O VALE DOS BUROCRATAS MORTOS, desenhos de João da Silva

17/11/2012

(com parece que há uma certa homenagem a mim, republico no dia do meu aniversário)


Aqui vai a reedição, pois Vítor conseguiu me ensinar a fazer em tamanho legível. Além do mais, estou publicando a sequência. E vale a pena a reedição por ser desenhos inéditos, oferecidos ao jornaldo porao como uma homenagem pelos seus 5 mil acessos (agora quase 5.500).

VALE DOS BUROCRATAS II
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Desenhos de João da Silva, do coletivo Miséria e da Revista Miséria. Entre no site da Revista aqui ao lado, na lista de blogs e sites amigos.
Espero que os burocratas não tenham sossego e os lambe-cus também.

VALE DOS BUROCRATAS MORTOS NÚMERO 3

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Proponho que leiam ou releiam o conto de Victor Judice, O ARQUIVO. Este conto, dizem, é o conto brasileiro mais publicado. 27 vezes, claro que não conta as duas vezes neste jornaleco.

No terreno fantástico da poesia recomendo A Burocracia, de Francisco de Carvalho


O ARQUIVO, de Victor Giudice

31/10/2012

O arquivo

Victor Giudice

CONTOS DA MEIA NOITE, interpretado por Antônio Abujamra, do conto de Victor Giudice, O Arquivo


curta narrado por Antônio Abujamra

No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos.

joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.

No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.

Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.

Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.

O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.

Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.

Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.

Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.

Prosseguiu a luta.

Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.

joão preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.

Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.

Respirou descompassado.

— Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.

joão baixou a cabeça em sinal de modéstia.

— Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.

O coração parava.

— Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.

A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.

— De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?

Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.

Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.

Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduzira-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.

Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência. A vida foi passando, com novos prêmios.

Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.

O corpo era um monte de rugas sorridentes.

Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho. Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:

— Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.

O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:

— Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria.

O chefe não compreendeu:

— Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?

A emoção impediu qualquer resposta.

joão afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento.

João transformou-se num arquivo de metal.

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Inércia(2), por João da Silva

11/11/2010


Os quadrinhos dessa série foram feitos com base em conversas com o Júlio, o químico do KAOS, a Tessy, da ITCP e o Mário do Jornal do Porão. A Inércia 1 é uma HQ de 5 páginas que saiu na revista Miséria número 3. A Inércia 3 to mandando pra Revista Casuística.

Neste jornaldoporao já foi publicado o conto de Victor Giudice, “O Arquivo”. Nenhuma pessoa que odeie a burocracia e os burocratas pode deixar de lê-lo. Assim como a poesia “A Burocracia”, de Francisco de Carvalho, também publicada no jornaldoporão.
Mas gostaria muito que relessem ou lessem um artigo publicado no jornaldoporao quando da inaguração do AEL. Artigo que na época (21 de novembro de 2009) causou muita celeuma, gritos, ameaças, muchoços e um camissão para tentar amendrontar e calar o jornaldoporao. A revista eletrônia da LER-QI publicou o texto e aqui está o link.


Um artigo profético, Jornal do Porão no. 1

05/10/2010

Para quê reeditar um jonalzinho? Para não precisar escrever outro quase igual. E para provar que dava prever o que iria acontecer. A burocracia não vive sem se reproduzir. E quando ela perde um tentáculo, nasce automaticamente outro, como os dentes dos tubarões, feitos para devorar. Quando foi escrito este Jornal do Porão 1, a celeuma foi grande. O antigo diretor ameaçava de punição. Puniu, na verdade, chamando na sua sala. Diga-se de passagem, os 10 números do Jornal do Porão foram assediados, ameaçados. Como uma agenda do IFCH registrou, em foto de uma faixa, “no IFCH tem fala-se muito em democracia, o que falta são democratas”. A previsão fundamental deste Jornal de mais de um ano é que voltaríamos a ter 6 chefes. E todas as mudanças era para voltar mais ou menos o mesmo, piorado. Se antes tínhamos 7 chefes, voltaríamos a ter 6, mas destes, um super-chefe. Piores dias virão. Porque tanta certeza? Porque burocracia é algo parasitário. E quanto mais burocratas, pior ficam as coisas.

[Jornal do Porão n. 1 – A DANÇA DOS NÚMEROS]
26 de agosto de 2009

Acabei de me dar conta que no ARQUIVO, notem bem, no AEL não tem arquivista. É um pequeno exagero, pois entre os atuais 17 funcionários, se incluirmos 2 chefes, talvez destes 17, 2 destes funcionários têm curso de especialização em arquivo e exerce a função. Há outros 2 que têm mas não exerce. Veremos que não apenas os números do Arquivo são dúbios, oscilantes…

Outra notícia intrigante é que no AEL tínhamos 7 chefes para 18 funcionários; ou seja, 1 chefe para 2,5 funcionários. Está havendo mudanças. Agora temos 4 chefes para…. 15 …. , pois às 4 chefes das antigas seções que estão sendo reestruturadas, foram solicitadas a entregar seus cargos e foi nomeada uma “chefia técnica”.

[ E aqui começa a dança dos números e das palavras]

Se são, atualmente, 4 chefes para 15 funcionários, mas quem manda mesmo são dois professores , o Diretor e o Vice.

Então poderíamos ser 19, mas não somos, continuamos 17. Pois professores são, ocupam o topo da carreira de funcionário, mas não exerce qualquer função de funcionário. Eles são super-funcionários, mas nunca simples funcionários. Não estão submetidos ao estatuto dos funcionários, mas ganham as gratificações que seriam dos funcionários. Por exemplo, já houve caso de antigo Diretor do AEL saiu para assumir outro posto, deixando coisas para assinar. Isto pelo estatuto dos funcionários daria demissão por justa causa. Outros dois antigos diretores foram embora sem mesmo se despedir; de repente soubemos que tinham desistido de ser diretores. Também numa espécie de abandono de suas responsabilidades. Mas quem iria responsabilizá-los? Não foram e não serão.

Podemos ter nomeado mais dois chefes para os atuais 15 funcionários, pois as antigas 4 secções virariam 2. Então seriamos 13 funcionários para 6 chefes, ou seja, 1 chefe para cada 2.

Voltando a falar em 15. Destes 15 uma funcionária já é aposentada. Outra aposenta em outubro, o que nos tornaríamos 13; está para chegar uma bibliotecária para o arquivo, seríamos então 14. {Parece piada pronta mais não é. Recrutaram para um arquivo que não tem arquivista uma bibliotecária}. Terminaremos o ano com 14 funcionários para 4 (ou 6) chefes.

Notícia fresquinha, neste momento chegou um patrulheiro.

SAÍDAS DO AEL. Uma das ex-chefes que ajudou a destruir sua secção, brigando com 5 funcionários que por isso mesmo saíram do arquivo, esta ex-chefe “responsável” por um das principais atividades do arquivo, saiu, com vaga e verba, ou seja, ela não pode ser substituída. A atual direção do instituto permitiu este desfalque. Talvez porque tenhamos muitos funcionários!!!! E foi esta mesma ex-chefe, numa secção que precisa muito de arquivista, que ficou na banca, para selecionar, segunda a sua própria sugestão, uma bibliotecária, para um seção que precisa de arquivista (seção que pelo organograma de 10 anos atrás previa 10 funcionários e hoje tem 3, uma podendo aposentar a qualquer momento.

É para o bem do Arquivo e da Unicamp que alguns funcionários morram. Os dirigentes esperam ansiosamente por isso. Pois existe uma lei estadual que veta a substituição dos funcionários estatutários (CLE) quando aposentam. Um deles é este que vos escreve. Em 18 meses me aposento e sou CLE. Logo é um dos motivos para torcerem para que eu morra, ou o Arquivo não poderá contar com um novo funcionário. Perderão, agora não poderei usar mais o nós, perderão portanto mais uma vaga. Acrescentando um pitadinha de caos à notícia, as duas anteriores funcionárias que se aposentam também são CLE e não podem ser substituídas. Ou melhor, talvez serão por terceirizados ou contratados.

Outra noticinha funesta. Um das melhores funcionárias do Arquivo, do meu ponto de vista. Cheia de iniciativa. Determinada. Responsável. Pau-para-toda-obra. Trabalhou tanto e com tanto afinco que teve sua coluna comprometida e passou por uma operação de risco. Talvez nunca mais poderá fazer tanto esforço. O capitalismo é cruel, mas as pessoas são mais ainda. Ela será demitida, quase que por justa causa, pois não receberá nada, pois teve seu contrato considerado nulo. Ela pagará pelos erros e …. dos nossos reitores e administradores… Ela não poderá trabalhar mais como sempre trabalhou. Por ser uma “subalterna”, ela deixa aqui no Arquivo um pedaço fundamental do seu próprio corpo. Vai embora sem glória e sem nada daqui a três meses. Poderia dizer que ficaríamos então com 13 funcionários para 4 (ou 6 ) chefes. Mas os números aqui também mentem. Pois a Neidinha trabalhou pelo Arquivo muito mais que todos os ex-chefes e, bem provável, muito mais trabalhou, ralou, deformou-se, trabalhando pelo Arquivo mais que a maioria dos funcionários também. Mais que trabalhou, mostrou sua inteligência e disposição para aprender, cumprindo com excelência tarefas bem complexas. Acho que seremos muito menos que 13 com a saída da Neidinha, apesar da aritmética dizer que seremos 13 para 4 (ou 6) chefes.

Nosso Arquivo é conhecido e reconhecido pela qualidade do seu atendimento, pelo seu acervo, pelas suas publicações… Mas isso está em risco. Esta qualidade foi mantida também pelo nível de seus funcionários. A decadência começou quando 6 deles, de nível superior , foram meio que chutados do arquivo. Destes 6 pelo menos 3 eram arquivistas . 3 destes 6 foram expelidos por aquela chefe muito responsável que saiu do arquivo com vaga e verba, desfalcando para sempre os nossos quadros. Esta chefe responsável que saiu também tinha curso superior. Saiu uma outra chefe, ou ex-chefe, também com curso superior. E aí vem a notícia do nosso atual diretor do Arquivo que vai pedir funcionários de nível médio, pois de nível seria impossível conseguir. Não há demérito algum, já que precisamos também, no arquivo, de funcionários de nível médio e muitos. O que não dá é para trocar 8 funcionários de nível superior + 1 que já está aposentada, portanto 9 funcionários de nível superior , por 2 de nível médio. É aceitar a decadência como nosso futuro. É aceitar que os funcionários de nível superior que existiam no Arquivo não eram necessários. Mas acho é que vamos decair mais ainda de qualidade.

Outra possível noticinha que não põe em risco o arquivo, nem muito menos significa qualquer caos ou problema grave, já que nossos diretores e chefes abominam qualquer destas palavras, mas que deve ser prevista, é que destes 13 presumíveis funcionários do AEL para 4 (ou 6) chefes ; que sem a Neidinha que vale por muitos, podemos ter ainda 2 outras aposentadorias a qualquer momento, ao que tudo indica. O que restaria 11 funcionários para 4 (ou 6) chefes. Ou mesmo voltaríamos a ter 13 funcionários para 4 (ou 6) chefes, caso nosso diretor conseguisse a “troca” dos 9 de nível superior que saíram por 2 de nível médio. Mas a conta se complica quando poderíamos ter 2 chefes saídos dos 11 ou 13 funcionários; o que nos tornaríamos 9 ou 11. Na melhor das hipóteses, destas duas hipóteses , seríamos 11 funcionários para 6 chefes,ou seja, 1 chefe para cada quase 2 funcionários. Mas, acho, há hipóteses muitos melhores que ter 6 chefes para 9, quase um chefe para cada funcionário, ou 6 chefes para 11 funcionários!!!! Mas a aritmética bastante complicada, esta dança de números, daria lugar ao caos/cômico, pois, nossa principal chefe, a Diretora Técnica, recém escolhida para o posto, a responsável por todo o quadro atual, poderia simplesmente aposentar a hora que quisesse, ou pelo menos brevemente se quisesse.

O número de funcionários, e mesmo de chefes, como quis demonstrar é um número flutuante e aleatório e com perspectiva nada animadoras. Saíram 9. Podem aposentar 4, digamos nos próximos 2 anos. Veio um. Virá mais 1. Podem vir mais 2. Este quadro é, para mim, um catástrofe. Indica um futuro de sobrecarga, doença (como já aconteceu com a Neidinha), afastamento por doença… Ou o que é pior, terceirização e contratação por tempo determinado, o que seria um risco maior ainda para um Arquivo do movimento operário (a biblioteca, e o risco que correu, atesta do que pode a terceirização para gerar catástrofes e irresponsabilidade).

A importância do Arquivo para a pesquisa acadêmica é mais que comprovada pelas quase 500 teses ou dissertações produzidas aqui. No entanto há outra importância muito maior. Aqui estão documentos originais e únicos do movimento operário, popular e democrático deste país. Qualquer ataque a este arquivo, por negligência, cupim ou água, ou até sabotagem da direita, coloca em risco documentos dos heróis do nosso povo. A classe dominante sempre soube prezar pela sua história e pagar regiamente seus escribas para contá-la. A história dos de baixo quase sempre foi contada pelos escribas a soldo dos de cima. Há muito pouco tempo na história que trabalhadores, operários ou escravos juntam e guardam documentos. Mas guardar documentos também é um documento da luta dos trabalhadores contra a opressão, pois ditadores, é até mesmo “democratas” como o presidente Sarney, mandou destruir documentos dos trabalhadores (pior, quase sem protesto na democracia da nova república de Sarney – é uma outra história). E é com estas pessoas, ligadas e amantes da luta do povo com que eu gostaria de corresponder, para cumprir nosso papel também nesta frente de luta árdua que é preservar a história dos trabalhadores, que, repito, está sempre em risco, por cupim, traça, descaso, fogo, água, desorganização, ideologia…

Pretendo manter este tipo “jornalzinho”, com notícias e lembranças. Mas esperaria que as pessoas se correspondessem comigo, dando sugestões e fazendo perguntas.

Um abraço,


NADA É NEUTRO NEM MESMO A BRANCURA DA PIRÂMIDE BRANCA DO ARQUIVO EDGARD LEUENROTH…

30/09/2010



brancura da pirâmide branca do AEL 003

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

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Se for olhada pelos olhos de uma extenuada trabalhadora terceirizada.




terceirização coletivo Miséria 006

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

Nunca limpou um chão quem mandou fazer um chão de granito clarinho num prédio situado num ermo, cheio de terra, pó, barro, folhas. Mas quem foi que mandou fazer este prédio para torturar trabalhadoras terceirizadas? Esta dolorida trabalhadora terceirizada é obrigada a ficar de quatro para esfregar sujeirinhas no chão e escadas e, pasmem, limpar portas, batentes e paredes, para deixar tudo branquinho como um manicômio ou como a sala de entrada de algum hospital de rico ou da entrada de algum céu imaginário. Porque raios não pintaram isso de outra cor? Porque diabos não repintam? Porque têm que ficar explorando, machucando e humilhando trabalhadoras? Mas quem foi que decidiu fazer um inferno pintado de branquinho para parecer a entrada de um ceuzinho? Ou é uma pessoa cínica ou brincalhona? Ou quem sabe é apenas uma pessoa que naturalizou tanto a exploração da sua empregada doméstica que quer transformar a Unicamp, e aqui o AEL, numa casa grande escravagista.

Numa reunião com todos os funcionários alguém falou, com toda sua autoridade professoral, que é “assim mesmo”. Não tem o que se possa fazer. E tem que ficar de quatro mesmo, se é necessário. Estas palavras tão violentas foram faladas num tom blasé do burocrata pertinaz. Eu fiquei desconcertado diante de tal naturalidade de senhor de engenho. Será que para o leitor adivinhar quem poderia falar assim como senhor de escravo? Tenho certeza que você não conseguirá. E tive medo de retrucar e fazer mais uma batalha desigual. Mas ali mesmo já tinha decidido contar esta história aqui no jornaldoporao, esperando que meu leitor seja de outra estirpe.

Você não vai acreditar ou nem vai se importar com informações tão comezinhas. A firma limpadora dá um paninho de 40 X 60 que não pára no rodo e a trabalhador tem que abaixar toda hora para ajeitar o pano no rodo. Pior, o pano não para porque o granito é liso demais. Informação boba, não. Mas não para a coluna desta trabalhadora que já é uma espécie de ovo saltado.

Depois do almoço as trabalhadoras terceirizadas que não têm onde ficar e descansar ficam deitadas em papelões ou em marquises de ponto de ônibus. A elite intelectual da Unicamp acha isto tudo muito natural, muito necessário, para que seu mundo continue o mesmo, que suas regalias, núcleos, centros e fundações continuem os fluxos de dinheiro e prestígios.

Isso em alguma importância para você? Se os trabalhadores terceirizados do mundo inteiro passam por coisas iguais ou pior. Porque ficar falando do AEL e da Unicamp. Porque não aceitar o que a maioria aceita e ficar quietinho cuidando da própria vida? Há colegas que calam em busca de um promoçãozinha. E dá certo, eles conseguem. Outros ficam coladinhos no chefe, trazem bolos de aniversário e dá tudo certo, eles se sentem afagados e cheios de si. Agora ficou bem claro que as trabalhadoras terceirizadas podem também participar de qualquer dos nossos ambientes. E com muita timidez, é claro, elas também ficarão contentes. Mesmo porque elas também acham de não tem jeito, que são e serão escravizadas de qualquer jeito. Mas que marxismo me permite aceitar isso?

Mas quase desisti de contar estas historinhas insípidas, normais, cotidianas. Todo mundo sabe que assim. Há pessoas que viram e sofreram coisas piores. No corte de cana de Ribeirão Preto em um único ano morreu 13 trabalhadores de exaustão. Aqui na Unicamp os marxistas acadêmicos, os revolucionários de blazer, vão lhe mostrar que as trabalhadoras terceirizadas, aqui na UNICAMP, são mais bem tratadas que na USP.Que nas indústrias os trabalhadores terceirizados são mais explorados ainda, tendo que pagar ônibus. Onde os capazes quase têm direito de vida ou morte. Os marxistas de cabelos enxampuados também vão lhe dizer que na China é muito pior. Vão demonstrar que o problema está no sindicalismo pelego e patronal. Vão tentar demonstrar que a terceirzação é inevitável. Que o Brasil e a Unicamp precisam explorar as trabalhadoras e trabalhadores terceirizados para desenvolver a ciência, coisa fundamental para o país, que o Brasil precisa de empresas terceirizadas para poder competir no mercado mundial de mercadorias. Bláblábláblá. Os marxistas de colarinho branco são realmente sábios e realistas!!!. Mas será porque então que eu leio Marx, Lênin e Trotski e fico cada vez mais revoltado?

Mas quase desisto de contar esta historinha banal e insípida quando me lembro que toda a classe média estudantil, todo mundo que chega ao Arquivo Edgard Leuenroth fica extasiado diante da brancura da pirâmide branca do AEL. Todo mundo fica maravilhado com as 30(trinta lâmpadas) que ilumina a sala branquinha da entrada, como se fossem mariposas.

Será que a trabalhadora terceirizada que hoje se arrebenta para manter esta brancura monumental também ficou petrificada com tal beleza?




brancura da pirâmide branca do AEL 006

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

Assim como os judeus, a caminho do forno crematório, achavam que estavam indo para um banho em banheiros limpinhos. Num átimo e já estertorando, num lampejo de consciência envergonhada, viam que em vez de água do chuveiro saia gás letal. Mas todo mundo sabe que aqui ninguém morre. Elas podem até comer junto com a gente. E se adoecerem da coluna ou de qualquer outra coisa, todos os trabalhadores adoecem, sofrem e morrem. E se os trabalhadores terceirizados trabalharem bastante vão até aliviar o meu lado e trabalharemos menos e receberemos um salário 6 ou 7 vezes maior que eles. Como vêm nós não somos injustiçados. E temos que agradecer aos trabalhadores terceirizados por nos livrar nos trabalhos mais pesados.




CONTRA A TERCEIRIZAÇÃO (21)

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

E eu continuarei defendendo, contra os burocratas, contra os privilegiados, contra os donos de escravo, na escravidão moderna chamada terceirização, que estes trabalhadores têm que ser incorporados imediatamente aos quadros do funcionalismo.




terceirização coletivo Miséria 006

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

A luta no país inteiro e no mundo inteiro, de todos os sindicatos não traidores, de todos os partidos não traidores (como o PT é), todos os revolucionários, para serem dignos deste nome, terão que lutar pela efetivação imediata dos trabalhadores terceirizados e lutar, à morte, contra toda e qualquer terceirização. Sabemos que será uma luta violenta, pois o capitalismo hoje, para tentar amenizar a crise, terceiriza, escraviza e humilha.

DUAS NOTÍCIAS DO DIA SEGUINTE

A trabalhadora terceirizada está esfregando a brancura sozinha e gemendo de dores na coluna.

E hoje às 10 horas haverá manifestação no escritório da empresa terceirizada Centro que demitiu uma trabalhadora porque ela assistiu a um ato de protesto em frente ao restaurante, semana passada. E outras foram advertidas.

Na Assembléia de ontem o STU, o sindicato, depois de muita insistência, se comprometeu a acompanhar as manifestações.


Jornal do Porão volta ao combate aos podres poderes e às malvadezas em geral

01/07/2010

Jornal do Porão volta ao combate aos podres poderes e às malvadezas em geral.

A greve consumiu todas as energias deste redator. Não foi possível atualizar o Jornal do Porão. Agora, depois da greve, abre-se uma nova etapa de luta.

Em primeiríssimo lugar ficou patente que não temos instrumento algum de luta, a não ser nossa vontade. O sindicato é uma agência burocrática, e sabemos agora muito violenta, do governismo. Além governismo é um paquiderme burocrático pelo tamanho, lento como uma tartaruga para nos defender, mas ágil e traiçoeiro como uma cascavel quando querem defender seus privilégios burocráticos[veja um pouco do seu veneno e contra-veneno do blog EM DEFESA DE MÁRIO BIGODE]; cheio como se fosse uma repartição pública, onde um montão de funcionários trabalha o dia todo para prestar serviços que deveriam ser prestados pela extensão universitária ou outros órgãos públicos. Só que pago com o nosso dinheiro que vai dar poder de barganha a essa burocracia. E agora ainda quer ficar mais burocraticamente forte depois que entrou, e “ganhou”, na justiça para cobrar o nefasto imposto sindical que só serve para encher barriga de burocrata sindical, e dar cacife para promover seus podres poderes eleitorais; e possibilitar negociações pelas nos antros das camarilhas do poder. Para resumir, temos que nos preparar, organizar e unirmo-nos para forjar um novo sindicalismo. Há um modelo: O Sindicato dos Trabalhadores da USP. E aqui, neste jornaldoporao.wordpress.com falaremos exaustivamente dele. E espero que todo o leitor deste Jornal do Porão contribua com este debate.


cuba 50 anos da revolução

06/04/2010


Fotos (mal)feitas a partir do Jornal Gramma, órgão oficial do Partido Comunista Cubano. Mostra o que o trabalhador cubano pôde fazer de uma bicleta um meio de transporte coletivo e de sua revolução em 1959 um despertar para toda América Latina. Hoje cercada pelo embargo dos EUA, cada vez mais isolada, mesmo no pensamento dos partidos de esquerda, burocratizada, mas mesmo assim merece ser defendida pelo que significa na luta contra o imperialismo e pelo socialismo. Assim como defendemos um sindicato invadido pela polícia, mesmo que dirigido por uma burocracia anti-operária, corporativista e até mesmo de direita; da mesma forma não pode haver dúvida que devemos defender o que resta de propriedade estatal em Cuba, apesar da burocracia cubana, autoritária e contra-revolucionária. Defendemos apesar dos pelegos e apesar da burocracia.
Vi, pena que não anotei, nem tinha meios de fotografar ou gravar, um documentário onde um trabalhador vietinamita pedalava com três porcos vivos, amarrados na sua bicicleta. Gravou na minha mente quase a fogo, pois vietcong, como eram chamados os vietnamitas pelos estadunidenses invasores, queria dizer, pelo menos é o que diziam no início da década de 70, porcos do vietnã. E, com certeza, eram como os invadores estadunidenses e os traidores chamavam os guerrilheiros. Não devia ser um elogio.

PS. Quem quiser ser comunicado, via e-mail, por novos textos postados, contate-nos pelo e-mail mariomartinsdelima53@gmail.com e será acrescentado(a) na lista Jornal do Porão.


Um relatório para a Academia, de LUIZ FELIPE PONDÉ

27/02/2010

LUIZ FELIPE PONDÉ

Um relatório para a Academia

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Cálculos para garantia do emprego ocupam o tempo da classe
acadêmica
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CLÓVIS ROSSI pergunta em sua coluna do dia 8 de setembro, página

Pondé

A2,
se no Brasil vivemos algo como o que acontece na vida universitária
da Espanha hoje: desinteresse dos alunos e asfixia burocrática dos
professores. Sim, há semelhanças.
Nos anos 50, o filósofo norte-americano Russel Kirk descrevia um
fenômeno interessante nas universidades americanas.
A partir do momento em que a vida acadêmica se tornou objetivo da
“classe média”, gente sem posses, a vida universitária entrou em
agonia porque a proletarização dos acadêmicos se tornou inevitável.

Dar aula numa universidade passou a ter algum significado de
ascensão social. A partir de então o carreirismo necessariamente
assolaria a academia, assim como assola qualquer emprego.
Cálculos estratégicos para garantia do emprego passaram a ocupar o
tempo da classe acadêmica. E muita gente que vai dar aulas na
universidade não é tão brilhante assim ou tão interessada em
conhecimento.

O cálculo estratégico hoje passa pelo número de alunos que implica

Pondé

uma redução ou não de aulas e orientações de teses.
Ou mesmo nas públicas, onde você está mais protegido da
proletarização imediata, uma verba maior ou menor para seu projeto e
mais ou menos discípulos causarão impacto na renda final e na imagem
pública.

Daí o desenvolvimento em nós de um espírito selvagem: o
corporativismo em detrimento do ensino ou o ethos de gangues em meio
à retórica da qualidade.

Muitas pessoas (alunos e professores) buscam a universidade não para
“conhecer” o mundo, mas sim “para transformá-lo” ou ascender
socialmente.

E aqui, revolucionários (“criando o mundo que eles acham melhor”) e
burgueses (interessados em aprender informática para “melhorarem de
vida”) se dão as mãos.

Este pode ser mais individualista do que o outro, mas ambos fazem da
universidade uma tenda de utilidades.
Para mim não faz muita diferença, para a banalização da
universidade, se você quer formar gestores de negócios ou gestores
de favelas. Nenhum dos dois está interessado em “conhecer” o mundo,
mas sim “transformá-lo”.

ETHOS DE GANGUES

É claro que nos gestores de favelas o espírito selvagem pode
funcionar tão bem quanto entre os gestores de negócios. A obrigação
da universidade em produzir “conhecimento de impacto social” é tão
instrumental quanto produzir especialistas na última versão do
Windows.

Pondé

O utilitarismo quase sempre ama a mediocridade intelectual. Falemos
a verdade: a mediocridade funciona.
Ela gera lealdades, produz resultados em massa, convive bem com a
estatística, evita grandes ideias. Enfim, caminha bem entre pessoas
acuadas pela demanda de sobreviver.

A instrumentalização é quase sempre outro nome para utilitarismo.
I

sso não quer dizer que devamos excluir da universidade as almas que
querem ser gestores de negócios ou gestores de favelas -elas é que
excluem todo o resto.

Precisamos dos dois tipos de almas, e cá entre nós, acho que os
gestores de favelas são moralmente mais perigosos do que os gestores
de negócios. Como todos nós, ambos irão para o inferno, a diferença
é que os gestores de favelas acham que não.

E a asfixia burocrática? Ahhh, a asfixia burocrática! Esta contamina
tudo e em nome da democratização da produção e da produtividade da
produção.

A burocracia na universidade nasce, como toda burocracia, da
necessidade de organização, controle, avaliação.

Não é um sintoma externo a busca de aperfeiçoamento do sistema, é
parte intrínseca ao sistema. A pressão pela produtividade
proletariza tanto quanto a pressão pela carreira.

Soa absurdo, caro leitor? Quer mais?

Em nome da transparência da produção, atolamos esses indivíduos de
classe média na burocracia da transparência e do acesso à produção
universitária.

Enfim, a “produção” asfixia a universidade em nome de uma
“universidade mais produtiva, democrática e transparente em sua
produtividade”. Estamos sim falando da passagem da universidade a
banal categoria de indústria de conhecimento aplicado, e sob as
palmas bobas de quem quer “fazer o mundo melhor”. Tudo bem que
queira, mas reconheça sua participação na comédia.
Kafka, em seu conto “Um Relatório para a Academia”, já colocava um
ex-macaco, recém-homem, fazendo um relatório para os acadêmicos.
Ali ele já suspeitava que a academia continha algo de circo ou show
de variedades. Hoje sabemos que isto já aconteceu.

ponde.folha@uol.com.br
São Paulo, segunda-feira, 14 de setembro de 2009



CONCEITOS RETIRADOS DOS TEXTOS ABAIXO, CUJO TÍTULO E CONTEÚDO DO ORIGINAL SÃO MANTIDOS AO CLICAR NOS LINKS.

1. DELINQUÊNCIA ACADÊMICA, de Maurício Tragtemberg

2. BAGRINHOS, do texto de Alfredo Marques

3. HOMEM-DISPOSITIVO, do texto de Francisco Foot Hardman

4. FIM DA UNIVERSIDADE PÚBLICA, do texto de Marilena Chauí

5. ETHOS DE GANGUE, do texto de Luiz Felipe Pondé

6. MIKE BONGIORNO, do ensaio de Umberto Eco

7. CASTA DOS INTOCÁVEIS, da entrevista de Chico de Oliveira


quem são os homens dispositivos, professores e burocratas? leia o texto do Prof. Francisco Foot Hardman

27/02/2010

O HOMEM DISPOSITIVO, de Francisco Foot Hardman

[Ler texto completo no Portal da Unicamp]

Maestria na arte da devida obediência (O Estado de São Paulo – Aliás – 24/9/2006)
O homem-dispositivo não age só. Ele se apresenta como emissário

Francisco Foot Hardman*

Os nomes desses senhores já são farsa, piadas-prontas antes de serem pronunciados. Pensávamos nesse pesadelo impensável como uma peça de teatro do absurdo, se bem que nem Ionesco nem Arrabal seriam capazes de representar enganos em tal magnitude. Na arte contemporânea do não-sentido, a figuração da mentira alcança a elevação sublime que duvida da razão humana ainda em nome dela mesma. Na cena rasteira da política atual, a mentira não se fantasia de nada: veste o manto da razão cínica e auto-administra-se como dispositivo do poder, alheia não só à tão propalada moral, mas antes e acima disso à própria idéia de qualquer pensamento que restaurasse ao menos as pegadas de nossas utopias perdidas. Aquelas que o iluminismo (ou ilusionismo, conforme PCC) um dia dizia ter inventado.

Por isso, não há que se fazer questão dos nomes, porque os personagens já se embaralharam há muito. Pois todo Lula tem seu Serjão, assim como todo FHC deve ter tido seu PC Farias e, afinal, todo Collor possui seu Zé Dirceu. Vejam que agora mesmo os presidentes do PFL (Jorge Bornhausen) e do PSDB (Tasso Jereissati) não estão muito preocupados com nomes, afora o do candidato-presidente. Para os dois caciques, mais importante até que a origem da grana apreendida com agentes destemidos do “comissariado para mídias arriscadas” do PT, o xis do negócio é o flagrante fotográfico das notas, do cofre, das malas, obsessão que mal disfarça sua nostalgia daquelas imagens quase em tempo real que vieram à TV na campanha presidencial de 2002, diretamente do comitê da candidata Roseana Sarney, ao que tudo indica numa operação mais eficaz que a atual, quando não em truculência, naquela blitz da Polícia Federal com forte cheiro tucano. Pena que tal fúria justiceira tenha se dissipado nos ventos do esquecimento, quando se tratou, pouco tempo atrás, de se concluir a CPI do Banestado, cujo final sem final, que a muitos certamente interessava, contou com a eficiente dupla de homens-dispositivo, irmanados no verbo acobertar, José Mentor (PT) e Antero Paes de Barros (PSDB).

Mas, afinal, quem são os homens-dispositivo, que a robótica da sociedade global-financista do espetáculo, mais que a ciência política dos estados-nações, poderia nos configurar? Como já sugeri, esqueçamos por ora os nomes, porque a rigor todas as carteiras de identidade já aparecem falsas e fiquemos aqui no esboço preferencial de seu perfil. Fecham-se os círculos e arma-se o circo. Somos 126 milhões de “patrões”, diz-nos, com a mesma pompa que vem de longe, em seu exibicionismo bacharelesco, o presidente do TSE, Marco Aurélio de Mello. Acredite quem quiser. Os homens-dispositivo não agem sós, mas também não representam vontades particulares ou gerais. Por isso se apresentam indistintamente como emissários. São mestres na arte da obediência devida. Nascem nas ordens discursivas do aparelho jurídico-político, mas se espraiam pelos movimentos sociais. No Brasil recente, são exemplo notável as centrais sindicais, a começar pela CUT, que já nasceu velha em 1983, pois atrelada à estrutura sindical corporativa do Estado, herdada de Vargas, que por sua vez a herdou de Mussolini. Vejam esses homens-dispositivo do dossiê-Vedoin: quase todos fizeram carreira na CUT, quase todos prosperaram muitíssimo na vida, quase todos vivem de expedientes, projetos, dispositivos e ONGs. Retrocedamos ao mensalão (que já parece tão passado): Delúbio e Silvinho, homens de Dirceu, homem do Presidente – cutistas de primeira hora.

Não se restringe à esfera burocrático-sindical, entretanto, o homem-dispositivo. Pode estar nas grandes corporações industrial-financeiras ou de serviços. Estará certamente na grande imprensa, gráfica ou audiovisual. O ramo da propaganda e publicidade é bastante propício a seu florescimento. Idem, o da moda. No mundo do esporte globalizado, futebol à frente, o homem-dispositivo caminha célere para produzir resultados, inventar mitos, ganhar muito na fugacidade do jogo efêmero, das celebridades natimortas, dos patrocínios suspeitos, dos contratos-fantasmas.

Também na universidade contemporânea tomada de assalto pela ideologia produtivista e empresarial, convenhamos: homens-dispositivo ocupam o lugar do antigo poder acadêmico, ditam normas, centralizam recursos dirigidos prioritariamente à auto-reprodução, substituem o eixo ensino-pesquisa por perspectiva de extensão sem limites nem finalidade. O conhecimento desinteressado cede terreno a interesses conhecidos ou obscuros. Em nome da democratização, facilitam-se avaliações. Debates de idéias podem virar meras sessões de entretenimento. A educação sossobra nos corredores das políticas mais obscurantistas e de convênios picaretas.

E do aparato policial, então, claro, sobejam homens-dispositivo. E igualmente das igrejas pós-modernas. Dali e de cá poderão, sempre, nascer vocações irresistíveis. Assessores de campanhas eleitorais, leões-de-chácara de bingos, analistas de mídias arriscadas, capangas de colarinho branco, advogados de criminosos e sobretudo advogados do crime, pouco importa, essas funções se equivalem nos novos modos de dominação. Com alguma prática, a gente pode sacá-los de longe. Com suas pastinhas, laptops e gravatas. Fazendo emendas parlamentares ou parlamentando sobre as emendas feitas e suas respectivas cotações. Sacando dinheiro-vivo. Atravessando fronteiras mortas. Pelos meios de transporte tradicionais, ou on-line. Assim se fazem homens para presidentes. Assim se fazem presidentes reais.

Mas, atenção, esse processo não é em absoluto privilégio do povo brasileiro. O homem-dispositivo, parte dos mecanismos estatal-financeiros globalizados, pode trazer uma bomba na cintura ou dólares na bolsa. Depende. Daí que se redobrem cuidados. A única certeza é de que essa silhueta demasiadamente parecida com humana é só farsa, homem sem sombra, no desassossego da agitação sem causa, porque já sem pensamento, porque já sem palavra com nexo, porque já sem razão para. E nós, sim, seres realmente existentes, que realmente nada sabíamos, tornamo-nos à revelia apêndices vivos dessas marionetes sem vida. Não somos seus “patrões”, mas antes seus servos involuntários. Romper essas engrenagens: é a única condição para voltarmos a sonhar.

*Francisco Foot Hardman é professor de Teoria e História Literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp

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UNICAMP NA MÍDIA – FALE CONOSCO

Francisco Foot Hardman*

Os nomes desses senhores já são farsa, piadas-prontas antes de serem pronunciados. Pensávamos nesse pesadelo impensável como uma peça de teatro do absurdo, se bem que nem Ionesco nem Arrabal seriam capazes de representar enganos em tal magnitude. Na arte contemporânea do não-sentido, a figuração da mentira alcança a elevação sublime que duvida da razão humana ainda em nome dela mesma. Na cena rasteira da política atual, a mentira não se fantasia de nada: veste o manto da razão cínica e auto-administra-se como dispositivo do poder, alheia não só à tão propalada moral, mas antes e acima disso à própria idéia de qualquer pensamento que restaurasse ao menos as pegadas de nossas utopias perdidas. Aquelas que o iluminismo (ou ilusionismo, conforme PCC) um dia dizia ter inventado.

Por isso, não há que se fazer questão dos nomes, porque os personagens já se embaralharam há muito. Pois todo Lula tem seu Serjão, assim como todo FHC deve ter tido seu PC Farias e, afinal, todo Collor possui seu Zé Dirceu. Vejam que agora mesmo os presidentes do PFL (Jorge Bornhausen) e do PSDB (Tasso Jereissati) não estão muito preocupados com nomes, afora o do candidato-presidente. Para os dois caciques, mais importante até que a origem da grana apreendida com agentes destemidos do “comissariado para mídias arriscadas” do PT, o xis do negócio é o flagrante fotográfico das notas, do cofre, das malas, obsessão que mal disfarça sua nostalgia daquelas imagens quase em tempo real que vieram à TV na campanha presidencial de 2002, diretamente do comitê da candidata Roseana Sarney, ao que tudo indica numa operação mais eficaz que a atual, quando não em truculência, naquela blitz da Polícia Federal com forte cheiro tucano. Pena que tal fúria justiceira tenha se dissipado nos ventos do esquecimento, quando se tratou, pouco tempo atrás, de se concluir a CPI do Banestado, cujo final sem final, que a muitos certamente interessava, contou com a eficiente dupla de homens-dispositivo, irmanados no verbo acobertar, José Mentor (PT) e Antero Paes de Barros (PSDB).

Mas, afinal, quem são os homens-dispositivo, que a robótica da sociedade global-financista do espetáculo, mais que a ciência política dos estados-nações, poderia nos configurar? Como já sugeri, esqueçamos por ora os nomes, porque a rigor todas as carteiras de identidade já aparecem falsas e fiquemos aqui no esboço preferencial de seu perfil. Fecham-se os círculos e arma-se o circo. Somos 126 milhões de “patrões”, diz-nos, com a mesma pompa que vem de longe, em seu exibicionismo bacharelesco, o presidente do TSE, Marco Aurélio de Mello. Acredite quem quiser. Os homens-dispositivo não agem sós, mas também não representam vontades particulares ou gerais. Por isso se apresentam indistintamente como emissários. São mestres na arte da obediência devida. Nascem nas ordens discursivas do aparelho jurídico-político, mas se espraiam pelos movimentos sociais. No Brasil recente, são exemplo notável as centrais sindicais, a começar pela CUT, que já nasceu velha em 1983, pois atrelada à estrutura sindical corporativa do Estado, herdada de Vargas, que por sua vez a herdou de Mussolini. Vejam esses homens-dispositivo do dossiê-Vedoin: quase todos fizeram carreira na CUT, quase todos prosperaram muitíssimo na vida, quase todos vivem de expedientes, projetos, dispositivos e ONGs. Retrocedamos ao mensalão (que já parece tão passado): Delúbio e Silvinho, homens de Dirceu, homem do Presidente – cutistas de primeira hora.

Não se restringe à esfera burocrático-sindical, entretanto, o homem-dispositivo. Pode estar nas grandes corporações industrial-financeiras ou de serviços. Estará certamente na grande imprensa, gráfica ou audiovisual. O ramo da propaganda e publicidade é bastante propício a seu florescimento. Idem, o da moda. No mundo do esporte globalizado, futebol à frente, o homem-dispositivo caminha célere para produzir resultados, inventar mitos, ganhar muito na fugacidade do jogo efêmero, das celebridades natimortas, dos patrocínios suspeitos, dos contratos-fantasmas.

Também na universidade contemporânea tomada de assalto pela ideologia produtivista e empresarial, convenhamos: homens-dispositivo ocupam o lugar do antigo poder acadêmico, ditam normas, centralizam recursos dirigidos prioritariamente à auto-reprodução, substituem o eixo ensino-pesquisa por perspectiva de extensão sem limites nem finalidade. O conhecimento desinteressado cede terreno a interesses conhecidos ou obscuros. Em nome da democratização, facilitam-se avaliações. Debates de idéias podem virar meras sessões de entretenimento. A educação sossobra nos corredores das políticas mais obscurantistas e de convênios picaretas.

E do aparato policial, então, claro, sobejam homens-dispositivo. E igualmente das igrejas pós-modernas. Dali e de cá poderão, sempre, nascer vocações irresistíveis. Assessores de campanhas eleitorais, leões-de-chácara de bingos, analistas de mídias arriscadas, capangas de colarinho branco, advogados de criminosos e sobretudo advogados do crime, pouco importa, essas funções se equivalem nos novos modos de dominação. Com alguma prática, a gente pode sacá-los de longe. Com suas pastinhas, laptops e gravatas. Fazendo emendas parlamentares ou parlamentando sobre as emendas feitas e suas respectivas cotações. Sacando dinheiro-vivo. Atravessando fronteiras mortas. Pelos meios de transporte tradicionais, ou on-line. Assim se fazem homens para presidentes. Assim se fazem presidentes reais.

Mas, atenção, esse processo não é em absoluto privilégio do povo brasileiro. O homem-dispositivo, parte dos mecanismos estatal-financeiros globalizados, pode trazer uma bomba na cintura ou dólares na bolsa. Depende. Daí que se redobrem cuidados. A única certeza é de que essa silhueta demasiadamente parecida com humana é só farsa, homem sem sombra, no desassossego da agitação sem causa, porque já sem pensamento, porque já sem palavra com nexo, porque já sem razão para. E nós, sim, seres realmente existentes, que realmente nada sabíamos, tornamo-nos à revelia apêndices vivos dessas marionetes sem vida. Não somos seus “patrões”, mas antes seus servos involuntários. Romper essas engrenagens: é a única condição para voltarmos a sonhar.

*Francisco Foot Hardman é professor de Teoria e História Literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp

CONCEITOS RETIRADOS DOS TEXTOS ABAIXO, CUJO TÍTULO E CONTEÚDO DO ORIGINAL SÃO MANTIDOS AO CLICAR NOS LINKS.

1. DELINQUÊNCIA ACADÊMICA, de Maurício Tragtemberg

2. BAGRINHOS, do texto de Alfredo Marques

3. HOMEM-DISPOSITIVO, do texto de Francisco Foot Hardman

4. FIM DA UNIVERSIDADE PÚBLICA, do texto de Marilena Chauí

5. ETHOS DE GANGUE, do texto de Luiz Felipe Pondé

6. MIKE BONGIORNO, do ensaio de Umberto Eco

7. CASTA DOS INTOCÁVEIS, da entrevista de Chico de Oliveira


FENOMENOLOGIA DE MIKE BONGIORNO, de Umberto Eco

21/02/2010

FENOMENOLOGIA DE MIKE BONGIORNO, de Umberto Eco

Mike Bongiorno

O homem rodeado pelas mass media é no fundo, entre todos os seus semelhantes, o mais respeitado: não se lhe pede nunca senão que se torne aquilo que já é. Por outras palavras, são-lhe provocados desejos segundo a pauta das suas tendências. Porém, uma vez que uma das compensações narcóticas a que tem direito é a evasão pelo sonho, são-lhe habitualmente apresentados ideais, entre os quais e ele próprio se possa estabelecer certa tensão. Para retirar dos últimos toda a responsabilidade, tomam-se providências de modo a fazer com que tais ideais sejam de fato inatingíveis, de forma a que a tensão se resolva numa projeção e não numa série de operações efetivas orientadas para modificar o estado de coisas dado. Em suma, pede-se ao indivíduo que se transforme num homem com frigorífico e um televisor de vinte e uma polegadas, e isto quer dizer que se lhe pede que continue a ser como é, acrescentando aos objetos que possui um frigorífico e um televisor; em compensação, a ele propõe-se como ideal Kirk Douglas ou Superman. O ideal do consumidor de mass media é um super-homem que ele nunca pretenderá tornar-se, mas que se deleita a encarnar de um modo fantástico, tal como se veste durante alguns minutos diante de um espelho uma roupa alheia, sem sequer se pensar em vir a possuí-la um dia.

A situação nova que se coloca a respeito da TV é esta: A TV não oferece, como ideal pra o ensimesmamento do indivíduo, o superman, mas sim o everyman. A TV representa como ideal o homem absolutamente médio. No teatro, Juliette Greco aparece no palco e cria subitamente um mito e funda um culto;

Josephine Baker desencadeia rituais idolátricos e dá nome a toda uma época. Na TV surge diversas vezes, repetidamente, o rosto mágico de Juliette Greco, mas o rito nem por isso nasce de modo idêntico; o ídolo não é ela, mas a locutora, e por entre as apresentadoras mais amadas e famosas estará exatamente aquele que melhor representa a média dos caracteres comuns: beleza modesta, sex-appeal limitado, gosto discutível, um certe inexpressividade doméstica.




Josephine Baker photo06

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

Ora, no campo dos fenômenos quantitativos, a média representa de fato um meio-termo e, para quem ainda não se uniformizou, representa igualmente uma meta. Se, de acordo com a conhecida boutade, a estatística é a ciência para a qual se diariamente um homem come dois frangos e o outro nenhum, os dois homens comeram um frango cada um – para o homem que não comeu, a meta de um frango por dia é algo de positivo a que ele poderá aspirar. Pelo contrário, no campo dos fenômenos qualitativos, o nivelamento pela média corresponde ao nivelamento pelo zero. Um homem que possua “todas” as virtudes morais e intelectuais em “grau médio”, acha-se imediatamente a um nível mínimo de evolução. A “mediana” aristotélica é equilíbrio no exercício das próprias paixões, dirigido pela virtude do discernimento da “prudência”. Enquanto, em contrapartida, alimentar um grau médio de paixões e ter uma prudência média significa ser um pobre exemplar de humanidade.

O caso mais vistoso de redução do superman ao everyman temo-lo, na Itália, na figura de Mike Bongiorno e na história do seu destino. Idolatrado por milhões de pessoas, este homem deve o seu êxito ao fato de, em todos os atos e todas as palavras da personagem a que ele dá vida perante as câmaras de televisão, transparecer uma mediocridade absoluta unida (sendo esta a única virtude que possui em grau excedente) a um fascínio imediato e espontâneo explicável por não estar rodeado da menor construção ou ficção cênica: quase parece que ele não quer passar senão pelo que é, sendo de molde a não colocar em situação de inferioridade espectador nenhum, nem mesmo o mais despossuído de todos. O espectador vê glorificado e condecorado oficialmente com uma autoridade nacional o retrato das suas próprias limitações.

Para compreendermos este extraordinário poder de Mike Bongiorno, poderá surgir-nos a idéia de proceder a uma análise dos seus comportamentos, a uma verdadeira “fenomenologia de Mike Bongiorno”, indicando-se, fique claro, por este nome não o homem, mas a personagem.

Mike Bongiorno não é particularmente belo, atlético, corajoso, inteligente. Representa, biologicamente falando, um grau modesto de adaptação ao ambiente. O amor histérico que lhe tributam as teen-agers deve-se em parte ao complexo maternal que ele é capaz de despertar numa mocinha, em parte à perspectiva futura que ele sugere, de um amante ideal, submisso e frágil, suave e cortês.

Mike Bongiorno não se envergonha de ser ignorante e não revela qualquer necessidade de se instruir. Entre em contato com as mais vertiginosas zonas do conhecimento e delas sai virgem e intato, confortando as naturais tendências para a apatia e preguiça mental dos outros. Cuida bastante para não impressionar o espectador, não só mostrando às escuras quanto aos acontecimentos circundantes, como, além disso, manifestando-se decididamente resolvido a não aprender coisa alguma.

Em compensação, Mike Bongiorno demonstra uma admiração sincera e primitiva pelos que sabem. Quanto a estes, o que destaca neles é, porém, as qualidades de aplicação manual, a memória, a metodologia óbvia e elementar: uma pessoa torna-se culta lendo muitos livros e fixando o que eles dizem. Não lhe passa, nem minimamente, a suspeita de qualquer função crítica e criativa da cultura. Tem dela um critério meramente quantitativo. Deste modo (acontecendo que é preciso, para se ser culto, terem-se lido durante muitos anos livros), é natural que o homem não predestinado renuncia a todas as tentativas culturais.

Mike Bongiorno professa um apreço e uma confiança ilimitados em relação ao especialista; um professor é um sábio; representa a cultura autorizada. É o técnico do ramo. É a ele que devemos perguntar as coisas, dada a sua competência.

A admiração pela cultura, entretanto, torna-se ainda maior, quando, na base dela, se pode ganhar dinheiro. Então é que se descobre que a cultura serve para alguma coisa. O homem medíocre recusa-se a aprender, mas propõe-se mandar estudar o filho.

Mike Bongiorno tem uma noção pequeno-burguesa do dinheiro e de seu valor (“Imaginem, já ganhou cem mil liras: é um belo dinheirinho!).

Mike Bongiorno antecipa assim, sobre o concorrente, as reflexões impiedosas que o espectador será levado a fazer. “Arre, como ele estará satisfeito com aquela grana toda, ele que sempre viveu com um salário tão modesto! Terá alguma vez tido tanto dinheiro nas mãos?”

Mike Bongiorno aceita todos os mitos da sociedade em suas categorias e trata-as com uma deferência cômica (a criança diz: “Desculpe, senhor guarda…”), mas usando sempre, entretanto, a qualificação vulgar e corrente, muitas vezes depreciativa: “senhor varredor, senhor camponês”.

Mike Bongiorno aceita todos os mitos da sociedade em que vive: beija a mão da senhora Balbiano d’ Aramengo e diz que o faz por se tratar de um condessa (sic).

Para além dos mitos, aceita também as convenções sociais. É paternal e condescendente com os humildes, deferente para com as pessoas socialmente qualificadas.

Ao entregar o dinheiro, parece instintivamente levado a pensar, sem o exprimir claramente, mais em termos de esmola que de ganho. Mostra a sua crença de que, na dialética das classes, a único meio de ascensão é o representado pela providência (podendo assumir ocasionalmente o rosto da Televisão).

Mike Bongiorno fala um basic Italian. O seu discurso realiza o máximo possível de simplicidade. Abole os conjuntivos, as proposições subordinadas, consegue tornar quase invisível a dimensão sintática. Evita os pronomes, repetindo sempre por extenso o sujeito, emprega um número imenso de pontos finais. Não se aventura nunca em intercalações ou formas parentéticas, não emprega expressões de elite, não faz alusões, utiliza apenas metáforas já integradas plenamente no léxico comum. A sua linguagem é rigorosamente referencial e faria a alegria de um neopositivista. Não é necessário fazer qualquer esforço para entendermos. Qualquer espectador observa que, se fosse esse o caso, poderia ser bem mais eloqüente do que ele.

Não aceita a idéia de que a uma pergunta possa corresponder mais do que uma resposta. Olha com desconfiança as variantes. Nabuco e Nabucodonosor não são a mesma coisa; reage frontalmente aos dados como um cérebro eletrônico, porque está firmemente convencido de que A é igual a A e que tertium non datur. Aristotélico por defeito, a sua pedagogia é, conseqüentemente, conservadora, paternalista, imobilista.

Mike Bongiorno é desprovido de sentido de humor. Ri por estar contente com a realidade, não por ser capaz de deformar a realidade. Escapa-lhe a natureza do paradoxo; quando se lhe apresenta um, repete-o com ar divertido e sacode a cabeça, subentendendo que o interlocutor é simpaticamente anormal; recusa-se a suspeitar de que por trás do paradoxo se esconda a verdade, precisamente como o não considera um veículo autorizado de opinião.

Evita a polêmica, mesmo com argumentos legítimos. Não deixa de informar-se acerca da estranheza do que se pode conhecer (uma nova corrente de pintura, uma disciplina abstrusa… “Diga-me uma coisa, hoje fala-se tanto de futurismo. Mas o que é ao certo esse futurismo?). Recebida a explicação, não tenta aprofundar o tema, mas deixa transparecer a sua bem-educada discordância de pessoa que pensa como deve ser. Respeita deste modo a opinião do outro, não por propósito ideológico, mas por desinteresse.

De Entre todas as perguntas possíveis sobre um tema escolhe a que primeiro viria à mente de qualquer um e que metade dos espectadores afastaria prontamente por ser demasiado banal: “O que é que o quadro pretende representar?”, “Como é que chegou a escolher um hobby tão diferente do seu trabalho?”; “Como lhe veio à cabeça ocupar-se de filosofia?”.
Leve os clichês até as últimas conseqüências. Uma moça educada com freiras é virtuosa, uma moça de meias de cor e rabo-de-cavalo é “queimada”. Pergunta à primeira, que é uma moça tal como deve ser, se gostaria de se tornar como a outra; se se lhe faz notar a comparação em tais termos é ofensiva, consola a segunda moça realçando a sua superioridade física e humilhando a educada das freiras. Neste vertiginoso jogo de gaffes não tenta ao menos empregar a perífrase: a perífrase é já uma agudeza, e as agudezas pertencem a um círculo intelectual a que Bongiorno é estranho. Para ele, como já se tinha dito, cada coisa em um nome e só um, o artifício retórico é uma sofisticação. No fundo, a gaffe nasce sempre de um ato de sinceridade não mascarada; quando a sinceridade é voluntária não há gaffe, mas desafio e provocação; a gaffe (em que Bongiorno se excede, segundo dizem os críticos e o público) nasce exatamente quando se é sincero por erro ou por desconsideração. Quando mais medíocre for, mais o medíocre se torna desajeitado. Mike Bongiorno reconforta os medíocres, elevando a gaffe à dignidade de figura de retórica, no quadro de uma etiqueta homologada pela entidade transmissora e pela nação auditora.

Mike Bongiorno regozija-se sinceramente com o vencedor porque honra o êxito. Cortesmente desinteressado em relação ao vencido, comove-se se este fica em situação difícil e torna-se promotor de uma disputa beneficente, finda a qual se mostra satisfeito e convence o público de que tudo vai bem; em seguida ocupa-se de outras coisas alentado pela sua crença de que é este o melhor dos mundos possíveis. Ignora a dimensão trágica da vida.

Mike Bongiorno convence, portanto, o público, como um exemplo vivo e triunfante, do valor da mediocridade. Não provoca complexos de inferioridade, embora se ofereça como ídolo, e o público recompensam-o, agradecido, amando-o. Representa um ideal que ninguém deve esforçar-se por atingir porque seja quem for se encontra, desde o início, já ao mesmo nível que ele. Nenhuma religião foi jamais tão indulgente para com os seus fiéis. Em Mike Bongiorno anula-se toda a tensão entre ser e dever ser. E ele diz aos seus adoradores: sois Deus, continuai imóveis.

Do “Diário Mínimo”, de Umberto Eco
Difel, 1985

MIKE BONGIORNO, tornando-se uma categoria analítica, um conceito. Acho que a nossa volta há muitos e muitos Mike Bongiorno(s), do que políticos e apresentadores de TV. O arrivismo, o puxa-saquismo fabricam Mike Bongiorno(s) aos magotes. Eles nos sufocam. E cuidemo-nos para não nos tornarmos um.

Abaixo citação de uma artigo do Estadão, onde analista usa a categoria, Mike Bongiorno, para analisar Berlusconi

“Se um homem de negócios, que em outro país ocidental com alguma tradição liberal-democrática se limitaria a construir palacetes em Milão, assume o controle absoluto dos meios de comunicação e domina a cena política por mais de 20 anos, chegando três vezes ao cargo de primeiro-ministro, como aconteceu com Berlusconi na Itália, o mínimo que nos cabe fazer é analisar o fenômeno e dele extrair o máximo de lições possível.” A proposta é de Pierfranco Pellizzetti, autor do recém-publicado Fenomenologia di Berlusconi (Manifestolibri), um exame da mutação cultural da sociedade italiana a partir da década passada, quando a “banal mediocridade” representada pelo ídolo televisivo Mike Bongiorno perdeu sua hegemonia para a “mediocridade lobisomem” representada por Berlusconi e empurrou a Itália para “um precipício humano, político e civil”.

“Pellizzetti trabalha com o mesmo instrumental analítico usado por Eco em sua Fenomenologia di Mike Bongiorno, escrita em 1961 e incluída na coletânea Diário Mínimo. Campeão de audiência na televisão italiana durante quase meio século, Bongiorno, um bobo alegre que vivia de plagiar programas de variedades americanos e foi enterrado como herói nacional em setembro deste ano, encarnava, segundo Eco, a mediocridade absoluta do italiano médio, que se identificava totalmente com o apresentador e sua alvar alegria, sobretudo porque Bongiorno, que muito se gabava de sua ignorância, o fazia sentir-se, por comparação, mais educado, mais inteligente”.
O Estado de S.Paulo,domingo, 29 de novembro de 2009

CONCEITOS RETIRADOS DOS TEXTOS ABAIXO, CUJO TÍTULO E CONTEÚDO DO ORIGINAL SÃO MANTIDOS AO CLICAR NOS LINKS.

1. DELINQUÊNCIA ACADÊMICA, de Maurício Tragtemberg

2. BAGRINHOS, do texto de Alfredo Marques

3. HOMEM-DISPOSITIVO, do texto de Francisco Foot Hardman

4. FIM DA UNIVERSIDADE PÚBLICA, do texto de Marilena Chauí

5. ETHOS DE GANGUE, do texto de Luiz Felipe Pondé

6. MIKE BONGIORNO, do ensaio de Umberto Eco

7. CASTA DOS INTOCÁVEIS, da entrevista de Chico de Oliveira