Pintura. Deformações dos corpos: Alongamento dos corpos 1. El Greco.

14/08/2012

El Greco (1541-1614).

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Biblioteca Mário, VII-070.031 .
Destes dois livros foram retirados citações e algumas reproduções para iniciar um estudo do fenômeno da deformação dos corpos ou, aqui, alongamento dos corpos. VER GALERIA.

Que efeito buscam os pintores, escultures e desenhistas  com a deformação dos corpos? Vimos, aqui, em Memória e Altar, que é constante na arte Africana, como se quisessem “enganar” os espíritos dos antepassados, forjando formas não realistas, quando as representações de animais eram bem realistas, provando que era uma escolha representar alongadamente, ou com outras deformações, a figura humana.
Debita-se mesmo à Arte Africana grande influência na arte do chamado ocidente, principalmente na arte moderna e contemporânea.

Folheando livros de arte ocidental podemos ver vários exemplos deste procedimento. Aqui no blog pretendo fazer uma recolha deste fenômeno, tentando entender, e sentir, estes efeitos.

Em Modigliani o alongamento dos corpos é dominante, tanto na pintura como na escultura. Nas figuras femininas, para mim, ajudou a destacar a sensualidade. Numa espécie de estranheza positiva, cativante. Como deformar pode tornar mais belo?

Em Giacometti o alongamento dos corpos provoca desolação, desencanto. Uma solidão, mesmo em suas florestas de figuras. Achei quase uma desumanização. E em El Greco, vai haver uma descarnação em relação à arte renascentista. Um descarnação, uma espiritualização que, para mim, vai dar em Giacometti.

Deformação dos corpos, El Greco (1). Mestre da Pintura, Abril Cultura, 1977. Biblioteca Mário, VII-070.001

A questão que se coloca é porque um procedimento que remonta à Arte Africana, muitas vezes chamada de folclore, e, no caso de El Grego, um retorno a formas arcaicas, bizantinas e medievais, vai estar presente, de maneira sistemática na arte moderna e contemporânea. Naquele momento, de Contra-Reforma católica, da Inquisição, em Toledo, centro da inquisição, os procedimentos estéticos, de retorno ao antigo, praticado por El Grego tem um conteúdo de inovação. É uma ruptura com as repetições nada criativa do maneirismo, estética que, vejam bem, colocava como mandamento a criatividade e era pura estagnação. Assim como a busca pela África vai arejar a arte moderna e contemporânea.

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SÓ ACREDITARIA NUM DEUS QUE DANÇASSE: NIETZSCHE.

Como acho que a música é a mais alta e importante atividade humana, procuro ligar os períodos da história à música. O mundo que quero conhecer tem que ter música ou não quero conhecer. Diferente da pintura, escultura ou desenho, cujas manifestações estão gravadas nas cavernas há 50 mil anos. A música que deixou registro começa no ocidente no século XI ou XII. Mas não é difícil imaginar que todos os povos, desde sempre, cantaram e dançaram. Todos os povos cantam e dançam. Me considero um aleijão, uma espécie de gabiru, por não conhecer tecnicamente música, nem tocar qualquer instrumento. E nem mesmo conseguir cantar. Portanto meu conhecimento será sempre precário, insuficiente, parcial.

A MÚSICA NO TEMPO DE EL GRECO

…………………………………………UM DOS INSTRUMENTOS MAIS PODEROSOS DA PROPAGANDA JESUÍTICA FOI A LITURGIA ROMANA………………………………………….escreve Otto Maria Carpeaux………………………………………..“o Officium defunctorum(1605), missa de réquiem e “orações de tumba”(seis vozes)…obra de solenidade sombria, e em certos momentos, de exaltação mística; é essa que já fez pensar no Entierro del conde Orgaz, de Domenico Theotocopuli el Greco”. Música de Victoria(Tomás Luís de)”.

Enterro do Conde de Orgaz, 1586-1588. Os dois planos é volta à pintura da Idade Média. Mas os rostos, destes aristocratas, com suas barbas pontiagudas permitem um alongamento dos rostos. os corpos são alongados, radicalizando este procedimento já estava presente até em Michelangelo. Mas os amarelos e pretos são cores berrantes e contrastantes, não tão convencionais ao maneirismo. Em meio ao conservadorismo a evolução e a mudança.

A Contra-Reforma católica, cuja ideologia El Greco tentava seguir, botava muita atenção à música. O Concílio de Trento, o Concílio da Contra-Reforma, tirou diretrizes severas para domar a música. Assim escreveu Otto Maria Carpeaux: “Mas na Igreja Católica colaboraram as artes plásticas as artes plásticas e a música para representar a verdade religiosa: de uma maneira que assombra os espíritos simples, eleva os de elite e confunde a todos”. E, para isso, “Quanto à música, trata-se de uma reforma não somente litúrgica, mas também musical”. A arte tomará seu curso e, mesmo com toda repressão da Santa Inquisição, terão músicos revolucionários e obras revolucionárias na pintura.

Aqui, para anotação e sentir um pouco a época – e sem música não dá para sentir, acho – vão dois momentos de músicas grandiosas. Um mais conservador outro já no caminho de mudanças dentro daquele ambiente de repressão e controle.

“Giovanni Gabrieli já um mestre pré-barroco. Antecipa fases posteriores da evolução da música. Algumas daquelas músicas podem ser executadas ad libitum…Os musicólogos têm dedicado estudo intenso a uma obra como a Sonata Piano e Forte, de Giavanni Gabrieli, obra puramente instrumental, na qual dois coros de vozes são substituídos por dois coros de trombonees. No seu tempo, Giavanni Gabrieli foi certamente um inovador revolucionário”. Otto Maria Carpeaux, História da Música. Lembrando que o Concílio de Trento cogitou proibir qualquer instrumento, pois só a voz humana poderia cantar a deus. Permitiu apenas como acompanhamento simples ou simples introdução. No entanto a arte seguiu seu curso…tortuoso

“Quando, em 1956, Igor Stravinsky regeu na basílica de San Marco, em Veneza, seu Canticum Sacrum ad honorem Sancti Marci nominis, a execução da obra moderna foi recedida pela de alguns coros de Andrea e Giovanni Gabrieli”.


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Visitação, 1607-1614. “”Nesse cotexto, é possível entender as características conscientemente subjetivas da pintura de El Greco não como traços visionários ou místicos, mas como fruto de idéias estéticas determinadas. Quer dizer, a definição de sue estilo obedece conceitos claros, e sua obra é mental com um componente expressionista que o pintor deixar transparecer deliberadamente, cada vez em maior medida, consciente de sua genialidade individual”. Gênios da Arte”, ed. Girassol.

MODERNIDADE… Parece a mim obra moderna. Me remeteu a muitos reproduções de modernos e contemporâneos que vi. Aqui mesmo neste blog reproduzi um quadro também “fantasmagórico” de Nolde, apesar de ser uma dança, mas parecia uma dança ritual e não um carnaval. Nolde me lembrou Stravinksy. Votarei sempre a essa reprodução de El Greco e também ao quadro de Nolde. Mais que conhecer correntes quero conhecer obras, não quero uma sociologia, mas um certo catálogo de meus gostos.
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Galeria de reproduções e texto

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links

01. Modigliani: “Eu agora possuo o orgasmo…”
02. GIACOMETTI por JEAN GENET.
03. Giacometti por Sartre
04. CIVILIZAÇÕES AFRICANAS: Memória e Altar: apontamentos 01
05. CIVILIZAÇÕES AFRICANAS: “Memória e Altar”: Exposição da Coleção de Rogério Cerqueira Leite
06.El Greco:” A tendência do pintor para alongar a figura humana, aprendida em Miguel Ângelo, mas também em Tintoretto e Paolo Veronese, e em pintores maneiristas vai caracterizar toda a sua pintura”.

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NOLDE

15/06/2012

nolde

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biblioteca Mário 000.006

 

Todas as vezes que vou folhear “A grande arte na Pintura”, da editora Salvat, e vou em busca desde quadro.  Sempre vou em busca de duas reproduções, esta e o auto-retrato de Dürer. Tô sabendo agora que Nolde é expressionista. Sabia que de Munck, o grito, por ter sido roubado é expressionista. E que Dürer tem forte influência da pintura italiana. É, sempre, o máximo que consigo lembrar. Mas quando olho para estas reproduções fico com um sonho besta e impossível de viajar para ver estes quadros (e aí outros). Fico puto de só poder ver reproduções que nem sei se são de qualidade ou não. Estas da Salvat devem ter alguma qualidade, pelo menos não impedem que se tenha algum impacto.

Agora sei que  Dança em Torno do Bezerro de Ouro está na Galeria de Arte Moderna de Mônaco. A reprodução da Salvat ocupa quase 4/5 de duas páginas abertas. Joga na loteria. Quem sabe…

E não consigo achar na Internet, para postar aqui, duas outras reproduções de Nolde, também na Salvat, que revejo sempre com grande prazer.Papoilas Rosas e Amarelas (coleção particular, Munique) e Figura e Máscaras (Museu de Arte da Basiléia). Esta última é a influência das máscaras africnas que dominou a arte moderna de todo o século XX.

Papoilas rosas e amarelas. Na internet tem várias reproduções de Nolde, com flores. Mas nenhuma delas me tocou, nem aproximadamente, como a reprodução do fascículo da Salvat.

Nolde, máscaras

Figura e Máscara. Não é Figura e máscaras cuja reprodução dos fascículos da Salvat me fascina. Na cena, a máscara em amarelo traços pretos tem uma força maior que estas, lembrando as máscaras da exposição “Memória e Altar”. Mesmo porque este quadro aqui tem expressões próximas das máscaras teatrais, acho. As máscaras africanas e a de “Figura e Máscaras” tem maior proximidade com aquilo que, dizem, as máscaras africanas são representações vinda de dentro, espirituais. Por isso, inclusive, por virem de dentro são muito diferentes uma das outras, apesar de serem muito comuns em uma vasta região da áfrica. Mas estão impregnadas de individualidade, ao mesmo tempo em que representam um homem geral, abstrato.[Em breve farei uma resenha de um livro sobre máscaras africanas que leio]. As máscaras teatrais representam sentimentos gerais, alegria,dor, etc. Nas máscaras africanas contam  os sentimentos do indivíduo que  construiu aquela máscara particular para suas relações com os ancestrais e suas crenças.  E a figura, representando um escultura africana tem mais força ainda. Pena não ter achado na Internet.


livro: Consciência Negra do Brasil

05/06/2012


livro: Consciência Negra do Brasil

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

CONSCIÊNCIA NEGRA DO BRASIL: Os principais livros

biblioteca Mário XII- 000.008

Não haverá revolução proletária no Brasil se não for assentada na aliança com os o movimento de emancipação dos negros. Com este espírito recebo o presente de Mário Augusto Medeiros da Silva, o principal colaborador do jornaldoporao.wordpress.com

O que estes livros abordarão. Claro que não sei ainda. Mas aqui mesmo neste jornal vou fazer pequenas resenhas destas leituras e de outras que surgirão. Estarei atento ao doutorado de Mário Augusto que trata também da questão negra, de escritores negros.

Será uma grande jornada pelo que o Brasil tem de mais profundo.

Mário Medeiros também doou um exemplar para o AEL.

MAIS LIDOS DE 2011
A pequena notícia acima teve, até 03/05/2012, 96 leitores.
Curiosamente, à exceção do Mário Medeiros, ninguém se preocupou em me dar alguma dica sobre livros e obras.
Mas solicito encarecidamente.

Ah! Quanta terra e quanto mar! Também dica do Mário Augusto Medeiros da Silva. Com um pequena historinha. Quando me telefonou indo para o lançamento do livro e já tinha adquirido na Estante Virtual. Não sei que milagre que este, mas antes do lançamento já tinha 4 caixas(pois são 4 volumes numa caixa) à venda por preço menor que o que estava sendo lançado.
No entanto ainda não consegui ler nada.
E neste momento estou obcecado pela exposição “Memória e Altar”, da coleção de Rogério Cerqueira Leite. E pretendo que esta obsessão dure, de maneira totalmente absorvente, pelo menos 4 meses; período da exposição na CPFL e depois na Unicamp.
Depois pretendo comentar esta obra aqui

biblioteca Mário 000.009

TEXTOS AFINS NO JORNAL DO PORÃO:
01.

02. bibliografias e resenhas: ATITUDES RACIAIS DE PRETOS E MULATOS EM SÃO PAULO

03.CIVILIZAÇÕES AFRICANAS: “Altar e Memória” : Exposição da Coleção de Rogério Cerqueira Leite

04. CONSCIÊNCIA NEGRA


Pia de água benta na cidade de Goiás e esculturas das Civilizações Africanas

31/05/2012

Escultura BAOLÊ, Costa do Marfim, “Memória e Altar”, coleção de Rogério Cerqueira Leite. Registro a quantidade de esculturas onde tem um cabeça totalmente trabalhada.
TODAS AS FOTOS PODEM SER VISTAS EM TAMANHO MAIOR, BASTANDO CORRER MOUSE SOBRE ELAS.

As esculturas e máscaras das civilizações africanas influenciaram toda a arte do século XX. De Picasso aos parangolés de Hélio Oiticica. Sabemos também que esta esculturas e máscaras foram saqueadas na África. E no final da década de 20 e início de 30, quando, por exemplo, Alberto Giacometti começou a se interessar e usá-las em suas esculturas e desenhos, estas máscaras e esculturas já estavam totalmente banalizadas e vendidas como suvenires em Paris. Mesmo assim a força destes objetos africanos, também da Oceania, influenciarão decisivamente este grande escultor, pintor, desenhista, xilogravurista…

Pia de água benta de escultor desconhecido, século XVIII.Obra localizada no Museu das Bandeiras, Goiás-GO.

Passando por Goiás, e com a cabeça cheia de Arte Africana, de Giacometti, cuja exposição na Pinacoteca de São Paulo tinha visitado, e na volta de Goiás visitei novamente, vi esta pia de água benta, uma escultura que lembra muito a arte africana. Como é de escultor desconhecido, poderia ser de algum escultor escravo, ou influenciado pela cultura dos escravos brasileiros, tal a semelhança com muitas esculturas expostas na CPFL-Campinas/SP, na exposição denominada “Memória e Altar”, coleção de Rogério Cerqueira Leite. Exposição já comentada aqui e que será por muitos anos, já que pretendo resenhar livros e publicações sobre o tema. Já adquiri alguns livros e pretendo comprar outros.

Escultura da Civilização SONGYE, República Democrática do Congo. Chama a atenção para a cabeça com um recipiente, parecendo um feitiço.
No caso da Pia de água benta, notei que tem feições africanas, quando, quase sempre povoam as igrejas católicas esculturas com feições européias. Da exposição “Memória e Altar”, na CPFL, coleção de Rogério Cerqueira Leite

Cartaz do museu… com a procedência da pia de água benta.

Como podemos ler no cartaz, no museu em Goiás-GO, esta pia de água benta é de escultor desconhecido.

Pia de água benta, Goiás-GO.

Pelas feições à exceção do cabelo, mais ainda pela postura, me levou a acreditar que seja de um escultor de origem africana ou influenciado pela cultura africana. Seria um sincretismo na contramão. Há a famosa lavagem das escadarias do Bonfim, mas escadarias, fora da igreja, ou santos católicos identificados com entidades afros. Mas aqui a pia de água benta faz parte dos rituais da igreja Católica, dentro da igreja. Aqui, talvez, o negro levou para dentro da Igreja Católica a sua visão de mundo. Ou à sua imagem (e semelhança) do seu mundo. Outras ocorrências destas me interessam muitíssimo. Mais uma coisa para estudar!


CIVILIZAÇÕES AFRICANAS: Memória e Altar: apontamentos 01

15/05/2012

LINKS APARA ALGUNS TEXTOS SOBRE ARTE AFRICANA

[Clique sobre a foto para vê-la em grande formato]

Abaixo vou relacionar vários links de textos sobre as civilizações africanas. Este POST, assim como quase todo o jornaldoporao, será uma espécie de levantamento bibliográfico, resumos e resenhas. Espero que interesse a outras pessoas, mas principalmente será um caderno de Estudo para mim.  Tudo aqui será muito provisório. Tudo estará aberto. Novos textos, novos textos encontrados ou sugeridos, novas idéias, novas referências, tudo será imediatamente agregado, sem muita preocupação com “opiniões” definitivas, nem mesmo assentadas. Uma caderno de estudo. Um caderno de apontamentos. 01.Cultura material e Arte africana Formas de Humanidade, Museu de Arqueologia e Etimologia, USP 02 .Cultura material e História Formas de Humanidade, Museu de Arqueologia e Etimologia, USP 03.Cultura material, Filosofia e Religião Formas de Humanidade, Museu de Arqueologia e Etimologia, USP 04. Civilização NOK 05.MUSEU AFROBRASIL – NEGROS PINTORES – SÉC.XIX e XX</a

REPETINDO QUE ESTE BLOG PRETENDE, ANTES DE QUALQUER COISA, SER UM CADERNO DE APONTAMENTOS. DICAS PARA ESTUDO. POUCA COISA ALÉM DISSO.

A UNESCO COLOCOU ONLINE SUA COLEÇÃO “HISTÓRIA GERAL DA ÁFRICA”.

A PAGINA DA UNESCO:

LINK 06 – AS INFLUÊNCIAS DA ARTE AFRICANA NA ARTE MODERNA, de José D’Assunção Barros

ALTAR E MEMÓRIA, OUTROS TEXTOS AQUI NO JORNALDOPORAO:


Memória e Altar. Apontamento 02 – CULTURA MATERIAL AFRICANA: arte ou não arte?

13/05/2012

“Não seria difícil encontrar nessa arte africana alguns elementos de aproximação com os de correntes da arte ocidental, do naturalismo ao abstracionismo. Mas esse tipo de comparação não é capaz de desvendar o verdadeiro sentido da arte africana tradicional, porque esta não foi feita para ser realista ou cubista, isto é, ela não era um exercício de reflexão sobre a forma, ou sobre a matéria, como nas artes plásticas entre nós. Apesar disso, pode-se identificar na arte africana os elementos que permitiram a artistas, como Picasso, a revolucionar a arte ocidental”.Cultura material e História
Formas de Humanidade, Museu de Arqueologia e Etimologia, USP

DUAS FACETAS QUE José D’Assunção Barros MOSTRA EXISTIR TAMBÉM NA ARTE AFRICANA E UM SÍNTESE AINDA MAIS PROFUNDA POR SEU ASPECTO DE QUERER REPRESENTAR O HOMEM EM GERAL, POR SEU ASPECTO COLETIVO.
“O cubismo, portanto, é uma invenção intelectual dos europeus, que nada tem a ver com a intenção dos africanos: enquanto no cubismo a representação do objeto se dá de diversos pontos de vista, em diversas de suas dimensões formais ao mesmo tempo, a estética africana busca, ao contrário, uma síntese do objeto ou do tema construído materialmente, plena de objetivo, inspiração e conteúdo.“Cultura material e História
Formas de Humanidade, Museu de Arqueologia e Etimologia, USP

“Uma estátua não representa, normalmente, um Homem, mas um Ser Humano integral, que tem uma parte física e espiritual – do passado e do futuro. Tem, por isso, um lado sagrado, ligado às forças da Natureza e do Universo. Uma máscara ou uma estátua concentram forças inerentes do próprio material de que são constituídas, ou que comportam em seu interior ou superfície, além de sua própria força estética. Elas não têm, portanto, uma função meramente formal.”Cultura material e Arte africana
Formas de Humanidade, Museu de Arqueologia e Etimologia, USP

No entanto o debate só se aprofunda. E esta citação que segue não é um apaziguamento. A fragmentação que é essencial no que é o Cubismo, tá presente, insistentemente, na arte africana. Portanto há mais que aparência formal. ” Características como narizes alongados e faces côncavas, visíveis em máscaras e esculturas africanas, por exemplo, mostram “a fragmentação típica da representação do nú feminino feita por Picasso”, afirma Martin”.Exposição explora influência africana na obra de Picasso

MAS MESMO ESTA EXPOSIÇÃO[na África do Sul], COMPARANDO CADA OBRA DE PICASSO COM AQUELA AFRICANA QUE INFLUENCIOU, E DA, TALVEZ, UMA PÁLIDA IDEIA DO QUE SIGNIFICOU A ARTE AFRICANA PARA A ARTE MODERNA OCIDENTAL. O ARTIGO LINCADO ABAIXO PROCURA DEMONSTRAR UMA GAMA DE LEITURAS. MOSTRA AS DIFERENÇAS DE VISÃO. MOSTRA AS INFLUÊNCIAS ESTÉTICAS, FORMAIS, EVIDENTES EM MUITOS PINTORES E ESCULTORES. MAS VAI TERMINAR MOSTRANDO QUE, PARA OS COMTEMPORÂNEOS, DEPOIS DA DÉCADA DE 60, A ARTE AFRICANA, MAIS QUE INFLUÊNCIAS QUE TEVE É, ANTES DE MAIS NADA, PRECURSORA DA ARTE A SER FEITA.
PARA MIM, SEMI-ANALFABETO EM ARTE É UM ARTIGO QUE ABRE MUITAS PERSPECTIVAS DE ESTUDO. E ESTE ARTIGO DE José D’Assunção Barros contém várias ilustrações, comparativas, interessantes.
VÃO, ABAIXO, O LINK E ALGUMAS CITAÇÕES, com títulos colocados por mim.

AS INFLUÊNCIAS DA ARTE AFRICANA
NA ARTE MODERNA
José D’Assunção Barros

“quando o encontro dos artistas europeus com diversas
alteridades artísticas permitiu uma completa recriação da arte europeia
e de suas possibilidades técnicas.” p. 01

MATISSE
“correntes da arte moderna a se interessar diretamente pela possibilidade
de aprender com as manifestações artísticas africanas foi a dos fauvistas,
sobretudo a partir de Henri Matisse”.p.02

“A escultura
matissiana é especialmente inspirada na estatuária africana – particularmente a partir de algumas peças que o artista francês adquirira em
1906 – e revela-se aí um dos gêneros através dos quais as diversas formas de expressão africanas puderam penetrar mais decisivamente na
arte moderna.”p.02

HÁ UMA GAMA IMENSA DE INFLUÊNCIAS:
“felizmente, os artistas ocidentais foram,
com alguma liberdade decifrando os artefatos africanos por camadas,
captando-lhes as dimensões que cada época permitia: a expressão, a
intensidade, a forma, a interatividade.”.p.41

BRANCUSI CRIA ESCULTURAS INÉDITAS, MAS A PARTIR DA ARTE AFRICANA:
“Foi assim que Brancusi (1856-1957), um dos principais escultores de tendência cubista, pôde apropriar-se das talhas em madeira da
África (mas também da Oceania), para idealizar e concretizar um tipo
de escultura inédito na civilização europeia”.p.43Outras escolhas foram as de Modigliani, que foi imediatamente

Memória e Altar: coleção Rogério Cerqueira LeiteMODIGLIANI, PINTURAS E ESCULTURAS CALCADAS NAS INFLUÊNCIAS AFRICANAS:
“atraído pelas esculturas e estatuetas de rostos alongados – e ele mesmo
produziu, a partir de 1908, esculturas próximas de alguns estilos africanos. Basta citar uma conhecida Cabeça de 1913, hoje na Galeria Tate
em Londres”.p.43

PICASSO, PINTURAS E ESCULTURAS, COM VÁRIAS LEITURAS DA ARTE AFRICANA. DAS MÁSCARAS E DAS ESCULTURAS.
“Em 1907, tendo como impactante marco o quadro Les Demoiselles
d’Avignon, Picasso começa a elaborar uma nova estética – logo denominada cubista, na sintonia com algumas pinturas que Braque já vinha
desenvolvendo. Essa nova estética fundamenta-se, grosso modo, na
destruição de harmonia clássica das figuras e na decomposição da realidade. Mas ela foi primordialmente inspirada nas máscaras rituais da
África, com as quais Picasso tivera contato naquele mesmo ano.”.p.44

MAIS DO QUE INFLUÊNCIAS. A PARTIR DE 1960, A ARTE AFRICANA VAI SER VISTA COMO PRECURSORA DA ARTE CONTEMPORÂNEA. OU MESMO ANTECIPADORA.
“Somente a partir da década de 1960, como veremos adiante, os
artistas ocidentais iriam dar-se conta de que a máscara poderia ser também um poderoso meio de integração com a natureza, com o ambiente e
com os misteriosos mecanismos instituidores de uma identidade mágico-religiosa. Mas, no princípio do século XX, a leitura ocidental das
máscaras africanas concentra-se nos aspectos estéticos, formais e expressivos – o que já foi certamente uma grande novidade para a época”.p.69

“A última dimensão a ser ressaltada para uma correta compreensão do que vem a ser a máscara ritualística – e esta será particularmente
importante para a segunda leitura da alteridade africana, que os artistas
ocidentais empreendem a partir dos anos 1960 – é a da coletividade”.p.70

“Assim, pode-se dizer que – mesmo quando pretende invocar com
intenso realismo o rosto humano – o artista africano libera-o daquelas
particularidades individuais que fariam dele algo como um retrato à
maneira ocidental, e, com isso, logra-se alcançar um máximo de intensidade expressiva generalizada. Os traços pessoais de um rosto são deliberadamente abolidos ou transfigurados, e a estrutura fundamental do
rosto, embora sugerindo em algumas situações um intenso realismo, é
obtida de maneira inusitada por uma bem calculada disposição dos volumes e das formas geométricas, em um vivo contraste que constitui a
sua trama fisionômica essencial. Com isto, a multiplicidade de formas
produzida pelas máscaras africanas – e também pelas esculturas dos
mesmos povos – parece recriar o próprio gênero humano transferindolhe imprevisíveis possibilidades formais e expressivas.”.p.71

“Não obstante essa imensa variedade de formas, a arte negra –
escultura ou máscara – apresenta uma direção estética bem definida:
ela é, sobretudo, uma arte de expressão que parte de dentro do humano
para fora, e que, portanto, se mostra como pura “invenção”, ao invés de
se configurar na reprodução ou na imitação da natureza, que está na
origem da escultura ocidental.”.p.71

“Quando examinamos algumas das máscaras e das esculturas negras, pertencentes às diversas culturas do continente africano, não podemos deixar de admirar a inventividade, a sofisticação e as audácias
que unem, criativamente, representação e abstração, através desses artefatos.”.p.71

John Golding, Cubism – A History of Analysis (1907-1914), Boston: Boston Book and Art
Shop, 1968, p.27:
Analisa neste livro que o que une Picasso e a arte africana é exatamente o intelectualismo. A capacidade de abstração.”Aqui, as ideias sobre certo tema é que
seriam a verdadeira chave para a elaboração dos objetos artísticos, permitindo, de um lado, a possibilidade de estilizar e reconstruir livremente a imagem de um homem, de um animal ou de qualquer outro objeto
presente na natureza, e, de outro, abrindo-se também oportunidades para
o exercício mental de uma simbolização através dessas imagens. Essa
dimensão conceitual é que estaria na base de uma ligação da arte negra
com obras como as Demoiselles e outras já francamente cubistas.”p.78

Outras analisam esta intersecção mais pelo conteúdo do que pela forma, mostrando o interesse de Picasso pelo sentido mágico.” William Rubin, um
pouco nessa direção, desenvolve a ideia de que Picasso teria sido atra-
ído pelas máscaras negras em virtude de seu significado mágico.p. 78

“É oportuno ressaltar que – à mesma época em que se desenvolvia
a assimilação das então chamadas “culturas primitivas” pelos cubistas,
fauvistas e outros campos estéticos – os músicos ocidentais também
abriam uma corrente estética que se empenhava em trabalhar com ritmos que eram percebidos como primitivos, pelos europeus, e com dan-
ças ritualísticas, fossem da África ou da América Latina. Alguns dos
exemplos mais notórios desse “primitivismo musical” – uma designa-
ção que frequentemente era evocada pelos músicos ocidentais – podem
ser encontrados na célebre Sagração da Primavera, de Stravinsky
(1913)
, ou no Allegro Bárbaro de Bela Bartók (1911). Essas obras despertaram o mesmo escândalo que algumas das pinturas cubistas, sobretudo o ballet Sagração da Primavera, que tematiza um mundo de sacrifícios pagãos e de ritmos selvagens. Dessa maneira, pode-se concluir
que a assimilação da “alteridade primitiva” foi um fenômeno amplo,
que abarcou as diversas modalidades de expressão artística e que corresponde de algum modo a uma tendência cultural mais ampla.p.”89

No mundo da arte ambiental e interativa do final dos anos 1960,
da superação dos limites tradicionais dos gêneros artísticos em direção
a um campo cada vez mais expandido, da arte pós-moderna ou da
ambiental participante, os artistas ocidentais passavam a se fascinar com
a possibilidade de encontrar uma equivalência entre “a sua atitude, o
seu trabalho, e a atitude e o trabalho do artista negro ou caduceu, nos
seus respectivos contextos sociais”.

” Os artistas ocidentais dos anos
60, preocupados com questões como a de vencer o isolamento do artista
em relação à sociedade, de alcançar o coletivo ou mesmo o mítico, subitamente se encantavam mais uma vez com a arte negra, que, no seu
contexto cultural e natural, alcançava precisamente isto.”p.92

“Esses artistas ocidentais finalmente percebiam que haviam sido
precedidos em suas atuais preocupações pelos artistas negros e de outras sociedades por eles consideradas como primitivas – estas que, como
eles, davam forma à vontade de modificar a ordem natural, de alterar de
maneira ativa e dinâmica, o ambiente em que estavam mergulhados.”p.92

OS ARTISTAS MODERNOS VÃO NOTAR QUE A ARTE NEGRA E OUTRAS CHAMADAS PRIMITIVAS, MAIS QUE INFLUÊNCIA, SÃO ARTES PRECURSORAS.
“É um mundo em que a
pintura salta para o universo escultórico, ou em que a escultura se torna
penetrável ou interferida pelo receptor de arte – interpenetrando-se, assim, de teatro e de vida – que permite que os artistas ocidentais aprendam, mais uma vez, com a alteridade africana que não conhecia obviamente estas limitações artísticas. O mundo que permite uma quarta
releitura da arte africana é o da arte ocidental, que se aventura para o
campo expandido.
Memória e Altar: coleção Rogério Cerqueira LeiteUm exemplo brasileiro pode ser dado com o Parangolé de Hélio
Oiticica, objetos artísticos que sintonizam com o conceito expandido
de máscara, que traziam os africanos desde as suas origens. O Parangolé
não é para ser contemplado como objeto imobilizado em museu: é para
envolver quem usufrui da arte, para ser vestido, para se oferecer à possibilidade das progressões espaciais e da dança. É um objeto integrador,
que cria conexões com a sociedade, com a natureza e com o mundo”

NÃO É CITADO NOS TEXTOS, mas o que poderíamos chamar da diluição das artes, nos materiais de cultura popular, não deixa de ter, para mim, um vivo interesse.

. Seria interessante fazer um levantamento das influências da arte africana na chamada cultura POP. É quase evidente ver as chamadas distorções, alongamentos, afilamentos, economia de traços, expansões da imagem… uma gama de recursos para aumentar a expressividade. Os quadrinhos, as capas dos antigos LPs, as ilustrações de livros, etc.

OUTROS PINTORES E ESCULTORES NÃO CITADOS NOS TEXTOS,

mas que numa sumária olhada vê-se a influência marcante ou dominante da arte africana, ou no que ela tem de cerebral, ou no que tem de psicológico e de conteúdo, como analisou o artigo de José D’Assunção Barros

E O CINEMA?

O Site  A Matéria do Tempo posto o documentário de Alain Resnais, Les Statues meurent aussi[As Estátuas também Morrem], um libelo anticolonial que usa as máscaras e esculturas africanas como apoio para esta denuncia políica. Outro site, Cine-engodo, comenta tal documentário. Foi postado em francês, legendado em Inglês.
O site A Matéria do Tempo ainda trouxe um link da Sociedade de Geografia de Lisboa, cujo site traz vários links para museus etnográficos.

NA FOTOGRAFIA.

De Man Ray, um dos precursores do surrealismo na fotografia, segundo o livro Man Ray, da editora Taschen.
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LINK 01 – AS INFLUÊNCIAS DA ARTE AFRICANA NA ARTE MODERNA, DeJosé D’Assunção Barros
LINK 02 – LINKS APARA ALGUNS TEXTOS SOBRE ARTE AFRICANA