MUTAÇÃO, Newton Peron

21/06/2012

MUTAÇÃO

com 10 anos, imaginou ter seis dedos em cada mão. uma semana depois, sentiu um calombo embaixo de cada mindinho. o laudo médico afirmava tumor benigno. seis meses depois tinha doze dedos.

o médico recusou a amputação: veja, é um caso excepcional, não é de nascença, tem sensibilidade, movimento.

zombado na escola, o garoto perdeu interesse pelos dois dedos bônus. escureceu, secou, encolheu e caiu. cólera do médico, que não pôde acabar seu artigo revolucionário a tempo.

com 15 anos teve duas bocas. com 19, uma boca e quatro pulmões. com 27, dois pulmões e três corações. morreu com 45: os corações murcharam, tinha um olho nascendo na nuca e um pinto apodrecendo em cada coxa.


puta, de Newton Peron

14/06/2012

 puta

a professora prosseguia. e você, marcos?, e você, matheus?, e você, nádia?. engenheiro, advogado, enfermeira. eticétera. quase no fim da enquete, uma aluna atirou à queima-roupa:– eu?, eu quero ser puta.e uma vozinha no fundo: e eu quero ser seu cliente!. kkkkkkkkkkk, explodia a sala. a professora gritou por silêncio, bateu palmas, esperneou, mandou dois pra fora e pôde continuar a aula. na semana seguinte, a mãe sentada no sofazinho da sala da diretora.– e ela insiste que quer ser prostituta! diz que já teve relações, que gostou, quer ganhar dinheiro com isso.

em casa, a mãe se desolava em lágrimas com o marido. uma criança, meu deus! reuniram-se os três e a pequena devassa confirmou tudo. o padrasto apelou para a profilaxia:

– e aids? não tem medo de pegar aids?

mas a atleta mirim se esquivou com graça, falou de camisinha, virus incubado, coquetel gratuito. a mãe segurou a adolescente pelos cabelos mas o padrasto interceptou o tapa na cara a tempo. a matriarca recuou, ponderou alguns segundos e proferiu a sentença:

– está proibida de sair de casa até segunda ordem, mocinha.

passou um, dois, três dias. no sétimo, a mãe teve que viajar a serviço, confiando a guarda ao pobre padastro.

a filha não vascilou, vestiu micro-saia, blusa tomara-que-caia, meia calça escandalosa. a carne frágil do padastro não resistiu. a afilhada nem teve misericórdia do velho e soltou:

– 50 reais. aproveita o preço que eu sou só estagiária.

 
 
 
           
 

Câncer, de Newton Peron

04/06/2012

CÂNCER

acordou, abriu a janela, estufou o peito e desabafou:

– estou com câncer.

a mulher esbranquiçada balbuciou um o quê e um onde gaguejado.

– não sei, mas sinto que sim.

emputecida, virou de lado e dormiu.

não foi ao trabalho, preferiu o consutório. o clínico geral perguntou por dores, caroços, secreções.

– nada.

e acrescentava que queria exames. o médico dissimulou a irritação e receitou um analgésico. uma semana depois, voltou o paciente queixoso:

– não curou. sinto que não.

hipocondríaco. quis encaminhá-lo para um psiquiatra. o homem pedia obstinado pelos exames. não, meu senhor, é impossível fazer um exame se o senhor sequer suspeita onde é o câncer.

mais uma semana, calmantes. mais uma semana, prozac.

– ainda sinto que sim.

pediu furioso para o homem tirar a camisa. apalpou e mentiu ter encontrado um caroço, e que levaria para biópsia. arrancou com o bisturi aleatoriamente um pedaço de carne. resultado: câncer.

pesquisou outros casos e publicou um artigo, de como certos tipos de câncer poderiam originar do desejo do paciente. renomado internacionamente encontrou com o homem um ano depois. e o câncer?

– passou para a corrente sanguínea.

o médico respondeu que não teria duas semanas de vida. exatamente 14 dias depois o homem morreu. enforcou-se.


AMOR CRISTÃO, de Marcelino Freire

20/02/2011

Publicado, aqui neste jornaldoporao, em 20 de fevereiro de 2010. Neste um ano, é um texto sempre lido. E quando vou falar deste blog acabo recomendando sua leitura. Então aqui vai, republicado, AMOR CRISTÃO, de Marcelino Freire, neste 20 de fevereiro de 2011.

Amor é a mordida de um cachorro pitbull que levou a coxa da Laurinha e a bochecha do Felipe. Amor que não larga. Na raça. Amor que pesa uma tonelada. Amor que deixa. Como todo grande amor. A sua marca.

Amor é o tiro que deram no peito do filho da dona Madalena. E o peito do menino ficou parecendo uma flor. Até a polícia chegar e levar tudo embora. Demorou. Amor que mata. Amor que não tem pena.

Amor é você esconder a arma em um buquê de rosas. E oferecer ao primeiro que aparecer. De carro importado. De vidro fumê. Nada de beijo. Amor é dar um tiro no ente querido se ele tentar correr.

Amor é o bife acebolado que a minha mulher fez para aquele pentelho comer. Filhinho de papai. Lá no cativeiro. Por mim ele morria seco. Mas sabe como é. Coração de mãe não gosta de ver ninguém sofrer.

Amor é o que passa na televisão. Bomba no Iraque. Discussão de reconstrução. Pois é. Só o amor constrói. Edifícios. Condomínios fechados. E bancos. O amor invade. O amor é também o nosso plano de ocupação.

Amor que liberta. Meu irmão. Amor que sobe. Desce o morro. Amor que toma a praça. Amor que de repente nos assalta. Sem explicação. Amor salvador. Cristo mesmo quem nos ensinou. Se não houver sangue. Meu filho. Não é amor.

Do “Rasif – mar que arrebenta” (ed.Record, 2008)


ESTUDANTE DE MEDICINA, de Márcia Cecília

16/07/2010

ESTUDANTE DE MEDICINA

“Solidão é lava que cobre tudo
Amargura em minha boca,
sorri seus dentes de chumbo.
Solidão, palavra
Cavada no coração
Resignado e mudo
No compasso da desilusão.
Desilusão, desilusão
Danço eu, dança você
Na dança da solidão”
(Paulinho da Viola – Dança da Solidão).

Durante o intervalo de nove segundos que Paulo esperava o metrô, o estudante
de medicina analisa as situações diárias que observa dentro e fora do hospital. Com
vinte e sete anos, Paulo não enxerga mais expectativas. Depois que passou a ter contato
com os casos que lhe rodeia dez horas por dia nos plantões do hospital que completa sua
residência, a sensibilidade de Paulo aumentou para com o modo no qual as pessoas
conduziam suas vidas. Diariamente eram os mesmos sintomas: doenças respiratórias,
infartos, aneurismas, dentre outras enfermidades que eram padronizadas pelos pacientes
que circulavam pelo hospital. Algo havia de errado.
_ A senhora fuma?
_ Sim.
_ Humm. Quantos cigarros por dia?
_ Dois maços.
_ Não é muito?
_ Ah doutor, eu sou muito nervosa. Eu acordo às 5 da manhã, tomo o primeiro
ônibus lá perto de casa, o ônibus bufando de gente durante duas horas e quarenta e
cinco minutos pra atravessar até metade do caminho pro meu serviço. Depois, mais uma
hora de van pra ta no serviço às 9. Saio às 20 horas do serviço, faço mais uma vez esse
caminho, nem vejo direito meus filhos, vou pra cama morrendo de cansaço. Se eu não
fumar meu cigarrinho, fico louca!
_Sei. E a senhora se alimenta direito?
_ Ah doutor, naquelas… eu tomo um café bem forte antes de sair de casa, que
eu deixo pronto antes de me deitar. Eu precisava levar marmita de casa, mas não
tenho coragem de preparar comida, tamanho o cansaço, então eu almoço dois salgado
e um copo de refrigerante no serviço. Já acostumei. Meus filhos, graças a Deus,
almoçam na escola lá do bairro. Eu sei que eu deveria me esforçar mais doutor, não por
mim, mas pelos meus dois filhos, mas eu sou uma só doutor, fico morta de cansaço.
_ Você já tentou arrumar outro emprego?
_ Hahaha, não me faça rir doutor! Você acha que uma pessoa com a minha
idade, sem estudo, semi-analfabeta, consegue emprego assim fácil? Emprego fácil
ta assim pra vocês que têm diploma, é jovem, bonito. Gente velha, feia e ignorante o
mercado gospe e pisa em cima.
_ Bom, nesse caso eu vou te passar esse antibiótico, mas você tem que tomá-lo
após as refeições. É só retirá-lo no balcão.
_ Obrigada doutor.
Achava seu serviço uma indecência. Desde jovem queria exercer a profissão
de médico, clínico geral. Filho da classe média trabalhadora católica, queria ser
útil para alguma coisa nesse mundo. Diante desses diálogos que percorriam o seu
cotidiano durante o trabalho, percebera a sua inutilidade diante à saúde do próximo,
o que entendia ser completamente paradoxal, uma vez que as pessoas lhe confiavam
suas vidas, era ele quem havia estudado anos para adquirir as informações exatas para
solucionar aquelas doenças. Casos simples de serem resolvidos a partir de uma única
forma: os pacientes teriam de mudar suas rotinas.
Era a única certeza que Paulo carregava dentro de si. Para que as pessoas
solucionem suas enfermidades, é necessário que elas modifiquem seu cotidiano.
Trabalhem menos, principalmente aquelas que exerciam funções repetitivas – a grande
maioria – pratiquem atividades físicas que mais lhes agradassem para a liberação
de serotonina e alimentação balenceada: cereais, legumes, frutas, verduras e alguma
proteína animal. A receita era simples, mas como exercê-la diante de um cotidiano tão
opressor? Para garantir todas essas necessidades básicas, a população era obrigada a
se submeter a estas situações diárias, e ainda assim não garantiam o básico. Sentia-
se podre por dentro, por darem tanto valor à sua profissão de merda, e se encontrar
inerte diante dessas situações; além da certeza de se encontrar também enclausurado
pelo sistema, já que a única coisa que lhe restava era contribuir para o enriquecimento
das monstruosas farmacêuticas ao viciar as pessoas em drogas pesadas apenas para
amenizar o problema, e não curá-lo.
Há meses que Paulo já não encontra mais estímulo. Tais situações lhe
ocasionaram uma crise de depressão profunda, mas nem percebeu seu próprio problema,
tal qual o restante da população. Minutos antes, se encontrava no interior do vagão
com a mesma fisionomia dos demais: inexpressivos, movidos mecanicamente devido
a mesma via sacra diária. Ao esperar o próximo trem na estação que faria baldiação
para retornar ao serviço, num surto que o libertou do mecanismo medíocre que
refletia naquele instante, Paulo se jogou na linha do metrô no momento em que o trem
chegava para conduzir as formigas operárias paulistanas a seus postos, responsáveis
na manutenção do vasto império presente na Avenida Paulista a na maior frota de
helicópteros do mundo.
O suicídio de Paulo foi um bafafá na cidade, mas durou pouco tempo. Mesmo
a imprensa mais sensacionalista foi terminantemente proibida de apresentar o caso aos
seus telespectadores, devido a uma ética em omitir índices de suicídio – prevenção de
surtos coletivos; ou gerar a ruína deste modelo de sociedade estratificada. Como não foi
noticiado em lugar algum, os boatos logo cessaram, e Paulo se tornou mais um desses
índices que fora arquivado, e obrigatoriamente esquecido.

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