O Milagre da Pintura, Rubem Braga

28/08/2012

Almada Negreiros, HOMENAGEM A LUCCA SIGNORELLI(1942).

Este braço levantado é o mesmo gesto a que volto, procuro e desgraçadamente achei em carne. Tudo poderia ser apenas uma pintura. Mas, para minha alegria dor e muito desespero, fotografei estes braços e um corpo parecido de uma mulher tão sedutora quanto. E olha para a pintura e olho para a foto. Como pode me acontecer tal mágica. E tal flagelo. Como a pintura e a vida podem conspirar para religar-nos à vida, à paixão mais juvenil e inatingível, como nos meus nove anos perdidamente apaixonado pela minha professora. A mesma paixão avassaladora e ridícula. A mesma distância. A mesma insensatez.
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Erik Satie é um compositor irreverente, quase satírico, compromissado com o riso. Que dessacralizou a música clássica, misturando Ragtime, Jazz e Can-can. No entanto pus aqui um “Jour Triste”.

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O quadro, a menina da minha cidade ficam cada vez mais nítidos, mais obsessivos, mais fundidos. A professorinha é uma nebulosa, como são muitos quadros, cuja nitidez foi embora, mas impõem, avassaladoramente, sua presença. Aqui também a pouca nitidez das feições impõe a ditadura do gesto que nocauteia. E permite esta fusão entre ficção e realidade. E tudo vira ficção pela força desta mesma fusão. E nesta alegria tão triste que amei, clandestinamente até agora,e ainda amo, este ridículo. E tive que confessá-lo aqui, talvez para suportá-lo, já que o tempo não meu deu qualquer refresco. Voltar a folhear os livros de reproduções, momentaneamente, dá para distinguir entre quadro e foto. E dá para escapar, momentaneamente, desta ficção mais potente que qualquer realidade. Sempre contraditei, monologando, Elis Regina quando cantava que “viver é melhor que sonhar”. Tudo bem, pode ser melhor para suportar a vida. Mas quem desgoverna é o sonho.
Eu não sei qual distância é maior. Um velho amar a menina da sua cidade, ou ficar velho, anos pós anos, amando o mesmo gesto e o mesmo corpo numa pintura azul, amarela, magenta e verde. Tão irreal quanto os amores absurdos. E tão inescapável. Concordo que é tolice. Coisa de Dom Quixote, ou uma Beatriz de Dante que ele só viu, uma vez, na janela e amou até a eternidade. Amo também os amores juvenis e tolos de Romeu e Julieta. Vê-se que é um caso perdido.

Almada Negreiros é um vanguardista português do início do século XX. Mas eu tinha vergonha de amar tão sexualmente uma pintura. E minha sentia retrógrado em amar um quadro não muito vanguardista de um pintor de vanguarda.
Deu vontade de cair na gandaia. Beber, fumar, vícios que não tenho. E me lembrei da crônica de Rubem Braga, O Mistério da Pintura. Reli e sabia que ia aumentar minha angústia.
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Biblioteca Mário, I-010.001. Rubem Braga.

“Deixo-me o quadro com inocência, recebo a sua revelação virgem como se fosse um bela desconhecida, que apenas achamos digna e triste, ou leve e tímida, sem sequer poder dizer a forma do seu nariz ou a cor de seus cabelos”.

“…é a pintura que me apazigua e me faz sonhar. Sou, entretanto, um viciado quase grosseiro…”

E de repente tenho pena de tantos pintores que se agarram a teorias e escolas, do concretista apaixonado ou apenas acompanhador da moda que se proíbe a delícia que lhe poderia causar uma figura ou uma paisagem, do neo-realista para quem fica sendo um pecado gostar de uma composição abstrata – de todos os que amputam, por causa de teorias do momento, de paixões estranhas à arte, à própria sensibilidade e limitam sua alegria íntima nesse mundo maravilhoso da pintura. Mundo maravilhoso do qual sempre voltamos com um respeito maior pela dignidade humana, um respeito por esta pobre coisa, o indivíduo que permanece fiel a si mesmo e procura contar sua tristeza, sua maravilha ou sua ânsia de infinito”. Rubem Braga, Um Cartão de Paris, Ed. Record.
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