Mariazinha. Lírio do Brejo. Hedychium Coronarium.

20/12/2012
Lírio do brejo, Mariazinha

Lírio do brejo, Mariazinha

Lá na Serra dos Pinheiros, Ponte Nova, Minas Gerais é Mariazinha. Folha tão macia que serve para para curar feridas. Perfume é de frescor e delicadeza. Passei quase um dia inteiro deitado e escondido entre elas, escondendo da espingarda do Zé Coelho quando roubava umas frutas que lá se chamava eugênia. Eugênia um nome genérico, pois a pitanga é também é um eugênia. Eugênia também de pele lisa, morena e cheirosa, de flores de um rosa, quase escarlate.

Eugênia, frutos

Eugênia, frutos

Tanto por esse rosa das flores, do roxo das frutas, Eugênia, quanto mais o tempo passa e vou falando dela, mais é uma flor mulher, um fruto paixão e  a visão do sexo.

A Mariazinha diz que é um planta invasora. Há legislação que propõe controle ou até extermínio. Mas lá naqueles brejos de Minas ela já tomou conta. E tomou conta da pele da minha infância que não muda que nem cobra, mas que cresta, com o tempo, e fossiliza todos os toques. E entranha. Não acredito muito em leis para preservar a natureza todo tempo destruída, mas acredito em leis para promover extermínios. Os rios daqueles brejos, brejos de mariazinhas, de peixes ao sol, de cobras reluzentes, hoje são esgotos de restos de porcos criados em grandes chiqueiros capitalistas.
Mas como gostava de amassar, alisar e cheirara as mariazinhas. O cheiro. A pelo lisa e comovente das folhas. E a flor branca, lisa e com quase o mesmo cheiro suave, mas penetrante das folhas suaves, lisas e cheia de conforto, conforto no pegar e no deitar sobre elas. Nem o risco das perigosas e subreptícias  jararacas impediam que deitasse na moita delas.Lírio do brejo
E foi na moita perfumada e macia dela que namorei minhas primas. E namoro todos os dias, pois é impossível esquecer o perfume do amor e das mariazinhas.E o cheiro hoje é ainda mais penetrante, o liso mais liso, o frescor mais fresco. A lembrança que é pura imaginação. Talvez nem tenha acontecido assim. Nem mesmo tenha acontecido. E foi Manoel de Barros que escreveu que “o que não inventei é mentira”. Ou melhor: Tudo que não invento é falso

Eugênia

Eugênia, flores

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(co.ro..ri:o)

Mariazinha, Lírio do Brejo, Hedychium Coronarium

Mariazinha, Lírio do Brejo, Hedychium Coronarium

a.

1. Ref. a coroa ou a coroação; CORONAL

2. Anat. Que envolve um órgão ou uma parte do corpo como uma coroa (artérias coronárias).

[F.: Do lat. coronariusa, um.]

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O Milagre da Pintura, Rubem Braga

28/08/2012

Almada Negreiros, HOMENAGEM A LUCCA SIGNORELLI(1942).

Este braço levantado é o mesmo gesto a que volto, procuro e desgraçadamente achei em carne. Tudo poderia ser apenas uma pintura. Mas, para minha alegria dor e muito desespero, fotografei estes braços e um corpo parecido de uma mulher tão sedutora quanto. E olha para a pintura e olho para a foto. Como pode me acontecer tal mágica. E tal flagelo. Como a pintura e a vida podem conspirar para religar-nos à vida, à paixão mais juvenil e inatingível, como nos meus nove anos perdidamente apaixonado pela minha professora. A mesma paixão avassaladora e ridícula. A mesma distância. A mesma insensatez.
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Erik Satie é um compositor irreverente, quase satírico, compromissado com o riso. Que dessacralizou a música clássica, misturando Ragtime, Jazz e Can-can. No entanto pus aqui um “Jour Triste”.

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O quadro, a menina da minha cidade ficam cada vez mais nítidos, mais obsessivos, mais fundidos. A professorinha é uma nebulosa, como são muitos quadros, cuja nitidez foi embora, mas impõem, avassaladoramente, sua presença. Aqui também a pouca nitidez das feições impõe a ditadura do gesto que nocauteia. E permite esta fusão entre ficção e realidade. E tudo vira ficção pela força desta mesma fusão. E nesta alegria tão triste que amei, clandestinamente até agora,e ainda amo, este ridículo. E tive que confessá-lo aqui, talvez para suportá-lo, já que o tempo não meu deu qualquer refresco. Voltar a folhear os livros de reproduções, momentaneamente, dá para distinguir entre quadro e foto. E dá para escapar, momentaneamente, desta ficção mais potente que qualquer realidade. Sempre contraditei, monologando, Elis Regina quando cantava que “viver é melhor que sonhar”. Tudo bem, pode ser melhor para suportar a vida. Mas quem desgoverna é o sonho.
Eu não sei qual distância é maior. Um velho amar a menina da sua cidade, ou ficar velho, anos pós anos, amando o mesmo gesto e o mesmo corpo numa pintura azul, amarela, magenta e verde. Tão irreal quanto os amores absurdos. E tão inescapável. Concordo que é tolice. Coisa de Dom Quixote, ou uma Beatriz de Dante que ele só viu, uma vez, na janela e amou até a eternidade. Amo também os amores juvenis e tolos de Romeu e Julieta. Vê-se que é um caso perdido.

Almada Negreiros é um vanguardista português do início do século XX. Mas eu tinha vergonha de amar tão sexualmente uma pintura. E minha sentia retrógrado em amar um quadro não muito vanguardista de um pintor de vanguarda.
Deu vontade de cair na gandaia. Beber, fumar, vícios que não tenho. E me lembrei da crônica de Rubem Braga, O Mistério da Pintura. Reli e sabia que ia aumentar minha angústia.
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Biblioteca Mário, I-010.001. Rubem Braga.

“Deixo-me o quadro com inocência, recebo a sua revelação virgem como se fosse um bela desconhecida, que apenas achamos digna e triste, ou leve e tímida, sem sequer poder dizer a forma do seu nariz ou a cor de seus cabelos”.

“…é a pintura que me apazigua e me faz sonhar. Sou, entretanto, um viciado quase grosseiro…”

E de repente tenho pena de tantos pintores que se agarram a teorias e escolas, do concretista apaixonado ou apenas acompanhador da moda que se proíbe a delícia que lhe poderia causar uma figura ou uma paisagem, do neo-realista para quem fica sendo um pecado gostar de uma composição abstrata – de todos os que amputam, por causa de teorias do momento, de paixões estranhas à arte, à própria sensibilidade e limitam sua alegria íntima nesse mundo maravilhoso da pintura. Mundo maravilhoso do qual sempre voltamos com um respeito maior pela dignidade humana, um respeito por esta pobre coisa, o indivíduo que permanece fiel a si mesmo e procura contar sua tristeza, sua maravilha ou sua ânsia de infinito”. Rubem Braga, Um Cartão de Paris, Ed. Record.
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procerão, um conto de 1984.

23/06/2012

procerão

Procerão, 1

Procerão, 2

Procerão, 3

Procerão, 4

Procerão, 5

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Sonhava ser jogar de futebol, por mais que fosse um aplicado perna-de-pau e sabia disso. O sonho era um lenitivo para dormir. Um sonífero para esquecer. Um auto-engano para espantar a dureza do trabalho na roça e depois do colégio interno onde cheguei semi-analfabeto, tendo que estudar latim. Sempre lembro com pena e um certo regozijo do chute formidável que dei na gramática Ragon. Mas defendo que o latim volte às escolas secundárias .Cinco décadas depois, falar 50 anos parece que as coisa fica pior, sonho  dando grandes chutes, principalmente sonho acordado, apesar de chutar fraquinho fraquinho. E com as duas pernas como pelé. E fico rindo de tamnha asneira e durmo feliz. Assim sonho com pintura sem saber desenhar um patinhos, começando com um dois. Com desenho e arquiteturas. Fui construir um caminhão de madeira para meu filho e, ao final, consegui um trenzinho pintado de vermelho e verde. Pior, foi duro descartar dele depois. Fiz discursos revolucionários em meio a uma simples greve. E diante de qualquer criança pedindo esmolas, mesmo daquela criança que Pagú deu esmolas, em 1933, nas ruas de Moscou, em sonho com revoluções. E continuo brigando com Elis Regina e Belchior, pois acho sonhar melhor que viver. Claro que viver sonhando.

Em 1984 eu sonhava em ser escritor, mesmo notando que qualquer um que eu lia escrevia melhor que eu. Este conto, talvez foi a última tentativa, foi o marco da minha desistência. Nunca mais escrevi senão panfletos sindicais. E depois viciei-me em e-mails, fingindo que escrevo cartas, hoje um gosto solitário.  Ainda tenho a mesma covardia de 1984.  Mas não repudio esta pequena história.  Gosto dela, tanto que guardei. E aqui publico.

Tive a tentação de dedicar ao meu amigo Mário Augusto Medeiros da Silva,  xará e coloborador, esporádico, deste blog. Um vingança por ele ficar insistindo que eu devo escrever.

E escrevo isso, e leio sempre todas as coisas, ao som de alguma música exagerada, melhor, toda música é um exagero. Neste momento uma música árabe, dilacerada, com Yo-Yo-Ma . Que justifica qualquer desatino.  A maior das artes.  Que na minha república dos sonhos,  desafiando Platão, poetas, dramaturgos, humoritas, deviam ser seres privilegiados e protegidos, inatingíveis. E os músicos deveriam ser mesmo tratados com deuses, assim mesmo como  eram tratados os artistas de rock. Deuses  como eu acho que são Jimi Hendrix e Bach. E filósofos só seriam aceitos se frequentassem um baile funk e dançassem.

Como não danço, ninguém deve acreditar em nada que escrevo.