MAUSOLÉU DE OURO, PIRÂMIDE BRANCA, emBORA…

26/10/2010

O QUE ACONTECE COM AS OBRAS ABANDONADAS NA UNICAMP?

Este prédio foi iniciado a toque de caixa e logo abandonado no estágio que está há anos.


construções abandonadas 006

Upload feito originalmente por Jornal do Porão
</div

Lá, dizem, seriam instalados os núcleos. Na época capitaneados pelo CESOP. Como estes núcleos têm, sempre, a vocação de se transformarem em fundação, apelidei o prédio de sede da empresa senil. Já que as fundações têm sempre algo de parasitário, velho e senil; que levam e atestam o fim da Universidade Pública e premiam grupos e não a instituição. As fundações sempre estão mergulhadas numa atmosfera de decadência, aproveitando da senilitude da Universidade Pública, como já foi exaustivamente denunciado e demonstrado pela revista da ADUSP (Associação dos professores da USP).
No mesmo período o IFCH tinha três obras em andamento. Do AEL levou quase 7 anos para inaugurar, pois terminar não terminou até hoje, pois suas janelas terão quer ser trocadas e não podem ser abertas; e seu ar-condicionado central de 600 mil reais não funciona e, parece, não tem conserto.
Ninguém explica porque a extensão da biblioteca do IFCH está abandonada, quando há milhares, muitos milhares de livros para ir para as estantes. Não explicaram, até hoje, que sanção recebeu a firma que inundou a biblioteca em março de 2009.

Na Unicamp ninguém explica nada. No IFCH ninguém sabe de nada. E prédios continuam sendo iniciados.


construções abandonadas 003

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

E os outros continuam abandonados, com há anos está o prédio da Geociência. Que lógica é essa? Que administração é essa? Quem paga os prejuízos?

O mais intrigante é que os professores, os que mandam na Universidade, não reclamam, não se posicionam. Que nome dar a este silêncio de quem domomina a palavra (e o poder)?

Insisto sempre nesta questão dos prédios da Unicamp, pois diante da suntuosidade de brancura da pirâmide branca do AEL, a classe média fica embasbacada, como se fosse um totem. Mas insisto também em que estes prédios são uma confissão do descontrole e da falência da administração da Unicamp, quando adotaram as empresas terceirizadas em suas construções. E este modelo visivelmente está falindo. É só olhar para o laboratória da Física que afundava logo que ficou pronto. Agora têm a notícia do prédio suntuoso da BORA [Bliblioteca de Obras Raras) no IA, mas, até agora, apadrinhado pelo IEL. Fizeram um seminário para discutir a questão das obras raras. Que obras raras irão para lá? Onde tem tantas obras raras assim na Unicamp, já que tem 3 prédios que abrigam as poucas obras raras que a Unicamp tem? Dizem que gastarão 11 milhões no prédio. Vão adquirir obras raras para colocar neste colosso? Quanto custa isso? Não é preciso ser nenhum bibliófilo para saber que obras raras têm preços no mercado, estabelecidos por sua orópria raridade. Ou contruirão um prédio para alocar um pífia bliblioteca? Muitos participantes de tal seminário fingiam não se dar conta do disparate. A vida continua. As verbas rolam. O poder constrói bunkers para o poder.

A USP está terminando um prédio. Sem entrar em todo o mérito, sabemos que eles já têm doadores do calibre  de José Mindlin, bibliófilo famaso.  O que temos na Unicamp? Parece que teremos um enorme prédio à espera de boas almas.  Parece que este prédio da BORA é pura megalomania.

Se clicar sobre esta foto


QUE ESTÉTICA É ESSA?

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

acessará, pelo FLICKR, vários albuns com fotos destes descalabros. E poderá conferir o vocabulário que crio para os prédios da Unicamp.
Prédio da Adunicamp: MAUSOLÉU DE OURO
Prédio do AEL: PIRÂMIDE BRANCA
Prédio dos Núcleos IFCH: EMPRESA SENIL.
Jardim da Matemática: JARDINS DA BABILÔNIA
Laboratório da Física: PALAFITAS
O BORA: podia se chamar emBORA, sem obras raras.

INFORMAÇÕES DE UTILIDADE PÚBLICA.

A ADUSP (associação dos professores da USP) publicou 3 revistas sobre as fundações de direito privado na USP.[veja revista 24 ; na 23; Dossiê das Fundações de direito privado na USP que iniciou na Revista 22 da ADUSP]A ADUSP, na sua revista número 46, Publicou entrevista com um professor da FEA/USP, ex-diretor da FIA(Fundação da FEA), mostrando um monte de ganhos e falcatruas. Em 2001 já havia mostrado que o Conselho Universitárioda USP, o  CO (lá até  as siglas mudam convenientemente) tem 24 membros que são membros de fundações.
É SÓ ENTRAR NA PÁGINA DA COLEÇÃO DAS REVISTAS DA ADUSP [ A ÚLTIMA NÚMERO 47] e ler apenas os títulos para saber porque chamo o prédio da ADUNICAMP de Mausoléu de Ouro. Não são nada revolucionários, apenas usam o dinheiro da Associação para produzir diagnósticos importantes para toda a comunidade. E se olharmos para O SINTUSP, um sindicato sistemáticamente combativo, nós da Unicamp temos que dizer, pobre de nós.

ARTIGOS SOBRE MESMO ASSUNTO:

BIBLIOTECA NACIONAL É INUNDADA POR DEFEITO EM AR CONDICIONADO

02. Infiltrações no AEL, dentro e fora

03. Campus de Limeira, aos pedaços

04.AEL MAIS UMA JANELA CAIU (1)

05. Pequeno Diário de uma Tragédia Anunciada


Ocupação da Reitoria: fascismo ou resistência democrática?

31/12/2009

Caro Mário,

Escrevi este texto em 2004, usando como argumento o texto do Prof. Roberto Romano.

Abraços,

Celso

Ocupação da Reitoria: fascismo ou resistência democrática?

Após a ocupação da reitoria da Unicamp pelos alunos no dia 02 de julho de 2004, várias manifestações de repúdio foram feitas por ilustres membros da comunidade universitária.

Uma citação recorrente é que a universidade é uma instituição democrática e republicana e que o ato dos alunos foi anti-democrático e fascista e portanto um atentado à democracia e a própria instituição republicana que é a universidade.

Após ler atentamente todas as manifestações, algumas perguntas devem ser feitas.

É a universidade brasileira, em especial as paulistas, democráticas? Podemos afirmar, categoricamente, que as universidades são de fato instituições republicanas? Para responder estas perguntas lembrei de um excelente artigo publicado na Folha de São Paulo – Tendências/Debates 1-3, de 19/10/1999, intitulado “Escândalos no mundo universitário” do Prof. Dr. Roberto Romano.

O Prof. Romano alerta que, infelizmente, – “há um bom tempo, os setores acadêmicos entraram numa fase decisiva para a sua vida ética: a renovação dos fins universitários.”

No artigo, o Prof. Romano faz inicialmente uma afirmação reveladora sobre a nova função dos professores – “No mundo todo, desde que Margaret Thatcher impôs as regras da avaliação neoliberal às venerandas Oxford e Cambridge, o imperativo categórico dos professores resume-se a arrecadar dinheiro para manter imensas estruturas (laboratórios, bibliotecas, prédios, etc.)”.

Levando em conta essa nova função dos professores, o Prof. Romano discorre sobre a importância desta nova classe nas universidades – “O correlato dessa faina é a preparação dos pesquisadores para a venda do que se produz naqueles setores. Segundo um analista do fenômeno, entre as pessoas mais importantes nas universidades está o indivíduo que amealha verbas, públicas ou particulares.” E continua – “Enquanto isso, os docentes assumem o papel de ambulantes que seguem pelo mundo inteiro, angariando lugar na mídia, vendendo o logotipo de sua instituição para o público e para quem decide sobre os orçamentos.”

A existência desse tipo de pesquisador na universidade faz que a mesma altere a sua função e a sua própria concepção. O Prof. Romano magistralmente escreve – “Hoje, as próprias universidades se definem como sôfregas concorrentes, numa guerra sem regras e sem respeito, tendo em vista os recursos. A “boa” administração, científica ou pedagógica, é a eficaz nesse plano. A “excelência” acadêmica mede-se com o número de entrevistas fornecidas pelos professores. Vencem os núcleos que dominam a propaganda.”

Essa anomalia na função das universidades públicas estabelece o fluxo forçado dos recursos para o financiamento do sistema universitário. Como escreveu o Prof. Romano –“Assim, mais dinheiro é dado aos departamentos colocados no topo das listas de avaliação regidas pelo marketing. No mesmo passo, “os mais pobres, ou os que ainda estão se desenvolvendo, permanecem famintos de dinheiro (…). Em longo termo, isso permite a concentração de recursos nos centros de alto desempenho, encorajando o sumiço de departamentos, até mesmo de universidades, percebidas como fracas” (Bill Readings, “The University in Ruins”, Havard Um. Press, 1996).”

Após esse longo relato, podemos concluir que a universidade pública brasileira está longe de ser democrática e segue exemplarmente o receituário neoliberal. Afinal, como escreveu o Prof. Romano – “Os governos brasileiros, no plano federal e nos Estados, cortaram recursos para instituições de ensino superior. No mesmo passo, os salários dos professores foram congelados. Numa sociedade onde não existe o investimento particular, a fundo perdido, nos campi, também definharam os meios oferecidos para a pesquisa fundamental. A receita salvadora, oferecida aos pesquisadores brasileiros, é a mesma imposta por Thatcher aos ingleses: buscar dinheiro onde ele se encontra, no mercado, na “parceiras com a iniciativa privada.””

Mas o que dizer da universidade como instituição republicana balizada no Ensino, na Pesquisa e na Extensão?

O Prof. Romano discorrendo sobre o que se tornou a Extensão Universitária, escreveu – “A atividade de extensão, um esteio da universidade hoje em ruínas, tornou-se o caminho de professores em busca de recursos.

No mesmo tempo, surgiram os “núcleos”, os “grupos”, os “centros”, entidades não raro fantasmagóricas e sem determinação jurídica responsável, servindo como instrumento na luta pela melhoria dos orçamentos familiares ou, se ainda existe certa ética, de laboratórios e bibliotecas sucateados.”

A conclusão do artigo é implacável com a universidade pública e propõe que a instituição universidade pública seja controlada pela sociedade. O prof. Romano alerta – “Sem esse pano de fundo é impossível entender a enxurrada de fatos escandalosos envolvendo a vida universitária.” E propõe uma comissão de controle externo dos recursos públicos alocados nos campi, oficiais ou particulares. “A comissão seria composta por representantes de Executivo, Legislativo e Judiciário, além de representantes da própria universidade e dos segmentos sociais”

Após ler atentamente o artigo do Prof. Romano, podemos ser mais tolerantes com os alunos que ocuparam a reitoria, afinal o que é um vidro quebrado, uma parede pichada perante as questões tão relevantes levantadas pelo Prof. Romano, que atingem diretamente a essência da universidade pública brasileira, sendo que o próprio autor adverte – “(se)…a política científica brasileira não assumir novos rumos os escândalos universitários serão cada vez piores, até que nada reste da autoridade ética e moral, base mínima do comportamento nas universidades.”

Uma última pergunta que fica – Será que a revolta dos alunos não tem a ver com as mudanças que as universidades públicas estão passando e será que os alunos não são os últimos pilares da resistência democrática em defesa da universidade pública?

Celso Ribeiro de Almeida

12 de julho de 2004


Celso Ribeiro de Almeida
Químico do Instituto de Biologia – Unicamp
Doutor em Ciências – Área de Concentração: “Energia Nuclear na Agricultura”
Telefone: (19) 96392816