Dentro da Chuva Amarela, II

27/09/2014

.Dentro da Chuva Amarela, William L.

Dentro da Chuva Amarela, Mendelssohn op.68Dentro da Chuva Amarela, Mendelssohn op.68, cont.

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PLENITUDE. Dostoiéviski descreve os momentos que antecedem a crise sua aguda crise epiléptica como plenitude. Como algo do reino do maravilhoso. Transformou sua doença em páginas de imensa grandeza.

Veja Dostoiévski e seu personagem príncipe Michkin:
Eis como Dostoiévski descreve as auras de Míchkin, personagem central de O idiota e, certamente, o epiléptico mais célebre da literatura:O Idiota, Dostoiévksi, príncpe Michkin “Ele sonhou com a fase em que se anunciavam os ataques epilépticos quando estes o surpreendiam em estado de vigília. Em plena crise de angústia, embrutecimento e opressão, parecia-lhe de repente que seu cérebro se agitava e que suas forças vitais tomavam um prodigioso impulso. Nesses instantes rápidos como um relâmpago, o sentimento da vida e da consciência se decuplicavam nele. Seu espírito e seu coração se iluminavam com uma claridade intensa; todas as suas emoções, todas as suas dúvidas, todas as suas preocupações se acalmavam ao mesmo tempo para se converterem numa serenidade soberana, feita de alegria luminosa, de harmonia e de esperança, em favor da qual sua razão se elevava à compreensão das causas finais. (…) Estes instantes, para defini-los numa palavra, se caracterizavam por uma fulguração da consciência e por uma suprema exaltação da emotividade subjetiva. Se nesse segundo, isto é, no último período de consciência antes do acesso, ele tivesse tempo de dizer a si mesmo clara e deliberadamente: ‘Sim, por este momento dar-se-ia toda uma vida’, é porque, para ele, este momento valeria de fato toda uma vida”.
Instantes de plenitude”. O mal sagrado de Dostoiévski
A obra do escritor russo é repleta de detalhes que revelam a doença de que ele sofria: a epilepsia. Seus personagens apresentam sintomas como a “aura extática” (sensação de tocar o absoluto), e preocupação intensa com a moral, Deus e o destino.
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Outro personagem notável, Kirilov, o ateu místico e suicida de Os demônios:

Outro personagem notável, Kirilov, o ateu místico e suicida de Os demônios, faz a seguinte revelação: “Há instantes, duram cinco ou sei segundos, em que sentimos de repente a presença da harmonia eterna, nós a atingimos. Não é uma coisa terrestre: não quero dizer que seja celeste, mas que o homem em seu aspecto terrestre é incapaz de suportar. Ele precisa se transformar fisicamente ou morrer. É um sentimento claro, indiscutível, absoluto. Abarcamos de repente a natureza inteira e dizemos: ‘Sim, é exatamente isso, é verdade’. Não é enternecimento… é outra coisa, é alegria. (…) Não é nem mesmo amor; oh! é superior ao amor. O mais fantástico é que é assustadoramente claro. E vem uma alegria tão imensa junto! Se ela durasse mais de cinco segundos, a alma não suportaria e talvez desaparecesse. Nesses cinco segundos eu vivo toda uma vida e por eles daria toda a minha vida, pois eles valem isso. Um pouco embaraçado, seu interlocutor pergunta: ‘Você não é epiléptico?’. Kirilov responde que não, mas o outro o previne: ‘Pois vai ser. Cuidado, Kirilov, ouvi dizer que era precisamente assim que começava a epilepsia. Um epiléptico descreveu-me em detalhes as sensações que precediam suas crises: era exatamente o seu estado; ele também falava de cinco segundos e dizia que era impossível suportar aquilo por mais tempo. (…) Cuidado com a epilepsia, Kirilov’ ” O mal sagrado de Dostoiévski

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Patologia e poder criativo

“Henri Gastaut, pioneiro na epileptologia francesa, era muito cético sobre a existência das auras extáticas. Ele dizia até que os médicos eram, na verdade, ludibriados pelas descrições totalmente ficcionais de Dostoiévski e que elas desde então faziam parte do folclore médico sem que ninguém tivesse pensado em questioná-las. Por outro lado, Dostoiévski era muito consciente da origem talvez mórbida de suas idéias. Eis o que ele fez o príncipe Míchkin dizer sobre o assunto: “Que importa que meu estado seja mórbido? Que importa que essa exaltação seja um fenômeno anormal, se o instante em que ela nasce, evocado e analisado por mim depois que retomo a saúde, se assevera como de uma harmonia e de uma beleza superiores, e se este instante me toma, num grau inaudito, inesperado, um sentimento de plenitude, de moderação, de apaziguamento e de fusão, num impulso de prece, com a mais alta síntese da vida?”.O mal sagrado de Dostoiévski

Um texto de psiquiatra que discute questão patológica:

Príncipe Liev Nikoláievitch Míchkin (“O Idiota”, Fiódor Dostoevsky) e a síndrome de personalidade interictal na epilepsia do lobo temporal

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links

ARTES EM REVISTA
um panorama do que acontece em teatro, cinema, música, literatura e artes visuais

O mal sagrado de Dostoiévski

Arquivos de Neuro-Psiquiatria

Pra ler
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MENDELSSOHN, OP.68.

Não encontrei nem no Youtube e nem no Grooveshark


“A beleza não é só uma coisa terrível, é também misteriosa. Aí lutam Deus e o diabo, mas o campo de batalha é o coração dos homens”. Mítia, em os Irmãos Karamázov.

03/11/2012

Aglaia Ivánovna, Ilustração de Oswaldo Goeldi para O Idiota de Dostoiévski

Vi esta ilustração, em tamanho bem menor, na edição de José Olympio. Isso no início da década de 70, 1972 talvez. Visão que me acompanha como se tivesse visto um ser verdadeiro. E acho que quando Heidegger fala em um ser poético, das artes, está falando nisso. Uma garatuja ser tão real. E modelo de beleza.
E depois, faz por volta de vinte anos, conheci uma moça que, se soubesse desenhar,eu desenharia algo parecido. Recentemente a vi, esta, e vinte anos depois, vi a beleza que Oswaldo Goeldi transmitiu. 40 anos fiel a uma garatuja, 20 anos fiel a um olhar contaminado pela poesia dos traços de Oswaldo Goeldi.
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link

 

o1. Pinacoteca do Estado de São Paulo, Oswaldo Goeldi, acervo online
02. Goeldi na coleção da Pinacoteca de São Paulo
de 29.set a 24.fev 2013

03.Centro Virtual de Documentação e Referência : Oswaldo Goeldi
04. Site Oficial de Oswaldo Goeldi