TARSILA do Amaral: A Negra – Iemanjá

11/06/2013
Coleção Folha

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Iemanjá, séc. XIX e a Negra de Tarsila do Amaral

Iemanjá, séc. XIX e a Negra de Tarsila do Amaral

Veja Além do sentimento religioso, há um tom de lembrança em sua pintura…

TARSILA – Um dos meus quadros que fez muito sucesso quando eu o expus lá na Europa se chama A Negra. Porque eu tenho reminiscências de ter conhecido uma daquelas antigas escravas, quando eu era menina de cinco ou seis anos sabe? escravas que moravam lá na nossa fazenda, e ela tinha os lábios caídos e os seios enormes, porque, me contaram depois, naquele tempo as negras amarravam pedras nos seios para ficarem compridos e elas jogarem para trás e amamentarem a criança presa nas costas. Num quadro que pintei para o IV Centenário de São Paulo eu fiz uma procissão com uma negra em último plano e uma igreja barroca, era uma lembrança daquela negra da minha infância, eu acho. Eu invento tudo na minha pintura. E o que eu vi ou senti, como um belo por-de-sol ou essa negra, eu estilizo.”

“Diversos já escreveram sobre A negra de Tarsila do Amaral, destacando sua muita ou pouca ousadia face aos padrões vanguardistas, a reminiscência do passado colonial ou pessoal, enraizado nas fazendas do interior paulista. A foto de uma antiga empregada de família [Figura 11] é costumeiramente reproduzida para enfatizar a relação afetiva da artista com seu tema, sugerindo uma possível origem iconográfica[32]. Todavia, sempre que vejo a reprodução de uma pequena imagem de Iemanjá do séc. XIX [Figura 12[33], não posso deixar de reconhecer nela a negra de Tarsila.” Algo além do moderno: a mulher negra na pintura brasileira no início do século XX . Maraliz de Castro Vieira Christo

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links

01. Entrevista concedida a revista Veja (23/02/1972), a Leo Gilson Ribeiro, aos 75 anos. VEJA:
02. Algo além do moderno: a mulher negra na pintura brasileira no início do século XX , Maraliz de Castro Vieira Christo
03. A Negra, MAC/USP


Dos escombros de PAGÚ , livro de Tereza Freire. E outros apontamentos.

16/05/2012
Comprei o livro por causa de Pagú. O título me causou uma estranheza. Depois da leitura, justifica-se. O PCB, stalinista, escangalhou a vida e a possível obra de Pagú. Ela é realmente uma escombro. O livro mostra que foi um época de grande violência e de grandes escolhas. Eu que durante anos curti o mito Pagú, também saí meio arranhado. Não deveria ser novidade, para mim, que o stalinismo traz sempre consigo brutalidade e horror. CLIQUE SOBRE FOTOS E TEXTOS PARA VÊ-LOS MAIOR.

Tarsila, A NEGRA, MAC/USP, 1923. Destaco que pintava negros. E já nesta obra, buscava novas formas de expressão modernas que antecipavam seu ABAPURU de 1928.

Portinari, baile na roça, 1924. Pintura bem conservadora, parece-me. Mas registra-se, em 1924, portanto naquele ambiente que antecedeu Pagú, havia já em Portinari uma preocupação em registrar o negro. O que vai ser uma tônica de sua obra. Lembremos que ele foi sempre ligado ao PCB, partido que sempre ignorou a questão do negro. O que várias tendências de esquerda ainda faz até hoje. Centro mesmo da estratégia não é mesmo de nenhuma organização de esquerda.

Ainda Tarsila. Que em 1924 pintava o carnaval com a presença pertinente dos negros. O que parece não fazer parte da reflexão da esquerda da época. Neste livro de Tereza Freire a questão, em nenhum momento aparece. A ausência é significativa tanto lá em 1930, como fico atento pelas ausências agora. Acho que é preciso registrar a falta desta questão fundamental e explicar porque foi deixada de lado lá. E é preciso retomar as reflexões que foram feitas na ficção e nas ciências sociais. Voltando a Tarsila. E em questões formais, o quadro de Tarsila também é inovador. Pelo estilo e pelo conteúdo. Vejamos que o revolucionário em arte não se confunde com um panfleto, nem com uma confissão de intenções. Mesmo na ciência social isso pode acontecer. Casa-Grande & Senzala é um livro escrito por Gilberto Freyre, e publicado em 1 de dezembro de 1933, tido como um homem de direita, colocava no centro do debate a questão do negro, ignorada por toda a esquerda, mesmo a não stalinista; claro que a visão ideológica é a do senhor, mas o centro da reflexão é a contribuição avassaladora dos negros para toda a cultura brasileira. A pintura de Tarsila faz uma escolha pela vida, pela festa, pela alegria. Afirmar a vida é revolucionário. O compromisso com a morte é cristão, o supra-sumo do reacionário, qualquer que seja as “boas” intenções. Outros que gostam de carne morta são os burgueses que a acumulam em forma de dinheiro, para transformar em capital, para comprar mais carne barata no mercado, que segundo canta Elza Soares, é a carne negra. Que é a maioria da classe operária no Brasil. Também me chamou a atenção as figuras esguias, alongadas, lembrando a influência que tiveram as esculturas africanas na arte européia desde o início do século XX.

Di Cavalcanti , SAMBA, 1925. A presença dos negros. E a sensualidade. A vida, claro que não existe sem o desejo. Não esqueçamos que o Samba ainda não havia ganhado sua forma atual que se deu pela aparecimento do rádio e das gravações elétricas. Deu Noel Rosa e outros grandes. Curiosamente a ilustração dos versos de Raul Bopp , “coco é Pagú” que consagrou o apelido, foi feita por Di Cavalcanti. Novamente a questão. Qual os livros de ficção ou da ciência colocam, naquele período, a questão negros. Na pintura estou me surpreendendo, cada vez que vou tentando me alfabetizar. Mas cada ausência vai me deixando indignado. Não li o “Parque Industrial” e, então, não sei se Pagú ignorou a questão ou não. Seus desenhos, dos Croquis, parece não incorporar a paisagem humana da Bahia, onde foram feitos. Vou ter que ler o panfletário, no dizer dos comentaristas citados no livro, “Parque Industrial”.

1928 foi o momento que Pagú entrou em contato com Tarsila e Oswald. Visitando a Casa deles. Ou como Tereza Freire, citando Flávio de Carvalho, era vestida e penteada pelo casal. Logo depois se torna amante e mulher de Oswald.

Pagu – Di cavalcanti, para os versos de Raul Bopp,1929. Versos estes que tornaram público o apelido PAGÚ.

Capa do livro de Augusto de Campos que recolocou Pagú em circulação. Infelizmente um livro que li e não me lembro nadinha.

Saibam ser Maricons. Um enfoque claramente moralista, implicando com o modo ser dos homossexuais paulistas. O livro de Tereza Freire não toca no assunto. CLIQUE SOBRE O TEXTO PARA VÊ-LO MAIOR.

Vilar, ex-secretário Geral do PCB, em 1932, foi expulso. Um dos “argumentos” é que fora degenerado pela burguesa Eneida. Isso é fichinha perto dos crimes do Stalinismo. Mas me doeu saber que Pagú foi capaz de usar sua amizade para enganar e trair à serviço dos crimes do PCB. Ela que já se dizia desiludida depois de visitar a União Soviética e ver os burocratas vivendo em luxo e dispêndio, e ela topando com crianças maltrapilhas e esmolando pelas ruas. O camarada militar que a recebia disse que era porque “essa gente é vagabunda”. E tinha passado pela França onde, entre os surrealistas, com que militou e morou junto, havia uma viva discussão sobre o stalinismo. Não foi ingenuidade, mas servilismo. Isso que entristece. E realmente justifica o nome do livro “Dos Escombros de PAGÚ”.

O livro fala em desenho modernista. Mas vendo pinturas de Tarsila, já em 23, e mais ainda em 28, parece muito menos moderno. Ou será por ser desenho?[/captio

[caption id="attachment_2390" align="aligncenter" width="300"] No blog, de onde saiu esta tira, blog que será relacionado abaixo, diz que Pagú imitava os traços de Tarsila. Preciso conhecer um pouco dos desenho da época.

Aqui uma citação de um manifesto de Pagú, de 1950, onde ela faz um balanço das degradações que o PCB lhe impusera durante 10 anos, de 1930 a 1940. Mas, neste trecho escolhido por Tereza Freire, há mais uma queixa das exigências que o PCB lhe fizera, para usar o sexo como chamariz para pessoas de interesse do partido stalinista. Mas minha expectativa era de que Pagú mostrasse o que significa fazer o papel de espiã, como fazia a KGB, a polícia da burocracia russa. Expediente totalitário. Espero ler o “Verdade e Liberdade” e constatar que isso apenas ficou fora da citação de T. Freire.

Capa do livro de Thelma Guedes que analisa o “Parque Industrial” de Pagú. Que está citado aqui como bibliografia, pois não li. O livro de T. Freire mostra que Parque Industrial foi um livro para agradar ao PC, quando o PC a rejeitava. O panfleto também foi rejeitado pelo PCB, conforme seu segundo filho, Geraldo Galvão Ferraz.

Aqui Pagú ataca as feministas burguesas. Nelas inclui Maria Lacerda de Moura que se proclamava anarquista. Ataca suas festas e liberalidade sexual. É um ponto de vista pantanoso, pois católicos, direita radical e, infelizmente, naquela época, como hoje, gente que se diz comunista. Coitado do Engels. Inutilmente escreveu “A origem da família, propriedade e estado”. Mas ela também ataca a reivindicação de mais liberdade sexual. E, assim como os anarquistas, o direito de voto para as mulheres. Claro que a maioria das mulheres proletárias, sendo analfabetas, não votariam. A campanha com a cara operária seria agregar o direito de voto para analfabetos. Pagú militou no PCB durante 10 anos. Ela fez parte dos erros, inclusive dos mais graves, do PCB. Ela escolheu. Viajou. Viu. Mas tomou decisões equivocadas. O livro mostra bem isso e por isso chama “Dos Escombros de Pagú”. Ela pagou e fez outros pagarem alto preço por escolher o stalinismo.

ps. Na pág. 158 há uma afirmação de que a corrente Menchevique, “a princípio”, liderada por Trosty, propunha aliança com burguesia e que a corrente Bolchevique, liderada por Lenin se opunha. Isso é verdade em 1917. Mas aí Trotsky era Bochevique.
Em 1902, quando houve a cisão entre Mencheviques e Bolcheviques, o debate não era sobre aliança, mas sobre como organizar o partido da social-democracia, como chamavam. Em 1905 Trotsky, depois de ser presidente do soviet dos trabalhadores, aos 25 anos, terminada a revolução, escreve o “Resultado e Perspectivas”, propondo o que chamaria mais tarde de revolução permanente. Ou seja, nenhuma etapa, negando qualquer papel da burguesia numa revolução.E Lenin não propunha aliança com a burguesia, mas só vai concluir que ela é mesmo incapaz de qualquer iniciativa democrática em abril de 1917. E aí, Lenin e Trotsky, já no mesmo partido Bolchevique, se opõem ferozmente à política de aliança dos Mencheviques. Política de aliança com a burguesia que será sim, a política da burocracia stalinista e todos os seus partidos, principalmente a partir de 1928. O que custou derrotas e mais derrotas para o proletariado.

BLOGS CONSULTADOS:

Sendas de Bashô MAC/USP
Ensaio » Pagu: Literatura e Revolução

OS CROQUIS

LADY’S COMICS

PATRÍCIA RHEDER GALVÃO

MUSEUSEGALL

HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA

MULHERES II

SÓ PARA AJUDAR O PESSOAL DO PRÉ-VESTIBULAR

Tarsila do Amaral, Academia n. 4, 1922 – por Fernanda Pitta