NAUSEABUNDO, Por Newton Peron (Newtinho)

30/06/2012

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Era indecente, era um insulto, era nojento. Como aquele olho cheio de remela ousava fitá-la? Um sorriso amarelo, com dentes escuros e hálito fétido de fumante titubeava, querendo se estampar na cara. A barba era meio cinza, tinha já mais de uma semana e envolvia todo o pescoço. Era um escândalo. Uma mancha branca escorrida no colarinho, talvez pasta de dente seca. Ao longo da camisa amarrotada, manchas de café, botão pendurado. A bermuda, surrada e furada, tinha cor de velha. As canelas sujas pareciam limpas perto do pé imundo sobre havaianas. Pé rachado, pé barroso, pé-escroto.

Uma estátua de remela, suor e baba; um bicho asqueroso, um verme, ousava fita-la! Ânsia, náusea. A imponência dela, o salto de agulha furante, o vestido vermelho e o corpo de deusa pareciam pouco para esmagar aquele inseto. Onde estava seu namorado, com músculos de caminhonete? Onde estavam suas amigas, com seus comentários víboros? Teria ela sozinha que matar aquele rato?

Odiava o namorado, que não pôde ficar com ela na fila, abandonando-a no meio daquela gentalha. Odiava as amigas, odiava seus pais, sua gente. Odiava o mormaço do verão de seu país. Odiava sobretudo aquela criatura repugnante, fedida e podre. Um ligeira.

Ele era indecente, como arrotar num restaurante caro. Era um insulto, como cagar na sua frente. Era nojento, como achar uma barata no meio da comida.

Olhou-o novamente. E os olhos remelentos fixaram-se na bunda da mulher na frente da fila. Ele era realmente indecente, era um insulto, era nojento.

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Quem é Newtinho

Foi Editor do Antigo Jornal do Porão quando este foi perseguido pela direção do Arquivo Edgard Leuenroth e pelo Direção do Instituto de Filosofia e Ciências Humans, substituindo o editor perseguido Mário Martins de Lima. Newtinho coragem e solidariedade. Foi um dos idealizadores deste Blog e uma espécie de consultor técnico. É um dos editores do “Transe”, jornal que circula, em papel, por anos no IFCH. O fato de “Transe” ser relativamente ignorado no IFCH demonstra o baixo padrão das preocupações literárias no INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS. Newtinho é também um dos promotores do grupo “Corujão”, uma escola livre de filosofia e que é também um cineclube atuante. E como acadêmico, é doutorando em lógica (Lógica Paraconsistente – ou coisa assim).

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UMA SEGUNDA MORTE PARA CLÓVIS GARCIA

29/06/2012

Uma estória do Café das Cinco. Para o Mário Martins.

Clóvis Garcia morreu vítima de um erro médico, que não diagnosticou uma apendicite, confundindo-a com excesso de gases no intestino. Supurada, o matou. Uma morte ridícula, todos concordaram, para alguém como ele. Uma morte ridícula, com um homem ridículo, estendido numa cama de hospital público, na área reservada à caridade aos pobres, ladeado por cortinas de banheiro e outros moribundos, com uma amante envelhecida aos pés de sua cama, chamada às pressas por aquele homem, agora tão comum e mortal, implorando perdão, juras e amor eterno. Um homem, uma cena, um quarto: fotografia amarelada pelo tempo, queimando e incensando a memória.

Quando, por fim, o lençol azul e manchado lhe cobriu a face inerte, Clóvis Garcia deixou, oficialmente, de existir. E, protocolarmente, com ele, toda a falta de potência de ser que os últimos anos acompanharam, colados à pele como uma armadura de ferro. Os anos foram implacáveis com Clóvis Garcia, e ele se deixou abater, não fazendo jus à personagem que construiu sem muitos dedos ou cuidados. Um herói é um arquiteto e o único responsável pelo edifício de símbolos e desejos que ergue em torno de si.

No fundo, apesar de mito coletivo, um herói é solitário.

E agora, Clóvis Garcia? Agora que você é isto: um pesado corpo de 120 quilos, um aglomerado de carne, sebo e sangue que, dentro em breve, irá se enrijecer e feder. E que uma infecção generalizada continua a lhe comer as entranhas, as forças que lhe vinham das entranhas, enquanto esta pele ainda tem algum calor e suor para perder? E o médico, Clóvis? Sorrindo amarelo para mim, explicando sem explicar o erro. Sem processo, ele pede. Em outros tempos, você o mataria, o esganaria milhares de vezes, sem suar. E agora, Clóvis, que sua velha amante recheada de perfume barato e dançando na calcinha larga e suja com a qual eu a encontrei e com a qual mal se vestiu e veio rapidamente te visitar, depois de todos estes anos? E agora, que ela molha a minha camisa com estas lágrimas que, tenha cá para nós, são falsas; molha e mancha não somente as minhas roupas, mas a sua memória. Clóvis Garcia, enquanto ela chora por você, alisa o meu pescoço, roça suas coxas nas minhas. Enquanto vêm os homens do necrotério, eu a levo para casa e você bem sabe o que irei fazer para consolá-la, Clóvis. Nos áureos tempos, você faria o mesmo.

Agora, Clóvis Garcia, você repousa debaixo de sete palmos de terra, ridículos e comuns, com suas pernas quebradas por nós, pois seu corpo não cabia neste caixão barato. E dentro em breve, seu corpo começará a inchar, suas extremidades crescerão e serão comidas por vermes, bem como seus olhos. Esta roupa que os amigos fizeram uma vaquinha para comprar no brechó, se deteriorará. E a pressão da terra sobre a madeira de terceira quebrará o caixão. Os vermes que entrarão comerão as carnes, dançarão nas órbitas vazias. E quando não for mais que ossos, cabelos e mau cheiro, virão os coveiros, comandados pela Administração do Cemitério Municipal, para lhe exumar o corpo, quebrar-lhe os ossos restantes e colocá-lo numa parede, com um número qualquer, dentro de uma caixa, ladeado por milhares de outros. Você ocupa muito espaço, Clóvis, no maior cemitério da América Latina.

E, daqui alguns anos, quando for a minha vez de morrer, ninguém mais se lembrará de você. Os poucos presentes no enterro comentarão a indignidade de você não ter sido cremado, Clóvis. Mas o fato é que você estava ali para ser degustado, não é?

Nem lhe depositarão flores, nem lhe acenderão velas, nem lhe cantarão os feitos, nem lhe suspirarão de amores, nem lhe repetirão o nome. Mas há muitos anos que não lhe fazem nada disso, Clóvis. Você sabe: a história oficial que hoje o Sindicato escreve não tem seu nome em lugar algum. As greves que ajudou a garantir, à base de balas e falas de seus revólveres, dizem agora que foram feitas à uma mesa de negociação. Negociação, você, Clóvis? E o dinheiro? E o dinheiro, Clóvis? Aquele dinheiro que você e outros roubavam e que eu calei, com quem estará, Clóvis? Com quem estará? Você dizia, rindo muito: Tenho fé no materialismo. Hoje e sempre. E sou herói.

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E as mulheres, Clóvis, onde andarão? Quantas vezes as levamos para a cama, para o chão, para o mato, para
detrás das estantes, para atrás dos carros de som, para quartos de limpezas e outros lugares mais, depois de nossos discursos, de nossas ações extraordinárias? Todas queriam dormir com o herói. E ele era você, Clóvis. Nós só pegávamos carona na sua fama. Hoje, elas querem dormir com o futuro, de preferência sem aventuras e com conforto. Protocolo sexual burocrático. Com a aposentadoria segura, com os filhos, com a casa e os carros e as poupanças. Com os nossos inimigos.

Clóvis, quantos você salvou naquela manifestação em 77? Lembra? Quando os seus lendários 38 canos longos, escondidos no jaquetão, deram tiros para o alto, para frente, para os lados, para trás? Quando você gritou: Chega de ser isca de polícia! Quando você, entrevistado pelos grandes jornais do Brasil, sentenciou: Se for para morrer, que se dane. Que venham. O proletariado já morre de fome. Agora tem de morrer de pé. E chumbo grosso. Você e sua jaqueta, Clóvis. Você e os livros de Mao Tsé nos bolsos internos. E, as balas, nos externos. Você e o seu cabelo, contra o vento. Você e o seu jeans apertado. Você e o seu sexo latejante. Você e o seu peito aberto, corpo fechado, filho de Xangô. Você sua voz, trovão em cima do caminhão. Você era o máximo, Clóvis.

E, agora, é isto.

Clóvis, eu poderia inventar uma estória mais feliz, mais a contento, para que os rostos que me ouvem no Café das Cinco se iluminem e se iludam. Os garotos do Café das Cinco se lembrariam de você, então, Clóvis. Mas, não. Você não fez por merecer. Os meninos do Café são bons. Mas eles não se lembrarão de você. Os heróis, Clóvis Garcia, devem, têm a obrigação de morrer cedo, jovens, de uma morte fatídica, trágica, súbita, de agonia rápida. Têm de morrer em batalha, epopéia a ser cantada, com sangue, muito sangue, embebidos em sangue. Era assim que tinha de ser com você, Clóvis Garcia. Você morrendo, trocando balas com a polícia política. Você morrendo em combate feroz, com algum adversário. Você caindo em agonia, numa tortura, sem dedurar ninguém, nenhum companheiro. Você sendo traído por alguma amante, arrastado para uma cilada. Você morto no campo de batalha, com o corpo desaparecido. Você num livro de memórias, num filme biográfico, numa canção nacional. Você…

Não isto. Não isto, Clóvis Garcia!

É engraçado – e curioso até – que eu, logo eu, aquele que o desprezava e, quem sabe?, o amei, que o tivesse como um ser abjeto e a quem devo a minha vida, por me ter salvo de um espancamento, à base de suas balas; que sabia de muitas das suas mutretas e seus roubos no Sindicato, mas que fechava com você – o que me fazia, claro, seu cúmplice – porque você era meu companheiro – o que não me fazia menos ladrão – ah, enfim, é engraçado, Clóvis, que seja eu, logo eu, a te contar aqui, agora, com estes olhos baços e desesperançados diante de mim, aqui, agora, para os meninos do Café das Cinco, Clóvis. Não tenho vocação para Esfinge, nem para Oráculo, nem para Pandora.

Você repousa numa sepultura. Você se livrou de toda a dor, do ridículo, do passado, do herói, da leveza e do peso de ser. Você é livre, Clóvis Garcia. Livre. Você é livre, livre, mas não de mim. Que estória eu devo contar a teu respeito? Que estória, Clóvis? A do ridículo? A do enfermo de apendicite mandado para casa com comprimidos para alívio de gases e dor de barriga? Ou a do herói?

Você é livre, é livre, mas não de mim.

Nem eu de você. É verdade. Eu quero o herói. E quem não quer? Clóvis Garcia, você não tinha o direito de se deixar acabar assim. De se deixar de ser, de se tornar um impotente ridículo, gordo, mal cheiroso, delicado e suplicante. Você não era só você. Não foi só você quem morreu, percebe? Foi um tempo inteiro. Clóvis Garcia, seria melhor que nem tivesse existido. E nem nós. Nem que nos tivéssemos conhecido. Não morreríamos de vergonha. Foi isso que o matou e será isso que nos levará junto com você, até o último de nós.

É compreensível que o Sindicato esconda o seu nome da História Oficial. Quem éramos nós perto de você, Clóvis? Seu nome ecoa, reboa, ressoa, enche a boca, preenche os espaços, emprenha ouvidos. Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia… Pode ouvir a multidão, a massa te gritando lá embaixo do caminhão? Menos que um poema, quase uma poesia: Clóvis Garcia, dizia uma de suas namoradas, estudante burguesa, com quem você gostava de desfilar como um troféu, apequenando, para nos deixar a ver navios. Você era o pirata, o bárbaro, você era livre. Livre, livre, mas não de mim. Nem eu de você, atado ao nosso passado, ao seu passado.

E agora, Clóvis Garcia?

Onde estão teus amigos? E as tuas amadas? E as tuas armas? Tudo desfeito, doado, vendido barato, penhorado, perdido ao longo dos anos, em tuas rondas noturnas e fantasmas matinais. Você é isto, agora, Clóvis, para alguns: menos que um fantasminha camarada, assombrado durante anos pela Era dos Resultados. Logo você, Clóvis. Quem diria? Logo você. Sindicato de Resultados, Futebol de Resultados, Relacionamento de Resultados, Sexo de Resultados, Partido de Resultados, Combate de Resultados… Não para você, não é, Clóvis? Força viva, pulsante. Não havia mais lugar para você. Nem mesmo dentro de você. Mas precisava se deixar matar assim?

Apendicite supurada. Gases. Erro médico. Não é morte de herói.

O jogo é jogado, parceirinho, você citaria João Antônio. É. Mas nunca é fair play.

Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia… Pode ouvir a multidão, a massa te gritando lá embaixo do caminhão? Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia……

Sigo, não sei se sorrindo, assobiando e contando você. E te conto tantas vezes que, chutando pedregulhos no caminho, sou até capaz de te esquecer. O sol esfria junto com o que me lembro de você.

Mário Augusto Medeiros da Silva






procerão, um conto de 1984.

23/06/2012

procerão

Procerão, 1

Procerão, 2

Procerão, 3

Procerão, 4

Procerão, 5

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Sonhava ser jogar de futebol, por mais que fosse um aplicado perna-de-pau e sabia disso. O sonho era um lenitivo para dormir. Um sonífero para esquecer. Um auto-engano para espantar a dureza do trabalho na roça e depois do colégio interno onde cheguei semi-analfabeto, tendo que estudar latim. Sempre lembro com pena e um certo regozijo do chute formidável que dei na gramática Ragon. Mas defendo que o latim volte às escolas secundárias .Cinco décadas depois, falar 50 anos parece que as coisa fica pior, sonho  dando grandes chutes, principalmente sonho acordado, apesar de chutar fraquinho fraquinho. E com as duas pernas como pelé. E fico rindo de tamnha asneira e durmo feliz. Assim sonho com pintura sem saber desenhar um patinhos, começando com um dois. Com desenho e arquiteturas. Fui construir um caminhão de madeira para meu filho e, ao final, consegui um trenzinho pintado de vermelho e verde. Pior, foi duro descartar dele depois. Fiz discursos revolucionários em meio a uma simples greve. E diante de qualquer criança pedindo esmolas, mesmo daquela criança que Pagú deu esmolas, em 1933, nas ruas de Moscou, em sonho com revoluções. E continuo brigando com Elis Regina e Belchior, pois acho sonhar melhor que viver. Claro que viver sonhando.

Em 1984 eu sonhava em ser escritor, mesmo notando que qualquer um que eu lia escrevia melhor que eu. Este conto, talvez foi a última tentativa, foi o marco da minha desistência. Nunca mais escrevi senão panfletos sindicais. E depois viciei-me em e-mails, fingindo que escrevo cartas, hoje um gosto solitário.  Ainda tenho a mesma covardia de 1984.  Mas não repudio esta pequena história.  Gosto dela, tanto que guardei. E aqui publico.

Tive a tentação de dedicar ao meu amigo Mário Augusto Medeiros da Silva,  xará e coloborador, esporádico, deste blog. Um vingança por ele ficar insistindo que eu devo escrever.

E escrevo isso, e leio sempre todas as coisas, ao som de alguma música exagerada, melhor, toda música é um exagero. Neste momento uma música árabe, dilacerada, com Yo-Yo-Ma . Que justifica qualquer desatino.  A maior das artes.  Que na minha república dos sonhos,  desafiando Platão, poetas, dramaturgos, humoritas, deviam ser seres privilegiados e protegidos, inatingíveis. E os músicos deveriam ser mesmo tratados com deuses, assim mesmo como  eram tratados os artistas de rock. Deuses  como eu acho que são Jimi Hendrix e Bach. E filósofos só seriam aceitos se frequentassem um baile funk e dançassem.

Como não danço, ninguém deve acreditar em nada que escrevo.


MUTAÇÃO, Newton Peron

21/06/2012

MUTAÇÃO

com 10 anos, imaginou ter seis dedos em cada mão. uma semana depois, sentiu um calombo embaixo de cada mindinho. o laudo médico afirmava tumor benigno. seis meses depois tinha doze dedos.

o médico recusou a amputação: veja, é um caso excepcional, não é de nascença, tem sensibilidade, movimento.

zombado na escola, o garoto perdeu interesse pelos dois dedos bônus. escureceu, secou, encolheu e caiu. cólera do médico, que não pôde acabar seu artigo revolucionário a tempo.

com 15 anos teve duas bocas. com 19, uma boca e quatro pulmões. com 27, dois pulmões e três corações. morreu com 45: os corações murcharam, tinha um olho nascendo na nuca e um pinto apodrecendo em cada coxa.


Câncer, de Newton Peron

04/06/2012

CÂNCER

acordou, abriu a janela, estufou o peito e desabafou:

– estou com câncer.

a mulher esbranquiçada balbuciou um o quê e um onde gaguejado.

– não sei, mas sinto que sim.

emputecida, virou de lado e dormiu.

não foi ao trabalho, preferiu o consutório. o clínico geral perguntou por dores, caroços, secreções.

– nada.

e acrescentava que queria exames. o médico dissimulou a irritação e receitou um analgésico. uma semana depois, voltou o paciente queixoso:

– não curou. sinto que não.

hipocondríaco. quis encaminhá-lo para um psiquiatra. o homem pedia obstinado pelos exames. não, meu senhor, é impossível fazer um exame se o senhor sequer suspeita onde é o câncer.

mais uma semana, calmantes. mais uma semana, prozac.

– ainda sinto que sim.

pediu furioso para o homem tirar a camisa. apalpou e mentiu ter encontrado um caroço, e que levaria para biópsia. arrancou com o bisturi aleatoriamente um pedaço de carne. resultado: câncer.

pesquisou outros casos e publicou um artigo, de como certos tipos de câncer poderiam originar do desejo do paciente. renomado internacionamente encontrou com o homem um ano depois. e o câncer?

– passou para a corrente sanguínea.

o médico respondeu que não teria duas semanas de vida. exatamente 14 dias depois o homem morreu. enforcou-se.


AMOR CRISTÃO, de Marcelino Freire

20/02/2011

Publicado, aqui neste jornaldoporao, em 20 de fevereiro de 2010. Neste um ano, é um texto sempre lido. E quando vou falar deste blog acabo recomendando sua leitura. Então aqui vai, republicado, AMOR CRISTÃO, de Marcelino Freire, neste 20 de fevereiro de 2011.

Amor é a mordida de um cachorro pitbull que levou a coxa da Laurinha e a bochecha do Felipe. Amor que não larga. Na raça. Amor que pesa uma tonelada. Amor que deixa. Como todo grande amor. A sua marca.

Amor é o tiro que deram no peito do filho da dona Madalena. E o peito do menino ficou parecendo uma flor. Até a polícia chegar e levar tudo embora. Demorou. Amor que mata. Amor que não tem pena.

Amor é você esconder a arma em um buquê de rosas. E oferecer ao primeiro que aparecer. De carro importado. De vidro fumê. Nada de beijo. Amor é dar um tiro no ente querido se ele tentar correr.

Amor é o bife acebolado que a minha mulher fez para aquele pentelho comer. Filhinho de papai. Lá no cativeiro. Por mim ele morria seco. Mas sabe como é. Coração de mãe não gosta de ver ninguém sofrer.

Amor é o que passa na televisão. Bomba no Iraque. Discussão de reconstrução. Pois é. Só o amor constrói. Edifícios. Condomínios fechados. E bancos. O amor invade. O amor é também o nosso plano de ocupação.

Amor que liberta. Meu irmão. Amor que sobe. Desce o morro. Amor que toma a praça. Amor que de repente nos assalta. Sem explicação. Amor salvador. Cristo mesmo quem nos ensinou. Se não houver sangue. Meu filho. Não é amor.

Do “Rasif – mar que arrebenta” (ed.Record, 2008)


ESTUDANTE DE MEDICINA, de Márcia Cecília

16/07/2010

ESTUDANTE DE MEDICINA

“Solidão é lava que cobre tudo
Amargura em minha boca,
sorri seus dentes de chumbo.
Solidão, palavra
Cavada no coração
Resignado e mudo
No compasso da desilusão.
Desilusão, desilusão
Danço eu, dança você
Na dança da solidão”
(Paulinho da Viola – Dança da Solidão).

Durante o intervalo de nove segundos que Paulo esperava o metrô, o estudante
de medicina analisa as situações diárias que observa dentro e fora do hospital. Com
vinte e sete anos, Paulo não enxerga mais expectativas. Depois que passou a ter contato
com os casos que lhe rodeia dez horas por dia nos plantões do hospital que completa sua
residência, a sensibilidade de Paulo aumentou para com o modo no qual as pessoas
conduziam suas vidas. Diariamente eram os mesmos sintomas: doenças respiratórias,
infartos, aneurismas, dentre outras enfermidades que eram padronizadas pelos pacientes
que circulavam pelo hospital. Algo havia de errado.
_ A senhora fuma?
_ Sim.
_ Humm. Quantos cigarros por dia?
_ Dois maços.
_ Não é muito?
_ Ah doutor, eu sou muito nervosa. Eu acordo às 5 da manhã, tomo o primeiro
ônibus lá perto de casa, o ônibus bufando de gente durante duas horas e quarenta e
cinco minutos pra atravessar até metade do caminho pro meu serviço. Depois, mais uma
hora de van pra ta no serviço às 9. Saio às 20 horas do serviço, faço mais uma vez esse
caminho, nem vejo direito meus filhos, vou pra cama morrendo de cansaço. Se eu não
fumar meu cigarrinho, fico louca!
_Sei. E a senhora se alimenta direito?
_ Ah doutor, naquelas… eu tomo um café bem forte antes de sair de casa, que
eu deixo pronto antes de me deitar. Eu precisava levar marmita de casa, mas não
tenho coragem de preparar comida, tamanho o cansaço, então eu almoço dois salgado
e um copo de refrigerante no serviço. Já acostumei. Meus filhos, graças a Deus,
almoçam na escola lá do bairro. Eu sei que eu deveria me esforçar mais doutor, não por
mim, mas pelos meus dois filhos, mas eu sou uma só doutor, fico morta de cansaço.
_ Você já tentou arrumar outro emprego?
_ Hahaha, não me faça rir doutor! Você acha que uma pessoa com a minha
idade, sem estudo, semi-analfabeta, consegue emprego assim fácil? Emprego fácil
ta assim pra vocês que têm diploma, é jovem, bonito. Gente velha, feia e ignorante o
mercado gospe e pisa em cima.
_ Bom, nesse caso eu vou te passar esse antibiótico, mas você tem que tomá-lo
após as refeições. É só retirá-lo no balcão.
_ Obrigada doutor.
Achava seu serviço uma indecência. Desde jovem queria exercer a profissão
de médico, clínico geral. Filho da classe média trabalhadora católica, queria ser
útil para alguma coisa nesse mundo. Diante desses diálogos que percorriam o seu
cotidiano durante o trabalho, percebera a sua inutilidade diante à saúde do próximo,
o que entendia ser completamente paradoxal, uma vez que as pessoas lhe confiavam
suas vidas, era ele quem havia estudado anos para adquirir as informações exatas para
solucionar aquelas doenças. Casos simples de serem resolvidos a partir de uma única
forma: os pacientes teriam de mudar suas rotinas.
Era a única certeza que Paulo carregava dentro de si. Para que as pessoas
solucionem suas enfermidades, é necessário que elas modifiquem seu cotidiano.
Trabalhem menos, principalmente aquelas que exerciam funções repetitivas – a grande
maioria – pratiquem atividades físicas que mais lhes agradassem para a liberação
de serotonina e alimentação balenceada: cereais, legumes, frutas, verduras e alguma
proteína animal. A receita era simples, mas como exercê-la diante de um cotidiano tão
opressor? Para garantir todas essas necessidades básicas, a população era obrigada a
se submeter a estas situações diárias, e ainda assim não garantiam o básico. Sentia-
se podre por dentro, por darem tanto valor à sua profissão de merda, e se encontrar
inerte diante dessas situações; além da certeza de se encontrar também enclausurado
pelo sistema, já que a única coisa que lhe restava era contribuir para o enriquecimento
das monstruosas farmacêuticas ao viciar as pessoas em drogas pesadas apenas para
amenizar o problema, e não curá-lo.
Há meses que Paulo já não encontra mais estímulo. Tais situações lhe
ocasionaram uma crise de depressão profunda, mas nem percebeu seu próprio problema,
tal qual o restante da população. Minutos antes, se encontrava no interior do vagão
com a mesma fisionomia dos demais: inexpressivos, movidos mecanicamente devido
a mesma via sacra diária. Ao esperar o próximo trem na estação que faria baldiação
para retornar ao serviço, num surto que o libertou do mecanismo medíocre que
refletia naquele instante, Paulo se jogou na linha do metrô no momento em que o trem
chegava para conduzir as formigas operárias paulistanas a seus postos, responsáveis
na manutenção do vasto império presente na Avenida Paulista a na maior frota de
helicópteros do mundo.
O suicídio de Paulo foi um bafafá na cidade, mas durou pouco tempo. Mesmo
a imprensa mais sensacionalista foi terminantemente proibida de apresentar o caso aos
seus telespectadores, devido a uma ética em omitir índices de suicídio – prevenção de
surtos coletivos; ou gerar a ruína deste modelo de sociedade estratificada. Como não foi
noticiado em lugar algum, os boatos logo cessaram, e Paulo se tornou mais um desses
índices que fora arquivado, e obrigatoriamente esquecido.

PARA VER AS ILUSTRAÇÕES EM TAMANHO ORIGINAL

1. clique na ilustração no blog jornaldoporao.wordpress.com
2 . Ao entrar no Flickr, clique na luneta, o 5o. signo no alto da ilustração ou foto, da esquerda para a direita.