NAUSEABUNDO, Por Newton Peron (Newtinho)

30/06/2012

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Era indecente, era um insulto, era nojento. Como aquele olho cheio de remela ousava fitá-la? Um sorriso amarelo, com dentes escuros e hálito fétido de fumante titubeava, querendo se estampar na cara. A barba era meio cinza, tinha já mais de uma semana e envolvia todo o pescoço. Era um escândalo. Uma mancha branca escorrida no colarinho, talvez pasta de dente seca. Ao longo da camisa amarrotada, manchas de café, botão pendurado. A bermuda, surrada e furada, tinha cor de velha. As canelas sujas pareciam limpas perto do pé imundo sobre havaianas. Pé rachado, pé barroso, pé-escroto.

Uma estátua de remela, suor e baba; um bicho asqueroso, um verme, ousava fita-la! Ânsia, náusea. A imponência dela, o salto de agulha furante, o vestido vermelho e o corpo de deusa pareciam pouco para esmagar aquele inseto. Onde estava seu namorado, com músculos de caminhonete? Onde estavam suas amigas, com seus comentários víboros? Teria ela sozinha que matar aquele rato?

Odiava o namorado, que não pôde ficar com ela na fila, abandonando-a no meio daquela gentalha. Odiava as amigas, odiava seus pais, sua gente. Odiava o mormaço do verão de seu país. Odiava sobretudo aquela criatura repugnante, fedida e podre. Um ligeira.

Ele era indecente, como arrotar num restaurante caro. Era um insulto, como cagar na sua frente. Era nojento, como achar uma barata no meio da comida.

Olhou-o novamente. E os olhos remelentos fixaram-se na bunda da mulher na frente da fila. Ele era realmente indecente, era um insulto, era nojento.

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Quem é Newtinho

Foi Editor do Antigo Jornal do Porão quando este foi perseguido pela direção do Arquivo Edgard Leuenroth e pelo Direção do Instituto de Filosofia e Ciências Humans, substituindo o editor perseguido Mário Martins de Lima. Newtinho coragem e solidariedade. Foi um dos idealizadores deste Blog e uma espécie de consultor técnico. É um dos editores do “Transe”, jornal que circula, em papel, por anos no IFCH. O fato de “Transe” ser relativamente ignorado no IFCH demonstra o baixo padrão das preocupações literárias no INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS. Newtinho é também um dos promotores do grupo “Corujão”, uma escola livre de filosofia e que é também um cineclube atuante. E como acadêmico, é doutorando em lógica (Lógica Paraconsistente – ou coisa assim).

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puta, de Newton Peron

14/06/2012

 puta

a professora prosseguia. e você, marcos?, e você, matheus?, e você, nádia?. engenheiro, advogado, enfermeira. eticétera. quase no fim da enquete, uma aluna atirou à queima-roupa:– eu?, eu quero ser puta.e uma vozinha no fundo: e eu quero ser seu cliente!. kkkkkkkkkkk, explodia a sala. a professora gritou por silêncio, bateu palmas, esperneou, mandou dois pra fora e pôde continuar a aula. na semana seguinte, a mãe sentada no sofazinho da sala da diretora.– e ela insiste que quer ser prostituta! diz que já teve relações, que gostou, quer ganhar dinheiro com isso.

em casa, a mãe se desolava em lágrimas com o marido. uma criança, meu deus! reuniram-se os três e a pequena devassa confirmou tudo. o padrasto apelou para a profilaxia:

– e aids? não tem medo de pegar aids?

mas a atleta mirim se esquivou com graça, falou de camisinha, virus incubado, coquetel gratuito. a mãe segurou a adolescente pelos cabelos mas o padrasto interceptou o tapa na cara a tempo. a matriarca recuou, ponderou alguns segundos e proferiu a sentença:

– está proibida de sair de casa até segunda ordem, mocinha.

passou um, dois, três dias. no sétimo, a mãe teve que viajar a serviço, confiando a guarda ao pobre padastro.

a filha não vascilou, vestiu micro-saia, blusa tomara-que-caia, meia calça escandalosa. a carne frágil do padastro não resistiu. a afilhada nem teve misericórdia do velho e soltou:

– 50 reais. aproveita o preço que eu sou só estagiária.

 
 
 
           
 

Câncer, de Newton Peron

04/06/2012

CÂNCER

acordou, abriu a janela, estufou o peito e desabafou:

– estou com câncer.

a mulher esbranquiçada balbuciou um o quê e um onde gaguejado.

– não sei, mas sinto que sim.

emputecida, virou de lado e dormiu.

não foi ao trabalho, preferiu o consutório. o clínico geral perguntou por dores, caroços, secreções.

– nada.

e acrescentava que queria exames. o médico dissimulou a irritação e receitou um analgésico. uma semana depois, voltou o paciente queixoso:

– não curou. sinto que não.

hipocondríaco. quis encaminhá-lo para um psiquiatra. o homem pedia obstinado pelos exames. não, meu senhor, é impossível fazer um exame se o senhor sequer suspeita onde é o câncer.

mais uma semana, calmantes. mais uma semana, prozac.

– ainda sinto que sim.

pediu furioso para o homem tirar a camisa. apalpou e mentiu ter encontrado um caroço, e que levaria para biópsia. arrancou com o bisturi aleatoriamente um pedaço de carne. resultado: câncer.

pesquisou outros casos e publicou um artigo, de como certos tipos de câncer poderiam originar do desejo do paciente. renomado internacionamente encontrou com o homem um ano depois. e o câncer?

– passou para a corrente sanguínea.

o médico respondeu que não teria duas semanas de vida. exatamente 14 dias depois o homem morreu. enforcou-se.


sangue, de Newton Peron

15/11/2010

nunca mais me esqueceria do vermelho e daquela dor gostosa. talvez porque estivesse tomando cerveja num copo sujo quando me vi sentado com ela a boca suculenta e vermelha se mexia sem parar, mas eu só escutava os agudos de sua fala. vez ou outra colocava sua mão enorme sobre a minha e dava uma gargalhada rouca.

ficamos assim por um tempo, ela abrindo e fechando a boca e eu arrotando cerveja. enfim, me perguntou algo que não entendi, mas fiz que sim. então me puxou pelos braços com as unhas vermelhas e me levou para dançar.

começou a se esfregar em mim e a me jogar para os lados. voltei para meu copo sujo porque não gosto de dançar e estava com enjôo. ela também sentou e recomeçaram as gargalhadas, a manzorra e a perna.
a essa hora ela colocava a mão sobre minha perna.

cerveja, copo sujo, amendoim, pagode e aquela boca pornô falou algo sobre carro. respondi que do outro lado da rua. tirei a nota amassada para pagar a bebida e o couver, mas ela já estava berrando de fora.
dentro do carro. vi suas pernas enormes de meia-calça e entendi pela primeira vez sua voz preguiçosa, longe da banda de pagode. já está tarde, não, talvez fosse melhor a gente dormir num motel.
não estava tarde, era onze e meia. mas na hora imaginei a desculpa que iria inventar para minha mulher, porque dormi no paulão se era ele que estava bêbado, ou porque não chamei um taxi se o carro tinha quebrado.

mas já era onze e meia e eu tinha tomado cerveja. que motel, tem um aqui perto e até que é barato, e você é barata?, depende do serviço meu bem. mostrei a nota amassada e ela fez que sim.
quando saímos com o carro, ela começou a cruzar e descruzar as pernas. O carro cheirava cerveja e cigarro, com filtro vermelho. no semáforo, ela se aproximou e pôs minha mão no meio de suas pernas. dava para sentir o perfume e o shampoo que ela usava, ambos vermelhos.
chegamos ao motel de neón. o atendente me disse quarto cento e vinte e dois, senhor. ela saiu do carro rebolando, de mão dada comigo.

depois dele tirar minhas calças e vir por trás de mim eu nunca mais me esqueceria daquela dor gostosa.


coração, de Newton Peron

30/10/2010

o cavaquinho afinava, atravessava a janela fechada. a pálpebra melada insistia em não abrir, apesar do barulho, da frestas com luz, do cheiro de fumaça. acordou. jogou água na cara e foi para o quintal.

mais cavaquinho. cocoricós do quadrado de madeira no fundo do quintal. tijolos bambos em forma de churrasqueira. seus olhos seguiram o rastro de sangue que dava para a vasilha de plástico. lingüiça, asinha, mais uma carne estranha, em bolinhas. laialaiá laialaiá, golpes no surdo.

aproximou-se da mãe. eu refoguei com manteiga, dona cida, depois misturei com a farinha. a mãe gorda, inofensiva e as amigas dela, tão moles que se via dereterem como manteiga na parte concretada do quintal. afastou-se.

o que é isso, pai? o pai engolia mais cerveja, conversava com um amigo barbudo. coração, respondeu o barbudo. mas coração de quê? a barba gargalhou. de galinha, moleque. queria que fosse de boi, é?, interviu o pai.

não faz assim, meu coração, volta pra mim, que solidão. a linguiça estralava, mais fumaça. tá boa, rita?, eu fiz com miúdo de galinha. uma delicía, maria. o que é miúdo? é porque eu refoguei com manteiga. o que é miúdo, mãe? miúdo é figado, coração… mas o pai não tá assando o coração? rá rá rá… o do seu pai é de outra galinha. laialaiá laialaiá. eu quero, mãe. pega!, não com a mão, moleque, é pra passar na carne.

o cavaquinho já se confundia com o cocorejo ouriçado do quadrado. a primeira rodada, de linguiça. pôe o coração, ô silvio. furou as bolinhas de carne no espeto e o repousou nos tijolos. fumaça, estralo. uma rodela de linguiça, pegada por dedos gordos, antes de triturada pelos dentes, tomava banho de farofa. cocoricólaralaiá.

o coração quase pronto. chama o danilo, ele queria experimentar coração. cadê o moleque? tum tum tum não faz assim, meu coração tá pronto. cocoláricá. cadê a faca? có có, gritando. tum volta pra mtum. não é azeite, dona cida, é manteiga, manteiga! có có có. ô maria as galinha o que tá acontecendo? preciso da faca silvio solidão cadê o danilo? vou lá ver essa gritaria.

achei o coração, mãe!

danilo, faca, galinha ainda viva com o coração pra fora.


A INFLUÊNCIA DO JORNAL DO PORÃO. Um balanço pelos cinco mil acessos.

24/10/2010

Mike Bongiorno. FENOMENOLOGIA DE MIKE BONGIORNO, de Umberto Eco. Este ensaio de 1961 foi publicado aqui no Jornal do Porão em 21 de fevereiro de 2009. Apesar de um longo ensaio para um blog é um dos textos mais lidos. Quando foi publicado em fevereiro de 2009, digite-o inteiro de um livro, pela indignação de ver a pobreza intelectual, o servilismo e as bobagens que ouvi de alguns professores do IFCH. Como por exemplo, diante da comemoração dos 50 anos do Teatro Oficina, certo professor de história dizer que “falei durante três aulas que o Zé Celso só quer chocar as pessoas”. Pior foi outro dizendo sobre o acervo do Teatro Oficina no Arquivo Edgard Leuenroth: “Aquela bicha…”. Nem pensava em Berlusconi, mas em professores do IFCH, arrivistas, carreiristas e especialistas em exercer seus poderes.

O texto mais lido, quase todas as semanas tem 4 ou 5 pessoas acessando-o, é o Jornal do Porão 4. É um Jornal que fala de Noel Rosa, de Chico Mendes e da Praça dos Trabalhadores. Mostrando a violência da pequenez dos políticos. São os próprios Mike Bogiornos.
Como colocar numa pracinha minúscula o nome de um dos maiores compositores e personalidade da cultura popular brasileira? Estudante de medicina que se liga, imediatamente, aos fundadores do samba. O samba tem várias vertentes, mas aquela que proliferou que tomou os rádios, e que tomou a país inteiro, foi arquitetada no Estácio. Noel Rosa logo vai ser parceiro de Ismael Silva, o grande do Estácio. E a antiga tripinha chamada Praça Chico Mendes cheia de lixo, tendo hoje uma desconhecida como nome oficial. Aqui Chico Mendes foi salvo da humilhação. E a praça dos trabalhadores então que nem existe, é um canteiro debaixo de uma ponte. E aqui neste Jornal do Porão ainda virá um artigo com fotos da Praça Tim Maia, um canteirizinho de terra batida e sujo. Os políticos são uns pobre-diabos.




Mário Medeiros contra a terceirização

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

Outro texto que todas as semanas têm leitores é “UMA SEGUNDA MORTE PARA CLÓVIS GARICA”, de Mário Augusto Medeiros da Silva. Como os leitores já sabem, Mário Medeiros já teve os dois contos mais lidos neste blog. “Meias de seda se esgarçando”, provocou 104 leitores num dia, um segundo lugar de leitores, pois Jornal do Porão número 4 teve 119 no dia em que foi lançado, em fevereiro de 2009. Mas seu “Membro Fantasma” será o terceiro texto mais lido do blog: 84 leitores no dia que foi lançado o conto. Mário Medeiros da Silva deixa de ser colaborador para se tornar uma co-autor do blog. Não posso deixar de citar a melhor frase escrita neste blog foi quando Mário Augusto Medeiros da Silva, escrevendo um artigo em defesa de Mário Martins, perseguido pelos Mike Bongiornos do IFCH, cunhou esta: “O ato de acochambrar pelo poder, alcoviltar, escorchar e tomar atitudes numa relação de desigualdade (chefe-subordinado) é o elogio da estupidez. O chefe que precisa usar da força – censurar, chamar em sala, beco, alcova, colocar no canto, ameaçar, impor-se pelo cargo – demonstra que a sua suposta autoridade não possui nenhuma legitimidade, para além do cargo institucional e do medo que inspira. Respeito, então, nem se fale. É um estúpido. Uma besta com polegares. É indigno de ser chamado de intelectual, de pensador. É o ato de um delinqüente acadêmico, de homem-dispositivo, na melhor acepção que deram a esses termos Maurício Tragtenberg e Franciso Foot Hardman.”
Em defesa do Jornal do Porão, de seu criador e de todos nós.
14/11/2009 IDÉIAS SE COMBATEM COM IDÉIAS.

Há textos no Jornal do Porão que não são originais, mas que são constantemente lidos. Mas são originais no sentido que foram escolhidos para serem editados aqui. E porque cumprem a função de criar o debate. Textos também esquecidos que entram novamente em circulação. O principal deles é “A Delinqüência Acadêmica”, de Maurício Tragtemberg. Sempre lido, mas ainda não lido suficientemente. É um texto de 1978, mas parece que fala de agora. E dentro desta questão da academia o texto fundamental é “Segunda Refundação”, de Marilena Chauí. Na verdade pouco lido, mesmo porque é um ensaio imenso. Texto escrito em 1994 e ainda não assimilado. O movimento estudantil, segundo minha leitura do texto, fala de uma Universidade que nem existe mais. E Marilena Chauí prova isso. Sem este texto, acho, falar de universidade é fazer um debate sobre o vazio, como se fôssemos fantasmas.

E um texto querido. É muito lido, mas eu queria que fosse mais e mais. “AMOR CRISTÃO”, de Marcelino Freire. É uma porrada nos bem pensantes e sentimentalóides. Assim como são os poemas de Roberto Piva que também são lidos, toda a semana tem pelo menos 1 leitor aqui no Jornal do Porão.




terceirização coletivo Miséria 004

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

Mas o Jornal do Porão vive um momento especial. Os desenhos de João da Silva. O coletivo Miséria e sua revista Miséria é algo único na Unicamp. Algo criativo, inventivo e que marcará época. Haverá uma época da Unicamp que, no futuro, falaremos da época da Revista Miséria. Que outra época a Unicamp tem? No futuro falaremos de um passado bem distinto, marcante. Convoco as pessoas a falarem destes momentos realmente marcantes e fundadores da Unicamp, se os houver.




churrasco Hélio (7)

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O momento especialíssimo das contribuições de Mário Augusto Medeiros da Silva. Sempre presente no Jornal do Porão e sempre criando impacto e leitores. Mas alerto aos desatentos. Newton Perón eu recomendo. Minha leitura e releituras tem sido, constantemente, ir ilustrando os textos. Aos textos de Newton Perón eu tenho dedicado esta leitura ilustrativa, ALGUNS AINDA INÉDITOS, em comemoração aos 5 mil acessos ao Jornal do Porão. Tenho, acho, conseguido ponto alto. A conferir.

O Jornal do Porão nasceu para ser um jornaleco litero/político/jocoso. Tem sido. Mas sua vocação tem sido de ser uma revista de onde amigos dialogam e tentam influir, criando uma visão de mundo assentada na cultura, na luta contra opressão e toda espécie de moralismo pequeno-burguês ou carola. Tem avançado. Pois, como vimos, textos difíceis são lidos e relelidos.
Se perceberam há dois contos inéditos de Newton Peron, ainda agendadados para serem publicados, mas que podem ser lidos já. Mas para página ainda tem algo mais que é publicado hoje. Acessem o no Flicker album com algumas fotos de Josephine Baker, comentada no texto de Umberto Ecco, Mike Bongiorno.

E já ia me esquecendo de Mário Bortolotto e seu sempre lido, aqui, “Me gústan las muchachas putanas”. Que iniciou neste Jornal do Porão os textos contra o moralismo idiota. Este mesmo que não fosse lido por ninguém eu republicaria até para relelê-lo.

As fotos do Flickr são muito vistas através deste Jornal do Porão. As campeãs são as fotos da “Capoeira Angola”, desenhos de Carbé. Só na sexta-feira, 22 de outubro 2010, a página com os desenhos “capoeira angola, de Caribé” teve 9(nove) acessos.
Pretendo em todos os aniversários da primeira publicação destes textos republicá-los.
PS. Newton Peron, além de ser um formidável coloborador deste Jornal do Porão, no auge da perseguição dos “burocratas mortos” a este editor e a este jornal, Newtinho assumiu a edição deste. Portanto ele será sempre um dos editores deste jornaldoporao.

Alguns textos de Mário Augusto (Medeiros da Silva), neste blog.

Este blog, nos seus mais de 5 mil acessos, reafirma um dos seus eixos, que é a preocupação política cotidiana. Interviu. Incomodou. Mas há uma grande curiosidade e uma sociologia inteira do profressorado do IFHC. No primeiro semestre de 2009, 80 professores do IFHC, assinaram uma carta que termina de maneira arrogante diante do Reitor. Nesta carta que inicia dizendo que o ‘IFHC ESTÁ AGONIZANDO’ e na reunião que a votou diziam que não iniciariam o segundo semestre, pois era impossível continua sem enfrentar radicalmente o problema, pois em 2011 o IFCH FALIRIA. Hoje está carta só pode ser lida aqui. Nenhum professor a cita. O que mostra que todos os 80 são coniventes com a agonia do IFCH. Mais. Devem ganhar com isso. No album Flickr do Jornal do Porão você pode ver a reação e mobilização dos estudantes.Mas há muito gente atenta a esta carta, muito menos do que devia, mas toda semana, aqui no blog, ela tem pelo menos 3 leitores. A carta não dá para ser resumida. Cada parágrafo dela é um diagjnóstico profundo o IFHC, das Ciências Humanas relegada para último plano. Diante da covardia que os professeores demonstraram depois de assinarem a carta, me obrigo a lembram Nelson Rodrigues e seu complexo de vira-latas para definir a subserviência.

Veja Blog de João da Silva
Revista Miséria

Alguns textos do Jornal do Porão também foram publicados na Revista Iskra, uma revista teórica de Jovem marxistas traz artigos sobre a repressão as festas no IFCH e na Unicamp.

Um conto dos mais lidos, so de consulta pelo nome, foram 31 vezes em 2010. Um grande achado. O Arquivo, de Victor Giudice. Dizem que é o conto brasileiro mais publicado no mundo. 27 vezes.


bom dia, conto de Newton Peron

15/10/2010

bom dia, querido, disse a voz empapuçada do banheiro. bom dia, respondi da cama. estou indo preparar o café, cuspindo espuma de pasta de dente.


Desvario Carlos Zéfiro

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fui para cozinha, comecei a beber seu café doce e frio, beijei sua bochecha áspera enquanto ela preparava sua missa matinal. mergulhou o pão com manteiga no café com leite. partiu o pão e entregou para mim dizendo toma, amorzinho, eu não aguento um inteiro. olhei para seus lábios lambuzados, sua xícara com pedaços de manteiga boiando, e afastei minha metade de pão molhado no pires.

pensei em nosso casamento. ela havia sido bonita, corpo quase atlético. hoje ela era a típica esposa perfeita, dedicada ao marido, velha, insossa. tinha um jeito irritante de ser simpática e era tão agradável quanto seu café da manhã. muitas vezes eu entrava no carro rezando para que ele pegasse antes que desse tempo dela se despedir com um beijo mole no rosto.


Busca Carlos Zéfiro

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mas no trabalho não era diferente. papel, dedo cortado, arquivo, ofício, solicitação, computador, caneta, papel. chefe mal-humorado, cliente mal-humorado, eu mal-humorado. colega de serviço de minissaia se esfregando em mim no bebedouro.

sempre gostei de mulheres, especialmente as de coxas robustas, de seios duros, de barriga definida. prefiro as de cabelos pretos, curtos, pele clara. minha mulher, jovem, era assim, mas sempre de cabelo comprido. parece crente.


carlos Zéfrio

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a mulher do serviço era loura, meio feia, mas de corpo malhado. não entendia porque queria transar comigo, meu chefe ganhava muito mais do que eu. talvez fosse tara, sei lá. mulher doente. mas nunca achei que valesse a pena.

e não valeu. o motel barato, o champanhe mais doce que o café, sua barriga não tão definida, seu rosto mais feio de perto. beijava mecanicamente, tirava a roupa estupidamente, abria as pernas exageradamente, gemia ridiculamente.

quer que eu esquente o leitinho?. não, sempre odiei leite com café, principalmente no diminutivo. mas olhando de perto aquela cara enrugada, o café melado, o leite com nata, o pão murcho com manteiga light, respondi só um pouco, bem. e derramou o leite na xícara com um sorriso idiota na cara.

mais idiota era a cara que fazia quando transávamos. uma mistura de menina e de puta, com o pior das duas. inexperiente como uma menina, gelada como uma puta. por isso às vezes ia para o puteiro, mas nunca tive dinheiro para pagar uma bonita, malhada. sempre paguei aquilo que poderia achar na rua de graça, ou quase isso.

não vou deixar você ir para escola desse jeito, parece uma puta. virei e olhei para aquela mulher de dezesseis anos. havia cortado o cabelo preto. tinha batom vermelho nos lábios carnudos, leve maquiagem no rosto. a camisa justa, a saia míni. por baixo da meia-calça, pernas longas e roliças. dentro da sandália, pés de porcelana. não parecia minha filha.

Filha de Minha Amante, Carlos Zéfiro

Filha de Minha Amante, Carlos Zéfiro

 

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era sua mãe, rejuvenescida. os traços mais bonitos do que ela quando jovem. corpo perfeito. não dizia bom dia pai, apenas oi. nunca levava a sério a mãe, apenas sentou e pediu para passar o café, puro. não era sua mãe, nem rejuvenescida.

você não vai dizer nada, bem?. uma mistura de menina e de puta, com o melhor das duas. não, eu não diria nada. apenas olharia seu decote enquanto lhe passava o café. enquanto ela tocava minha mão e olhava para mim lasciva. como uma menina. como uma puta.

estou atrasado. e estava mesmo. o papel, o computador, a caneta e a colega de serviço me esperavam afoitos. me leva na escola?. você não vai na escola desse jeito, menina!. olhadela de desprezo para a mãe. me leva?.


Carlos Zéfiro

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

então vamos já!. minha filha saltitou da cadeira e abandonou sua xícara. um naco de pão velho enroscou na minha garganta. dei uma talagada no leite marrom açucarado. levantei fingindo pressa enquanto olhava minha filha de um ângulo melhor. uma mão escamosa me segurou pelo braço e disse eu não acredito que você vai levar ela assim. depois conversamos, querida. soltou meu braço com força e virou a cara bufando. fui lentamente até a porta com minha filha e aguardei por uns instantes o beijo-matinal-no-rosto de minha mulher. pela primeira vez em vinte anos ela não quis dar.

entramos no carro. dei partida. nada. de novo. nada. fuscas sessenta e nove não costumam pegar na primeira vez. eu nunca dei a mínima para isso. minha mulher ficava roxa de vergonha. a colega do serviço me olhava com desdém. de novo. nada. mas quando minha filha me olhou e deu um sorriso de canto de boca, comecei a soar. percebi a carroça que andava, o banco rasgado, a maçaneta pendurada. olhei para o retrovisor, um homem de meia-idade, com resquícios de beleza, barba por fazer, cabelos despenteados. comecei a me pentear com as mãos. ela virou e disse deixa isso comigo. começou a massagear meus cabelos. um pente surgiu de sua mão, talvez da bolsa. me penteava, com calma. de novo. o carro pegou. guardou o pente e me deu um beijo vermelho na bochecha.


A Queda Carlos Zefiro

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começamos a andar. gostou do meu cabelo?. sim, adorei. cortei ontem, fiquei esperando até meia noite para mostrar para você. eu não lembrava a que horas havia chegado no dia anterior. havia bebido sozinho em algum boteco, como sempre, para esquecer o serviço burocrático, meu casamento burocrático, meu caso burocrático. havia chegado em casa e me jogado na cama com a mesma roupa, como sempre. se eu a tivesse visto de noite com o cabelo curto e de camisola, provavelmente não teria conseguido dormir. eu sei que você gosta de mulheres de cabelo curto.

eu sei que você gosta de mulheres de cabelo curto. minha mulher tinha cabelo preto, liso, comprido. minha amante louro, crespo, comprido. semáforo fechado. olhei para ela novamente, estava obscena. vamos tomar um café de verdade ali na padaria?, odeio o café dela. também nunca a chamava de mãe. tampouco pelo nome. estou atrasado. eu sei, mas só um cafezinho, vai, eu pago. como eu poderia recusar um convite de uma mulher de lábios carnudos, olhos negros, sobrancelhas delicadas, cabelos curtos?. pode deixar, eu pago. nunca fui cavalheiro, mas com ela eu tinha que ser, era minha filha. mas rápido, einh?, estou atrasado. abriu o semáforo.

dois expressos, por favor. parece que ela não gostou muito da minha roupa – reticências – mas não quero saber a opinião dela, quero saber a opinião de um homem, o que você acha?. levantou do banco, empinou o bumbum, virou um pouco os ombros com os braços para trás. a camisa ficou mais colada e pude ver o contorno do sutiã. eu não acho nada. quase sem voz. aproximou sua boca de minha orelha. fala vai, o que você acha?. você está bem. gaguejando. sentou. pousou sua mão em minha coxa. dedos carinhosos. unhas bem cuidadas. palma macia fazendo círculos lentos sobre minha calça. café de verdade com uma mulher de verdade. estou atrasado, vamos!. paguei o café.


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dentro do carro. essa mulher é minha filha lembro dela criança nos seios de minha mulher em meu colo na rua de amarelinha na escola chorando saindo com as amigas de repente acorda de cabelos curtos pescoço longo pernas longas cintura curta sei que nunca terei coragem de fazer algo mais que beijos na bochecha abraços mão no ombro nas costas na barriga mas vou pensar nela semanas meses anos dias horas até ela casar com algum idiota com dinheiro – nunca será minha – mas continuarei abraçando beijando tocando ainda casada – sempre será minha – seu corpo escultural é parte do meu e meu sangue ferve em seus músculos e ela brotou de meu sêmen e eu a quero de volta quero a boca macia que me sussurra quero suas mãos dedos longos unhas curtas – nunca será minha – vou imaginar seu rosto de marfim e olhar para o de granito de sua mãe e vou acabar com meu caso e não suporto aquela mulher desengonçada e vou homenagear todo dia minha filha no banheiro da firma mas nunca serei capaz de tocá-la porque sou covarde porque sou escroto.


FrutosProibidos Carlos Zéfiro

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chegamos na escola. nunca será minha. ela soltou o cinto de segurança e me deu um beijo.

na boca.

newton peron