Mente dolorosa

05/09/2012



O escritor é um sujeito cruel. Quando Macabéa, sem nada para dizer, diz,  para seu grosseiro e estúpido namorado, que gosta muito de parafuso, Clarice Lispector não parece fazer humor, mas dizer que, em algum momento, pelo menos em algum momento, Clarice Lispector é ou foi Macabea, vítima de alguma estupidez sua ou de outro. E nós somos e estamos cercados de macabeas e seus namorados. Mas é muito doloroso saber disso. Talvez a cena seja engraçada para muita gente.
Mas quando Machado de Assis, deliberadamente, faz humor com o alienista há um acréscimo de crueldade. Poderíamos dizer que Machado de Assis se identifica com o alienista que, depois ficamos sabendo,   é o único alienado;  já que M. de Assis tinha epilepsia, tida como doença mental naqueles tempos e muitos sofriam de discriminação por causa desta doença. Quando li ri sim, mas sofri bastante. E, ainda hoje, sofro ao lembrar do livro e refugo um pouco em voltar a lê-lo.
Mas como em Gógol, no Diário de Um Louco, narra-se o próprio delírio, o nonsense, o escritor procurou o riso mais aberto. Mas em mim a dor é maior ainda. Se gargalhar pior ainda.
E a literatura serve para quê?
E se o for bem escrito provavelmente nos fará sofrer mais que a própria realidade. Para mim a grande literatura seja essa espada aí, acima, no desenho.
Talvez a grande literatura seja, para a maioria das pessoas, uma coisa repulsiva. Um fardo.
E leitores contumazes não passem de outra espécie de doentes, os viciado em sofrimento.
E o riso não parece ser o melhor remédio. Talvez apenas um entorpecente para suportar o insuportável da condição humana. E alguns escritores, como Campos de Carvalho, neste A Lua Vem da Ásia, que estou lendo, procure o riso aberto, onde, cada parágrafo é uma sucessão de delírios, sem nenhuma trégua, desencadeados, delírios e risos.
Há séculos amamos Dom Quixote, de Cervantes. Mas a sociedade não ama seus alienados. Muito ao contrário. Há histórias de prisões e torturas. Hoje é a prisão da medicação.
E então, Dom Quixote serve para quê? Parece não servir para nada. Não é um manual de auto-ajuda, não é ajuda médica. O que seria então?
Nem se fosse medicina adiantaria alguma coisa. Grande parte das doenças mentais, como a esquizofrenia, pródiga em delírios – bem possível que seja a que mais dá literatura – ou alzheimer, da qual todos nós podemos estar sujeitos a qualquer hora, não têm cura. Muitas nem mesmo alívio. E todas são discriminadas, escondidas e entregue à dura sorte. Só que estamos falando de bilhões de pessoas e no Brasil, de milhões.
Hoje, parei de escrever aqui para ver na TV Globo um programa que denunciava a venda indiscriminada de remédios tarja preta. Mas o que fazer sem os remédios? Não há profissionais, clínicas são caras. O remédio é uma maneira de dopara as pessoas, dar um sossega-leão como se diz e para outras apenas para esperar que elas morram, sem criar grandes problemas. Já tive uma parenta que foi topada até perder o apetite, ficar esquálida, e morrer de inanição. E quando ela estava bem magra, os médicos lhe dava abridor de apetite e ela comia montanhas, até o vômito.
E para que serve a literatura, então? Para nada. Talvez seja falsa a minha postura de achar que estou lendo sobre mim mesmo. De estar me vendo naquele próximo, numa solidariedade livresca, diriam os caridosos.
Também lemos sobre amores que nem existem. E quando existem é tudo muito pior quando morrem. Lemos sobre guerras que assolam a humanidade desde as cavernas. Os heróis são aqueles com maior capacidade de matar. Desde os games à Ilíada comemora-se os feitos sangrentos. E parece que  a humanidade, desde seus primórdios, vivesse em delírio permanente. Os heróis são inverossímeis, os deuses, criados pelos homens, são cruéis e ciumentos, intempestivos e delirantes. Mas olhando atentamente parece que nos livros não há nenhum exagero. Pelo contrário, é preciso fazer um pouco de poesia, para atenuar ou contornar a uma realidade muito cruenta.  As vezes mais sugere do que mostra.
Para que serve a literatura, então? Talvez para falar de nós, já que vivemos alienados de nós mesmos, fingindo o tempo todo que somos outros, sãos e racionais. Mas nada garante que a maioria se reconheça nos grandes livros. Tanto é que os livros mais vendidos são aqueles feitos para aprofundar o auto-engano, os chamados de auto-ajuda.
A fórmula de Nietzsche é que não há cura possível e a arte ajudaria a olhar o abismo de frente e o abismo é inevitável. A arte daria alguma coragem para isso? Ou seria um esclarecimento? Nietzsche se filia ao deus dionísio que seria o deus do transe, da dança e do vinho.
Para Oswaldo de Andrade a alegria é a prova dos nove. Mas essa espada aí atrapalha prá caralho!!! Mas o carnaval deve continuar mesmo que nele sejamos pierrôs.
Talvez esse riso tão doloroso, buscado pelos artistas, seja a sua parte neste carnaval, para esta dança.

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Alguns livros da minha biblioteca: Mente Dolorosa

Com 16 anos li o Alienista, de Machado de Assis. Mesmo com a tendência sacana dos jovens pegarem tudo pelo lado do humor, nunca me livrei da angústia que veio junto. Na mesma época li a “Nova Califórnia”, de Lima Barreto e “Policarpo Quaresma”.  E, apesar da maioria de leitores e críticos, eu tenho uma predileção por Lima Barreto, e posso até aceitar que Machado de Assis lhe é superior.
Cinco ou seis anos depois li e jamais me esqueci do Diário de um Louco, de Gógol. Durante alguns anos eu não falava de outra coisa. Tinha até ilusão de que me ajudaria a ser amado por um linda dentista trotskista. Ilusão tola que nunca me abandona de todo, assim como nela há algo daquele fulgor de 30 anos passados, como pude comprovar recentemente.  Mas acho que ela sumiu com meu exemplar sem lê-lo. Algum tempo depois ignorei a montagem que fizera  um ator que ganhou, acho, algum prêmio, fazendo um montagem teatral que não vi… Quase todo o meu tempo é para tentar mudar o mundo… Coisa que nunca acreditei ser muito possível, depois que li o Memórias do Subsolo, de Dostoiévski. Livro que beira a total loucura, sem que o personagem ou o narrador assuma, em momento algum, tal postura. Mas também não conseguia viver sem tentar. Contradição que me faz um permanente nó no grugumilo – palavra que só ouvi com Lima Duarte, o ator, para dizer gogó.
Recentemente li o O Cão e o Tempo, de Maria Rita Kehl. Não é ficção, mas mostra a total insanidade da indústria farmacêutica, dos psiquiatras, e do abandono, inclusive teórico, que vive os doentes mentais.
E li “Hoje sou Alice, nove personalidades, uma mente torturada”, um espécie de autobiograia de Alice Jamieson.
Nesta lista vou incluir o Idiota, de Dostoiévski e o Apocalipse, atribuído a João. Apocalipse que, desde minha tenra e amedrontada  infância católica, me assustou e, muito cedo, debitei à uma mente em delírio.
Curioso o poder de uma lista. Li, por total acaso, a lista Vanessa Barbara [Biblioteca de Lunáticos 01 e Biblioteca de Lunáticos 02] e sei que vou ler tudo e muito mais. Coisa que devia ter feito há muitos anos. Mesmo quando fiquei totalmente arrasado, por anos, quando me deparei com a Tia Biela, de Uma vida em segredo, de Autran Dourado. E continuo sendo visitado por ela. E quando topo com ela me angústia chega à dor física.
Não está resolvido para mim se a Macabea, de Hora da Estrela, de Clarice Lispector, assim como Tia Biela, ou os personagens de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, também fariam parte de uma lista destas mentes dolorosamente perturbadas, mesmo que nestes três casos, fossem atacados por atavismos sociais ou simplorices. A mim me causa as mesmas dores e as mesmas angústias. Por enquanto mantenho aqui.

Nesta lista será inevitável incluir certas leituras de não ficção, como Elogio da Loucura de Erasmo ou História da Loucura, Foucault. Ou seja, a partir da lista de…. vou fazer minha lista, “em processo”. Um lista provisória. Nada categórica. Mesmo sem categoria. Nem mesmo recusarei ler, neste campo, livros que poderiam ser considerados da abominável auto-ajuda. Apesar que há limites, apesar de ter ficado muito emocionado à época, não vou colocar a versão de Moacyr Franco, para a música de Piazzola.

Mesmo Maria Rita Kehl, com toda sua coragem e determinação, escreve um livro tateante sobre a depressão – mal que atinge milhões no Brasil, talvez até bilhões no planeta e que está entregue á indústria farmacêutica. Entregues ao abandono e a dor.  No Brasil, a venda de remédios para tratar algo como depressão cresce a mais de 22 por cento ao ano. mais que dobra em 5 anos. E essa estatística, como qualquer outra, não computa sofrimento. Isso está a cargo dos artistas.

Na lista não inclui, por desconhecer, os artistas, para mim os mais importantes, os poetas. E procurará  os músicos seus irmãos gêmeos.

Dom Quixote, desenho de Gustave Doré

Pior de tudo.  Acredito que leituras fazem mal sim. Dom Quixote de la Mancha atesta isso. E jamais, em nenhum dia deixo de me lembrar do desenho, de um ser esquálido atravessado transversalmente por uma espada, em baixo a legenda: só dói quando rio. A malditos artistas não nos aliviam.

E agora estou lendo Campos de Carvalho e o seu “A Lua Vem da Ásia”, que na primeira página tem isso:

“A primeira mulher que possuí foi sob a ponte do Sena, em pleno coração de Paris imaginário; e ainda me lembro de que ela me sorria com uns dentes que refletiam as estrelas e as lâmpadas do cais adormecido, e dizia-me coisas numa língua que eu não conhecia”.

links

01. Biblioteca de Lunáticos 1
02. Biblioteca de Lunáticos 2

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A Delinqüência Acadêmica, por Maurício Tragtemberg

19/11/2010

Este artigo publicado em 1978. Publicado aqui neste Jornal do Porão em 19 de novembro de 2009 é um dos textos mais lidos do Jornal do Porão. Mas ainda pouco lido. A biblioteca da da Faculdade de Educação da Unicamp tem uma coleção de Maurício Tragtemberg. Mas o que significa Maurício Tratgemberg para os professores da Unicamp?
Ano a ano republicarei este texto dele , esperando respostas.

Assim como Maurício Tratgtemberg, é convenientemente esquecido Paulo Freire. Que não devemos cansar de lembrar, foi escolhido como Reitor e quem ficou em 14o. lugar na consulta, o Dr. Pinotti, foi quem assumiu. E assim a coligação que escolheu Pinotti, o décimo quarto colocado, manda na Unicamp até hoje. Mais de 20 anos de mando. Será que esta coligação, herdeira de Pinotti, tem algum mérito próximo a Paulo Freire e Maurício Tragtemberg?

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por Maurício Tragtenberg* [* Texto apresentado no I Seminário de Educação Brasileira, realizado em 1978, em Campinas-SP. Publicado em: TRAGTENBERG, M. Sobre Educação, Política e Sindicalismo. Sã Paulo: Editores Associados; Cortez, 1990, 2ª ed. (Coleção teoria e práticas sociais, vol 1)]

O tema é amplo: a relação entre a dominação e o saber, a relação entre o intelectual e a universidade como instituição dominante ligada à dominação, a universidade antipovo.

A universidade está em crise. Isto ocorre porque a sociedade está em crise; através da crise da universidade é que os jovens funcionam detectando as contradições profundas do social, refletidas na universidade. A universidade não é algo tão essencial como a linguagem; ela é simplesmente uma instituição dominante ligada à dominação. Não é uma instituição neutra; é uma instituição de classe, onde as contradições de classe aparecem. Para obscurecer esses fatores ela desenvolve uma ideologia do saber neutro, científico, a neutralidade cultural e o mito de um saber “objetivo”, acima das contradições sociais.

No século passado, período do capitalismo liberal, ela procurava formar um tipo de “homem” que se caracterizava por um comportamento autônomo, exigido por suas funções sociais: era a universidade liberal humanista e mandarinesca. Hoje, ela forma a mão-de-obra destinada a manter nas fábricas o despotismo do capital; nos institutos de pesquisa, cria aqueles que deformam os dados econômicos em detrimento dos assalariados; nas suas escolas de direito forma os aplicadores da legislação de exceção; nas escolas de medicina, aqueles que irão convertê-la numa medicina do capital ou utilizá-la repressivamente contra os deserdados do sistema. Em suma, trata-se de “um complô de belas almas” recheadas de títulos acadêmicos, de um doutorismo substituindo o bacharelismo, de uma nova pedantocracia, da produção de um saber a serviço do poder, seja ele de que espécie for.

Na instância das faculdades de educação, forma-se o planejador tecnocrata a quem importa discutir os meios sem discutir os fins da educação, confeccionar reformas estruturais que na realidade são verdadeiras “restaurações”. Formando o professor-policial, aquele que supervaloriza o sistema de exames, a avaliação rígida do aluno, o conformismo ante o saber professoral. A pretensa criação do conhecimento é substituída pelo controle sobre o parco conhecimento produzido pelas nossas universidades, o controle do meio transforma-se em fim, e o “campus” universitário cada vez mais parece um universo concentracionário que reúne aqueles que se originam da classe alta e média, enquanto professores, e os alunos da mesma extração social, como “herdeiros” potenciais do poder através de um saber minguado, atestado por um diploma.

A universidade classista se mantém através do poder exercido pela seleção dos estudantes e pelos mecanismos de nomeação de professores. Na universidade mandarinal do século passado o professor cumpria a função de “cão de guarda” do sistema: produtor e reprodutor da ideologia dominante, chefe de disciplina do estudante. Cabia à sua função professoral, acima de tudo, inculcar as normas de passividade, subserviência e docilidade, através da repressão pedagógica, formando a mão-de-obra para um sistema fundado na desigualdade social, a qual acreditava legitimar-se através da desigualdade de rendimento escolar; enfim, onde a escola “escolhia” pedagogicamente os “escolhidos” socialmente.

A transformação do professor de “cão de guarda” em “cão pastor” acompanha a passagem da universidade pretensamente humanista e mandarinesca à universidade tecnocrática, onde os critérios lucrativos da empresa privada, funcionarão para a formação das fornadas de “colarinhos brancos” rumo às usinas, escritórios e dependências ministeriais. É o mito da assessoria, do posto público, que mobiliza o diplomado universitário.

A universidade dominante reproduz-se mesmo através dos “cursos críticos”, em que o juízo professoral aparece hegemônico ante os dominados: os estudantes. Isso se realiza através de um processo que chamarei de “contaminação”. O curso catedrático e dogmático transforma-se num curso magisterial e crítico; a crítica ideológica é feita nos chamados “cursos críticos”, que desempenham a função de um tranqüilizante no meio universitário. Essa apropriação da crítica pelo mandarinato universitário, mantido o sistema de exames, a conformidade ao programa e o controle da docilidade do estudante como alvos básicos, constitui-se numa farsa, numa fábrica de boa consciência e delinqüência acadêmica, daqueles que trocam o poder da razão pela razão do poder. Por isso é necessário realizar a crítica da crítica-crítica, destruir a apropriação da crítica pelo mandarinato acadêmico. Watson demonstrou como, nas ciências humanas, as pesquisas em química molecular estão impregnadas de ideologia. Não se trata de discutir a apropriação burguesa do saber ou não-burguesa do saber, mas sim a destruição do “saber institucionalizado”, do “saber burocratizado” como único “legítimo”. A apropriação universitária (atual) do conhecimento é a concepção capitalista de saber, onde ele se constitui em capital e toma a forma nos hábitos universitários.

A universidade reproduz o modo de produção capitalista dominante não apenas pela ideologia que transmite, mas pelos servos que ela forma. Esse modo de produção determina o tipo de formação através das transformações introduzidas na escola, que coloca em relação mestres e estudantes. O mestre possui um saber inacabado e o aluno uma ignorância transitória, não há saber absoluto nem ignorância absoluta. A relação de saber não institui a diferença entre aluno e professor, a separação entre aluno e professor opera-se através de uma relação de poder simbolizada pelo sistema de exames – “esse batismo burocrático do saber”. O exame é a parte visível da seleção; a invisível é a entrevista, que cumpre as mesmas funções de “exclusão” que possui a empresa em relação ao futuro empregado. Informalmente, docilmente, ela “exclui” o candidato. Para o professor, há o currículo visível, publicações, conferências, traduções e atividade didática, e há o currículo invisível – esse de posse da chamada “informação” que possui espaço na universidade, onde o destino está em aberto e tudo é possível acontecer. É através da nomeação, da cooptação dos mais conformistas (nem sempre os mais produtivos) que a burocracia universitária reproduz o canil de professores. Os valores de submissão e conformismo, a cada instante exibidos pelos comportamentos dos professores, já constituem um sistema ideológico. Mas, em que consiste a delinqüência acadêmica?

A “delinqüência acadêmica” aparece em nossa época longe de seguir os ditames de Kant: “Ouse conhecer.” Se os estudantes procuram conhecer os espíritos audazes de nossa época é fora da universidade que irão encontrá-los. A bem da verdade, raramente a audácia caracterizou a profissão acadêmica. Os filósofos da revolução francesa se autodenominavam de “intelectuais” e não de “acadêmicos”. Isso ocorria porque a universidade mostrara-se hostil ao pensamento crítico avançado. Pela mesma razão, o projeto de Jefferson para a Universidade de Virgínia, concebida para produção de um pensamento independente da Igreja e do Estado (de caráter crítico), fora substituído por uma “universidade que mascarava a usurpação e monopólio  da riqueza, do poder”. Isso levou os estudantes da época a realizarem programas extracurriculares, onde Emerson fazia-se ouvir, já que o obscurantismo da época impedia a entrada nos prédios universitários, pois contrariavam a Igreja, o Estado e as grandes “corporações”, a que alguns intelectuais cooptados pretendem que tenham uma “alma”.[1]

Em nome do “atendimento à comunidade”, “serviço público”, a universidade tende cada vez mais à adaptação indiscriminada a quaisquer pesquisas a serviço dos interesses econômicos hegemônicos; nesse andar, a universidade brasileira oferecerá disciplinas como as existentes na metrópole (EUA): cursos de escotismo, defesa contra incêndios, economia doméstica e datilografia em nível de secretariado, pois já existe isso em Cornell, Wisconson e outros estabelecimentos legitimados. O conflito entre o técnico e o humanismo acaba em compromisso, a universidade brasileira se prepara para ser uma “multiversidade”, isto é, ensina tudo aquilo que o aluno possa pagar. A universidade, vista como prestadora de serviços, corre o risco de enquadrar-se numa “agência de poder”, especialmente após 68, com a Operação Rondon e sua aparente democratização, só nas vagas; funciona como tranqüilidade social. O assistencialismo universitário não resolve o problema da maioria da população brasileira: o problema da terra.

A universidade brasileira, nos últimos 15 anos, preparou técnicos que funcionaram como juízes e promotores, aplicando a Lei de Segurança Nacional, médicos que assinavam atestados de óbito mentirosos, zelosos professores de Educação Moral e Cívica garantindo a hegemonia da ideologia da “segurança nacional” codificada no Pentágono.

O problema significativo a ser colocado é o nível de responsabilidade social dos professores e pesquisadores universitários. A não preocupação com as finalidades sociais do conhecimento produzido se constitui em fator de “delinqüência acadêmica” ou da “traição do intelectual”. Em nome do “serviço à comunidade”, a intelectualidade universitária se tornou cúmplice do genocídio, espionagem, engano e todo tipo de corrupção dominante, quando domina a “razão do Estado” em detrimento do povo. Isso vale para aqueles que aperfeiçoam secretamente armas nucleares (M.I.T.), armas químico-biológicas (Universidade da Califórnia, Berkeley), pensadores inseridos na Rand Corporation, como aqueles que, na qualidade de intelectuais com diploma acreditativo, funcionam na censura, na aplicação da computação com fins repressivos em nosso país. Uma universidade que produz pesquisas ou cursos a quem é apto a pagá-los perde o senso da discriminação ética e da finalidade social de sua produção – é uma multiversidade que se vende no mercado ao primeiro comprador, sem averiguar o fim da encomenda, isso coberto pela ideologia da neutralidade do conhecimento e seu produto.

Já na década de 30, Frederic Lilge[2] acusava a tradição universitária alemã da neutralidade acadêmica de permitir aos universitários alemães a felicidade de um emprego permanente, escondendo a si próprios a futilidade de suas vidas e seu trabalho. Em nome da “segurança nacional”, o intelectual acadêmico despe-se de qualquer responsabilidade social quanto ao seu papel profissional, a política de “panelas” acadêmicas de corredor universitário e a publicação a qualquer preço de um texto qualquer se constituem no metro para medir o sucesso universitário. Nesse universo não cabe uma simples pergunta: o conhecimento a quem e para que serve? Enquanto este encontro de educadores, sob o signo de Paulo Freire, enfatiza a responsabilidade social do educador, da educação não confundida com inculcação, a maioria dos congressos acadêmicos serve de “mercado humano”, onde entram em contato pessoas e cargos acadêmicos a serem preenchidos, parecidos aos encontros entre gerentes de hotel, em que se trocam informações sobre inovações técnicas, revê-se velhos amigos e se estabelecem contatos comerciais.

Estritamente, o mundo da realidade concreta e sempre muito generoso com o acadêmico, pois o título acadêmico torna-se o passaporte que permite o ingresso nos escalões superiores da sociedade: a grande empresa, o grupo militar e a burocracia estatal. O problema da responsabilidade social é escamoteado, a ideologia do acadêmico é não ter nenhuma ideologia, faz fé de apolítico, isto é, serve à política do poder.

Diferentemente, constitui, um legado da filosofia racionalista do século XVIII, uma característica do “verdadeiro” conhecimento o exercício da cidadania do soberano direito de crítica questionando a autoridade, os privilégios e a tradição. O “serviço público” prestado por estes filósofos não consistia na aceitação indiscriminada de qualquer projeto, fosse destinado à melhora de colheitas, ao aperfeiçoamento do genocídio de grupos indígenas a pretexto de “emancipação” ou política de arrocho salarial que converteram o Brasil no detentor do triste “record” de primeiro país no mundo em acidentes de trabalho. Eis que a propaganda pela segurança no trabalho emitida pelas agências oficiais não substitui o aumento salarial.

O pensamento está fundamentalmente ligado à ação. Bergson sublinhava no início do século a necessidade do homem agir como homem de pensamento e pensar como homem de ação. A separação entre “fazer” e “pensar” se constitui numa das doenças que caracterizam a delinqüência acadêmica – a análise e discussão dos problemas relevantes do país constitui um ato político, constitui uma forma de ação, inerente à responsabilidade social do intelectual. A valorização do que seja um homem culto está estritamente vinculada ao seu valor na defesa de valores essenciais de cidadania, ao seu exemplo revelado não pelo seu discurso, mas por sua existência, por sua ação.

Ao analisar a “crise de consciência” dos intelectuais norte-americanos que deram o aval da “escalada” no Vietnã, Horowitz notara que a disposição que eles revelaram no planejamento do genocídio estava vinculada à sua formação, à sua capacidade de discutir meios sem nunca questionar os fins, a transformar os problemas políticos em problemas técnicos, a desprezar a consulta política, preferindo as soluções de gabinete, consumando o que definiríamos como a traição dos intelectuais. É aqui onde a indignidade do intelectual substitui a dignidade da inteligência.

Nenhum preceito ético pode substituir a prática social, a prática pedagógica.

A delinqüência acadêmica se caracteriza pela existência de estruturas de ensino onde os meios (técnicas) se tornam os fins, os fins formativos são esquecidos; a criação do conhecimento e sua reprodução cede lugar ao controle burocrático de sua produção como suprema virtude, onde “administrar” aparece como sinônimo de vigiar e punir – o professor é controlado mediante os critérios visíveis e invisíveis de nomeação; o aluno, mediante os critérios visíveis e invisíveis de exame. Isso resulta em escolas que se constituem em depósitos de alunos, como diria Lima Barreto em “Cemitério de Vivos”.

A alternativa é a criação de canais de participação real de professores, estudantes e funcionários no meio universitário, que oponham-se à esclerose burocrática da instituição.

A autogestão pedagógica teria o mérito de devolver à universidade um sentido de existência, qual seja: a definição de um aprendizado fundado numa motivação participativa e não no decorar determinados “clichês”, repetidos semestralmente nas provas que nada provam, nos exames que nada examina, mesmo porque o aluno sai da universidade com a sensação de estar mais velho, com um dado a mais: o diploma acreditativo que em si perde valor na medida em que perde sua raridade.

A participação discente não constitui um remédio mágico aos males acima apontados, porém a experiência demonstrou que a simples presença discente em colegiados é fator de sua moralização.

* Texto apresentado no I Seminário de Educação Brasileira, realizado em 1978, em Campinas-SP. Publicado em: TRAGTENBERG, M. Sobre Educação, Política e Sindicalismo. Sã Paulo: Editores Associados; Cortez, 1990, 2ª ed. (Coleção teoria e práticas sociais, vol 1)

[1] Kaysen pretende atribuir uma “alma”à corporação multinacional; esta parece não preocupar-se com tal esforço construtivo do intelectual.

[2] Frederic LILGE, The Abuse of Learning: The Failure of German University. Macmillan, New York, 1948

 


Você pode também abaixar o arquivo em pdf. Basta clicar no link abaixo:

A Delinqüência Acadêmica – Maurício Tragtenberg


CONCEITOS RETIRADOS DOS TEXTOS ABAIXO, CUJO TÍTULO E CONTEÚDO DO ORIGINAL SÃO MANTIDOS AO CLICAR NOS LINKS.

1. DELINQUÊNCIA ACADÊMICA, de Maurício Tragtemberg

2. BAGRINHOS, do texto de Alfredo Marques

3. HOMEM-DISPOSITIVO, do texto de Francisco Foot Hardman

4. FIM DA UNIVERSIDADE PÚBLICA, do texto de Marilena Chauí

5. ETHOS DE GANGUE, do texto de Luiz Felipe Pondé

6. MIKE BONGIORNO, do ensaio de Umberto Eco

7. CASTA DOS INTOCÁVEIS, da entrevista de Chico de Oliveira

8. CARTA DOS PROFESSORES DO IFCH, “O IFCH ESTÁ AGONIZANDO”