NAUSEABUNDO, Por Newton Peron (Newtinho)

30/06/2012

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Era indecente, era um insulto, era nojento. Como aquele olho cheio de remela ousava fitá-la? Um sorriso amarelo, com dentes escuros e hálito fétido de fumante titubeava, querendo se estampar na cara. A barba era meio cinza, tinha já mais de uma semana e envolvia todo o pescoço. Era um escândalo. Uma mancha branca escorrida no colarinho, talvez pasta de dente seca. Ao longo da camisa amarrotada, manchas de café, botão pendurado. A bermuda, surrada e furada, tinha cor de velha. As canelas sujas pareciam limpas perto do pé imundo sobre havaianas. Pé rachado, pé barroso, pé-escroto.

Uma estátua de remela, suor e baba; um bicho asqueroso, um verme, ousava fita-la! Ânsia, náusea. A imponência dela, o salto de agulha furante, o vestido vermelho e o corpo de deusa pareciam pouco para esmagar aquele inseto. Onde estava seu namorado, com músculos de caminhonete? Onde estavam suas amigas, com seus comentários víboros? Teria ela sozinha que matar aquele rato?

Odiava o namorado, que não pôde ficar com ela na fila, abandonando-a no meio daquela gentalha. Odiava as amigas, odiava seus pais, sua gente. Odiava o mormaço do verão de seu país. Odiava sobretudo aquela criatura repugnante, fedida e podre. Um ligeira.

Ele era indecente, como arrotar num restaurante caro. Era um insulto, como cagar na sua frente. Era nojento, como achar uma barata no meio da comida.

Olhou-o novamente. E os olhos remelentos fixaram-se na bunda da mulher na frente da fila. Ele era realmente indecente, era um insulto, era nojento.

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Quem é Newtinho

Foi Editor do Antigo Jornal do Porão quando este foi perseguido pela direção do Arquivo Edgard Leuenroth e pelo Direção do Instituto de Filosofia e Ciências Humans, substituindo o editor perseguido Mário Martins de Lima. Newtinho coragem e solidariedade. Foi um dos idealizadores deste Blog e uma espécie de consultor técnico. É um dos editores do “Transe”, jornal que circula, em papel, por anos no IFCH. O fato de “Transe” ser relativamente ignorado no IFCH demonstra o baixo padrão das preocupações literárias no INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS. Newtinho é também um dos promotores do grupo “Corujão”, uma escola livre de filosofia e que é também um cineclube atuante. E como acadêmico, é doutorando em lógica (Lógica Paraconsistente – ou coisa assim).

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MUTAÇÃO, Newton Peron

21/06/2012

MUTAÇÃO

com 10 anos, imaginou ter seis dedos em cada mão. uma semana depois, sentiu um calombo embaixo de cada mindinho. o laudo médico afirmava tumor benigno. seis meses depois tinha doze dedos.

o médico recusou a amputação: veja, é um caso excepcional, não é de nascença, tem sensibilidade, movimento.

zombado na escola, o garoto perdeu interesse pelos dois dedos bônus. escureceu, secou, encolheu e caiu. cólera do médico, que não pôde acabar seu artigo revolucionário a tempo.

com 15 anos teve duas bocas. com 19, uma boca e quatro pulmões. com 27, dois pulmões e três corações. morreu com 45: os corações murcharam, tinha um olho nascendo na nuca e um pinto apodrecendo em cada coxa.


Câncer, de Newton Peron

04/06/2012

CÂNCER

acordou, abriu a janela, estufou o peito e desabafou:

– estou com câncer.

a mulher esbranquiçada balbuciou um o quê e um onde gaguejado.

– não sei, mas sinto que sim.

emputecida, virou de lado e dormiu.

não foi ao trabalho, preferiu o consutório. o clínico geral perguntou por dores, caroços, secreções.

– nada.

e acrescentava que queria exames. o médico dissimulou a irritação e receitou um analgésico. uma semana depois, voltou o paciente queixoso:

– não curou. sinto que não.

hipocondríaco. quis encaminhá-lo para um psiquiatra. o homem pedia obstinado pelos exames. não, meu senhor, é impossível fazer um exame se o senhor sequer suspeita onde é o câncer.

mais uma semana, calmantes. mais uma semana, prozac.

– ainda sinto que sim.

pediu furioso para o homem tirar a camisa. apalpou e mentiu ter encontrado um caroço, e que levaria para biópsia. arrancou com o bisturi aleatoriamente um pedaço de carne. resultado: câncer.

pesquisou outros casos e publicou um artigo, de como certos tipos de câncer poderiam originar do desejo do paciente. renomado internacionamente encontrou com o homem um ano depois. e o câncer?

– passou para a corrente sanguínea.

o médico respondeu que não teria duas semanas de vida. exatamente 14 dias depois o homem morreu. enforcou-se.


sangue, de Newton Peron

15/11/2010

nunca mais me esqueceria do vermelho e daquela dor gostosa. talvez porque estivesse tomando cerveja num copo sujo quando me vi sentado com ela a boca suculenta e vermelha se mexia sem parar, mas eu só escutava os agudos de sua fala. vez ou outra colocava sua mão enorme sobre a minha e dava uma gargalhada rouca.

ficamos assim por um tempo, ela abrindo e fechando a boca e eu arrotando cerveja. enfim, me perguntou algo que não entendi, mas fiz que sim. então me puxou pelos braços com as unhas vermelhas e me levou para dançar.

começou a se esfregar em mim e a me jogar para os lados. voltei para meu copo sujo porque não gosto de dançar e estava com enjôo. ela também sentou e recomeçaram as gargalhadas, a manzorra e a perna.
a essa hora ela colocava a mão sobre minha perna.

cerveja, copo sujo, amendoim, pagode e aquela boca pornô falou algo sobre carro. respondi que do outro lado da rua. tirei a nota amassada para pagar a bebida e o couver, mas ela já estava berrando de fora.
dentro do carro. vi suas pernas enormes de meia-calça e entendi pela primeira vez sua voz preguiçosa, longe da banda de pagode. já está tarde, não, talvez fosse melhor a gente dormir num motel.
não estava tarde, era onze e meia. mas na hora imaginei a desculpa que iria inventar para minha mulher, porque dormi no paulão se era ele que estava bêbado, ou porque não chamei um taxi se o carro tinha quebrado.

mas já era onze e meia e eu tinha tomado cerveja. que motel, tem um aqui perto e até que é barato, e você é barata?, depende do serviço meu bem. mostrei a nota amassada e ela fez que sim.
quando saímos com o carro, ela começou a cruzar e descruzar as pernas. O carro cheirava cerveja e cigarro, com filtro vermelho. no semáforo, ela se aproximou e pôs minha mão no meio de suas pernas. dava para sentir o perfume e o shampoo que ela usava, ambos vermelhos.
chegamos ao motel de neón. o atendente me disse quarto cento e vinte e dois, senhor. ela saiu do carro rebolando, de mão dada comigo.

depois dele tirar minhas calças e vir por trás de mim eu nunca mais me esqueceria daquela dor gostosa.


coração, de Newton Peron

30/10/2010

o cavaquinho afinava, atravessava a janela fechada. a pálpebra melada insistia em não abrir, apesar do barulho, da frestas com luz, do cheiro de fumaça. acordou. jogou água na cara e foi para o quintal.

mais cavaquinho. cocoricós do quadrado de madeira no fundo do quintal. tijolos bambos em forma de churrasqueira. seus olhos seguiram o rastro de sangue que dava para a vasilha de plástico. lingüiça, asinha, mais uma carne estranha, em bolinhas. laialaiá laialaiá, golpes no surdo.

aproximou-se da mãe. eu refoguei com manteiga, dona cida, depois misturei com a farinha. a mãe gorda, inofensiva e as amigas dela, tão moles que se via dereterem como manteiga na parte concretada do quintal. afastou-se.

o que é isso, pai? o pai engolia mais cerveja, conversava com um amigo barbudo. coração, respondeu o barbudo. mas coração de quê? a barba gargalhou. de galinha, moleque. queria que fosse de boi, é?, interviu o pai.

não faz assim, meu coração, volta pra mim, que solidão. a linguiça estralava, mais fumaça. tá boa, rita?, eu fiz com miúdo de galinha. uma delicía, maria. o que é miúdo? é porque eu refoguei com manteiga. o que é miúdo, mãe? miúdo é figado, coração… mas o pai não tá assando o coração? rá rá rá… o do seu pai é de outra galinha. laialaiá laialaiá. eu quero, mãe. pega!, não com a mão, moleque, é pra passar na carne.

o cavaquinho já se confundia com o cocorejo ouriçado do quadrado. a primeira rodada, de linguiça. pôe o coração, ô silvio. furou as bolinhas de carne no espeto e o repousou nos tijolos. fumaça, estralo. uma rodela de linguiça, pegada por dedos gordos, antes de triturada pelos dentes, tomava banho de farofa. cocoricólaralaiá.

o coração quase pronto. chama o danilo, ele queria experimentar coração. cadê o moleque? tum tum tum não faz assim, meu coração tá pronto. cocoláricá. cadê a faca? có có, gritando. tum volta pra mtum. não é azeite, dona cida, é manteiga, manteiga! có có có. ô maria as galinha o que tá acontecendo? preciso da faca silvio solidão cadê o danilo? vou lá ver essa gritaria.

achei o coração, mãe!

danilo, faca, galinha ainda viva com o coração pra fora.


bom dia, conto de Newton Peron

15/10/2010

bom dia, querido, disse a voz empapuçada do banheiro. bom dia, respondi da cama. estou indo preparar o café, cuspindo espuma de pasta de dente.


Desvario Carlos Zéfiro

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

fui para cozinha, comecei a beber seu café doce e frio, beijei sua bochecha áspera enquanto ela preparava sua missa matinal. mergulhou o pão com manteiga no café com leite. partiu o pão e entregou para mim dizendo toma, amorzinho, eu não aguento um inteiro. olhei para seus lábios lambuzados, sua xícara com pedaços de manteiga boiando, e afastei minha metade de pão molhado no pires.

pensei em nosso casamento. ela havia sido bonita, corpo quase atlético. hoje ela era a típica esposa perfeita, dedicada ao marido, velha, insossa. tinha um jeito irritante de ser simpática e era tão agradável quanto seu café da manhã. muitas vezes eu entrava no carro rezando para que ele pegasse antes que desse tempo dela se despedir com um beijo mole no rosto.


Busca Carlos Zéfiro

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

mas no trabalho não era diferente. papel, dedo cortado, arquivo, ofício, solicitação, computador, caneta, papel. chefe mal-humorado, cliente mal-humorado, eu mal-humorado. colega de serviço de minissaia se esfregando em mim no bebedouro.

sempre gostei de mulheres, especialmente as de coxas robustas, de seios duros, de barriga definida. prefiro as de cabelos pretos, curtos, pele clara. minha mulher, jovem, era assim, mas sempre de cabelo comprido. parece crente.


carlos Zéfrio

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

a mulher do serviço era loura, meio feia, mas de corpo malhado. não entendia porque queria transar comigo, meu chefe ganhava muito mais do que eu. talvez fosse tara, sei lá. mulher doente. mas nunca achei que valesse a pena.

e não valeu. o motel barato, o champanhe mais doce que o café, sua barriga não tão definida, seu rosto mais feio de perto. beijava mecanicamente, tirava a roupa estupidamente, abria as pernas exageradamente, gemia ridiculamente.

quer que eu esquente o leitinho?. não, sempre odiei leite com café, principalmente no diminutivo. mas olhando de perto aquela cara enrugada, o café melado, o leite com nata, o pão murcho com manteiga light, respondi só um pouco, bem. e derramou o leite na xícara com um sorriso idiota na cara.

mais idiota era a cara que fazia quando transávamos. uma mistura de menina e de puta, com o pior das duas. inexperiente como uma menina, gelada como uma puta. por isso às vezes ia para o puteiro, mas nunca tive dinheiro para pagar uma bonita, malhada. sempre paguei aquilo que poderia achar na rua de graça, ou quase isso.

não vou deixar você ir para escola desse jeito, parece uma puta. virei e olhei para aquela mulher de dezesseis anos. havia cortado o cabelo preto. tinha batom vermelho nos lábios carnudos, leve maquiagem no rosto. a camisa justa, a saia míni. por baixo da meia-calça, pernas longas e roliças. dentro da sandália, pés de porcelana. não parecia minha filha.

Filha de Minha Amante, Carlos Zéfiro

Filha de Minha Amante, Carlos Zéfiro

 

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

era sua mãe, rejuvenescida. os traços mais bonitos do que ela quando jovem. corpo perfeito. não dizia bom dia pai, apenas oi. nunca levava a sério a mãe, apenas sentou e pediu para passar o café, puro. não era sua mãe, nem rejuvenescida.

você não vai dizer nada, bem?. uma mistura de menina e de puta, com o melhor das duas. não, eu não diria nada. apenas olharia seu decote enquanto lhe passava o café. enquanto ela tocava minha mão e olhava para mim lasciva. como uma menina. como uma puta.

estou atrasado. e estava mesmo. o papel, o computador, a caneta e a colega de serviço me esperavam afoitos. me leva na escola?. você não vai na escola desse jeito, menina!. olhadela de desprezo para a mãe. me leva?.


Carlos Zéfiro

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

então vamos já!. minha filha saltitou da cadeira e abandonou sua xícara. um naco de pão velho enroscou na minha garganta. dei uma talagada no leite marrom açucarado. levantei fingindo pressa enquanto olhava minha filha de um ângulo melhor. uma mão escamosa me segurou pelo braço e disse eu não acredito que você vai levar ela assim. depois conversamos, querida. soltou meu braço com força e virou a cara bufando. fui lentamente até a porta com minha filha e aguardei por uns instantes o beijo-matinal-no-rosto de minha mulher. pela primeira vez em vinte anos ela não quis dar.

entramos no carro. dei partida. nada. de novo. nada. fuscas sessenta e nove não costumam pegar na primeira vez. eu nunca dei a mínima para isso. minha mulher ficava roxa de vergonha. a colega do serviço me olhava com desdém. de novo. nada. mas quando minha filha me olhou e deu um sorriso de canto de boca, comecei a soar. percebi a carroça que andava, o banco rasgado, a maçaneta pendurada. olhei para o retrovisor, um homem de meia-idade, com resquícios de beleza, barba por fazer, cabelos despenteados. comecei a me pentear com as mãos. ela virou e disse deixa isso comigo. começou a massagear meus cabelos. um pente surgiu de sua mão, talvez da bolsa. me penteava, com calma. de novo. o carro pegou. guardou o pente e me deu um beijo vermelho na bochecha.


A Queda Carlos Zefiro

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

começamos a andar. gostou do meu cabelo?. sim, adorei. cortei ontem, fiquei esperando até meia noite para mostrar para você. eu não lembrava a que horas havia chegado no dia anterior. havia bebido sozinho em algum boteco, como sempre, para esquecer o serviço burocrático, meu casamento burocrático, meu caso burocrático. havia chegado em casa e me jogado na cama com a mesma roupa, como sempre. se eu a tivesse visto de noite com o cabelo curto e de camisola, provavelmente não teria conseguido dormir. eu sei que você gosta de mulheres de cabelo curto.

eu sei que você gosta de mulheres de cabelo curto. minha mulher tinha cabelo preto, liso, comprido. minha amante louro, crespo, comprido. semáforo fechado. olhei para ela novamente, estava obscena. vamos tomar um café de verdade ali na padaria?, odeio o café dela. também nunca a chamava de mãe. tampouco pelo nome. estou atrasado. eu sei, mas só um cafezinho, vai, eu pago. como eu poderia recusar um convite de uma mulher de lábios carnudos, olhos negros, sobrancelhas delicadas, cabelos curtos?. pode deixar, eu pago. nunca fui cavalheiro, mas com ela eu tinha que ser, era minha filha. mas rápido, einh?, estou atrasado. abriu o semáforo.

dois expressos, por favor. parece que ela não gostou muito da minha roupa – reticências – mas não quero saber a opinião dela, quero saber a opinião de um homem, o que você acha?. levantou do banco, empinou o bumbum, virou um pouco os ombros com os braços para trás. a camisa ficou mais colada e pude ver o contorno do sutiã. eu não acho nada. quase sem voz. aproximou sua boca de minha orelha. fala vai, o que você acha?. você está bem. gaguejando. sentou. pousou sua mão em minha coxa. dedos carinhosos. unhas bem cuidadas. palma macia fazendo círculos lentos sobre minha calça. café de verdade com uma mulher de verdade. estou atrasado, vamos!. paguei o café.


bernini_proserpina3

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

dentro do carro. essa mulher é minha filha lembro dela criança nos seios de minha mulher em meu colo na rua de amarelinha na escola chorando saindo com as amigas de repente acorda de cabelos curtos pescoço longo pernas longas cintura curta sei que nunca terei coragem de fazer algo mais que beijos na bochecha abraços mão no ombro nas costas na barriga mas vou pensar nela semanas meses anos dias horas até ela casar com algum idiota com dinheiro – nunca será minha – mas continuarei abraçando beijando tocando ainda casada – sempre será minha – seu corpo escultural é parte do meu e meu sangue ferve em seus músculos e ela brotou de meu sêmen e eu a quero de volta quero a boca macia que me sussurra quero suas mãos dedos longos unhas curtas – nunca será minha – vou imaginar seu rosto de marfim e olhar para o de granito de sua mãe e vou acabar com meu caso e não suporto aquela mulher desengonçada e vou homenagear todo dia minha filha no banheiro da firma mas nunca serei capaz de tocá-la porque sou covarde porque sou escroto.


FrutosProibidos Carlos Zéfiro

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

chegamos na escola. nunca será minha. ela soltou o cinto de segurança e me deu um beijo.

na boca.

newton peron