El Greco: A luz – Arte é invenção e não realidade = Neoplatonismo

15/08/2012

El Greco, sob influência de Plotino:……………………………………….”Recusa o princípio de beleza como harmonia e afirma que a arte não é somente imitação da natureza“…………………………………………“.A beleza da cor é também forma”………………….. Foi com essas palavras que recusei, e ainda recuso, o realismo socialista………………………………………………………………………………….” Sem luz não há forma nem cor…………………………………, conforme o místico franciscano São Boaventura. Se tirarmos Deus da parada e colocarmos o sol, mesmo o deus sol, ou ainda a luz artificial,  tudo fica resolvido para um estética materialista.

“A estética medieval manifesta um grande interesse pelas cores vivas e luminosas“. Como não me lembrar da amarelo-ovo do Abapuru, de Tarsila ou da simbólica camisa amarela de Maiakóvsky.

[Ver as citações inteiras na Galeria de fotos no fim do post]

Oficina, Macumba Antropófaga, SESC-Campinas

Acabei de ver a encenação da Macumba Antropófaga, do Teatro Oficina. Havia um fogo no centro do picadeiro, se elevando bem alto, para marcar momentos emblemáticos de cada quadro da montagem. Inclusive pensei na hora na música serial de Stravisnky, uma música em blocos. Em cada bloco de Macumba Antropófaga o fogo era estimulado e resplandecia. Essa citação do tratado de pintura de Giovanni Paolo Lomazzo, publicado em 1548, presente na biblioteca de El Greco, me ajudou a entender a insistência do fogo na montagem de Zé Celso. “Porque a maior graça e vida que pode ter uma pintura é que expresse “movimento”(…)não há forma mais adequado pra expressar esse ‘movimento’ do que a chama do fogo (…) porque tem um cone ou extremidade aguda com a qual parece fender o ar“.

“Lomazzo também insiste na superioridade neoplatônica da expressão de uma ideia sobre a representação naturalista da realidade, recusando abertamente expressar a transcendência como se fosse natural ou mundano”.A arte moderna e contemporânea levou tal princípio para os próprios objetos.

Gombrich, E.H, Meditações sobre um Cavalinho de Pau, VII-071.001

Gombrich, no seu Meditações sobre um Cavalinho de Pau, em debate com André Malraux, no capítulo “André Malraux e a crise do Expressionismo” vai usar um citação de Malraux contra Malraux: com iluminação, arranjo e ênfase especiais em determinados detalhes, obras antigas de escultura adquirem muitas vezes um modernismo surpreendente, senão espúrio”.
Mas Gombrich contesta Malraux  que disse “que toda arte é criação dos últimos séculos, século sem Deus“. Ele está enganado diz Gombrich, pois no Purgatório de Dante dois artistas discutem o valor artístico de suas obras.

“Será necessário que o tempo melhore bastante, depois do terremoto expressionista, para poder reconstruir o Museu sobre esses alicerces mais modestos porém mais seguros”. Gombrich.

Apesar da veemência da condenação que Gombrich faz da visão que ele chama de “crise do expressionismo”, ficam perguntas. Se podemos ver, se vemos fora do contexto, modernismo na arte medieval, ou mesmo do pré-barroco de El Greco, como não ver inverter o argumento e ver que os modernos se assenhoram de procedimentos deste período da história da arte? E como já registramos noutros posts, o sabido procedimento dos modernos, como Picasso, Braque, Brancusi e Giacometti se apropriando da Arte Africana?
Se a pintura das cavernas, as máscaras e esculturas africanas, os ícones bizantinos ou os santos medieviais faziam parte de rituais religiosos ou místicos, há uma possibilidade de ver a arte moderna como um ritual pagão ou materialista? Pois é comum na arte moderna apelar para encenações e até mesmo mistérios e transe? Há mesmo artistas que declaram pintar como um ritual? E o que acho mais importante, procedimentos do passado da arte continuam tocando o fruidor moderno, nas representações do passado e nas apropriações contemporâneas. Talvez hajam coisas na humanidade que não mudaram tanto assim. Talvez haja uma força considerável em permanências, as vezes mais profundas que as mudanças. Como explicar que a Ilíada, obra de quase 3.000 anos, nos toque ainda tão profundamente?
……………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………..

galeria


Pintura. Deformações dos corpos: Alongamento dos corpos 1. El Greco.

14/08/2012

El Greco (1541-1614).

……………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………..

Biblioteca Mário, VII-070.031 .
Destes dois livros foram retirados citações e algumas reproduções para iniciar um estudo do fenômeno da deformação dos corpos ou, aqui, alongamento dos corpos. VER GALERIA.

Que efeito buscam os pintores, escultures e desenhistas  com a deformação dos corpos? Vimos, aqui, em Memória e Altar, que é constante na arte Africana, como se quisessem “enganar” os espíritos dos antepassados, forjando formas não realistas, quando as representações de animais eram bem realistas, provando que era uma escolha representar alongadamente, ou com outras deformações, a figura humana.
Debita-se mesmo à Arte Africana grande influência na arte do chamado ocidente, principalmente na arte moderna e contemporânea.

Folheando livros de arte ocidental podemos ver vários exemplos deste procedimento. Aqui no blog pretendo fazer uma recolha deste fenômeno, tentando entender, e sentir, estes efeitos.

Em Modigliani o alongamento dos corpos é dominante, tanto na pintura como na escultura. Nas figuras femininas, para mim, ajudou a destacar a sensualidade. Numa espécie de estranheza positiva, cativante. Como deformar pode tornar mais belo?

Em Giacometti o alongamento dos corpos provoca desolação, desencanto. Uma solidão, mesmo em suas florestas de figuras. Achei quase uma desumanização. E em El Greco, vai haver uma descarnação em relação à arte renascentista. Um descarnação, uma espiritualização que, para mim, vai dar em Giacometti.

Deformação dos corpos, El Greco (1). Mestre da Pintura, Abril Cultura, 1977. Biblioteca Mário, VII-070.001

A questão que se coloca é porque um procedimento que remonta à Arte Africana, muitas vezes chamada de folclore, e, no caso de El Grego, um retorno a formas arcaicas, bizantinas e medievais, vai estar presente, de maneira sistemática na arte moderna e contemporânea. Naquele momento, de Contra-Reforma católica, da Inquisição, em Toledo, centro da inquisição, os procedimentos estéticos, de retorno ao antigo, praticado por El Grego tem um conteúdo de inovação. É uma ruptura com as repetições nada criativa do maneirismo, estética que, vejam bem, colocava como mandamento a criatividade e era pura estagnação. Assim como a busca pela África vai arejar a arte moderna e contemporânea.

…………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………

SÓ ACREDITARIA NUM DEUS QUE DANÇASSE: NIETZSCHE.

Como acho que a música é a mais alta e importante atividade humana, procuro ligar os períodos da história à música. O mundo que quero conhecer tem que ter música ou não quero conhecer. Diferente da pintura, escultura ou desenho, cujas manifestações estão gravadas nas cavernas há 50 mil anos. A música que deixou registro começa no ocidente no século XI ou XII. Mas não é difícil imaginar que todos os povos, desde sempre, cantaram e dançaram. Todos os povos cantam e dançam. Me considero um aleijão, uma espécie de gabiru, por não conhecer tecnicamente música, nem tocar qualquer instrumento. E nem mesmo conseguir cantar. Portanto meu conhecimento será sempre precário, insuficiente, parcial.

A MÚSICA NO TEMPO DE EL GRECO

…………………………………………UM DOS INSTRUMENTOS MAIS PODEROSOS DA PROPAGANDA JESUÍTICA FOI A LITURGIA ROMANA………………………………………….escreve Otto Maria Carpeaux………………………………………..“o Officium defunctorum(1605), missa de réquiem e “orações de tumba”(seis vozes)…obra de solenidade sombria, e em certos momentos, de exaltação mística; é essa que já fez pensar no Entierro del conde Orgaz, de Domenico Theotocopuli el Greco”. Música de Victoria(Tomás Luís de)”.

Enterro do Conde de Orgaz, 1586-1588. Os dois planos é volta à pintura da Idade Média. Mas os rostos, destes aristocratas, com suas barbas pontiagudas permitem um alongamento dos rostos. os corpos são alongados, radicalizando este procedimento já estava presente até em Michelangelo. Mas os amarelos e pretos são cores berrantes e contrastantes, não tão convencionais ao maneirismo. Em meio ao conservadorismo a evolução e a mudança.

A Contra-Reforma católica, cuja ideologia El Greco tentava seguir, botava muita atenção à música. O Concílio de Trento, o Concílio da Contra-Reforma, tirou diretrizes severas para domar a música. Assim escreveu Otto Maria Carpeaux: “Mas na Igreja Católica colaboraram as artes plásticas as artes plásticas e a música para representar a verdade religiosa: de uma maneira que assombra os espíritos simples, eleva os de elite e confunde a todos”. E, para isso, “Quanto à música, trata-se de uma reforma não somente litúrgica, mas também musical”. A arte tomará seu curso e, mesmo com toda repressão da Santa Inquisição, terão músicos revolucionários e obras revolucionárias na pintura.

Aqui, para anotação e sentir um pouco a época – e sem música não dá para sentir, acho – vão dois momentos de músicas grandiosas. Um mais conservador outro já no caminho de mudanças dentro daquele ambiente de repressão e controle.

“Giovanni Gabrieli já um mestre pré-barroco. Antecipa fases posteriores da evolução da música. Algumas daquelas músicas podem ser executadas ad libitum…Os musicólogos têm dedicado estudo intenso a uma obra como a Sonata Piano e Forte, de Giavanni Gabrieli, obra puramente instrumental, na qual dois coros de vozes são substituídos por dois coros de trombonees. No seu tempo, Giavanni Gabrieli foi certamente um inovador revolucionário”. Otto Maria Carpeaux, História da Música. Lembrando que o Concílio de Trento cogitou proibir qualquer instrumento, pois só a voz humana poderia cantar a deus. Permitiu apenas como acompanhamento simples ou simples introdução. No entanto a arte seguiu seu curso…tortuoso

“Quando, em 1956, Igor Stravinsky regeu na basílica de San Marco, em Veneza, seu Canticum Sacrum ad honorem Sancti Marci nominis, a execução da obra moderna foi recedida pela de alguns coros de Andrea e Giovanni Gabrieli”.


………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………

.

Visitação, 1607-1614. “”Nesse cotexto, é possível entender as características conscientemente subjetivas da pintura de El Greco não como traços visionários ou místicos, mas como fruto de idéias estéticas determinadas. Quer dizer, a definição de sue estilo obedece conceitos claros, e sua obra é mental com um componente expressionista que o pintor deixar transparecer deliberadamente, cada vez em maior medida, consciente de sua genialidade individual”. Gênios da Arte”, ed. Girassol.

MODERNIDADE… Parece a mim obra moderna. Me remeteu a muitos reproduções de modernos e contemporâneos que vi. Aqui mesmo neste blog reproduzi um quadro também “fantasmagórico” de Nolde, apesar de ser uma dança, mas parecia uma dança ritual e não um carnaval. Nolde me lembrou Stravinksy. Votarei sempre a essa reprodução de El Greco e também ao quadro de Nolde. Mais que conhecer correntes quero conhecer obras, não quero uma sociologia, mas um certo catálogo de meus gostos.
……………………………………….…………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………..

Galeria de reproduções e texto

………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………

links

01. Modigliani: “Eu agora possuo o orgasmo…”
02. GIACOMETTI por JEAN GENET.
03. Giacometti por Sartre
04. CIVILIZAÇÕES AFRICANAS: Memória e Altar: apontamentos 01
05. CIVILIZAÇÕES AFRICANAS: “Memória e Altar”: Exposição da Coleção de Rogério Cerqueira Leite
06.El Greco:” A tendência do pintor para alongar a figura humana, aprendida em Miguel Ângelo, mas também em Tintoretto e Paolo Veronese, e em pintores maneiristas vai caracterizar toda a sua pintura”.