1. Xilogravura joponesa: UKIYO-E…….. [primeira anotação]

19/07/2012

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Ukiyoe
O lugar respeitável do Ukiyoe na História da Arte (link 02: citações retiradas desse texto)

“Quando andamos por detrás do templo encontramos, perto de um lago, um monumento onde está inscrito este poema haiku:
Yase-kaeru
makeru-na, Issa
kore ni ari
Delgada rã,
não desistas!
Issa está aqui.

Kobayashi Issa,

um grande poeta do período Edo, era também um visitante do templo Gansho-in. Neste poema, a rã representa o seu filho doente, e a quem apela para que não desista de lutar para viver.”

Ukiyoe,

gravura japonesa em blocos de  madeira, é desenvolvida na era Edo (1603-1867)”…”

“Este foi um tempo em que a expressão “ arte pela arte” teve pouco significado no  Japão.”

” A palavra ukiyoe é escrita em três  caracteres: 浮(flutuante), 世(mundo) e 絵 (imagens). A palavra tornou-se comum na primeira metade do período Edo. Se bem que ukiyo é frequentemente traduzido  como “mundo flutuante”, o significado  aproxima-se mais de “o mundo num  instante de tempo”. E de facto as imagens  descreviam aquele tempo.”

Hishikawa Moronobu

Mikaeri Bijin-zu (“Mulher bonita olhando para trás”), de Hishikawa Moronobu
Moronobu enraizou a impressão xilográfica e também desenhou muitos nikuhitsu ukiyoe (pinturas à mão de estilo
ukiyoe) como esta. Um exemplo de uma grande obra de arte. (Tokyo National Musuem; Imagem: TNM Image
Archives)

(1618-1694) e  os seus seguidores foram pioneiros do  género e parte das suas obras de arte retrataram mulheres que não pertencendo à alta sociedade eram bonitas”

“O poder do ukiyoe nas correntes artísticas A Exposição Internacional de Paris de 1867, que teve lugar no último ano do período Edo, foi a primeira feira mundial em que o Japão participou. As exibições japonesas incluíram ukioyoe (gravuras com relevo,ilustrações e livros sobre arte). Tal permitiu que os Europeus pudessem ter contacto com as gravuras japonesas em blocos de madeira o que influenciou alguns movimentos artísticos no Ocidente que surgiram depois.”

“Por volta da mesma altura, os impressionistas e os que lhes seguiram os passos começaram a desafiar as ideias artísticas veiculadas pela Académie des beaux-arts. Sob a influência das gravuras japonesas, reproduziram em alguns dos seus trabalhos o estilo de composição do ukiyoe, as cores vivas e traços simples e soltos. Degas, Monet, Van Gogh e Gauguin foram alguns dos artistas que por vezes mostraram afinidade com os antigos mestres de xilogravura no Japão. O exemplo mais óbvio é Van Gogh, que usou tintas de óleo para copiar algumas das gravuras de Hiroshige.Van Gogh era um coleccionador de ukiyoe e, para ele, a ausência de sombras e o carácter bidimensional das imagens de múltiplas cores da xilogravura deu-lhe uma clareza nítida. Tudo indica que de forma equivocada assumiu que tal facto se devia à forte e brilhante luz no Japão, o que o levou a dar importância ao Sul da França acreditando que ali as condições em termos de luz eram semelhantes”.

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Bijin-ga: gravuras de beldades femininas

“As gravuras Bijin-ga datam dos primeiros tempos do ukiyoe. Muitas dessas beldades femininas tinham um alto nível cultural e eram entendidas na arte de entreter os homens com canções, dança ou música”.

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Yakusha-e e sumo-e: gravuras de actores de kabuki e lutadores de sumo”

“Na era Genroku (1680-1704) as duas grandes cidades japonesas Edo e Osaka experimentaram um rápido crescimento tornando disponível uma ampla oferta deentretenimento popular. O teatro Kabuki foi talvez o mais popular tendo os actores uma sólida e fiel legião de fãs. As gravuras dos actores de kabuki vendiam-se rapidamente assim que saíam dos blocos de tinta”.

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 Katsushika Hokusai (1760-1849) e Utagawa Hiroshige (1797-1858)

“A história de contrastes entre dois grandes artistas As gravuras japonesas de madeira Ukiyoe
costumavam representar mulheres bonitas e actores do teatro kabuki. Mas, dois grandes mestres que mostravam, ao mesmo tempo, grande vigor , Katsushika Hokusai (1760-1849) e Utagawa Hiroshige (1797-1858), competiam entre si pintando paisagens famosas e criaram um novo género no ukiyoe chamado meisho-e. Actualmente, muitas dessas gravuras de paisagens aparecem nos guias de turismo e em postais e são apreciadas em todo o mundo enquanto obras de arte paisagistas”.

walter-benjamin-desenho.

“Dois génios: Hokusai e Hiroshige As peças de arte feitas por Hokusai têm uma energia impressionante. São trabalhos ousados e que transmitem uma sensação revigorante.Geralmente associamos o ukiyoe ao nome de artistas como Hokusai e Hiroshige, apesar dos artistas serem apenas uma parte do processo de produção. Uma gravura era o resultado da colaboração entre o artista (e-shi), o editor/distribuidor (han-moto), xilógrafos (hori-shi),gravadores (suri-shi). O princípio orientador por detrás da produção era: “Vender-se-á?”(ver link 03, Walter Benjamin)”
“Vender não era um problema se o tema fosse popular, tal como um actor famoso de kabuki, ou um local com uma paisagem bem conhecida, mas só se o editor estivesse seguro é que daria a luz verde”.

“Hoje em dia, os ukiyoe são emoldurados e expostos em galerias de arte, na qualidade de arte, mas, no período de Edo (1603-1867), eram produzidos em massa, como bens de consumo, algo parecido às estrelas de filmes que aparecem em posters ou guias turísticos para viajantes”.

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Hori-shi: Entalhadores

“Um cabelo de uma beldade, ornamentos de cabelos delicadamente gravados, um rosto cheio de ternura,
dedos expressando sentimentos…Entalhadores peritos fizeram sobressair tudo isto e muito mais ao
transferirem as linhas dos artistas para a madeira”.

“Para uma imagem de uma beldade, os  olhos tinham de traduzir uma disposição, o  cabelo uma impressão de detalhe e  exactidão – só um entalhador com muitos  anos de experiência é que poderia aceitar  este trabalho”.

” Mais delicado que fios de cabelo verdadeiros – Kewari – Conte-os – três fios de cabelo embutidos num espaço com apenas 1mm de largura. Só uma mão de
especialista poderia fazê-lo”.

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 Bokashi

Quando a gravura é humedecida com água, os
pigmentos misturam-se, criando, no céu, gradientes de cor e sombras. Esta técnica requer um gravador perito.

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Kira-zuri:

Brilho de fundo de um mineral – Kira-zuri – A beleza sobressai de um fundo tratado com pó ‘mica’. Este pó

dá um lustre tipo-pérola e acentua o seu charme.

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Impressões Suri-shi:

Uma cor é aplicada após a outra, criando tonalidades claras e escuras, todas à procura da perfeição,
nascidas das mãos do gravador.

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Ichikawa Kamejiro:

Texto de Uchiyama Ikue
“Nascido entre o famoso grupo de actores de Kabuki – Omodakaya, Ichikawa Kamejiro dá continuidade às mais excitantes tradições clássicas teatrais. Talvez mais do que qualquer um outro actor jovem de hoje, alcançou a fama e uma excepcional capacidade em palco. No mundo do Kabuki, onde a norma é seguir a tradição, ele é um inovador, um pioneiro tomando desafios que nenhum outro actor de Kabuki alguma vez antes havia tentado. Organizou um grupo chamado Ichikawa Kamejiro no Kai, para experimentar estilos de actuação diferentes e mais audazes. Representa em “dramas de samurais” na TV, tem um vivo interesse pela leitura, e talvez mais do que qualquer um outro actor de Kabuki, apresenta as suas teorias abertamente sobre diversos tópicos. Apareceu em concursos de TV, e participou em conversas editadas com filósofos. Quando em público, demonstra inteligência e um pensamento rápido. Mas existe um outro lado dele – é um coleccionador ávido de gravuras de ukiyoe, detentor de cerca de 2.000. Desempenhou mesmo a função de comentador e guia de uma exposição em 2008 no Museu de Edo-Tokyo, chamada Tesouros Gravados”

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Utagawa Kunisada 

O seu artista favorito, hoje, é Utagawa Kunisada (também conhecido como ‘o
Terceiro Utagawa Toyokuni’). “A composição das suas imagens equipara-se às melhores. Os actores de Kabuki retratados ganham vida no papel – pode-se sentir a energia que devem ter apresentado no palco.”Kamejiro está certo. As imagens de Kunisada são incrivelmente expressivas, e os actores parecem estar prestes a saltar do papel. Na altura de Kunisada, perto do final do período Edo, o Kabuki alcançou a sua idade de ouro e muitos dos seus actores eram artista formidáveis.”

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 Katsushika Hokusai  (1760-1849)

 

“Um certo mistério envolve a personagem de Katsushika Hokusai  (1760-1849), talvez,o artista japonês de ukiyoe mais famoso. Chamava-se a si próprio o “artista louco” e teve constantemente o desejo de mudar o seu estilo artístico”.

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outros artistas:

Kitagawa Utamaro

[“Go-nin Bijin Aikyo Kurabe: Yatsuyama Hiranoya (“Comparação dos atributos de
cinco beldades: Hiranoya em Yatsuyama”) de Kitagawa Utamaro
Esta beldade foi “poster feminino” de uma casa de chá com o nome de Hiranoya. O artista ganhou fama pelo seu okubi-e (retrata a cabeça e ombros), o que permite observar de perto a face e o pescoço. (Ukiyo-e Ota Memorial
Museum of Art)]. Não foi possível encontrar esta imagem no Google. Coloca aqui uma que permite possível comparação.

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Katsushika Hokusai: ilustrações de livro

Esta ilustração não é comentada no artigo. Está aqui por eu ter imensa simpatia por livros ilustrados.

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 Utagawa Kuniyoshi: Ilustrações de livro

Uma cena da história que mais vendeu na altura, Chinsetsu Yumihari-zuki (“Contos Estranhos da Lua
Crescente”). A gravura mostra duendes tengu a salvar o herói, Tametomo. As três folhas foram gravadas em
separado, mas formam uma grande ilustração, chamada Sanuki no In Kenzoku wo shite Tametomo wo Sukuu no Zu
(“O Antigo Imperador Sanuki Envia os Seus Guardas para Salvar Tametomo”), de Utagawa Kuniyoshi. O peixemonstro e as ondas tempestuosas percorrem as três folhas num trabalho arrojado e bizarro onde apenas
poderia imaginar”

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Okumura Masanobo

“Okumura Masanobu foi o primeiro a trazer a perspectiva do Ocidente para o ukiyoe.”

Diz o texto que a  “gravura, Shibai Butai Suehiro Soga, consegue criar uma sensação de profundidade”, gravura essa que não consegui encontrar.

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Utagawa Kunioshi

É único momento do texto onde cita cenas de sexo. Assim mesmo dizendo que é uma brincadeira do artista. Quando quase tos os xilogravuristas japoneses tem cenas eróticas / pornográficas/amorosas. Novamente nos deparamos com um texto, acadêmico e para não fugir da regra, pudico.  É bem nojento falar em cenas cotidianas e esquecer a mais cotidianas das cenas. E as xilogravuras japonesas está repleta destas cenas. Como as xilogravuras eram para venda em massa,  seria bem importante saber se as xilos pornográficas vendiam bem, como o texto registra que vendiam as de atores do Kabuki e de lutadores de sumô. Assim como registra que uma das mais vendidas era de uma ilustrando um livro de aventura.

Mas o próximo post será dedicado às xilogravuras eróticas destes artistas.

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links

01. Shunga Trio
02. Ukiyoe – O lugar respeitável do Ukiyoe na História da Arte

03. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica Texto de Walter Benjamin publicado em 1955.

0 4. This artwork depicts the scenes of the famous novel titled“Chinsetsu Yumihariduki” (published beteeen 1847 and 1852) This novel was written by Takizawa Bakin (1767-1848) and illustrated by Katsushika Hokusai (1760-1849), published in 31 volumes in five sets between 1807-1811

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slideshow das ilustrações:

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galeria das ilustrações


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Posts sobre xilogravura

 
0. Xilogravura. Primeiro contato.

2. Xilogravuras japonesas eróticas: SHUNGA. Utamaro Kitagawa

3. Xilogravura japonesa [Ukiyo-e] erótica [shunga]: Katsuhika Hokusai

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GIACOMETTI por SARTRE

08/06/2012

Capa do livro Alberto Giacometti, textos de Jean-Paul Sartre, Ed. Martins Fontes.

foto da contracapa do livro Alberto Giacometti textos de Jean-Paul Sartre, ed. Martins fontes, 2012
“Não é preciso olhar por muito tempo o rosto antediluviano de Giacometti paa adivinhar seu orgulho e sua vontade de se situar no começo do mundo”. Sartre, A busca do Absoluto.

ALBERTO GIACOMETTI textos de JEAN-PAUL SARTRE

biblioteca Mário 000.005

Li o livro duas vezes. E aqui vou fazer uma leitura dos fragmentos. Como diz a introdção de Célia Euvaldo: “alguns dos mais belos textos sobre arte moderna foram escritos sobre a obra de Alberto Giacometti…, entre os quais os dois ensaios de Jean-Paul Sartre aqui apresentados”. p.7. Estou apostando em o “Ateliê de Giacometti”, de Jean Genet. É uma loa rasgada a Giacometti. Além de um prosa, quase “prosa porosa”, há várias referências filosóficas, de Hegel, Kant. E achei identificar várias referências, sem citação, de Nietzsche. ………………………………………………………………………………………………………………………………………………………….

SARTRE: AS PALAVRAS E O PERSONAGEM MARCEL

Da introdução de Célia Euvaldo.
É só clicar sobre as fotos para vê-las em tamanho maior e legíveis.

As-Palavras-Jean-Paul-Sartre, fonte google.
É a capa do meu exemplar. Ao contrário de amigos jovens, adoro capas de discos, de livros. Morrerei com meus discos e livros. Com toda esta inutilidade que acumulo.

Durante a década de 70 e 80 li e reli este texto que achava a maravilha de Sartre e a o estado de arte da autobiografia. Além de me ver no texto por ter também uma mãe bonita e assediada sexualmente. E um livro com frases maravilhosas como “não tive pai, não tive superego”. Faço estas referências usando minhas curta e traiçoeira memória. Não consegui achar o livro na minha abarrotada, desorganizada, empoeirada e cheia da livros B dos sebos, estante. Personagem é invenção. Sartre mesmo mostra que a obra de Giacometti é pura invenção da imaginação. No entanto a personagem Marcel de As Palavras vai causar tal ruptura entre Sartre e Giacometti. Incomoda e atrai esta fúria entre criadores. E o efeito que pode causar uma personagem de ficcção. Me lembro sempre que Jean-Claude Bernadett dedicou um livro de crítica de cinema a Antônio das Mortes, de Glauber Rocha. Dizem que é o único livro dedicado a uma personagem. …………………………………………………………………………………………………………………………………………..

página 13.

O ROSTO DE GIACOMETTI

“Só não julga pela aparência quem não sabe julgar”. É uma frase que vem, dizem, com a chancela de Oscar Wilde. Na extrema juventude da natureza e do homem não existe o belo e feio. Dezenas de estudantes de arte da Unicamp foram a uma assembléia de funcionários da Unicamp dizer que os atos públicos eram barulhentos e feios. Alguns deles vestiam camisetas com a estampa FEIA, do Festival do Instituto de Arte/Unicamp. Nem se deram conta.

fonte: Giacometti, Cosacnaify

pág. 16

Devemos cair no abismo de olhos abertos, foi assim que li Nietzsche. Onde? Tem uma amiga universitária que sempre quer saber onde li as coisas. Mas não leio para citar nem para guardar, mas para viver. Todo escrito só vale a pena se for escrito com sangue. Deve ser de Nietzsche também. ……………………………………………………………………………………………………………………………………….

pág. 17.

Capa do livro de Marcelino Freire, BaléRalé, Ateliê Editorial.
A referência da orelha do livro é: Os homens de Weerding, são chamados de “o casal gay mais antigo da Holanda”. Acerv Drents Museum

Fotomontagem: capa do livro BaléRalé e foto do livro Giacometti, da Cosacnaify.

ATAQUE AO INDIVIDUALISMO, APOLOGIA AO ASCETICISMO, em Sartre

Sartre discute se é uma visão de campos de concentração. Via Giacometti como um detrator do homem. Ainda vejo quando não vejo erotismo nem sexualidade. Sartre escreve também sobre Giacometti e as mulheres inatingíveis. Por acaso peguei no meu amontado de livro o BléRalé, de Marcelino Freire, ed. AE; e não canso de olhar para as duas múmias que não são nada mais que um objeto, sem arte, sem artista. Mas o homem abstrato, geral, também está ali. Mas me preocupa da redução de Sartre faz da arte apenas como representação deste homem geral, como um contraponto, ou mesmo ataque indiscriminado ao individualismo. E pode ir fácil ao ataque á própria arte que depende da liberdade individual ampla e irrestrita. Neste post cito um texto seu de 1948, mesmo ano do texto principal do livro em foco, que ataca o sonho, em arte, como traição do proletariado. Nietzsche foi o único filósofo que tinha pinto e nariz. Parece que as esculturas de Rodin e Degas tem sexo e dançam.Só acreditaria num deus se ele dançasse. Há também as eculturas e máscaras africanas, onde há o homem e não a figura do chefe (há algumas). Mas em geral são esculturas que traduzem uma visão do homem diante do mundo, dos ancestrais e dos deuses. Com grande valor estético e humano. Mas, parece-me, não invalidam as buscas “individualistas” da arte moderna e contemporânea.

Há bastração, deformações, alongamentos, desproporções, tudo em em busca de uma expressão, na arte africana. Mas suas máscaras alongadas e deformadas também são feitas para a dança. Suas deformações são para defender a vida contra a doença e a morte numa luta contra os próprios espíritos ancestrais. Ou há as esculturas de sexo com animais na Grécia que narram aquele homem e o homem de hoje com seu amor profundo pelos animais. E toda arte erótica de Picasso. Há o humano dilacerado que tomou a arte do século XX, mas não acho que é a única possibilidade do homem. Entre a vida e o abismo da morte , da violência e de Deus, há ainda a vida.

Há em Sartre uma apologia ao asceticismo da vida de Giacometti, asceticismo que teria invadido sua arte.

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REFLEXÕES SOBRE A ARTE AFRICANA

Sartre, Reflexões sobre o racismo, capa, Difusão Europeia do Livro.
“Se o proletariado branco raramente usa a linguagem poética para flar de seus sofrimentos…Ao mesmo tempo, a fase atual de seu combate exige, de sua parte, uma ação contínua e positiva: cálculo político, previsões exatas, disciplina, organização de massas; o sonho, no caso, seria traição.”. p. 92. “Entretanto se tais poemas nos dão vergonha…Aos negros é que estes negros se dirigem…porque é necessariamente através de uma experiência poética que o negro, na situação presente, deve primeiro tomar consciência de si mesmo…”p.91-92

Curiosamente, Sartre não aborda a questão das esculturas e máscaras africanas, também da oceania, que foram influências dominantes em Alberto Giacometti. Tem até uma fase chamada africana. Sartre escreveu um texto, Orfeu Negro, em 1948. Está então atento à questão da arte africana. Além do mais Picasso, Blaque, Brancusi e uma gama imensa de artistas vão ser influenciados por ela num período longo que vai do início do século até 1930. E Giacometti será, inclusive, tardiamente influenciado, lá pelo anos de 1927. Influência que permaneceu até o fim da vida. E parece-me que Giacometti foi amigo de Marcel Griaule, grande estudioso da civilização Dogon, de Mali, que em 1947 publicou livro fundamental sobre esta civilização, “Dieu d’eau”, primeira edição de 1947. E para ainda falar das esculturas e máscaras africanas, cito Roger Bastide que devo reler, já que foi de grande impacto, para mim, na década de 70. E parece que vai ser agora, quando relido. “Mas é preciso mostrar ianda que esses cultos não são um tecido de supertiçoes, que, pelo contrário, subtendem um cosmologia, uma psicologia e uma deodicéia; enfim, que o pensamento africano é um pensamento culto”. Pg. 24, Roger Bastide, O candomblé da Bahia, Cia. Das Letras,2001. Este texto, escrito em 1948, é aqui citado pelo motivo de Sartre deixar de lado a questão da fase (melhor ainda, permanência) africana em Giacometti. Cito também por ser de 1948, pois o texto principal de “Alberto Giacometti, textos de Jean-Paul Sartre, Ed. Martins Fontes, traz, “A Busca do Absoluto”, datado de 1948. E, relendo este “Orfeu Negro”, também de 1948 que tanto amei, reli e conversei sobre, chego até horror a certas passagens. Que o proletariado deve ser técnico e não pode ter sonhos e se os tivesse seria traição. Ou que a poesia negra, em língua francesa, seria a única arte revolucionária naquele momento. Absolve certa poesia de má qualidade em nome de uma ideologia e condena o proletariado a aridez totalitária

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O conceito de aparência é fundamental na discussão de arte de Nietzsche, assim como na sua filosofia que, jamais, é desassociada da arte. Pelo menos de ouvir falar, esta questão da aparência e da essência é uma discussão do existencialismo. E nesta citação há acordo com Nietzsche: a aparência é fundamental. …………………………………………………………………………………………………………………………………………….

“Alberto Giacometti”, textos de Sartre.
Impõe-se mais uma citação para remeter à arte africana. Esta cabeça distante e corpo próximo vai lembrar as bonecas da civilização Dogon.

Boneca DOGON, Mali.

FASE AFRICANA DE GIACOMETTI

A influência da arte africana em Giacometti eu pretendo fazer um post inteiro sobre a questão. Aqui apenas para ilustrar que Sartre deixou de abordar a questão em conceitos que, parece-me, estão presentes, ou mesmo são oriundos das civilizações africanas. ……………………………………………………………………………………………………………………………………………….

Desenho de Sartre, ilustração do livro.

Sartre, por Giacometti, ilustração do livro “Alberto Giacometti”, textos de Jean-Paul Sartre.

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Foto do caríssimo livro/catálogo da exposição. “Giacometti”, ed. Cosac & Naify

EXPOSIÇÃO NA PINACOTECA DO ESTADO DE SÃO PAULO.

Alberto Giacometti, homem caminhando, Gogole

Em Sartre, a palavra mais emblemática do seu texto, falando de Giacometti, é DESOLAÇÃO. Por dois dias, em longas horas na Pinacoteca, anotando todas as obras ali expostas, e sem ter lido os textos de Sartre, a palavra que mais usei foi DESOLAÇÃO. E foi a palavra para todas as pinturas. Mas aqui comecei a falar em destruição e morte. Chamou minha atenção que, Sartre, de passagem fala que a obra de Giacometti não se confunde com visões de campo de concentração. Mas seus dois textos, de 1948 e o outro, sobre a pintura, de 1954, não tem qualquer referência à segunda guerra e nem à primeira. Sartre não aborda e nem nega esta influência.

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O Ateliê de Giacometti, de Jean Genet, contracapa. Ed. Cosac & Naify

JEAN GENET, O Ateliê de Giacometti

Comecei a ler o texto de Jean Genet e parei no primeiro parágrafo, para poder terminar este aqui. A palavra chave de Jean Genet é morte.