FENOMENOLOGIA DE MIKE BONGIORNO, de Umberto Eco

21/02/2010

FENOMENOLOGIA DE MIKE BONGIORNO, de Umberto Eco

Mike Bongiorno

O homem rodeado pelas mass media é no fundo, entre todos os seus semelhantes, o mais respeitado: não se lhe pede nunca senão que se torne aquilo que já é. Por outras palavras, são-lhe provocados desejos segundo a pauta das suas tendências. Porém, uma vez que uma das compensações narcóticas a que tem direito é a evasão pelo sonho, são-lhe habitualmente apresentados ideais, entre os quais e ele próprio se possa estabelecer certa tensão. Para retirar dos últimos toda a responsabilidade, tomam-se providências de modo a fazer com que tais ideais sejam de fato inatingíveis, de forma a que a tensão se resolva numa projeção e não numa série de operações efetivas orientadas para modificar o estado de coisas dado. Em suma, pede-se ao indivíduo que se transforme num homem com frigorífico e um televisor de vinte e uma polegadas, e isto quer dizer que se lhe pede que continue a ser como é, acrescentando aos objetos que possui um frigorífico e um televisor; em compensação, a ele propõe-se como ideal Kirk Douglas ou Superman. O ideal do consumidor de mass media é um super-homem que ele nunca pretenderá tornar-se, mas que se deleita a encarnar de um modo fantástico, tal como se veste durante alguns minutos diante de um espelho uma roupa alheia, sem sequer se pensar em vir a possuí-la um dia.

A situação nova que se coloca a respeito da TV é esta: A TV não oferece, como ideal pra o ensimesmamento do indivíduo, o superman, mas sim o everyman. A TV representa como ideal o homem absolutamente médio. No teatro, Juliette Greco aparece no palco e cria subitamente um mito e funda um culto;

Josephine Baker desencadeia rituais idolátricos e dá nome a toda uma época. Na TV surge diversas vezes, repetidamente, o rosto mágico de Juliette Greco, mas o rito nem por isso nasce de modo idêntico; o ídolo não é ela, mas a locutora, e por entre as apresentadoras mais amadas e famosas estará exatamente aquele que melhor representa a média dos caracteres comuns: beleza modesta, sex-appeal limitado, gosto discutível, um certe inexpressividade doméstica.




Josephine Baker photo06

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

Ora, no campo dos fenômenos quantitativos, a média representa de fato um meio-termo e, para quem ainda não se uniformizou, representa igualmente uma meta. Se, de acordo com a conhecida boutade, a estatística é a ciência para a qual se diariamente um homem come dois frangos e o outro nenhum, os dois homens comeram um frango cada um – para o homem que não comeu, a meta de um frango por dia é algo de positivo a que ele poderá aspirar. Pelo contrário, no campo dos fenômenos qualitativos, o nivelamento pela média corresponde ao nivelamento pelo zero. Um homem que possua “todas” as virtudes morais e intelectuais em “grau médio”, acha-se imediatamente a um nível mínimo de evolução. A “mediana” aristotélica é equilíbrio no exercício das próprias paixões, dirigido pela virtude do discernimento da “prudência”. Enquanto, em contrapartida, alimentar um grau médio de paixões e ter uma prudência média significa ser um pobre exemplar de humanidade.

O caso mais vistoso de redução do superman ao everyman temo-lo, na Itália, na figura de Mike Bongiorno e na história do seu destino. Idolatrado por milhões de pessoas, este homem deve o seu êxito ao fato de, em todos os atos e todas as palavras da personagem a que ele dá vida perante as câmaras de televisão, transparecer uma mediocridade absoluta unida (sendo esta a única virtude que possui em grau excedente) a um fascínio imediato e espontâneo explicável por não estar rodeado da menor construção ou ficção cênica: quase parece que ele não quer passar senão pelo que é, sendo de molde a não colocar em situação de inferioridade espectador nenhum, nem mesmo o mais despossuído de todos. O espectador vê glorificado e condecorado oficialmente com uma autoridade nacional o retrato das suas próprias limitações.

Para compreendermos este extraordinário poder de Mike Bongiorno, poderá surgir-nos a idéia de proceder a uma análise dos seus comportamentos, a uma verdadeira “fenomenologia de Mike Bongiorno”, indicando-se, fique claro, por este nome não o homem, mas a personagem.

Mike Bongiorno não é particularmente belo, atlético, corajoso, inteligente. Representa, biologicamente falando, um grau modesto de adaptação ao ambiente. O amor histérico que lhe tributam as teen-agers deve-se em parte ao complexo maternal que ele é capaz de despertar numa mocinha, em parte à perspectiva futura que ele sugere, de um amante ideal, submisso e frágil, suave e cortês.

Mike Bongiorno não se envergonha de ser ignorante e não revela qualquer necessidade de se instruir. Entre em contato com as mais vertiginosas zonas do conhecimento e delas sai virgem e intato, confortando as naturais tendências para a apatia e preguiça mental dos outros. Cuida bastante para não impressionar o espectador, não só mostrando às escuras quanto aos acontecimentos circundantes, como, além disso, manifestando-se decididamente resolvido a não aprender coisa alguma.

Em compensação, Mike Bongiorno demonstra uma admiração sincera e primitiva pelos que sabem. Quanto a estes, o que destaca neles é, porém, as qualidades de aplicação manual, a memória, a metodologia óbvia e elementar: uma pessoa torna-se culta lendo muitos livros e fixando o que eles dizem. Não lhe passa, nem minimamente, a suspeita de qualquer função crítica e criativa da cultura. Tem dela um critério meramente quantitativo. Deste modo (acontecendo que é preciso, para se ser culto, terem-se lido durante muitos anos livros), é natural que o homem não predestinado renuncia a todas as tentativas culturais.

Mike Bongiorno professa um apreço e uma confiança ilimitados em relação ao especialista; um professor é um sábio; representa a cultura autorizada. É o técnico do ramo. É a ele que devemos perguntar as coisas, dada a sua competência.

A admiração pela cultura, entretanto, torna-se ainda maior, quando, na base dela, se pode ganhar dinheiro. Então é que se descobre que a cultura serve para alguma coisa. O homem medíocre recusa-se a aprender, mas propõe-se mandar estudar o filho.

Mike Bongiorno tem uma noção pequeno-burguesa do dinheiro e de seu valor (“Imaginem, já ganhou cem mil liras: é um belo dinheirinho!).

Mike Bongiorno antecipa assim, sobre o concorrente, as reflexões impiedosas que o espectador será levado a fazer. “Arre, como ele estará satisfeito com aquela grana toda, ele que sempre viveu com um salário tão modesto! Terá alguma vez tido tanto dinheiro nas mãos?”

Mike Bongiorno aceita todos os mitos da sociedade em suas categorias e trata-as com uma deferência cômica (a criança diz: “Desculpe, senhor guarda…”), mas usando sempre, entretanto, a qualificação vulgar e corrente, muitas vezes depreciativa: “senhor varredor, senhor camponês”.

Mike Bongiorno aceita todos os mitos da sociedade em que vive: beija a mão da senhora Balbiano d’ Aramengo e diz que o faz por se tratar de um condessa (sic).

Para além dos mitos, aceita também as convenções sociais. É paternal e condescendente com os humildes, deferente para com as pessoas socialmente qualificadas.

Ao entregar o dinheiro, parece instintivamente levado a pensar, sem o exprimir claramente, mais em termos de esmola que de ganho. Mostra a sua crença de que, na dialética das classes, a único meio de ascensão é o representado pela providência (podendo assumir ocasionalmente o rosto da Televisão).

Mike Bongiorno fala um basic Italian. O seu discurso realiza o máximo possível de simplicidade. Abole os conjuntivos, as proposições subordinadas, consegue tornar quase invisível a dimensão sintática. Evita os pronomes, repetindo sempre por extenso o sujeito, emprega um número imenso de pontos finais. Não se aventura nunca em intercalações ou formas parentéticas, não emprega expressões de elite, não faz alusões, utiliza apenas metáforas já integradas plenamente no léxico comum. A sua linguagem é rigorosamente referencial e faria a alegria de um neopositivista. Não é necessário fazer qualquer esforço para entendermos. Qualquer espectador observa que, se fosse esse o caso, poderia ser bem mais eloqüente do que ele.

Não aceita a idéia de que a uma pergunta possa corresponder mais do que uma resposta. Olha com desconfiança as variantes. Nabuco e Nabucodonosor não são a mesma coisa; reage frontalmente aos dados como um cérebro eletrônico, porque está firmemente convencido de que A é igual a A e que tertium non datur. Aristotélico por defeito, a sua pedagogia é, conseqüentemente, conservadora, paternalista, imobilista.

Mike Bongiorno é desprovido de sentido de humor. Ri por estar contente com a realidade, não por ser capaz de deformar a realidade. Escapa-lhe a natureza do paradoxo; quando se lhe apresenta um, repete-o com ar divertido e sacode a cabeça, subentendendo que o interlocutor é simpaticamente anormal; recusa-se a suspeitar de que por trás do paradoxo se esconda a verdade, precisamente como o não considera um veículo autorizado de opinião.

Evita a polêmica, mesmo com argumentos legítimos. Não deixa de informar-se acerca da estranheza do que se pode conhecer (uma nova corrente de pintura, uma disciplina abstrusa… “Diga-me uma coisa, hoje fala-se tanto de futurismo. Mas o que é ao certo esse futurismo?). Recebida a explicação, não tenta aprofundar o tema, mas deixa transparecer a sua bem-educada discordância de pessoa que pensa como deve ser. Respeita deste modo a opinião do outro, não por propósito ideológico, mas por desinteresse.

De Entre todas as perguntas possíveis sobre um tema escolhe a que primeiro viria à mente de qualquer um e que metade dos espectadores afastaria prontamente por ser demasiado banal: “O que é que o quadro pretende representar?”, “Como é que chegou a escolher um hobby tão diferente do seu trabalho?”; “Como lhe veio à cabeça ocupar-se de filosofia?”.
Leve os clichês até as últimas conseqüências. Uma moça educada com freiras é virtuosa, uma moça de meias de cor e rabo-de-cavalo é “queimada”. Pergunta à primeira, que é uma moça tal como deve ser, se gostaria de se tornar como a outra; se se lhe faz notar a comparação em tais termos é ofensiva, consola a segunda moça realçando a sua superioridade física e humilhando a educada das freiras. Neste vertiginoso jogo de gaffes não tenta ao menos empregar a perífrase: a perífrase é já uma agudeza, e as agudezas pertencem a um círculo intelectual a que Bongiorno é estranho. Para ele, como já se tinha dito, cada coisa em um nome e só um, o artifício retórico é uma sofisticação. No fundo, a gaffe nasce sempre de um ato de sinceridade não mascarada; quando a sinceridade é voluntária não há gaffe, mas desafio e provocação; a gaffe (em que Bongiorno se excede, segundo dizem os críticos e o público) nasce exatamente quando se é sincero por erro ou por desconsideração. Quando mais medíocre for, mais o medíocre se torna desajeitado. Mike Bongiorno reconforta os medíocres, elevando a gaffe à dignidade de figura de retórica, no quadro de uma etiqueta homologada pela entidade transmissora e pela nação auditora.

Mike Bongiorno regozija-se sinceramente com o vencedor porque honra o êxito. Cortesmente desinteressado em relação ao vencido, comove-se se este fica em situação difícil e torna-se promotor de uma disputa beneficente, finda a qual se mostra satisfeito e convence o público de que tudo vai bem; em seguida ocupa-se de outras coisas alentado pela sua crença de que é este o melhor dos mundos possíveis. Ignora a dimensão trágica da vida.

Mike Bongiorno convence, portanto, o público, como um exemplo vivo e triunfante, do valor da mediocridade. Não provoca complexos de inferioridade, embora se ofereça como ídolo, e o público recompensam-o, agradecido, amando-o. Representa um ideal que ninguém deve esforçar-se por atingir porque seja quem for se encontra, desde o início, já ao mesmo nível que ele. Nenhuma religião foi jamais tão indulgente para com os seus fiéis. Em Mike Bongiorno anula-se toda a tensão entre ser e dever ser. E ele diz aos seus adoradores: sois Deus, continuai imóveis.

Do “Diário Mínimo”, de Umberto Eco
Difel, 1985

MIKE BONGIORNO, tornando-se uma categoria analítica, um conceito. Acho que a nossa volta há muitos e muitos Mike Bongiorno(s), do que políticos e apresentadores de TV. O arrivismo, o puxa-saquismo fabricam Mike Bongiorno(s) aos magotes. Eles nos sufocam. E cuidemo-nos para não nos tornarmos um.

Abaixo citação de uma artigo do Estadão, onde analista usa a categoria, Mike Bongiorno, para analisar Berlusconi

“Se um homem de negócios, que em outro país ocidental com alguma tradição liberal-democrática se limitaria a construir palacetes em Milão, assume o controle absoluto dos meios de comunicação e domina a cena política por mais de 20 anos, chegando três vezes ao cargo de primeiro-ministro, como aconteceu com Berlusconi na Itália, o mínimo que nos cabe fazer é analisar o fenômeno e dele extrair o máximo de lições possível.” A proposta é de Pierfranco Pellizzetti, autor do recém-publicado Fenomenologia di Berlusconi (Manifestolibri), um exame da mutação cultural da sociedade italiana a partir da década passada, quando a “banal mediocridade” representada pelo ídolo televisivo Mike Bongiorno perdeu sua hegemonia para a “mediocridade lobisomem” representada por Berlusconi e empurrou a Itália para “um precipício humano, político e civil”.

“Pellizzetti trabalha com o mesmo instrumental analítico usado por Eco em sua Fenomenologia di Mike Bongiorno, escrita em 1961 e incluída na coletânea Diário Mínimo. Campeão de audiência na televisão italiana durante quase meio século, Bongiorno, um bobo alegre que vivia de plagiar programas de variedades americanos e foi enterrado como herói nacional em setembro deste ano, encarnava, segundo Eco, a mediocridade absoluta do italiano médio, que se identificava totalmente com o apresentador e sua alvar alegria, sobretudo porque Bongiorno, que muito se gabava de sua ignorância, o fazia sentir-se, por comparação, mais educado, mais inteligente”.
O Estado de S.Paulo,domingo, 29 de novembro de 2009

CONCEITOS RETIRADOS DOS TEXTOS ABAIXO, CUJO TÍTULO E CONTEÚDO DO ORIGINAL SÃO MANTIDOS AO CLICAR NOS LINKS.

1. DELINQUÊNCIA ACADÊMICA, de Maurício Tragtemberg

2. BAGRINHOS, do texto de Alfredo Marques

3. HOMEM-DISPOSITIVO, do texto de Francisco Foot Hardman

4. FIM DA UNIVERSIDADE PÚBLICA, do texto de Marilena Chauí

5. ETHOS DE GANGUE, do texto de Luiz Felipe Pondé

6. MIKE BONGIORNO, do ensaio de Umberto Eco

7. CASTA DOS INTOCÁVEIS, da entrevista de Chico de Oliveira

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