A Delinqüência Acadêmica, por Maurício Tragtemberg

19/11/2010

Este artigo publicado em 1978. Publicado aqui neste Jornal do Porão em 19 de novembro de 2009 é um dos textos mais lidos do Jornal do Porão. Mas ainda pouco lido. A biblioteca da da Faculdade de Educação da Unicamp tem uma coleção de Maurício Tragtemberg. Mas o que significa Maurício Tratgemberg para os professores da Unicamp?
Ano a ano republicarei este texto dele , esperando respostas.

Assim como Maurício Tratgtemberg, é convenientemente esquecido Paulo Freire. Que não devemos cansar de lembrar, foi escolhido como Reitor e quem ficou em 14o. lugar na consulta, o Dr. Pinotti, foi quem assumiu. E assim a coligação que escolheu Pinotti, o décimo quarto colocado, manda na Unicamp até hoje. Mais de 20 anos de mando. Será que esta coligação, herdeira de Pinotti, tem algum mérito próximo a Paulo Freire e Maurício Tragtemberg?

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por Maurício Tragtenberg* [* Texto apresentado no I Seminário de Educação Brasileira, realizado em 1978, em Campinas-SP. Publicado em: TRAGTENBERG, M. Sobre Educação, Política e Sindicalismo. Sã Paulo: Editores Associados; Cortez, 1990, 2ª ed. (Coleção teoria e práticas sociais, vol 1)]

O tema é amplo: a relação entre a dominação e o saber, a relação entre o intelectual e a universidade como instituição dominante ligada à dominação, a universidade antipovo.

A universidade está em crise. Isto ocorre porque a sociedade está em crise; através da crise da universidade é que os jovens funcionam detectando as contradições profundas do social, refletidas na universidade. A universidade não é algo tão essencial como a linguagem; ela é simplesmente uma instituição dominante ligada à dominação. Não é uma instituição neutra; é uma instituição de classe, onde as contradições de classe aparecem. Para obscurecer esses fatores ela desenvolve uma ideologia do saber neutro, científico, a neutralidade cultural e o mito de um saber “objetivo”, acima das contradições sociais.

No século passado, período do capitalismo liberal, ela procurava formar um tipo de “homem” que se caracterizava por um comportamento autônomo, exigido por suas funções sociais: era a universidade liberal humanista e mandarinesca. Hoje, ela forma a mão-de-obra destinada a manter nas fábricas o despotismo do capital; nos institutos de pesquisa, cria aqueles que deformam os dados econômicos em detrimento dos assalariados; nas suas escolas de direito forma os aplicadores da legislação de exceção; nas escolas de medicina, aqueles que irão convertê-la numa medicina do capital ou utilizá-la repressivamente contra os deserdados do sistema. Em suma, trata-se de “um complô de belas almas” recheadas de títulos acadêmicos, de um doutorismo substituindo o bacharelismo, de uma nova pedantocracia, da produção de um saber a serviço do poder, seja ele de que espécie for.

Na instância das faculdades de educação, forma-se o planejador tecnocrata a quem importa discutir os meios sem discutir os fins da educação, confeccionar reformas estruturais que na realidade são verdadeiras “restaurações”. Formando o professor-policial, aquele que supervaloriza o sistema de exames, a avaliação rígida do aluno, o conformismo ante o saber professoral. A pretensa criação do conhecimento é substituída pelo controle sobre o parco conhecimento produzido pelas nossas universidades, o controle do meio transforma-se em fim, e o “campus” universitário cada vez mais parece um universo concentracionário que reúne aqueles que se originam da classe alta e média, enquanto professores, e os alunos da mesma extração social, como “herdeiros” potenciais do poder através de um saber minguado, atestado por um diploma.

A universidade classista se mantém através do poder exercido pela seleção dos estudantes e pelos mecanismos de nomeação de professores. Na universidade mandarinal do século passado o professor cumpria a função de “cão de guarda” do sistema: produtor e reprodutor da ideologia dominante, chefe de disciplina do estudante. Cabia à sua função professoral, acima de tudo, inculcar as normas de passividade, subserviência e docilidade, através da repressão pedagógica, formando a mão-de-obra para um sistema fundado na desigualdade social, a qual acreditava legitimar-se através da desigualdade de rendimento escolar; enfim, onde a escola “escolhia” pedagogicamente os “escolhidos” socialmente.

A transformação do professor de “cão de guarda” em “cão pastor” acompanha a passagem da universidade pretensamente humanista e mandarinesca à universidade tecnocrática, onde os critérios lucrativos da empresa privada, funcionarão para a formação das fornadas de “colarinhos brancos” rumo às usinas, escritórios e dependências ministeriais. É o mito da assessoria, do posto público, que mobiliza o diplomado universitário.

A universidade dominante reproduz-se mesmo através dos “cursos críticos”, em que o juízo professoral aparece hegemônico ante os dominados: os estudantes. Isso se realiza através de um processo que chamarei de “contaminação”. O curso catedrático e dogmático transforma-se num curso magisterial e crítico; a crítica ideológica é feita nos chamados “cursos críticos”, que desempenham a função de um tranqüilizante no meio universitário. Essa apropriação da crítica pelo mandarinato universitário, mantido o sistema de exames, a conformidade ao programa e o controle da docilidade do estudante como alvos básicos, constitui-se numa farsa, numa fábrica de boa consciência e delinqüência acadêmica, daqueles que trocam o poder da razão pela razão do poder. Por isso é necessário realizar a crítica da crítica-crítica, destruir a apropriação da crítica pelo mandarinato acadêmico. Watson demonstrou como, nas ciências humanas, as pesquisas em química molecular estão impregnadas de ideologia. Não se trata de discutir a apropriação burguesa do saber ou não-burguesa do saber, mas sim a destruição do “saber institucionalizado”, do “saber burocratizado” como único “legítimo”. A apropriação universitária (atual) do conhecimento é a concepção capitalista de saber, onde ele se constitui em capital e toma a forma nos hábitos universitários.

A universidade reproduz o modo de produção capitalista dominante não apenas pela ideologia que transmite, mas pelos servos que ela forma. Esse modo de produção determina o tipo de formação através das transformações introduzidas na escola, que coloca em relação mestres e estudantes. O mestre possui um saber inacabado e o aluno uma ignorância transitória, não há saber absoluto nem ignorância absoluta. A relação de saber não institui a diferença entre aluno e professor, a separação entre aluno e professor opera-se através de uma relação de poder simbolizada pelo sistema de exames – “esse batismo burocrático do saber”. O exame é a parte visível da seleção; a invisível é a entrevista, que cumpre as mesmas funções de “exclusão” que possui a empresa em relação ao futuro empregado. Informalmente, docilmente, ela “exclui” o candidato. Para o professor, há o currículo visível, publicações, conferências, traduções e atividade didática, e há o currículo invisível – esse de posse da chamada “informação” que possui espaço na universidade, onde o destino está em aberto e tudo é possível acontecer. É através da nomeação, da cooptação dos mais conformistas (nem sempre os mais produtivos) que a burocracia universitária reproduz o canil de professores. Os valores de submissão e conformismo, a cada instante exibidos pelos comportamentos dos professores, já constituem um sistema ideológico. Mas, em que consiste a delinqüência acadêmica?

A “delinqüência acadêmica” aparece em nossa época longe de seguir os ditames de Kant: “Ouse conhecer.” Se os estudantes procuram conhecer os espíritos audazes de nossa época é fora da universidade que irão encontrá-los. A bem da verdade, raramente a audácia caracterizou a profissão acadêmica. Os filósofos da revolução francesa se autodenominavam de “intelectuais” e não de “acadêmicos”. Isso ocorria porque a universidade mostrara-se hostil ao pensamento crítico avançado. Pela mesma razão, o projeto de Jefferson para a Universidade de Virgínia, concebida para produção de um pensamento independente da Igreja e do Estado (de caráter crítico), fora substituído por uma “universidade que mascarava a usurpação e monopólio  da riqueza, do poder”. Isso levou os estudantes da época a realizarem programas extracurriculares, onde Emerson fazia-se ouvir, já que o obscurantismo da época impedia a entrada nos prédios universitários, pois contrariavam a Igreja, o Estado e as grandes “corporações”, a que alguns intelectuais cooptados pretendem que tenham uma “alma”.[1]

Em nome do “atendimento à comunidade”, “serviço público”, a universidade tende cada vez mais à adaptação indiscriminada a quaisquer pesquisas a serviço dos interesses econômicos hegemônicos; nesse andar, a universidade brasileira oferecerá disciplinas como as existentes na metrópole (EUA): cursos de escotismo, defesa contra incêndios, economia doméstica e datilografia em nível de secretariado, pois já existe isso em Cornell, Wisconson e outros estabelecimentos legitimados. O conflito entre o técnico e o humanismo acaba em compromisso, a universidade brasileira se prepara para ser uma “multiversidade”, isto é, ensina tudo aquilo que o aluno possa pagar. A universidade, vista como prestadora de serviços, corre o risco de enquadrar-se numa “agência de poder”, especialmente após 68, com a Operação Rondon e sua aparente democratização, só nas vagas; funciona como tranqüilidade social. O assistencialismo universitário não resolve o problema da maioria da população brasileira: o problema da terra.

A universidade brasileira, nos últimos 15 anos, preparou técnicos que funcionaram como juízes e promotores, aplicando a Lei de Segurança Nacional, médicos que assinavam atestados de óbito mentirosos, zelosos professores de Educação Moral e Cívica garantindo a hegemonia da ideologia da “segurança nacional” codificada no Pentágono.

O problema significativo a ser colocado é o nível de responsabilidade social dos professores e pesquisadores universitários. A não preocupação com as finalidades sociais do conhecimento produzido se constitui em fator de “delinqüência acadêmica” ou da “traição do intelectual”. Em nome do “serviço à comunidade”, a intelectualidade universitária se tornou cúmplice do genocídio, espionagem, engano e todo tipo de corrupção dominante, quando domina a “razão do Estado” em detrimento do povo. Isso vale para aqueles que aperfeiçoam secretamente armas nucleares (M.I.T.), armas químico-biológicas (Universidade da Califórnia, Berkeley), pensadores inseridos na Rand Corporation, como aqueles que, na qualidade de intelectuais com diploma acreditativo, funcionam na censura, na aplicação da computação com fins repressivos em nosso país. Uma universidade que produz pesquisas ou cursos a quem é apto a pagá-los perde o senso da discriminação ética e da finalidade social de sua produção – é uma multiversidade que se vende no mercado ao primeiro comprador, sem averiguar o fim da encomenda, isso coberto pela ideologia da neutralidade do conhecimento e seu produto.

Já na década de 30, Frederic Lilge[2] acusava a tradição universitária alemã da neutralidade acadêmica de permitir aos universitários alemães a felicidade de um emprego permanente, escondendo a si próprios a futilidade de suas vidas e seu trabalho. Em nome da “segurança nacional”, o intelectual acadêmico despe-se de qualquer responsabilidade social quanto ao seu papel profissional, a política de “panelas” acadêmicas de corredor universitário e a publicação a qualquer preço de um texto qualquer se constituem no metro para medir o sucesso universitário. Nesse universo não cabe uma simples pergunta: o conhecimento a quem e para que serve? Enquanto este encontro de educadores, sob o signo de Paulo Freire, enfatiza a responsabilidade social do educador, da educação não confundida com inculcação, a maioria dos congressos acadêmicos serve de “mercado humano”, onde entram em contato pessoas e cargos acadêmicos a serem preenchidos, parecidos aos encontros entre gerentes de hotel, em que se trocam informações sobre inovações técnicas, revê-se velhos amigos e se estabelecem contatos comerciais.

Estritamente, o mundo da realidade concreta e sempre muito generoso com o acadêmico, pois o título acadêmico torna-se o passaporte que permite o ingresso nos escalões superiores da sociedade: a grande empresa, o grupo militar e a burocracia estatal. O problema da responsabilidade social é escamoteado, a ideologia do acadêmico é não ter nenhuma ideologia, faz fé de apolítico, isto é, serve à política do poder.

Diferentemente, constitui, um legado da filosofia racionalista do século XVIII, uma característica do “verdadeiro” conhecimento o exercício da cidadania do soberano direito de crítica questionando a autoridade, os privilégios e a tradição. O “serviço público” prestado por estes filósofos não consistia na aceitação indiscriminada de qualquer projeto, fosse destinado à melhora de colheitas, ao aperfeiçoamento do genocídio de grupos indígenas a pretexto de “emancipação” ou política de arrocho salarial que converteram o Brasil no detentor do triste “record” de primeiro país no mundo em acidentes de trabalho. Eis que a propaganda pela segurança no trabalho emitida pelas agências oficiais não substitui o aumento salarial.

O pensamento está fundamentalmente ligado à ação. Bergson sublinhava no início do século a necessidade do homem agir como homem de pensamento e pensar como homem de ação. A separação entre “fazer” e “pensar” se constitui numa das doenças que caracterizam a delinqüência acadêmica – a análise e discussão dos problemas relevantes do país constitui um ato político, constitui uma forma de ação, inerente à responsabilidade social do intelectual. A valorização do que seja um homem culto está estritamente vinculada ao seu valor na defesa de valores essenciais de cidadania, ao seu exemplo revelado não pelo seu discurso, mas por sua existência, por sua ação.

Ao analisar a “crise de consciência” dos intelectuais norte-americanos que deram o aval da “escalada” no Vietnã, Horowitz notara que a disposição que eles revelaram no planejamento do genocídio estava vinculada à sua formação, à sua capacidade de discutir meios sem nunca questionar os fins, a transformar os problemas políticos em problemas técnicos, a desprezar a consulta política, preferindo as soluções de gabinete, consumando o que definiríamos como a traição dos intelectuais. É aqui onde a indignidade do intelectual substitui a dignidade da inteligência.

Nenhum preceito ético pode substituir a prática social, a prática pedagógica.

A delinqüência acadêmica se caracteriza pela existência de estruturas de ensino onde os meios (técnicas) se tornam os fins, os fins formativos são esquecidos; a criação do conhecimento e sua reprodução cede lugar ao controle burocrático de sua produção como suprema virtude, onde “administrar” aparece como sinônimo de vigiar e punir – o professor é controlado mediante os critérios visíveis e invisíveis de nomeação; o aluno, mediante os critérios visíveis e invisíveis de exame. Isso resulta em escolas que se constituem em depósitos de alunos, como diria Lima Barreto em “Cemitério de Vivos”.

A alternativa é a criação de canais de participação real de professores, estudantes e funcionários no meio universitário, que oponham-se à esclerose burocrática da instituição.

A autogestão pedagógica teria o mérito de devolver à universidade um sentido de existência, qual seja: a definição de um aprendizado fundado numa motivação participativa e não no decorar determinados “clichês”, repetidos semestralmente nas provas que nada provam, nos exames que nada examina, mesmo porque o aluno sai da universidade com a sensação de estar mais velho, com um dado a mais: o diploma acreditativo que em si perde valor na medida em que perde sua raridade.

A participação discente não constitui um remédio mágico aos males acima apontados, porém a experiência demonstrou que a simples presença discente em colegiados é fator de sua moralização.

* Texto apresentado no I Seminário de Educação Brasileira, realizado em 1978, em Campinas-SP. Publicado em: TRAGTENBERG, M. Sobre Educação, Política e Sindicalismo. Sã Paulo: Editores Associados; Cortez, 1990, 2ª ed. (Coleção teoria e práticas sociais, vol 1)

[1] Kaysen pretende atribuir uma “alma”à corporação multinacional; esta parece não preocupar-se com tal esforço construtivo do intelectual.

[2] Frederic LILGE, The Abuse of Learning: The Failure of German University. Macmillan, New York, 1948

 


Você pode também abaixar o arquivo em pdf. Basta clicar no link abaixo:

A Delinqüência Acadêmica – Maurício Tragtenberg


CONCEITOS RETIRADOS DOS TEXTOS ABAIXO, CUJO TÍTULO E CONTEÚDO DO ORIGINAL SÃO MANTIDOS AO CLICAR NOS LINKS.

1. DELINQUÊNCIA ACADÊMICA, de Maurício Tragtemberg

2. BAGRINHOS, do texto de Alfredo Marques

3. HOMEM-DISPOSITIVO, do texto de Francisco Foot Hardman

4. FIM DA UNIVERSIDADE PÚBLICA, do texto de Marilena Chauí

5. ETHOS DE GANGUE, do texto de Luiz Felipe Pondé

6. MIKE BONGIORNO, do ensaio de Umberto Eco

7. CASTA DOS INTOCÁVEIS, da entrevista de Chico de Oliveira

8. CARTA DOS PROFESSORES DO IFCH, “O IFCH ESTÁ AGONIZANDO”


A INFLUÊNCIA DO JORNAL DO PORÃO. Um balanço pelos cinco mil acessos.

24/10/2010

Mike Bongiorno. FENOMENOLOGIA DE MIKE BONGIORNO, de Umberto Eco. Este ensaio de 1961 foi publicado aqui no Jornal do Porão em 21 de fevereiro de 2009. Apesar de um longo ensaio para um blog é um dos textos mais lidos. Quando foi publicado em fevereiro de 2009, digite-o inteiro de um livro, pela indignação de ver a pobreza intelectual, o servilismo e as bobagens que ouvi de alguns professores do IFCH. Como por exemplo, diante da comemoração dos 50 anos do Teatro Oficina, certo professor de história dizer que “falei durante três aulas que o Zé Celso só quer chocar as pessoas”. Pior foi outro dizendo sobre o acervo do Teatro Oficina no Arquivo Edgard Leuenroth: “Aquela bicha…”. Nem pensava em Berlusconi, mas em professores do IFCH, arrivistas, carreiristas e especialistas em exercer seus poderes.

O texto mais lido, quase todas as semanas tem 4 ou 5 pessoas acessando-o, é o Jornal do Porão 4. É um Jornal que fala de Noel Rosa, de Chico Mendes e da Praça dos Trabalhadores. Mostrando a violência da pequenez dos políticos. São os próprios Mike Bogiornos.
Como colocar numa pracinha minúscula o nome de um dos maiores compositores e personalidade da cultura popular brasileira? Estudante de medicina que se liga, imediatamente, aos fundadores do samba. O samba tem várias vertentes, mas aquela que proliferou que tomou os rádios, e que tomou a país inteiro, foi arquitetada no Estácio. Noel Rosa logo vai ser parceiro de Ismael Silva, o grande do Estácio. E a antiga tripinha chamada Praça Chico Mendes cheia de lixo, tendo hoje uma desconhecida como nome oficial. Aqui Chico Mendes foi salvo da humilhação. E a praça dos trabalhadores então que nem existe, é um canteiro debaixo de uma ponte. E aqui neste Jornal do Porão ainda virá um artigo com fotos da Praça Tim Maia, um canteirizinho de terra batida e sujo. Os políticos são uns pobre-diabos.




Mário Medeiros contra a terceirização

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

Outro texto que todas as semanas têm leitores é “UMA SEGUNDA MORTE PARA CLÓVIS GARICA”, de Mário Augusto Medeiros da Silva. Como os leitores já sabem, Mário Medeiros já teve os dois contos mais lidos neste blog. “Meias de seda se esgarçando”, provocou 104 leitores num dia, um segundo lugar de leitores, pois Jornal do Porão número 4 teve 119 no dia em que foi lançado, em fevereiro de 2009. Mas seu “Membro Fantasma” será o terceiro texto mais lido do blog: 84 leitores no dia que foi lançado o conto. Mário Medeiros da Silva deixa de ser colaborador para se tornar uma co-autor do blog. Não posso deixar de citar a melhor frase escrita neste blog foi quando Mário Augusto Medeiros da Silva, escrevendo um artigo em defesa de Mário Martins, perseguido pelos Mike Bongiornos do IFCH, cunhou esta: “O ato de acochambrar pelo poder, alcoviltar, escorchar e tomar atitudes numa relação de desigualdade (chefe-subordinado) é o elogio da estupidez. O chefe que precisa usar da força – censurar, chamar em sala, beco, alcova, colocar no canto, ameaçar, impor-se pelo cargo – demonstra que a sua suposta autoridade não possui nenhuma legitimidade, para além do cargo institucional e do medo que inspira. Respeito, então, nem se fale. É um estúpido. Uma besta com polegares. É indigno de ser chamado de intelectual, de pensador. É o ato de um delinqüente acadêmico, de homem-dispositivo, na melhor acepção que deram a esses termos Maurício Tragtenberg e Franciso Foot Hardman.”
Em defesa do Jornal do Porão, de seu criador e de todos nós.
14/11/2009 IDÉIAS SE COMBATEM COM IDÉIAS.

Há textos no Jornal do Porão que não são originais, mas que são constantemente lidos. Mas são originais no sentido que foram escolhidos para serem editados aqui. E porque cumprem a função de criar o debate. Textos também esquecidos que entram novamente em circulação. O principal deles é “A Delinqüência Acadêmica”, de Maurício Tragtemberg. Sempre lido, mas ainda não lido suficientemente. É um texto de 1978, mas parece que fala de agora. E dentro desta questão da academia o texto fundamental é “Segunda Refundação”, de Marilena Chauí. Na verdade pouco lido, mesmo porque é um ensaio imenso. Texto escrito em 1994 e ainda não assimilado. O movimento estudantil, segundo minha leitura do texto, fala de uma Universidade que nem existe mais. E Marilena Chauí prova isso. Sem este texto, acho, falar de universidade é fazer um debate sobre o vazio, como se fôssemos fantasmas.

E um texto querido. É muito lido, mas eu queria que fosse mais e mais. “AMOR CRISTÃO”, de Marcelino Freire. É uma porrada nos bem pensantes e sentimentalóides. Assim como são os poemas de Roberto Piva que também são lidos, toda a semana tem pelo menos 1 leitor aqui no Jornal do Porão.




terceirização coletivo Miséria 004

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

Mas o Jornal do Porão vive um momento especial. Os desenhos de João da Silva. O coletivo Miséria e sua revista Miséria é algo único na Unicamp. Algo criativo, inventivo e que marcará época. Haverá uma época da Unicamp que, no futuro, falaremos da época da Revista Miséria. Que outra época a Unicamp tem? No futuro falaremos de um passado bem distinto, marcante. Convoco as pessoas a falarem destes momentos realmente marcantes e fundadores da Unicamp, se os houver.




churrasco Hélio (7)

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

O momento especialíssimo das contribuições de Mário Augusto Medeiros da Silva. Sempre presente no Jornal do Porão e sempre criando impacto e leitores. Mas alerto aos desatentos. Newton Perón eu recomendo. Minha leitura e releituras tem sido, constantemente, ir ilustrando os textos. Aos textos de Newton Perón eu tenho dedicado esta leitura ilustrativa, ALGUNS AINDA INÉDITOS, em comemoração aos 5 mil acessos ao Jornal do Porão. Tenho, acho, conseguido ponto alto. A conferir.

O Jornal do Porão nasceu para ser um jornaleco litero/político/jocoso. Tem sido. Mas sua vocação tem sido de ser uma revista de onde amigos dialogam e tentam influir, criando uma visão de mundo assentada na cultura, na luta contra opressão e toda espécie de moralismo pequeno-burguês ou carola. Tem avançado. Pois, como vimos, textos difíceis são lidos e relelidos.
Se perceberam há dois contos inéditos de Newton Peron, ainda agendadados para serem publicados, mas que podem ser lidos já. Mas para página ainda tem algo mais que é publicado hoje. Acessem o no Flicker album com algumas fotos de Josephine Baker, comentada no texto de Umberto Ecco, Mike Bongiorno.

E já ia me esquecendo de Mário Bortolotto e seu sempre lido, aqui, “Me gústan las muchachas putanas”. Que iniciou neste Jornal do Porão os textos contra o moralismo idiota. Este mesmo que não fosse lido por ninguém eu republicaria até para relelê-lo.

As fotos do Flickr são muito vistas através deste Jornal do Porão. As campeãs são as fotos da “Capoeira Angola”, desenhos de Carbé. Só na sexta-feira, 22 de outubro 2010, a página com os desenhos “capoeira angola, de Caribé” teve 9(nove) acessos.
Pretendo em todos os aniversários da primeira publicação destes textos republicá-los.
PS. Newton Peron, além de ser um formidável coloborador deste Jornal do Porão, no auge da perseguição dos “burocratas mortos” a este editor e a este jornal, Newtinho assumiu a edição deste. Portanto ele será sempre um dos editores deste jornaldoporao.

Alguns textos de Mário Augusto (Medeiros da Silva), neste blog.

Este blog, nos seus mais de 5 mil acessos, reafirma um dos seus eixos, que é a preocupação política cotidiana. Interviu. Incomodou. Mas há uma grande curiosidade e uma sociologia inteira do profressorado do IFHC. No primeiro semestre de 2009, 80 professores do IFHC, assinaram uma carta que termina de maneira arrogante diante do Reitor. Nesta carta que inicia dizendo que o ‘IFHC ESTÁ AGONIZANDO’ e na reunião que a votou diziam que não iniciariam o segundo semestre, pois era impossível continua sem enfrentar radicalmente o problema, pois em 2011 o IFCH FALIRIA. Hoje está carta só pode ser lida aqui. Nenhum professor a cita. O que mostra que todos os 80 são coniventes com a agonia do IFCH. Mais. Devem ganhar com isso. No album Flickr do Jornal do Porão você pode ver a reação e mobilização dos estudantes.Mas há muito gente atenta a esta carta, muito menos do que devia, mas toda semana, aqui no blog, ela tem pelo menos 3 leitores. A carta não dá para ser resumida. Cada parágrafo dela é um diagjnóstico profundo o IFHC, das Ciências Humanas relegada para último plano. Diante da covardia que os professeores demonstraram depois de assinarem a carta, me obrigo a lembram Nelson Rodrigues e seu complexo de vira-latas para definir a subserviência.

Veja Blog de João da Silva
Revista Miséria

Alguns textos do Jornal do Porão também foram publicados na Revista Iskra, uma revista teórica de Jovem marxistas traz artigos sobre a repressão as festas no IFCH e na Unicamp.

Um conto dos mais lidos, so de consulta pelo nome, foram 31 vezes em 2010. Um grande achado. O Arquivo, de Victor Giudice. Dizem que é o conto brasileiro mais publicado no mundo. 27 vezes.


LINKS PARA TEXTOS CONCEITUAIS

27/02/2010

CONCEITOS RETIRADOS DOS TEXTOS ABAIXO, CUJO TÍTULO E CONTEÚDO DO ORIGINAL SÃO MANTIDOS AO CLICAR NOS LINKS.

1. DELINQUÊNCIA ACADÊMICA, de Maurício Tragtemberg

2. BAGRINHOS, do texto de Alfredo Marques

3. HOMEM-DISPOSITIVO, do texto de Francisco Foot Hardman

4. FIM DA UNIVERSIDADE PÚBLICA, do texto de Marilena Chauí

5. ETHOS DE GANGUE, do texto de Luiz Felipe Pondé

6. MIKE BONGIORNO, do ensaio de Umberto Eco

7. CASTA DOS INTOCÁVEIS, da entrevista de Chico de Oliveira

8 . “O IFCH ESTÁ AGONIZANDO”, carta dos professores do IFCH, dirigida ao Reitor e à comunidade acadêmica, assinada por 80 prefessores


quem são os homens dispositivos, professores e burocratas? leia o texto do Prof. Francisco Foot Hardman

27/02/2010

O HOMEM DISPOSITIVO, de Francisco Foot Hardman

[Ler texto completo no Portal da Unicamp]

Maestria na arte da devida obediência (O Estado de São Paulo – Aliás – 24/9/2006)
O homem-dispositivo não age só. Ele se apresenta como emissário

Francisco Foot Hardman*

Os nomes desses senhores já são farsa, piadas-prontas antes de serem pronunciados. Pensávamos nesse pesadelo impensável como uma peça de teatro do absurdo, se bem que nem Ionesco nem Arrabal seriam capazes de representar enganos em tal magnitude. Na arte contemporânea do não-sentido, a figuração da mentira alcança a elevação sublime que duvida da razão humana ainda em nome dela mesma. Na cena rasteira da política atual, a mentira não se fantasia de nada: veste o manto da razão cínica e auto-administra-se como dispositivo do poder, alheia não só à tão propalada moral, mas antes e acima disso à própria idéia de qualquer pensamento que restaurasse ao menos as pegadas de nossas utopias perdidas. Aquelas que o iluminismo (ou ilusionismo, conforme PCC) um dia dizia ter inventado.

Por isso, não há que se fazer questão dos nomes, porque os personagens já se embaralharam há muito. Pois todo Lula tem seu Serjão, assim como todo FHC deve ter tido seu PC Farias e, afinal, todo Collor possui seu Zé Dirceu. Vejam que agora mesmo os presidentes do PFL (Jorge Bornhausen) e do PSDB (Tasso Jereissati) não estão muito preocupados com nomes, afora o do candidato-presidente. Para os dois caciques, mais importante até que a origem da grana apreendida com agentes destemidos do “comissariado para mídias arriscadas” do PT, o xis do negócio é o flagrante fotográfico das notas, do cofre, das malas, obsessão que mal disfarça sua nostalgia daquelas imagens quase em tempo real que vieram à TV na campanha presidencial de 2002, diretamente do comitê da candidata Roseana Sarney, ao que tudo indica numa operação mais eficaz que a atual, quando não em truculência, naquela blitz da Polícia Federal com forte cheiro tucano. Pena que tal fúria justiceira tenha se dissipado nos ventos do esquecimento, quando se tratou, pouco tempo atrás, de se concluir a CPI do Banestado, cujo final sem final, que a muitos certamente interessava, contou com a eficiente dupla de homens-dispositivo, irmanados no verbo acobertar, José Mentor (PT) e Antero Paes de Barros (PSDB).

Mas, afinal, quem são os homens-dispositivo, que a robótica da sociedade global-financista do espetáculo, mais que a ciência política dos estados-nações, poderia nos configurar? Como já sugeri, esqueçamos por ora os nomes, porque a rigor todas as carteiras de identidade já aparecem falsas e fiquemos aqui no esboço preferencial de seu perfil. Fecham-se os círculos e arma-se o circo. Somos 126 milhões de “patrões”, diz-nos, com a mesma pompa que vem de longe, em seu exibicionismo bacharelesco, o presidente do TSE, Marco Aurélio de Mello. Acredite quem quiser. Os homens-dispositivo não agem sós, mas também não representam vontades particulares ou gerais. Por isso se apresentam indistintamente como emissários. São mestres na arte da obediência devida. Nascem nas ordens discursivas do aparelho jurídico-político, mas se espraiam pelos movimentos sociais. No Brasil recente, são exemplo notável as centrais sindicais, a começar pela CUT, que já nasceu velha em 1983, pois atrelada à estrutura sindical corporativa do Estado, herdada de Vargas, que por sua vez a herdou de Mussolini. Vejam esses homens-dispositivo do dossiê-Vedoin: quase todos fizeram carreira na CUT, quase todos prosperaram muitíssimo na vida, quase todos vivem de expedientes, projetos, dispositivos e ONGs. Retrocedamos ao mensalão (que já parece tão passado): Delúbio e Silvinho, homens de Dirceu, homem do Presidente – cutistas de primeira hora.

Não se restringe à esfera burocrático-sindical, entretanto, o homem-dispositivo. Pode estar nas grandes corporações industrial-financeiras ou de serviços. Estará certamente na grande imprensa, gráfica ou audiovisual. O ramo da propaganda e publicidade é bastante propício a seu florescimento. Idem, o da moda. No mundo do esporte globalizado, futebol à frente, o homem-dispositivo caminha célere para produzir resultados, inventar mitos, ganhar muito na fugacidade do jogo efêmero, das celebridades natimortas, dos patrocínios suspeitos, dos contratos-fantasmas.

Também na universidade contemporânea tomada de assalto pela ideologia produtivista e empresarial, convenhamos: homens-dispositivo ocupam o lugar do antigo poder acadêmico, ditam normas, centralizam recursos dirigidos prioritariamente à auto-reprodução, substituem o eixo ensino-pesquisa por perspectiva de extensão sem limites nem finalidade. O conhecimento desinteressado cede terreno a interesses conhecidos ou obscuros. Em nome da democratização, facilitam-se avaliações. Debates de idéias podem virar meras sessões de entretenimento. A educação sossobra nos corredores das políticas mais obscurantistas e de convênios picaretas.

E do aparato policial, então, claro, sobejam homens-dispositivo. E igualmente das igrejas pós-modernas. Dali e de cá poderão, sempre, nascer vocações irresistíveis. Assessores de campanhas eleitorais, leões-de-chácara de bingos, analistas de mídias arriscadas, capangas de colarinho branco, advogados de criminosos e sobretudo advogados do crime, pouco importa, essas funções se equivalem nos novos modos de dominação. Com alguma prática, a gente pode sacá-los de longe. Com suas pastinhas, laptops e gravatas. Fazendo emendas parlamentares ou parlamentando sobre as emendas feitas e suas respectivas cotações. Sacando dinheiro-vivo. Atravessando fronteiras mortas. Pelos meios de transporte tradicionais, ou on-line. Assim se fazem homens para presidentes. Assim se fazem presidentes reais.

Mas, atenção, esse processo não é em absoluto privilégio do povo brasileiro. O homem-dispositivo, parte dos mecanismos estatal-financeiros globalizados, pode trazer uma bomba na cintura ou dólares na bolsa. Depende. Daí que se redobrem cuidados. A única certeza é de que essa silhueta demasiadamente parecida com humana é só farsa, homem sem sombra, no desassossego da agitação sem causa, porque já sem pensamento, porque já sem palavra com nexo, porque já sem razão para. E nós, sim, seres realmente existentes, que realmente nada sabíamos, tornamo-nos à revelia apêndices vivos dessas marionetes sem vida. Não somos seus “patrões”, mas antes seus servos involuntários. Romper essas engrenagens: é a única condição para voltarmos a sonhar.

*Francisco Foot Hardman é professor de Teoria e História Literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp

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UNICAMP NA MÍDIA – FALE CONOSCO

Francisco Foot Hardman*

Os nomes desses senhores já são farsa, piadas-prontas antes de serem pronunciados. Pensávamos nesse pesadelo impensável como uma peça de teatro do absurdo, se bem que nem Ionesco nem Arrabal seriam capazes de representar enganos em tal magnitude. Na arte contemporânea do não-sentido, a figuração da mentira alcança a elevação sublime que duvida da razão humana ainda em nome dela mesma. Na cena rasteira da política atual, a mentira não se fantasia de nada: veste o manto da razão cínica e auto-administra-se como dispositivo do poder, alheia não só à tão propalada moral, mas antes e acima disso à própria idéia de qualquer pensamento que restaurasse ao menos as pegadas de nossas utopias perdidas. Aquelas que o iluminismo (ou ilusionismo, conforme PCC) um dia dizia ter inventado.

Por isso, não há que se fazer questão dos nomes, porque os personagens já se embaralharam há muito. Pois todo Lula tem seu Serjão, assim como todo FHC deve ter tido seu PC Farias e, afinal, todo Collor possui seu Zé Dirceu. Vejam que agora mesmo os presidentes do PFL (Jorge Bornhausen) e do PSDB (Tasso Jereissati) não estão muito preocupados com nomes, afora o do candidato-presidente. Para os dois caciques, mais importante até que a origem da grana apreendida com agentes destemidos do “comissariado para mídias arriscadas” do PT, o xis do negócio é o flagrante fotográfico das notas, do cofre, das malas, obsessão que mal disfarça sua nostalgia daquelas imagens quase em tempo real que vieram à TV na campanha presidencial de 2002, diretamente do comitê da candidata Roseana Sarney, ao que tudo indica numa operação mais eficaz que a atual, quando não em truculência, naquela blitz da Polícia Federal com forte cheiro tucano. Pena que tal fúria justiceira tenha se dissipado nos ventos do esquecimento, quando se tratou, pouco tempo atrás, de se concluir a CPI do Banestado, cujo final sem final, que a muitos certamente interessava, contou com a eficiente dupla de homens-dispositivo, irmanados no verbo acobertar, José Mentor (PT) e Antero Paes de Barros (PSDB).

Mas, afinal, quem são os homens-dispositivo, que a robótica da sociedade global-financista do espetáculo, mais que a ciência política dos estados-nações, poderia nos configurar? Como já sugeri, esqueçamos por ora os nomes, porque a rigor todas as carteiras de identidade já aparecem falsas e fiquemos aqui no esboço preferencial de seu perfil. Fecham-se os círculos e arma-se o circo. Somos 126 milhões de “patrões”, diz-nos, com a mesma pompa que vem de longe, em seu exibicionismo bacharelesco, o presidente do TSE, Marco Aurélio de Mello. Acredite quem quiser. Os homens-dispositivo não agem sós, mas também não representam vontades particulares ou gerais. Por isso se apresentam indistintamente como emissários. São mestres na arte da obediência devida. Nascem nas ordens discursivas do aparelho jurídico-político, mas se espraiam pelos movimentos sociais. No Brasil recente, são exemplo notável as centrais sindicais, a começar pela CUT, que já nasceu velha em 1983, pois atrelada à estrutura sindical corporativa do Estado, herdada de Vargas, que por sua vez a herdou de Mussolini. Vejam esses homens-dispositivo do dossiê-Vedoin: quase todos fizeram carreira na CUT, quase todos prosperaram muitíssimo na vida, quase todos vivem de expedientes, projetos, dispositivos e ONGs. Retrocedamos ao mensalão (que já parece tão passado): Delúbio e Silvinho, homens de Dirceu, homem do Presidente – cutistas de primeira hora.

Não se restringe à esfera burocrático-sindical, entretanto, o homem-dispositivo. Pode estar nas grandes corporações industrial-financeiras ou de serviços. Estará certamente na grande imprensa, gráfica ou audiovisual. O ramo da propaganda e publicidade é bastante propício a seu florescimento. Idem, o da moda. No mundo do esporte globalizado, futebol à frente, o homem-dispositivo caminha célere para produzir resultados, inventar mitos, ganhar muito na fugacidade do jogo efêmero, das celebridades natimortas, dos patrocínios suspeitos, dos contratos-fantasmas.

Também na universidade contemporânea tomada de assalto pela ideologia produtivista e empresarial, convenhamos: homens-dispositivo ocupam o lugar do antigo poder acadêmico, ditam normas, centralizam recursos dirigidos prioritariamente à auto-reprodução, substituem o eixo ensino-pesquisa por perspectiva de extensão sem limites nem finalidade. O conhecimento desinteressado cede terreno a interesses conhecidos ou obscuros. Em nome da democratização, facilitam-se avaliações. Debates de idéias podem virar meras sessões de entretenimento. A educação sossobra nos corredores das políticas mais obscurantistas e de convênios picaretas.

E do aparato policial, então, claro, sobejam homens-dispositivo. E igualmente das igrejas pós-modernas. Dali e de cá poderão, sempre, nascer vocações irresistíveis. Assessores de campanhas eleitorais, leões-de-chácara de bingos, analistas de mídias arriscadas, capangas de colarinho branco, advogados de criminosos e sobretudo advogados do crime, pouco importa, essas funções se equivalem nos novos modos de dominação. Com alguma prática, a gente pode sacá-los de longe. Com suas pastinhas, laptops e gravatas. Fazendo emendas parlamentares ou parlamentando sobre as emendas feitas e suas respectivas cotações. Sacando dinheiro-vivo. Atravessando fronteiras mortas. Pelos meios de transporte tradicionais, ou on-line. Assim se fazem homens para presidentes. Assim se fazem presidentes reais.

Mas, atenção, esse processo não é em absoluto privilégio do povo brasileiro. O homem-dispositivo, parte dos mecanismos estatal-financeiros globalizados, pode trazer uma bomba na cintura ou dólares na bolsa. Depende. Daí que se redobrem cuidados. A única certeza é de que essa silhueta demasiadamente parecida com humana é só farsa, homem sem sombra, no desassossego da agitação sem causa, porque já sem pensamento, porque já sem palavra com nexo, porque já sem razão para. E nós, sim, seres realmente existentes, que realmente nada sabíamos, tornamo-nos à revelia apêndices vivos dessas marionetes sem vida. Não somos seus “patrões”, mas antes seus servos involuntários. Romper essas engrenagens: é a única condição para voltarmos a sonhar.

*Francisco Foot Hardman é professor de Teoria e História Literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp

CONCEITOS RETIRADOS DOS TEXTOS ABAIXO, CUJO TÍTULO E CONTEÚDO DO ORIGINAL SÃO MANTIDOS AO CLICAR NOS LINKS.

1. DELINQUÊNCIA ACADÊMICA, de Maurício Tragtemberg

2. BAGRINHOS, do texto de Alfredo Marques

3. HOMEM-DISPOSITIVO, do texto de Francisco Foot Hardman

4. FIM DA UNIVERSIDADE PÚBLICA, do texto de Marilena Chauí

5. ETHOS DE GANGUE, do texto de Luiz Felipe Pondé

6. MIKE BONGIORNO, do ensaio de Umberto Eco

7. CASTA DOS INTOCÁVEIS, da entrevista de Chico de Oliveira


FENOMENOLOGIA DE MIKE BONGIORNO, de Umberto Eco

21/02/2010

FENOMENOLOGIA DE MIKE BONGIORNO, de Umberto Eco

Mike Bongiorno

O homem rodeado pelas mass media é no fundo, entre todos os seus semelhantes, o mais respeitado: não se lhe pede nunca senão que se torne aquilo que já é. Por outras palavras, são-lhe provocados desejos segundo a pauta das suas tendências. Porém, uma vez que uma das compensações narcóticas a que tem direito é a evasão pelo sonho, são-lhe habitualmente apresentados ideais, entre os quais e ele próprio se possa estabelecer certa tensão. Para retirar dos últimos toda a responsabilidade, tomam-se providências de modo a fazer com que tais ideais sejam de fato inatingíveis, de forma a que a tensão se resolva numa projeção e não numa série de operações efetivas orientadas para modificar o estado de coisas dado. Em suma, pede-se ao indivíduo que se transforme num homem com frigorífico e um televisor de vinte e uma polegadas, e isto quer dizer que se lhe pede que continue a ser como é, acrescentando aos objetos que possui um frigorífico e um televisor; em compensação, a ele propõe-se como ideal Kirk Douglas ou Superman. O ideal do consumidor de mass media é um super-homem que ele nunca pretenderá tornar-se, mas que se deleita a encarnar de um modo fantástico, tal como se veste durante alguns minutos diante de um espelho uma roupa alheia, sem sequer se pensar em vir a possuí-la um dia.

A situação nova que se coloca a respeito da TV é esta: A TV não oferece, como ideal pra o ensimesmamento do indivíduo, o superman, mas sim o everyman. A TV representa como ideal o homem absolutamente médio. No teatro, Juliette Greco aparece no palco e cria subitamente um mito e funda um culto;

Josephine Baker desencadeia rituais idolátricos e dá nome a toda uma época. Na TV surge diversas vezes, repetidamente, o rosto mágico de Juliette Greco, mas o rito nem por isso nasce de modo idêntico; o ídolo não é ela, mas a locutora, e por entre as apresentadoras mais amadas e famosas estará exatamente aquele que melhor representa a média dos caracteres comuns: beleza modesta, sex-appeal limitado, gosto discutível, um certe inexpressividade doméstica.




Josephine Baker photo06

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

Ora, no campo dos fenômenos quantitativos, a média representa de fato um meio-termo e, para quem ainda não se uniformizou, representa igualmente uma meta. Se, de acordo com a conhecida boutade, a estatística é a ciência para a qual se diariamente um homem come dois frangos e o outro nenhum, os dois homens comeram um frango cada um – para o homem que não comeu, a meta de um frango por dia é algo de positivo a que ele poderá aspirar. Pelo contrário, no campo dos fenômenos qualitativos, o nivelamento pela média corresponde ao nivelamento pelo zero. Um homem que possua “todas” as virtudes morais e intelectuais em “grau médio”, acha-se imediatamente a um nível mínimo de evolução. A “mediana” aristotélica é equilíbrio no exercício das próprias paixões, dirigido pela virtude do discernimento da “prudência”. Enquanto, em contrapartida, alimentar um grau médio de paixões e ter uma prudência média significa ser um pobre exemplar de humanidade.

O caso mais vistoso de redução do superman ao everyman temo-lo, na Itália, na figura de Mike Bongiorno e na história do seu destino. Idolatrado por milhões de pessoas, este homem deve o seu êxito ao fato de, em todos os atos e todas as palavras da personagem a que ele dá vida perante as câmaras de televisão, transparecer uma mediocridade absoluta unida (sendo esta a única virtude que possui em grau excedente) a um fascínio imediato e espontâneo explicável por não estar rodeado da menor construção ou ficção cênica: quase parece que ele não quer passar senão pelo que é, sendo de molde a não colocar em situação de inferioridade espectador nenhum, nem mesmo o mais despossuído de todos. O espectador vê glorificado e condecorado oficialmente com uma autoridade nacional o retrato das suas próprias limitações.

Para compreendermos este extraordinário poder de Mike Bongiorno, poderá surgir-nos a idéia de proceder a uma análise dos seus comportamentos, a uma verdadeira “fenomenologia de Mike Bongiorno”, indicando-se, fique claro, por este nome não o homem, mas a personagem.

Mike Bongiorno não é particularmente belo, atlético, corajoso, inteligente. Representa, biologicamente falando, um grau modesto de adaptação ao ambiente. O amor histérico que lhe tributam as teen-agers deve-se em parte ao complexo maternal que ele é capaz de despertar numa mocinha, em parte à perspectiva futura que ele sugere, de um amante ideal, submisso e frágil, suave e cortês.

Mike Bongiorno não se envergonha de ser ignorante e não revela qualquer necessidade de se instruir. Entre em contato com as mais vertiginosas zonas do conhecimento e delas sai virgem e intato, confortando as naturais tendências para a apatia e preguiça mental dos outros. Cuida bastante para não impressionar o espectador, não só mostrando às escuras quanto aos acontecimentos circundantes, como, além disso, manifestando-se decididamente resolvido a não aprender coisa alguma.

Em compensação, Mike Bongiorno demonstra uma admiração sincera e primitiva pelos que sabem. Quanto a estes, o que destaca neles é, porém, as qualidades de aplicação manual, a memória, a metodologia óbvia e elementar: uma pessoa torna-se culta lendo muitos livros e fixando o que eles dizem. Não lhe passa, nem minimamente, a suspeita de qualquer função crítica e criativa da cultura. Tem dela um critério meramente quantitativo. Deste modo (acontecendo que é preciso, para se ser culto, terem-se lido durante muitos anos livros), é natural que o homem não predestinado renuncia a todas as tentativas culturais.

Mike Bongiorno professa um apreço e uma confiança ilimitados em relação ao especialista; um professor é um sábio; representa a cultura autorizada. É o técnico do ramo. É a ele que devemos perguntar as coisas, dada a sua competência.

A admiração pela cultura, entretanto, torna-se ainda maior, quando, na base dela, se pode ganhar dinheiro. Então é que se descobre que a cultura serve para alguma coisa. O homem medíocre recusa-se a aprender, mas propõe-se mandar estudar o filho.

Mike Bongiorno tem uma noção pequeno-burguesa do dinheiro e de seu valor (“Imaginem, já ganhou cem mil liras: é um belo dinheirinho!).

Mike Bongiorno antecipa assim, sobre o concorrente, as reflexões impiedosas que o espectador será levado a fazer. “Arre, como ele estará satisfeito com aquela grana toda, ele que sempre viveu com um salário tão modesto! Terá alguma vez tido tanto dinheiro nas mãos?”

Mike Bongiorno aceita todos os mitos da sociedade em suas categorias e trata-as com uma deferência cômica (a criança diz: “Desculpe, senhor guarda…”), mas usando sempre, entretanto, a qualificação vulgar e corrente, muitas vezes depreciativa: “senhor varredor, senhor camponês”.

Mike Bongiorno aceita todos os mitos da sociedade em que vive: beija a mão da senhora Balbiano d’ Aramengo e diz que o faz por se tratar de um condessa (sic).

Para além dos mitos, aceita também as convenções sociais. É paternal e condescendente com os humildes, deferente para com as pessoas socialmente qualificadas.

Ao entregar o dinheiro, parece instintivamente levado a pensar, sem o exprimir claramente, mais em termos de esmola que de ganho. Mostra a sua crença de que, na dialética das classes, a único meio de ascensão é o representado pela providência (podendo assumir ocasionalmente o rosto da Televisão).

Mike Bongiorno fala um basic Italian. O seu discurso realiza o máximo possível de simplicidade. Abole os conjuntivos, as proposições subordinadas, consegue tornar quase invisível a dimensão sintática. Evita os pronomes, repetindo sempre por extenso o sujeito, emprega um número imenso de pontos finais. Não se aventura nunca em intercalações ou formas parentéticas, não emprega expressões de elite, não faz alusões, utiliza apenas metáforas já integradas plenamente no léxico comum. A sua linguagem é rigorosamente referencial e faria a alegria de um neopositivista. Não é necessário fazer qualquer esforço para entendermos. Qualquer espectador observa que, se fosse esse o caso, poderia ser bem mais eloqüente do que ele.

Não aceita a idéia de que a uma pergunta possa corresponder mais do que uma resposta. Olha com desconfiança as variantes. Nabuco e Nabucodonosor não são a mesma coisa; reage frontalmente aos dados como um cérebro eletrônico, porque está firmemente convencido de que A é igual a A e que tertium non datur. Aristotélico por defeito, a sua pedagogia é, conseqüentemente, conservadora, paternalista, imobilista.

Mike Bongiorno é desprovido de sentido de humor. Ri por estar contente com a realidade, não por ser capaz de deformar a realidade. Escapa-lhe a natureza do paradoxo; quando se lhe apresenta um, repete-o com ar divertido e sacode a cabeça, subentendendo que o interlocutor é simpaticamente anormal; recusa-se a suspeitar de que por trás do paradoxo se esconda a verdade, precisamente como o não considera um veículo autorizado de opinião.

Evita a polêmica, mesmo com argumentos legítimos. Não deixa de informar-se acerca da estranheza do que se pode conhecer (uma nova corrente de pintura, uma disciplina abstrusa… “Diga-me uma coisa, hoje fala-se tanto de futurismo. Mas o que é ao certo esse futurismo?). Recebida a explicação, não tenta aprofundar o tema, mas deixa transparecer a sua bem-educada discordância de pessoa que pensa como deve ser. Respeita deste modo a opinião do outro, não por propósito ideológico, mas por desinteresse.

De Entre todas as perguntas possíveis sobre um tema escolhe a que primeiro viria à mente de qualquer um e que metade dos espectadores afastaria prontamente por ser demasiado banal: “O que é que o quadro pretende representar?”, “Como é que chegou a escolher um hobby tão diferente do seu trabalho?”; “Como lhe veio à cabeça ocupar-se de filosofia?”.
Leve os clichês até as últimas conseqüências. Uma moça educada com freiras é virtuosa, uma moça de meias de cor e rabo-de-cavalo é “queimada”. Pergunta à primeira, que é uma moça tal como deve ser, se gostaria de se tornar como a outra; se se lhe faz notar a comparação em tais termos é ofensiva, consola a segunda moça realçando a sua superioridade física e humilhando a educada das freiras. Neste vertiginoso jogo de gaffes não tenta ao menos empregar a perífrase: a perífrase é já uma agudeza, e as agudezas pertencem a um círculo intelectual a que Bongiorno é estranho. Para ele, como já se tinha dito, cada coisa em um nome e só um, o artifício retórico é uma sofisticação. No fundo, a gaffe nasce sempre de um ato de sinceridade não mascarada; quando a sinceridade é voluntária não há gaffe, mas desafio e provocação; a gaffe (em que Bongiorno se excede, segundo dizem os críticos e o público) nasce exatamente quando se é sincero por erro ou por desconsideração. Quando mais medíocre for, mais o medíocre se torna desajeitado. Mike Bongiorno reconforta os medíocres, elevando a gaffe à dignidade de figura de retórica, no quadro de uma etiqueta homologada pela entidade transmissora e pela nação auditora.

Mike Bongiorno regozija-se sinceramente com o vencedor porque honra o êxito. Cortesmente desinteressado em relação ao vencido, comove-se se este fica em situação difícil e torna-se promotor de uma disputa beneficente, finda a qual se mostra satisfeito e convence o público de que tudo vai bem; em seguida ocupa-se de outras coisas alentado pela sua crença de que é este o melhor dos mundos possíveis. Ignora a dimensão trágica da vida.

Mike Bongiorno convence, portanto, o público, como um exemplo vivo e triunfante, do valor da mediocridade. Não provoca complexos de inferioridade, embora se ofereça como ídolo, e o público recompensam-o, agradecido, amando-o. Representa um ideal que ninguém deve esforçar-se por atingir porque seja quem for se encontra, desde o início, já ao mesmo nível que ele. Nenhuma religião foi jamais tão indulgente para com os seus fiéis. Em Mike Bongiorno anula-se toda a tensão entre ser e dever ser. E ele diz aos seus adoradores: sois Deus, continuai imóveis.

Do “Diário Mínimo”, de Umberto Eco
Difel, 1985

MIKE BONGIORNO, tornando-se uma categoria analítica, um conceito. Acho que a nossa volta há muitos e muitos Mike Bongiorno(s), do que políticos e apresentadores de TV. O arrivismo, o puxa-saquismo fabricam Mike Bongiorno(s) aos magotes. Eles nos sufocam. E cuidemo-nos para não nos tornarmos um.

Abaixo citação de uma artigo do Estadão, onde analista usa a categoria, Mike Bongiorno, para analisar Berlusconi

“Se um homem de negócios, que em outro país ocidental com alguma tradição liberal-democrática se limitaria a construir palacetes em Milão, assume o controle absoluto dos meios de comunicação e domina a cena política por mais de 20 anos, chegando três vezes ao cargo de primeiro-ministro, como aconteceu com Berlusconi na Itália, o mínimo que nos cabe fazer é analisar o fenômeno e dele extrair o máximo de lições possível.” A proposta é de Pierfranco Pellizzetti, autor do recém-publicado Fenomenologia di Berlusconi (Manifestolibri), um exame da mutação cultural da sociedade italiana a partir da década passada, quando a “banal mediocridade” representada pelo ídolo televisivo Mike Bongiorno perdeu sua hegemonia para a “mediocridade lobisomem” representada por Berlusconi e empurrou a Itália para “um precipício humano, político e civil”.

“Pellizzetti trabalha com o mesmo instrumental analítico usado por Eco em sua Fenomenologia di Mike Bongiorno, escrita em 1961 e incluída na coletânea Diário Mínimo. Campeão de audiência na televisão italiana durante quase meio século, Bongiorno, um bobo alegre que vivia de plagiar programas de variedades americanos e foi enterrado como herói nacional em setembro deste ano, encarnava, segundo Eco, a mediocridade absoluta do italiano médio, que se identificava totalmente com o apresentador e sua alvar alegria, sobretudo porque Bongiorno, que muito se gabava de sua ignorância, o fazia sentir-se, por comparação, mais educado, mais inteligente”.
O Estado de S.Paulo,domingo, 29 de novembro de 2009

CONCEITOS RETIRADOS DOS TEXTOS ABAIXO, CUJO TÍTULO E CONTEÚDO DO ORIGINAL SÃO MANTIDOS AO CLICAR NOS LINKS.

1. DELINQUÊNCIA ACADÊMICA, de Maurício Tragtemberg

2. BAGRINHOS, do texto de Alfredo Marques

3. HOMEM-DISPOSITIVO, do texto de Francisco Foot Hardman

4. FIM DA UNIVERSIDADE PÚBLICA, do texto de Marilena Chauí

5. ETHOS DE GANGUE, do texto de Luiz Felipe Pondé

6. MIKE BONGIORNO, do ensaio de Umberto Eco

7. CASTA DOS INTOCÁVEIS, da entrevista de Chico de Oliveira


O IFCH ESTÁ AGONIZANDO DIZEM OS 80 PROFESSORES

24/11/2009

O CACH é obrigado a levantar a bandeira da defesa do IFCH e do ensino público.

Em 2011 o IFCH não terá como funcionar, diz a carta de 2009, assinada por 80 professores. Este é o momento em que se dá a eleição do CACH. Esperamos, desde o primeiro semestre de 2009, que os professores cumpram sua palavra de parar o IFCH e exigir do reitor que reponho mais de 80 professore que faltarão para repor o que havia há 15 anos atrás, como diz a carta.
Upload feito originalmente por Jornal do Porão


IFHC CONTRA A TERCEIRIZAÇÃO 008

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

Esta carta foi postada no jornaldoporao em 10/02/2010 e teve 231 leitores. Muito pouco. Mas foi postada quase em protesto aos silêncios dos 80 professores que não cumpriraram com a palavra dada, numa espécie de falsidade ideológica.

Espero que mais gente a leia e debata.

Os estudantes da chapa “A poesia está nas ruas” têm debatido e publicaram a carta dos professores na revista ISKRA, cuja publicação alguns dos membros da chapa impulsionam. O CACH precisará de gente de muita luta para romper este silêncio conivente dos professores do IFCH. Enquanto eles catam as migalhas que caem da mesa do poder, a Unicamp ligada aos interesses burgueses cresce (o Campus de Limeira é um exemplo gritante disso). Estes 80 professores diziam que em 2011 o IFCH ficaria inviável. Os estudantes precisam de um CACH de luta e que procurem, insistentemente, a aliança com os trabalhadores.

Este é sentido de republicar aqui esta carta que já está indo para seu 2º. Aniversário.


CARTA ABERTA DOS DOCENTES DO IFCH AO REITOR DA UNICAMP

O IFCH EM ESTADO DE EMERGÊNCIA

Ao Magnífico Reitor da Unicamp
Professor Dr. Fernando Costa

O IFCH está agonizando. O trabalho de pelo menos duas décadas, que resultou na excelência desse Instituto, está em sério risco de extinguir-se.
Nos últimos anos, temos encaminhado à Reitoria diversos ofícios justificando pormenorizadamente a necessidade urgente de novas contratações de docentes e nossas demandas não têm sido atendidas. No contexto da limitada política de contratações vigente, é preciso sublinhar que as quatro vagas destinadas ao IFCH no ano de 2009 são absolutamente insuficientes para recompor o quadro docente no patamar em que esse se encontrava há 15 anos.
Atendendo a necessidades acadêmicas ou a exigências da LDB, a Graduação e a Pós-Graduação do IFCH experimentaram nos últimos quinze anos uma expansão de cursos, de cargas horárias e de vagas discentes sem precedentes. Desde 1994, o número de vagas oferecidas no vestibular pelos cinco cursos de graduação aumentou 28% (de 140 para 180 em 2008) – sem contar as vagas do curso de Arquitetura, criado em 1998 e do qual participam professores do IFCH – e o total de alunos matriculados na graduação passou de 707 em 1998 para 1048 em 2008 (um aumento de 48%). Chegamos assim ao índice de 11,6 alunos por professor, superior à média da Unicamp que é de 8,3, conforme pode ser constatado no Anuário Estatístico da Unicamp (2009). No mesmo período, os cursos na pós-graduação passaram de 5 mestrados e 4 doutorados para 7 mestrados e 11 doutorados – e o total de alunos matriculados aumentou de 741 em 1998 para 885 em 2008. Se contarmos os alunos de graduação e pós-graduação, num total de 1933 em 2008, a relação número de alunos por professor sobe para 21,5. Nesse ano, também segundo o Anuário Estatístico da Unicamp, o IFCH era a terceira unidade em número de alunos na graduação e a segunda em número de programas e alunos de mestrado e doutorado, ficando atrás apenas da FCM. No mesmo período, entretanto, o número de docentes diminuiu drasticamente. Éramos 128 docentes em 1994, 101 em 1998, 90 em 2008 – e somos hoje apenas 89: uma diminuição de 30% do corpo docente.
Isso não significa apenas sobrecarga de trabalho. Certamente há mais cursos a serem dados e mais alunos a serem orientados, mais bancas para participar, mais coordenações de programas para serem exercidas. Ao mesmo tempo, as demandas por projetos e pareceres cresceram, assim como aumentou muito a pressão para ocupar cargos administrativos e acadêmicos. O crescimento de nossa produção e dos indicadores numéricos que contabilizam nossas atividades cotidianas básicas esconde, entretanto, uma crise acadêmica substantiva.
É lamentável constatar, por exemplo, que nossos alunos podem concluir a Graduação ou a Pós-Graduação sem a chance de cursar disciplinas eletivas importantes, simplesmente por falta de professores especialistas para ministrá-las. O vínculo entre as aulas e a experiência de pesquisa, que sempre caracterizou os cursos do IFCH está se perdendo: diante da necessidade de cobrir a oferta de disciplinas obrigatórias, muitos de nossos professores não têm mais a oportunidade de oferecer disciplinas nas áreas em que atuam e publicam – e nas quais são nacional e internacionalmente reconhecidos. Nesse quadro é praticamente impossível pensar em criar novas disciplinas na graduação, mesmo as que têm sido demandadas pelos alunos nas avaliações de curso feitas a cada semestre.
Áreas importantes de conhecimento na Antropologia, na Ciência Política, na Demografia, na Filosofia, na História e na Sociologia estão desguarnecidas, por falta de docentes especialistas para ministrar aulas, coordenar pesquisas e orientar novos pesquisadores. Há linhas de pesquisa na pós-graduação e nos centros de pesquisa que tiveram uma produção acadêmica densa e expressiva que praticamente desapareceram por falta de professores plenos. Há cursos de pós-graduação que estão na iminência de fechar áreas e linhas de pesquisa, pois contam com apenas um professor. Não temos condições, portanto, de criar novas áreas de pesquisa que seriam necessárias para continuar a oferecer um ensino de ponta e acompanhar os avanços científicos e as novas demandas da sociedade.
A projeção internacional de nossos docentes é notória e facilmente verificável em uma consulta aos currículos e grupos de pesquisa da Plataforma Lattes. Os Anuários Estatísticos da UNICAMP também reconhecem essa liderança intelectual e acadêmica: desde 2006, pelo menos, temos sido a primeira Unidade em produtividade intelectual em termos proporcionais (em relação à quantidade de docentes), e a segunda em termos numéricos absolutos. A CAPES também reconhece essa liderança, já que nossos programas de pós-graduação vêm conseguindo manter notas altas: um programa com nota 7, dois com nota 6 e quatro com nota 5; nos últimos anos, várias das teses defendidas no IFCH obtiveram prêmios da CAPES, do Arquivo Nacional e da ANPOCS. Esta liderança está sendo ameaçada pela estagnação de contratações e a conseqüente sobrecarga de trabalho; não é sem sacrifícios que vimos conseguindo manter a qualidade e a excelência do nosso desempenho acadêmico e científico.
O futuro é alarmante: em 2010 teremos 42 aposentáveis, 6 dos quais pela compulsória. Ou seja: em um ano podemos perder 47% do atual quadro docente do Instituto, perfazendo uma possível diminuição total de 63% do corpo docente do IFCH entre 1994 e 2010 (queda de 128 professores para 47). Com tantas perdas acumuladas, está em risco também a larga experiência do trabalho que conseguimos acumular até aqui. É eloqüente o que esses dados apontam: o corpo docente está envelhecendo. A formação de grupos de pesquisa demanda a construção de patamares comuns de trabalho conjunto, o amadurecimento de discussões e a consolidação de eixos de investigação. Essa não é uma tarefa que possa ser simplesmente transmitida por escrito: demanda convivência, laços institucionais e trocas intelectuais que não podem ser empreendidas da noite para o dia. Novos docentes necessariamente devem conviver com seus colegas mais experientes. A convivência é um modo de formar novos quadros e manter a continuidade na excelência da pesquisa e da docência que tem nos caracterizado. Há, portanto, prejuízos evidentes se continuarmos a contar com uma reposição das vagas em futuro indefinido ou depois que departamentos e linhas de pesquisa estiverem extintos.
Também é preocupante nossa posição no cenário científico nacional. Nos últimos anos, temos assistido a uma incorporação crescente de novos docentes (muitos dos quais formados por nós) em outras universidades, por meio de concursos públicos. O quadro é particularmente alarmante quando comparado ao das universidades federais, que hoje oferecem salários mais altos do que os nossos. Ou quando comparado à própria USP que, na última reunião com o Fórum das Seis, anunciou a contratação de 1285 docentes na atual gestão – um número surpreendente diante das melancólicas 55 contratações previstas para este ano pela Unicamp. Em breve os Programas de Pós-Graduação do IFCH poderão perder pontos nas avaliações da CAPES, deixando de ser competitivos na disputa por recursos e na procura dos estudantes por uma formação de excelência.
Diante deste quadro crítico, não basta simplesmente repor a perda de 39 docentes que sofremos nos últimos 15 anos. É preciso mais que isso. Queremos redimensionar o quadro docente de acordo com as necessidades acadêmicas de nossos cursos, considerando a expansão dos últimos anos, e assegurar a dinâmica criativa das linhas de pesquisa para continuar a desenvolver um trabalho de excelência. Queremos também ter o direito de realizar uma expansão de nossas atividades assentada nos desdobramentos de nossas pesquisas e na combinação entre elas e o exercício da docência.
É preciso, portanto, que a Reitoria da Unicamp reflita sobre o seu próprio projeto para o futuro do IFCH e reavalie o tratamento que tem dispensado às nossas necessidades ao longo dos últimos anos, sob pena de que o patrimônio que duramente construímos ao longo dos anos soçobre em meio ao descaso e à indiferença. Não podemos aceitar que seja esse o projeto para o futuro do IFCH. O IFCH e a UNICAMP não podem sobreviver por muito mais tempo apenas com base na reputação construída ao longo da sua história. Restaurar e ampliar esse patrimônio é uma responsabilidade inescapável da atual Reitoria.
Convidamos, pois, o Reitor de nossa Universidade a vir ao IFCH o quanto antes. Esperamos que essa visita possa ser agendada rapidamente, pois precisamos ter a garantia de uma política de contratações que atenda de fato a essas demandas: reivindicamos medidas urgentes para que possamos continuar a trabalhar. Estamos em ESTADO DE EMERGÊNCIA!

Campinas, 30 de junho de 2009

Os Docentes do IFCH:
Álvaro Gabriel Bianchi Mendez – matrícula 286817
Amnéris A. Maroni – matrícula 075663
Andrei Koerner – matrícula 285394
Ângela Maria Carneiro Araújo – matrícula 103872
Arley Ramos Moreno – matrícula 087467
Armando Boito – matrícula 075701
Bela Feldman Bianco – matrícula 054810
Bruno Speck – matrícula 256021
Cláudio Henrique de Moraes Batalha – matrícula 165115
Cristina Meneguello – matrícula 278611
Daniel Joseph Hogan – matrícula 038229
Emília Pietrafesa de Godoi – matrícula 252531
Enéias Forlin – matrícula 288083
Evelina Dagnino – matrícula 039098
Fátima Rodrigues Évora – matrícula 174947
Fernando Antonio Lourenço – matrícula 106844
Fernando Teixeira da Silva – matrícula 286457
Gilda Figueiredo Portugal Gouvea – matrícula 039802
Guita G. Debert – matrícula 106330
Heloisa André Pontes – matrícula 118559
Itala M. L. D’Ottaviano – matrícula 040436
Jesus José Ranieri – matrícula 287264
John Manuel Monteiro – matrícula 252557
Jorge Sidney Coli Junior – matrícula 116335
José Alves de Freitas Neto – matrícula 287069
José Carlos Pinto de Oliveira – matrícula 237108
José Marcos Pinto da Cunha – matrícula 268593
José Oscar de Almeida Marques – matrícula087467
Josué Pereira da Silva – matrícula 272787
Laymert Garcia dos Santos – matrícula 057614
Leandro Karnal – matrícula 273597
Leila da Costa Ferreira – matrícula: 220884
Leila Mezan Algranti – matrícula 165263
Luciana Ferreira Tatagiba – matrícula 286986
Luiz César Marques Filho – matrícula 198935
Luzia Margareth Rago – matrícula 117021
Marcelo Siqueira Ridenti – matrícula 274941
Marcio Bilharinho Naves – matrícula 053554
Marcos Lutz-Müller – matrícula 288083
Marcos Nobre – matrícula 237574
Maria Coleta Ferreira Albino de Oliveira – matrícula 073466
Maria Filomena Gregori – matrícula 222861
Maria Helena Guimarães de Castro – matrícula 088595
Maria Lygia Quartim de Moraes – matrícula 249068
Maria Stella Bresciani – matrícula 043842
Mauro W. B. de Almeida – matrícula 048071
Michael McDonald Hall – matrícula 043222
Nelson Alfredo Aguilar – matrícula 214141
Néri de Barros Almeida – matrícula 286112
Omar Ribeiro Thomaz – matrícula 28293
Oswaldo Giacoia Junior – matrícula 251470
Paulo Celso Miceli – matrícula 117030
Rachel Meneguello – matrícula 152790
Renato Ortiz – matrícula 206547
Ricardo Antunes – matrícula 144061
Rita de Cássia Lahoz Morelli – matrícula 220752
Robert Wayne Andrew Slenes – matrícula 087092
Roberto Luiz do Carmo – matrícula 290280
Roberto Romano – matrícula 069311
Ronaldo de Almeida – matrícula 286526
Rosana Baeninger – matrícula 273996
Rubem Murilo Leão Rêgo – matrícula 045721
Sebastião Velasco e Cruz – matrícula 129062
Shiguenoli Miyamoto – matrícula 20.4722
Silvana Barbosa Rubino – matrícula 285534
Silvia Hunold Lara – matrícula 14634-9
Suely Kofes – matrícula 043851
Thomas Patrick Dwyer – matrícula 100455
Tirza Aidar – matrícula 292552
Valeriano Mendes Ferreira Costa – matrícula 274887
Vanessa R. Lea – matrícula 079154
Walquiria Domingues Leão Rego – matricula 224812
Yara Adário Frateschi – matrícula 287070

Professores Colaboradores:
Arlete Moysés Rodrigues – matrícula 283825
Caio Toledo – matrícula 28374-0
Elide Rugai Bastos – matrícula 292167
Izabel Andrade Marson – matrícula 220426
Luis Orlandi – matrícula 292557
Maria Clementina Pereira Cunha – matrícula 053309
Mariza Correa – matrícula 290598
Vera H. F. P. Borges Itala M. L.

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Continua, nestes 03/05/2012, sendo acessado. Já perfazem 128 acessos. Talvez só os professores do IFCH esqueceram da carta, alarmante e dramática, que 80 deles assinaram.