judeu pelo seu pretenso cheiro.

Em Sartre, também em Anjo Negro, mas mais central ainda em Sartre,  esta repulsa se traduz em atração para a violência e a curra. As judias serão sempre curradas por anti-semitas.  No texto de Nelson Rodrigues a curra é narrada e o autor não propõe que seja encenada.  O que me leva a pensar que funciona como funcionam as estatísticas.  Acho que encenar é superior  narrar, assim como narrar é mais humanizador do que um levantamento estatístico.

O texto de Sartre analisa dezenas de situações do racismo. Mas acho esta questão odor, ou do cheiro, uma das questões mais profundas, sempre presente nos xingamentos e calúnias, mas, durantes décadas,  só pude encontrar  no texto de Sartre. Mas se trata de  um texto filosófico e tem um frieza insuperável.  No teatro seria diferente. Durante muitos anos fiquei pensando se seria mesmo possível  estar no teatro, vivenciando portanto e não apenas lendo ou ouvindo, frases explicitamente racistas. Vê-se isso em novelas da globo, mas são racistas caricatos. Em Nelson Rodrigues são personagens completos, do mundo aceito e vencedor. O personagem principal é um médico bem sucedido e sua mulher,  extremada racista,  pertence a este mundo  oficial , bem sucedido mundo  e invejado mundo.

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OS FILÓSOFOS: Não têm nariz, negam o corpo, ineptos para a vida.

“A Arte de Ter Prazer – Por um Materialismo Hedonista, por Michel Onfray

Mas há um texto que li nos últimos 5 anos,  para mim mais direto e arrasador.  Um ataque aos próprios filósofos. Os filósofos não têm olfato, paladar ou tato. A exceção dos pré-socráticos, tendo Demócrito o filósofo do nariz,  que coloca no centro da sua percepção.  Dos modernos, Nietzsche, que vai devolver o corpo ao homem. Kant, por exemplo,  vai banir o olfato da filosofia.

Frases de Michel Onfray

“A antiguidade apreciava os perfumes: nos banquetes ofereciam-se aos convivas guirlandas de flores diversas”. p. 111

“Entre os filósofos, o perfume não tem boa reputação: é associado ao luxo, à devassidão, à depravação”. p. 111

“o luxo dos odores da Ásia(…) era tido como suspeito pelo helenismo clássico”. p. 112

“O ódio ao corpo é acompanhado por um ódio tenaz ao olfato. O nariz concentra as aversões e as paixões como um revelador”. p. 112

“Assim veremos alguns filósofos dos mais sérios recorrerem ao olfato…elegem  esse sentido, entre cinco, pra apenas dizer suas repugnâncias: analisará o odor dos negros e tentará compreender por que tal fedor(!), outro se gabará de distinguir o Foetor Judaicus  – o fedor judeu -, um terceiro descreverá com uma complacência afetada o odor dos pobres…”. p. 112

Nietzsche colocou o nariz no centro das suas investigações e transformou o odor numa metáfora sobre a vida. Instinto, em Nietzsche, uma qualidade que tinha que ser defendida e restabelecida, se confundia com o odor, assim como a ruminância.

Mas os mesmos filósofos que baniram o olfato da filosofia vão ser os que usarão o olfato para caluniar os corpos dos que lhes eram diferentes. Numa incoerência tão evidente que beira à estupidez.

Kant que banira o olfato do seu sistema filosófico é com o nariz que vai julgar os negros. “O odor forte dos negros, que nenhum cuidado de limpeza consegue dissipar, permite supor que sua pele elimina  se seu sangue uma grande quantidade de flogístico…”. Miche Onfray diz que Kant lança mão de um emaranhado de hipóteses mais ou menos fantasiosas, lugares comuns mais banais, para assentar sua visão sobre o tal odor do negro. Sem nunca ter visto um negro sequer. ver p. 138

Schopenhauer:  “O bom Deus, prevendo em sua sabedoria que seu povo eleito se dispersaria pelo mundo inteiro, deu a todos os seus membros um odor específico que lhes permitissem reconhecer-se e encontrar-se por toda parte, é o Foetor Judaicus”.  M. Onfray comenta: “O fedor é portanto um toque de reunião, um código”.

Marx descreve a multidão de agentes de câmbio num escritório de Amsterdã nos seguintes termos( em O Capital): “A linguagem falada cheira fortemente a Babel, e aliás, o perfume que invade o recinto não é dos mais refinados”.  M. Onfray: “O judeu portanto, é infecto, nauseabundo e fétido”.p. 149

Depois dos filósofos vem os santos. Os santos  cheiram bem.  O diabo sempre cheira mal. Isabel, um santa católica, que gostava dor rolar na lama, viver com os porcos… dela diz a hagiografia: “É evidente que ela possuía uma grande pureza e uma grande inocência, como prova a exalação do seu corpo. Por ter brilhado na vida de toda inocência e castidade, seu corpo exalou na morte um odor delicioso”. … “Os gnósticos atribuíram a Cristo um existência sem defecção…. E Teresa de Liseux dá a receita para acompanhar Cristo na sua subida aos céus: é só acompanhar o rastro do seu perfume. p. 154-155

Sartre: Michel Onfray questiona o próprio Sartre que, em viagem à Itália, fala em termos depreciativos dos napolitanos, inclusive destacando a questão dos odores e aparência destes. E em suas cartas da Itália ignorar o fascismo; isso em 1936.

Filósofos, deste a antiguidade clássica na Grécia. Cristãos.  Vão atribuir ao bem um cheiro agradável e mal odores fétidos. E este capítulo do livro de Michel Onfray mostra a tradição milenar do racismo e da exclusão. Na filosofia e na religião. São formas de pensamento que destronam e detratam o nariz porque não conseguem aceitar a vida.  Desprezam o nariz porque desprezam a vida. E desprezam tudo que é diferente, pois a vida é formada de formas e corpos diferentes.

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A CIÊNCIA LEGITIMADORA DO RACISMO.

A Falsa Medida do Homem, de Stephen Jay Gould

Mas há um outro grande livro para nos armar contra o racismo que impregnou a filosofia e depois as chamadas ciências biológicas. “A Falsa Medida do Homem”. Stephen Jay Gould, vai mostrar como as ciências, durante décadas, falsificou dados, manipulou resultados, para provar inferioridade de povos e o que, naquela época, denominavam de raças.

Não esqueçamos que a escravidão negra foi aceita e promovida pelo cristianismo católico e protestante. Que o extermínio dos índios foi feito por cristãos. Que o colonialismo , extermínio e dominação do povos e nações foi feito –  e ainda é –  por nações ditas cristãs, sem condenação, ou apenas com tímidas reprovações, bem retóricas.

Se  grande partes destes filósofos vão dirigir seus ataques raciais,  preferencialmente,  ao odor insuportável, ou animalesco, das vítimas de seu racismo, cientistas de muitas áreas vão fazer um ataque concentrado a vários aspectos do homem. Vão criar teorias. Falsificar medidas. Criar infames testes para mostrar inferioridade de todos aqueles que não fossem brancos europeus. Em muitos casos seriam os alemães os superiores. Há um episódio que beira ao mais insano ridículo. Testes nos EUA chegaram ao resultado de que mais de 80 por cento dos estadunidenses teriam deficiência mental. E Stephen Jay Gould alerta. Estes testes, mais ou menos modificados, são usados até hoje em escolas. E outra curiosidade para a história. Grande parte destas teorias e cronometrias para escalonar raças nasceram, ou prosperaram,  nos EUA e não na Alemanha , como comumente se pensa.

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A filha, cegada depois de fixar atentamente o pai negro,  vai “chamar” negros de branco e o que ela chama de brancos são os negros. Acho genial esta simples inversão para mostrar o absurdo do racismo,  já que tudo não passa de convenção, de um nome

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A nova Vanguarda: o teatro sem público. foto do Teatro do IA-Unicamp

 

Campinas, cidade de milhares de universitários, milhares de professores universitários, com a segunda universidade de São Paulo e uma das maiores do país, com uma classe média arrogante e metida a besta, faz um leitura dramática para comemorar os 100 anos de Nelson Rodrigues. Melhor que nada!!!

Campinas de mais de um milhão de habitantes. Tem este Teatro do SESI. Outro do SESC. Ou seja, mantidos pela comércio e pela indústria. Conheço mais dois pequenos teatros de grupos. Na Unicamp constroem um imenso teatro, dentro do campus, para que alunos apresentem suas peças para eles mesmos. De costas para a população, como fica toda a Unicamp, excetuando-se o HC, parasitando a cidade, terão um Teatro contra toda a tradição histórica do teatro que nasceu em praça pública, em arenas; ou como Shakespeare, em zona portuária e de meretrício. Com a Unicamp, para os filhos diletos da burguesia apreciarem a si mesmo, a aplaudirem a si mesmo. Que humanidade apresentarão neste teatro?

Uma  leitura dramática. Melhor ouvir o texto que apenas lê-lo em casa. As falas ditas por atores já se aproxima um pouco do teatro, um teatro falado. As tragédias gregas, em versos, eram declamadas pelos atores.
Mas seguindo o roteiro de texto de Sábato Magaldi (link) ali faltava o encenador que é que realmente responde pelo teatro contemporâneo. Falta o cenógrafo que o grande condutor do teatro brasileiro revolucionário, como em Vestido de Noiva, com cenário de …. Acrescento aqui que em 1946, Anjo Negro teve cenário de Portinari (ver entrevista de Abdias Nascimento, no final da página).
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Palavras de Nelson Rodrigues sobre teatro:

a pretexto da estreia de Senhoras dos Afogados, em 1954:

” O que caracteriza uma peça trágica é, justamente, o poder de crear a vida e não imitá-la. Isso a que chamamos “vida” é o que se apresenta no palco e não a que vivemos cá fora. Evidentemente excluo, daqui, as peças digestivas…”

“O personagem do palco é mil vezes mais real, mais denso e, numa palavra ‘mais homem’ que cada um dos expectores”.

“…Ponha-se do lado de certa senhora na platéia. Perceberemos, então, que a expectadora de carne e osso não vive realmente, imita apenas a vida, Finge que é mulher, finge que é creatura humana e continua fingindo até no leito conjugal…”.

“Não sou pornográfico. Pelo contrário, me chamo de moralista. O único lugar onde o homem sofre e paga pelos pecados é em minhas peças.” Revista Brasilis[frases]

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“O personagem do palco é mil vezes mais real, mais denso e, numa palavra ‘mais homem’ que cada um dos expectores”.

Essa frase de Nelson Rodrigues diz que não é possível discutir a vida sem teatro. Que em Campinas não há vida. Que é ilusão toda acúmulo de teses, dissertações e estatísticas. Precisamos de teatro. Quem reivindica isso? Há candidatos que se dizem de esquerda nestas eleições. Começaram já as arengas. Alguém defende teatros na Cidade de Campinas? Duvido!!!

“Antunes Filho, ao realizar, em 1981, Nelson Rodrigues o eterno retorno, sintetizou a sua visão do universo do dramaturgo também em quatro textos: Álbum de família, Os sete gatinhos, Beijo no asfalto e Toda nudez será castigada, reduzindo-o, depois, em Nelson 2 Rodrigues, a Álbum de família e Toda nudez será castigada.”. link.

Que lástima! Depois de tudo isso olhar em volta e ver que Campinas não tem teatro. E não há perspectiva alguma. Nem um simples rumor.

Aprendi a adorar Nelson Rodrigues no “Beijo no Asfalto”, em “Toda Nudez será Castigada”, o filme de Jabour, “Na vida como ela é”, da Globo, no filme “Bonitinha, mas ordinária”. Mas parece que nunca saberei o que Antunes Filho fala por aí:  que Nelson Rodrigues é o maior dramaturgo do Brasil. Só dá para conhecer um dramaturgo se ele for encenado, acho.   Desde o modernismo, passando pela antropofagia, oswaldiana, até a tropicália, há um anseio profundo de quebrar o isolamento cultural do Brasil, condenado, inclusive, pela barreira da língua minoritária. Mas ser condenado a ignorar o próprio Brasil.  Ter em perto um universidade que pratica  e é ciosa na defesa do seu isolamento. Nossos jovens intelectuais se formam para serem europeus de segunda e brasileiros de quinta.

O teatro privado dos estudantes de arte da Unicamp deveria ser público

E para começar a sonhar haveria de ter um movimento [que não vai ter] para que o Teatro da Unicamp fosse construído no centro de Campinas, perto da catedral, talvez no mesmo lugar onde o antigo teatro foi derrubado e hoje é uma Praça cimentada, com barraca de salgadinhos: um anti-praça.  Ou na antiga rodoviária, hoje um imenso buraco abandonado. Este buraco é uma metáfora explicativa para Campinas.

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links

01. Texto da Peça, Anjo Negro, de Nelson Rodrigues

02. Artigos e fotos da época. Várias encenações. Anjo Negro também.
03. Tendências contemporâneas do teatro brasileiro, Sábato Magaldi

04. Revista Brasilis: Amigos e intelectuais relembram Nelson Rodrigues
05. FUNARTE: Memória das Artes [fotos de montagens de peças de Nelson Rodrigues
06. Bate-papo em torno da obra de Nelson Rodrigues [Funarte]

07. Correio da Manhã, sobre estréia de Anjo Negro 02/04/1948

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Documentário: Abdias Nascimento

Entrevista. Fala dos cenários de Portinari para Anjo Negro.

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Algumas frases publicas pela revista Brasilis

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o1. Teatro sem público: deve ser a grande sacada da vanguarda da Unicamp

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GIACOMETTI por SARTRE

08/06/2012

Capa do livro Alberto Giacometti, textos de Jean-Paul Sartre, Ed. Martins Fontes.

foto da contracapa do livro Alberto Giacometti textos de Jean-Paul Sartre, ed. Martins fontes, 2012
“Não é preciso olhar por muito tempo o rosto antediluviano de Giacometti paa adivinhar seu orgulho e sua vontade de se situar no começo do mundo”. Sartre, A busca do Absoluto.

ALBERTO GIACOMETTI textos de JEAN-PAUL SARTRE

biblioteca Mário 000.005

Li o livro duas vezes. E aqui vou fazer uma leitura dos fragmentos. Como diz a introdção de Célia Euvaldo: “alguns dos mais belos textos sobre arte moderna foram escritos sobre a obra de Alberto Giacometti…, entre os quais os dois ensaios de Jean-Paul Sartre aqui apresentados”. p.7. Estou apostando em o “Ateliê de Giacometti”, de Jean Genet. É uma loa rasgada a Giacometti. Além de um prosa, quase “prosa porosa”, há várias referências filosóficas, de Hegel, Kant. E achei identificar várias referências, sem citação, de Nietzsche. ………………………………………………………………………………………………………………………………………………………….

SARTRE: AS PALAVRAS E O PERSONAGEM MARCEL

Da introdução de Célia Euvaldo.
É só clicar sobre as fotos para vê-las em tamanho maior e legíveis.

As-Palavras-Jean-Paul-Sartre, fonte google.
É a capa do meu exemplar. Ao contrário de amigos jovens, adoro capas de discos, de livros. Morrerei com meus discos e livros. Com toda esta inutilidade que acumulo.

Durante a década de 70 e 80 li e reli este texto que achava a maravilha de Sartre e a o estado de arte da autobiografia. Além de me ver no texto por ter também uma mãe bonita e assediada sexualmente. E um livro com frases maravilhosas como “não tive pai, não tive superego”. Faço estas referências usando minhas curta e traiçoeira memória. Não consegui achar o livro na minha abarrotada, desorganizada, empoeirada e cheia da livros B dos sebos, estante. Personagem é invenção. Sartre mesmo mostra que a obra de Giacometti é pura invenção da imaginação. No entanto a personagem Marcel de As Palavras vai causar tal ruptura entre Sartre e Giacometti. Incomoda e atrai esta fúria entre criadores. E o efeito que pode causar uma personagem de ficcção. Me lembro sempre que Jean-Claude Bernadett dedicou um livro de crítica de cinema a Antônio das Mortes, de Glauber Rocha. Dizem que é o único livro dedicado a uma personagem. …………………………………………………………………………………………………………………………………………..

página 13.

O ROSTO DE GIACOMETTI

“Só não julga pela aparência quem não sabe julgar”. É uma frase que vem, dizem, com a chancela de Oscar Wilde. Na extrema juventude da natureza e do homem não existe o belo e feio. Dezenas de estudantes de arte da Unicamp foram a uma assembléia de funcionários da Unicamp dizer que os atos públicos eram barulhentos e feios. Alguns deles vestiam camisetas com a estampa FEIA, do Festival do Instituto de Arte/Unicamp. Nem se deram conta.

fonte: Giacometti, Cosacnaify

pág. 16

Devemos cair no abismo de olhos abertos, foi assim que li Nietzsche. Onde? Tem uma amiga universitária que sempre quer saber onde li as coisas. Mas não leio para citar nem para guardar, mas para viver. Todo escrito só vale a pena se for escrito com sangue. Deve ser de Nietzsche também. ……………………………………………………………………………………………………………………………………….

pág. 17.

Capa do livro de Marcelino Freire, BaléRalé, Ateliê Editorial.
A referência da orelha do livro é: Os homens de Weerding, são chamados de “o casal gay mais antigo da Holanda”. Acerv Drents Museum

Fotomontagem: capa do livro BaléRalé e foto do livro Giacometti, da Cosacnaify.

ATAQUE AO INDIVIDUALISMO, APOLOGIA AO ASCETICISMO, em Sartre

Sartre discute se é uma visão de campos de concentração. Via Giacometti como um detrator do homem. Ainda vejo quando não vejo erotismo nem sexualidade. Sartre escreve também sobre Giacometti e as mulheres inatingíveis. Por acaso peguei no meu amontado de livro o BléRalé, de Marcelino Freire, ed. AE; e não canso de olhar para as duas múmias que não são nada mais que um objeto, sem arte, sem artista. Mas o homem abstrato, geral, também está ali. Mas me preocupa da redução de Sartre faz da arte apenas como representação deste homem geral, como um contraponto, ou mesmo ataque indiscriminado ao individualismo. E pode ir fácil ao ataque á própria arte que depende da liberdade individual ampla e irrestrita. Neste post cito um texto seu de 1948, mesmo ano do texto principal do livro em foco, que ataca o sonho, em arte, como traição do proletariado. Nietzsche foi o único filósofo que tinha pinto e nariz. Parece que as esculturas de Rodin e Degas tem sexo e dançam.Só acreditaria num deus se ele dançasse. Há também as eculturas e máscaras africanas, onde há o homem e não a figura do chefe (há algumas). Mas em geral são esculturas que traduzem uma visão do homem diante do mundo, dos ancestrais e dos deuses. Com grande valor estético e humano. Mas, parece-me, não invalidam as buscas “individualistas” da arte moderna e contemporânea.

Há bastração, deformações, alongamentos, desproporções, tudo em em busca de uma expressão, na arte africana. Mas suas máscaras alongadas e deformadas também são feitas para a dança. Suas deformações são para defender a vida contra a doença e a morte numa luta contra os próprios espíritos ancestrais. Ou há as esculturas de sexo com animais na Grécia que narram aquele homem e o homem de hoje com seu amor profundo pelos animais. E toda arte erótica de Picasso. Há o humano dilacerado que tomou a arte do século XX, mas não acho que é a única possibilidade do homem. Entre a vida e o abismo da morte , da violência e de Deus, há ainda a vida.

Há em Sartre uma apologia ao asceticismo da vida de Giacometti, asceticismo que teria invadido sua arte.

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REFLEXÕES SOBRE A ARTE AFRICANA

Sartre, Reflexões sobre o racismo, capa, Difusão Europeia do Livro.
“Se o proletariado branco raramente usa a linguagem poética para flar de seus sofrimentos…Ao mesmo tempo, a fase atual de seu combate exige, de sua parte, uma ação contínua e positiva: cálculo político, previsões exatas, disciplina, organização de massas; o sonho, no caso, seria traição.”. p. 92. “Entretanto se tais poemas nos dão vergonha…Aos negros é que estes negros se dirigem…porque é necessariamente através de uma experiência poética que o negro, na situação presente, deve primeiro tomar consciência de si mesmo…”p.91-92

Curiosamente, Sartre não aborda a questão das esculturas e máscaras africanas, também da oceania, que foram influências dominantes em Alberto Giacometti. Tem até uma fase chamada africana. Sartre escreveu um texto, Orfeu Negro, em 1948. Está então atento à questão da arte africana. Além do mais Picasso, Blaque, Brancusi e uma gama imensa de artistas vão ser influenciados por ela num período longo que vai do início do século até 1930. E Giacometti será, inclusive, tardiamente influenciado, lá pelo anos de 1927. Influência que permaneceu até o fim da vida. E parece-me que Giacometti foi amigo de Marcel Griaule, grande estudioso da civilização Dogon, de Mali, que em 1947 publicou livro fundamental sobre esta civilização, “Dieu d’eau”, primeira edição de 1947. E para ainda falar das esculturas e máscaras africanas, cito Roger Bastide que devo reler, já que foi de grande impacto, para mim, na década de 70. E parece que vai ser agora, quando relido. “Mas é preciso mostrar ianda que esses cultos não são um tecido de supertiçoes, que, pelo contrário, subtendem um cosmologia, uma psicologia e uma deodicéia; enfim, que o pensamento africano é um pensamento culto”. Pg. 24, Roger Bastide, O candomblé da Bahia, Cia. Das Letras,2001. Este texto, escrito em 1948, é aqui citado pelo motivo de Sartre deixar de lado a questão da fase (melhor ainda, permanência) africana em Giacometti. Cito também por ser de 1948, pois o texto principal de “Alberto Giacometti, textos de Jean-Paul Sartre, Ed. Martins Fontes, traz, “A Busca do Absoluto”, datado de 1948. E, relendo este “Orfeu Negro”, também de 1948 que tanto amei, reli e conversei sobre, chego até horror a certas passagens. Que o proletariado deve ser técnico e não pode ter sonhos e se os tivesse seria traição. Ou que a poesia negra, em língua francesa, seria a única arte revolucionária naquele momento. Absolve certa poesia de má qualidade em nome de uma ideologia e condena o proletariado a aridez totalitária

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O conceito de aparência é fundamental na discussão de arte de Nietzsche, assim como na sua filosofia que, jamais, é desassociada da arte. Pelo menos de ouvir falar, esta questão da aparência e da essência é uma discussão do existencialismo. E nesta citação há acordo com Nietzsche: a aparência é fundamental. …………………………………………………………………………………………………………………………………………….

“Alberto Giacometti”, textos de Sartre.
Impõe-se mais uma citação para remeter à arte africana. Esta cabeça distante e corpo próximo vai lembrar as bonecas da civilização Dogon.

Boneca DOGON, Mali.

FASE AFRICANA DE GIACOMETTI

A influência da arte africana em Giacometti eu pretendo fazer um post inteiro sobre a questão. Aqui apenas para ilustrar que Sartre deixou de abordar a questão em conceitos que, parece-me, estão presentes, ou mesmo são oriundos das civilizações africanas. ……………………………………………………………………………………………………………………………………………….

Desenho de Sartre, ilustração do livro.

Sartre, por Giacometti, ilustração do livro “Alberto Giacometti”, textos de Jean-Paul Sartre.

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Foto do caríssimo livro/catálogo da exposição. “Giacometti”, ed. Cosac & Naify

EXPOSIÇÃO NA PINACOTECA DO ESTADO DE SÃO PAULO.

Alberto Giacometti, homem caminhando, Gogole

Em Sartre, a palavra mais emblemática do seu texto, falando de Giacometti, é DESOLAÇÃO. Por dois dias, em longas horas na Pinacoteca, anotando todas as obras ali expostas, e sem ter lido os textos de Sartre, a palavra que mais usei foi DESOLAÇÃO. E foi a palavra para todas as pinturas. Mas aqui comecei a falar em destruição e morte. Chamou minha atenção que, Sartre, de passagem fala que a obra de Giacometti não se confunde com visões de campo de concentração. Mas seus dois textos, de 1948 e o outro, sobre a pintura, de 1954, não tem qualquer referência à segunda guerra e nem à primeira. Sartre não aborda e nem nega esta influência.

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O Ateliê de Giacometti, de Jean Genet, contracapa. Ed. Cosac & Naify

JEAN GENET, O Ateliê de Giacometti

Comecei a ler o texto de Jean Genet e parei no primeiro parágrafo, para poder terminar este aqui. A palavra chave de Jean Genet é morte.