O Ministério da Justiça (NÃO) alerta: os negros são exterminados

09/11/2012

A matéria de “O Estado de São Paulo” abaixo, tenda interpretar os dados publicados pelo Ministério da Justiça. Ontem os jornais da televisão deram como notícia. Apenas um deles falou dos dados referentes aos negros. Continua a conspiração racista do silêncio. Não é que querem matar somente a memória, querem impedir que ela se constitua. No jornal da TV Cultura um comentarista dizia que não podemos levar em conta as estatísticas dos governos do estado de São Paulo, pois as estatísticas são maquiadas para esconder os homicídios. Mas o Jornal O Estado de São Paulo faz um artigo hoje apologético sobre a segurança pública em São Paulo, a mesma que esconde dados, ou seja, é paga com o imposto do povo para mentir. Daqui do alto do saber na Unicamp não podemos contestar, pois a Unicamp não tem qualquer núcleo de pesquisa sobre a violência. A Unicamp é uma espécie Bahamas da elite branca e refestelada. A Unicamp é um ilha de ignorância sobre a realidade dos negros e pobres.  Outros jornais, como Folha de São Paulo não fez qualquer chamada; o que suponho nem tratau a questão.Mas o que me açulou toda meu ódio foi ver como os jornais televisivos escondem a questão do extermínio dos negros. E os jornais em papel chegam mesmo a ignorar a anúncio do Ministério da Justiça. O ministro veio a público comentar e num tom quase blasé dá sua receita para diminuir a violência (não folou do extermínio dos negros. Não falou da polícia rascista e assassina). Falou que é um problema de todas esferas de governo, que prefeituras, estados e governo federal devem estar juntos, patati-patatá.

Qual saída? No Morro do Café em BH a polícia mineira matou tio e sobrinhos, por serem negros andando na rua. O tio, enfermeiro querido pela comunidade, como os entrevistados disseram. O sobrinho, estudante aplicado. O pai policial militar e irmão do outro assassinado. Os moradores do Morro do Café enfrentaram, em protesto, a polícia das 18 horas até 00 horas. Pedras e até tiros. Fogo em ônibus – os mesmo que carregam as pessoas como gado e ainda cobram alto. O método é este. É precio que a população, os negros e os pobres ,  ponha todo este ódio a serviço de mudanças revolucionárias, como está acontecendo no oriente. É a única esperança.

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Como disse Paulo Lins na TV cultura, no Jornal da Cultura, a democracia brasileira é de uma elite que massacra o negro e o pobre, que o estado brasileiro é genocida, massacra e mata negros e pobres. Claro que a apresentadora, como é do seu costume, mudou logo, logo de assunto.

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FRASES DO ARTIGO DO ESTADÃO

****No Brasil, em cada três assassinatos, dois são de negros. Em 2008, morreram 103% mais negros que brancos
****entre 2002 e 2008, uma diferença de 30%. Enquanto isso, os assassinatos entre os jovens negros passaram de 11.308 para 12.749 – aumento de 13% ****Na Paraíba, em 2008, morreram 1.083% mais negros do que brancos
****Na população jovem, o campeão é Alagoas. Em 2008, morreram 1.304 % mais negros que brancos.
A última frase é uma ironia macabra. Na terra do Quilombo de Palmares e de Zumbi, símbolo da liberdade e convivência entre brancos e negros e símbolo da luta pela libertação é onde o extermínio vai mais longe. E na lista ou rankink ou mapa do extermínio está também a cidade de Palmares, em Pernambuco.

Lisandra Paraguassu – O Estado de S.Paulo

No Brasil, em cada três assassinatos, dois são de negros. Em 2008, morreram 103% mais negros que brancos. Dez anos antes, essa diferença já existia, mas era de 20%. Esses números estão no Mapa da Violência 2011, um estudo nacional que será apresentado hoje pelo pesquisador Julio Jacobo Waiselfisz.

Os números mostram que, enquanto os assassinatos de brancos vêm caindo, os de negros continuam a subir. De 2005 para 2008, houve uma queda de 22,7% nos homicídios de pessoas brancas; entre os negros, as taxas subiram 12,1%.

O cenário é ainda pior entre os jovens (15 a 24 anos). Entre os brancos, o número de homicídios caiu de 6.592 para 4.582 entre 2002 e 2008, uma diferença de 30%. Enquanto isso, os assassinatos entre os jovens negros passaram de 11.308 para 12.749 – aumento de 13%. Em 2008, morriam proporcionalmente mais 127,6% jovens negros que brancos. Dez anos antes, essa diferença era de 39%.

Paraíba. Os dados são mais impressionantes quando se analisam números de alguns Estados. Na Paraíba, em 2008, morreram 1.083% mais negros do que brancos. Em Alagoas, no mesmo ano, foram 974,8% mais mortes de negros. Em 11 Estados, esse índice ultrapassa 200%. As diferenças são pequenas apenas nos Estados onde a população negra também é menor, como no Rio Grande do Sul, onde a diferença é de 12,5%; Santa Catarina, com 14,7%; e Acre, com 4%.

O Mapa da Violência 2011 mostra que apenas no Paraná morrem mais brancos do que negros, com uma diferença de 34,7%. Na população jovem, o campeão é Alagoas. Em 2008, morreram 1.304 % mais negros que brancos. Na Bahia, onde se concentra a maior população preta e parda do País, a diferença foi de 798,5%.

Pobres. “Alguns Estados têm taxas insuportáveis. Não é uma situação premeditada, mas tem as características de um extermínio”, disse Waiselfisz, em entrevista ontem ao Estado. “A distância entre brancos e negros cresce muito rápido”, ressalta.

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Reli isso neste dia 30/12/2012. E não vi nenhum protesto. Nenhuma grande manifestação contra este extermínio, como chamou a pesquisadora. Poderia chamar de genocídio.

E me lembrei, sempre me lembro, desse lamento de Billie Holiday. Não consegui decidir entre estas 3 de muitas versões, dessa, que para mim, é a maior de todas as intérpretes.

 

 


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O pesquisador credita essa diferença à falta de segurança que envolve a população mais pobre, em que os negros são maioria. “O que acontece com a segurança pública é o que já aconteceu com outros setores, como educação, saúde, previdência social: a privatização. Quem pode paga a segurança privada. Os negros estão entre os mais pobres, moram em zonas de risco e não podem pagar.”

PARA ENTENDER

O Mapa da Violência utiliza o sistema de classificação de cor adotado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para simplificação, negro passou a ser adotado tanto para os que se declaram pretos quanto para os pardos. O sistema só incluiu a informação em 2002, quando 92% dos óbitos já relacionavam a cor da vítima.

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Meias de seda se esgarçando, de Mário Augusto Medeiros da Silva

22/10/2012

Ao som de Gato Barbieri, Last Tango in Paris.

Quando Alice foi embora? Eu não sei muito bem o que senti.
Eu escrevia, no meio da tarde, no meio da sala. Era um domingo. Ela apareceu do nada. Eu, inocentemente, perguntei se havia dormido bem, se estava se sentindo mais disposta. Ela a tudo respondeu que sim. Ambos sorrimos, porque sabíamos que, do contrário, iríamos nos ferir mais que há três horas atrás, quando tentáramos mais uma vez o amor e nada saíra como imagináramos. Nós éramos educados demais para falar a verdade, fosse ela qual fosse. Nós tínhamos nos tornado assim.
Alice, então, se sentou. Cruzou as pernas com a elegância que me fez prestar atenção nela desde aquela primeira vez, no metrô. Ela tinha um jeito infreqüente de cruzar suas pernas. Nada vulgar. Nada forçado. Cruzou suas pernas delicadamente, descrevendo um arco comedido pelo espaço. No metrô, ela vestia uma saia longa e preta, calçava sapatilhas de bailarina, pretas, com fivela por cima, deixando à vista apenas o peito dos pés, com suas veias, azuis esverdeadas. Gostava de notar seus pés e suas veias salientes. Ela sempre me dizia que sentia vergonha que olhassem suas pernas. Mas também gostava de me afirmar que não se sentira devassada pelo meu olhar, quando me notou no metrô. Eu teria sido elegante. Nós gostávamos de nos lembrar desse encontro. Foi esquisito mesmo.
Alice me disse que viu primeiro. Mas que me achara com uma expressão excessivamente séria. Ela não gostava de rostos que poderiam dissertar facilmente sobre vitrais franceses do século XVI. Essa era a sua anedota. Eu lhe perguntava se ela achava mesmo, desde a primeira vez, que eu poderia fazer isso. Alice sorria. Puxava delicadamente um cigarro de menta de seu estojo. Nunca se sabe, ela dizia. Mas desconfiara de mim, porque eu usava um sobretudo bege, com calça preta e tênis. Ah, e a camisa também era importante, ela sempre dizia. Camisa rolê. Mas o que ela mais gostava de frisar era o meu sobretudo bege, que não combinava com nada. E que tinha, às costas, uma foice e um martelo em vermelho, com a sigla U.R.S.S. Comunistas não devem se interessar por vitrais franceses do século XVI, Alice dizia. E, além do mais, era evidente que eu comprara aquilo num brechó, que não me importava com a opinião alheia, porque nada combinava com nada. Nós ríamos do seu acento em evidente.
Alice puxava agora o mesmo cigarro de menta. Ela me olhava doce e tristemente, na sala, a escrever mais alguns contos que ela gostava de ler, mesmo que achasse que nunca seriam publicados. Nós saltamos na mesma estação de metrô. Ela sempre se perguntava – e nós nunca confessamos – se realmente tínhamos de descer ali. Mas ela sempre dizia que gostou quando eu me desequilibrei com o tranco do trem, deixando cair o Cortázar que trazia debaixo do braço. Eu, ela dizia, de propósito teria me deixado cair, deixado cair Octaedro, perto de seus pés, junto com meus olhos. Pois eu não tinha cara de quem se desequilibrasse fácil no metrô ou que deixasse um livro cair ou que olhasse fácil para alguém. Eu era um homem sério, que sabia me segurar nas curvas, com amor aos livros e somente a eles. Alice me fazia rir.
Eu, então, lhe perguntava se ela ensaiara ou improvisara rapidamente – quanta diferença isso fazia? – ao pegar Octaedro, me devolver com um sorriso e um golpe de vista e desdenhar sorrateiramente, ponderando suas palavras, que O perseguidor superava todos os contos de Octaedro. Nesse momento, nossos olhos se fixaram.
Ela me achara um conquistador barato quando eu lhe disse que aquilo tudo era suspeito, considerando que entre nós havia um Manuscrito encontrado num bolso. Ela tinha entendido a senha. Mas não queria se deixar levar. Odiava cantadas intelectuais, confessou-me depois. Nós nos silenciamos. E eu nem havia agradecido por seu gesto.
Alice, agora, dizia, sentada no sofá: Vou partir. No metrô, sem que eu lhe perguntasse – mas ela me dizia que meus olhos queriam saber – ela anunciou que ia descer na próxima estação. Apressado, eu parei de escrever meu conto sobre uma velha senhora que trabalhava num cinema noturno e lhe perguntei o por quê. No metrô, eu lhe disse, sem pensar: aqui é onde eu saio também. Alice, nas duas situações, só apertou os lábios do jeito que sempre gostava de sorrir e me olhou por sobre os óculos.
Eu havia colocado Octaedro no bolso do sobretudo. Alice disse que desde o princípio vira meu bloco de notas no bolso do sobretudo. Mentira, eu dizia. Eu estava em crise naqueles dias, não conseguia escrever nada, nada, nada. Eu não levava o bloco. Aí, ela se saía com sua jogada triunfal: você tinha que ser escritor. Eu o imaginei assim. E os vitrais franceses, eu gargalhava? Ela, séria, dizia que tinha esquecido deles ao ver Octaedro e o meu sobretudo de brechó. E eu era um homem sério, que não combinava com nada, que gostava de olhar e não ser olhado, que não deveria ter muito dinheiro e que comprara meu livro num sebo, porque tinha aspecto velho, bem velho. Eu tinha que ser um escritor.
No começo, depois de fazermos amor, Alice gostava de tomar café. Em geral, eu saía primeiro da cama, para medir o pó e ligar o aparelho. Ela vinha depois. Não gostávamos de ficar abraçados ou de conversar logo depois de fazer o amor. Gostávamos de café e seu cheiro fresco. No metrô, foi ela que se virou e me disse: ei, estranho, quer tomar um expresso? Chorava de rir, contando aos nossos amigos, que eu fechei meu rosto como quem tivesse levado um soco no estômago e anunciei solenemente que, sim, dez minutos.
Sim, dez minutos. Alice, nesta parte, chorava de rir. Agora, no sofá, ela sorria, ela me olhava com seus grandes olhos negros, ela dizia: porque eu só quero te ver de vez em quando e não ao acordar de manhã.
Alice tinha uma memória espetacular. Ela me disse exatamente isso quando terminamos nosso café e combinamos, depois de três horas de uma conversa amena e interessante, de irmos dormir na minha casa, como se já tivéssemos acertado tudo.

***

Eu gosto das suas fotografias em sépia. Eu gosto de suas fotos de outono, em preto e branco. Gosto de seus bancos vazios, de suas folhas caindo, de becos e vielas com folhas dançando ao vento. Gosto dos seus velhos e garotos de rostos devastados. Gosto do seu Chet Baker, anos 80, no quadro da sala, quase rezando num solo. Gosto de sua forma de escrever sobre o filme. Gostei quando ela disse que meu rosto era um tormento.
Eu pedia a Alice que me ensinasse a fotografar. Ela ficava muito séria – mais do que jamais a vi – e respondia duramente: alguém te ensinou a escrever? Alguém te ensinou a respirar? Não me peça para ensinar coisas que eu não sei. Depois ela ria, ria muito, até me deixar constrangido e eu não sabia se eu ou ela havíamos dito algo insólito demais para ser repetido.
Cruzou as pernas como eu gosto de vê-las. Alice veste sapatilhas pretas de dançarina, com a fivela correndo pelo peito dos pés. Gosto de seus pés, Alice. Gosto mesmo. Escreveria páginas e mais páginas sobre as veias dos seus pés, sobre a sua saia ou o vestido. Sobre você vestida, tomando café. Sobre o movimento de sua boca. Sobre o arquear de suas sobrancelhas. Mas o que mais gosto em você é que não me acha idiota ou gargalha na minha cara quando eu te pergunto, antes de tomarmos café e depois de termos feito o amor, se você acha que é realmente possível representar som e fúria, cor e forma através de palavras, se você acredita no poder da palavra. Eu gosto de você, porque você passa olhos em revista por mim e me diz, simplesmente, que a tentativa é uma busca. E você continua a me passar os olhos em revista. Eu volto a olhar para o teto e pensar. Nós não dizemos mais nada, nada, nada até que sorvamos nossas xícaras de café. Alice, eu gosto da sua busca, amargada com o gosto do café.
Nós não estamos vivendo nada novo novamente, Alice. Parece ridículo.
Eu gosto de você, Alice, pelo seu rosto duro de um general em campo de batalha, pronto ao ataque, pronta a disparar pela objetiva a sua visão de mundo e discutí-la o tempo todo. Uma vez eu te perguntei se, nas suas fotografias, não era permitido representar velhos felizes. Você me golpeou sem me olhar: você acha realmente possível ser feliz aos noventa anos? Ninguém mais é inocente nesta idade. Para ser feliz aos oitenta, noventa deve-se ter causado a infelicidade de muita gente pelo caminho. Ou não ter vivido nada para não se deixar ser ferido.
Você vai me deixar, Alice?

Eu gosto de você porque você diz que nós temos e não temos opções. Gosto das inúmeras vezes em que nós discutíamos em alto e bom som numa mesa de bar, Alice. Que nossos amigos diziam que a gente só dava voltas para chegar no mesmo lugar e concordar. Que você dizia que eu ainda não tinha me livrado do meu ranço pequeno-burguês, que eu arrotava a revolução de plantão, permanentemente de guarda, sem mover um fio do meu pijama, que eu usava um sobretudo de brechó com o símbolo da U.R.S.S. E eu te dizia, Alice, tentando me defender, eu te dizia que não era possível, jamais, confiar em alguém que acreditasse em falsa consciência, que se achasse superior por dizer que existia uma verdadeira consciência dos fatos e da realidade e que um dia, um dia sim, todos a enxergariam, como alguns poucos sábios iluminados.
E quantas vezes nós não saímos da mesa do bar sem nos falar. E quantas vezes essas discussões inúteis não se repetiram, para se diluir no ralo do banheiro, numa chuveirada quente, numa noite silenciosa, escura e tensa, com Chet Baker enquadrado no canto da sala e o neon do prédio da frente machucando os olhos de quem dormiu na sala.
Alice, você vai me deixar?

***

Agora a gata não come mais a planta falsa que fica ao chão. Ela aprendeu.
Debaixo do seu sobretudo e óculos escuros, às seis da manhã na metrópole, cavando com os olhos o fato necessário para enviar ao jornal, você me dizia, Alice, sair de casa já é se aventurar. Sair da cama já é se aventurar. Só depois de muito tempo eu entendi o que você queria dizer.
Nós não estamos vivendo nada novo novamente.

Enquanto eu buscava os grandes fatos, o grande ato heróico e glorioso que iria redimir toda essa lama de civilização – ahahahaha, você se lembra quando eu realmente disse isso? – você focava anônimos. Eu demorei para entender. Alice. Sair de casa já é se aventurar. Você os focava ao acordar, com seus olhos ramelentos, trocando notas sebentas por uma média com pão e manteiga no bar. Quantos anos, hoje, Alice?
Lembra do lançamento do nosso livro? Cenas de um Quotidiano Singular. A gente ria, ria, ria e ria do crítico que arrotava o fato extraordinário de alguém ainda escrever a palavra com Q. A gente ria e ria debaixo do balcão da livraria dos nossos amigos impressionados, tristemente impressionados que o lançamento fora numa livraria pequena, numa rua lateral, com mendigos e catadores. Que nós fazíamos a cosmética da pobreza. Alice, tudo era mais engraçado antes. Que nós unimos soberbamente… foi essa a palavra mesmo que o jornal usou? Soberbamente foto e texto, duas linguagens numa só. À noite, comendo uma pizza, a gente ficou se perguntando o que exatamente aquele crítico iria querer de nós mais tarde, enquanto engordurávamos as paginas do livro meio calabresa, meio quatro queijos.

***

Eu acordo com o meu cachimbo pendurado no canto da boca, sem saber por quê. Eu acordo sem um tema, sem um problema. Eu não sei mais escrever. Eu saio às ruas e não vejo nada. Todos os dias se assemelham a domingos interioranos. Todos os domingos se parecem, todos os dias se parecem com a celebração de um funeral indigente, toda essa merda se acumulando entre as nossas peles, entre nossos órgãos, pulsando, pulsando, pulsando, pulsando, pulsando, fluxo fluindo fino, finalmente escorrendo escorraçado bidê abaixo. Ridículo, não, Alice? Se escrever for fazer aliterações e mais aliterações, se escrever for só isso, Alice, eu já não sei mais escrever. Se escrever for técnica, pura técnica, sem nem mesmo a ilusão de um ato exemplar, sem nem mesmo algo que justifique toda essa dúvida idiota que nos move, de que vale? Mais certo não ter dúvida. Mais certo estar crente de que se morrerá como se nem tivesse vivido.
Eu caminho pela avenida de nosso bairro, à cata de um tema. Vampirando existências que não vivo, descrevendo o que não sinto. Você sempre riu dos meus contos. Você dizia: Você faz algo que não consigo: dar charme ao risível, nobilitar o execrável. Como se tudo estivesse resolvido, você puxava sua máquina para o quarto escuro e me deixava ali, com um calhamaço de papel, reduzido ao escritor idiota que conferia charme ao risível e dignificava o execrável.
Você é a própria técnica, gostava de me dizer. Escrever é técnica, é a criação, é o convencimento, é a construção de uma parede sem tijolos que seja uma parede. Mas tem que ter algo mais. E é esse algo mais que eu perdi, junto com você, numa manhã por aí.

***

Pois muito bem. Agora, partir é a solução. Nem fácil, nem tortuoso. Nem nada. É só partir, como se nem tivesse começado. É só mais um domingo atravessado na garganta, que se engole rápido, esperando terminar. É só isso. Os atos exemplares, os grandes atos, se foram. Eu agora trabalho para o jornal, eu escrevo um texto curto por dia. Você me arranjou o emprego, quando eu estava na pior. Foi onde tudo degringolou? Não os chamo de crônicas, de contos, de cartas, de nada. São textos. Eu escrevo uma coluna, cinco parágrafos, cinco linhas, quinhentas palavras, dois mil caracteres bem batidos e sem erros ortográficos ou gramaticais, seguindo o manual do jornal. Sem qualquer tipo de ambigüidade ou dificuldade evidente. A técnica se faz soberba. A seção de cartas do jornal todo dia me elogia. Há algum tempo, um missivista me disse que guardava meus textos e que eles eram ensinados em escolas, para que os estudantes soubessem como e o quê era escrever. Meu editor fica feliz.
Tudo sempre começa com um erro, Alice. Sobre o quê eu escrevo, não importa. Falta tudo. Eu admito. Não há mais tempo para buscar e essa tentativa já se tornou um tanto ridícula. Acorde de manhã e se veja como realmente é. Acorde simplesmente, você disse. Depois de ter entrado em becos e vielas, ziguezagueado entre muros, caçando vida por aí. Você entra no local que procurava. Há música alta, as pessoas bebem e riem. As pessoas pulam ao seu redor. É capaz de um camarada lhe vir apertar a mão e dizer sente-se. Sente-se, meu senhor, sente-se. Você ficaria chocada. Ou então repentinamente, todos param, a música, as risadas, os cigarros. Os dançarinos, os putos no banheiro. Todo mundo pára e você não entende muito bem por quê. Sente-se, sente-se, meu senhor.
Você vai para casa com o ouvido ribombando. E novamente, de maneira repentina, o chuveiro cai na sua cabeça como um golpe de martelo. Você fica lá, deixando a água cair simplesmente. Se quente ou fria, não interessa. Paremos com o tom piegas. Você sai do banho, fecha o box, você está com frio, fecha a janela, porque pode entrar uma corrente de ar. Você pega a toalha e se enxuga rápido, porque não pode se resfriar. Você não quer se masturbar para não perder tempo e voltar a se sujar. E você só consegue pensar no texto em cinco parágrafos, quinhentas palavras, dois mil caracteres que tem de enviar logo pela manhã, se quiser continuar comendo alguma coisa que julga ser decente e fará bem ao seu estômago combalido.
Sente-se, sente-se, meu senhor. E, então, você está um velho.
E você sabe que não há mais tempo para buscar aquilo que você não viveu, que não está mais ao seu alcance. Seu texto, de soberbo, vira um amontoado de citações, de pistas para leitores que se julgam atentos e enigmas para as gerações mais novas. Os críticos comentaram. E, se forem honestos, te denunciarão. Mas não são. Nem podem ser. É a técnica, Alice. É o primado da técnica. Sente-se, sente-se, meu senhor.

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Nunca soube finalizar bem nada. Aprendi com você. Fez ver que o feijão deve prevalecer sobre o sonho, que fricotes emocionais não caem bem quando o que importa é o preto no branco. Eu aprendi a lição, meu bem. Foi num dia, muitos meses atrás, havia sol e ventava. Você disse: Não dá mais. Não dá mais. Você repetia enlouquecida que alguma coisa não era mais possível. Eu não sabia o quê tinha medo de perguntar. Eu conhecia seus ataques e tinha medo deles. De repente você começou a me apontar e aos meus erros e ao ridículo e risível de ser quem eu sou. Foi feio, baixo e cretino. Mas teve um sentido. No final das contas, era impossível não enxergar. Foi feio, baixo e cretino. Estávamos andando pela calçada. Um rato passou por nós e me senti menos homem que ele. Eu aprendi a lição. Eu soube ali, naquele momento, que algo se partiu, se foi. E quando, talvez com pena, você se aproximou de mim dizendo algo Enfim, não é bem assim, nem sei se você vai entender que… Eu também não sei se… Ali naquele momento algo já tinha ido embora há muito tempo, para jamais voltar. Seja cínico, meu senhor. Seja cínico.

***

Eu gostaria de poder dizer que tenho uma doença terminal. Sim, uma doença. Sei lá, um câncer qualquer, que doa muito, que vá deixar você com pena, que vá deixar qualquer estranho na rua apiedado quando eu disser Tenho câncer, estou morrendo. Que vá fazer com que alguém me pegue pelo braço, e conduza a uma cadeira, me diga Quer algo, Quero, quero sim. Quero. Quero muito. E que eu balbucie apenas, fique assim. A pessoa pergunte Quando Aconteceu. Eu fique ali balbuciando, me babando de raiva ou de dor. Que sirva de consolo para mim ou para ela, que nós dois nos olhemos sem mais. E que um e outro sirva de consolo, de justificativas para as falhas alheias e não assumidas.
Seria fácil, não? Toda a minha culpa, todos os meus fracassos eu colocaria numa doença agônica. Seria bonito. As pessoas teriam dó de mim. Ninguém tem coragem de criticar um doente, mesmo sabendo que no fundo ele é também um chantagista. Todo mundo gosta de redimir o pecado de alguém. Quem não quer brincar de Deus, Pai, Partido? Mas não. Nada disso. Eu estou bem, muito bem, muito lúcido e de olhos bem abertos. E não sinto nada. Nada, nada, nada, nada. Ouviu, bem, Alice: nada. E eu já nem sei se a encontrei de fato num metrô um dia, se estava lendo Cortázar, se tinha um sobretudo com uma foice e um martelo… se essa é história que a gente quis contar para mostrar aos outros, ok somos legais, fomos legais, melhor que a média etc. se era você, se era eu, eu quero mais é que se foda. Alice, eu quero mais é que se dane. A culpa não é toda minha por tudo. Não pode ser. O câncer também alcançou você. E quer saber? Eu não lamento.

***

Você nem sabe mais reconhecer alguém interessante quando tem a chance. Vocês se cruzam, conversam vinte minutos como se fossem velhos amigos, futuros amantes. Vocês não deixam de olhar um no olho do outro. E e então você se levanta, diz que o seu ponto é o próximo e foi um prazer conhecer. Sente-se, sente-se meu senhor.
E então, Alice, você diz que vai partir. E tenho de confessar, não sei se rio, se choro, se chuto uma parede ou imploro para que fique, se anuncio para o mundo, abrindo a janela do nosso quarto, felicidades, canalha, você conseguiu, mais uma vez conseguiu. Ou se simplesmente te digo, como agora, tchau, boa sorte, seja feliz e se puder mande um cartão postal, o que importa é ter saúde. Volto para o meu texto, que pode ser uma crônica, um conto, prosa poética e mudo tudo, tudo, tudo dentro das cinco linhas, cinco parágrafos etc. para que caiba nossa despedida e suas meias de seda se esgarçando no cimento da sacada.


UMA SEGUNDA MORTE PARA CLÓVIS GARCIA

29/06/2012

Uma estória do Café das Cinco. Para o Mário Martins.

Clóvis Garcia morreu vítima de um erro médico, que não diagnosticou uma apendicite, confundindo-a com excesso de gases no intestino. Supurada, o matou. Uma morte ridícula, todos concordaram, para alguém como ele. Uma morte ridícula, com um homem ridículo, estendido numa cama de hospital público, na área reservada à caridade aos pobres, ladeado por cortinas de banheiro e outros moribundos, com uma amante envelhecida aos pés de sua cama, chamada às pressas por aquele homem, agora tão comum e mortal, implorando perdão, juras e amor eterno. Um homem, uma cena, um quarto: fotografia amarelada pelo tempo, queimando e incensando a memória.

Quando, por fim, o lençol azul e manchado lhe cobriu a face inerte, Clóvis Garcia deixou, oficialmente, de existir. E, protocolarmente, com ele, toda a falta de potência de ser que os últimos anos acompanharam, colados à pele como uma armadura de ferro. Os anos foram implacáveis com Clóvis Garcia, e ele se deixou abater, não fazendo jus à personagem que construiu sem muitos dedos ou cuidados. Um herói é um arquiteto e o único responsável pelo edifício de símbolos e desejos que ergue em torno de si.

No fundo, apesar de mito coletivo, um herói é solitário.

E agora, Clóvis Garcia? Agora que você é isto: um pesado corpo de 120 quilos, um aglomerado de carne, sebo e sangue que, dentro em breve, irá se enrijecer e feder. E que uma infecção generalizada continua a lhe comer as entranhas, as forças que lhe vinham das entranhas, enquanto esta pele ainda tem algum calor e suor para perder? E o médico, Clóvis? Sorrindo amarelo para mim, explicando sem explicar o erro. Sem processo, ele pede. Em outros tempos, você o mataria, o esganaria milhares de vezes, sem suar. E agora, Clóvis, que sua velha amante recheada de perfume barato e dançando na calcinha larga e suja com a qual eu a encontrei e com a qual mal se vestiu e veio rapidamente te visitar, depois de todos estes anos? E agora, que ela molha a minha camisa com estas lágrimas que, tenha cá para nós, são falsas; molha e mancha não somente as minhas roupas, mas a sua memória. Clóvis Garcia, enquanto ela chora por você, alisa o meu pescoço, roça suas coxas nas minhas. Enquanto vêm os homens do necrotério, eu a levo para casa e você bem sabe o que irei fazer para consolá-la, Clóvis. Nos áureos tempos, você faria o mesmo.

Agora, Clóvis Garcia, você repousa debaixo de sete palmos de terra, ridículos e comuns, com suas pernas quebradas por nós, pois seu corpo não cabia neste caixão barato. E dentro em breve, seu corpo começará a inchar, suas extremidades crescerão e serão comidas por vermes, bem como seus olhos. Esta roupa que os amigos fizeram uma vaquinha para comprar no brechó, se deteriorará. E a pressão da terra sobre a madeira de terceira quebrará o caixão. Os vermes que entrarão comerão as carnes, dançarão nas órbitas vazias. E quando não for mais que ossos, cabelos e mau cheiro, virão os coveiros, comandados pela Administração do Cemitério Municipal, para lhe exumar o corpo, quebrar-lhe os ossos restantes e colocá-lo numa parede, com um número qualquer, dentro de uma caixa, ladeado por milhares de outros. Você ocupa muito espaço, Clóvis, no maior cemitério da América Latina.

E, daqui alguns anos, quando for a minha vez de morrer, ninguém mais se lembrará de você. Os poucos presentes no enterro comentarão a indignidade de você não ter sido cremado, Clóvis. Mas o fato é que você estava ali para ser degustado, não é?

Nem lhe depositarão flores, nem lhe acenderão velas, nem lhe cantarão os feitos, nem lhe suspirarão de amores, nem lhe repetirão o nome. Mas há muitos anos que não lhe fazem nada disso, Clóvis. Você sabe: a história oficial que hoje o Sindicato escreve não tem seu nome em lugar algum. As greves que ajudou a garantir, à base de balas e falas de seus revólveres, dizem agora que foram feitas à uma mesa de negociação. Negociação, você, Clóvis? E o dinheiro? E o dinheiro, Clóvis? Aquele dinheiro que você e outros roubavam e que eu calei, com quem estará, Clóvis? Com quem estará? Você dizia, rindo muito: Tenho fé no materialismo. Hoje e sempre. E sou herói.

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E as mulheres, Clóvis, onde andarão? Quantas vezes as levamos para a cama, para o chão, para o mato, para
detrás das estantes, para atrás dos carros de som, para quartos de limpezas e outros lugares mais, depois de nossos discursos, de nossas ações extraordinárias? Todas queriam dormir com o herói. E ele era você, Clóvis. Nós só pegávamos carona na sua fama. Hoje, elas querem dormir com o futuro, de preferência sem aventuras e com conforto. Protocolo sexual burocrático. Com a aposentadoria segura, com os filhos, com a casa e os carros e as poupanças. Com os nossos inimigos.

Clóvis, quantos você salvou naquela manifestação em 77? Lembra? Quando os seus lendários 38 canos longos, escondidos no jaquetão, deram tiros para o alto, para frente, para os lados, para trás? Quando você gritou: Chega de ser isca de polícia! Quando você, entrevistado pelos grandes jornais do Brasil, sentenciou: Se for para morrer, que se dane. Que venham. O proletariado já morre de fome. Agora tem de morrer de pé. E chumbo grosso. Você e sua jaqueta, Clóvis. Você e os livros de Mao Tsé nos bolsos internos. E, as balas, nos externos. Você e o seu cabelo, contra o vento. Você e o seu jeans apertado. Você e o seu sexo latejante. Você e o seu peito aberto, corpo fechado, filho de Xangô. Você sua voz, trovão em cima do caminhão. Você era o máximo, Clóvis.

E, agora, é isto.

Clóvis, eu poderia inventar uma estória mais feliz, mais a contento, para que os rostos que me ouvem no Café das Cinco se iluminem e se iludam. Os garotos do Café das Cinco se lembrariam de você, então, Clóvis. Mas, não. Você não fez por merecer. Os meninos do Café são bons. Mas eles não se lembrarão de você. Os heróis, Clóvis Garcia, devem, têm a obrigação de morrer cedo, jovens, de uma morte fatídica, trágica, súbita, de agonia rápida. Têm de morrer em batalha, epopéia a ser cantada, com sangue, muito sangue, embebidos em sangue. Era assim que tinha de ser com você, Clóvis Garcia. Você morrendo, trocando balas com a polícia política. Você morrendo em combate feroz, com algum adversário. Você caindo em agonia, numa tortura, sem dedurar ninguém, nenhum companheiro. Você sendo traído por alguma amante, arrastado para uma cilada. Você morto no campo de batalha, com o corpo desaparecido. Você num livro de memórias, num filme biográfico, numa canção nacional. Você…

Não isto. Não isto, Clóvis Garcia!

É engraçado – e curioso até – que eu, logo eu, aquele que o desprezava e, quem sabe?, o amei, que o tivesse como um ser abjeto e a quem devo a minha vida, por me ter salvo de um espancamento, à base de suas balas; que sabia de muitas das suas mutretas e seus roubos no Sindicato, mas que fechava com você – o que me fazia, claro, seu cúmplice – porque você era meu companheiro – o que não me fazia menos ladrão – ah, enfim, é engraçado, Clóvis, que seja eu, logo eu, a te contar aqui, agora, com estes olhos baços e desesperançados diante de mim, aqui, agora, para os meninos do Café das Cinco, Clóvis. Não tenho vocação para Esfinge, nem para Oráculo, nem para Pandora.

Você repousa numa sepultura. Você se livrou de toda a dor, do ridículo, do passado, do herói, da leveza e do peso de ser. Você é livre, Clóvis Garcia. Livre. Você é livre, livre, mas não de mim. Que estória eu devo contar a teu respeito? Que estória, Clóvis? A do ridículo? A do enfermo de apendicite mandado para casa com comprimidos para alívio de gases e dor de barriga? Ou a do herói?

Você é livre, é livre, mas não de mim.

Nem eu de você. É verdade. Eu quero o herói. E quem não quer? Clóvis Garcia, você não tinha o direito de se deixar acabar assim. De se deixar de ser, de se tornar um impotente ridículo, gordo, mal cheiroso, delicado e suplicante. Você não era só você. Não foi só você quem morreu, percebe? Foi um tempo inteiro. Clóvis Garcia, seria melhor que nem tivesse existido. E nem nós. Nem que nos tivéssemos conhecido. Não morreríamos de vergonha. Foi isso que o matou e será isso que nos levará junto com você, até o último de nós.

É compreensível que o Sindicato esconda o seu nome da História Oficial. Quem éramos nós perto de você, Clóvis? Seu nome ecoa, reboa, ressoa, enche a boca, preenche os espaços, emprenha ouvidos. Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia… Pode ouvir a multidão, a massa te gritando lá embaixo do caminhão? Menos que um poema, quase uma poesia: Clóvis Garcia, dizia uma de suas namoradas, estudante burguesa, com quem você gostava de desfilar como um troféu, apequenando, para nos deixar a ver navios. Você era o pirata, o bárbaro, você era livre. Livre, livre, mas não de mim. Nem eu de você, atado ao nosso passado, ao seu passado.

E agora, Clóvis Garcia?

Onde estão teus amigos? E as tuas amadas? E as tuas armas? Tudo desfeito, doado, vendido barato, penhorado, perdido ao longo dos anos, em tuas rondas noturnas e fantasmas matinais. Você é isto, agora, Clóvis, para alguns: menos que um fantasminha camarada, assombrado durante anos pela Era dos Resultados. Logo você, Clóvis. Quem diria? Logo você. Sindicato de Resultados, Futebol de Resultados, Relacionamento de Resultados, Sexo de Resultados, Partido de Resultados, Combate de Resultados… Não para você, não é, Clóvis? Força viva, pulsante. Não havia mais lugar para você. Nem mesmo dentro de você. Mas precisava se deixar matar assim?

Apendicite supurada. Gases. Erro médico. Não é morte de herói.

O jogo é jogado, parceirinho, você citaria João Antônio. É. Mas nunca é fair play.

Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia… Pode ouvir a multidão, a massa te gritando lá embaixo do caminhão? Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia……

Sigo, não sei se sorrindo, assobiando e contando você. E te conto tantas vezes que, chutando pedregulhos no caminho, sou até capaz de te esquecer. O sol esfria junto com o que me lembro de você.

Mário Augusto Medeiros da Silva






Membro Fantasma, por Mário Augusto Medeiros da Silva

22/06/2012


 

Membro Fantasma, por Mário Augusto Medeiros da Silva

Liguei apenas no terceiro dia. Sabia que estavam todos preocupados. Tia Carmem ameaçou um enfarto. Mãe rogou praga. O Pai não disse nada. Nada disse, mas imaginava seu olhar ao longe, de sobrancelha levantada. Mano gozava a cara de todos. Arrumou-me não sei quantas namoradas e aventuras fantásticas. Durante esses três dias, até as vinte horas, vivi intensamente nas imaginações alheias. Raramente com final feliz, invejosamente fabulado.
No terceiro dia fiz tocar o telefone. Deve ter havido uma correria louca em volta da mesa grande da sala. Benedito latindo e correndo atrás do próprio rabo. Maroca irritada com a soneca boa frustrada, na almofada puída. Maroca olhando severa o zanzar de pernas, tão distintas de sua elegância felina. O Pai avisando que não me atenderia, que não falaria comigo, que não estava lá, mas esperando saber se eu precisava de alguma coisa. Mãe gritando seus impropérios e empurrando todo mundo para chegar ao gancho. Mano, de costas largas, pernas longas, músculos másculos, atendeu e suportou gritos, arranhões, chutes e murros, bem como súplicas desesperadas para ouvir minha voz.
Tia Carmem fazia café de cinco colheradas, porque ninguém dormia cedo aos sábados. A trinca, o truco, a canastra, o buraco, a ronda, o dominó. A paciência. A paciência da família reunida, exercitada, em torno da mesa grande, de tampo elegantemente polido e pernas vergonhosamente lascadas. A paciência da espera, dos pigarros censores, dos olhos gulosos, dos homens eunucos e suas senhoras desditosas. A mesa aparentemente velha, aparentemente nova, aparentemente herdada, aparentemente nobre, aparentemente limpa, aparentemente firme. A mesa levou um pontapé do Mano quando o telefone tocou.
Benedito me quer bem. Benê espiava comigo Ana tomar banho com Nina. Benê caçava rolinha e me defendia do Zé Sujeira, quando eu vacilava o repuxo. Maroca é uma dama empertigada, que me ensinou bons modos. De tanto observá-la, acho que aprendi algo de tratar Mercedes. Ela não perguntou se liguei. Duvido que chorasse ou esperasse pelo canto. Tantas idas e vindas, numa dança estranha. Mercedes devia estar como Maroca: altivamente à espreita, enleivada em seu próprio mundo, à espera de um afago em seus pêlos.
Mano atendeu. Ouviu minha voz gravada e programada no equipamento. Será que sorriu antes ou depois? Lembrou da dor do chute na mesa ou de todos esses anos? E quando anunciou o que lhe transmiti, conseguiu disfarçar o que de fato quis dizer? Tia Carmem tomou mais café? Benê fungou e coçou-se a barriga. Maroca fingia dormir. Mãe caiu-se ao sofá? Riu-se de louca? Fê-lo repetir? Mano seguiu as instruções, apertou o teclado para ouvir de novo. Mercedes estaria no Oca´s planejando a revolução com meus camaradas e não seria encontrada. Pena. O Pai, sobranceiro e pragmático preparava o terno e avisava que era hora, então, de mexer nos papéis para abrir o caixão.


me gustán las muchachas putanas de Mário Bortolotto

11/05/2012

Literatura – De Mário Bortolotto, Me Gustán las Muchachas Putanas

Na voz de Mário Bortolotto

Me Gustán las Muchachas Putanas

Dessas que chupam as bolas,
que entram de sola.
Das que não têm meio termo,
que abrem as pernas
e não pedem arrego.
Dessas depiladas, peladas, liberadas,
eu as quero desarmadas,
eu as quero de boca esporrada,
eu as quero do jeito que for,
eu as quero tocando bongô,
com a boca no microfone,
chamando meu nome,
no meio da chuva.
Dessas que passam gel no cabelo,
que a gente flagra no banco traseiro do carro.
Dessas que dizem os diabos,
que agarram o seu pescoço,
que sempre tem um troco.
Dessas com aros em forma de brinco,
que sabem segurar um pinto,
essas entendem o que eu sinto,
essas sabem que eu não brinco.
Elas se entopem de vodca,
assistindo MTV,
essas nunca vão chorar por você,
elas não vão mentir pra você,
elas não têm porquê.
Elas não vão contar história,
elas não vão dizer que você foi a melhor foda,
não vão querer o seu sangue, só o seu dinheiro,
não vão querer flores nem caixa de bombons,
não te arrastam pra igreja,
elas só se enxarcam de cerveja.
E se eu digo ‘pra mim chega’,
elas guardam o batom e vão embora.
Elas nunca estão de calcinha quando descem as escadas,
elas estão sempre dançando, mordendo,
chegando de táxi a uma da manhã,
elas não são puras, elas são putas.
Elas não querem o céu,
elas não sabem quem é Nina Simone,
elas não querem meu número de telefone.
Paixão elas tiram de letra,
elas encaram qualquer treta,
com uma bela chave de buceta.
Eu adoro essas putas loucas,
caindo de boca,
que nunca ouviram um blues,
elas fazem chupeta
e dão o cu.
Eu as quero sujas,
num beco escuro, atrás do muro,
meu pau duro abrindo caminho,
desprezando carinho,
fissura de vinho na segunda-feira,
gozando de primeira,
comendo pastel na feira.
Eu as quero maquiadas,
peladas, desbocadas,
a mi me gusta.
Que se fodam as puras,
que gozem as putas.

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Lançamento da 33ª edição da Revista
Studium será no dia 11 de maio

Divulgação Studium
O lançamento da 33ª edição da Revista Studium, patrocinada pelo Fundo de Investimento de Campinas (FICC) da Secretaria de Cultura de Campinas, será realizado no dia 11 de maio, às 12 horas, na Galeria do Instituto de Artes da Unicamp e estará disponível no mesmo dia no site


JORNAL DO PORÃO N. 4, 10 de dezembro de 2009

04/05/2012

O povo carioca perdeu hontem com a morte de Noel Rosa, um dos interpretes mais perfeitos da sua poesia.
Poeta instinctivo, observador profundo da vida das populações pauperrimas da cidade, Noel Rosa, compreendeu, logo no inicio de sua vida de homem a necessidade que havia de realçar-se a lidima poesia popular da terra, a despeito de toda a miseria que assoberbava o modo de viver das populações dos bairros mais afastados da cidade.”
http://musicabrasileira.org/noelrosa/ veja matérias neste endereço.
“Diário Carioca, 6 de maio de 1937

NOEL ROSA MORREU A 4 DE MAIO DE 1937 e morre todos os dias nas mãos dos nossos políticos.
Esta é a página mais lida do Jornal do Porão. Quando lançada, em 10 de dezembro de 2009, teve 119 leitores. Suponho, felizmente, que foi devido a Noel Rosa. Infelizmente a pracita continua lá com seu nome e ninguém mais se lembrou de protestar e dar um nome a uma grande praça, onde vá muita gente, tipo a praça da paz em Campinas, ao lado do parque Portugal (ou lagoa do taquaral, como é conhecido). Ali bem que podia chamar Praça Noel Rosa. Lembrei-me disso, quando vi a Praça da Paz lotada para ouvir Paulinho da Viola e, em outros shows, lotados para ouvir músicos brasileiros.

Mas o mais apropriado é que tivesse um grande centro cultural, de cultura popular, com o nome deste grande compositor. Por exemplo, a tal “estação cultura”.

E para terminar esta introdução desta reedição, no dia do aniversário de morte de Grande Compositor Noel Rosa, fica aqui a lembrança de uma dívida que tenho, escrever neste jornal um protesto pelo nome de TIM MAIA que foi dado a uma outra pracinha, tão minúscula que nem caberia TIM MAIA deitado numa rede. Parece que nossos políticos se lembram dos nossos ídolos populares para humilhá-los!

14 de setembro de 2009

PRAÇA NOEL ROSA PRAÇA DOS TRABALHADORES PRAÇA CHICO MENDES

 

Praça Noel Rosa

1 . NOEL ROSA foi um gênio da música popular brasileira. Talvez o primeiro gênio da música brasileira realmente popular. O samba de Donga, “Pelo Telefone”,[clique para Donga e Chico Buarque de Hollanda] dito o primeiro samba, já era de protesto; mas foi Noel Rosa a praticar o samba de protesto sistematicamente e, sempre, com humor. Humor mesmo no testamento que foi “O Último desejo”, onde a despedida da vida, a dor de cotovelo, era mero pretexto para o humor. Noel Rosa foi cronista do rio de janeiro, em “Com que Roupa”,[clique aqui para ouvir na voz de Noel] glosando o português aproveitador ; ou no carnaval, protestando, bem humoradamente, que o guarda noturno não recebia seu salário, em “O orvalho vem caindo”.[transcrevo as letras no pé da página – pena que sem som]. Noel Rosa foi o precursor de quase tudo que aconteceu na música popular brasileira. Na maneira de escrever versos não pomposos; ou na maneira cantar, pois seus dois intérpretes preferidos eram Mário Reis e Aracy de Almeida que cantavam quase falando (já que a nova técnica de gravações elétricas permitia que se cantasse sem o tal dó de peito). Noel Rosa, depois de esquecido e massacrado pelos boleros, sambas canções e música sertaneja das décadas de 40, 50 e 60, ressurgirá na Bossa Nova e impregnará toda a música popular brasileira da década de 70. E sua alegria não foi superada. E sua crítica bem humorada também é insuperável.

Acho que foi o tal inimigo cantado no “ O Último desejo” que deu no nome de Noel Rosa para esta rotatoriazinha, para este balãozinho no Castelo, perto da Telefônica [veja as fotos].

Praça Chico Mendes

2. CHICO MENDES

[clique para ver 65 anos de Chico Mendes] e

[clique para reportagem sobre Xapuri]

[clique aqui para vídeo herança de Chico Mendes]

[CLIQUE AQUI Jornal Inglês The Guardian – 20 anos da morte de Chico Mendes – Herói de todos os povos]

[clique aqui fotos de Chico Mendes e música de Los Porangas]

[clique aqui para vários vídeos sobre chico Mendes ]

[clique para longo documentário da TV Câmara – Cartas da Floresta – 20 anos da morte de Chico Mendes]

[Michael Jackson EARTH SONG]

parece que vai voltar à moda na próxima campanha eleitoral. Noel com certeza não, neste caso, felizmente. Já pensou os políticos usando o samba de Noel para ganhar voto? Mas Chico Mendes vai voltar. A Marina Silva em cujo período ministerial foi o momento em que mais se destruiu a floresta amazônica[clique e veja reprtagem do The Guardian] deve montar sua campanha em cima da história que compartilhou com Chico Mendes lá nos idos de 70/80. E foi a defesa da floresta que consagrou e levou Chico Mendes à morte. E é a destruição da floresta amazônica que marca a trajetória atual de infeliz ex-ministra do Meio Ambiente e colega de partido do filho de Sarney, do desenfeliz Zequinha Sarney, que também foi ministro do meio ambiente e em cujo período no ministério a devastação da Amazônia continuou na mesma batida.

Mas nossos heróis, ignorados pelo povo, servem para estes políticos cretinos fazerem campanha… ou…

dar nome a uma pracinha insignificante na periferia da nossa cidade. E foi no governo de Jocó Bittar que esta pracinha, um depósito de lixo, sofá velhos, resíduos vários, ganhou o nome de Chico Mendes. E hoje, nem mais ostenta (ou avacalhava) o nome de Chico Mendes. Melhor assim. Melhor não ter praça nenhuma com seu nome do que isso aí.

Praça dos Trabalhadores

3. PRAÇA DOS TRABALHADORES. Parece que campinas é um pólo industrial. Trabalhador é o que não falta por aqui. E já tivemos para governos municipais que fazem campanha eleitoral falando de trabalhadores. Tivemos inclusive dois prefeitos eleitos pelo Partido dos Trabalhadores e temos agora o prefeito do Partido Democrático Trabalhista, cujo vice é do Partido dos Trabalhadores.

E temos em campinas a PRAÇA DOS TRABALHADORES que também é PRAÇA DO TRABALHADOR, um nome mais de acordo, pois nesta praça não deve caber muito deles juntos. Um comício de partido nem se fala. A Praça dos Trabalhadores, na verdade, é uma ponte da Barão de Itapura sobre a Delfino Cintra.

Estas três historinhas reais demonstram que nossos dirigentes tratam nossos heróis. Estas pracinhas (essas fotos) falam tudo sobre o caráter destes políticos que dirigem e dirigiram nossa cidade. Não precisava mais do que estas fotos para sabermos quem são estes políticos que falam em trabalhadores, em cultura ou em liberdade.

Toda manhã eu passo na Praça Noel Rosa e sempre exclamo a mesma frase: estes políticos são uns canalhas. Quando passo na ex-Praça Chico Mendes, lá pertinho de casa, exclamo, estes políticos são uns oportunistas safados. Quando passo , e há mais de 20 anos me enfureço passando por lá ; e durante 10 anos que trabalhei na Andrade Neves, no Projeto Rondon, passei pela Praça dos Trabalhadores, todos os dias, às vezes duas vezes ao dia, dez anos seguidos.

Nunca consegui me conformar com o acinte, com o cinismo e pouco caso destes políticos que falam em nome dos trabalhadores, da cultura ou do progresso. O Discurso deles é lixo puro, mais lixo do que o que infesta a antiga Praça Chico Mendes. As eleições se aproximam e vamos ter que suportar uma quantidade de discurso/lixo e de sentimentalismo sobre os trabalhadores. Mas estas praças (e que praças!!!), demonstram ,concretamente , sem palavras, o quanto são vazios (ou cheios de….) os discursos e as cabeças dos políticos desses partidos.

A UNICAMP CASSA PAULO FREIRE, MAS PAULO VIVE!

Quando recebi a Moção da Congregação, votada por unanimidade, apoiando a mudança do nome do Rodovia Milton Tavares, respondi com o email abaixo. Dizendo que Zeferino Vaz, apesar de não ser um homem típico da Ditadura Militar, como este general, foi um testa de ferro de Ademar de Barros, apoiador de primeira hora do golpe de Estado de 1964. Isso porque não podemos esquecer que o golpe militar de 1964, foi um golpe civil militar. Os civis foram fundamentais para organizar o golpe. Foi Ademar de Barros, Lacerda e Magalhães Pinto os grandes organizadores deste golpe. E como falamos sempre em Ditadura Militar, esquecemos que os governadores civis foram os grandes organizadores e depois avalistas do golpe. E sonhava que a rodovia, num futuro menos covarde, chamaria RODOVIA PAULO FREIRE.

Mas parece que na Unicamp, nossos dirigentes, os chamados intelectuais não prezam muito a memória não. Ou fazem dela uma coisa de circunstância, mas ou menos manejável conforme os interesses do momento. Acabei de saber que a nossa Biblioteca Central, que homenageava o grande educador Paulo Freire mudou de nome. O novo nome seria Milton da Costa, grande matemático e lógico que, como parece, merece ter seu nome em qualquer espaço da Unicamp. Mas para que cassar novamente Paulo Freire? Porque pisar em Paulo Freire novamente como fizeram quando ele foi o mais votado e Maluf (o nefasto Maluf) escolheu Pinotti, o décimo quarto? Porque, por exemplo, não colocar o nome de Milton da Costa no prédio do Instituto de Matemática? Porque não deixam Paulo Freire em paz e com seu honrado nome, honrando nossa biblioteca central?

Tenho medo que daqui a pouco mudem o nome do Arquivo Edgar Leunroth, um anarquista da pesada, para um patrono qualquer… Ou que a biblioteca da Faculdade de Educação que homenageia o maravilhoso professor Maurício Tragtemberg, mude de nome, de uma hora para outra, sem mais nem menos… Mesmo porque o professor Maurício Tragtemberg não poupou os chamados intelectuais no seu conhecido texto “A Delinquência Acadêmica”; cujo o título quase dispensa texto. Porque Paulo Freire, Maurício Tragtemberg, Edgar Leurenroth não morreram e nem morrem, pois vão realmente educar as novas gerações, se tivermos algo que presta nas novas gerações.

Parece que políticos e burocratas querem matar as nossas mais caras lembranças!

Passou da hora. Que tal mudar o nome dos bairros 31 de março e Castelo Branco? E outros lixos. Boa iniciativa. Apenas preferia que esta Estrada chamasse Paulo Freire. Ele faz parte da história de um outra Unicamp. Paulo Freire foi o mais votado na primeira escolha para reitor depois da morte de Zeferino. No entanto foi escolhido o 14 colocado, o Dr. Pinotti, cuja dinastia manda na Unicamp desde então. Emais. Maluf, onefasto governador, neste período, impôs interventores na Universidade. Que foram rechaçados. Desta história que me reivindico. Viva Paulo Freire, oprimeiro Reitor de uma Unicamp que poderia ter sido, mas não foi. Viva Paulo Freire um educador. Equanto a Zeferino, apesar do áulico livro que saiu sobre ele, não esqueçamos, foi um pupilo de Ademar de Barros, aquele mesmo do “roubo, mas faço” e um dos primeiros governadores a apoiar o Golpe de Estado e mais: foi um dos articuladores junto com Magalhães Pinto , de Minas Gerais e Carlos Lacerta, ocorvo, governador da Guanabara do golpe militar, chamado de movimento por eles de movimento civil/militar.

Mário

Sent: Thursday, September 03, 2009 5:59 PM
Subject: MOÇÃO DA CONGREGAÇÃO DO IFCH

Prezados funcionários do CPD,

solicito que a msg abaixo seja enviada à lista de funcionários e deestudantes; atenciosamente,

caio toledo

Caros funcionários e estudantes do IFCH,

por sua relevância, informo que, ontem, por unanimidade, a Congregação do IFCH aprovou MOÇÃO que manifesta seu apoio ao projeto de lei que tramita na Assembléia Legislativa do estado de São Paulo que objetiva mudar o nome da Rodovia 332 próxima a Unicamp. Caso se transforme em lei, a Rodovia deixará de homenagear um “herói” da ditadura militar. O nome do general Milton Tavares de Souza conhecido pela odiosa alcunha de “Milton Caveirinha” deixará de estar nas placas ao longo da rodovia, sendo substituído pelo do PROFESSOR ZEFERINO VAZ.

Uma inestimável vitória no plano simbólico na luta pela eliminação dos extensos vestígios da ditadura militar ainda existentes em nossos logradouros públicos.

sds,

caio

Ifchfuncionariosl mailing list Ifchfuncionariosl@listas.unicamp.br https://www.listas.unicamp.br/mailman/listinfo/ifchfuncionariosl

Último Desejo

Composição: Noel Rosa [clique aqui para interpretação de Rildo Hora e Maysa]
[no filme sobre Noel Rosa] [Cristina Buarque – “Último desejo”, de Noel Rosa]
Nosso amor que eu não esqueço, e que teve
o seu começo
Numa festa de São João
Morre hoje sem foguete, sem retrato e sem bilhete,
sem luar, sem violão
Perto de você me calo, tudo penso e nada falo
Tenho medo de chorar
Nunca mais quero o seu beijo mas meu último desejo
você não pode negar
Se alguma pessoa amiga pedir que você
lhe diga
Se você me quer ou não, diga que você
me adora
Que você lamenta e chora a nossa separação
Às pessoas que eu detesto, diga sempre que eu não
presto
Que meu lar é o botequim, que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida que você pagou pra mim


Com Que Roupa?

Composição: Noel Rosa [clique para vídeo com voz de Noel Rosa]

Agora vou mudar minha conduta, eu vou pra luta
pois eu quero me aprumar
Vou tratar você com a força bru… .ta, pra poder me reabilitar
Pois esta vida não está sopa e eu pergunto: com que roupa?
Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?
Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?
Agora, eu não ando mais fagueiro, pois o dinheiro não
é fácil de ganhar.
Mesmo eu sendo um cabra trapacei…..ro, não consigo ter nem pra gastar.Eu já corri de vento em popa, mas agora com que roupa?
Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?
Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?
Eu hoje estou pulando como sapo, pra ver se escapo
desta praga de urubu.
Já estou coberto de farrapo, eu vou acabar
ficando nu.
Meu paletó virou estopa e eu nem sei mais com que roupa
Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?
Com que roupa que eu vou pro samba que você
me convidou?


(Carnaval de 1934)

Noel Rosa e Kid Pepe

O orvalho vem caindo
Vai molhar o meu chapéu
E também vão sumindo
As estrelas lá no céu
Tenho passado tão mal
A minha cama é uma folha de jornal
Meu cortinado é o vasto céu de anil
E o meu despertador
É o guardacivil
Que o salário ainda não viu
A minha terra dá banana e aipim
Meu trabalho é achar
Quem descasque por mim
Vivo triste mesmo assim
A minha sopa não tem osso nem tem sal
Se um dia passo bem,Dois e três passo mal
Isto é muito natural
O meu chapéu vai de mal para pior
E o meu terno pertenceu
A um defunto maior
Dez tostões no belchior

[clique aqui para vários vídeos com músicas de Noel Rosa]

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AMOR CRISTÃO, de Marcelino Freire

20/02/2011

Publicado, aqui neste jornaldoporao, em 20 de fevereiro de 2010. Neste um ano, é um texto sempre lido. E quando vou falar deste blog acabo recomendando sua leitura. Então aqui vai, republicado, AMOR CRISTÃO, de Marcelino Freire, neste 20 de fevereiro de 2011.

Amor é a mordida de um cachorro pitbull que levou a coxa da Laurinha e a bochecha do Felipe. Amor que não larga. Na raça. Amor que pesa uma tonelada. Amor que deixa. Como todo grande amor. A sua marca.

Amor é o tiro que deram no peito do filho da dona Madalena. E o peito do menino ficou parecendo uma flor. Até a polícia chegar e levar tudo embora. Demorou. Amor que mata. Amor que não tem pena.

Amor é você esconder a arma em um buquê de rosas. E oferecer ao primeiro que aparecer. De carro importado. De vidro fumê. Nada de beijo. Amor é dar um tiro no ente querido se ele tentar correr.

Amor é o bife acebolado que a minha mulher fez para aquele pentelho comer. Filhinho de papai. Lá no cativeiro. Por mim ele morria seco. Mas sabe como é. Coração de mãe não gosta de ver ninguém sofrer.

Amor é o que passa na televisão. Bomba no Iraque. Discussão de reconstrução. Pois é. Só o amor constrói. Edifícios. Condomínios fechados. E bancos. O amor invade. O amor é também o nosso plano de ocupação.

Amor que liberta. Meu irmão. Amor que sobe. Desce o morro. Amor que toma a praça. Amor que de repente nos assalta. Sem explicação. Amor salvador. Cristo mesmo quem nos ensinou. Se não houver sangue. Meu filho. Não é amor.

Do “Rasif – mar que arrebenta” (ed.Record, 2008)