I . O inacabado. As Sobras. Michelangelo por Delacroix

25/08/2012

“Felizmente existem os restos”

Geraldo de Barros

Apesar de se dizer, muitas vezes, essencialmente escultor, Michelangelo não deixou nem uma dúzia de escultura em 88 anos de vida.

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Estava acostumado a ver reproduções das pinturas de Michelangelo e efeito em mim era de fúria e violência.

Incorreções, falta de exatidão, exageros pra expressar o que já de mais extrema violência.

É o que me prende a Caravaggio e que parece ser influência direta de Michelangelo Buonarrotti sobre Michelangelo Caravaggio. A preferência em retratar meninos nus também é a mesma.

Vi neste neste Gênios da Pintura as esculturas “inacabadas” de Michelangelo. Foi um impacto de que não quero sair. Nem vou tentar descrever. De hoje em diante este é o meu Michelangelo.

Comprei o livrinho de Delacroix  na expectativa de encontrar nele a admiração pelas esculturas inacabadas de Michelangelo.  E vou continuar buscando pintores, escultores que exprimiram opiniões sobre esta obras “inacabadas” de Michelangelo. O livro de Delacroix é um apologia, cheia de adjetivos ,para saudar Michelangelo. Principalmente sobre sua personalidade. Sua personalidade impetuosa iria marcar sua obra.

“Ímpeto extraordinário que o fazia sempre deixar algo incompleto no mármore”

É um explicação que dá Delcroix para que Michelangelo deixasse obras inacabadas ou até, uma coisa difícil de aceitar, que Michelangelo, pelo sua impetuosidade, calculava mal e obra não cabia no mármore escolhido. Mas sem deixar de elogiar sua grandeza. Mas a grande obra que Delacroix elogia, em quase todo o livro, é a pintura do Juízo Final. E num aspecto que me interessa muitíssimo que é a deformação dos corpos.  Michelangelo deforma para expressar. O cristo do Juízo Final tem um torso que nenhum homem jamais teve o terá. É um aleijão extremamente expressivo. Como diz Delacroix, um torso de um Deus potente, rigoroso e cruel. Não é o Cristo comumente visto em outros pintores.

O Espírito arrojado e a invenção andam juntos em Michelangelo.

O Davi, a escultura de Michelangelo, tão elogiado pelos séculos afora, não me cativa tanto quanto as obras “inacabadas”. O que me importa hoje são estas obras inacabadas. Já fiz minha escolha.  Mas é interessante saber quais escolhas grandes artistas fazem. Em Delecroix achei três páginas bem interessantes. Não entendi o parágrafo que fala  das figuras dos escravos, apenas o tom é elogioso é evidente(p. 33).

“É um fragmento de gênio dos mais poéticos que já li”. Delacroix fala de Stendhal que escreve sobre Juízo Final de Michelangelo.

A nota final do livro de Delacroix remete à Stendhal para um “fragmento de gênio, dos mais poéticos e mais admiráveis que já li”, falando ainda do Juízo Final. Vou atrás. Mas gostaria que a “Histoire de la Peinture en Italie”, de Stendhal falasse das esculturas inacabadas de Michelangelo. Com mesmo intuito  adquiri  “Vida de Michelangelo Buonarrotti”, de Giorgio Vasari, ed. da Unicamp.

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01. Pintura. Deformações dos corpos: Alongamento dos corpos 1. El Greco.
02. Modigliani: “Eu agora possuo o orgasmo…”
03.Giacometti por Jean Genet
04. Giacometti por Sartre
05. CIVILIZAÇÕES AFRICANAS: Memória e Altar: apontamentos 01
06. CIVILIZAÇÕES AFRICANAS: “Memória e Altar”: Exposição da Coleção de Rogério Cerqueira Leite


Caravaggio (III), de Gilles Lambert

03/08/2012

Biblioteca Mário. XII-000.001

“Caravaggio(II),(I) é o pintor mais misterioso e, sem dúvida, o mais revolucionário da história da arte” p. 7

“Em Roma, trinta e quatro anos depois da morte de Miguel Ângelo, ele esteve na origem de uma reacção violenta contra o “Maneirismo”, … Impôs um nova linguagem realista e teatral, escolhendo em cada tema o instante mais dramático, recrutando os modelos na rua, memso para as cenas mais sagradas, como A Morte da Virgem, não hesitando em pintá-los de noite, o que poucos artistas, antes dele, tinham ousado. Ele proclamou o primado da natureza e da verdade”. p. 7

“Foi para a pintura, a apoteose do que veio a ser chamado, mais tarde, de  arte barroca. A época, na chameira dos séculos XVI e XVII, está repleta de furores, de excessos e de êxtases. Do concílio de Trento saiu a Contra-Reforma: ao rigor de Lutero e de Calvino, que baniram os quadros e esculturas dos santuários, os papas e os Jesuítas opunham uma abundância de imagens, de ornamentos, de cores, de contrastes, de decorações com vista a deslumbrarem os fiéis e afirmar a supremacia de Roma. Claudio Monteverdi acaba de inventar a ópera. A obra de Caravaggio explode nesta tormenta e amplifica-a. Nicolas Poussin, qu chegou a Roma um pouco depois da morte de Caravaggio, declarou: “Ele veio para destruir a pintura”
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Slideshow

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Dois movimentos de Selva Morale et Spirituale, de Claudio Monteverdi.


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Galeria

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links

01 . Escola Veneziana
02 . Caravaggio (I): sexo, violência e deus
03 . Caravaggio(II): deuses, anjos e homens: adolescentes.


A Serbian Film e Caravaggio

14/07/2012


Caravaggio (II): deuses, anjos e homens: adolescentes.

14/07/2012

Deuses,

anjos

e homens: 

adolescentes.

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Cláudio Monteverdi. Que criou ópera nestes tempos de Caravaggio. Sem ter a técnica de contar aqui com um trecho de Orpheus, como eu queria,  aqui vai trecho de Selva Morale et Spirituale. Tenho com o conjunto vocal A SEI VOCI, conduzidos por, Bernard Fabre-Garrus que é uma interpretação que me emociona há pelos menos uns 15 anos, consecutivamente, reitiradamente. (aqui vai em outra interpretação menos impactante, para mim, que a citada de A Sei Voci).

 

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Galeria


Caravaggio (I): sexo, violência e deus

14/07/2012

Sexo, 

violência

e deus.

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Caravaggio (III), Caravaggio(II)


A Serbian Film, de Srđan Spasojević

09/07/2012

[Lembrete: quem não assistiu ao filme e não quer saber o final, não leia tal post. Foi inevitável dedurar o final para argumentar]

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“Madeleine Albright, secretária de Estado de Bill Clinton, que, ao responder a uma pergunta em rede nacional de TV sobre as 500 mil crianças mortas no Iraque como resultado das sanções impostas pelo governo dos Estados Unidos, asquerosamente afirmou: “Acredito que o custo compensou”.” [ver link 10]. Razões de estado dirão os estudiosos universitários. Talvez se fizesse um filme onde Madeleine Albright aparecesse se masturbando, o filme seria proibido.

E que tal fazer um com Bill Clinton esporrando na cara de Monica Levinski.
Bem ao contrário das crianças mortas no Iraque, Monica Lewinsky é notícia de 1988 até hoje. Este é o peso da moral sexual. Desde Helena e a Guerra de Troia, sexo e a moral sexual é a única coisa que realmente conta. Para mim, aí mora o engano, o auto-engano, ou a enganação de Srđan Spasojević, quando diz que seu filme é uma metáfora sobre aquela guerra na Sérvia[ver link 07] e os ataques da OTAN. Em paz ou em guerra  e revoluções, há, houve e haverá muita tortura, violência e prazer na violência.  Ninguém se surpreenderia de a primavera árabe também fosse chamada de primavera sangrenta. Neste instante mesmo, em qualquer delegacia, em qualquer lugar do mundo, há gente gritando de dor e outros de prazer com a tortura. E bilhões de pessoas fingindo que não é com ele.

Ricardo Kotcho[ver link 01] chama o filme de sórdido. Será que empregaria o mesmo adjetivo para Bill Clinton, Madalena Albright, Churchi[ver link 13]l (o primeiro a usar bombas químicas no Iraque, o primeiro a bombardear civis na segunda guerra). Churchil apenas continuava um tradição inglesa como conta o artigo de Isto É [ver link 13]: “Mas foram os britânicos os primeiros a devastar as fileiras inimigas com a ajuda de métodos biológicos. A chance veio no final das guerras Franco-Indígenas (1754-63), quando a Grã-Bretanha derrotou a França na luta pelo Canadá. Lord Jeffrey Amherst, o comandante-em-chefe das forças britânicas na América, mandou distribuir cobertores e mantas contaminados com varíola para infectar as tropas indígenas do chefe Pontiac”
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Assisti a Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick pelo menos 10 vezes.
Alex comete crimes odiosos e se compraz com a violência. Em comum com Milos, Alex comete os crimes sob efeito de alguma droga. No caso de Alex no inocente – ou até nojento para alguns – leitinho. Milos afoga-se no Whisky e a piadinha, insistentemente lembrada no filme, é que malte é brochante, ninguém acha  leite  excitante. Não sei se são nos filmes de horror e violência, ou se é todo o cinema que as piadinhas e pegadinhas são incontornáveis. A aparência dedes personagens e desse assassino aí parece um charada do filme. Só que Alex tem seu livre arbítrio preservado, pois toma as drogas por livre escolha, portanto sem o perdão fácil que suscitaria se fosse à força, ou ministrada num complô como no caso de Milos de A Serbian Film. Mas Kubrick, crítico feroz da sociedade, também expõe um falso livre arbítrio, quando o religioso, um padre Anglicano, lamenta – Kubrick deixa a dúvida: será que lamenta mesmo?, ou este padre é um filho da puta de um manipulador escorregadio – que Alex escolha submeter-se a um tratamento para perder sua agressividade. E vê-se logo que Alex não é sincero, mas está é querendo se livrar da cadeia. O Alex de Kubrick é colocado entre a ingenuidade e o cinismo. Alex nunca é totalmente vítima. Alex gosta da violência. Alex gosta de lutar. Alex gosta imensamente de sexo e orgia. Alex gosta de música de Bethoven e traduz a violência dos acordes em violência física. Alex é sórdido e grandioso. Ao contrário, Milos de Serbian Film se apresenta como sempre como a vítima, sonha em si castrar, se culpa e destrói sua família que ele julgou culpada de tudo. Milos é um pobre diabo sem pensamento e sem prazer. No final seu suicídio e da sua mulher (que também é uma consciência culpada) e o assassinato da criança é banal e não me comoveu. Nem é vítima, com Alex foi da psiquiatria, do padre, da família, de todo o sistema, mas antes mais nada é um traste.

Torci por Alex, todas as 10 vezes que assisti ao filme, sob o som da arrasador da nona sinfonia. Não me lembro de qualquer música de Serbian Film. E na vida real os bombardeios no Iraque eram feitos sob o som de rock pesado. A arte, a vida, a política: a estética é politizada, a política estetizada. Havia um jogo chamado War, falava-se em jogos de guerra, em games, quando do Iraque.

Em 1988 quando assisti a este filme não tinha dúvida que esta era a mulher mais bonita e tesuda do mundo. E que deveria assistir a todos os filmes de Alan Parker. Nunca mais assisti a qualquer filme dele e nunca mais vi uma cena de Lisa Bonet. Mas também jamais esqueci, ou melhor, lembrei-me quase todos os dias. E continuo fugindo deste poder dominador da imagem, principalmente da imagem cinematográfica ditatorial, acachapante. A Serbian Filme é um filme, neste ponto de vista, inofensivo. Nenhum personagem meu deu tesão ou empatia.
Outro medo é de lembrar dele mais do que o impacto que causou em mim, já que escrevo sobre ele, e este elemento da cultura, escrever ou falar sobre, imprime uma falsa lembrança. Uma lembrança de gabinete. Lisa Bonet parece cinzelada no corpo. Só hoje sei que chama Lisa Bonett.

Há ainda rituais religiosos com derramamento de sangue e vítimas. Há ainda. Mesmo reprimidos continuam existindo. Me pergunto se este cinema de violência, assim como os games para crianças, não encenam estes sacrifícios? Assim como os contos de fadas introduzem as crianças na violência e no sexo, de maneira sub-reptícia ; outros. como Chapeuzinho Vermelho, bem claramente. Estas encenações não aplacam, talvez, a sede de sangue?

Dizem que o quadro é de má qualidade técnica. [ver link 12]. Vendo reproduções da mesma fase azul não consegui ver qualquer diferença técnica. E não acredito que Picasso o escondeu por 28 anos por motivos de insuficiência técnica. Nem os tantos outros anos que ficou escondido.

Alex, em Laranja Mecânica,  é a melhor pessoa do filme. Todos são muito mais sórdidos na sua vidinha comum e horrorosa. As pessoas comuns a idiotia e a covardia repulsiva. Os psiquiatras a violência e a droga para domar e castrar. Políticos de esquerda e de direita manipulam e torturam Alex para torná-lo dócil e usá-lo. Policias e ex-amigos de gangues viram policias para torturarem-no. O escritor, o inelectual, cuja mulher foi estuprada e morta por Alex se tem quase um orgasmo em imaginar a tortura que planeja e executa ministrando drogas na refeição de oferece a Alex. Piedade e tortura se misturam o tempo todo. E Alex se humaniza diante de tanta podridão. Fala-se que é um filme fascista. Talvez seja o fascismo que está em todos nós então, mas, em algum momento da vida, ou em muitos, sonhamos ser, nem que seja por um momento, um furioso Alex.
A Serbian Film, tem algumas citações de Laranja Mecânica. Quando um escultura é usada para esmagar a cabeça da vítima. Nos dois casos não há um esmagamento explícito, mas sugerido.
Quanto ao incesto que Milos comete sob efeito de Viagra para cavalo – outra piadinha – há no cinema hollywoodiano, em Coração Satânico, de Allan Parker, com prazer e erotismo, sob o subterfúgio de se dar sob possessão demoníaca. Parece que a questão é com que maestria ou felicidade cada diretor encontrou sua maneira de mostrar.Assim como a pedofilia que o argumento para proibir o filme. Ela, por exemplo, é mostrada com sinal invertido, mulheres com garotos, e aí não é nem tão chocante, nem há pedidos de proibição. Podemos ver isso, tanto em Picasso ou no Amor Estranho Amor, protagonizado por Xuxa, a rainha dos baixinhos.

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Uma desculpa para proibir o filme foi que é de má qualidade [ver link 08]. Com esta desculpa poderia proibir quase tudo feito em Hollywood,  na Índia ou na Rede Globo.

Me lembrei  bastante de Laranja Mecânica, por ser um filme que me marcou.  Também o diretor de A Serbian Film, Srđan Spasojević,  faz várias referênias e citações do filme de Stanley kubrick.  Kubrick abordava a violência, mas sem moralismos e complexo de culpa. Qualquer um de nós foi ou queria ser, em algum momento, Alex. Já Milos, de Serbian Film, é um pobre diabo, um traste. Ele se julga assim e é. É um joguete que não consegue nem refletir nem lutar.

Esse cartaz me fez lembrar, imediatamente, de o Iluminado de Stanley kubrick, onde não havia droga, mas a loucura do cotidiano e da banalidade. O mal é a banalide.

Homossexuais enforcados em praça pública no Irã. Parece desfocado isso aqui. Mas não há sexo e violência sem deus. E A Serbian Filme não aborda isso. Mesmo as humilhações e torturas em Guantánamo eram feitas em nome da democracia e do cristianismo.

Jeová pede que Jacó sacrifique seu filho único. Isaac sobreviveu para encher a cultura judaica e cristã de neurose. Como discutiu Dostoiévski, um condenado a fuzilamento que foi apenas encenado, narrando que carregou esta tortura pelo resto da vida.

“Sem sangue não há amor”, do Amor Cristão, de Marcelino Freire
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Ainda comparando com Laranja Mecânica. Há a música de Bethoven[trilha sonora,[ ver link 14]. Muitas vezes a música conduz o filme. O cinema, quase sempre, usou a música como um elemento narrativo. Não ouvi isto em A Servian Film.  Há coreografia, figurino e dança em Laranja Mecânica. Há solidariedade e traição. Em a Serbian Film quando o irmão trai não há qualquer grande choque. Como se a traição fizessem parte desta banalidade da vida comezinha. A Serbian Film, muitas vezes, é moralista, mas sempre muito pobre. Não a a grandeza escancarada e ridícula de um Nelson Rodrigues. E também muito maniqueísta. A droga é usada para o mal, uso que Alex e sua Gang faz, mas é também usada para “bem”, para corrigir Alex, e Kubrick faz-nos ver como, a droga na mão dos poderosos pode ser o supremo mal. E nos coloca do lado de Alex contra o poder. Em Laranja Mecânica há sexo e prazer. Em Serbian Film há violência. Não fica nunca evidente se algum personagem sente algum prazer com o que está acontecendo na tela. A não ser que alguém acredite que ejaculação é sinônimo de prazer.

Em O Erotismo, George Bataille registra que o público, masculino claro, ejaculava nos enforcamentos. Dele é a frase: “Deus, sexo e violência são intercambiáveis”

Se houver alguma aposta do diretor é que a platéia, mais violenta que os personagens, vá sentir prazer.
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Alex tem vivo prazer com o que faz. Alex só tenta mudar por puro oportunismo, para escapar da punição. No final de Laranja Mecânica parece recobrar sua humanidade contraditória e prazeroso.

Poderia se dizer que não dá para comparar pois Laranja Mecânica não é um filme pornográfico. O mesmo se pode dizer de A Serbian Film que é mesmo um filme sobre ator do cinema pornográfico, e que vai fazer um filme sobre violência, sob efeito de uma droga poderosa, sem qualquer controle sobre sua vida. Alex também usa droga, mas como os comuns dos mortais. Faz crimes porque os humanos fazem crime, não parece que a droga explique e o absolva. E é pego porque cometeu erros e foi traído. Milos é o erro. É antes um robô, um puro joguete, pois a droga que o conduz, totalmente, inescapavelmente.

O que há de mentiroso no filme é que o diretor parece dizer que só alguns Milos cometeriam tais desatinos, sob efeito destas drogas. Mas ele e todo mundo que gosta ou odeia o filme sabe que não. Que o crime, a violência, a dominação são  a droga mais dominadora que existem. E que os assassinos estão no poder. E que no limite mais baixo, os assassinos tem poder. E que os deuses sempre quiseram sangue, dos deus primevos da Grécia a Jeová.  E que os deuses curraram as virgens, de Zeus a Jeová. Em nome deles foram destruídos homens e nações. Não dá para falar de sexo e violência sem falar de deus.  Uma das grandezas de Laranja Mecânica é o padre bondoso, cuidadoso e, ninguém sabe?!, cínico, aliado do sistema de punição. Milos, o joguete, o menos culpado – e ao final já não mais drogado, aplica a pena de morte nele, na sua mulher (culpada de ganância, já que sóbria) e seu pobre filho. Alex escolhe vida, Milos a morte e o assassinato.
Não achei um mau filme. Acho que pode ser um filme bem feito sobre um homem/robô, levado a total inconsciência. E quando consciente, ao desatino. Mas quando eu quiser refletir, usando um filme, acho que vou assistir pela undécima vez Laranja Mecânica que retrata a humanidade como ela é: multifacetada e perigosa.b

E também se me der na telha assisto novamente A Serbian Film que  agora foi liberado, depois de um ano apreendido. Um ano, quando a justiça tinha estipulado 30 dias para o veredito. Acho até que vou assisti-lo na tela grande, ou seja, ver cinema é no cinema.

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links

01. Justiça está certa, sim, ao proibir filme escabroso.[Ricardo Kotcho apoia a proibição do filme (sem assisti-lo) ]
02. Depois da Caixa e do Ministério da Justiça, agora é o MPF e a Justiça Federal que censuram “A Serbian Film”
[Tinha prazo de 30 dias para “julgar” o filme e levou um ano]
03. Como é determinada a censura de um filme?
04. Brasil censura primeiro filme após 26 anos
05. A Tortura do Medo (Michael Powell, 1960) [diz, a certa altura, que este filme homenageia Blow Up, de Antonioni]
06. A Serbian Film – Terror Sem Limites – Censura É o Melhor Marketing[“Este filme é realmente doentio, violento, polêmico, com muitas transgressões; mas “Irreversível”; “Saló ou 120 Dias de Sodoma”; “O Albergue”; “Ichi, o Assassino”; “Cannibal Holocaust”; “A Vingança de Jennifer” (o original) e muitos outros filmes também o são e tem seu público e fãs.”]
07. A Serbian Film – Censurado no Brasil? [Tem trechos de entrevistas do diretor onde diz de objetivos morais do filme .Mas não fala de estar sob efeito de droga]
08. A Serbian Film – Terror Sem Limites[ Uma crítica com argumentos cinematográficos]
09.Crítica – A Serbian Film: Terror Sem Limites Afirmo também que filmes como, por exemplo, Oldboy (2003), Martyrs (2008), Tetsuo (1989), A Invasora (2007), Audition (1999), me deixaram mais boquiabertos e intrigados do que o filme Sérvio.”]
10. Davis, Mike. Apologia dos bárbaros: ensaios contra o império Resenha de Waldir José Rampinelli

11. Picasso, Erotic Scene, Erotic Scene (known as “La Douleur”) Pablo Picasso  (Spanish, Malaga 1881–1973 Mougins, France)
12. Um Picasso “picante” que ficou guardado durante 28 anos será exibido em NY
13. Uma sedução fatal
Armas químicas e biológicas tornaram-se a “bomba atômica dos pobres”

14 . Trilha Sonora de Laranja Mecânica