– Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das ruas…

26/06/2012

– Olá! Como vai?
– Eu vou indo. E você, tudo bem?
– Tudo bem! Eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro… E
você?
– Tudo bem! Eu vou indo, em busca de um sono tranquilo… Quem sabe?
– Quanto tempo!
– Pois é, quanto tempo!

– Me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios!
– Qual, não tem de quê! Eu também só ando a cem!
– Quando é que você telefona? Precisamos nos ver por aí!
– Pra semana, prometo, talvez nos vejamos… Quem sabe?
– Quanto tempo!
– Pois é… Quanto tempo!
– Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das
ruas…

– Eu também tenho algo a dizer, mas me foge à lembrança!
– Por favor, telefone! Eu preciso beber alguma coisa,
rapidamente…
– Pra semana…
– O sinal…
– Eu procuro você…
– Vai abrir, vai abrir…
– Eu prometo, não esqueço, não esqueço…
– Por favor, não esqueça, não esqueça… SINAL FECHADO, Paulinho da Viola

Mas foi ela que sumiu. Mas no imã da memória grudam limalhas, com a força da natureza e a condenação do destino.

Um da PUC/SP da década de 70 me disse, assim de supetão, num ônibus, ficou sabendo que ela se suicidou.
Mas como que aquele andar de touro, que aqueles olhos enormes e vivos de medusa, medusa também na cabeleira de sua enorme cabeça. Que aquele ir e vir de corpo e cérebro poderia parar por conta própria.
De manhã na ECA/USP, à tarde e a noite na Economia da PUC/SP.
Como trotskista pensava que seus murais, enormes murais na entrada do prédio novo da PUC, eram dazibaos. E quando vi o estudante enfrentando os tanques na Praça Celestial, não sei se chorei por quem. E multidões, inclusive os reacionários do Direito paravam para ler seus jocosos e brilhantes comentários.
Fugi da polícia na PUC graças a ela que, rápida, expedita, corpo rápido, veloz raciocínio,tirocínio, cortou meu cabelo, minha barba e meu fez trocar de roupa com o pobre mundícia que saiu do Ceará, me fez adorar Jack do Pandeiro, virou professor em Forteleza, para rolar de um simples escada e morrer.
Ainda amo Jackson do Pandeiro. E andando pelas ruas, mais de 30 anos depois, ela ainda diz no meu ouvido que me ama.
Meu filho toca e canta Jackson Soul Brasileiro. E pelas centenas de ruas que continua percorrendo a pé vejo mulheres fortes com andar de guerreira. Amei uma delas. Em Goiânia, recentemente, vi muitas morenas, quase índias, de olhos claros. E sempre, é com um nó, uma aflição na garganta que ando por cada rua em São Paulo, onde tenho ido muito.
Liamos Paulo Francis, apesar de sermos de esquerda. Comprei a coletânea de artigos recém lançada, deixei a livro de lado para escapar das lembranças teclo aqui algumas. Este ato mecânico alivia a dor de saber que a carta sem resposta de 1984 talvez continuará assim.

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medusas

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homenagem a Mundico, o para mim inesquecível mundicía. Por toda minha vida ligado a Jackson do Pandeiro.

“Reúna minhas armas num sepulcro junto ao mar, e grava:
UM HOMEM SEM FORTUNA E UM NOME POR FAZER.
E ergue nele o remo que usei entre os amigos”.

.
Guardo a capa do LP de Jackson do Pandeiro que você me deu, todo torto pelo sol, naquela acampamento de revolucionários. Registro aqui, apesar de saber inútil já que não pode mais ouvir.

E nós que ligávamos Jackson e Homero. Mundico se foi. Ela desapareceu. E nós três nunca mais leremos Homero e nem ouviremos juntos o grande Jackson do pandeiro. Eu nunca consegui seguir o roteiro do ABC de Ezra Pound que nos prometíamos.

Este canto 11, continuo achando a mais alta poesia narrativa que já li. Só que não consigo ler em voz alta. Muita gente quando quer chorar, sozinho, para desabafar, vai diante do espelho. E eu não consigo ouvir minha voz lendo este poema. Mas vou continuar tentando…



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Elomar e mais saudade.

 
Foi meu amigo, o cearense, mais nordestino que cearense, Raimundo, mundinho, mundiça. Que me deixou amando até a morte Jackson do Pandeiro, o maioral.
E me apresentou naqueles 1974 a Elomar.
Hoje, 20/08/2012 recebe e-mail de meu estimado andarilho, desenhista e revolucionário João da Silva lembrando-me da música de Elomar. E a que mais gostava do disco de 1973.
São mais de 40 anos de paixão nordestina, quase o dobro do inquieto joão da Silva.

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E foi ela que me fez atravessar da Vila Brasilândia até Jabaquara, ainda sem metrô, para ouvir Nara Leão e as penas do tiê. Nara tão o contrário dela, tão meiga e doce. Mas há a Nara do Show opinião e Nara da passeata dos 100 mil contra a ditadura. E sempre ouvirei Nara Leão, a doce e forte.
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links

01 .   Dazibao (a pronúncia é Táchin-Bao)

02 . Caldas Aulete, abanação retirada deste dicionário online :”Quando a saudade maleva / guasqueia forte o meu lombo / de supetão dou-lhe tombo….”” (Gaucus Saraiva, Mateando)

03 . ABC da Literatura, de Ezra Pound