30 mil gravuras na Biblioteca Nacional: um murundum inútil. Correm risco. Ou é mesmo um arquivo morto.

27/01/2013

“…Telas valiosas são mais frequentemente expostas, enquanto as exposições de gravuras acontecem com certa raridade, embora grandiosos e ríquissimos sejam os acervos, como a coleção de 30 mil obras da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro abriga. Introdução ao “Mestres da Gravura”, coleção Fundação Biblioteca Nacional.

 

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Maurits Cornelis Eschermc_escher_relativity_623x6001

Maurits Cornelis Eschermc_escher_relativity_623x6001. http://eaisimpatia.wordpress.com/

Toda arte vive de citações. Todo livro cita o primeiro livro, parafraseando Borges. 

Le carcere d'invenzione, 1750-3, prancha XIV, água forte, 53X72,8cm. Capa de "Mestres da Gravura"

Le carcere d’invenzione, 1750-3, prancha XIV, água forte, 53X72,8cm. Capa de “Mestres da Gravura”

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Mestres da Gravura, B. Nacional, Biblioteca Mário VII-073.302 Too1m (3). FRANCISCO BARTOLOZZI(1525-1815). Youth, pontilhado e água-forte, 16,4 X 13,2cm

Mestres da Gravura, B. Nacional, Biblioteca Mário VII-073.302 Too1m (3). FRANCISCO BARTOLOZZI(1525-1815). Youth, pontilhado e água-forte, 16,4 X 13,2cm

MESTRES DA GRAVURA: Coleção Fundação Biblioteca Nacional

Mestres da Gravura, Col. B. Nacional, Biblioteca Mário  VII-073.302 T001m

Mestres da Gravura, Col. B. Nacional, Biblioteca Mário VII-073.302 T001m. Compare com http://eaisimpatia.wordpress.com/

Mestres da Gravura, B. Nacional, Biblioteca Mário VII-073.302 Too1m (1). BENJAMIN SMITH (1754-1833). The Infant Shakespeare Attended... Pontilhado, 50,7 X 64,6cm

Mestres da Gravura, B. Nacional, Biblioteca Mário VII-073.302 Too1m (1). BENJAMIN SMITH (1754-1833). The Infant Shakespeare Attended… Pontilhado, 50,7 X 64,6cm

Mestres da Gravura, B. Nacional, Biblioteca Mário VII-073.302 Too1m (4). ALBRECHT DÜRER (1471-1528). Adão e Eva, 1504. Buril, 15X19,2 cm.

Mestres da Gravura, B. Nacional, Biblioteca Mário VII-073.302 Too1m (4). ALBRECHT DÜRER (1471-1528). Adão e Eva, 1504. Buril, 15X19,2 cm.

Mestres da Gravura, B. Nacional, Biblioteca Mário VII-073.302 Too1m (2). GIOVANNI BATTISTA PIRANESI (1720-1778). La Antichità Romane, 750-3, água-forte, 39,9X60,5cm

Mestres da Gravura, B. Nacional, Biblioteca Mário VII-073.302 Too1m (2). GIOVANNI BATTISTA PIRANESI (1720-1778). La Antichità Romane, 750-3, água-forte, 39,9X60,5cm

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A exposição abarca 81 artistas e 170 obras. Das 30 mil gravuras da coleção.

Quantos artistas serão? Serão apenas 81 mestres ou 81 já são mestres demais? São perguntas que o catálogo não se propõe abordar nem responder. E para abordá-las precisaria uma bibliografia. E mais que uma bibliografia, um ver as obras, mais de uma vez. Precisaria comparação, muito mais que estudo da história da gravura. Os museus e arquivos não prestam e não se prestam para isso.
A gravura nasceu para ser reproduzida. Era a técnica de imprensa da época. Há mais de 500 anos temos a imprensa, os livros impressos e agora a formidável ferramenta da Internet. A gravura não tem espírito de museu. Deve ser popular.

Bansky

Bansky

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Em que prateleira estão os mestres, salvos das intempéries?

Houve um tempo que os mestres andavam pelas ruas e praias, à moda de Aristóteles.

NAIPES_022, Lâminas de carta de baralho, França, séc. XV

NAIPES_022, Lâminas de carta de baralho, França, séc. XV

MÜNCH, gravura, puberty, 1903

MÜNCH, gravura, puberty, 1903

gilvan samico , O peso do mundo é o amor. Artigo de Ferreira Goulart fala de Samico  , cuja  obra remete às cartas de baralho(como nasceu a xilogravura)

gilvan samico , O peso do mundo é o amor. Artigo de Ferreira Goulart fala de Samico , cuja obra remete às cartas de baralho(como nasceu a xilogravura)

“Não gostaria de encerrar este comentário sobre a arte de Gilvan Samico sem assinalar um traço especial que distingue a sua gravura da dos demais gravadores brasileiros. É que nela a lição dos mestres modernistas se funde à linguagem popular da gravura de cordel -herança portuguesa que sobreviveu na cultura popular nordestina-, incutindo-lhe a significação e a beleza da grande arte”.Ferreira Goulart
Novamente a questão. A gravura estocada aos montões em museus e arquivos precisam, urgentemente, de edições em livros e digitalização. Sem isso resta-nos, bem possivelmente, os grafites, a arte de rua, para buscar a fusão entre o erudito e o popular. A gravura erudita,histórica, também tinha a vocação de ser popular, atingir públicos mais vastos que obras de galerias e museus. Parafraseando Benjamin, já nasceu sem áurea. Não nasceu para a escuridão dos museus.

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A Xilogravura nasceu no século XV, ou final do século XIV, para reproduzir santos e carta de baralho. Nasceu para ir para a rua, igrejas e bordéis.

Dürer, as 4 feiticeiras

Dürer, as 4 feiticeiras

ALBERCHT DÜRER tem reproduzidas no catálogo 10 obras. 9 totalmente pias. Uma, as 4 feiticeiras, nus, talvez exercesse o feitiço bem pornográficos à épocaa do, para um elite. Hoje o muro pode ser de grande valia para milhões. Diz o texto que era um humanista e ligado ao renascentismo italiano e mesmo um dos grandes artista no renascentismo italiano.(ver Luzes do Norte, Masp). E ainda no texto, que publicou 3 livros em vida. Um sobre as proporções do corpo logo apos sua morte, em 1528.“Entre as mais célebres obras produzidas pelo Dürer, destaca-se O Apocalipse, série de 15 xilogravuras dramáticas[7 delas reproduzidas no catálogo Mestres da Gravura], consideradas uma das maiores criações da arte alemã…”.pg.32.

Dürer: Os 4 cavaleiros do apocalpipse.

Dürer: Os 4 cavaleiros do apocalpipse.

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Segundo vi no Google, não nas informações de “Mestres da Gravura”, estas 15 gravuras são ilustrações para o livro do Apocalipse, livro da Bíblia. Será que a mediocridade da igreja católica hoje e dos protestantes (Mestres da Gravura informa que a gravura cresceu e se popularizou, principalmente a de cunho profano, com o advento do protestantismo) poderia, hoje, publicar tal livro ilustrado por Dürer. Quem souber me informe. Os livros ilustrados, quase desaparecidos das edições modernas – louve-se a editora 34 -, é um objeto de amor e veneração, a manuseio constante, diário. Meu filho me deu notícias de vários deles, em inglês, na Saraiva. Maldito monoglotismo.

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As técnicas da gravura

Mestres da Gravura, B. Nacional, Biblioteca Mário VII-073.302 Too1m (1). BENJAMIN SMITH (1754-1833). The Infant Shakespeare Attended... Pontilhado, 50,7 X 64,6cm

Mestres da Gravura, B. Nacional, Biblioteca Mário VII-073.302 Too1m (1). BENJAMIN SMITH (1754-1833). The Infant Shakespeare Attended… Pontilhado, 50,7 X 64,6cm

Há na página 86 do catálogo uma bibliografia sobre técnica.  Nas páginas 9-11 do catálogo há um didático e proveitoso resumo das técnicas: Xilogravura, gravura a buril, gravura á ponta seca, gravura à água-forte, gravura à maneira-negra, gravura à água-tinta. O que resumi em outro post.  Entre coisas que faltou e que não achei no google foi uma técnica chamada pontilhado. Cito o parágrado de “Mestres da Gravura”: “De meados para o fim do século XVIII, surgem técnicas à maneira de crayon, do verniz e do pontilhado. Este, presente na exposição, é um método que utiliza a água-forte, o buril curvo ou a ponta-seca. Primeiro, faz-se uma leve gravação do contorno do desenho; em seguida, obtêm-se os tons do trabalho, pontilhando-se a chapa com a ponta do buril curvo ou com a ponta-seca sobre um segundo verniz, posteriormente banhado em ácido”. p. 11.

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Sem digitalização, já, para ontem, a resposta, para mim é mesmo um murundum(1), um aranzéu(2).

Biblioteca Nacional sem ar-condicionado—— Vazamento de água,—- como aconteceu com o AEL(Arquivo Edgard Leuenroth) , ou ainda será que ainda corre, vários riscos: na Biblioteca Nacional, danificando parte do acervo.. Bibliotecas que inundam (já aconteceu na Biblioteca do IFCH, unicamp (Lá agora tem uma placa anunciando uma cobertura). Quem esqueceu o incêndio no acervo de Hélio Oiticica..—- Sabemos também que o ar-condicionado mal cuidado, ou mal dimensionado, tanto pode inundar, como incendiar. (clique e veja as reportagens). Depois que acontecer vem um burocrata lamentar com lágrimas de jacaré, ou de crocodilo. Por isso, insistimos em escrever, nesse blog, sobre este assunto chato. A tranquilide desses burocratas já diz tudo: são uns mortos vivos, como denunciou João da Silva, no seu HQ “Vale dos Burocratas Mortos” Mas o que eles gostam mesmo é de perseguir e tentar amedrontar quem cobra deles. O jornal do Porão nasceu fazendo tais denúncias. Hoje, com mais de 100 mil acesso, continua na obrigação de não deixar passar ou esquecer. Principalmente não deixar esquecer. Preservar acervos qualquer burocrata sem alma e sem cultura é capaz e até se vangloria de guardar, como os acumuladores, uma terrível doença. Mas colocar em uso, colocar em circulação, precisa de criatividade, ousadia, política agressiva e política mesmo: exigências diante dos governos. Para uma política cultural não servem burocratas semi-ignorantes, ciosos dos seus empregos e da sua rotina de acumuladores.

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Vocabulário

(1) MURUNDUM. Nos dicionários online que consultei acho murundu. No Preberam, português de portugal, a defininção é mais próxima do amontoado de coisas, disparatadas e atravancantes que minha expressiva e semi-analfabeta mãezinha tinha sempre na ponta da língua. O Michaelis registra a variante murundum, desde que chamemos por murundu. Caldas Aulete registra murundum, mas com uma pobreza lapidar; registra ainda mulundu e murundu, com a mesma inexpressividade. Como podem ver, meus amigos e filhinhos, preciso de dicionários online de qualidade!!! Meu velho e esmaecido (e estou ficando, lentamente, cego) Aurélio registra a mesma pobreza e economia. Registra ainda a variante munduru. Na definição 2, registra montão, que é pouco para murundum. E esse M faz muita diferença. a. Cemitério do Murundu b. 4 artistas criam um murundu c. Pseudopaludicola murundu Toledo d. O Fenômeno Murundu. Nesse artigo, no meio da página, há uma foto de um trem que é uma perfeita ilustração do murundum da minha mãe, apesar de ainda chamar murundu.Fenômeno Murundu

Crowded Train. O fenômeno murundu. Ou Murundum.

Crowded Train. O fenômeno murundu. Ou Murundum. http://fredraposo.blogspot.com.br/2007/05/o-fenmeno-murundu.html

(2) ARANZÉU. No cada vez mais pálido Aurélio de papel está lá Aranzel como arenga, uma falação de deputado. Pior que a falta do M em murundum é esse L. Bendita a contribuição de todos os erros. Se aranzel for pronunciado a gaúcha aí tá tudo perdido. Aranzel aí não seria mesmo um arranha-céu de murunduns, como frisava bem minha mãe. Será que o murundum não seria a herança negra da minha mãe para meus ouvidos embranquecidos? E creio nela nas suas raízes mais que nos dicionários. Nota: “O Léxico de Guimarães Rosa”, de Nilce Sant’Anna Martins registra murundu, como monte vermelhos de cupins, mas não aranzel. E “A Lexologia de ‘Os Sertões’: o vocabulário de Euclides da Cunha, de Manif Zacharias não registra nenhum dos dois termos.Apesar do peso das abonações ainda fico com as “contribuição de todos os erros” do murundum. e do aranzéu.     ……………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………

Jornal do Porão cem mil acessos. Precisamente, neste sábado, 27/01/2013, ás 0,04hs, 102.822 acessos. Quando comemoramos 5 mil, fizemos um pequeno balanço, achando um grande feito. Agora com mais de 100 mil não haverá balanço formal algum. E por pura coincidência, não fortuitamente, voltamos ao tema do primeiro Jornal do Porão. É pé na tábua. É continuar. Mesmo porque esse jornaldoporao nem mesmo conseguiu falar de seu título: ainda não amadureceu e aprendeu o suficiente para escrever um post sobre o “Memórias do Subsolo”, de Dostoiévski.

Nos cinco mil acessos tinha a musa Josephine Baker. Agora nos cem mil tem Maria Luisa Mendonça. São oposto que se completam. Nem erudito nem popular, nem tanto ao mar nem tanto a terra. O pulso ainda pulsa. Nada melhor que Josephine Baker na companhia de Maria Luísa Mendonça.

josepnhine-baker-

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Mandrake, 2007

Mandrake, 2007

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Mandrake, 2007 (2)

Mandrake, 2007 (2)

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01. Xilogravura: Primeiro contato:Breve História da Xilogravura

02.3. Xilogravura japonesa [Ukiyo-e] erótica [shunga]: Katsuhika Hokusai

03. 2. Xilogravuras japonesas eróticas: SHUNGA. Utamaro Kitagawa

04. 1. Xilogravura joponesa: UKIYO-E…….. [primeira anotação]

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FENOMENOLOGIA DE MIKE BONGIORNO, de Umberto Eco

21/02/2010

FENOMENOLOGIA DE MIKE BONGIORNO, de Umberto Eco

Mike Bongiorno

O homem rodeado pelas mass media é no fundo, entre todos os seus semelhantes, o mais respeitado: não se lhe pede nunca senão que se torne aquilo que já é. Por outras palavras, são-lhe provocados desejos segundo a pauta das suas tendências. Porém, uma vez que uma das compensações narcóticas a que tem direito é a evasão pelo sonho, são-lhe habitualmente apresentados ideais, entre os quais e ele próprio se possa estabelecer certa tensão. Para retirar dos últimos toda a responsabilidade, tomam-se providências de modo a fazer com que tais ideais sejam de fato inatingíveis, de forma a que a tensão se resolva numa projeção e não numa série de operações efetivas orientadas para modificar o estado de coisas dado. Em suma, pede-se ao indivíduo que se transforme num homem com frigorífico e um televisor de vinte e uma polegadas, e isto quer dizer que se lhe pede que continue a ser como é, acrescentando aos objetos que possui um frigorífico e um televisor; em compensação, a ele propõe-se como ideal Kirk Douglas ou Superman. O ideal do consumidor de mass media é um super-homem que ele nunca pretenderá tornar-se, mas que se deleita a encarnar de um modo fantástico, tal como se veste durante alguns minutos diante de um espelho uma roupa alheia, sem sequer se pensar em vir a possuí-la um dia.

A situação nova que se coloca a respeito da TV é esta: A TV não oferece, como ideal pra o ensimesmamento do indivíduo, o superman, mas sim o everyman. A TV representa como ideal o homem absolutamente médio. No teatro, Juliette Greco aparece no palco e cria subitamente um mito e funda um culto;

Josephine Baker desencadeia rituais idolátricos e dá nome a toda uma época. Na TV surge diversas vezes, repetidamente, o rosto mágico de Juliette Greco, mas o rito nem por isso nasce de modo idêntico; o ídolo não é ela, mas a locutora, e por entre as apresentadoras mais amadas e famosas estará exatamente aquele que melhor representa a média dos caracteres comuns: beleza modesta, sex-appeal limitado, gosto discutível, um certe inexpressividade doméstica.




Josephine Baker photo06

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

Ora, no campo dos fenômenos quantitativos, a média representa de fato um meio-termo e, para quem ainda não se uniformizou, representa igualmente uma meta. Se, de acordo com a conhecida boutade, a estatística é a ciência para a qual se diariamente um homem come dois frangos e o outro nenhum, os dois homens comeram um frango cada um – para o homem que não comeu, a meta de um frango por dia é algo de positivo a que ele poderá aspirar. Pelo contrário, no campo dos fenômenos qualitativos, o nivelamento pela média corresponde ao nivelamento pelo zero. Um homem que possua “todas” as virtudes morais e intelectuais em “grau médio”, acha-se imediatamente a um nível mínimo de evolução. A “mediana” aristotélica é equilíbrio no exercício das próprias paixões, dirigido pela virtude do discernimento da “prudência”. Enquanto, em contrapartida, alimentar um grau médio de paixões e ter uma prudência média significa ser um pobre exemplar de humanidade.

O caso mais vistoso de redução do superman ao everyman temo-lo, na Itália, na figura de Mike Bongiorno e na história do seu destino. Idolatrado por milhões de pessoas, este homem deve o seu êxito ao fato de, em todos os atos e todas as palavras da personagem a que ele dá vida perante as câmaras de televisão, transparecer uma mediocridade absoluta unida (sendo esta a única virtude que possui em grau excedente) a um fascínio imediato e espontâneo explicável por não estar rodeado da menor construção ou ficção cênica: quase parece que ele não quer passar senão pelo que é, sendo de molde a não colocar em situação de inferioridade espectador nenhum, nem mesmo o mais despossuído de todos. O espectador vê glorificado e condecorado oficialmente com uma autoridade nacional o retrato das suas próprias limitações.

Para compreendermos este extraordinário poder de Mike Bongiorno, poderá surgir-nos a idéia de proceder a uma análise dos seus comportamentos, a uma verdadeira “fenomenologia de Mike Bongiorno”, indicando-se, fique claro, por este nome não o homem, mas a personagem.

Mike Bongiorno não é particularmente belo, atlético, corajoso, inteligente. Representa, biologicamente falando, um grau modesto de adaptação ao ambiente. O amor histérico que lhe tributam as teen-agers deve-se em parte ao complexo maternal que ele é capaz de despertar numa mocinha, em parte à perspectiva futura que ele sugere, de um amante ideal, submisso e frágil, suave e cortês.

Mike Bongiorno não se envergonha de ser ignorante e não revela qualquer necessidade de se instruir. Entre em contato com as mais vertiginosas zonas do conhecimento e delas sai virgem e intato, confortando as naturais tendências para a apatia e preguiça mental dos outros. Cuida bastante para não impressionar o espectador, não só mostrando às escuras quanto aos acontecimentos circundantes, como, além disso, manifestando-se decididamente resolvido a não aprender coisa alguma.

Em compensação, Mike Bongiorno demonstra uma admiração sincera e primitiva pelos que sabem. Quanto a estes, o que destaca neles é, porém, as qualidades de aplicação manual, a memória, a metodologia óbvia e elementar: uma pessoa torna-se culta lendo muitos livros e fixando o que eles dizem. Não lhe passa, nem minimamente, a suspeita de qualquer função crítica e criativa da cultura. Tem dela um critério meramente quantitativo. Deste modo (acontecendo que é preciso, para se ser culto, terem-se lido durante muitos anos livros), é natural que o homem não predestinado renuncia a todas as tentativas culturais.

Mike Bongiorno professa um apreço e uma confiança ilimitados em relação ao especialista; um professor é um sábio; representa a cultura autorizada. É o técnico do ramo. É a ele que devemos perguntar as coisas, dada a sua competência.

A admiração pela cultura, entretanto, torna-se ainda maior, quando, na base dela, se pode ganhar dinheiro. Então é que se descobre que a cultura serve para alguma coisa. O homem medíocre recusa-se a aprender, mas propõe-se mandar estudar o filho.

Mike Bongiorno tem uma noção pequeno-burguesa do dinheiro e de seu valor (“Imaginem, já ganhou cem mil liras: é um belo dinheirinho!).

Mike Bongiorno antecipa assim, sobre o concorrente, as reflexões impiedosas que o espectador será levado a fazer. “Arre, como ele estará satisfeito com aquela grana toda, ele que sempre viveu com um salário tão modesto! Terá alguma vez tido tanto dinheiro nas mãos?”

Mike Bongiorno aceita todos os mitos da sociedade em suas categorias e trata-as com uma deferência cômica (a criança diz: “Desculpe, senhor guarda…”), mas usando sempre, entretanto, a qualificação vulgar e corrente, muitas vezes depreciativa: “senhor varredor, senhor camponês”.

Mike Bongiorno aceita todos os mitos da sociedade em que vive: beija a mão da senhora Balbiano d’ Aramengo e diz que o faz por se tratar de um condessa (sic).

Para além dos mitos, aceita também as convenções sociais. É paternal e condescendente com os humildes, deferente para com as pessoas socialmente qualificadas.

Ao entregar o dinheiro, parece instintivamente levado a pensar, sem o exprimir claramente, mais em termos de esmola que de ganho. Mostra a sua crença de que, na dialética das classes, a único meio de ascensão é o representado pela providência (podendo assumir ocasionalmente o rosto da Televisão).

Mike Bongiorno fala um basic Italian. O seu discurso realiza o máximo possível de simplicidade. Abole os conjuntivos, as proposições subordinadas, consegue tornar quase invisível a dimensão sintática. Evita os pronomes, repetindo sempre por extenso o sujeito, emprega um número imenso de pontos finais. Não se aventura nunca em intercalações ou formas parentéticas, não emprega expressões de elite, não faz alusões, utiliza apenas metáforas já integradas plenamente no léxico comum. A sua linguagem é rigorosamente referencial e faria a alegria de um neopositivista. Não é necessário fazer qualquer esforço para entendermos. Qualquer espectador observa que, se fosse esse o caso, poderia ser bem mais eloqüente do que ele.

Não aceita a idéia de que a uma pergunta possa corresponder mais do que uma resposta. Olha com desconfiança as variantes. Nabuco e Nabucodonosor não são a mesma coisa; reage frontalmente aos dados como um cérebro eletrônico, porque está firmemente convencido de que A é igual a A e que tertium non datur. Aristotélico por defeito, a sua pedagogia é, conseqüentemente, conservadora, paternalista, imobilista.

Mike Bongiorno é desprovido de sentido de humor. Ri por estar contente com a realidade, não por ser capaz de deformar a realidade. Escapa-lhe a natureza do paradoxo; quando se lhe apresenta um, repete-o com ar divertido e sacode a cabeça, subentendendo que o interlocutor é simpaticamente anormal; recusa-se a suspeitar de que por trás do paradoxo se esconda a verdade, precisamente como o não considera um veículo autorizado de opinião.

Evita a polêmica, mesmo com argumentos legítimos. Não deixa de informar-se acerca da estranheza do que se pode conhecer (uma nova corrente de pintura, uma disciplina abstrusa… “Diga-me uma coisa, hoje fala-se tanto de futurismo. Mas o que é ao certo esse futurismo?). Recebida a explicação, não tenta aprofundar o tema, mas deixa transparecer a sua bem-educada discordância de pessoa que pensa como deve ser. Respeita deste modo a opinião do outro, não por propósito ideológico, mas por desinteresse.

De Entre todas as perguntas possíveis sobre um tema escolhe a que primeiro viria à mente de qualquer um e que metade dos espectadores afastaria prontamente por ser demasiado banal: “O que é que o quadro pretende representar?”, “Como é que chegou a escolher um hobby tão diferente do seu trabalho?”; “Como lhe veio à cabeça ocupar-se de filosofia?”.
Leve os clichês até as últimas conseqüências. Uma moça educada com freiras é virtuosa, uma moça de meias de cor e rabo-de-cavalo é “queimada”. Pergunta à primeira, que é uma moça tal como deve ser, se gostaria de se tornar como a outra; se se lhe faz notar a comparação em tais termos é ofensiva, consola a segunda moça realçando a sua superioridade física e humilhando a educada das freiras. Neste vertiginoso jogo de gaffes não tenta ao menos empregar a perífrase: a perífrase é já uma agudeza, e as agudezas pertencem a um círculo intelectual a que Bongiorno é estranho. Para ele, como já se tinha dito, cada coisa em um nome e só um, o artifício retórico é uma sofisticação. No fundo, a gaffe nasce sempre de um ato de sinceridade não mascarada; quando a sinceridade é voluntária não há gaffe, mas desafio e provocação; a gaffe (em que Bongiorno se excede, segundo dizem os críticos e o público) nasce exatamente quando se é sincero por erro ou por desconsideração. Quando mais medíocre for, mais o medíocre se torna desajeitado. Mike Bongiorno reconforta os medíocres, elevando a gaffe à dignidade de figura de retórica, no quadro de uma etiqueta homologada pela entidade transmissora e pela nação auditora.

Mike Bongiorno regozija-se sinceramente com o vencedor porque honra o êxito. Cortesmente desinteressado em relação ao vencido, comove-se se este fica em situação difícil e torna-se promotor de uma disputa beneficente, finda a qual se mostra satisfeito e convence o público de que tudo vai bem; em seguida ocupa-se de outras coisas alentado pela sua crença de que é este o melhor dos mundos possíveis. Ignora a dimensão trágica da vida.

Mike Bongiorno convence, portanto, o público, como um exemplo vivo e triunfante, do valor da mediocridade. Não provoca complexos de inferioridade, embora se ofereça como ídolo, e o público recompensam-o, agradecido, amando-o. Representa um ideal que ninguém deve esforçar-se por atingir porque seja quem for se encontra, desde o início, já ao mesmo nível que ele. Nenhuma religião foi jamais tão indulgente para com os seus fiéis. Em Mike Bongiorno anula-se toda a tensão entre ser e dever ser. E ele diz aos seus adoradores: sois Deus, continuai imóveis.

Do “Diário Mínimo”, de Umberto Eco
Difel, 1985

MIKE BONGIORNO, tornando-se uma categoria analítica, um conceito. Acho que a nossa volta há muitos e muitos Mike Bongiorno(s), do que políticos e apresentadores de TV. O arrivismo, o puxa-saquismo fabricam Mike Bongiorno(s) aos magotes. Eles nos sufocam. E cuidemo-nos para não nos tornarmos um.

Abaixo citação de uma artigo do Estadão, onde analista usa a categoria, Mike Bongiorno, para analisar Berlusconi

“Se um homem de negócios, que em outro país ocidental com alguma tradição liberal-democrática se limitaria a construir palacetes em Milão, assume o controle absoluto dos meios de comunicação e domina a cena política por mais de 20 anos, chegando três vezes ao cargo de primeiro-ministro, como aconteceu com Berlusconi na Itália, o mínimo que nos cabe fazer é analisar o fenômeno e dele extrair o máximo de lições possível.” A proposta é de Pierfranco Pellizzetti, autor do recém-publicado Fenomenologia di Berlusconi (Manifestolibri), um exame da mutação cultural da sociedade italiana a partir da década passada, quando a “banal mediocridade” representada pelo ídolo televisivo Mike Bongiorno perdeu sua hegemonia para a “mediocridade lobisomem” representada por Berlusconi e empurrou a Itália para “um precipício humano, político e civil”.

“Pellizzetti trabalha com o mesmo instrumental analítico usado por Eco em sua Fenomenologia di Mike Bongiorno, escrita em 1961 e incluída na coletânea Diário Mínimo. Campeão de audiência na televisão italiana durante quase meio século, Bongiorno, um bobo alegre que vivia de plagiar programas de variedades americanos e foi enterrado como herói nacional em setembro deste ano, encarnava, segundo Eco, a mediocridade absoluta do italiano médio, que se identificava totalmente com o apresentador e sua alvar alegria, sobretudo porque Bongiorno, que muito se gabava de sua ignorância, o fazia sentir-se, por comparação, mais educado, mais inteligente”.
O Estado de S.Paulo,domingo, 29 de novembro de 2009

CONCEITOS RETIRADOS DOS TEXTOS ABAIXO, CUJO TÍTULO E CONTEÚDO DO ORIGINAL SÃO MANTIDOS AO CLICAR NOS LINKS.

1. DELINQUÊNCIA ACADÊMICA, de Maurício Tragtemberg

2. BAGRINHOS, do texto de Alfredo Marques

3. HOMEM-DISPOSITIVO, do texto de Francisco Foot Hardman

4. FIM DA UNIVERSIDADE PÚBLICA, do texto de Marilena Chauí

5. ETHOS DE GANGUE, do texto de Luiz Felipe Pondé

6. MIKE BONGIORNO, do ensaio de Umberto Eco

7. CASTA DOS INTOCÁVEIS, da entrevista de Chico de Oliveira