Em defesa do Jornal do Porão, de seu criador e de todos nós.

04/03/2013

IDÉIAS SE COMBATEM COM IDÉIAS

Publicado em 14 de novembro de 2009.

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ARQUIVOS PÚBLICOS EM PERIGO.

Incêndio na biblioteca do IEL. Qual será o próximo? 

Republico porque por escrever e-mails defendendo o Arquivo Edgard Leuenroth me custou várias e várias admoestações, pressões, chamadas nos cantos, nas salas, para ouvir ameaças veladas, algumas explícitas, outras aos brados. Depois por falar do descalabro que era a situação da biblioteca do IFCH que inundou, torrencialmente, como foi torrencial a inundação no AEL (não foram infiltrações, nem goteiras, nem os destelhamentos atualmente constantes no AEL, mas inundação torrencial, colocando em risco memoráveis acervos. Contra o silêncio conivente dos responsáveis e sua pressão constante sobre quem ousou perguntar , onde estão e quem são os responsáveis e que medidas tomaram para que não mais aconeça. Mas aconteceu novamente no IEL.

É preciso mudar, radicalmente, a maneira de tratar os acervos e documentos da história.  Não são medidas paliativas, mas mudanças.  É preciso mudanças urgentes e centralizadas. É preciso ter um órgão central para cuidar desse patrimônio histórico, tonto do AEL, CEDAE, Centro de Memória e bibliotecas. É só fazer uma visita a cada um desses prédios para ver diferenças enormes de equipamentos, de condições para a preservação (armários, ar-condicionado, prédios, recursos técnicos) para logo se notar que a própria disparidade de tratamento expõe o problema.  Essa multidão de locais serve a uma coisa óbvia: criar diretorias, poderzinhos, chefias aos montes. É indefensável.  E os prédios não tem condições. O melhor deles, ou a pirâmide branca, concentra problemas gravíssimos: Ar-condicionado de 600 mil reais que nunca funcionou e inundou torrencialmente o arquivo, janelas que vivem caindo, telhado que destelha a qualquer tempestade de verão. Estamos falando do melhor. Não fui à Unicamp, mas garanto que se houve incêndio no biblioteca do IEL a primeira coisa que suportará é estes predinhos fuleiros, os “pinotinhos”.

É preciso de um arquivo único. Num mesmo prédio. Com diretoria única e enxuta (nada dessa proliferação de inúteis chefias). Com um tratamento que merece a memória das lutas e da culttura desse país. Nada da suntuosidade novo-rico de um tal BORA. Que um prédio para todos os arquivos tenha um andar, por exemplo, para obras raras.

É preciso de um único prédio para todos os arquivos, e até mesmos para as bibliotecas, planejado para alta-segurança (como se faz com os inúteis prédios militares no mundo todo – suponho). Ar-condicionado dimensionado por firmas de renome. E um corpo de bombeiro (com funcionários públicos concursados), com permanente treinamento, com funções de prevenção cotidianamente supervisionadas e relatadas, com um contingente que trabalhe durante 24 horas. Acho que já corremos riscos demais.

E dinheiro. Recente reportagem dava conta de que havia “restos de caixa” enormes da Fapesp e das Universidades. A Unicamp, recentemente, comprou uma fazenda. Provavelmente para sua megalomania tecnológica. Mais provavelmente para trabalhar para o agronegócio e indústrias. Com essa rendição completa ao capitalismo quem acredita que a Unicamp se preocupará com arquivos e memórias? E as chamadas ciências humanas, seus dirigentes e professores, com seu complexo de vira-latas não chiarão. Espremidos chiam baixinho, se chiarem.

O ditado popular “Bom cabrito não berra” é um difamação dos rústicos e briguentos cabritos. Talvez o lado ultra-conservador da mentalidade popular quer transformar o cabrito, tão rústico, montanhês, devoratudo, altivo, marrento, escandaloso,  num desprezível carneiro. A mesma mente que quer transformar  a luta em  colaboração cidadã.

Foram exatamente os próceres da ciências humanas, tão  admirada esquerda universitária, a tentar me calar. Mário Medeiros, aluno dessa esquerda universitária, ainda, e espero, não corrompido e não será corrompido, espero, e como dói a esperança, pelos cargos e comissões, pode e pôde, ainda, se solidarizar com o debate que , mesmo sob pressão e ameaças, continuei propondo. E continuo. Vida longo a esse meu amigo Mário Medeiros.

Escrito por Mário Martins de Lima, editor desse, em 04/03/2013

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Doutorado, Mário Medeiros

Doutorado, Mário Medeiros

Mário, leitores e colaboradores do Jornal do Porão,

Como prometi, escrevo.

Só pude fazer isso agora, com pouco mais de tempo e depois de ler as mensagens enviadas pelos outros, além das do antigo Editor/ Redator-Chefe do Jornal.

Este texto não é só um desagravo em favor de Mário Martins de Lima, meu xará, meu amigo de todos esses anos na Unicamp. É também uma tentativa de defender o livre pensar, a expressão do posicionamento perante os fatos. Coisas que nosso editor chefe sempre defendeu.

Idéias se combatem com com idéias. Contra um texto, outro texto. Contra um manifesto, outro manifesto.

O ato de acochambrar pelo poder, alcoviltar, escorchar e tomar atitudes numa relação de desigualdade (chefe-subordinado) é o elogio da estupidez. O chefe que precisa usar da força – censurar, chamar em sala, beco, alcova, colocar no canto, ameaçar, impor-se pelo cargo – demonstra que a sua suposta autoridade não possui nenhuma legitimidade, para além do cargo institucional e do medo que inspira. Respeito, então, nem se fale. É um estúpido. Uma besta com polegares. É indigno de ser chamado de intelectual, de pensador. É o ato de um delinqüente acadêmico, de homem-dispositivo, na melhor acepção que deram a esses termos Maurício Tragtenberg e Franciso Foot Hardman.

Mário Martins edita seu Jornal do Porão corajosamente. Expondo aquilo que observa, que deduz, que pensa, que conclui dos fatos quotidianos, referente à Universidade, ao seu local de trabalho, à cidade que adotou, ao país em que nasceu e aos fatos que viveu nos últimos quarenta anos de história. Ganha muito com isso. O debate com alguns interlocutores sérios e abertos lhe faz bem. Mas também ganha a violência quotidiana da censura, da ameaça, da intimidação. Ossos do ofício. Alegria e dor da atividade.

Suas opiniões, até mesmo por alguns dos leitores do seu Jornal, foram consideradas fortes, incômodas, desagradáveis ou deselegantes.

Curiosamente, a não ser pelos chefetes ilegítimos e os cidadãos delinqüentes, jamais o adjetivo mentiroso (ou seus sinônimos) foi associado às opiniões que expõe.

Ele não gosta de memórias. Presenciei, há algumas semanas, na companhia de nosso atual editor – Newtinho Peron – um momento raro: Mário Martins dando uma entrevista para dois estudantes. O tema era “Ignorância”. Pediam os dois estudantes que meu xará discutisse sobre isso. Algo que parece tão geral não o melindrou. E ele ali, numa sala do AEL que tanto defende, expôs o que pensava sobre o assunto. Tomando a idéia de ignorância como fio condutor, Mário repassou a sua origem, de como passou de trabalhador rural, cortador de cana no interior de Minas Gerais, a um dos principais líderes da greve de Campinas em 1978. De sua vinda a São Paulo com a mão na frente e outra atrás, em meados dos anos 1960 a aluno de Ciências Sociais na PUC-SP, tendo como mestre Maurício Tragtenberg. De operário que lia livros de Marx sentado nas latrinas fétidas das fábricas ao militante da Libelu e do PT. Do apreço por Freud, dos filósofos alemães, de Euclides da Cunha, Guimarães Rosa, Dostoiévski e toda boa Literatura que lhe caia nas mãos. De música clássica, de história do cinema, de Poesia Concreta, da paixão pela Tradução e o estudo das línguas, dos debates sobre os problemas nacionais. Do futebol, do sexo, das relações humanas, vista pela Psicanálise e pela Sociologia. E, principalmente, do silêncio dos intelectuais – o que sempre mais o incomoda e o que mais combate.

Mário Martins não gosta de memórias. Eu tomei como ofício entender as memórias alheias. Eu sempre quis que ele escrevesse as suas – coisa que ele revelou numa das edições deste Jornal. E começou a fazê-lo. Mas parou. Entretanto, quem o conhece e tem a possibilidade de trocar dedos de prosa com ele – o que não é difícil – sabe que as suas memórias perpassam os debates que ele propõe. Mas não é a memória morta, dos fatos assentados e bem organizados que o encanta. É a a vida, o eu como potência, a pulsão da vida que o faz detonar os fatos que viveu, atrelá-los com o presente e, de alguma maneira, provocar seu interlocutor. Sempre um provocador, o Mário Martins.

Com Mário Martins o debate é sempre franco, aberto, sem meandros, direto. Olho no Olho. Idéia com idéia, contra idéia outra idéia. Em voz alta, sem sussurros, sem modulação menor. Alguns dos seus interlocutores – como foi dito por leitores desse jornal – não concordam com o tom, melindram. Eu já discuti muitas vezes com meu xará. Já disse e ouvi coisas ásperas. E isso nunca me fez perder o respeito ou perder o seu respeito. Idéia com idéias, idéias contra idéias.
Gosto de memórias, ao contrário de Mário Martins. Mas, como ele, não gosto de contar as minhas. Farei aqui uma breve licença a nós dois.

Greve de 2011

Greve de 2011

Conheci meu xará na primeira greve que participei na minha vida. Era o meu primeiro ano de Unicamp, meus primeiros meses, em 2000. Houve uma manifestação, na Praça da Reitoria, em apoio a greve dos funcionários públicos. Eu fui até com alguns amigos, todos ingressantes em Ciências Sociais. Falas, debates, carro de som, alto-falantes etc. O comum nas manifestações. Ainda existia o antigo bandejão na praça, que estava lotada. As pessoas passavam, olhavam, paravam. Alguns estudantes de vários cursos estavam por ali e, como se aproximava o horário do bandejão abrir, ficavam. Debaixo de uma árvore, perto do carro de som, de camiseta e calça azul, um homem com bigode, altura mediana interpela um membro do sindicato que falava no carro de som. Ele não precisava de microfone. E o que mais me chamou atenção é que a maioria das pessoas ali o conheciam – funcionários e estudantes, alguns professores. O homem com bigode e todo vestido de azul falava alto, grosso, gesticulava muito. Em resposta, recebia o apoio de várias pessoas que estavam na Praça. Questionava de dedo em riste quem falava no carro de som. Pediram que falasse ao microfone. As idéias eram claras, diretas, distintas. Podia-se discordar delas. Causavam estranhamento em alguns. Mesmo com microfone, o homem de azul não baixou o tom de voz. Gritava. Estava indignado com o sindicato, com os funcionários, com os professores, com a reitoria, com os estudantes, com todos. Refletia, conclamava à reflexão, expunha fatos, denunciava, propunha. Recebia aplausos, jamais uma vaia. Sinais de apoio, como também sinais de desaprovação. Mas ninguém jamais correu ao microfone para lhe dizer “É mentira!” Ou o chamou de mentiroso na praça. Mesmo os interlocutores acusados de desleixo com as lutas dos trabalhadores o respeitaram. Jamais um mentiroso. Contras idéias que lhe foram lançadas, retornou com outras.

Não sei porque eu associei o homem de bigode e todo vestido de azul com o nome de Pedro. Alguns meses depois eu comecei a fazer uma pesquisa, cuja fonte material descobri que se encontrava no AEL. Fui até lá e eis que o homem de azul – acho que agora sem bigode – era o atendente do arquivo. Não tive dúvidas. “Bom dia, seu Pedro”. Cometi dois equívocos no mesmo cumprimento. Chamá-lo de senhor e trocar o nome. O primeiro ele corrigiu na hora. O segundo demorou muitas semanas para corrigir – o que serviu para muita piada ao meu respeito. Na minha primeira pesquisa, de iniciação científica, comecei e consolidei minha amizade com o meu xará. No balcão de atendimento do AEL, muitas vezes, conversamos horas em pé. Fomos tomar café na sala dos fundos ou fora do arquivo. Discutimos ásperamente. Trocamos confidências, livros, cds. Descobrimos gostos comuns e divergentes. Enfim, nos tornamos amigos. Conhecemos outros amigos, que formaram um negócio aberto chamado O Café das Cinco. Por quê o nome? Porque às 17h, cinco da tarde, acaba o expediente no AEL. E durante muitos meses, vários de nós, amigos do Mário Martins, chegamos perto do horário do aquivo fechar para tomar um café com ele. Muitas vezes, alguns dos seus chefes o censuraram por aquela concentração no balcão e na porta do arquivo. No Café das Cinco, sediado no cantina da Matemática, ficamos muitas vezes até o Marcão – dono da cantina – fechar. Fazendo o quê? Trocando idéias, debatendo idéias, compartilhando idéias, combatendo idéias, refutando idéias. Em alto e bom som. Podia parecer às vezes que estávamos até brigando. E quem sabe estivéssemos? Mas ali todos se respeitavam por suas idéias, pela defesa dos seus argumentos. Ali não era lugar de mentiras, de ficar em silêncio, de sussurrar, ameaçar, melindrar. Olho no olho, cara a cara. Idéia com idéia. Contra idéia, outra idéia. Futebol, literatura, sociologia, política, sexo, homossexualismo, família, paternidade, maternidade, cinema, música, dança, pesquisas, greves, memórias, textos (nossos)… tudo discutimos ali. Trocamos livros, impressões, discos. Várias monografias, dissertações, teses e livros agradecem o Café das Cinco e seus membros. E, especialmente, Mário Martins de Lima. O Bigode. O Homem de Azul. O Bartleby Falante (ver Hermam Mellville). O Velho Safado (ver Charles Bukowiski). O Porteiro do AEL. O xará. O Mário.

Francamente. Diretamente. Prá valer, como tem que ser.

Acho que está bom essas duas memórias.

Escrevi no começo que este texto é um desagravo em favor do Mário Martins de Lima, meu xará e meu amigo.

É também uma defesa do Jornal do Porão, este espaço democrático que o Mário criou para poder expor suas e nossas idéias.

Mas é também uma defesa daquilo que tem pautado as relações e ações do Mário, das quais muitas pude estar presente e observar.

IDÉIAS COM IDÉIAS, CONTRA IDÉIAS, OUTRAS IDÉIAS. CONTRA UM TEXTO, OUTRO TEXTO. FRANCAMENTE. DIRETAMENTE. DEMOCRATICAMENTE.

Mário Augusto Medeiros da Silva

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links

01.Biblioteca do Iel na Unicamp é atingida por incêndio

02. Incêndio atinge prédio da biblioteca do Instituto de Letras da Unicamp

03. nota da Unicamp (sobre o incêndio)
04. Fotos dos Estragos na Biblioteca IEL Unicamp
05. Incêndio na biblioteca pública Luis Bessa, Belo Horizonte
06.Fogo destruiu interior de casa que foi moradia de poeta Castro Alves.
07 Presença de dois vigias minimizam o incêndio na Biblioteca Luis Bessa, projetada por Oscar Niemayer
08.Chuva inunda sala de obras raras de biblioteca da UFRJ Alba Valéria Mendonça, O Globo, 3 de dezembro, 2003 (com obras raras)
09.Chuvas inundam arquivos do Instituto Micael, Peruíbe
10.A privataria arruina a Biblioteca Nacional, Elio Gaspari


A Delinqüência Acadêmica, por Maurício Tragtemberg

19/11/2010

Este artigo publicado em 1978. Publicado aqui neste Jornal do Porão em 19 de novembro de 2009 é um dos textos mais lidos do Jornal do Porão. Mas ainda pouco lido. A biblioteca da da Faculdade de Educação da Unicamp tem uma coleção de Maurício Tragtemberg. Mas o que significa Maurício Tratgemberg para os professores da Unicamp?
Ano a ano republicarei este texto dele , esperando respostas.

Assim como Maurício Tratgtemberg, é convenientemente esquecido Paulo Freire. Que não devemos cansar de lembrar, foi escolhido como Reitor e quem ficou em 14o. lugar na consulta, o Dr. Pinotti, foi quem assumiu. E assim a coligação que escolheu Pinotti, o décimo quarto colocado, manda na Unicamp até hoje. Mais de 20 anos de mando. Será que esta coligação, herdeira de Pinotti, tem algum mérito próximo a Paulo Freire e Maurício Tragtemberg?

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por Maurício Tragtenberg* [* Texto apresentado no I Seminário de Educação Brasileira, realizado em 1978, em Campinas-SP. Publicado em: TRAGTENBERG, M. Sobre Educação, Política e Sindicalismo. Sã Paulo: Editores Associados; Cortez, 1990, 2ª ed. (Coleção teoria e práticas sociais, vol 1)]

O tema é amplo: a relação entre a dominação e o saber, a relação entre o intelectual e a universidade como instituição dominante ligada à dominação, a universidade antipovo.

A universidade está em crise. Isto ocorre porque a sociedade está em crise; através da crise da universidade é que os jovens funcionam detectando as contradições profundas do social, refletidas na universidade. A universidade não é algo tão essencial como a linguagem; ela é simplesmente uma instituição dominante ligada à dominação. Não é uma instituição neutra; é uma instituição de classe, onde as contradições de classe aparecem. Para obscurecer esses fatores ela desenvolve uma ideologia do saber neutro, científico, a neutralidade cultural e o mito de um saber “objetivo”, acima das contradições sociais.

No século passado, período do capitalismo liberal, ela procurava formar um tipo de “homem” que se caracterizava por um comportamento autônomo, exigido por suas funções sociais: era a universidade liberal humanista e mandarinesca. Hoje, ela forma a mão-de-obra destinada a manter nas fábricas o despotismo do capital; nos institutos de pesquisa, cria aqueles que deformam os dados econômicos em detrimento dos assalariados; nas suas escolas de direito forma os aplicadores da legislação de exceção; nas escolas de medicina, aqueles que irão convertê-la numa medicina do capital ou utilizá-la repressivamente contra os deserdados do sistema. Em suma, trata-se de “um complô de belas almas” recheadas de títulos acadêmicos, de um doutorismo substituindo o bacharelismo, de uma nova pedantocracia, da produção de um saber a serviço do poder, seja ele de que espécie for.

Na instância das faculdades de educação, forma-se o planejador tecnocrata a quem importa discutir os meios sem discutir os fins da educação, confeccionar reformas estruturais que na realidade são verdadeiras “restaurações”. Formando o professor-policial, aquele que supervaloriza o sistema de exames, a avaliação rígida do aluno, o conformismo ante o saber professoral. A pretensa criação do conhecimento é substituída pelo controle sobre o parco conhecimento produzido pelas nossas universidades, o controle do meio transforma-se em fim, e o “campus” universitário cada vez mais parece um universo concentracionário que reúne aqueles que se originam da classe alta e média, enquanto professores, e os alunos da mesma extração social, como “herdeiros” potenciais do poder através de um saber minguado, atestado por um diploma.

A universidade classista se mantém através do poder exercido pela seleção dos estudantes e pelos mecanismos de nomeação de professores. Na universidade mandarinal do século passado o professor cumpria a função de “cão de guarda” do sistema: produtor e reprodutor da ideologia dominante, chefe de disciplina do estudante. Cabia à sua função professoral, acima de tudo, inculcar as normas de passividade, subserviência e docilidade, através da repressão pedagógica, formando a mão-de-obra para um sistema fundado na desigualdade social, a qual acreditava legitimar-se através da desigualdade de rendimento escolar; enfim, onde a escola “escolhia” pedagogicamente os “escolhidos” socialmente.

A transformação do professor de “cão de guarda” em “cão pastor” acompanha a passagem da universidade pretensamente humanista e mandarinesca à universidade tecnocrática, onde os critérios lucrativos da empresa privada, funcionarão para a formação das fornadas de “colarinhos brancos” rumo às usinas, escritórios e dependências ministeriais. É o mito da assessoria, do posto público, que mobiliza o diplomado universitário.

A universidade dominante reproduz-se mesmo através dos “cursos críticos”, em que o juízo professoral aparece hegemônico ante os dominados: os estudantes. Isso se realiza através de um processo que chamarei de “contaminação”. O curso catedrático e dogmático transforma-se num curso magisterial e crítico; a crítica ideológica é feita nos chamados “cursos críticos”, que desempenham a função de um tranqüilizante no meio universitário. Essa apropriação da crítica pelo mandarinato universitário, mantido o sistema de exames, a conformidade ao programa e o controle da docilidade do estudante como alvos básicos, constitui-se numa farsa, numa fábrica de boa consciência e delinqüência acadêmica, daqueles que trocam o poder da razão pela razão do poder. Por isso é necessário realizar a crítica da crítica-crítica, destruir a apropriação da crítica pelo mandarinato acadêmico. Watson demonstrou como, nas ciências humanas, as pesquisas em química molecular estão impregnadas de ideologia. Não se trata de discutir a apropriação burguesa do saber ou não-burguesa do saber, mas sim a destruição do “saber institucionalizado”, do “saber burocratizado” como único “legítimo”. A apropriação universitária (atual) do conhecimento é a concepção capitalista de saber, onde ele se constitui em capital e toma a forma nos hábitos universitários.

A universidade reproduz o modo de produção capitalista dominante não apenas pela ideologia que transmite, mas pelos servos que ela forma. Esse modo de produção determina o tipo de formação através das transformações introduzidas na escola, que coloca em relação mestres e estudantes. O mestre possui um saber inacabado e o aluno uma ignorância transitória, não há saber absoluto nem ignorância absoluta. A relação de saber não institui a diferença entre aluno e professor, a separação entre aluno e professor opera-se através de uma relação de poder simbolizada pelo sistema de exames – “esse batismo burocrático do saber”. O exame é a parte visível da seleção; a invisível é a entrevista, que cumpre as mesmas funções de “exclusão” que possui a empresa em relação ao futuro empregado. Informalmente, docilmente, ela “exclui” o candidato. Para o professor, há o currículo visível, publicações, conferências, traduções e atividade didática, e há o currículo invisível – esse de posse da chamada “informação” que possui espaço na universidade, onde o destino está em aberto e tudo é possível acontecer. É através da nomeação, da cooptação dos mais conformistas (nem sempre os mais produtivos) que a burocracia universitária reproduz o canil de professores. Os valores de submissão e conformismo, a cada instante exibidos pelos comportamentos dos professores, já constituem um sistema ideológico. Mas, em que consiste a delinqüência acadêmica?

A “delinqüência acadêmica” aparece em nossa época longe de seguir os ditames de Kant: “Ouse conhecer.” Se os estudantes procuram conhecer os espíritos audazes de nossa época é fora da universidade que irão encontrá-los. A bem da verdade, raramente a audácia caracterizou a profissão acadêmica. Os filósofos da revolução francesa se autodenominavam de “intelectuais” e não de “acadêmicos”. Isso ocorria porque a universidade mostrara-se hostil ao pensamento crítico avançado. Pela mesma razão, o projeto de Jefferson para a Universidade de Virgínia, concebida para produção de um pensamento independente da Igreja e do Estado (de caráter crítico), fora substituído por uma “universidade que mascarava a usurpação e monopólio  da riqueza, do poder”. Isso levou os estudantes da época a realizarem programas extracurriculares, onde Emerson fazia-se ouvir, já que o obscurantismo da época impedia a entrada nos prédios universitários, pois contrariavam a Igreja, o Estado e as grandes “corporações”, a que alguns intelectuais cooptados pretendem que tenham uma “alma”.[1]

Em nome do “atendimento à comunidade”, “serviço público”, a universidade tende cada vez mais à adaptação indiscriminada a quaisquer pesquisas a serviço dos interesses econômicos hegemônicos; nesse andar, a universidade brasileira oferecerá disciplinas como as existentes na metrópole (EUA): cursos de escotismo, defesa contra incêndios, economia doméstica e datilografia em nível de secretariado, pois já existe isso em Cornell, Wisconson e outros estabelecimentos legitimados. O conflito entre o técnico e o humanismo acaba em compromisso, a universidade brasileira se prepara para ser uma “multiversidade”, isto é, ensina tudo aquilo que o aluno possa pagar. A universidade, vista como prestadora de serviços, corre o risco de enquadrar-se numa “agência de poder”, especialmente após 68, com a Operação Rondon e sua aparente democratização, só nas vagas; funciona como tranqüilidade social. O assistencialismo universitário não resolve o problema da maioria da população brasileira: o problema da terra.

A universidade brasileira, nos últimos 15 anos, preparou técnicos que funcionaram como juízes e promotores, aplicando a Lei de Segurança Nacional, médicos que assinavam atestados de óbito mentirosos, zelosos professores de Educação Moral e Cívica garantindo a hegemonia da ideologia da “segurança nacional” codificada no Pentágono.

O problema significativo a ser colocado é o nível de responsabilidade social dos professores e pesquisadores universitários. A não preocupação com as finalidades sociais do conhecimento produzido se constitui em fator de “delinqüência acadêmica” ou da “traição do intelectual”. Em nome do “serviço à comunidade”, a intelectualidade universitária se tornou cúmplice do genocídio, espionagem, engano e todo tipo de corrupção dominante, quando domina a “razão do Estado” em detrimento do povo. Isso vale para aqueles que aperfeiçoam secretamente armas nucleares (M.I.T.), armas químico-biológicas (Universidade da Califórnia, Berkeley), pensadores inseridos na Rand Corporation, como aqueles que, na qualidade de intelectuais com diploma acreditativo, funcionam na censura, na aplicação da computação com fins repressivos em nosso país. Uma universidade que produz pesquisas ou cursos a quem é apto a pagá-los perde o senso da discriminação ética e da finalidade social de sua produção – é uma multiversidade que se vende no mercado ao primeiro comprador, sem averiguar o fim da encomenda, isso coberto pela ideologia da neutralidade do conhecimento e seu produto.

Já na década de 30, Frederic Lilge[2] acusava a tradição universitária alemã da neutralidade acadêmica de permitir aos universitários alemães a felicidade de um emprego permanente, escondendo a si próprios a futilidade de suas vidas e seu trabalho. Em nome da “segurança nacional”, o intelectual acadêmico despe-se de qualquer responsabilidade social quanto ao seu papel profissional, a política de “panelas” acadêmicas de corredor universitário e a publicação a qualquer preço de um texto qualquer se constituem no metro para medir o sucesso universitário. Nesse universo não cabe uma simples pergunta: o conhecimento a quem e para que serve? Enquanto este encontro de educadores, sob o signo de Paulo Freire, enfatiza a responsabilidade social do educador, da educação não confundida com inculcação, a maioria dos congressos acadêmicos serve de “mercado humano”, onde entram em contato pessoas e cargos acadêmicos a serem preenchidos, parecidos aos encontros entre gerentes de hotel, em que se trocam informações sobre inovações técnicas, revê-se velhos amigos e se estabelecem contatos comerciais.

Estritamente, o mundo da realidade concreta e sempre muito generoso com o acadêmico, pois o título acadêmico torna-se o passaporte que permite o ingresso nos escalões superiores da sociedade: a grande empresa, o grupo militar e a burocracia estatal. O problema da responsabilidade social é escamoteado, a ideologia do acadêmico é não ter nenhuma ideologia, faz fé de apolítico, isto é, serve à política do poder.

Diferentemente, constitui, um legado da filosofia racionalista do século XVIII, uma característica do “verdadeiro” conhecimento o exercício da cidadania do soberano direito de crítica questionando a autoridade, os privilégios e a tradição. O “serviço público” prestado por estes filósofos não consistia na aceitação indiscriminada de qualquer projeto, fosse destinado à melhora de colheitas, ao aperfeiçoamento do genocídio de grupos indígenas a pretexto de “emancipação” ou política de arrocho salarial que converteram o Brasil no detentor do triste “record” de primeiro país no mundo em acidentes de trabalho. Eis que a propaganda pela segurança no trabalho emitida pelas agências oficiais não substitui o aumento salarial.

O pensamento está fundamentalmente ligado à ação. Bergson sublinhava no início do século a necessidade do homem agir como homem de pensamento e pensar como homem de ação. A separação entre “fazer” e “pensar” se constitui numa das doenças que caracterizam a delinqüência acadêmica – a análise e discussão dos problemas relevantes do país constitui um ato político, constitui uma forma de ação, inerente à responsabilidade social do intelectual. A valorização do que seja um homem culto está estritamente vinculada ao seu valor na defesa de valores essenciais de cidadania, ao seu exemplo revelado não pelo seu discurso, mas por sua existência, por sua ação.

Ao analisar a “crise de consciência” dos intelectuais norte-americanos que deram o aval da “escalada” no Vietnã, Horowitz notara que a disposição que eles revelaram no planejamento do genocídio estava vinculada à sua formação, à sua capacidade de discutir meios sem nunca questionar os fins, a transformar os problemas políticos em problemas técnicos, a desprezar a consulta política, preferindo as soluções de gabinete, consumando o que definiríamos como a traição dos intelectuais. É aqui onde a indignidade do intelectual substitui a dignidade da inteligência.

Nenhum preceito ético pode substituir a prática social, a prática pedagógica.

A delinqüência acadêmica se caracteriza pela existência de estruturas de ensino onde os meios (técnicas) se tornam os fins, os fins formativos são esquecidos; a criação do conhecimento e sua reprodução cede lugar ao controle burocrático de sua produção como suprema virtude, onde “administrar” aparece como sinônimo de vigiar e punir – o professor é controlado mediante os critérios visíveis e invisíveis de nomeação; o aluno, mediante os critérios visíveis e invisíveis de exame. Isso resulta em escolas que se constituem em depósitos de alunos, como diria Lima Barreto em “Cemitério de Vivos”.

A alternativa é a criação de canais de participação real de professores, estudantes e funcionários no meio universitário, que oponham-se à esclerose burocrática da instituição.

A autogestão pedagógica teria o mérito de devolver à universidade um sentido de existência, qual seja: a definição de um aprendizado fundado numa motivação participativa e não no decorar determinados “clichês”, repetidos semestralmente nas provas que nada provam, nos exames que nada examina, mesmo porque o aluno sai da universidade com a sensação de estar mais velho, com um dado a mais: o diploma acreditativo que em si perde valor na medida em que perde sua raridade.

A participação discente não constitui um remédio mágico aos males acima apontados, porém a experiência demonstrou que a simples presença discente em colegiados é fator de sua moralização.

* Texto apresentado no I Seminário de Educação Brasileira, realizado em 1978, em Campinas-SP. Publicado em: TRAGTENBERG, M. Sobre Educação, Política e Sindicalismo. Sã Paulo: Editores Associados; Cortez, 1990, 2ª ed. (Coleção teoria e práticas sociais, vol 1)

[1] Kaysen pretende atribuir uma “alma”à corporação multinacional; esta parece não preocupar-se com tal esforço construtivo do intelectual.

[2] Frederic LILGE, The Abuse of Learning: The Failure of German University. Macmillan, New York, 1948

 


Você pode também abaixar o arquivo em pdf. Basta clicar no link abaixo:

A Delinqüência Acadêmica – Maurício Tragtenberg


CONCEITOS RETIRADOS DOS TEXTOS ABAIXO, CUJO TÍTULO E CONTEÚDO DO ORIGINAL SÃO MANTIDOS AO CLICAR NOS LINKS.

1. DELINQUÊNCIA ACADÊMICA, de Maurício Tragtemberg

2. BAGRINHOS, do texto de Alfredo Marques

3. HOMEM-DISPOSITIVO, do texto de Francisco Foot Hardman

4. FIM DA UNIVERSIDADE PÚBLICA, do texto de Marilena Chauí

5. ETHOS DE GANGUE, do texto de Luiz Felipe Pondé

6. MIKE BONGIORNO, do ensaio de Umberto Eco

7. CASTA DOS INTOCÁVEIS, da entrevista de Chico de Oliveira

8. CARTA DOS PROFESSORES DO IFCH, “O IFCH ESTÁ AGONIZANDO”


O ABSURDO É TÃO COMUM. O banal é tão Poderoso.

05/11/2010

Você está sendo enganado por esta foto. Aqui não é uma loja de escadas. Nem uma unidade de bombeiros. É a recepção do Arquivo Edgard Leuenroth. Mas para quê tanta escada?


escadas, quantas 005
COMENTÁRIOS DE ALGUMAS PESSOAS QUE CONSEGUEM VER ALGO À SUA VOLTA: 1. “Agora o AEL tá bem, uma escada para cada funcionário”; 2 . “agora toda mundo vai poder subir na vida”; 3 . à espera de outros comentários que serão registrados aqui.

Pergunta semelhante já tinha sido feita quando da mudança do Arquivo. Compraram mais de 700 caixas, caras, resistentes, para fazer a mudança. Passodos quase um ano continuam lá amontoadas por vários locais no AEL. Visivelmente um disperdício de recursos. Eram tantas que a foto só pega algumas delas.


caixas caras, para que servem…

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Mas como explicar 15 ou mais escadas para o Arquivo? Diante de tantos absurdos no mundo parece miúdo me preocupar com caixas e escadas.

Aproveito aqui para narrar outra experiência, comesinha, sobre uso de verbas públicas. Pois acho que muito da miséria deste país é promovida por disperdício. Todo mundo conhece denúncias de que 30 por cento dos graos são perdidos. É senso comum que verbas, por exemplo, para educação, uma porcentagem mínima é usada para educar. A quase totalidade das verbas ficam pelo caminho. Mal aplicadas e mal explicadas. Um exemplo. Em muitos sebos você encontra livros patrocinados pelo governo que deveriam estar nas bibliotecas (a maioria delas ficam inclusive fechadas o ano inteiro). Mas há o grotesco. Livros dirigidos ao ensino médio, como por exemplo livros de linguística que só alguns alunos do ensino universitário leram. Seria apenas falta de critério ou burrice? Ou sabem que ninguém vai cobrar. E se alguém cobrar de quase ninguém vai ouvir.

Por isso acho que, diante de pequenas coisas que cheiram a desperdício, devemos cobrar explicações. E insistir, mesmo que as explicações não venham.

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MAUSOLÉU DE OURO, PIRÂMIDE BRANCA, emBORA…

26/10/2010

O QUE ACONTECE COM AS OBRAS ABANDONADAS NA UNICAMP?

Este prédio foi iniciado a toque de caixa e logo abandonado no estágio que está há anos.


construções abandonadas 006

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Lá, dizem, seriam instalados os núcleos. Na época capitaneados pelo CESOP. Como estes núcleos têm, sempre, a vocação de se transformarem em fundação, apelidei o prédio de sede da empresa senil. Já que as fundações têm sempre algo de parasitário, velho e senil; que levam e atestam o fim da Universidade Pública e premiam grupos e não a instituição. As fundações sempre estão mergulhadas numa atmosfera de decadência, aproveitando da senilitude da Universidade Pública, como já foi exaustivamente denunciado e demonstrado pela revista da ADUSP (Associação dos professores da USP).
No mesmo período o IFCH tinha três obras em andamento. Do AEL levou quase 7 anos para inaugurar, pois terminar não terminou até hoje, pois suas janelas terão quer ser trocadas e não podem ser abertas; e seu ar-condicionado central de 600 mil reais não funciona e, parece, não tem conserto.
Ninguém explica porque a extensão da biblioteca do IFCH está abandonada, quando há milhares, muitos milhares de livros para ir para as estantes. Não explicaram, até hoje, que sanção recebeu a firma que inundou a biblioteca em março de 2009.

Na Unicamp ninguém explica nada. No IFCH ninguém sabe de nada. E prédios continuam sendo iniciados.


construções abandonadas 003

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E os outros continuam abandonados, com há anos está o prédio da Geociência. Que lógica é essa? Que administração é essa? Quem paga os prejuízos?

O mais intrigante é que os professores, os que mandam na Universidade, não reclamam, não se posicionam. Que nome dar a este silêncio de quem domomina a palavra (e o poder)?

Insisto sempre nesta questão dos prédios da Unicamp, pois diante da suntuosidade de brancura da pirâmide branca do AEL, a classe média fica embasbacada, como se fosse um totem. Mas insisto também em que estes prédios são uma confissão do descontrole e da falência da administração da Unicamp, quando adotaram as empresas terceirizadas em suas construções. E este modelo visivelmente está falindo. É só olhar para o laboratória da Física que afundava logo que ficou pronto. Agora têm a notícia do prédio suntuoso da BORA [Bliblioteca de Obras Raras) no IA, mas, até agora, apadrinhado pelo IEL. Fizeram um seminário para discutir a questão das obras raras. Que obras raras irão para lá? Onde tem tantas obras raras assim na Unicamp, já que tem 3 prédios que abrigam as poucas obras raras que a Unicamp tem? Dizem que gastarão 11 milhões no prédio. Vão adquirir obras raras para colocar neste colosso? Quanto custa isso? Não é preciso ser nenhum bibliófilo para saber que obras raras têm preços no mercado, estabelecidos por sua orópria raridade. Ou contruirão um prédio para alocar um pífia bliblioteca? Muitos participantes de tal seminário fingiam não se dar conta do disparate. A vida continua. As verbas rolam. O poder constrói bunkers para o poder.

A USP está terminando um prédio. Sem entrar em todo o mérito, sabemos que eles já têm doadores do calibre  de José Mindlin, bibliófilo famaso.  O que temos na Unicamp? Parece que teremos um enorme prédio à espera de boas almas.  Parece que este prédio da BORA é pura megalomania.

Se clicar sobre esta foto


QUE ESTÉTICA É ESSA?

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acessará, pelo FLICKR, vários albuns com fotos destes descalabros. E poderá conferir o vocabulário que crio para os prédios da Unicamp.
Prédio da Adunicamp: MAUSOLÉU DE OURO
Prédio do AEL: PIRÂMIDE BRANCA
Prédio dos Núcleos IFCH: EMPRESA SENIL.
Jardim da Matemática: JARDINS DA BABILÔNIA
Laboratório da Física: PALAFITAS
O BORA: podia se chamar emBORA, sem obras raras.

INFORMAÇÕES DE UTILIDADE PÚBLICA.

A ADUSP (associação dos professores da USP) publicou 3 revistas sobre as fundações de direito privado na USP.[veja revista 24 ; na 23; Dossiê das Fundações de direito privado na USP que iniciou na Revista 22 da ADUSP]A ADUSP, na sua revista número 46, Publicou entrevista com um professor da FEA/USP, ex-diretor da FIA(Fundação da FEA), mostrando um monte de ganhos e falcatruas. Em 2001 já havia mostrado que o Conselho Universitárioda USP, o  CO (lá até  as siglas mudam convenientemente) tem 24 membros que são membros de fundações.
É SÓ ENTRAR NA PÁGINA DA COLEÇÃO DAS REVISTAS DA ADUSP [ A ÚLTIMA NÚMERO 47] e ler apenas os títulos para saber porque chamo o prédio da ADUNICAMP de Mausoléu de Ouro. Não são nada revolucionários, apenas usam o dinheiro da Associação para produzir diagnósticos importantes para toda a comunidade. E se olharmos para O SINTUSP, um sindicato sistemáticamente combativo, nós da Unicamp temos que dizer, pobre de nós.

ARTIGOS SOBRE MESMO ASSUNTO:

BIBLIOTECA NACIONAL É INUNDADA POR DEFEITO EM AR CONDICIONADO

02. Infiltrações no AEL, dentro e fora

03. Campus de Limeira, aos pedaços

04.AEL MAIS UMA JANELA CAIU (1)

05. Pequeno Diário de uma Tragédia Anunciada


A INFLUÊNCIA DO JORNAL DO PORÃO. Um balanço pelos cinco mil acessos.

24/10/2010

Mike Bongiorno. FENOMENOLOGIA DE MIKE BONGIORNO, de Umberto Eco. Este ensaio de 1961 foi publicado aqui no Jornal do Porão em 21 de fevereiro de 2009. Apesar de um longo ensaio para um blog é um dos textos mais lidos. Quando foi publicado em fevereiro de 2009, digite-o inteiro de um livro, pela indignação de ver a pobreza intelectual, o servilismo e as bobagens que ouvi de alguns professores do IFCH. Como por exemplo, diante da comemoração dos 50 anos do Teatro Oficina, certo professor de história dizer que “falei durante três aulas que o Zé Celso só quer chocar as pessoas”. Pior foi outro dizendo sobre o acervo do Teatro Oficina no Arquivo Edgard Leuenroth: “Aquela bicha…”. Nem pensava em Berlusconi, mas em professores do IFCH, arrivistas, carreiristas e especialistas em exercer seus poderes.

O texto mais lido, quase todas as semanas tem 4 ou 5 pessoas acessando-o, é o Jornal do Porão 4. É um Jornal que fala de Noel Rosa, de Chico Mendes e da Praça dos Trabalhadores. Mostrando a violência da pequenez dos políticos. São os próprios Mike Bogiornos.
Como colocar numa pracinha minúscula o nome de um dos maiores compositores e personalidade da cultura popular brasileira? Estudante de medicina que se liga, imediatamente, aos fundadores do samba. O samba tem várias vertentes, mas aquela que proliferou que tomou os rádios, e que tomou a país inteiro, foi arquitetada no Estácio. Noel Rosa logo vai ser parceiro de Ismael Silva, o grande do Estácio. E a antiga tripinha chamada Praça Chico Mendes cheia de lixo, tendo hoje uma desconhecida como nome oficial. Aqui Chico Mendes foi salvo da humilhação. E a praça dos trabalhadores então que nem existe, é um canteiro debaixo de uma ponte. E aqui neste Jornal do Porão ainda virá um artigo com fotos da Praça Tim Maia, um canteirizinho de terra batida e sujo. Os políticos são uns pobre-diabos.




Mário Medeiros contra a terceirização

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Outro texto que todas as semanas têm leitores é “UMA SEGUNDA MORTE PARA CLÓVIS GARICA”, de Mário Augusto Medeiros da Silva. Como os leitores já sabem, Mário Medeiros já teve os dois contos mais lidos neste blog. “Meias de seda se esgarçando”, provocou 104 leitores num dia, um segundo lugar de leitores, pois Jornal do Porão número 4 teve 119 no dia em que foi lançado, em fevereiro de 2009. Mas seu “Membro Fantasma” será o terceiro texto mais lido do blog: 84 leitores no dia que foi lançado o conto. Mário Medeiros da Silva deixa de ser colaborador para se tornar uma co-autor do blog. Não posso deixar de citar a melhor frase escrita neste blog foi quando Mário Augusto Medeiros da Silva, escrevendo um artigo em defesa de Mário Martins, perseguido pelos Mike Bongiornos do IFCH, cunhou esta: “O ato de acochambrar pelo poder, alcoviltar, escorchar e tomar atitudes numa relação de desigualdade (chefe-subordinado) é o elogio da estupidez. O chefe que precisa usar da força – censurar, chamar em sala, beco, alcova, colocar no canto, ameaçar, impor-se pelo cargo – demonstra que a sua suposta autoridade não possui nenhuma legitimidade, para além do cargo institucional e do medo que inspira. Respeito, então, nem se fale. É um estúpido. Uma besta com polegares. É indigno de ser chamado de intelectual, de pensador. É o ato de um delinqüente acadêmico, de homem-dispositivo, na melhor acepção que deram a esses termos Maurício Tragtenberg e Franciso Foot Hardman.”
Em defesa do Jornal do Porão, de seu criador e de todos nós.
14/11/2009 IDÉIAS SE COMBATEM COM IDÉIAS.

Há textos no Jornal do Porão que não são originais, mas que são constantemente lidos. Mas são originais no sentido que foram escolhidos para serem editados aqui. E porque cumprem a função de criar o debate. Textos também esquecidos que entram novamente em circulação. O principal deles é “A Delinqüência Acadêmica”, de Maurício Tragtemberg. Sempre lido, mas ainda não lido suficientemente. É um texto de 1978, mas parece que fala de agora. E dentro desta questão da academia o texto fundamental é “Segunda Refundação”, de Marilena Chauí. Na verdade pouco lido, mesmo porque é um ensaio imenso. Texto escrito em 1994 e ainda não assimilado. O movimento estudantil, segundo minha leitura do texto, fala de uma Universidade que nem existe mais. E Marilena Chauí prova isso. Sem este texto, acho, falar de universidade é fazer um debate sobre o vazio, como se fôssemos fantasmas.

E um texto querido. É muito lido, mas eu queria que fosse mais e mais. “AMOR CRISTÃO”, de Marcelino Freire. É uma porrada nos bem pensantes e sentimentalóides. Assim como são os poemas de Roberto Piva que também são lidos, toda a semana tem pelo menos 1 leitor aqui no Jornal do Porão.




terceirização coletivo Miséria 004

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Mas o Jornal do Porão vive um momento especial. Os desenhos de João da Silva. O coletivo Miséria e sua revista Miséria é algo único na Unicamp. Algo criativo, inventivo e que marcará época. Haverá uma época da Unicamp que, no futuro, falaremos da época da Revista Miséria. Que outra época a Unicamp tem? No futuro falaremos de um passado bem distinto, marcante. Convoco as pessoas a falarem destes momentos realmente marcantes e fundadores da Unicamp, se os houver.




churrasco Hélio (7)

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O momento especialíssimo das contribuições de Mário Augusto Medeiros da Silva. Sempre presente no Jornal do Porão e sempre criando impacto e leitores. Mas alerto aos desatentos. Newton Perón eu recomendo. Minha leitura e releituras tem sido, constantemente, ir ilustrando os textos. Aos textos de Newton Perón eu tenho dedicado esta leitura ilustrativa, ALGUNS AINDA INÉDITOS, em comemoração aos 5 mil acessos ao Jornal do Porão. Tenho, acho, conseguido ponto alto. A conferir.

O Jornal do Porão nasceu para ser um jornaleco litero/político/jocoso. Tem sido. Mas sua vocação tem sido de ser uma revista de onde amigos dialogam e tentam influir, criando uma visão de mundo assentada na cultura, na luta contra opressão e toda espécie de moralismo pequeno-burguês ou carola. Tem avançado. Pois, como vimos, textos difíceis são lidos e relelidos.
Se perceberam há dois contos inéditos de Newton Peron, ainda agendadados para serem publicados, mas que podem ser lidos já. Mas para página ainda tem algo mais que é publicado hoje. Acessem o no Flicker album com algumas fotos de Josephine Baker, comentada no texto de Umberto Ecco, Mike Bongiorno.

E já ia me esquecendo de Mário Bortolotto e seu sempre lido, aqui, “Me gústan las muchachas putanas”. Que iniciou neste Jornal do Porão os textos contra o moralismo idiota. Este mesmo que não fosse lido por ninguém eu republicaria até para relelê-lo.

As fotos do Flickr são muito vistas através deste Jornal do Porão. As campeãs são as fotos da “Capoeira Angola”, desenhos de Carbé. Só na sexta-feira, 22 de outubro 2010, a página com os desenhos “capoeira angola, de Caribé” teve 9(nove) acessos.
Pretendo em todos os aniversários da primeira publicação destes textos republicá-los.
PS. Newton Peron, além de ser um formidável coloborador deste Jornal do Porão, no auge da perseguição dos “burocratas mortos” a este editor e a este jornal, Newtinho assumiu a edição deste. Portanto ele será sempre um dos editores deste jornaldoporao.

Alguns textos de Mário Augusto (Medeiros da Silva), neste blog.

Este blog, nos seus mais de 5 mil acessos, reafirma um dos seus eixos, que é a preocupação política cotidiana. Interviu. Incomodou. Mas há uma grande curiosidade e uma sociologia inteira do profressorado do IFHC. No primeiro semestre de 2009, 80 professores do IFHC, assinaram uma carta que termina de maneira arrogante diante do Reitor. Nesta carta que inicia dizendo que o ‘IFHC ESTÁ AGONIZANDO’ e na reunião que a votou diziam que não iniciariam o segundo semestre, pois era impossível continua sem enfrentar radicalmente o problema, pois em 2011 o IFCH FALIRIA. Hoje está carta só pode ser lida aqui. Nenhum professor a cita. O que mostra que todos os 80 são coniventes com a agonia do IFCH. Mais. Devem ganhar com isso. No album Flickr do Jornal do Porão você pode ver a reação e mobilização dos estudantes.Mas há muito gente atenta a esta carta, muito menos do que devia, mas toda semana, aqui no blog, ela tem pelo menos 3 leitores. A carta não dá para ser resumida. Cada parágrafo dela é um diagjnóstico profundo o IFHC, das Ciências Humanas relegada para último plano. Diante da covardia que os professeores demonstraram depois de assinarem a carta, me obrigo a lembram Nelson Rodrigues e seu complexo de vira-latas para definir a subserviência.

Veja Blog de João da Silva
Revista Miséria

Alguns textos do Jornal do Porão também foram publicados na Revista Iskra, uma revista teórica de Jovem marxistas traz artigos sobre a repressão as festas no IFCH e na Unicamp.

Um conto dos mais lidos, so de consulta pelo nome, foram 31 vezes em 2010. Um grande achado. O Arquivo, de Victor Giudice. Dizem que é o conto brasileiro mais publicado no mundo. 27 vezes.


AEL mais uma janela caiu (1)

13/10/2010

Mais uma página do pequeno diario de uma tragédia anunciada. Dezenas de janela da Pirâmide Branca, o novíssimo novo rico prédio do AEL, tem grande parte de suas janelas comprometidas. Uma parte inteira do AEL, no seu suntuoso e novíssimo e branqíssimo prédio que foi construído por empresas terceirizadas terão que ter todas suas janelas trocadas. Quem pagará por isso? E quem ganhou para fazer esta porcaria, e quanto ganhou? Quanto a Unicamp irá perder? Não esqueçamos do ar-condicionado de 600 mil reais que não funciona, desde 12 de novembro de 2009, data da inauguração, quando este ar-condicionado, ligado sem testes prévios, inundou o arquivo e quase pôs a perder mais de 40 mil fotos(acervo Voz da Unidade). Quanto a Unicamp perderá com isso? Que riscos o Arquivo Edgard Leuenroth corre sem ar-condicionado? Dizem os chefes que nenhum? Então para quê um ar-condicionado de 600 mil reais (que não funciona, repitamos)?

AS EMPRESAS TERCEIRIZADAS DEITAM E ROLAM (E RIEM)




AEL mais uma janela caiu (1)

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OUTROS ARTIGOS SOBRE MESMO ASSUNTO:

00. Inundação na Biblioteca Nacional
atinge revistas e jornais antigos

01. MAUSOLÉU DE OURO, PIRÂMIDE BRANCA, emBORA…
02. Infiltrações no AEL, dentro e fora
03. Campus de Limeira, aos pedaços.
05. Pequeno Diário de Uma Tragédia Anunciada
06. FOTO Pequeno Diário de Uma Tragédia Anunciada


Um artigo profético, Jornal do Porão no. 1

05/10/2010

Para quê reeditar um jonalzinho? Para não precisar escrever outro quase igual. E para provar que dava prever o que iria acontecer. A burocracia não vive sem se reproduzir. E quando ela perde um tentáculo, nasce automaticamente outro, como os dentes dos tubarões, feitos para devorar. Quando foi escrito este Jornal do Porão 1, a celeuma foi grande. O antigo diretor ameaçava de punição. Puniu, na verdade, chamando na sua sala. Diga-se de passagem, os 10 números do Jornal do Porão foram assediados, ameaçados. Como uma agenda do IFCH registrou, em foto de uma faixa, “no IFCH tem fala-se muito em democracia, o que falta são democratas”. A previsão fundamental deste Jornal de mais de um ano é que voltaríamos a ter 6 chefes. E todas as mudanças era para voltar mais ou menos o mesmo, piorado. Se antes tínhamos 7 chefes, voltaríamos a ter 6, mas destes, um super-chefe. Piores dias virão. Porque tanta certeza? Porque burocracia é algo parasitário. E quanto mais burocratas, pior ficam as coisas.

[Jornal do Porão n. 1 – A DANÇA DOS NÚMEROS]
26 de agosto de 2009

Acabei de me dar conta que no ARQUIVO, notem bem, no AEL não tem arquivista. É um pequeno exagero, pois entre os atuais 17 funcionários, se incluirmos 2 chefes, talvez destes 17, 2 destes funcionários têm curso de especialização em arquivo e exerce a função. Há outros 2 que têm mas não exerce. Veremos que não apenas os números do Arquivo são dúbios, oscilantes…

Outra notícia intrigante é que no AEL tínhamos 7 chefes para 18 funcionários; ou seja, 1 chefe para 2,5 funcionários. Está havendo mudanças. Agora temos 4 chefes para…. 15 …. , pois às 4 chefes das antigas seções que estão sendo reestruturadas, foram solicitadas a entregar seus cargos e foi nomeada uma “chefia técnica”.

[ E aqui começa a dança dos números e das palavras]

Se são, atualmente, 4 chefes para 15 funcionários, mas quem manda mesmo são dois professores , o Diretor e o Vice.

Então poderíamos ser 19, mas não somos, continuamos 17. Pois professores são, ocupam o topo da carreira de funcionário, mas não exerce qualquer função de funcionário. Eles são super-funcionários, mas nunca simples funcionários. Não estão submetidos ao estatuto dos funcionários, mas ganham as gratificações que seriam dos funcionários. Por exemplo, já houve caso de antigo Diretor do AEL saiu para assumir outro posto, deixando coisas para assinar. Isto pelo estatuto dos funcionários daria demissão por justa causa. Outros dois antigos diretores foram embora sem mesmo se despedir; de repente soubemos que tinham desistido de ser diretores. Também numa espécie de abandono de suas responsabilidades. Mas quem iria responsabilizá-los? Não foram e não serão.

Podemos ter nomeado mais dois chefes para os atuais 15 funcionários, pois as antigas 4 secções virariam 2. Então seriamos 13 funcionários para 6 chefes, ou seja, 1 chefe para cada 2.

Voltando a falar em 15. Destes 15 uma funcionária já é aposentada. Outra aposenta em outubro, o que nos tornaríamos 13; está para chegar uma bibliotecária para o arquivo, seríamos então 14. {Parece piada pronta mais não é. Recrutaram para um arquivo que não tem arquivista uma bibliotecária}. Terminaremos o ano com 14 funcionários para 4 (ou 6) chefes.

Notícia fresquinha, neste momento chegou um patrulheiro.

SAÍDAS DO AEL. Uma das ex-chefes que ajudou a destruir sua secção, brigando com 5 funcionários que por isso mesmo saíram do arquivo, esta ex-chefe “responsável” por um das principais atividades do arquivo, saiu, com vaga e verba, ou seja, ela não pode ser substituída. A atual direção do instituto permitiu este desfalque. Talvez porque tenhamos muitos funcionários!!!! E foi esta mesma ex-chefe, numa secção que precisa muito de arquivista, que ficou na banca, para selecionar, segunda a sua própria sugestão, uma bibliotecária, para um seção que precisa de arquivista (seção que pelo organograma de 10 anos atrás previa 10 funcionários e hoje tem 3, uma podendo aposentar a qualquer momento.

É para o bem do Arquivo e da Unicamp que alguns funcionários morram. Os dirigentes esperam ansiosamente por isso. Pois existe uma lei estadual que veta a substituição dos funcionários estatutários (CLE) quando aposentam. Um deles é este que vos escreve. Em 18 meses me aposento e sou CLE. Logo é um dos motivos para torcerem para que eu morra, ou o Arquivo não poderá contar com um novo funcionário. Perderão, agora não poderei usar mais o nós, perderão portanto mais uma vaga. Acrescentando um pitadinha de caos à notícia, as duas anteriores funcionárias que se aposentam também são CLE e não podem ser substituídas. Ou melhor, talvez serão por terceirizados ou contratados.

Outra noticinha funesta. Um das melhores funcionárias do Arquivo, do meu ponto de vista. Cheia de iniciativa. Determinada. Responsável. Pau-para-toda-obra. Trabalhou tanto e com tanto afinco que teve sua coluna comprometida e passou por uma operação de risco. Talvez nunca mais poderá fazer tanto esforço. O capitalismo é cruel, mas as pessoas são mais ainda. Ela será demitida, quase que por justa causa, pois não receberá nada, pois teve seu contrato considerado nulo. Ela pagará pelos erros e …. dos nossos reitores e administradores… Ela não poderá trabalhar mais como sempre trabalhou. Por ser uma “subalterna”, ela deixa aqui no Arquivo um pedaço fundamental do seu próprio corpo. Vai embora sem glória e sem nada daqui a três meses. Poderia dizer que ficaríamos então com 13 funcionários para 4 (ou 6 ) chefes. Mas os números aqui também mentem. Pois a Neidinha trabalhou pelo Arquivo muito mais que todos os ex-chefes e, bem provável, muito mais trabalhou, ralou, deformou-se, trabalhando pelo Arquivo mais que a maioria dos funcionários também. Mais que trabalhou, mostrou sua inteligência e disposição para aprender, cumprindo com excelência tarefas bem complexas. Acho que seremos muito menos que 13 com a saída da Neidinha, apesar da aritmética dizer que seremos 13 para 4 (ou 6) chefes.

Nosso Arquivo é conhecido e reconhecido pela qualidade do seu atendimento, pelo seu acervo, pelas suas publicações… Mas isso está em risco. Esta qualidade foi mantida também pelo nível de seus funcionários. A decadência começou quando 6 deles, de nível superior , foram meio que chutados do arquivo. Destes 6 pelo menos 3 eram arquivistas . 3 destes 6 foram expelidos por aquela chefe muito responsável que saiu do arquivo com vaga e verba, desfalcando para sempre os nossos quadros. Esta chefe responsável que saiu também tinha curso superior. Saiu uma outra chefe, ou ex-chefe, também com curso superior. E aí vem a notícia do nosso atual diretor do Arquivo que vai pedir funcionários de nível médio, pois de nível seria impossível conseguir. Não há demérito algum, já que precisamos também, no arquivo, de funcionários de nível médio e muitos. O que não dá é para trocar 8 funcionários de nível superior + 1 que já está aposentada, portanto 9 funcionários de nível superior , por 2 de nível médio. É aceitar a decadência como nosso futuro. É aceitar que os funcionários de nível superior que existiam no Arquivo não eram necessários. Mas acho é que vamos decair mais ainda de qualidade.

Outra possível noticinha que não põe em risco o arquivo, nem muito menos significa qualquer caos ou problema grave, já que nossos diretores e chefes abominam qualquer destas palavras, mas que deve ser prevista, é que destes 13 presumíveis funcionários do AEL para 4 (ou 6) chefes ; que sem a Neidinha que vale por muitos, podemos ter ainda 2 outras aposentadorias a qualquer momento, ao que tudo indica. O que restaria 11 funcionários para 4 (ou 6) chefes. Ou mesmo voltaríamos a ter 13 funcionários para 4 (ou 6) chefes, caso nosso diretor conseguisse a “troca” dos 9 de nível superior que saíram por 2 de nível médio. Mas a conta se complica quando poderíamos ter 2 chefes saídos dos 11 ou 13 funcionários; o que nos tornaríamos 9 ou 11. Na melhor das hipóteses, destas duas hipóteses , seríamos 11 funcionários para 6 chefes,ou seja, 1 chefe para cada quase 2 funcionários. Mas, acho, há hipóteses muitos melhores que ter 6 chefes para 9, quase um chefe para cada funcionário, ou 6 chefes para 11 funcionários!!!! Mas a aritmética bastante complicada, esta dança de números, daria lugar ao caos/cômico, pois, nossa principal chefe, a Diretora Técnica, recém escolhida para o posto, a responsável por todo o quadro atual, poderia simplesmente aposentar a hora que quisesse, ou pelo menos brevemente se quisesse.

O número de funcionários, e mesmo de chefes, como quis demonstrar é um número flutuante e aleatório e com perspectiva nada animadoras. Saíram 9. Podem aposentar 4, digamos nos próximos 2 anos. Veio um. Virá mais 1. Podem vir mais 2. Este quadro é, para mim, um catástrofe. Indica um futuro de sobrecarga, doença (como já aconteceu com a Neidinha), afastamento por doença… Ou o que é pior, terceirização e contratação por tempo determinado, o que seria um risco maior ainda para um Arquivo do movimento operário (a biblioteca, e o risco que correu, atesta do que pode a terceirização para gerar catástrofes e irresponsabilidade).

A importância do Arquivo para a pesquisa acadêmica é mais que comprovada pelas quase 500 teses ou dissertações produzidas aqui. No entanto há outra importância muito maior. Aqui estão documentos originais e únicos do movimento operário, popular e democrático deste país. Qualquer ataque a este arquivo, por negligência, cupim ou água, ou até sabotagem da direita, coloca em risco documentos dos heróis do nosso povo. A classe dominante sempre soube prezar pela sua história e pagar regiamente seus escribas para contá-la. A história dos de baixo quase sempre foi contada pelos escribas a soldo dos de cima. Há muito pouco tempo na história que trabalhadores, operários ou escravos juntam e guardam documentos. Mas guardar documentos também é um documento da luta dos trabalhadores contra a opressão, pois ditadores, é até mesmo “democratas” como o presidente Sarney, mandou destruir documentos dos trabalhadores (pior, quase sem protesto na democracia da nova república de Sarney – é uma outra história). E é com estas pessoas, ligadas e amantes da luta do povo com que eu gostaria de corresponder, para cumprir nosso papel também nesta frente de luta árdua que é preservar a história dos trabalhadores, que, repito, está sempre em risco, por cupim, traça, descaso, fogo, água, desorganização, ideologia…

Pretendo manter este tipo “jornalzinho”, com notícias e lembranças. Mas esperaria que as pessoas se correspondessem comigo, dando sugestões e fazendo perguntas.

Um abraço,