Existem humanos nos mais baixos patamares da escala social?

02/06/2012

Existem humanos nos mais baixos patamares da escala social?

Mário Augusto Medeiros da Silva

[NOTA INTRODUTÓRIA: SE ASSISTIR AO VÍDEO DE BORIS CASSOY ATÉ O FIM, OU INDO ATÉ O FIM, TERÁ ACESSO A VÁRIOS VÍDEOS COM A REPERCUSSÃO DO CASO – Mário Martins]

Trinta e um de dezembro de 2009, noite de virada. As pessoas
comemoram, como querem ou como podem, a passagem entre os anos. As
imagens são triviais acerca desse evento e compartilhadas, no
imaginário coletivo, por quase todos: famílias se reunindo, amigos
confraternizando, cidades iluminadas, gente circulando por aí com um
sorriso nos lábios. Vez ou outra, pessoas dormindo nas ruas, alguma
reportagem sobre os que perderam o rumo de casa (ou que não querem,
decididamente, voltar para lá), sobre a solidão nas metrópoles ou
sobre aqueles que trabalham nessas datas a que é dado a quase todos o
direito de relaxar. O de sempre, quase sempre.

Quem estava diante da televisão, sintonizado na programação
aberta, precisamente na Rede Bandeirantes, via a gravação do Jornal da
Band, apresentado por Bóris Casoy. Não interessa discutir a falta de
opção, gosto ou solidão do telespectador. Inúmeros se encontravam
nessa situação. E puderam ver aquele que, de há muito tempo, se
embandeirou como um defensor da moralidade pública da classe média,
criador e propalador do bordão Isto é uma vergonha!, comentar uma cena
trivial, típica de fim de ano: pessoas entrevistadas nas ruas,
instadas a desejar um feliz natal, próspero ano novo para a câmera da
tevê. Típico.

Uma dupla de garis, vestidos com uniformes laranjas, fazem o que
lhe foi pedido. Feliz 2010 etc., dizem, alegres, os companheiros de
trabalho, ambos idosos, encerrando aquela parte do bloco. Chamada a
vinheta, o âncora do jornal, inadvertido pelo áudio ainda aberto, faz
seus comentários sobre a cena: “Que merda, dois lixeiros desejando
felicidades…do alto de suas vassouras. Dois lixeiros! O mais baixo
da escala do trabalho…”. As imagens correram a internet e podem ser
vistas no Youtube (por exemplo, no endereço

http://www.youtube.com/watch?v=0H9znNpeFao). No dia seguinte, Casoy,
levemente constrangido, afirma no começo do telejornal: “Ontem,
durante o intervalo do Jornal da Band, num vazamento de áudio, eu
disse uma frase infeliz, que ofendeu os garis. Por isso, quero pedir
profundas desculpas aos garis e aos telespectadores do Jornal da
Band”. (ver, por exemplo, o endereço

Para a emissora e para o jornalista, a história acabava por aí,
simples assim. Não para os garis. Ofendidos e humilhados, Francisco
Gabriel de Lima e José Domingos de Melo deram entrevista, nos
primeiros dias de janeiro, à Folha Online, dizendo como se sentiram ao
aparecer na televisão para desejar boa virada no Jornal da Band e como
ficaram depois dos comentários de Casoy (ver
http://www.youtube.com/watch?v=OoQrkA3oQfQ). A fala de Lima é
distintiva: “Fiquei muito feliz de poder falar[…] Pensava que ia
fazer uma coisa bonita, falar no Jornal da Band. Prá mim foi uma
tragédia”. Os sindicatos que representam os trabalhadores de serviço
de limpeza urbana, bem como garis individuais, moveram três ações
judiciais contra Casoy e a emissora de televisão, no dia 06/01/2010
(http://entretenimento.r7.com/famosos-e-tv/noticias/garis-movem-tres-acoes-contra-boris-casoy-e-band-20100106.html).
No dia 03 de março, a ação civil pública foi julgada em São Paulo e
ambos, emissora e âncora, foram absolvidos de pagar indenização por
danos morais aos garis
(http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u701860.shtml).
Fim.

As informações acima são notícias velhas. Vejamos outras. Nesta
última semana, a Folha de São Paulo divulgou reportagem sobre a garota
23225. A adolescente é uma menina, cuja identidade é preservada nos
jornais, em função do Estatuto da Criança e Adolescente, através do
número de seu prontuário de internação no Hospital Psiquiátrico Pinel,
em São Paulo. Há quatro anos, ela foi levada ali por ser uma garota
difícil. 23225 foi considerada “[…] inteligente, agressiva,
indisciplinada, sem respeito, fria e calculista”. E por isso,
abandonada por 1500 dias (e contando) na instituição (ver: Menina é
‘esquecida’ no Pinel por 4 anos, Folha de São Paulo, 21/03/2010,
Cotidiano, p. C5;
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2103201005.htm). Para
acrescentar má sorte ao seu infortúnio, seu caso veio à tona na mesma
semana em que se constituiu um júri popular para julgar o caso
Nardoni, cuja repercussão ofuscou toda e qualquer outra notícia nos
últimos dias – até mesmo de agressões e assassinatos de outras
crianças em famílias de classe média.

Mas quem é 23225? De acordo com Laura Capriglione, responsável
pela matéria da Folha, é hoje uma garota com quinze anos, cuja mãe,
dependente de crack, se encontra condenada a prisão por sete anos, em
função de tráfico de drogas. Sobre seu pai, nada consta. A avó
materna, responsável pela menor desde a prisão da mãe, não a quer.
Desde os quatro anos, a avó já a havia colocado num abrigo para
crianças de famílias desestruturadas. Ela afirma não ter condições de
cuidar de 23225, pelos motivos que se encontram em seu prontuário. E
também por agora ter conseguido um emprego de auxiliar de serviços
gerais, que paga R$480,00 e tem carteira assinada. A senhora é
categórica: “Não vou pôr a perder por causa dela”. O julgamento moral
sobre esta senhora é o que menos importa aqui. Amor filial não é
automático. E, ao que parece, um salário mínimo com carteira assinada
e benefícios, neste caso, faz toda diferença na balança dos afetos.

Sobrou, então, para o Pinel. Desde 2005, data da internação, é
diagnosticado que a menina não possui problema algum que justifique
sua entrada ali na sua Clínica de Infância e Adolescência. Segundo o
diretor da instituição, o psiquiatra Eduardo Guilherme Guidolin, tem
sido feito um périplo através de diversos abrigos municipais para
menores, para a acolhida de 23225. Várias instituições de São Paulo e
arredores se negaram a recebê-la, onde teria um lugar para morar,
possibilidade de estudar e receber atenção psicológica. As alegações
são: ou não há vagas ou não é de bom tom receber alguém com “passagem
pelo Pinel”. A máquina pública negando a si própria. Em 10 de novembro
de 2009, o diretor do Pinel encaminhou ofício ao Ministério Público
Federal sobre a situação de 23225, bem como de outros menores que se
encontram na mesma situação que ela.

Como sempre pode piorar, no dia 24/03/2010, Laura Capriglione
escreve a matéria: “Polícia apura estupro de menina do Pinel”
(http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2403201007.htm). O crime
teria sido cometido em fevereiro, por funcionário de segurança,
contratado por firma terceirizada, dentro do Hospital Psiquiátrico.
Depois de flagrado, o acusado fugiu. E agora o caso corre em segredo
de Justiça. Desde então, nada mais foi publicado sobre 23225.

Em que ponto as duas histórias se cruzam? A meu ver, há
elementos muito significativos em ambas sobre a maneira como lidamos
com as classes baixas, desprovidos, lúmpens, pobres etc. Não é
necessário matá-los, fisicamente (como nas maternidades e presídios
públicos, que ocuparam os jornais recentemente). Retirar o direito à
voz, a possibilidade de se manifestar, humilhar numa exceção
permanente, já é um começo bastante eficaz. O objetivo final é sempre
dizer: “Você não é humano. Pelo menos, não um humano como nós”. Porque
a questão de ser ou não cidadão, nesses casos, é uma balela e nem está
em questão. Eles não são. Significam nada, não chegam a esse grau de
sofisticação. Antes de tudo, tratam-se os pobres e desvalidos ora como
máquinas que limpam dejetos, máquinas que executam tarefas; ora como
coisas humanóides (que possuem a nossa imagem e semelhança, mas não
são iguais a nós) e podem ser manipuladas ao bel prazer. Alguns,
descartáveis desde o nascimento. Outros, ao longo disso que se chama
vida. Viver é uma tragédia, um pesadelo desperto numa sociedade que
equaliza lixo e vida humana.

A história de Francisco Lima e José Melo é exemplar.
Publicamente, nosso defensor da classe média, que desde o começo dos
anos 1990 tacha de vergonhosa a vida política e costumeira nacional,
expressou o que a grande maioria de nós sentimos ao vermos esses
homens e mulheres varrendo as ruas, recolhendo nossos lixos,
uniformizados. Há alguns poucos anos, um jovem psicólogo social fez um
experimento para sua tese de doutoramento na Universidade de São
Paulo. Vestido como gari da USP, durante o dia, varria as ruas do
entorno da faculdade onde há anos era aluno. Professores e colegas
seus não o reconheciam de uniforme. Ou nem lhe devolviam um bom dia.
Quando publicou sua tese e esse aspecto dela veio aos jornais, virou
um escândalo. Mas por quê o alarme? É tão desagradável assim
escancarar o quotidiano? Se fosse, a emissora de televisão teria
demitido Bóris Casoy no dia seguinte, no ar, emitindo uma nota pública
em que repudiasse as opiniões do jornalista, que não expressariam as
da cúpula da Rede Bandeirantes e seus funcionários. Não o fez.
Limitou-se a pedir que ele afirmasse, lendo o teleprompter, que
expressou comentário infeliz. Suponho que com alguma recomendação para
demonstrar constrangimento, leve. Constituiu advogado junto ao âncora
para que se defendesse das ações dos sindicatos e dos garis. E estamos
conversados. Abalou a credibilidade de Casoy e do jornal? Não. Porque
esse bem, tão perseguido e ostentado por diversos jornalistas e
veículos de informação – mesmo quando nunca o possuíram – ao que
parece, se baseia em dizer… a verdade, acima de tudo, antes de
qualquer coisa, custe o que custar. O raciocínio é simplório, admito:
Se Casoy não foi demitido e a rede de televisão não tomou nenhuma
outra atitude, ele disse a verdade. Ele tem credibilidade. Que merda,
então, dois lixeiros… etc.

O problema é o uniforme, essa roupa de controle, de
identificação, inclusive, dos grupos perigosos e que reduz a
identidade a cores e tecidos? Não creio. O caso de 23225 pode ser
considerado como clássico para qualquer leitor de Michel Foucault ou
Erving Goffman, autores de História da Loucura e Manicômios, Asilos e
Prisões (ambos publicados pela Editora Perspectiva). Ou qualquer
pesquisador/curioso que, estando em São Paulo, um dia vá ao Arquivo
Público do Estado e solicite ler qualquer prontuário dos internos do
Juqueri, arquivados ali perto da Estação Portuguesa-Tietê do Metrô.

O problema é: o caso 23225 não é literatura das ciências
sociais. E, pelo visto nos jornais, não temos hoje intelectuais como
Foucault, capazes de liderar movimentos contra as prisões
psiquiátricas francesas. Ou uma Nise da Silveira, criadora do Museu do
Imaginário. Ou médicos engajados, como na década de 1980, que se
dedicaram a promover, no Brasil, a descolonização de internos dos
hospitais psiquiátricos (como o Juqueri, por exemplo). 23225 é a
atualização do nosso momento presente. Atualização, claro, para pior.
Opinião pública (ela existe?) e intelectuais rebaixados. É um número
de prontuário, perdido na burocracia do Estado, num jogo de
empurra-empurra entre a Prefeitura, o Ministério Público, os pareceres
médico-legais, abrigos e hospitais. Os únicos posicionamentos claros
até agora foram de sua família (que não a quer e não pode assumi-la) e
do Pinel (que não possui razões para tê-la sob sua guarda. Presta-lhe,
então, deve-se concluir, um favor). Para brincar com os leitores de
Foucault, autor de Isto não é um cachimbo, 23225 não é um número. O
desafio está lançado.

Pobres e sem fala, oriundos e atolados desde há várias gerações
nos patamares mais baixos da sociedade (ou, para lembrar Casoy, nos
degraus mais baixos da escala do trabalho) são considerados incapazes.
Organismos-máquinas, que a nossa imagem e semelhança estão por aí,
executando tarefas. Mas longe de ser como nós. Vez ou outra espanam e
se dão ao luxo de pensar, falar, desejar, denunciar. Como podem? Como
pôde 23225 querer ser inteligente e insubordinada, demandar afeto e
invejar outras crianças que recebiam beijos e abraços de avó e mãe?
Como pôde ela, ao ser pega em flagrante na guarita do segurança
terceirizado do Pinel, dizer: “Vai, tio, conta que a gente teve
relação”. Ela que, para conter seus “distúrbios”, segundo a reportagem
de Caprigilione (jornalista, aliás, admirável), é medicada com
haloperidol, cujos efeitos colaterais são sonolência, letargia e
torpor. Ou seja: a todo tempo, 23225 é mantida fora da realidade. Como
pôde ter algum momento de lucidez? Como puderam os garis expressar
sentimentos que não combinam com seus uniformes?

Todo e qualquer chavão crítico das ciências sociais, nesses
casos, me parece pouco e ineficaz. Todos eles estarão certos e não
provocarão nada. Aliás, diria Itamar Assumpção numa de suas canções,
que chavão só serve para abrir porta grande. Coisa que nem os garis e
nem 23225 conseguirão. De favor, já fizemos muito de deixá-los falar.
Não abriremos nenhuma outra porta para eles que não seja de uma outra
instituição, outro abrigo ou de uma fila de hospital,
seguro-desemprego. As portas do cemitério, talvez. Ou de um aterro
municipal.

Campinas, 30 de março de 2009.