JORNAL DO PORÃO N. 4, 10 de dezembro de 2009

04/05/2012

O povo carioca perdeu hontem com a morte de Noel Rosa, um dos interpretes mais perfeitos da sua poesia.
Poeta instinctivo, observador profundo da vida das populações pauperrimas da cidade, Noel Rosa, compreendeu, logo no inicio de sua vida de homem a necessidade que havia de realçar-se a lidima poesia popular da terra, a despeito de toda a miseria que assoberbava o modo de viver das populações dos bairros mais afastados da cidade.”
http://musicabrasileira.org/noelrosa/ veja matérias neste endereço.
“Diário Carioca, 6 de maio de 1937

NOEL ROSA MORREU A 4 DE MAIO DE 1937 e morre todos os dias nas mãos dos nossos políticos.
Esta é a página mais lida do Jornal do Porão. Quando lançada, em 10 de dezembro de 2009, teve 119 leitores. Suponho, felizmente, que foi devido a Noel Rosa. Infelizmente a pracita continua lá com seu nome e ninguém mais se lembrou de protestar e dar um nome a uma grande praça, onde vá muita gente, tipo a praça da paz em Campinas, ao lado do parque Portugal (ou lagoa do taquaral, como é conhecido). Ali bem que podia chamar Praça Noel Rosa. Lembrei-me disso, quando vi a Praça da Paz lotada para ouvir Paulinho da Viola e, em outros shows, lotados para ouvir músicos brasileiros.

Mas o mais apropriado é que tivesse um grande centro cultural, de cultura popular, com o nome deste grande compositor. Por exemplo, a tal “estação cultura”.

E para terminar esta introdução desta reedição, no dia do aniversário de morte de Grande Compositor Noel Rosa, fica aqui a lembrança de uma dívida que tenho, escrever neste jornal um protesto pelo nome de TIM MAIA que foi dado a uma outra pracinha, tão minúscula que nem caberia TIM MAIA deitado numa rede. Parece que nossos políticos se lembram dos nossos ídolos populares para humilhá-los!

14 de setembro de 2009

PRAÇA NOEL ROSA PRAÇA DOS TRABALHADORES PRAÇA CHICO MENDES

 

Praça Noel Rosa

1 . NOEL ROSA foi um gênio da música popular brasileira. Talvez o primeiro gênio da música brasileira realmente popular. O samba de Donga, “Pelo Telefone”,[clique para Donga e Chico Buarque de Hollanda] dito o primeiro samba, já era de protesto; mas foi Noel Rosa a praticar o samba de protesto sistematicamente e, sempre, com humor. Humor mesmo no testamento que foi “O Último desejo”, onde a despedida da vida, a dor de cotovelo, era mero pretexto para o humor. Noel Rosa foi cronista do rio de janeiro, em “Com que Roupa”,[clique aqui para ouvir na voz de Noel] glosando o português aproveitador ; ou no carnaval, protestando, bem humoradamente, que o guarda noturno não recebia seu salário, em “O orvalho vem caindo”.[transcrevo as letras no pé da página – pena que sem som]. Noel Rosa foi o precursor de quase tudo que aconteceu na música popular brasileira. Na maneira de escrever versos não pomposos; ou na maneira cantar, pois seus dois intérpretes preferidos eram Mário Reis e Aracy de Almeida que cantavam quase falando (já que a nova técnica de gravações elétricas permitia que se cantasse sem o tal dó de peito). Noel Rosa, depois de esquecido e massacrado pelos boleros, sambas canções e música sertaneja das décadas de 40, 50 e 60, ressurgirá na Bossa Nova e impregnará toda a música popular brasileira da década de 70. E sua alegria não foi superada. E sua crítica bem humorada também é insuperável.

Acho que foi o tal inimigo cantado no “ O Último desejo” que deu no nome de Noel Rosa para esta rotatoriazinha, para este balãozinho no Castelo, perto da Telefônica [veja as fotos].

Praça Chico Mendes

2. CHICO MENDES

[clique para ver 65 anos de Chico Mendes] e

[clique para reportagem sobre Xapuri]

[clique aqui para vídeo herança de Chico Mendes]

[CLIQUE AQUI Jornal Inglês The Guardian – 20 anos da morte de Chico Mendes – Herói de todos os povos]

[clique aqui fotos de Chico Mendes e música de Los Porangas]

[clique aqui para vários vídeos sobre chico Mendes ]

[clique para longo documentário da TV Câmara – Cartas da Floresta – 20 anos da morte de Chico Mendes]

[Michael Jackson EARTH SONG]

parece que vai voltar à moda na próxima campanha eleitoral. Noel com certeza não, neste caso, felizmente. Já pensou os políticos usando o samba de Noel para ganhar voto? Mas Chico Mendes vai voltar. A Marina Silva em cujo período ministerial foi o momento em que mais se destruiu a floresta amazônica[clique e veja reprtagem do The Guardian] deve montar sua campanha em cima da história que compartilhou com Chico Mendes lá nos idos de 70/80. E foi a defesa da floresta que consagrou e levou Chico Mendes à morte. E é a destruição da floresta amazônica que marca a trajetória atual de infeliz ex-ministra do Meio Ambiente e colega de partido do filho de Sarney, do desenfeliz Zequinha Sarney, que também foi ministro do meio ambiente e em cujo período no ministério a devastação da Amazônia continuou na mesma batida.

Mas nossos heróis, ignorados pelo povo, servem para estes políticos cretinos fazerem campanha… ou…

dar nome a uma pracinha insignificante na periferia da nossa cidade. E foi no governo de Jocó Bittar que esta pracinha, um depósito de lixo, sofá velhos, resíduos vários, ganhou o nome de Chico Mendes. E hoje, nem mais ostenta (ou avacalhava) o nome de Chico Mendes. Melhor assim. Melhor não ter praça nenhuma com seu nome do que isso aí.

Praça dos Trabalhadores

3. PRAÇA DOS TRABALHADORES. Parece que campinas é um pólo industrial. Trabalhador é o que não falta por aqui. E já tivemos para governos municipais que fazem campanha eleitoral falando de trabalhadores. Tivemos inclusive dois prefeitos eleitos pelo Partido dos Trabalhadores e temos agora o prefeito do Partido Democrático Trabalhista, cujo vice é do Partido dos Trabalhadores.

E temos em campinas a PRAÇA DOS TRABALHADORES que também é PRAÇA DO TRABALHADOR, um nome mais de acordo, pois nesta praça não deve caber muito deles juntos. Um comício de partido nem se fala. A Praça dos Trabalhadores, na verdade, é uma ponte da Barão de Itapura sobre a Delfino Cintra.

Estas três historinhas reais demonstram que nossos dirigentes tratam nossos heróis. Estas pracinhas (essas fotos) falam tudo sobre o caráter destes políticos que dirigem e dirigiram nossa cidade. Não precisava mais do que estas fotos para sabermos quem são estes políticos que falam em trabalhadores, em cultura ou em liberdade.

Toda manhã eu passo na Praça Noel Rosa e sempre exclamo a mesma frase: estes políticos são uns canalhas. Quando passo na ex-Praça Chico Mendes, lá pertinho de casa, exclamo, estes políticos são uns oportunistas safados. Quando passo , e há mais de 20 anos me enfureço passando por lá ; e durante 10 anos que trabalhei na Andrade Neves, no Projeto Rondon, passei pela Praça dos Trabalhadores, todos os dias, às vezes duas vezes ao dia, dez anos seguidos.

Nunca consegui me conformar com o acinte, com o cinismo e pouco caso destes políticos que falam em nome dos trabalhadores, da cultura ou do progresso. O Discurso deles é lixo puro, mais lixo do que o que infesta a antiga Praça Chico Mendes. As eleições se aproximam e vamos ter que suportar uma quantidade de discurso/lixo e de sentimentalismo sobre os trabalhadores. Mas estas praças (e que praças!!!), demonstram ,concretamente , sem palavras, o quanto são vazios (ou cheios de….) os discursos e as cabeças dos políticos desses partidos.

A UNICAMP CASSA PAULO FREIRE, MAS PAULO VIVE!

Quando recebi a Moção da Congregação, votada por unanimidade, apoiando a mudança do nome do Rodovia Milton Tavares, respondi com o email abaixo. Dizendo que Zeferino Vaz, apesar de não ser um homem típico da Ditadura Militar, como este general, foi um testa de ferro de Ademar de Barros, apoiador de primeira hora do golpe de Estado de 1964. Isso porque não podemos esquecer que o golpe militar de 1964, foi um golpe civil militar. Os civis foram fundamentais para organizar o golpe. Foi Ademar de Barros, Lacerda e Magalhães Pinto os grandes organizadores deste golpe. E como falamos sempre em Ditadura Militar, esquecemos que os governadores civis foram os grandes organizadores e depois avalistas do golpe. E sonhava que a rodovia, num futuro menos covarde, chamaria RODOVIA PAULO FREIRE.

Mas parece que na Unicamp, nossos dirigentes, os chamados intelectuais não prezam muito a memória não. Ou fazem dela uma coisa de circunstância, mas ou menos manejável conforme os interesses do momento. Acabei de saber que a nossa Biblioteca Central, que homenageava o grande educador Paulo Freire mudou de nome. O novo nome seria Milton da Costa, grande matemático e lógico que, como parece, merece ter seu nome em qualquer espaço da Unicamp. Mas para que cassar novamente Paulo Freire? Porque pisar em Paulo Freire novamente como fizeram quando ele foi o mais votado e Maluf (o nefasto Maluf) escolheu Pinotti, o décimo quarto? Porque, por exemplo, não colocar o nome de Milton da Costa no prédio do Instituto de Matemática? Porque não deixam Paulo Freire em paz e com seu honrado nome, honrando nossa biblioteca central?

Tenho medo que daqui a pouco mudem o nome do Arquivo Edgar Leunroth, um anarquista da pesada, para um patrono qualquer… Ou que a biblioteca da Faculdade de Educação que homenageia o maravilhoso professor Maurício Tragtemberg, mude de nome, de uma hora para outra, sem mais nem menos… Mesmo porque o professor Maurício Tragtemberg não poupou os chamados intelectuais no seu conhecido texto “A Delinquência Acadêmica”; cujo o título quase dispensa texto. Porque Paulo Freire, Maurício Tragtemberg, Edgar Leurenroth não morreram e nem morrem, pois vão realmente educar as novas gerações, se tivermos algo que presta nas novas gerações.

Parece que políticos e burocratas querem matar as nossas mais caras lembranças!

Passou da hora. Que tal mudar o nome dos bairros 31 de março e Castelo Branco? E outros lixos. Boa iniciativa. Apenas preferia que esta Estrada chamasse Paulo Freire. Ele faz parte da história de um outra Unicamp. Paulo Freire foi o mais votado na primeira escolha para reitor depois da morte de Zeferino. No entanto foi escolhido o 14 colocado, o Dr. Pinotti, cuja dinastia manda na Unicamp desde então. Emais. Maluf, onefasto governador, neste período, impôs interventores na Universidade. Que foram rechaçados. Desta história que me reivindico. Viva Paulo Freire, oprimeiro Reitor de uma Unicamp que poderia ter sido, mas não foi. Viva Paulo Freire um educador. Equanto a Zeferino, apesar do áulico livro que saiu sobre ele, não esqueçamos, foi um pupilo de Ademar de Barros, aquele mesmo do “roubo, mas faço” e um dos primeiros governadores a apoiar o Golpe de Estado e mais: foi um dos articuladores junto com Magalhães Pinto , de Minas Gerais e Carlos Lacerta, ocorvo, governador da Guanabara do golpe militar, chamado de movimento por eles de movimento civil/militar.

Mário

Sent: Thursday, September 03, 2009 5:59 PM
Subject: MOÇÃO DA CONGREGAÇÃO DO IFCH

Prezados funcionários do CPD,

solicito que a msg abaixo seja enviada à lista de funcionários e deestudantes; atenciosamente,

caio toledo

Caros funcionários e estudantes do IFCH,

por sua relevância, informo que, ontem, por unanimidade, a Congregação do IFCH aprovou MOÇÃO que manifesta seu apoio ao projeto de lei que tramita na Assembléia Legislativa do estado de São Paulo que objetiva mudar o nome da Rodovia 332 próxima a Unicamp. Caso se transforme em lei, a Rodovia deixará de homenagear um “herói” da ditadura militar. O nome do general Milton Tavares de Souza conhecido pela odiosa alcunha de “Milton Caveirinha” deixará de estar nas placas ao longo da rodovia, sendo substituído pelo do PROFESSOR ZEFERINO VAZ.

Uma inestimável vitória no plano simbólico na luta pela eliminação dos extensos vestígios da ditadura militar ainda existentes em nossos logradouros públicos.

sds,

caio

Ifchfuncionariosl mailing list Ifchfuncionariosl@listas.unicamp.br https://www.listas.unicamp.br/mailman/listinfo/ifchfuncionariosl

Último Desejo

Composição: Noel Rosa [clique aqui para interpretação de Rildo Hora e Maysa]
[no filme sobre Noel Rosa] [Cristina Buarque – “Último desejo”, de Noel Rosa]
Nosso amor que eu não esqueço, e que teve
o seu começo
Numa festa de São João
Morre hoje sem foguete, sem retrato e sem bilhete,
sem luar, sem violão
Perto de você me calo, tudo penso e nada falo
Tenho medo de chorar
Nunca mais quero o seu beijo mas meu último desejo
você não pode negar
Se alguma pessoa amiga pedir que você
lhe diga
Se você me quer ou não, diga que você
me adora
Que você lamenta e chora a nossa separação
Às pessoas que eu detesto, diga sempre que eu não
presto
Que meu lar é o botequim, que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida que você pagou pra mim


Com Que Roupa?

Composição: Noel Rosa [clique para vídeo com voz de Noel Rosa]

Agora vou mudar minha conduta, eu vou pra luta
pois eu quero me aprumar
Vou tratar você com a força bru… .ta, pra poder me reabilitar
Pois esta vida não está sopa e eu pergunto: com que roupa?
Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?
Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?
Agora, eu não ando mais fagueiro, pois o dinheiro não
é fácil de ganhar.
Mesmo eu sendo um cabra trapacei…..ro, não consigo ter nem pra gastar.Eu já corri de vento em popa, mas agora com que roupa?
Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?
Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?
Eu hoje estou pulando como sapo, pra ver se escapo
desta praga de urubu.
Já estou coberto de farrapo, eu vou acabar
ficando nu.
Meu paletó virou estopa e eu nem sei mais com que roupa
Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?
Com que roupa que eu vou pro samba que você
me convidou?


(Carnaval de 1934)

Noel Rosa e Kid Pepe

O orvalho vem caindo
Vai molhar o meu chapéu
E também vão sumindo
As estrelas lá no céu
Tenho passado tão mal
A minha cama é uma folha de jornal
Meu cortinado é o vasto céu de anil
E o meu despertador
É o guardacivil
Que o salário ainda não viu
A minha terra dá banana e aipim
Meu trabalho é achar
Quem descasque por mim
Vivo triste mesmo assim
A minha sopa não tem osso nem tem sal
Se um dia passo bem,Dois e três passo mal
Isto é muito natural
O meu chapéu vai de mal para pior
E o meu terno pertenceu
A um defunto maior
Dez tostões no belchior

[clique aqui para vários vídeos com músicas de Noel Rosa]

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A Delinqüência Acadêmica, por Maurício Tragtemberg

19/11/2010

Este artigo publicado em 1978. Publicado aqui neste Jornal do Porão em 19 de novembro de 2009 é um dos textos mais lidos do Jornal do Porão. Mas ainda pouco lido. A biblioteca da da Faculdade de Educação da Unicamp tem uma coleção de Maurício Tragtemberg. Mas o que significa Maurício Tratgemberg para os professores da Unicamp?
Ano a ano republicarei este texto dele , esperando respostas.

Assim como Maurício Tratgtemberg, é convenientemente esquecido Paulo Freire. Que não devemos cansar de lembrar, foi escolhido como Reitor e quem ficou em 14o. lugar na consulta, o Dr. Pinotti, foi quem assumiu. E assim a coligação que escolheu Pinotti, o décimo quarto colocado, manda na Unicamp até hoje. Mais de 20 anos de mando. Será que esta coligação, herdeira de Pinotti, tem algum mérito próximo a Paulo Freire e Maurício Tragtemberg?

l

por Maurício Tragtenberg* [* Texto apresentado no I Seminário de Educação Brasileira, realizado em 1978, em Campinas-SP. Publicado em: TRAGTENBERG, M. Sobre Educação, Política e Sindicalismo. Sã Paulo: Editores Associados; Cortez, 1990, 2ª ed. (Coleção teoria e práticas sociais, vol 1)]

O tema é amplo: a relação entre a dominação e o saber, a relação entre o intelectual e a universidade como instituição dominante ligada à dominação, a universidade antipovo.

A universidade está em crise. Isto ocorre porque a sociedade está em crise; através da crise da universidade é que os jovens funcionam detectando as contradições profundas do social, refletidas na universidade. A universidade não é algo tão essencial como a linguagem; ela é simplesmente uma instituição dominante ligada à dominação. Não é uma instituição neutra; é uma instituição de classe, onde as contradições de classe aparecem. Para obscurecer esses fatores ela desenvolve uma ideologia do saber neutro, científico, a neutralidade cultural e o mito de um saber “objetivo”, acima das contradições sociais.

No século passado, período do capitalismo liberal, ela procurava formar um tipo de “homem” que se caracterizava por um comportamento autônomo, exigido por suas funções sociais: era a universidade liberal humanista e mandarinesca. Hoje, ela forma a mão-de-obra destinada a manter nas fábricas o despotismo do capital; nos institutos de pesquisa, cria aqueles que deformam os dados econômicos em detrimento dos assalariados; nas suas escolas de direito forma os aplicadores da legislação de exceção; nas escolas de medicina, aqueles que irão convertê-la numa medicina do capital ou utilizá-la repressivamente contra os deserdados do sistema. Em suma, trata-se de “um complô de belas almas” recheadas de títulos acadêmicos, de um doutorismo substituindo o bacharelismo, de uma nova pedantocracia, da produção de um saber a serviço do poder, seja ele de que espécie for.

Na instância das faculdades de educação, forma-se o planejador tecnocrata a quem importa discutir os meios sem discutir os fins da educação, confeccionar reformas estruturais que na realidade são verdadeiras “restaurações”. Formando o professor-policial, aquele que supervaloriza o sistema de exames, a avaliação rígida do aluno, o conformismo ante o saber professoral. A pretensa criação do conhecimento é substituída pelo controle sobre o parco conhecimento produzido pelas nossas universidades, o controle do meio transforma-se em fim, e o “campus” universitário cada vez mais parece um universo concentracionário que reúne aqueles que se originam da classe alta e média, enquanto professores, e os alunos da mesma extração social, como “herdeiros” potenciais do poder através de um saber minguado, atestado por um diploma.

A universidade classista se mantém através do poder exercido pela seleção dos estudantes e pelos mecanismos de nomeação de professores. Na universidade mandarinal do século passado o professor cumpria a função de “cão de guarda” do sistema: produtor e reprodutor da ideologia dominante, chefe de disciplina do estudante. Cabia à sua função professoral, acima de tudo, inculcar as normas de passividade, subserviência e docilidade, através da repressão pedagógica, formando a mão-de-obra para um sistema fundado na desigualdade social, a qual acreditava legitimar-se através da desigualdade de rendimento escolar; enfim, onde a escola “escolhia” pedagogicamente os “escolhidos” socialmente.

A transformação do professor de “cão de guarda” em “cão pastor” acompanha a passagem da universidade pretensamente humanista e mandarinesca à universidade tecnocrática, onde os critérios lucrativos da empresa privada, funcionarão para a formação das fornadas de “colarinhos brancos” rumo às usinas, escritórios e dependências ministeriais. É o mito da assessoria, do posto público, que mobiliza o diplomado universitário.

A universidade dominante reproduz-se mesmo através dos “cursos críticos”, em que o juízo professoral aparece hegemônico ante os dominados: os estudantes. Isso se realiza através de um processo que chamarei de “contaminação”. O curso catedrático e dogmático transforma-se num curso magisterial e crítico; a crítica ideológica é feita nos chamados “cursos críticos”, que desempenham a função de um tranqüilizante no meio universitário. Essa apropriação da crítica pelo mandarinato universitário, mantido o sistema de exames, a conformidade ao programa e o controle da docilidade do estudante como alvos básicos, constitui-se numa farsa, numa fábrica de boa consciência e delinqüência acadêmica, daqueles que trocam o poder da razão pela razão do poder. Por isso é necessário realizar a crítica da crítica-crítica, destruir a apropriação da crítica pelo mandarinato acadêmico. Watson demonstrou como, nas ciências humanas, as pesquisas em química molecular estão impregnadas de ideologia. Não se trata de discutir a apropriação burguesa do saber ou não-burguesa do saber, mas sim a destruição do “saber institucionalizado”, do “saber burocratizado” como único “legítimo”. A apropriação universitária (atual) do conhecimento é a concepção capitalista de saber, onde ele se constitui em capital e toma a forma nos hábitos universitários.

A universidade reproduz o modo de produção capitalista dominante não apenas pela ideologia que transmite, mas pelos servos que ela forma. Esse modo de produção determina o tipo de formação através das transformações introduzidas na escola, que coloca em relação mestres e estudantes. O mestre possui um saber inacabado e o aluno uma ignorância transitória, não há saber absoluto nem ignorância absoluta. A relação de saber não institui a diferença entre aluno e professor, a separação entre aluno e professor opera-se através de uma relação de poder simbolizada pelo sistema de exames – “esse batismo burocrático do saber”. O exame é a parte visível da seleção; a invisível é a entrevista, que cumpre as mesmas funções de “exclusão” que possui a empresa em relação ao futuro empregado. Informalmente, docilmente, ela “exclui” o candidato. Para o professor, há o currículo visível, publicações, conferências, traduções e atividade didática, e há o currículo invisível – esse de posse da chamada “informação” que possui espaço na universidade, onde o destino está em aberto e tudo é possível acontecer. É através da nomeação, da cooptação dos mais conformistas (nem sempre os mais produtivos) que a burocracia universitária reproduz o canil de professores. Os valores de submissão e conformismo, a cada instante exibidos pelos comportamentos dos professores, já constituem um sistema ideológico. Mas, em que consiste a delinqüência acadêmica?

A “delinqüência acadêmica” aparece em nossa época longe de seguir os ditames de Kant: “Ouse conhecer.” Se os estudantes procuram conhecer os espíritos audazes de nossa época é fora da universidade que irão encontrá-los. A bem da verdade, raramente a audácia caracterizou a profissão acadêmica. Os filósofos da revolução francesa se autodenominavam de “intelectuais” e não de “acadêmicos”. Isso ocorria porque a universidade mostrara-se hostil ao pensamento crítico avançado. Pela mesma razão, o projeto de Jefferson para a Universidade de Virgínia, concebida para produção de um pensamento independente da Igreja e do Estado (de caráter crítico), fora substituído por uma “universidade que mascarava a usurpação e monopólio  da riqueza, do poder”. Isso levou os estudantes da época a realizarem programas extracurriculares, onde Emerson fazia-se ouvir, já que o obscurantismo da época impedia a entrada nos prédios universitários, pois contrariavam a Igreja, o Estado e as grandes “corporações”, a que alguns intelectuais cooptados pretendem que tenham uma “alma”.[1]

Em nome do “atendimento à comunidade”, “serviço público”, a universidade tende cada vez mais à adaptação indiscriminada a quaisquer pesquisas a serviço dos interesses econômicos hegemônicos; nesse andar, a universidade brasileira oferecerá disciplinas como as existentes na metrópole (EUA): cursos de escotismo, defesa contra incêndios, economia doméstica e datilografia em nível de secretariado, pois já existe isso em Cornell, Wisconson e outros estabelecimentos legitimados. O conflito entre o técnico e o humanismo acaba em compromisso, a universidade brasileira se prepara para ser uma “multiversidade”, isto é, ensina tudo aquilo que o aluno possa pagar. A universidade, vista como prestadora de serviços, corre o risco de enquadrar-se numa “agência de poder”, especialmente após 68, com a Operação Rondon e sua aparente democratização, só nas vagas; funciona como tranqüilidade social. O assistencialismo universitário não resolve o problema da maioria da população brasileira: o problema da terra.

A universidade brasileira, nos últimos 15 anos, preparou técnicos que funcionaram como juízes e promotores, aplicando a Lei de Segurança Nacional, médicos que assinavam atestados de óbito mentirosos, zelosos professores de Educação Moral e Cívica garantindo a hegemonia da ideologia da “segurança nacional” codificada no Pentágono.

O problema significativo a ser colocado é o nível de responsabilidade social dos professores e pesquisadores universitários. A não preocupação com as finalidades sociais do conhecimento produzido se constitui em fator de “delinqüência acadêmica” ou da “traição do intelectual”. Em nome do “serviço à comunidade”, a intelectualidade universitária se tornou cúmplice do genocídio, espionagem, engano e todo tipo de corrupção dominante, quando domina a “razão do Estado” em detrimento do povo. Isso vale para aqueles que aperfeiçoam secretamente armas nucleares (M.I.T.), armas químico-biológicas (Universidade da Califórnia, Berkeley), pensadores inseridos na Rand Corporation, como aqueles que, na qualidade de intelectuais com diploma acreditativo, funcionam na censura, na aplicação da computação com fins repressivos em nosso país. Uma universidade que produz pesquisas ou cursos a quem é apto a pagá-los perde o senso da discriminação ética e da finalidade social de sua produção – é uma multiversidade que se vende no mercado ao primeiro comprador, sem averiguar o fim da encomenda, isso coberto pela ideologia da neutralidade do conhecimento e seu produto.

Já na década de 30, Frederic Lilge[2] acusava a tradição universitária alemã da neutralidade acadêmica de permitir aos universitários alemães a felicidade de um emprego permanente, escondendo a si próprios a futilidade de suas vidas e seu trabalho. Em nome da “segurança nacional”, o intelectual acadêmico despe-se de qualquer responsabilidade social quanto ao seu papel profissional, a política de “panelas” acadêmicas de corredor universitário e a publicação a qualquer preço de um texto qualquer se constituem no metro para medir o sucesso universitário. Nesse universo não cabe uma simples pergunta: o conhecimento a quem e para que serve? Enquanto este encontro de educadores, sob o signo de Paulo Freire, enfatiza a responsabilidade social do educador, da educação não confundida com inculcação, a maioria dos congressos acadêmicos serve de “mercado humano”, onde entram em contato pessoas e cargos acadêmicos a serem preenchidos, parecidos aos encontros entre gerentes de hotel, em que se trocam informações sobre inovações técnicas, revê-se velhos amigos e se estabelecem contatos comerciais.

Estritamente, o mundo da realidade concreta e sempre muito generoso com o acadêmico, pois o título acadêmico torna-se o passaporte que permite o ingresso nos escalões superiores da sociedade: a grande empresa, o grupo militar e a burocracia estatal. O problema da responsabilidade social é escamoteado, a ideologia do acadêmico é não ter nenhuma ideologia, faz fé de apolítico, isto é, serve à política do poder.

Diferentemente, constitui, um legado da filosofia racionalista do século XVIII, uma característica do “verdadeiro” conhecimento o exercício da cidadania do soberano direito de crítica questionando a autoridade, os privilégios e a tradição. O “serviço público” prestado por estes filósofos não consistia na aceitação indiscriminada de qualquer projeto, fosse destinado à melhora de colheitas, ao aperfeiçoamento do genocídio de grupos indígenas a pretexto de “emancipação” ou política de arrocho salarial que converteram o Brasil no detentor do triste “record” de primeiro país no mundo em acidentes de trabalho. Eis que a propaganda pela segurança no trabalho emitida pelas agências oficiais não substitui o aumento salarial.

O pensamento está fundamentalmente ligado à ação. Bergson sublinhava no início do século a necessidade do homem agir como homem de pensamento e pensar como homem de ação. A separação entre “fazer” e “pensar” se constitui numa das doenças que caracterizam a delinqüência acadêmica – a análise e discussão dos problemas relevantes do país constitui um ato político, constitui uma forma de ação, inerente à responsabilidade social do intelectual. A valorização do que seja um homem culto está estritamente vinculada ao seu valor na defesa de valores essenciais de cidadania, ao seu exemplo revelado não pelo seu discurso, mas por sua existência, por sua ação.

Ao analisar a “crise de consciência” dos intelectuais norte-americanos que deram o aval da “escalada” no Vietnã, Horowitz notara que a disposição que eles revelaram no planejamento do genocídio estava vinculada à sua formação, à sua capacidade de discutir meios sem nunca questionar os fins, a transformar os problemas políticos em problemas técnicos, a desprezar a consulta política, preferindo as soluções de gabinete, consumando o que definiríamos como a traição dos intelectuais. É aqui onde a indignidade do intelectual substitui a dignidade da inteligência.

Nenhum preceito ético pode substituir a prática social, a prática pedagógica.

A delinqüência acadêmica se caracteriza pela existência de estruturas de ensino onde os meios (técnicas) se tornam os fins, os fins formativos são esquecidos; a criação do conhecimento e sua reprodução cede lugar ao controle burocrático de sua produção como suprema virtude, onde “administrar” aparece como sinônimo de vigiar e punir – o professor é controlado mediante os critérios visíveis e invisíveis de nomeação; o aluno, mediante os critérios visíveis e invisíveis de exame. Isso resulta em escolas que se constituem em depósitos de alunos, como diria Lima Barreto em “Cemitério de Vivos”.

A alternativa é a criação de canais de participação real de professores, estudantes e funcionários no meio universitário, que oponham-se à esclerose burocrática da instituição.

A autogestão pedagógica teria o mérito de devolver à universidade um sentido de existência, qual seja: a definição de um aprendizado fundado numa motivação participativa e não no decorar determinados “clichês”, repetidos semestralmente nas provas que nada provam, nos exames que nada examina, mesmo porque o aluno sai da universidade com a sensação de estar mais velho, com um dado a mais: o diploma acreditativo que em si perde valor na medida em que perde sua raridade.

A participação discente não constitui um remédio mágico aos males acima apontados, porém a experiência demonstrou que a simples presença discente em colegiados é fator de sua moralização.

* Texto apresentado no I Seminário de Educação Brasileira, realizado em 1978, em Campinas-SP. Publicado em: TRAGTENBERG, M. Sobre Educação, Política e Sindicalismo. Sã Paulo: Editores Associados; Cortez, 1990, 2ª ed. (Coleção teoria e práticas sociais, vol 1)

[1] Kaysen pretende atribuir uma “alma”à corporação multinacional; esta parece não preocupar-se com tal esforço construtivo do intelectual.

[2] Frederic LILGE, The Abuse of Learning: The Failure of German University. Macmillan, New York, 1948

 


Você pode também abaixar o arquivo em pdf. Basta clicar no link abaixo:

A Delinqüência Acadêmica – Maurício Tragtenberg


CONCEITOS RETIRADOS DOS TEXTOS ABAIXO, CUJO TÍTULO E CONTEÚDO DO ORIGINAL SÃO MANTIDOS AO CLICAR NOS LINKS.

1. DELINQUÊNCIA ACADÊMICA, de Maurício Tragtemberg

2. BAGRINHOS, do texto de Alfredo Marques

3. HOMEM-DISPOSITIVO, do texto de Francisco Foot Hardman

4. FIM DA UNIVERSIDADE PÚBLICA, do texto de Marilena Chauí

5. ETHOS DE GANGUE, do texto de Luiz Felipe Pondé

6. MIKE BONGIORNO, do ensaio de Umberto Eco

7. CASTA DOS INTOCÁVEIS, da entrevista de Chico de Oliveira

8. CARTA DOS PROFESSORES DO IFCH, “O IFCH ESTÁ AGONIZANDO”


quem são os homens dispositivos, professores e burocratas? leia o texto do Prof. Francisco Foot Hardman

27/02/2010

O HOMEM DISPOSITIVO, de Francisco Foot Hardman

[Ler texto completo no Portal da Unicamp]

Maestria na arte da devida obediência (O Estado de São Paulo – Aliás – 24/9/2006)
O homem-dispositivo não age só. Ele se apresenta como emissário

Francisco Foot Hardman*

Os nomes desses senhores já são farsa, piadas-prontas antes de serem pronunciados. Pensávamos nesse pesadelo impensável como uma peça de teatro do absurdo, se bem que nem Ionesco nem Arrabal seriam capazes de representar enganos em tal magnitude. Na arte contemporânea do não-sentido, a figuração da mentira alcança a elevação sublime que duvida da razão humana ainda em nome dela mesma. Na cena rasteira da política atual, a mentira não se fantasia de nada: veste o manto da razão cínica e auto-administra-se como dispositivo do poder, alheia não só à tão propalada moral, mas antes e acima disso à própria idéia de qualquer pensamento que restaurasse ao menos as pegadas de nossas utopias perdidas. Aquelas que o iluminismo (ou ilusionismo, conforme PCC) um dia dizia ter inventado.

Por isso, não há que se fazer questão dos nomes, porque os personagens já se embaralharam há muito. Pois todo Lula tem seu Serjão, assim como todo FHC deve ter tido seu PC Farias e, afinal, todo Collor possui seu Zé Dirceu. Vejam que agora mesmo os presidentes do PFL (Jorge Bornhausen) e do PSDB (Tasso Jereissati) não estão muito preocupados com nomes, afora o do candidato-presidente. Para os dois caciques, mais importante até que a origem da grana apreendida com agentes destemidos do “comissariado para mídias arriscadas” do PT, o xis do negócio é o flagrante fotográfico das notas, do cofre, das malas, obsessão que mal disfarça sua nostalgia daquelas imagens quase em tempo real que vieram à TV na campanha presidencial de 2002, diretamente do comitê da candidata Roseana Sarney, ao que tudo indica numa operação mais eficaz que a atual, quando não em truculência, naquela blitz da Polícia Federal com forte cheiro tucano. Pena que tal fúria justiceira tenha se dissipado nos ventos do esquecimento, quando se tratou, pouco tempo atrás, de se concluir a CPI do Banestado, cujo final sem final, que a muitos certamente interessava, contou com a eficiente dupla de homens-dispositivo, irmanados no verbo acobertar, José Mentor (PT) e Antero Paes de Barros (PSDB).

Mas, afinal, quem são os homens-dispositivo, que a robótica da sociedade global-financista do espetáculo, mais que a ciência política dos estados-nações, poderia nos configurar? Como já sugeri, esqueçamos por ora os nomes, porque a rigor todas as carteiras de identidade já aparecem falsas e fiquemos aqui no esboço preferencial de seu perfil. Fecham-se os círculos e arma-se o circo. Somos 126 milhões de “patrões”, diz-nos, com a mesma pompa que vem de longe, em seu exibicionismo bacharelesco, o presidente do TSE, Marco Aurélio de Mello. Acredite quem quiser. Os homens-dispositivo não agem sós, mas também não representam vontades particulares ou gerais. Por isso se apresentam indistintamente como emissários. São mestres na arte da obediência devida. Nascem nas ordens discursivas do aparelho jurídico-político, mas se espraiam pelos movimentos sociais. No Brasil recente, são exemplo notável as centrais sindicais, a começar pela CUT, que já nasceu velha em 1983, pois atrelada à estrutura sindical corporativa do Estado, herdada de Vargas, que por sua vez a herdou de Mussolini. Vejam esses homens-dispositivo do dossiê-Vedoin: quase todos fizeram carreira na CUT, quase todos prosperaram muitíssimo na vida, quase todos vivem de expedientes, projetos, dispositivos e ONGs. Retrocedamos ao mensalão (que já parece tão passado): Delúbio e Silvinho, homens de Dirceu, homem do Presidente – cutistas de primeira hora.

Não se restringe à esfera burocrático-sindical, entretanto, o homem-dispositivo. Pode estar nas grandes corporações industrial-financeiras ou de serviços. Estará certamente na grande imprensa, gráfica ou audiovisual. O ramo da propaganda e publicidade é bastante propício a seu florescimento. Idem, o da moda. No mundo do esporte globalizado, futebol à frente, o homem-dispositivo caminha célere para produzir resultados, inventar mitos, ganhar muito na fugacidade do jogo efêmero, das celebridades natimortas, dos patrocínios suspeitos, dos contratos-fantasmas.

Também na universidade contemporânea tomada de assalto pela ideologia produtivista e empresarial, convenhamos: homens-dispositivo ocupam o lugar do antigo poder acadêmico, ditam normas, centralizam recursos dirigidos prioritariamente à auto-reprodução, substituem o eixo ensino-pesquisa por perspectiva de extensão sem limites nem finalidade. O conhecimento desinteressado cede terreno a interesses conhecidos ou obscuros. Em nome da democratização, facilitam-se avaliações. Debates de idéias podem virar meras sessões de entretenimento. A educação sossobra nos corredores das políticas mais obscurantistas e de convênios picaretas.

E do aparato policial, então, claro, sobejam homens-dispositivo. E igualmente das igrejas pós-modernas. Dali e de cá poderão, sempre, nascer vocações irresistíveis. Assessores de campanhas eleitorais, leões-de-chácara de bingos, analistas de mídias arriscadas, capangas de colarinho branco, advogados de criminosos e sobretudo advogados do crime, pouco importa, essas funções se equivalem nos novos modos de dominação. Com alguma prática, a gente pode sacá-los de longe. Com suas pastinhas, laptops e gravatas. Fazendo emendas parlamentares ou parlamentando sobre as emendas feitas e suas respectivas cotações. Sacando dinheiro-vivo. Atravessando fronteiras mortas. Pelos meios de transporte tradicionais, ou on-line. Assim se fazem homens para presidentes. Assim se fazem presidentes reais.

Mas, atenção, esse processo não é em absoluto privilégio do povo brasileiro. O homem-dispositivo, parte dos mecanismos estatal-financeiros globalizados, pode trazer uma bomba na cintura ou dólares na bolsa. Depende. Daí que se redobrem cuidados. A única certeza é de que essa silhueta demasiadamente parecida com humana é só farsa, homem sem sombra, no desassossego da agitação sem causa, porque já sem pensamento, porque já sem palavra com nexo, porque já sem razão para. E nós, sim, seres realmente existentes, que realmente nada sabíamos, tornamo-nos à revelia apêndices vivos dessas marionetes sem vida. Não somos seus “patrões”, mas antes seus servos involuntários. Romper essas engrenagens: é a única condição para voltarmos a sonhar.

*Francisco Foot Hardman é professor de Teoria e História Literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp

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Francisco Foot Hardman*

Os nomes desses senhores já são farsa, piadas-prontas antes de serem pronunciados. Pensávamos nesse pesadelo impensável como uma peça de teatro do absurdo, se bem que nem Ionesco nem Arrabal seriam capazes de representar enganos em tal magnitude. Na arte contemporânea do não-sentido, a figuração da mentira alcança a elevação sublime que duvida da razão humana ainda em nome dela mesma. Na cena rasteira da política atual, a mentira não se fantasia de nada: veste o manto da razão cínica e auto-administra-se como dispositivo do poder, alheia não só à tão propalada moral, mas antes e acima disso à própria idéia de qualquer pensamento que restaurasse ao menos as pegadas de nossas utopias perdidas. Aquelas que o iluminismo (ou ilusionismo, conforme PCC) um dia dizia ter inventado.

Por isso, não há que se fazer questão dos nomes, porque os personagens já se embaralharam há muito. Pois todo Lula tem seu Serjão, assim como todo FHC deve ter tido seu PC Farias e, afinal, todo Collor possui seu Zé Dirceu. Vejam que agora mesmo os presidentes do PFL (Jorge Bornhausen) e do PSDB (Tasso Jereissati) não estão muito preocupados com nomes, afora o do candidato-presidente. Para os dois caciques, mais importante até que a origem da grana apreendida com agentes destemidos do “comissariado para mídias arriscadas” do PT, o xis do negócio é o flagrante fotográfico das notas, do cofre, das malas, obsessão que mal disfarça sua nostalgia daquelas imagens quase em tempo real que vieram à TV na campanha presidencial de 2002, diretamente do comitê da candidata Roseana Sarney, ao que tudo indica numa operação mais eficaz que a atual, quando não em truculência, naquela blitz da Polícia Federal com forte cheiro tucano. Pena que tal fúria justiceira tenha se dissipado nos ventos do esquecimento, quando se tratou, pouco tempo atrás, de se concluir a CPI do Banestado, cujo final sem final, que a muitos certamente interessava, contou com a eficiente dupla de homens-dispositivo, irmanados no verbo acobertar, José Mentor (PT) e Antero Paes de Barros (PSDB).

Mas, afinal, quem são os homens-dispositivo, que a robótica da sociedade global-financista do espetáculo, mais que a ciência política dos estados-nações, poderia nos configurar? Como já sugeri, esqueçamos por ora os nomes, porque a rigor todas as carteiras de identidade já aparecem falsas e fiquemos aqui no esboço preferencial de seu perfil. Fecham-se os círculos e arma-se o circo. Somos 126 milhões de “patrões”, diz-nos, com a mesma pompa que vem de longe, em seu exibicionismo bacharelesco, o presidente do TSE, Marco Aurélio de Mello. Acredite quem quiser. Os homens-dispositivo não agem sós, mas também não representam vontades particulares ou gerais. Por isso se apresentam indistintamente como emissários. São mestres na arte da obediência devida. Nascem nas ordens discursivas do aparelho jurídico-político, mas se espraiam pelos movimentos sociais. No Brasil recente, são exemplo notável as centrais sindicais, a começar pela CUT, que já nasceu velha em 1983, pois atrelada à estrutura sindical corporativa do Estado, herdada de Vargas, que por sua vez a herdou de Mussolini. Vejam esses homens-dispositivo do dossiê-Vedoin: quase todos fizeram carreira na CUT, quase todos prosperaram muitíssimo na vida, quase todos vivem de expedientes, projetos, dispositivos e ONGs. Retrocedamos ao mensalão (que já parece tão passado): Delúbio e Silvinho, homens de Dirceu, homem do Presidente – cutistas de primeira hora.

Não se restringe à esfera burocrático-sindical, entretanto, o homem-dispositivo. Pode estar nas grandes corporações industrial-financeiras ou de serviços. Estará certamente na grande imprensa, gráfica ou audiovisual. O ramo da propaganda e publicidade é bastante propício a seu florescimento. Idem, o da moda. No mundo do esporte globalizado, futebol à frente, o homem-dispositivo caminha célere para produzir resultados, inventar mitos, ganhar muito na fugacidade do jogo efêmero, das celebridades natimortas, dos patrocínios suspeitos, dos contratos-fantasmas.

Também na universidade contemporânea tomada de assalto pela ideologia produtivista e empresarial, convenhamos: homens-dispositivo ocupam o lugar do antigo poder acadêmico, ditam normas, centralizam recursos dirigidos prioritariamente à auto-reprodução, substituem o eixo ensino-pesquisa por perspectiva de extensão sem limites nem finalidade. O conhecimento desinteressado cede terreno a interesses conhecidos ou obscuros. Em nome da democratização, facilitam-se avaliações. Debates de idéias podem virar meras sessões de entretenimento. A educação sossobra nos corredores das políticas mais obscurantistas e de convênios picaretas.

E do aparato policial, então, claro, sobejam homens-dispositivo. E igualmente das igrejas pós-modernas. Dali e de cá poderão, sempre, nascer vocações irresistíveis. Assessores de campanhas eleitorais, leões-de-chácara de bingos, analistas de mídias arriscadas, capangas de colarinho branco, advogados de criminosos e sobretudo advogados do crime, pouco importa, essas funções se equivalem nos novos modos de dominação. Com alguma prática, a gente pode sacá-los de longe. Com suas pastinhas, laptops e gravatas. Fazendo emendas parlamentares ou parlamentando sobre as emendas feitas e suas respectivas cotações. Sacando dinheiro-vivo. Atravessando fronteiras mortas. Pelos meios de transporte tradicionais, ou on-line. Assim se fazem homens para presidentes. Assim se fazem presidentes reais.

Mas, atenção, esse processo não é em absoluto privilégio do povo brasileiro. O homem-dispositivo, parte dos mecanismos estatal-financeiros globalizados, pode trazer uma bomba na cintura ou dólares na bolsa. Depende. Daí que se redobrem cuidados. A única certeza é de que essa silhueta demasiadamente parecida com humana é só farsa, homem sem sombra, no desassossego da agitação sem causa, porque já sem pensamento, porque já sem palavra com nexo, porque já sem razão para. E nós, sim, seres realmente existentes, que realmente nada sabíamos, tornamo-nos à revelia apêndices vivos dessas marionetes sem vida. Não somos seus “patrões”, mas antes seus servos involuntários. Romper essas engrenagens: é a única condição para voltarmos a sonhar.

*Francisco Foot Hardman é professor de Teoria e História Literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp

CONCEITOS RETIRADOS DOS TEXTOS ABAIXO, CUJO TÍTULO E CONTEÚDO DO ORIGINAL SÃO MANTIDOS AO CLICAR NOS LINKS.

1. DELINQUÊNCIA ACADÊMICA, de Maurício Tragtemberg

2. BAGRINHOS, do texto de Alfredo Marques

3. HOMEM-DISPOSITIVO, do texto de Francisco Foot Hardman

4. FIM DA UNIVERSIDADE PÚBLICA, do texto de Marilena Chauí

5. ETHOS DE GANGUE, do texto de Luiz Felipe Pondé

6. MIKE BONGIORNO, do ensaio de Umberto Eco

7. CASTA DOS INTOCÁVEIS, da entrevista de Chico de Oliveira


FENOMENOLOGIA DE MIKE BONGIORNO, de Umberto Eco

21/02/2010

FENOMENOLOGIA DE MIKE BONGIORNO, de Umberto Eco

Mike Bongiorno

O homem rodeado pelas mass media é no fundo, entre todos os seus semelhantes, o mais respeitado: não se lhe pede nunca senão que se torne aquilo que já é. Por outras palavras, são-lhe provocados desejos segundo a pauta das suas tendências. Porém, uma vez que uma das compensações narcóticas a que tem direito é a evasão pelo sonho, são-lhe habitualmente apresentados ideais, entre os quais e ele próprio se possa estabelecer certa tensão. Para retirar dos últimos toda a responsabilidade, tomam-se providências de modo a fazer com que tais ideais sejam de fato inatingíveis, de forma a que a tensão se resolva numa projeção e não numa série de operações efetivas orientadas para modificar o estado de coisas dado. Em suma, pede-se ao indivíduo que se transforme num homem com frigorífico e um televisor de vinte e uma polegadas, e isto quer dizer que se lhe pede que continue a ser como é, acrescentando aos objetos que possui um frigorífico e um televisor; em compensação, a ele propõe-se como ideal Kirk Douglas ou Superman. O ideal do consumidor de mass media é um super-homem que ele nunca pretenderá tornar-se, mas que se deleita a encarnar de um modo fantástico, tal como se veste durante alguns minutos diante de um espelho uma roupa alheia, sem sequer se pensar em vir a possuí-la um dia.

A situação nova que se coloca a respeito da TV é esta: A TV não oferece, como ideal pra o ensimesmamento do indivíduo, o superman, mas sim o everyman. A TV representa como ideal o homem absolutamente médio. No teatro, Juliette Greco aparece no palco e cria subitamente um mito e funda um culto;

Josephine Baker desencadeia rituais idolátricos e dá nome a toda uma época. Na TV surge diversas vezes, repetidamente, o rosto mágico de Juliette Greco, mas o rito nem por isso nasce de modo idêntico; o ídolo não é ela, mas a locutora, e por entre as apresentadoras mais amadas e famosas estará exatamente aquele que melhor representa a média dos caracteres comuns: beleza modesta, sex-appeal limitado, gosto discutível, um certe inexpressividade doméstica.




Josephine Baker photo06

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

Ora, no campo dos fenômenos quantitativos, a média representa de fato um meio-termo e, para quem ainda não se uniformizou, representa igualmente uma meta. Se, de acordo com a conhecida boutade, a estatística é a ciência para a qual se diariamente um homem come dois frangos e o outro nenhum, os dois homens comeram um frango cada um – para o homem que não comeu, a meta de um frango por dia é algo de positivo a que ele poderá aspirar. Pelo contrário, no campo dos fenômenos qualitativos, o nivelamento pela média corresponde ao nivelamento pelo zero. Um homem que possua “todas” as virtudes morais e intelectuais em “grau médio”, acha-se imediatamente a um nível mínimo de evolução. A “mediana” aristotélica é equilíbrio no exercício das próprias paixões, dirigido pela virtude do discernimento da “prudência”. Enquanto, em contrapartida, alimentar um grau médio de paixões e ter uma prudência média significa ser um pobre exemplar de humanidade.

O caso mais vistoso de redução do superman ao everyman temo-lo, na Itália, na figura de Mike Bongiorno e na história do seu destino. Idolatrado por milhões de pessoas, este homem deve o seu êxito ao fato de, em todos os atos e todas as palavras da personagem a que ele dá vida perante as câmaras de televisão, transparecer uma mediocridade absoluta unida (sendo esta a única virtude que possui em grau excedente) a um fascínio imediato e espontâneo explicável por não estar rodeado da menor construção ou ficção cênica: quase parece que ele não quer passar senão pelo que é, sendo de molde a não colocar em situação de inferioridade espectador nenhum, nem mesmo o mais despossuído de todos. O espectador vê glorificado e condecorado oficialmente com uma autoridade nacional o retrato das suas próprias limitações.

Para compreendermos este extraordinário poder de Mike Bongiorno, poderá surgir-nos a idéia de proceder a uma análise dos seus comportamentos, a uma verdadeira “fenomenologia de Mike Bongiorno”, indicando-se, fique claro, por este nome não o homem, mas a personagem.

Mike Bongiorno não é particularmente belo, atlético, corajoso, inteligente. Representa, biologicamente falando, um grau modesto de adaptação ao ambiente. O amor histérico que lhe tributam as teen-agers deve-se em parte ao complexo maternal que ele é capaz de despertar numa mocinha, em parte à perspectiva futura que ele sugere, de um amante ideal, submisso e frágil, suave e cortês.

Mike Bongiorno não se envergonha de ser ignorante e não revela qualquer necessidade de se instruir. Entre em contato com as mais vertiginosas zonas do conhecimento e delas sai virgem e intato, confortando as naturais tendências para a apatia e preguiça mental dos outros. Cuida bastante para não impressionar o espectador, não só mostrando às escuras quanto aos acontecimentos circundantes, como, além disso, manifestando-se decididamente resolvido a não aprender coisa alguma.

Em compensação, Mike Bongiorno demonstra uma admiração sincera e primitiva pelos que sabem. Quanto a estes, o que destaca neles é, porém, as qualidades de aplicação manual, a memória, a metodologia óbvia e elementar: uma pessoa torna-se culta lendo muitos livros e fixando o que eles dizem. Não lhe passa, nem minimamente, a suspeita de qualquer função crítica e criativa da cultura. Tem dela um critério meramente quantitativo. Deste modo (acontecendo que é preciso, para se ser culto, terem-se lido durante muitos anos livros), é natural que o homem não predestinado renuncia a todas as tentativas culturais.

Mike Bongiorno professa um apreço e uma confiança ilimitados em relação ao especialista; um professor é um sábio; representa a cultura autorizada. É o técnico do ramo. É a ele que devemos perguntar as coisas, dada a sua competência.

A admiração pela cultura, entretanto, torna-se ainda maior, quando, na base dela, se pode ganhar dinheiro. Então é que se descobre que a cultura serve para alguma coisa. O homem medíocre recusa-se a aprender, mas propõe-se mandar estudar o filho.

Mike Bongiorno tem uma noção pequeno-burguesa do dinheiro e de seu valor (“Imaginem, já ganhou cem mil liras: é um belo dinheirinho!).

Mike Bongiorno antecipa assim, sobre o concorrente, as reflexões impiedosas que o espectador será levado a fazer. “Arre, como ele estará satisfeito com aquela grana toda, ele que sempre viveu com um salário tão modesto! Terá alguma vez tido tanto dinheiro nas mãos?”

Mike Bongiorno aceita todos os mitos da sociedade em suas categorias e trata-as com uma deferência cômica (a criança diz: “Desculpe, senhor guarda…”), mas usando sempre, entretanto, a qualificação vulgar e corrente, muitas vezes depreciativa: “senhor varredor, senhor camponês”.

Mike Bongiorno aceita todos os mitos da sociedade em que vive: beija a mão da senhora Balbiano d’ Aramengo e diz que o faz por se tratar de um condessa (sic).

Para além dos mitos, aceita também as convenções sociais. É paternal e condescendente com os humildes, deferente para com as pessoas socialmente qualificadas.

Ao entregar o dinheiro, parece instintivamente levado a pensar, sem o exprimir claramente, mais em termos de esmola que de ganho. Mostra a sua crença de que, na dialética das classes, a único meio de ascensão é o representado pela providência (podendo assumir ocasionalmente o rosto da Televisão).

Mike Bongiorno fala um basic Italian. O seu discurso realiza o máximo possível de simplicidade. Abole os conjuntivos, as proposições subordinadas, consegue tornar quase invisível a dimensão sintática. Evita os pronomes, repetindo sempre por extenso o sujeito, emprega um número imenso de pontos finais. Não se aventura nunca em intercalações ou formas parentéticas, não emprega expressões de elite, não faz alusões, utiliza apenas metáforas já integradas plenamente no léxico comum. A sua linguagem é rigorosamente referencial e faria a alegria de um neopositivista. Não é necessário fazer qualquer esforço para entendermos. Qualquer espectador observa que, se fosse esse o caso, poderia ser bem mais eloqüente do que ele.

Não aceita a idéia de que a uma pergunta possa corresponder mais do que uma resposta. Olha com desconfiança as variantes. Nabuco e Nabucodonosor não são a mesma coisa; reage frontalmente aos dados como um cérebro eletrônico, porque está firmemente convencido de que A é igual a A e que tertium non datur. Aristotélico por defeito, a sua pedagogia é, conseqüentemente, conservadora, paternalista, imobilista.

Mike Bongiorno é desprovido de sentido de humor. Ri por estar contente com a realidade, não por ser capaz de deformar a realidade. Escapa-lhe a natureza do paradoxo; quando se lhe apresenta um, repete-o com ar divertido e sacode a cabeça, subentendendo que o interlocutor é simpaticamente anormal; recusa-se a suspeitar de que por trás do paradoxo se esconda a verdade, precisamente como o não considera um veículo autorizado de opinião.

Evita a polêmica, mesmo com argumentos legítimos. Não deixa de informar-se acerca da estranheza do que se pode conhecer (uma nova corrente de pintura, uma disciplina abstrusa… “Diga-me uma coisa, hoje fala-se tanto de futurismo. Mas o que é ao certo esse futurismo?). Recebida a explicação, não tenta aprofundar o tema, mas deixa transparecer a sua bem-educada discordância de pessoa que pensa como deve ser. Respeita deste modo a opinião do outro, não por propósito ideológico, mas por desinteresse.

De Entre todas as perguntas possíveis sobre um tema escolhe a que primeiro viria à mente de qualquer um e que metade dos espectadores afastaria prontamente por ser demasiado banal: “O que é que o quadro pretende representar?”, “Como é que chegou a escolher um hobby tão diferente do seu trabalho?”; “Como lhe veio à cabeça ocupar-se de filosofia?”.
Leve os clichês até as últimas conseqüências. Uma moça educada com freiras é virtuosa, uma moça de meias de cor e rabo-de-cavalo é “queimada”. Pergunta à primeira, que é uma moça tal como deve ser, se gostaria de se tornar como a outra; se se lhe faz notar a comparação em tais termos é ofensiva, consola a segunda moça realçando a sua superioridade física e humilhando a educada das freiras. Neste vertiginoso jogo de gaffes não tenta ao menos empregar a perífrase: a perífrase é já uma agudeza, e as agudezas pertencem a um círculo intelectual a que Bongiorno é estranho. Para ele, como já se tinha dito, cada coisa em um nome e só um, o artifício retórico é uma sofisticação. No fundo, a gaffe nasce sempre de um ato de sinceridade não mascarada; quando a sinceridade é voluntária não há gaffe, mas desafio e provocação; a gaffe (em que Bongiorno se excede, segundo dizem os críticos e o público) nasce exatamente quando se é sincero por erro ou por desconsideração. Quando mais medíocre for, mais o medíocre se torna desajeitado. Mike Bongiorno reconforta os medíocres, elevando a gaffe à dignidade de figura de retórica, no quadro de uma etiqueta homologada pela entidade transmissora e pela nação auditora.

Mike Bongiorno regozija-se sinceramente com o vencedor porque honra o êxito. Cortesmente desinteressado em relação ao vencido, comove-se se este fica em situação difícil e torna-se promotor de uma disputa beneficente, finda a qual se mostra satisfeito e convence o público de que tudo vai bem; em seguida ocupa-se de outras coisas alentado pela sua crença de que é este o melhor dos mundos possíveis. Ignora a dimensão trágica da vida.

Mike Bongiorno convence, portanto, o público, como um exemplo vivo e triunfante, do valor da mediocridade. Não provoca complexos de inferioridade, embora se ofereça como ídolo, e o público recompensam-o, agradecido, amando-o. Representa um ideal que ninguém deve esforçar-se por atingir porque seja quem for se encontra, desde o início, já ao mesmo nível que ele. Nenhuma religião foi jamais tão indulgente para com os seus fiéis. Em Mike Bongiorno anula-se toda a tensão entre ser e dever ser. E ele diz aos seus adoradores: sois Deus, continuai imóveis.

Do “Diário Mínimo”, de Umberto Eco
Difel, 1985

MIKE BONGIORNO, tornando-se uma categoria analítica, um conceito. Acho que a nossa volta há muitos e muitos Mike Bongiorno(s), do que políticos e apresentadores de TV. O arrivismo, o puxa-saquismo fabricam Mike Bongiorno(s) aos magotes. Eles nos sufocam. E cuidemo-nos para não nos tornarmos um.

Abaixo citação de uma artigo do Estadão, onde analista usa a categoria, Mike Bongiorno, para analisar Berlusconi

“Se um homem de negócios, que em outro país ocidental com alguma tradição liberal-democrática se limitaria a construir palacetes em Milão, assume o controle absoluto dos meios de comunicação e domina a cena política por mais de 20 anos, chegando três vezes ao cargo de primeiro-ministro, como aconteceu com Berlusconi na Itália, o mínimo que nos cabe fazer é analisar o fenômeno e dele extrair o máximo de lições possível.” A proposta é de Pierfranco Pellizzetti, autor do recém-publicado Fenomenologia di Berlusconi (Manifestolibri), um exame da mutação cultural da sociedade italiana a partir da década passada, quando a “banal mediocridade” representada pelo ídolo televisivo Mike Bongiorno perdeu sua hegemonia para a “mediocridade lobisomem” representada por Berlusconi e empurrou a Itália para “um precipício humano, político e civil”.

“Pellizzetti trabalha com o mesmo instrumental analítico usado por Eco em sua Fenomenologia di Mike Bongiorno, escrita em 1961 e incluída na coletânea Diário Mínimo. Campeão de audiência na televisão italiana durante quase meio século, Bongiorno, um bobo alegre que vivia de plagiar programas de variedades americanos e foi enterrado como herói nacional em setembro deste ano, encarnava, segundo Eco, a mediocridade absoluta do italiano médio, que se identificava totalmente com o apresentador e sua alvar alegria, sobretudo porque Bongiorno, que muito se gabava de sua ignorância, o fazia sentir-se, por comparação, mais educado, mais inteligente”.
O Estado de S.Paulo,domingo, 29 de novembro de 2009

CONCEITOS RETIRADOS DOS TEXTOS ABAIXO, CUJO TÍTULO E CONTEÚDO DO ORIGINAL SÃO MANTIDOS AO CLICAR NOS LINKS.

1. DELINQUÊNCIA ACADÊMICA, de Maurício Tragtemberg

2. BAGRINHOS, do texto de Alfredo Marques

3. HOMEM-DISPOSITIVO, do texto de Francisco Foot Hardman

4. FIM DA UNIVERSIDADE PÚBLICA, do texto de Marilena Chauí

5. ETHOS DE GANGUE, do texto de Luiz Felipe Pondé

6. MIKE BONGIORNO, do ensaio de Umberto Eco

7. CASTA DOS INTOCÁVEIS, da entrevista de Chico de Oliveira


POESIA NA TRIBO

08/02/2010

Ponto de vista

Leila Míccolis

Eu não tenho vergonha
de dizer palavrões,
de sentir secreções
(vaginais ou anais).
As mentiras usuais
que nos fodem sutilmente
essas sim são imorais,
essas sim são indecentes

Ah! a poesia, que tudo põe a nu.

O bom filho a casa torra, Editora Blocos, 199

ou em POESIA NA TRIBO, Ed. da Tribo, 1997

PRECE PÓS-MODERNA
de Ulisses Tavares

a utopia virou pecado.
ajoelhem-se, revolucionários.
penitência, pirados.
jejum total, poetas.
mea culpa, mea máxima culpa,
em nome do pai e dos filhos
da puta, amém.

No “Poesia na Tribo vol. 1”, Ed. da tribo, 1997


Millôr Fernandes e a Liberdade de pensamento e cátedra

08/02/2010

“O pensamento é totalmente livre. Exprimi-lo, porém, é toda uma outra conversa. O poder público fica dividido em executivo, exercicutivo e executado. A justiça será igual para todos, sendo que para os ricos um pouco mais igual do que pros pobres.

É garantida a liberdade de cátedra. Cada um pode comprar quantas cadeiras quiser. Boa, hein? Eu acho que vou dar certo”

“Computa Computador Computa”, de Millôr Ferandes, Nórdica, 1972


ENTREVISTAS EM CONCURSOS Uma das artimanhas DOS CORRUPTOS

08/02/2010

Uma das artimanhas
é incluir uma “entrevista” classificatória,

CLIQUE AQUI PARA VER “DELINQUÊNCIA ACADÊMICA”, de Maurício Tragtemberg “O exame é a parte visível da seleção; a invisível é a entrevista, que cumpre as mesmas funções de “exclusão” que possui a empresa em relação ao futuro empregado.”

Parentes e amigos aprovados em concursos
Eventualmente, concursos públicos podem ser abertos
pelas autoridades recém–empossadas para pagar promessas
de campanha e dar empregos para correligionários, amigos e parentes. Isso acontece mesmo quando a
prefeitura se encontra em situação de déficit orçamentário
e impedida de contratar funcionários por força da Lei
de Responsabilidade Fiscal, que impede a administração
pública de gastar mais do que arrecada e impõe à folha
salarial um limite de 60% dos gastos totais.
Esses concursos públicos arranjados normalmente incluem
provas com avaliações subjetivas, que permitem à
banca examinadora habilitar os candidatos segundo os
interesses das autoridades municipais. Uma das artimanhas
é incluir uma “entrevista” classificatória, realizada
com critérios que retiram a objetividade da escolha.
Concursos com essas características têm sido anulados,
quando examinados pelo Judiciário, pois há uma reiterada
jurisprudência determinada pelos tribunais sobre o
assunto, inclusive por parte do Tribunal de Contas do
Estado de São Paulo.”

“O COMBATE À CORRUPÇÃO Nas Prefeituras do Brasil”, Ateliê Editorial, 2a. ed., 2003 ou no link