entrevista com chico de oliveira anti-candidato na USP

21/12/2009

sábado 26 de setembro de 2009
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Entrevista com Chico de Oliveira, professor emérito da USP

JPO: Como você vê as disputas no interior da burocracia acadêmica uspiana ao redor da sucessão para reitor?

Chico de Oliveira: A situação da universidade tal como está transformou a estrutura de poder em um sistema de castas. Têm os brâmanes, que são os docentes com suas diversas distinções; os pés de brama, que são os estudantes um pouco mais privilegiados; e os dalit ou intocáveis, que são os funcionários. Esse sistema não pode suportar os sistemas novos que devem estar a serviço da sociedade brasileira. É um anacronismo que não permite o novo, só a repetição do mesmo.

JPO: E como você vê o Sintusp nessa campanha por democracia e contra a repressão?

Chico de Oliveira: O Sintusp cumpre um papel republicano muito importante porque luta contra essas castas. Os funcionários da USP são os principais interessados no êxito da universidade, ajudando a transformar a sociedade brasileira. Os docentes, na sua maioria, vêem a universidade somente como local onde tiram suas excelências e clientelas, e este papel tem anulado alguns estudantes na busca pela democracia. O Sintusp e os trabalhadores cumprem um papel muito relevante para tentar mudar essa condição de anacronismo em que, nos seus 75 anos de existência, a USP não soube reformar-se e jogar fora seus preconceitos de classe. A exclusão de Brandão é uma convergência entre o preconceito de classe e o preconceito étnico contra os trabalhadores, que não apenas fere quem tem por obrigação reformar a universidade, como vai além e é inconstitucional, pois ataca a Constituição de 88, que proíbe ações de repressão quando o dirigente sindical está no exercício de suas funções.

JPO: A ADUSP diz que frente ao refluxo do movimento a política de candidatura de protesto por fora do processo oficial é uma utopia. Qual a sua opinião?

Chico de Oliveira: Todas as grandes idéias da humanidade foram consideradas utópicas. A opinião dos práticos e pragmáticos é desmerecedora das tradições da ADUSP, que inclusive é um sindicato que já lutou contra um parecer maior ao seu estatuto jurídico, e por isso não pode fazer coro com essa cantilena. Recebo essa declaração como um elogio. Começa assim, como utopia, a necessidade de melhorar a humanidade e a sociedade. Portanto me sinto muito a vontade. Agora, se dizem que sou utópico por não ser prático e realista, mais uma vez recebo isso como elogio. Os práticos e realistas são hoje os grandes responsáveis pela maior crise econômica dos últimos 70 anos e eu não quero me alinhar com eles. Queremos o slogan do Maio de 68: “Sejamos realistas, peçamos o impossível!”

JPO: Que papel o movimento estudantil deve cumprir na luta pela democracia na USP?

Chico de Oliveira: Os estudantes podem cumprir um papel importantíssimo e não esquecer o papel que cumpriram no processo de redemocratização nacional. Não esquecer que o DCE da USP leva o nome de Alexandre Vanucchi Leme, uma vitima do período sombrio da Ditadura Militar. Retomar os valores, a coragem e a determinação dos quadros que estiveram na luta armada contra a repressão, que existiu no mesmo nível também na Argentina e no Chile. Devem retomar a tradição de luta pela democracia e colocarem todas as suas forças conscientes em convergência com os trabalhadores e fazer ressurgir o vigoroso movimento que tanto ajudou na redemocratização do país até a derrocada da Ditadura Militar. Os estudantes são de fato a categoria com maior peso numérico e é preciso fazer um grande esforço para envolvê-los realmente na campanha pela democratização. Se os estudantes de fato entrarem na luta, o movimento pela democratização tem chance de prevalecer desde já. A longo prazo, ele prevalecerá de um modo ou de outro porque a estrutura hierárquica da USP hoje é indefensável, e ninguém mais a não ser a repressão armada consegue defendê-la. De todo modo, o regime atual não irá se suicidar. Temos que multiplicar os atos, principalmente as atos públicos que envolvem sindicatos e movimentos sociais. Especificamente, com relação aos estudantes, proponho que organizemos com a participação da imensa maioria estudantil, um abraço democrático em torno do edifício da reitoria a fim de deixar claro que o Conselho Universitário constitui uma usurpação. Ele não tem qualquer legitimidade para representar a universidade.

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Contato: ler-qi@ler-qi.org

CONCEITOS RETIRADOS DOS TEXTOS ABAIXO, CUJO TÍTULO E CONTEÚDO DO ORIGINAL SÃO MANTIDOS AO CLICAR NOS LINKS.

1. DELINQUÊNCIA ACADÊMICA, de Maurício Tragtemberg

2. BAGRINHOS, do texto de Alfredo Marques

3. HOMEM-DISPOSITIVO, do texto de Francisco Foot Hardman

4. FIM DA UNIVERSIDADE PÚBLICA, do texto de Marilena Chauí

5. ETHOS DE GANGUE, do texto de Luiz Felipe Pondé

6. MIKE BONGIORNO, do ensaio de Umberto Eco

7. CASTA DOS INTOCÁVEIS, da entrevista de Chico de Oliveira