Cancrópolis, Trilogia da Vadiagem, de João da Silva

14/02/2013

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Em “Miséria n.1” João da Silva ilustra dois contos.  Gostaria de ter uma biblioteca inteira de livros ilutrados (como faz a editora 34 com os russos). Também esta espécie de Graphic Novel como essas de João da Silva. Me lembro que anos após anos fiquei encantado com o Edíficio de Will Eisner.Will Eisner, o Edifíciowill_eisner_3798
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Cancrópolis

13/02/13

Trilogia da Vadiagem

A Bancária e o Vagabundo
(publicada na Revista Miséria número 1, de junho de 2009)

miséria- vagabundo 2 miséria - vagabundo - Cópia

Charles Bukowiski

Charles Bukowiski. Dele o segundo conto “plagiado” por João da Silva

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links

01. Cancrópolis: Trilogia da Vadiagem

veja também em:

o monstro 02

Monstro 02. Batatasemumbigo. Adaptado do conto “Tema para São Jorge”, de Julio Cortázar.

batatasemumbigo


O ARQUIVO, de Victor Giudice

31/10/2012

O arquivo

Victor Giudice

CONTOS DA MEIA NOITE, interpretado por Antônio Abujamra, do conto de Victor Giudice, O Arquivo


curta narrado por Antônio Abujamra

No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos.

joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.

No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.

Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.

Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.

O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.

Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.

Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.

Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.

Prosseguiu a luta.

Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.

joão preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.

Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.

Respirou descompassado.

— Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.

joão baixou a cabeça em sinal de modéstia.

— Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.

O coração parava.

— Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.

A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.

— De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?

Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.

Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.

Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduzira-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.

Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência. A vida foi passando, com novos prêmios.

Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.

O corpo era um monte de rugas sorridentes.

Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho. Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:

— Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.

O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:

— Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria.

O chefe não compreendeu:

— Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?

A emoção impediu qualquer resposta.

joão afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento.

João transformou-se num arquivo de metal.

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Meias de seda se esgarçando, de Mário Augusto Medeiros da Silva

22/10/2012

Ao som de Gato Barbieri, Last Tango in Paris.

Quando Alice foi embora? Eu não sei muito bem o que senti.
Eu escrevia, no meio da tarde, no meio da sala. Era um domingo. Ela apareceu do nada. Eu, inocentemente, perguntei se havia dormido bem, se estava se sentindo mais disposta. Ela a tudo respondeu que sim. Ambos sorrimos, porque sabíamos que, do contrário, iríamos nos ferir mais que há três horas atrás, quando tentáramos mais uma vez o amor e nada saíra como imagináramos. Nós éramos educados demais para falar a verdade, fosse ela qual fosse. Nós tínhamos nos tornado assim.
Alice, então, se sentou. Cruzou as pernas com a elegância que me fez prestar atenção nela desde aquela primeira vez, no metrô. Ela tinha um jeito infreqüente de cruzar suas pernas. Nada vulgar. Nada forçado. Cruzou suas pernas delicadamente, descrevendo um arco comedido pelo espaço. No metrô, ela vestia uma saia longa e preta, calçava sapatilhas de bailarina, pretas, com fivela por cima, deixando à vista apenas o peito dos pés, com suas veias, azuis esverdeadas. Gostava de notar seus pés e suas veias salientes. Ela sempre me dizia que sentia vergonha que olhassem suas pernas. Mas também gostava de me afirmar que não se sentira devassada pelo meu olhar, quando me notou no metrô. Eu teria sido elegante. Nós gostávamos de nos lembrar desse encontro. Foi esquisito mesmo.
Alice me disse que viu primeiro. Mas que me achara com uma expressão excessivamente séria. Ela não gostava de rostos que poderiam dissertar facilmente sobre vitrais franceses do século XVI. Essa era a sua anedota. Eu lhe perguntava se ela achava mesmo, desde a primeira vez, que eu poderia fazer isso. Alice sorria. Puxava delicadamente um cigarro de menta de seu estojo. Nunca se sabe, ela dizia. Mas desconfiara de mim, porque eu usava um sobretudo bege, com calça preta e tênis. Ah, e a camisa também era importante, ela sempre dizia. Camisa rolê. Mas o que ela mais gostava de frisar era o meu sobretudo bege, que não combinava com nada. E que tinha, às costas, uma foice e um martelo em vermelho, com a sigla U.R.S.S. Comunistas não devem se interessar por vitrais franceses do século XVI, Alice dizia. E, além do mais, era evidente que eu comprara aquilo num brechó, que não me importava com a opinião alheia, porque nada combinava com nada. Nós ríamos do seu acento em evidente.
Alice puxava agora o mesmo cigarro de menta. Ela me olhava doce e tristemente, na sala, a escrever mais alguns contos que ela gostava de ler, mesmo que achasse que nunca seriam publicados. Nós saltamos na mesma estação de metrô. Ela sempre se perguntava – e nós nunca confessamos – se realmente tínhamos de descer ali. Mas ela sempre dizia que gostou quando eu me desequilibrei com o tranco do trem, deixando cair o Cortázar que trazia debaixo do braço. Eu, ela dizia, de propósito teria me deixado cair, deixado cair Octaedro, perto de seus pés, junto com meus olhos. Pois eu não tinha cara de quem se desequilibrasse fácil no metrô ou que deixasse um livro cair ou que olhasse fácil para alguém. Eu era um homem sério, que sabia me segurar nas curvas, com amor aos livros e somente a eles. Alice me fazia rir.
Eu, então, lhe perguntava se ela ensaiara ou improvisara rapidamente – quanta diferença isso fazia? – ao pegar Octaedro, me devolver com um sorriso e um golpe de vista e desdenhar sorrateiramente, ponderando suas palavras, que O perseguidor superava todos os contos de Octaedro. Nesse momento, nossos olhos se fixaram.
Ela me achara um conquistador barato quando eu lhe disse que aquilo tudo era suspeito, considerando que entre nós havia um Manuscrito encontrado num bolso. Ela tinha entendido a senha. Mas não queria se deixar levar. Odiava cantadas intelectuais, confessou-me depois. Nós nos silenciamos. E eu nem havia agradecido por seu gesto.
Alice, agora, dizia, sentada no sofá: Vou partir. No metrô, sem que eu lhe perguntasse – mas ela me dizia que meus olhos queriam saber – ela anunciou que ia descer na próxima estação. Apressado, eu parei de escrever meu conto sobre uma velha senhora que trabalhava num cinema noturno e lhe perguntei o por quê. No metrô, eu lhe disse, sem pensar: aqui é onde eu saio também. Alice, nas duas situações, só apertou os lábios do jeito que sempre gostava de sorrir e me olhou por sobre os óculos.
Eu havia colocado Octaedro no bolso do sobretudo. Alice disse que desde o princípio vira meu bloco de notas no bolso do sobretudo. Mentira, eu dizia. Eu estava em crise naqueles dias, não conseguia escrever nada, nada, nada. Eu não levava o bloco. Aí, ela se saía com sua jogada triunfal: você tinha que ser escritor. Eu o imaginei assim. E os vitrais franceses, eu gargalhava? Ela, séria, dizia que tinha esquecido deles ao ver Octaedro e o meu sobretudo de brechó. E eu era um homem sério, que não combinava com nada, que gostava de olhar e não ser olhado, que não deveria ter muito dinheiro e que comprara meu livro num sebo, porque tinha aspecto velho, bem velho. Eu tinha que ser um escritor.
No começo, depois de fazermos amor, Alice gostava de tomar café. Em geral, eu saía primeiro da cama, para medir o pó e ligar o aparelho. Ela vinha depois. Não gostávamos de ficar abraçados ou de conversar logo depois de fazer o amor. Gostávamos de café e seu cheiro fresco. No metrô, foi ela que se virou e me disse: ei, estranho, quer tomar um expresso? Chorava de rir, contando aos nossos amigos, que eu fechei meu rosto como quem tivesse levado um soco no estômago e anunciei solenemente que, sim, dez minutos.
Sim, dez minutos. Alice, nesta parte, chorava de rir. Agora, no sofá, ela sorria, ela me olhava com seus grandes olhos negros, ela dizia: porque eu só quero te ver de vez em quando e não ao acordar de manhã.
Alice tinha uma memória espetacular. Ela me disse exatamente isso quando terminamos nosso café e combinamos, depois de três horas de uma conversa amena e interessante, de irmos dormir na minha casa, como se já tivéssemos acertado tudo.

***

Eu gosto das suas fotografias em sépia. Eu gosto de suas fotos de outono, em preto e branco. Gosto de seus bancos vazios, de suas folhas caindo, de becos e vielas com folhas dançando ao vento. Gosto dos seus velhos e garotos de rostos devastados. Gosto do seu Chet Baker, anos 80, no quadro da sala, quase rezando num solo. Gosto de sua forma de escrever sobre o filme. Gostei quando ela disse que meu rosto era um tormento.
Eu pedia a Alice que me ensinasse a fotografar. Ela ficava muito séria – mais do que jamais a vi – e respondia duramente: alguém te ensinou a escrever? Alguém te ensinou a respirar? Não me peça para ensinar coisas que eu não sei. Depois ela ria, ria muito, até me deixar constrangido e eu não sabia se eu ou ela havíamos dito algo insólito demais para ser repetido.
Cruzou as pernas como eu gosto de vê-las. Alice veste sapatilhas pretas de dançarina, com a fivela correndo pelo peito dos pés. Gosto de seus pés, Alice. Gosto mesmo. Escreveria páginas e mais páginas sobre as veias dos seus pés, sobre a sua saia ou o vestido. Sobre você vestida, tomando café. Sobre o movimento de sua boca. Sobre o arquear de suas sobrancelhas. Mas o que mais gosto em você é que não me acha idiota ou gargalha na minha cara quando eu te pergunto, antes de tomarmos café e depois de termos feito o amor, se você acha que é realmente possível representar som e fúria, cor e forma através de palavras, se você acredita no poder da palavra. Eu gosto de você, porque você passa olhos em revista por mim e me diz, simplesmente, que a tentativa é uma busca. E você continua a me passar os olhos em revista. Eu volto a olhar para o teto e pensar. Nós não dizemos mais nada, nada, nada até que sorvamos nossas xícaras de café. Alice, eu gosto da sua busca, amargada com o gosto do café.
Nós não estamos vivendo nada novo novamente, Alice. Parece ridículo.
Eu gosto de você, Alice, pelo seu rosto duro de um general em campo de batalha, pronto ao ataque, pronta a disparar pela objetiva a sua visão de mundo e discutí-la o tempo todo. Uma vez eu te perguntei se, nas suas fotografias, não era permitido representar velhos felizes. Você me golpeou sem me olhar: você acha realmente possível ser feliz aos noventa anos? Ninguém mais é inocente nesta idade. Para ser feliz aos oitenta, noventa deve-se ter causado a infelicidade de muita gente pelo caminho. Ou não ter vivido nada para não se deixar ser ferido.
Você vai me deixar, Alice?

Eu gosto de você porque você diz que nós temos e não temos opções. Gosto das inúmeras vezes em que nós discutíamos em alto e bom som numa mesa de bar, Alice. Que nossos amigos diziam que a gente só dava voltas para chegar no mesmo lugar e concordar. Que você dizia que eu ainda não tinha me livrado do meu ranço pequeno-burguês, que eu arrotava a revolução de plantão, permanentemente de guarda, sem mover um fio do meu pijama, que eu usava um sobretudo de brechó com o símbolo da U.R.S.S. E eu te dizia, Alice, tentando me defender, eu te dizia que não era possível, jamais, confiar em alguém que acreditasse em falsa consciência, que se achasse superior por dizer que existia uma verdadeira consciência dos fatos e da realidade e que um dia, um dia sim, todos a enxergariam, como alguns poucos sábios iluminados.
E quantas vezes nós não saímos da mesa do bar sem nos falar. E quantas vezes essas discussões inúteis não se repetiram, para se diluir no ralo do banheiro, numa chuveirada quente, numa noite silenciosa, escura e tensa, com Chet Baker enquadrado no canto da sala e o neon do prédio da frente machucando os olhos de quem dormiu na sala.
Alice, você vai me deixar?

***

Agora a gata não come mais a planta falsa que fica ao chão. Ela aprendeu.
Debaixo do seu sobretudo e óculos escuros, às seis da manhã na metrópole, cavando com os olhos o fato necessário para enviar ao jornal, você me dizia, Alice, sair de casa já é se aventurar. Sair da cama já é se aventurar. Só depois de muito tempo eu entendi o que você queria dizer.
Nós não estamos vivendo nada novo novamente.

Enquanto eu buscava os grandes fatos, o grande ato heróico e glorioso que iria redimir toda essa lama de civilização – ahahahaha, você se lembra quando eu realmente disse isso? – você focava anônimos. Eu demorei para entender. Alice. Sair de casa já é se aventurar. Você os focava ao acordar, com seus olhos ramelentos, trocando notas sebentas por uma média com pão e manteiga no bar. Quantos anos, hoje, Alice?
Lembra do lançamento do nosso livro? Cenas de um Quotidiano Singular. A gente ria, ria, ria e ria do crítico que arrotava o fato extraordinário de alguém ainda escrever a palavra com Q. A gente ria e ria debaixo do balcão da livraria dos nossos amigos impressionados, tristemente impressionados que o lançamento fora numa livraria pequena, numa rua lateral, com mendigos e catadores. Que nós fazíamos a cosmética da pobreza. Alice, tudo era mais engraçado antes. Que nós unimos soberbamente… foi essa a palavra mesmo que o jornal usou? Soberbamente foto e texto, duas linguagens numa só. À noite, comendo uma pizza, a gente ficou se perguntando o que exatamente aquele crítico iria querer de nós mais tarde, enquanto engordurávamos as paginas do livro meio calabresa, meio quatro queijos.

***

Eu acordo com o meu cachimbo pendurado no canto da boca, sem saber por quê. Eu acordo sem um tema, sem um problema. Eu não sei mais escrever. Eu saio às ruas e não vejo nada. Todos os dias se assemelham a domingos interioranos. Todos os domingos se parecem, todos os dias se parecem com a celebração de um funeral indigente, toda essa merda se acumulando entre as nossas peles, entre nossos órgãos, pulsando, pulsando, pulsando, pulsando, pulsando, fluxo fluindo fino, finalmente escorrendo escorraçado bidê abaixo. Ridículo, não, Alice? Se escrever for fazer aliterações e mais aliterações, se escrever for só isso, Alice, eu já não sei mais escrever. Se escrever for técnica, pura técnica, sem nem mesmo a ilusão de um ato exemplar, sem nem mesmo algo que justifique toda essa dúvida idiota que nos move, de que vale? Mais certo não ter dúvida. Mais certo estar crente de que se morrerá como se nem tivesse vivido.
Eu caminho pela avenida de nosso bairro, à cata de um tema. Vampirando existências que não vivo, descrevendo o que não sinto. Você sempre riu dos meus contos. Você dizia: Você faz algo que não consigo: dar charme ao risível, nobilitar o execrável. Como se tudo estivesse resolvido, você puxava sua máquina para o quarto escuro e me deixava ali, com um calhamaço de papel, reduzido ao escritor idiota que conferia charme ao risível e dignificava o execrável.
Você é a própria técnica, gostava de me dizer. Escrever é técnica, é a criação, é o convencimento, é a construção de uma parede sem tijolos que seja uma parede. Mas tem que ter algo mais. E é esse algo mais que eu perdi, junto com você, numa manhã por aí.

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Pois muito bem. Agora, partir é a solução. Nem fácil, nem tortuoso. Nem nada. É só partir, como se nem tivesse começado. É só mais um domingo atravessado na garganta, que se engole rápido, esperando terminar. É só isso. Os atos exemplares, os grandes atos, se foram. Eu agora trabalho para o jornal, eu escrevo um texto curto por dia. Você me arranjou o emprego, quando eu estava na pior. Foi onde tudo degringolou? Não os chamo de crônicas, de contos, de cartas, de nada. São textos. Eu escrevo uma coluna, cinco parágrafos, cinco linhas, quinhentas palavras, dois mil caracteres bem batidos e sem erros ortográficos ou gramaticais, seguindo o manual do jornal. Sem qualquer tipo de ambigüidade ou dificuldade evidente. A técnica se faz soberba. A seção de cartas do jornal todo dia me elogia. Há algum tempo, um missivista me disse que guardava meus textos e que eles eram ensinados em escolas, para que os estudantes soubessem como e o quê era escrever. Meu editor fica feliz.
Tudo sempre começa com um erro, Alice. Sobre o quê eu escrevo, não importa. Falta tudo. Eu admito. Não há mais tempo para buscar e essa tentativa já se tornou um tanto ridícula. Acorde de manhã e se veja como realmente é. Acorde simplesmente, você disse. Depois de ter entrado em becos e vielas, ziguezagueado entre muros, caçando vida por aí. Você entra no local que procurava. Há música alta, as pessoas bebem e riem. As pessoas pulam ao seu redor. É capaz de um camarada lhe vir apertar a mão e dizer sente-se. Sente-se, meu senhor, sente-se. Você ficaria chocada. Ou então repentinamente, todos param, a música, as risadas, os cigarros. Os dançarinos, os putos no banheiro. Todo mundo pára e você não entende muito bem por quê. Sente-se, sente-se, meu senhor.
Você vai para casa com o ouvido ribombando. E novamente, de maneira repentina, o chuveiro cai na sua cabeça como um golpe de martelo. Você fica lá, deixando a água cair simplesmente. Se quente ou fria, não interessa. Paremos com o tom piegas. Você sai do banho, fecha o box, você está com frio, fecha a janela, porque pode entrar uma corrente de ar. Você pega a toalha e se enxuga rápido, porque não pode se resfriar. Você não quer se masturbar para não perder tempo e voltar a se sujar. E você só consegue pensar no texto em cinco parágrafos, quinhentas palavras, dois mil caracteres que tem de enviar logo pela manhã, se quiser continuar comendo alguma coisa que julga ser decente e fará bem ao seu estômago combalido.
Sente-se, sente-se, meu senhor. E, então, você está um velho.
E você sabe que não há mais tempo para buscar aquilo que você não viveu, que não está mais ao seu alcance. Seu texto, de soberbo, vira um amontoado de citações, de pistas para leitores que se julgam atentos e enigmas para as gerações mais novas. Os críticos comentaram. E, se forem honestos, te denunciarão. Mas não são. Nem podem ser. É a técnica, Alice. É o primado da técnica. Sente-se, sente-se, meu senhor.

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Nunca soube finalizar bem nada. Aprendi com você. Fez ver que o feijão deve prevalecer sobre o sonho, que fricotes emocionais não caem bem quando o que importa é o preto no branco. Eu aprendi a lição, meu bem. Foi num dia, muitos meses atrás, havia sol e ventava. Você disse: Não dá mais. Não dá mais. Você repetia enlouquecida que alguma coisa não era mais possível. Eu não sabia o quê tinha medo de perguntar. Eu conhecia seus ataques e tinha medo deles. De repente você começou a me apontar e aos meus erros e ao ridículo e risível de ser quem eu sou. Foi feio, baixo e cretino. Mas teve um sentido. No final das contas, era impossível não enxergar. Foi feio, baixo e cretino. Estávamos andando pela calçada. Um rato passou por nós e me senti menos homem que ele. Eu aprendi a lição. Eu soube ali, naquele momento, que algo se partiu, se foi. E quando, talvez com pena, você se aproximou de mim dizendo algo Enfim, não é bem assim, nem sei se você vai entender que… Eu também não sei se… Ali naquele momento algo já tinha ido embora há muito tempo, para jamais voltar. Seja cínico, meu senhor. Seja cínico.

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Eu gostaria de poder dizer que tenho uma doença terminal. Sim, uma doença. Sei lá, um câncer qualquer, que doa muito, que vá deixar você com pena, que vá deixar qualquer estranho na rua apiedado quando eu disser Tenho câncer, estou morrendo. Que vá fazer com que alguém me pegue pelo braço, e conduza a uma cadeira, me diga Quer algo, Quero, quero sim. Quero. Quero muito. E que eu balbucie apenas, fique assim. A pessoa pergunte Quando Aconteceu. Eu fique ali balbuciando, me babando de raiva ou de dor. Que sirva de consolo para mim ou para ela, que nós dois nos olhemos sem mais. E que um e outro sirva de consolo, de justificativas para as falhas alheias e não assumidas.
Seria fácil, não? Toda a minha culpa, todos os meus fracassos eu colocaria numa doença agônica. Seria bonito. As pessoas teriam dó de mim. Ninguém tem coragem de criticar um doente, mesmo sabendo que no fundo ele é também um chantagista. Todo mundo gosta de redimir o pecado de alguém. Quem não quer brincar de Deus, Pai, Partido? Mas não. Nada disso. Eu estou bem, muito bem, muito lúcido e de olhos bem abertos. E não sinto nada. Nada, nada, nada, nada. Ouviu, bem, Alice: nada. E eu já nem sei se a encontrei de fato num metrô um dia, se estava lendo Cortázar, se tinha um sobretudo com uma foice e um martelo… se essa é história que a gente quis contar para mostrar aos outros, ok somos legais, fomos legais, melhor que a média etc. se era você, se era eu, eu quero mais é que se foda. Alice, eu quero mais é que se dane. A culpa não é toda minha por tudo. Não pode ser. O câncer também alcançou você. E quer saber? Eu não lamento.

***

Você nem sabe mais reconhecer alguém interessante quando tem a chance. Vocês se cruzam, conversam vinte minutos como se fossem velhos amigos, futuros amantes. Vocês não deixam de olhar um no olho do outro. E e então você se levanta, diz que o seu ponto é o próximo e foi um prazer conhecer. Sente-se, sente-se meu senhor.
E então, Alice, você diz que vai partir. E tenho de confessar, não sei se rio, se choro, se chuto uma parede ou imploro para que fique, se anuncio para o mundo, abrindo a janela do nosso quarto, felicidades, canalha, você conseguiu, mais uma vez conseguiu. Ou se simplesmente te digo, como agora, tchau, boa sorte, seja feliz e se puder mande um cartão postal, o que importa é ter saúde. Volto para o meu texto, que pode ser uma crônica, um conto, prosa poética e mudo tudo, tudo, tudo dentro das cinco linhas, cinco parágrafos etc. para que caiba nossa despedida e suas meias de seda se esgarçando no cimento da sacada.


NAUSEABUNDO, Por Newton Peron (Newtinho)

30/06/2012

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Era indecente, era um insulto, era nojento. Como aquele olho cheio de remela ousava fitá-la? Um sorriso amarelo, com dentes escuros e hálito fétido de fumante titubeava, querendo se estampar na cara. A barba era meio cinza, tinha já mais de uma semana e envolvia todo o pescoço. Era um escândalo. Uma mancha branca escorrida no colarinho, talvez pasta de dente seca. Ao longo da camisa amarrotada, manchas de café, botão pendurado. A bermuda, surrada e furada, tinha cor de velha. As canelas sujas pareciam limpas perto do pé imundo sobre havaianas. Pé rachado, pé barroso, pé-escroto.

Uma estátua de remela, suor e baba; um bicho asqueroso, um verme, ousava fita-la! Ânsia, náusea. A imponência dela, o salto de agulha furante, o vestido vermelho e o corpo de deusa pareciam pouco para esmagar aquele inseto. Onde estava seu namorado, com músculos de caminhonete? Onde estavam suas amigas, com seus comentários víboros? Teria ela sozinha que matar aquele rato?

Odiava o namorado, que não pôde ficar com ela na fila, abandonando-a no meio daquela gentalha. Odiava as amigas, odiava seus pais, sua gente. Odiava o mormaço do verão de seu país. Odiava sobretudo aquela criatura repugnante, fedida e podre. Um ligeira.

Ele era indecente, como arrotar num restaurante caro. Era um insulto, como cagar na sua frente. Era nojento, como achar uma barata no meio da comida.

Olhou-o novamente. E os olhos remelentos fixaram-se na bunda da mulher na frente da fila. Ele era realmente indecente, era um insulto, era nojento.

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Quem é Newtinho

Foi Editor do Antigo Jornal do Porão quando este foi perseguido pela direção do Arquivo Edgard Leuenroth e pelo Direção do Instituto de Filosofia e Ciências Humans, substituindo o editor perseguido Mário Martins de Lima. Newtinho coragem e solidariedade. Foi um dos idealizadores deste Blog e uma espécie de consultor técnico. É um dos editores do “Transe”, jornal que circula, em papel, por anos no IFCH. O fato de “Transe” ser relativamente ignorado no IFCH demonstra o baixo padrão das preocupações literárias no INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS. Newtinho é também um dos promotores do grupo “Corujão”, uma escola livre de filosofia e que é também um cineclube atuante. E como acadêmico, é doutorando em lógica (Lógica Paraconsistente – ou coisa assim).

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UMA SEGUNDA MORTE PARA CLÓVIS GARCIA

29/06/2012

Uma estória do Café das Cinco. Para o Mário Martins.

Clóvis Garcia morreu vítima de um erro médico, que não diagnosticou uma apendicite, confundindo-a com excesso de gases no intestino. Supurada, o matou. Uma morte ridícula, todos concordaram, para alguém como ele. Uma morte ridícula, com um homem ridículo, estendido numa cama de hospital público, na área reservada à caridade aos pobres, ladeado por cortinas de banheiro e outros moribundos, com uma amante envelhecida aos pés de sua cama, chamada às pressas por aquele homem, agora tão comum e mortal, implorando perdão, juras e amor eterno. Um homem, uma cena, um quarto: fotografia amarelada pelo tempo, queimando e incensando a memória.

Quando, por fim, o lençol azul e manchado lhe cobriu a face inerte, Clóvis Garcia deixou, oficialmente, de existir. E, protocolarmente, com ele, toda a falta de potência de ser que os últimos anos acompanharam, colados à pele como uma armadura de ferro. Os anos foram implacáveis com Clóvis Garcia, e ele se deixou abater, não fazendo jus à personagem que construiu sem muitos dedos ou cuidados. Um herói é um arquiteto e o único responsável pelo edifício de símbolos e desejos que ergue em torno de si.

No fundo, apesar de mito coletivo, um herói é solitário.

E agora, Clóvis Garcia? Agora que você é isto: um pesado corpo de 120 quilos, um aglomerado de carne, sebo e sangue que, dentro em breve, irá se enrijecer e feder. E que uma infecção generalizada continua a lhe comer as entranhas, as forças que lhe vinham das entranhas, enquanto esta pele ainda tem algum calor e suor para perder? E o médico, Clóvis? Sorrindo amarelo para mim, explicando sem explicar o erro. Sem processo, ele pede. Em outros tempos, você o mataria, o esganaria milhares de vezes, sem suar. E agora, Clóvis, que sua velha amante recheada de perfume barato e dançando na calcinha larga e suja com a qual eu a encontrei e com a qual mal se vestiu e veio rapidamente te visitar, depois de todos estes anos? E agora, que ela molha a minha camisa com estas lágrimas que, tenha cá para nós, são falsas; molha e mancha não somente as minhas roupas, mas a sua memória. Clóvis Garcia, enquanto ela chora por você, alisa o meu pescoço, roça suas coxas nas minhas. Enquanto vêm os homens do necrotério, eu a levo para casa e você bem sabe o que irei fazer para consolá-la, Clóvis. Nos áureos tempos, você faria o mesmo.

Agora, Clóvis Garcia, você repousa debaixo de sete palmos de terra, ridículos e comuns, com suas pernas quebradas por nós, pois seu corpo não cabia neste caixão barato. E dentro em breve, seu corpo começará a inchar, suas extremidades crescerão e serão comidas por vermes, bem como seus olhos. Esta roupa que os amigos fizeram uma vaquinha para comprar no brechó, se deteriorará. E a pressão da terra sobre a madeira de terceira quebrará o caixão. Os vermes que entrarão comerão as carnes, dançarão nas órbitas vazias. E quando não for mais que ossos, cabelos e mau cheiro, virão os coveiros, comandados pela Administração do Cemitério Municipal, para lhe exumar o corpo, quebrar-lhe os ossos restantes e colocá-lo numa parede, com um número qualquer, dentro de uma caixa, ladeado por milhares de outros. Você ocupa muito espaço, Clóvis, no maior cemitério da América Latina.

E, daqui alguns anos, quando for a minha vez de morrer, ninguém mais se lembrará de você. Os poucos presentes no enterro comentarão a indignidade de você não ter sido cremado, Clóvis. Mas o fato é que você estava ali para ser degustado, não é?

Nem lhe depositarão flores, nem lhe acenderão velas, nem lhe cantarão os feitos, nem lhe suspirarão de amores, nem lhe repetirão o nome. Mas há muitos anos que não lhe fazem nada disso, Clóvis. Você sabe: a história oficial que hoje o Sindicato escreve não tem seu nome em lugar algum. As greves que ajudou a garantir, à base de balas e falas de seus revólveres, dizem agora que foram feitas à uma mesa de negociação. Negociação, você, Clóvis? E o dinheiro? E o dinheiro, Clóvis? Aquele dinheiro que você e outros roubavam e que eu calei, com quem estará, Clóvis? Com quem estará? Você dizia, rindo muito: Tenho fé no materialismo. Hoje e sempre. E sou herói.

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E as mulheres, Clóvis, onde andarão? Quantas vezes as levamos para a cama, para o chão, para o mato, para
detrás das estantes, para atrás dos carros de som, para quartos de limpezas e outros lugares mais, depois de nossos discursos, de nossas ações extraordinárias? Todas queriam dormir com o herói. E ele era você, Clóvis. Nós só pegávamos carona na sua fama. Hoje, elas querem dormir com o futuro, de preferência sem aventuras e com conforto. Protocolo sexual burocrático. Com a aposentadoria segura, com os filhos, com a casa e os carros e as poupanças. Com os nossos inimigos.

Clóvis, quantos você salvou naquela manifestação em 77? Lembra? Quando os seus lendários 38 canos longos, escondidos no jaquetão, deram tiros para o alto, para frente, para os lados, para trás? Quando você gritou: Chega de ser isca de polícia! Quando você, entrevistado pelos grandes jornais do Brasil, sentenciou: Se for para morrer, que se dane. Que venham. O proletariado já morre de fome. Agora tem de morrer de pé. E chumbo grosso. Você e sua jaqueta, Clóvis. Você e os livros de Mao Tsé nos bolsos internos. E, as balas, nos externos. Você e o seu cabelo, contra o vento. Você e o seu jeans apertado. Você e o seu sexo latejante. Você e o seu peito aberto, corpo fechado, filho de Xangô. Você sua voz, trovão em cima do caminhão. Você era o máximo, Clóvis.

E, agora, é isto.

Clóvis, eu poderia inventar uma estória mais feliz, mais a contento, para que os rostos que me ouvem no Café das Cinco se iluminem e se iludam. Os garotos do Café das Cinco se lembrariam de você, então, Clóvis. Mas, não. Você não fez por merecer. Os meninos do Café são bons. Mas eles não se lembrarão de você. Os heróis, Clóvis Garcia, devem, têm a obrigação de morrer cedo, jovens, de uma morte fatídica, trágica, súbita, de agonia rápida. Têm de morrer em batalha, epopéia a ser cantada, com sangue, muito sangue, embebidos em sangue. Era assim que tinha de ser com você, Clóvis Garcia. Você morrendo, trocando balas com a polícia política. Você morrendo em combate feroz, com algum adversário. Você caindo em agonia, numa tortura, sem dedurar ninguém, nenhum companheiro. Você sendo traído por alguma amante, arrastado para uma cilada. Você morto no campo de batalha, com o corpo desaparecido. Você num livro de memórias, num filme biográfico, numa canção nacional. Você…

Não isto. Não isto, Clóvis Garcia!

É engraçado – e curioso até – que eu, logo eu, aquele que o desprezava e, quem sabe?, o amei, que o tivesse como um ser abjeto e a quem devo a minha vida, por me ter salvo de um espancamento, à base de suas balas; que sabia de muitas das suas mutretas e seus roubos no Sindicato, mas que fechava com você – o que me fazia, claro, seu cúmplice – porque você era meu companheiro – o que não me fazia menos ladrão – ah, enfim, é engraçado, Clóvis, que seja eu, logo eu, a te contar aqui, agora, com estes olhos baços e desesperançados diante de mim, aqui, agora, para os meninos do Café das Cinco, Clóvis. Não tenho vocação para Esfinge, nem para Oráculo, nem para Pandora.

Você repousa numa sepultura. Você se livrou de toda a dor, do ridículo, do passado, do herói, da leveza e do peso de ser. Você é livre, Clóvis Garcia. Livre. Você é livre, livre, mas não de mim. Que estória eu devo contar a teu respeito? Que estória, Clóvis? A do ridículo? A do enfermo de apendicite mandado para casa com comprimidos para alívio de gases e dor de barriga? Ou a do herói?

Você é livre, é livre, mas não de mim.

Nem eu de você. É verdade. Eu quero o herói. E quem não quer? Clóvis Garcia, você não tinha o direito de se deixar acabar assim. De se deixar de ser, de se tornar um impotente ridículo, gordo, mal cheiroso, delicado e suplicante. Você não era só você. Não foi só você quem morreu, percebe? Foi um tempo inteiro. Clóvis Garcia, seria melhor que nem tivesse existido. E nem nós. Nem que nos tivéssemos conhecido. Não morreríamos de vergonha. Foi isso que o matou e será isso que nos levará junto com você, até o último de nós.

É compreensível que o Sindicato esconda o seu nome da História Oficial. Quem éramos nós perto de você, Clóvis? Seu nome ecoa, reboa, ressoa, enche a boca, preenche os espaços, emprenha ouvidos. Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia… Pode ouvir a multidão, a massa te gritando lá embaixo do caminhão? Menos que um poema, quase uma poesia: Clóvis Garcia, dizia uma de suas namoradas, estudante burguesa, com quem você gostava de desfilar como um troféu, apequenando, para nos deixar a ver navios. Você era o pirata, o bárbaro, você era livre. Livre, livre, mas não de mim. Nem eu de você, atado ao nosso passado, ao seu passado.

E agora, Clóvis Garcia?

Onde estão teus amigos? E as tuas amadas? E as tuas armas? Tudo desfeito, doado, vendido barato, penhorado, perdido ao longo dos anos, em tuas rondas noturnas e fantasmas matinais. Você é isto, agora, Clóvis, para alguns: menos que um fantasminha camarada, assombrado durante anos pela Era dos Resultados. Logo você, Clóvis. Quem diria? Logo você. Sindicato de Resultados, Futebol de Resultados, Relacionamento de Resultados, Sexo de Resultados, Partido de Resultados, Combate de Resultados… Não para você, não é, Clóvis? Força viva, pulsante. Não havia mais lugar para você. Nem mesmo dentro de você. Mas precisava se deixar matar assim?

Apendicite supurada. Gases. Erro médico. Não é morte de herói.

O jogo é jogado, parceirinho, você citaria João Antônio. É. Mas nunca é fair play.

Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia… Pode ouvir a multidão, a massa te gritando lá embaixo do caminhão? Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia……

Sigo, não sei se sorrindo, assobiando e contando você. E te conto tantas vezes que, chutando pedregulhos no caminho, sou até capaz de te esquecer. O sol esfria junto com o que me lembro de você.

Mário Augusto Medeiros da Silva






procerão, um conto de 1984.

23/06/2012

procerão

Procerão, 1

Procerão, 2

Procerão, 3

Procerão, 4

Procerão, 5

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Sonhava ser jogar de futebol, por mais que fosse um aplicado perna-de-pau e sabia disso. O sonho era um lenitivo para dormir. Um sonífero para esquecer. Um auto-engano para espantar a dureza do trabalho na roça e depois do colégio interno onde cheguei semi-analfabeto, tendo que estudar latim. Sempre lembro com pena e um certo regozijo do chute formidável que dei na gramática Ragon. Mas defendo que o latim volte às escolas secundárias .Cinco décadas depois, falar 50 anos parece que as coisa fica pior, sonho  dando grandes chutes, principalmente sonho acordado, apesar de chutar fraquinho fraquinho. E com as duas pernas como pelé. E fico rindo de tamnha asneira e durmo feliz. Assim sonho com pintura sem saber desenhar um patinhos, começando com um dois. Com desenho e arquiteturas. Fui construir um caminhão de madeira para meu filho e, ao final, consegui um trenzinho pintado de vermelho e verde. Pior, foi duro descartar dele depois. Fiz discursos revolucionários em meio a uma simples greve. E diante de qualquer criança pedindo esmolas, mesmo daquela criança que Pagú deu esmolas, em 1933, nas ruas de Moscou, em sonho com revoluções. E continuo brigando com Elis Regina e Belchior, pois acho sonhar melhor que viver. Claro que viver sonhando.

Em 1984 eu sonhava em ser escritor, mesmo notando que qualquer um que eu lia escrevia melhor que eu. Este conto, talvez foi a última tentativa, foi o marco da minha desistência. Nunca mais escrevi senão panfletos sindicais. E depois viciei-me em e-mails, fingindo que escrevo cartas, hoje um gosto solitário.  Ainda tenho a mesma covardia de 1984.  Mas não repudio esta pequena história.  Gosto dela, tanto que guardei. E aqui publico.

Tive a tentação de dedicar ao meu amigo Mário Augusto Medeiros da Silva,  xará e coloborador, esporádico, deste blog. Um vingança por ele ficar insistindo que eu devo escrever.

E escrevo isso, e leio sempre todas as coisas, ao som de alguma música exagerada, melhor, toda música é um exagero. Neste momento uma música árabe, dilacerada, com Yo-Yo-Ma . Que justifica qualquer desatino.  A maior das artes.  Que na minha república dos sonhos,  desafiando Platão, poetas, dramaturgos, humoritas, deviam ser seres privilegiados e protegidos, inatingíveis. E os músicos deveriam ser mesmo tratados com deuses, assim mesmo como  eram tratados os artistas de rock. Deuses  como eu acho que são Jimi Hendrix e Bach. E filósofos só seriam aceitos se frequentassem um baile funk e dançassem.

Como não danço, ninguém deve acreditar em nada que escrevo.


Membro Fantasma, por Mário Augusto Medeiros da Silva

22/06/2012


 

Membro Fantasma, por Mário Augusto Medeiros da Silva

Liguei apenas no terceiro dia. Sabia que estavam todos preocupados. Tia Carmem ameaçou um enfarto. Mãe rogou praga. O Pai não disse nada. Nada disse, mas imaginava seu olhar ao longe, de sobrancelha levantada. Mano gozava a cara de todos. Arrumou-me não sei quantas namoradas e aventuras fantásticas. Durante esses três dias, até as vinte horas, vivi intensamente nas imaginações alheias. Raramente com final feliz, invejosamente fabulado.
No terceiro dia fiz tocar o telefone. Deve ter havido uma correria louca em volta da mesa grande da sala. Benedito latindo e correndo atrás do próprio rabo. Maroca irritada com a soneca boa frustrada, na almofada puída. Maroca olhando severa o zanzar de pernas, tão distintas de sua elegância felina. O Pai avisando que não me atenderia, que não falaria comigo, que não estava lá, mas esperando saber se eu precisava de alguma coisa. Mãe gritando seus impropérios e empurrando todo mundo para chegar ao gancho. Mano, de costas largas, pernas longas, músculos másculos, atendeu e suportou gritos, arranhões, chutes e murros, bem como súplicas desesperadas para ouvir minha voz.
Tia Carmem fazia café de cinco colheradas, porque ninguém dormia cedo aos sábados. A trinca, o truco, a canastra, o buraco, a ronda, o dominó. A paciência. A paciência da família reunida, exercitada, em torno da mesa grande, de tampo elegantemente polido e pernas vergonhosamente lascadas. A paciência da espera, dos pigarros censores, dos olhos gulosos, dos homens eunucos e suas senhoras desditosas. A mesa aparentemente velha, aparentemente nova, aparentemente herdada, aparentemente nobre, aparentemente limpa, aparentemente firme. A mesa levou um pontapé do Mano quando o telefone tocou.
Benedito me quer bem. Benê espiava comigo Ana tomar banho com Nina. Benê caçava rolinha e me defendia do Zé Sujeira, quando eu vacilava o repuxo. Maroca é uma dama empertigada, que me ensinou bons modos. De tanto observá-la, acho que aprendi algo de tratar Mercedes. Ela não perguntou se liguei. Duvido que chorasse ou esperasse pelo canto. Tantas idas e vindas, numa dança estranha. Mercedes devia estar como Maroca: altivamente à espreita, enleivada em seu próprio mundo, à espera de um afago em seus pêlos.
Mano atendeu. Ouviu minha voz gravada e programada no equipamento. Será que sorriu antes ou depois? Lembrou da dor do chute na mesa ou de todos esses anos? E quando anunciou o que lhe transmiti, conseguiu disfarçar o que de fato quis dizer? Tia Carmem tomou mais café? Benê fungou e coçou-se a barriga. Maroca fingia dormir. Mãe caiu-se ao sofá? Riu-se de louca? Fê-lo repetir? Mano seguiu as instruções, apertou o teclado para ouvir de novo. Mercedes estaria no Oca´s planejando a revolução com meus camaradas e não seria encontrada. Pena. O Pai, sobranceiro e pragmático preparava o terno e avisava que era hora, então, de mexer nos papéis para abrir o caixão.