Cláudio Assis, Zé Celso com cachaça e Cerveja.

19/08/2012

Zé Celso disse certa vez na Unicamp, vinho deixa leve, cachaça não que deixa a gente muito pesado.

Febre do Rato, Cládio de Assis

PASSIONE. Diabos. Não ouvi a trilha sonora do filme. Nem me lembrei qual, quando li que foi premiada. Vila Brasilândia, década de 70, Odair José, caipirinha, “farmácia”. Sexo com putas. E sonhos de sair. No filme ninguém quer sair dali. Depois da assassinato do poeta  pela polícia, não há nenhum protesto, apenas  a vida continua,  a mesma. A utopia é a festa cotidiana. Dos dois  mirabolantes poetas, o de Febre do Rato, de quem nem lembro o nome, sempre chamado pelos amigos apenas de poeta,  é mais verossímil que Paulo Martins, de Terra em Transe.

Terra em Transe, Paulo Martins

Com o contraditório e dilacerado Paulo Martins morre a utopia política e revolucionária. Com o poeta da Febre do Rato é a vida que continua e vale a pena. É um elogio escancarado da vida como ela é na periferia, com um pouco de orgia e com alguma pitada de poesia.

O poeta Anarquista, nem mesmo fala de anarquismo, não ataca nenhum governo, pai ou patrão. O filme sim mata figura do pai. Não existe nenhum personagem pai. Não há família, pois não há crianças. E a maior febre do rato é procriar adoidado. O poeta apenas quer viver e gozar. E cantar a vida.  A morte dele não é menos política que de Paulo Martins. Ao contrário é mais brutal. E é feita em nome do moralismo sexual. Apenas uma singela atitude de tirar a roupa, como o artilheiro que tira a camisa, celebrando um feito do amor. A  vida burocrática, o cotidiano burocrático, quer matar a vida, que o poeta quer alegre, sexuada, amorosa e de amizade.

E na vida real, os poetas da periferia estão sendo assassinados. Já são cinco funkeiros mortos na baixada santistas. e parece que estão sendo mortos por causa do conteúdo de suas músicas. E pelo que eu saiba, excluindo uma organização de mães, não tenho visto nenhum protesto das esquerdas, estudantes ou artistas. Ou os funkeiros não são artistas, assim como eram os sambistas no início do samba? O samba, no seu início, era coisa de capoeira, que eram malandros perigosos, navalheiros. Não eram artistas, mas vagabundos. O cara era preso apenas por portar um violão. O primeiro samba gravado, que nem era ainda  um samba,  já falava da repressão da  polícia.

Talvez a leveza com que os amigos do poeta de Febre dos Ratos continuam levando em frente suas festas e brincadeiras seja uma metáfora apropriada da realidade. É preciso viver, mesmo quando os melhores de nós é exterminados. E as pessoas comuns, não esperando nenhuma defesa, querem o mais depressa possível continuar com a utopia maravilhosa de viver. Se houvesse algum protesto no filme é que seria uma ficção inverossímil.  Esperar algum protesto era parar a vida.  Era tornar a vida mais pesada que é.

Achei o filme corajoso por, quase o tempo todo, usar a poesia como forma de comunicação. Mesmo que não seja um diálogo poético, como numa ópera. Gostaria de um dia ver um filme operístico,  falado em verso. E os personagens do filme, principalmente as personagens femininas, acham que o poeta merce mais do que tem. O que eu acho de todos os artistas. Que deveriam se tratados com deuses que de fato são.

Adorei a fotografia. O branco e preto leva a uma maior concentração nas cenas. O colorido pode ser bastante dispersivo. Apesar que o povão, a periferia é colorida.  A festa é colorida. A década de 70 foi colorida na periferia e na música mundial.  De Odair José a Jimi Hendrix.


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E não há orgia alguma. Tudo é sugerido. Mesmo as cenas do tanque.  É um filme que poderia passar na televisão, num horário bem tarde, sem protestos de moralistas de plantão. Um prova possível disso entrar com a rubrica “Febre do Rato” no Google imagem e o mesmo com “Teatro Oficina”. Não aparece fotos de sexo ou nus em Febre do Rato.

Adorei  o poeta fazendo sexo com senhoras. É uma metáfora de que qualquer sexo vale a pena. Talvez as prostitutas merecessem uma presença e uma visibilidade maior no filme.

Diante da escolada do moralismo sexual, cristão ou paulino , apesar de ser assumido integralmente por pessoas sem qualquer religião, o filme, foi uma boa armadilha. Pois os moralistas intelectualizados da classe média acabam esquecendo as cenas de sexo e amando um poeta, da sua tribo da classe média, que,mesmo  vivendo em palafitas, como os ratos, e não há ratos no filme

Gabiru

– ratos presentes apenas em desenhos e grafites -,  este poeta usa uma linguagem não popular, mas uma poesia culta. Não é um raper nem um funkeiro. Mas não é inverossímil. Em São paulo há a poesia na laje. Veja um exemplo de poesia na laje que, da maneira mais fantasiosa, quer sair de lá e virar médico.
A premiada trilha sonora é um brega agradável. Com uma letra que não é popularesca, pois usa ordem indireta e palavras não tão cotidianas. Um Odair José mais aceitável. Gosto de música brega e gostei da Passione que ouvi algumas vezes. Não sei como é Recife, mas nas periferias de São Paulo, Rio de Janeiro talvez teria o selvagem e rancoroso rap, ou sexualmente explícito funk.
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Este poeta de Febre do Rato é mais um poeta da minha juventude na periferia nos anos 70. Geração periférica de bailes e pequenas putarias, pouco interessado em política. Mais ou menos insatisfeito como o governo. Em 1972, uma das músicas mais tocadas na Vila Brasilândia, São Paulo, era Ouro de Tolo, de Raul Seixas, que tomávamos como uma música de protesto e nem dávamos conta de seus discos voadores.

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“Descrição: “O surf rock brega iê-iê- iê “Passione” tema composto por Junio Barreto com Jorge Du Peixe, sobre a base levada pelo Mombojó (destaque para o teclado de Chiquinho e a guitarra de Felipe S), para a trilha sonora do filme “Febre do Rato” de Claudio Assis.” PASSIONE (letra e música – Jorge du Peixe e Junio Barreto) PERFUME DO MEU PARAÍSO BONITA ESTRAGO DO MEU CÉU QUE ATÉ ME CUSTE, VALHA A VIDA VOU TE AMAR, VOU TE AMAR PASSIONE, TENHO POR TU TANTO GUARDADINHO AMOR AGRESSIVE NÃO SAFADA, ÉS MEU VÍCIO MORRO EM VOCÊ PRA VIVER EM MIM”.

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links

01. Febre do Rato leva seis trófeus no Festival de Cinema de Triunfo [entre eles de trilha sonora].

02 . Trilha sonara de Febre do Rato
03. Rato, ratazana, Gabiru
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