Membro Fantasma, por Mário Augusto Medeiros da Silva

22/06/2012


 

Membro Fantasma, por Mário Augusto Medeiros da Silva

Liguei apenas no terceiro dia. Sabia que estavam todos preocupados. Tia Carmem ameaçou um enfarto. Mãe rogou praga. O Pai não disse nada. Nada disse, mas imaginava seu olhar ao longe, de sobrancelha levantada. Mano gozava a cara de todos. Arrumou-me não sei quantas namoradas e aventuras fantásticas. Durante esses três dias, até as vinte horas, vivi intensamente nas imaginações alheias. Raramente com final feliz, invejosamente fabulado.
No terceiro dia fiz tocar o telefone. Deve ter havido uma correria louca em volta da mesa grande da sala. Benedito latindo e correndo atrás do próprio rabo. Maroca irritada com a soneca boa frustrada, na almofada puída. Maroca olhando severa o zanzar de pernas, tão distintas de sua elegância felina. O Pai avisando que não me atenderia, que não falaria comigo, que não estava lá, mas esperando saber se eu precisava de alguma coisa. Mãe gritando seus impropérios e empurrando todo mundo para chegar ao gancho. Mano, de costas largas, pernas longas, músculos másculos, atendeu e suportou gritos, arranhões, chutes e murros, bem como súplicas desesperadas para ouvir minha voz.
Tia Carmem fazia café de cinco colheradas, porque ninguém dormia cedo aos sábados. A trinca, o truco, a canastra, o buraco, a ronda, o dominó. A paciência. A paciência da família reunida, exercitada, em torno da mesa grande, de tampo elegantemente polido e pernas vergonhosamente lascadas. A paciência da espera, dos pigarros censores, dos olhos gulosos, dos homens eunucos e suas senhoras desditosas. A mesa aparentemente velha, aparentemente nova, aparentemente herdada, aparentemente nobre, aparentemente limpa, aparentemente firme. A mesa levou um pontapé do Mano quando o telefone tocou.
Benedito me quer bem. Benê espiava comigo Ana tomar banho com Nina. Benê caçava rolinha e me defendia do Zé Sujeira, quando eu vacilava o repuxo. Maroca é uma dama empertigada, que me ensinou bons modos. De tanto observá-la, acho que aprendi algo de tratar Mercedes. Ela não perguntou se liguei. Duvido que chorasse ou esperasse pelo canto. Tantas idas e vindas, numa dança estranha. Mercedes devia estar como Maroca: altivamente à espreita, enleivada em seu próprio mundo, à espera de um afago em seus pêlos.
Mano atendeu. Ouviu minha voz gravada e programada no equipamento. Será que sorriu antes ou depois? Lembrou da dor do chute na mesa ou de todos esses anos? E quando anunciou o que lhe transmiti, conseguiu disfarçar o que de fato quis dizer? Tia Carmem tomou mais café? Benê fungou e coçou-se a barriga. Maroca fingia dormir. Mãe caiu-se ao sofá? Riu-se de louca? Fê-lo repetir? Mano seguiu as instruções, apertou o teclado para ouvir de novo. Mercedes estaria no Oca´s planejando a revolução com meus camaradas e não seria encontrada. Pena. O Pai, sobranceiro e pragmático preparava o terno e avisava que era hora, então, de mexer nos papéis para abrir o caixão.


lançamento da Casa Socialista Hermínio Sachetta

20/09/2010



lançamento da Casa Socialista Hermínio Sachetta 012

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

Talvez duzentas pessoas tenham passado por lá. Mesmo porque não caberia 200 pessoas ao mesmo tempo dentro da Casa. No debate político um músico deu um cochilo, o que ele compensaria botando fogo na festa logo após. Mas a atenção era enorme de quase todo mundo. O clima de festa em nada impediu a concentração nas falas políticas. O ponto alto do lançamento foi a própria casa, pois as pinturas, ultimadas nos momentos já iniciais da atividade,chamaram a atenção de todo mundo. E o trabalho de cortesia dos artistas gráficos ficarão lá, atestando o crescimento da Casa Socialista Hermínio Sachetta. A banda AS PAPOULAS foi um momento inesquecível.




lançamento da Casa Socialista Hermínio Sachetta 080

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

Todo mundo gostou, todos furiosamente aplaudiram todos os números. Quase todo mundo dançou.
A Casa Socialista Hermínio Sachetta veio para ficar. Será uma referência na cidade de Campinas. E sua programação até outubro já está feita. E aqui neste blog acompanharemos suas atividades.




lançamento da Casa Socialista Hermínio Sachetta 102

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

Aqui vão algumas fotos que pretendem transmitir um pouquinho da atmosfera ali. Pois a agitação, o entre e sai, a participação, os aplausos, isso a foto não transmite. Pena que muitas pessoas importantes que parcipam do movimento estudantil, que são socialistas, que são grevistas, que sabem que a cidade precisa de uma agitação política/cultural e de debates; alunos e funcionários da Unicamp, gente que foi insistentemente convidada, não compareceu. Não precisa dizer quen nenhum professor da Unicamp compareceu. É uma é nota de pesar, deste que escreve, não sendo nenhum balanço oficial dos organizadores, que, para mim que estou nesta cidade meio vazia há 32 anos e 28 de Unicamp, teria que registrá-la, pois ouvi, anos pós anos, estudantes e professores (a maioria nem consegue viver na cidade), que esta cidade é uma província sem opções culturais. Mas como criar opções culturais virando as costas para a cidade? Cultura não é um sonho abstrato. Cultura é uma construção de todos os dias. As grandes coisas ou obras não nascem de um grande desejo, mas da luta cotidiana para fazer coisas grandes. A Casa Socialista Hermínio Sachetta pretende ser um local de debates e participação cultural de todos que lutam para que em Campinas a cultura e a cultura política seja algo realmente condizente com o tamanho da cidade. Convenhamos que Campinas é de uma acanhamento… É um cidade grande e desengonçada. É preciso da robusta ossatura da cultura, da agitação e de influência, inclusive influenciar a enorme região à sua volta. Não é uma questão de qualidade. AS PAPOULAS, por exemplo, mostrou que tem. A questão é de engajamento. De integração. Um dos maiores “polos culturais” da cidade, a Unicamp vive como se fosse um enclave, um gordo e rotundo parasita. Nada dá à cidade, pois não vive nela – Não influência e nem é influenciada. Aqui o papo, nos jornais, ou das intermináveis conferências, é tecnologia, um pensamento instrumental e pról-capitalista. Há um multidão que aceita esta morte do pensamento de bom grado e satisfeita. Quem não está contene com isso deve prestar atenção na Casa Socialista Hermínio Sachetta.




lançamento da Casa Socialista Hermínio Sachetta 093

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

Quem quiser ver as fotos feitas por Mario e Maria é só colocar o mause sobre as fotos aqui selecionadas que terá acesso aos albuns flicker. Entrando no flicker, click em “minhas coisas” você terá opções de entrar em vários albuns e de diversas formas, como um slideshow, por exemplo.


Há luz no fim do tédio

02/09/2010

Casa Socialista Hermínio Sachetta

Campinas morre à noite. Tudo fica escuro às 19 horas. As pessoas vão para casa e se trancam, sentadas em frente a um caixote luminoso. O tédio é companheiro dos casais e os jovens sonham em sair, beber e conversar. Jovens da classe média ilustrada conversam assim diante do caixote luminoso. Campinas é uma província, dizem – já que não são de Campinas e como se nas suas cidades de origem houvesse algo para fazer. Campinas não tem nada prá fazer sábado e domingo. À noite então, Campinas morre. Barão Geraldo, para os estudantes, para a classe média ilustrada sobra os bares, caríssimos diga-se. Campinas derrubou um teatro histórico e abandonou outro e não tem nenhum. A Unicamp não tem um teatro. As escolas fecham no fim de semana. Bibliotecas Municipais são um lixo. As bibliotecas escolares ficam fechadas. Sindicatos fecham no fim de semana. Os sindicatos são vazios à noite. Alguém cantou: “o sinal está fechado para nós que somos jovens”.

E outro cantou: “Olá como vai? eu vou indo em busca de um lugar no futuro e você?”

Jovens socialistas, aqui de Campinas lançam uma Casa Socialista. E atrás do trem da revolução “só não vai quem já morreu”.
Os jovens socialistas corregarão a bandeira do futuro. Aqui um velho socialista sugere, em dois vídeos do youtube, o que é eterno.