TARSILA do Amaral: A Negra

11/06/2013
Coleção Folha

Coleção Folha

Iemanjá, séc. XIX e a Negra de Tarsila do Amaral

Iemanjá, séc. XIX e a Negra de Tarsila do Amaral

Veja Além do sentimento religioso, há um tom de lembrança em sua pintura…

TARSILA – Um dos meus quadros que fez muito sucesso quando eu o expus lá na Europa se chama A Negra. Porque eu tenho reminiscências de ter conhecido uma daquelas antigas escravas, quando eu era menina de cinco ou seis anos sabe? escravas que moravam lá na nossa fazenda, e ela tinha os lábios caídos e os seios enormes, porque, me contaram depois, naquele tempo as negras amarravam pedras nos seios para ficarem compridos e elas jogarem para trás e amamentarem a criança presa nas costas. Num quadro que pintei para o IV Centenário de São Paulo eu fiz uma procissão com uma negra em último plano e uma igreja barroca, era uma lembrança daquela negra da minha infância, eu acho. Eu invento tudo na minha pintura. E o que eu vi ou senti, como um belo por-de-sol ou essa negra, eu estilizo.”

“Diversos já escreveram sobre A negra de Tarsila do Amaral, destacando sua muita ou pouca ousadia face aos padrões vanguardistas, a reminiscência do passado colonial ou pessoal, enraizado nas fazendas do interior paulista. A foto de uma antiga empregada de família [Figura 11] é costumeiramente reproduzida para enfatizar a relação afetiva da artista com seu tema, sugerindo uma possível origem iconográfica[32]. Todavia, sempre que vejo a reprodução de uma pequena imagem de Iemanjá do séc. XIX [Figura 12[33], não posso deixar de reconhecer nela a negra de Tarsila.” Algo além do moderno: a mulher negra na pintura brasileira no início do século XX . Maraliz de Castro Vieira Christo

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links

01. Entrevista concedida a revista Veja (23/02/1972), a Leo Gilson Ribeiro, aos 75 anos. VEJA:
02. Algo além do moderno: a mulher negra na pintura brasileira no início do século XX , Maraliz de Castro Vieira Christo
03. A Negra, MAC/USP


Graffiti and Urban Art. Presença, Presente e lance.

18/11/2012

Priscila Salomão, um presente – e um sol na cabeça. Dia 17/11/2012, 60 anos do diretor deste jornaleco, com performance de 40 e desejos de 20. Priscila a personal agitadora cultural e outras bossas.

Graffiti and Urban Art: Cristian Campos:Editorial Projetct. Barcelona, Espain. Biblioteca Mário VII-073.200 C001g

Presente da pequena comemoração dos meus 60 anos. Presente, Priscila. E um presente, foi sua presença, Priscila. E de presente o que poderíamos chamar de um presente, um regalo, um iniciar de presentes cotidianos, comemorações diárias, pela abertura para novas descobertas – obrigado por este caro, já querido, e magnífico livro.       [Biblioteca Mário]

Suso 33, máscara

Priscila chegou mostrando essa página em que viu as máscaras africanas que nos causaram tanto impacto – e causa. Novamente intuiu. A obra chama-se máscara.

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Na primeira olhada o que mais impressionou foi SUSO33. Aproveitando os horrores da arquitetura urbana. Principalmente as ruínas e demolições. Este horror que parece provisório terá uma arte provisória. Quase que como se quiséssemos que as ruínas continuassem. Teria, se tivesse contato direto, uma espécie de saudade antecipada.

E Priscila já da a dica:Giacometti. Não é difícil ver nesta máscara de Suso a gaiola de Giacometti enquadra e dirige o olhar.

Á árvore, ao fundo, no cemitério – parece -, também é uma garatuja natural. Como são garatujadas as máscaras, como também podemos ver em Giacometti. [há algo semelhante nas “hachuras” de Toulouse-Lutrec – a estudar e conferir].

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Desavergonhada Utopia Socialista em forma de plataforma

Primeiro uma distopia: quando é que os socialistas vão reconhecer que a chamada história do socialismo real é uma história da inimizade dos socialistas com a arte. Há períodos que fazer arte na Rússia, que se chamava União Soviética, era um crime lesa estado. Põe-se, normalmente, tudo na conta do stalinismo brutal, ignorante e sanguinolento.  Mas eu não tenho provas de que o período bolchevique houve liberdade artística, como deve ser, total absoluta, anárquica.

Gostaria de ver um jornal “nanico”, chamados de operários e de jovens operários, adotar o graffiti, a arte de rua, nas suas imagens.  Uma arte gratuita. Fora do sistema. Inventiva. De intervenção e ação. Não é e nem deve ser a única arte, mas uma intervenção na vida urbana, melhor ainda, uma intervenção na vida. Que deve ser um único metro para medir as coisas. Tudo que representa morte é religião, é cristianismo, eu auto-flagelação, é asceticismo.

E a mais revolucionária, para mim, arte de rua, é exatamente a que não é propaganda política ou social, mas que intervém, pelo visual, a vida nefasta do capitalismo, com suas demolições, degradações, exclusões.

Suso 33 , ausencia. Mas que é antes de mais nada, presença do artista num lugar totalmente inóspito, inesperado, dando vida á destruição e morte que é uma face do capitalismo.

O luta para o socialismo tem que ganhar todos os artistas, do folclórico ao arte de vanguarda-de invenção.  Para isso o total anarquismo em arte. Total e absoluta tolerância.

Substituir os  jornais feios e maçudos da esquerda, por algo ligado a uma vida pulsante seria uma ato de vanguarda revolucionária.

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links

01. SUSO 33

02. google, imagens de Suso 33
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pingback

01. Alter e Memória, apontamento 01
02. Giacometti e a civilização africanas e outras civilizações
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novidade da semana

01.RENAUD GARCIA-FONS [procure no Grooveshark, especialmente por Poussière de Ksar ]. Procurando por violoncelo na música flamenca deparei com este contrabaixo (dauble bass).  Há 3 ou 4 dias que só ouço isso. E não me cansei.


Modigliani: “Eu agora possuo o orgasmo…”

28/06/2012

biblioteca Mário 002.000

Quem foi Amedeo Modigliani

É irredutível a escolas ou tendências. Em Florença. Matricula-se na escola de belas artes em 1902. O ambiente da cidade, naqueles anos, é permeado pelas discussões filosóficas, políticas e literária. D’Annunzio e Nietzsche.

Muda para Escola de Belas Artes de Veneza, em 1903 de onde escreve ao amigo:

 “…Eu agora possuo o orgasmo, mas é o orgasmo que precede o prazer, ao qual sucederá a atividade – vertigninosa e ininterrupta – da inteligência”.

“… No Mseu de etnografia descobre a estatuária africana, como o fizeram tantos artistas de sua geração”.p.5

Sua pintura, desde o início, só tem um tema, a figura humana.

1909. Discute muito com Constantin Brancusi. Brancusi estava entusiasmado pela arte africana. Depois destas discussões, diz o texto, Modigliani decide-se a tornar-se escultor.

Na sua pintura ficarão características que aprendeu esculpindo. “… Da arte dos povos africanos, reteve o sistemático alongamento dos rostos, o tratamento geométrico do pescoço, o volume decidido e retilíneo do nariz – que tanto caracterizam seus retratos. Mas incorporou também as lições pré-colombianas, das culturas do oriente – os ancestrais da arte moderna…”p.5

Uma anedota do texto da Abril é que Modigliani, depois de fazer uma série de esculturas, apresenta-as a alguns colegas que balançam a cabeça negativamente. E então, com carrinho de mão joga-as todas nos canais da cidade. Anedota semelhante é contada na ficção de Ken Follett, em O Escândalo Modigliani; mas agora é uma carroça de quadros que é queimada.

“Hoje, muita tente ainda se pergunta: o que é um Modigliani? É um retrato, de preferência um retrato de mulher, tratado segundo a tradiçã do retrato decorativo da escola italiana…”p.6

Esse parágrafo continua com uma questão da técnica que é importante anotar:

“… O traço é sublinhado, constantemente visível. Percorre e organiza a superfície da tela obedecendo a um ritmo de grandes curvas melodiosas. Sugere o corpo humano mediante recurso a deformação arbitrárias: o pescoço e as mãos são desmedidamente alongados, o dorso é relativamente curto, a cabeça – diminuta com relação ao conjunto – [e aqui o que achei o mais importante] é organizada em torno da linha vertical do nariz [lembando o documentário sobre Giacometti, exibido quando da exposição na Pinacoteca de São Paulo, onde, numa fala, Giacometti diz que começa suas obras pelo nariz, como se as construísse em volta de um nariz perfeito].”

Em 1917, “… para chamar atenção do público… Zborowski teve a idéia de colocar quatro nus na vitrine. Mas a polícia chegou antes que os compradores e exigiu que as telas fossem retiradas..”. p. 6

Morre 25 de janeiro de 1920.

Assim ele escreveu sobre a vida. “A vida é um dom. De poucos para muitos. dos que sabem e possuem aos que nem sabem nem possuem”. p.6

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Este fascículo da abril é francamente de uma moralismo sexual deprimente. As estampas dos nus são da cintura para cima, quando Modigliani  retrata sua modelo, de corpo inteiro,  com a mão bem sugestivamente colocada.  Pelo fascículo da Abril, 1967, ditadura militar, Modigliani pintou rostos, quando seus nus – como se espera de um nu – são corpos inteiros sensuais, eróticos.  E inclusive os rostos são de mulheres sensuais. O que as cores, no batom, no cabelo, nos olhos, sempre sugerem.

Esta reprodução foi colada do Google. O fascículo da Abril, de 1967, mutila todos os os dois nus que reproduz. As reproduções do google devem deixar os pedólatras indignados, pois quase sempre cortam pés e pernas.  Aqui vãos duas reproduções do google, mutiladas, as mesmas seccionadas do fascículo da Abril Cultural.

Uma vantagem de ter as reproduções do fascículo da Abril Cultual é que no papel permite-se  uma noção da pinceladas e, portanto, permite dar uma sensação de estar vendo uma pintura. Nas reproduções eletrônicas, tudo fica muito frio, as pinceladas desaparecem e, como há muitas reproduções da mesma obra na internet, fica evidente uma variação imensa nas cores quando comparadas. Ou seja, não se vê o quadro. Talvez podemos ver o assunto do quadro. E o texto da Abril Cultural ressalta ainda que Modiglini lançava mão de cores fortes – o que recebia muitas críticas dos contemporâneos, mostrando que questão das cores era uma atitude importante do artista.

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Outra anotação sobre civilizações africanas e sua influência na arte moderna

Boneca DOGON, de Mali. Foto Mário Martins de Lima. Da exposição “Memória e Altar”, na CPFL-Campinas, maio 2012, da Coleção de Rogério Cerqueira Leite


A cabeça pequena em relação ao corpo é uma das características das deformações encontradas em várias esculturas de várias civilizações africanas. Essa acima é da Civilização DOGON, de Mali. Neste blog, em vários posts foram anotadas estas características e seus significados na arte africana, que praticava várias distorções, não por que não conseguisse ser realista; exemplo contrário é que retratavam animais de forma realista. As distorções fazem parte de sua relação com os espíritos ancestrais; são distorções executados com esmero e expressividade conscientemente procurada.


Giacometti e a civilização africanas e outras civilizações

18/06/2012

Giacometti, Mulher Colher, 1927 (versão 1953), gesso

Esta influência das Artes Africanas, em Giacometti, está em toda sua obra. Há na exposição da Pinacoteca de São Paulo uma sala especial, mostrando que houve uma fase na sua obra, começando em 1927, onde esta influência era marcante, mas acho que é um influência que perdurou a vida toda. Mesmo porque, como diz Véronique Wiesinger (02), Giacometti fazia constantes “recuos”; e uma obra concebida no início da década de 30 seria executada, por exemplo, na década de 60.

Como podemos ver pelas reproduções aqui, Giacometti, não só sofre influência, ele reaproveita imagens vistas, quase que decalcadas. Gostaria de estudar como estas incorporações são feitas. Que novo significado adquirem. Que nova dimensão Giacometti deu, por exemplo, para máscaras e esculturas que circulavam na frança quase que como souvenirs. Aqui temos duas mulheres colheres quase idênticas: uma é arte moderna, a outra arte africana, chamada por alguns de folclórica.

Certamente isto já tem até um nome no vocabulário das artes, mas eu não sei. E quem souber mande-me. Todas estas nomeclaturas são muito chatas, mas as vezes ajudam a catalogar. Apesar que tem falas e textos que são só uma sucessão de jargões que nós dá impressão de estar lendo um diário oficial da Rússia stalinsita [que, curiosamente, repetiu a o cipoal burocrático do czarismo].

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Colher Cerimonial, Civilização DAN, Libéria
The Art of Africa, the Pacific Islands, and the Americas / The Metropolitan Museum of Art Bulletin

Esta publicação do The Metropolitan Museum of Art Bulletin (Fall, 1981), tem fantásticas reproduções em página inteira. Minha biblioteca parece um sebo. A cada arrumação uma surpresa.
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biblioteca Mário 000.003

 

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O NARIZ, 1947 (versão 1949), bronze, fundição 1965, Fundation Giacometti, Paris.

Isso que eu chamei de incorporação, e que não sei que nome tem no vocabulário da arte moderna, aparece a todo instante. Na exposição, diante do Nariz, de Giacometti, fiquei brincando que era Pinóquio revisitado. E fiquei intrigado até que me deparei com os homens “mosquitos”. Não sei se são apenas canadenses.

Mosquito Mask
Coast Tsimshian
British Columbia
Before 1925
Wood and paint
Canadian Museum of Civilization, VII-C-1188, CD98-20-015

tlingit-mask, anunciada por $400,000

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Esta aqui está à venda por $400,000 [ quatrocentos mil dólares]. Será o efeito do “reaproveitamento” do “folclore” na arte moderna? Não sei destes artefatos do Canadá, mas é sabido que na década de 20 e 30, máscaras e esculturas africanas eram vendidas como souvenirs em qualquer brechó. Pode ser a lei básica e elementar do capitalismo, a da oferta e procura. Um pista é que deve ter menos máscaras Tlingit em circulação do que africanas. O mundo a arte é um mundo do mercado capitalista: “Que produz e destrói coisas belas”, como cantou Caetano Veloso.

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Mosquito Mask, Papua Nova Guiné, Oceania

Mas aqui mesmo já começo a dar alguma resposta sobre os “mosquito mask” serem apenas canadenses. Há esta máscara de Papua Nova Guiné, na Oceania. Outra pergunta já pode ser respondida. Giacometti também desenhou e se influênciou pelas máscaras, totens da Oceania [e fez vários desenhos das máscaras e esculturas da Oceania, presentes na exposição da Pinacoteca].

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LINKS:

01.levantamento de dezenas (com centenas de fotos) de publicações sobre arte africana e ao final links
02 . para imagem do “mosquitos” CANADIAN MUSEUM OF CIVILIZATION

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BIBLIOGRAFIA

01. GIACOMETTI / organização Véronique Wiesinger/ vários tradutores / São Paulo: Cosac & Naify, 2012.

02 . The Art of Africa, The Pacific Islands, and the Americas /text by Douglas Newton / Photographys by Lee Boltin / The Metropolitan Museum of Art Bulletin (Fall, 1981)


GIACOMETTI por JEAN GENET.

11/06/2012

alberto-giacometti, fonte Google, certamente foto de Ernest Scheidegger

O ATELIÊ DE GIACOMETTI, por Jean Genet.
FOTOGRAFIAS DE Ernest Scheidegger.
As fotografias. Aqui, em livro, eu não canso de ver. Na exposição mais ou menos ignorei as fotografias lá expostas. Voltarei para conferir. Foi na foto da página 24 que pude conferir o que Sartre fala de Giacometti e seu rosto antediluviano, para adivinhar seu orgulho e sua vontade de situar-se no começo do mundo”.

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biblioteca Mário 000.004

 

 

 

O Ateliê de Giacometti, de Jean Genet, contracapa. Ed. Cosac & Naify. Fotos de Ernest Scheidegger.

O livro é essencialmente um livro de fotos.

O texto é curto, mas cheio de considerações e assertivas. Quase impossível resumir o que já é quase um resumo de uma longa reflexão e de um longo contato de Jean Genet e Giacometti. Por isso, para facilitar, cito as frases que achei mais contundentes.

AS FRASES:
É a obra de Giacometti, creio, que torna nosso universo ainda mais insuprortável...”.p.12.”A beleza tem apenas uma origem: a ferida...”p.12.”Certas estátuas de Giacometti provocam em mim uma emoção bem próxima desse terror, e uma fascínio quase tão grande“.p.13.”Estão no fundo do tempo, na origem de tudo...”p.14. Assim como Sartre viu. A distância, “a distância entre mim e elas que não tinha notado, distância tão comprimida e reduzida a ponto de eu acreditá-las próximas…“p.14.”… toda obra de arte…deve…descer aos milênios, juntar-se, se possível, à noite imemorial povoada de mortos que irão se reconhecer nessa obra.”p.14-15. “Não, não, a obra de arte não se destina às novas gerações. Ela é ofertada ao inumerável povo dos mortos...”.p.15. “Ainda que presentes, onde estão essas figuras de Giacometti a que me refiro, se não na morte?”. p.15. “Suas estátuas parecem pertencer a uma era defunta”. p. 44. “Giacometti canta que certa vez teve a ideia de modelar uma estátua e enterrá-la...”.p.44. Cada Estátua parece recuar a – ou vir de – uma noite tão distante e espessa que se confunde com a morte...”.p.66

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CONVERSA DE JEAN GENET COM GIACOMETTI:

Giacometti fala a linguagem comum de um trabalhador braçal. “Ele fala áspero“. Emprega com frequência a palavra DESTRAMBELHADA. “Ele também é bastante destrambelhado“. Cabelos desgrenhados. Giacometti continua trabalhando. “Não o interesso nem um pouco“. p.18.

O POVO DOS MORTOS. “Ao povo dos mortos, a obra de Giacometti comunica o conhecimento da solidão de cada ser de de cada coisa..”. p. 21.

Alberto Giacometti, Os olhos. No livro/catálogo Giacometti, da Cosac & Naify o desenho tem fundo pardo. Este parece ter um fundo branco, o que atualizaria a teoria sobre o branco de Jean Genet, de que os traços serviriam para reforçar o branco, o espaço.

Este parece uma coisa de internet, para “melhorar” Giacometti. Coloco aqui para chamar ao cuidado e atenção.

A ABSTRAÇÃO: “…Quero dizer que se o conhecimento de um rosto pretende ser estético, deve recusar ser histórico“.p.22. Não é possível realmente, então, um retrato. Todo retrato é retrato de, Jean Genet, é de um homem em geral. Na verdade, sem rosto. Daí as garatujas e rabiscos. Ou flacidez de Sartre, a redondez, temida, de Jean Genet.

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A MULHER

Mulher em pé, c. 1961, gesso pintado. 46 X 7,6 X 11,2 cm

Nas páginas 22-24 há uma difícil discussão sobre as mulheres de Giacometti, nos bustos de Diego e as suas pinturas. As pinturas seriam muito mais dificeis de situar e entender. Os bustos, por serem mais convencionais, seriam mais próximos. Quando as mulheres seriam mais deusas que mulheres

Chama atenção para o fato de serem pintadas, douradas ou prateadas. Isso na questão mais simples.

A discussão que me pareceu difícil é sobre as mulheres serem de corpo inteiro e Diego um busto. Logo Diego seria mais “socializado“. Depois de um braço, que suponho que é a escultura de um braço que Genet achava que não poderia “viver” sozinho e no entantonão conheço braços mais intensamente, masis expressivamente braço que aquele“.

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O EPISÓDIO DO VELHO SUJO E MALVADO NO TREM.

Alberto Giacometti, Nariz, 1947; versão 1949. bronze, fundição 1965

Uma conversa intolerável, um homem feio, muito sujo e mau . Para Jean Genet, as estátuas de Giacometti narram este homem. Giacometti reconhece, todos nós,  neste homem sórdido. Não bondade, mas reconhecimento.

Jean Genet, mais que Sartre, insiste no homem Giacometti, influenciando sua obra. “Recomeça a caminhar, mancando. Conta que ficou muito contente ao saber que a operação – depois do acidente – o deixaria mae nco. Por isso, vou arriscar o seguinte: suas estátuas me dão a sensação de se refugiarem, em última instância, no sei em que enfermidade secreta que lhes proporciona solidão“. p. 42.

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O CÃO DE BRONZE


O cachorrro de bronze de Giacometti é admirável. Era ainda mais bonito quando sua estranha matéria, gesso misturado com barbante ou estopa, desfiava‘.””Sou eu. um dia me via na rua assim. Um cão“.p. 38. Esta narrativa é a narrativa de uma múmia. No entanto Genet não o diz.

Jean Genet vê estes homens esquálidos na rua. Curvados sob o peso da vida cotidiana e dura. Mas principalmente curvados pela solidão.

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MAS A VIDA  PULSANTE SE IMPÕE PELA JANELA DO ÔNIBUS

Mas Jean Genet faz questão de pontilhar que não vê o mundo da mesma forma. Apesar de todo deslumbramento e entusiasmo com a obra de Giacometti,  de reconhecer que esta solidão é conhecimento, inatacável, este é termo que usa, da condição humana. Mas A cidade – feita solidão – seria admirável de vida, não fosse meu ônibus cruzar com um casal de namorados atravessando uma praça: eles se seguram pela cintura e a moça inventou esse gesto encantador, pôr e tirar a mãozinha do bolso de trás do blue-jeans do rapaz, gesto gracioso e afetado que vulgariza uma página inteira de obras-prima. p. 40.

A desolação que Sartre viu na obra de Giacometti, que Jean Genet chama de solidão, os dois chamam de distância, também é ausência, para mim, de vida. O pulso ainda pulsa, a frase manifesto de Arnaldo Antunes. Sexo é vida, a única propaganda verdadeira que conheço, incluindo as bulas de remédio.

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QUEM FOI FLORA MAYO.

[Cabeça de Mulher (Flora Mayo)], 1926. Gesso trabalhado com canivete e pintado. Giacometti, Ed. Cosac & Naify. Foto Google

Na exposição da Pinacoteca há uma única manifestação deste sexo-sexo. Do erotismo. Flora Mayo.

Giacometti escreve a Matisse: “Eu já não podia suportar uma escultura sem cor e, muitas vezes, tentei pintá-las de observação“. p. 144-145, Giacometti, ed. Cosac & Naify.

Sartre tratou da questão do traço, dos rabiscos de Giacometti. A cor abordada por Jean Genet: “Em meio a velhas garrafas de solvente, sua paleta dos últimos dias: uma poça de lama de vários tons de cinza.

Talvez, em 1926, a cor fosse Flara Mayo. “Arnold e Isabel Geissbuhler a descrevem: Ela era bonita, mas tinha algo de trágico e desequilibrado”. “muito bonita e muito louca”. p. 144 . Giacometti, ed. Cosac & Naify.

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S Sem legenda, (detalhe) foto da foto de Ernest Scheidegger

Uns olhos vazados, apenas as órbitas. Este elemento de terror e morte é uma influência direta da arte africana tradicional, quando estes olhos são uma maneira de contato com a morte e os ancestrais.

Esta fase africana que começa em 1927, tardiamente  comparando com Braque e Picasso, e que, para mim, o acompanhara, essencialmente, a obra inteira: as figuras alongadas, os olhos vazados, este homem geral/abstrato, características das suas esculturas, também presente em pinturas. Os enormes olhos, mas indistintos, com vazados. A sua fase mais abstratas, das mulheres colher, são referências claras aos utensílios cerimoniais. Tudo isso os textos de Sartre não tocam. E também o texto de Jean Genet.

Outra grande ausência do texto são as duas guerras.  Assim como fora em Sartre, mas em Genet com uma agravante que ele fala muito da vida do artista, cuja produção começa depois do horror da primeira guerra, amadurece diante do nazismo e da preparação da segunda guerra mundial. Por mais que Jean Genet, assim como Sartre, afirmem que este rosto, construído por Giacometti, não é histórico, não deixa, para mim, de ser um rosto do horror da condição humana. Que Jean Genet liga, o tempo todo, à morte, à solidão e Sartre à desolação. Isso é a narrativa da guerra.

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O DESENHO

“… Os traços não são utilizados como valor significativo, mas unicamente para dar significado ao Branco. Estão ali para dar forma e solidez ao branco...”. p. 67

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AS ESTÁTUAS:

Sempre a distância, mesmo se estiver muito próximas. Assim como Sartre já tinha abordado. E Jean Genet, neste texto, deixa claro que conversa o tempo todo com Sartre sobre Giacometti.

As mulheres, deusas.  Todo o corpo delas foram modelados mais “amorosamente” que o rosto. “Ao lado delas, como as estátuas de Rodin e de Maillol está prestes a arrotar e em seguida dormir!“. “As estátuas(as mulheres) de Giacometti velam um morto“. A morte é a metáfora dominante em Jean Genet.Parafraseando o título de Sartre: a morte sem sepultura.

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O RETRATO DE JEAN GENET

Giacometti, retrato de Jean Genet. fonte Google

GIACOMETTI-sartre

Eu teria o rosto mais para redondo e gordo“. Sartre anotou o mesmo, a flacidez.Ao contrário das esquálidas esculturas, as pinturas e desenhos de Giacometti tem robustez, mulheres inclusive com ancas largas, rosto cheios e redondos.  Seus rabiscos e garatujas fazem todos, homens e mulheres, ficarem com rostos parecidos. Nisso há aquele homem geral/abstrato. Um homem. E não este ou aquele homem.

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TRISTEZA, SOLIDÃO, DEFORMIDADE.

Diante de suas estátuas, um outro sentimento: são todas pessoas muito belas, contudo me parece que sua tristeza e solidão são comparáveis á tristeza e solidão de um homem disforme que, subitamente nu, veria exposta sua deformidade, ao mesmo tempo oferecida ao mundo para indicar sua solidão e sua glória. Inalteráveis“.

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COMO RECEBO A OBRA DE GIACOMETTI

Acima, neste  último parágrafo do texto acaba matando um pouco a ideia de movimento que Jean Genet afirmou em várias passagens. Se não há vida não há movimento. E experiência é experiência do corpo. A divisão socrática e cristã entre corpo e alma é a danação do homem.

Vejo estes homens e mulheres de Giacometti e penso no Quasímodo de Euclydes da Cunha. Frágeis, esquálidos, desengonçados, mas se transfiguram diante da luta e serão o fundamentos do futuro.

Quem sabem este homem morto esculturado por Giacometti, tão insuportável e doente, é o homem que deve desaparecer.

Acho, é uma obra que faz frente à glorificação estúpida do realismo stalinista. Por negar este horror stalinista teria valor inestimável. Mas ainda assim, acho que há uma grande dose de detratação do homem. Aquilo que o cristianismo fez, cultivando a morte e a dor. E é, acho, uma obra seminal para conhecer  plenamente este homem que deve desaparecer. Mas há um homem que dança, que ri, que festeja, um homem que bebe arco-íris. E este homem para mim é o homem do futuro. O afirmador da vida, até à última gota, até o máximo heroísmo.

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O GATO

Para encerrar vai aqui o gato que Jean Genet achou mais belo e expressivo que o Cão.


CIVILIZAÇÕES AFRICANAS: Memória e Altar: apontamentos 01

15/05/2012

LINKS APARA ALGUNS TEXTOS SOBRE ARTE AFRICANA

[Clique sobre a foto para vê-la em grande formato]

Abaixo vou relacionar vários links de textos sobre as civilizações africanas. Este POST, assim como quase todo o jornaldoporao, será uma espécie de levantamento bibliográfico, resumos e resenhas. Espero que interesse a outras pessoas, mas principalmente será um caderno de Estudo para mim.  Tudo aqui será muito provisório. Tudo estará aberto. Novos textos, novos textos encontrados ou sugeridos, novas idéias, novas referências, tudo será imediatamente agregado, sem muita preocupação com “opiniões” definitivas, nem mesmo assentadas. Uma caderno de estudo. Um caderno de apontamentos. 01.Cultura material e Arte africana Formas de Humanidade, Museu de Arqueologia e Etimologia, USP 02 .Cultura material e História Formas de Humanidade, Museu de Arqueologia e Etimologia, USP 03.Cultura material, Filosofia e Religião Formas de Humanidade, Museu de Arqueologia e Etimologia, USP 04. Civilização NOK 05.MUSEU AFROBRASIL – NEGROS PINTORES – SÉC.XIX e XX</a

REPETINDO QUE ESTE BLOG PRETENDE, ANTES DE QUALQUER COISA, SER UM CADERNO DE APONTAMENTOS. DICAS PARA ESTUDO. POUCA COISA ALÉM DISSO.

A UNESCO COLOCOU ONLINE SUA COLEÇÃO “HISTÓRIA GERAL DA ÁFRICA”.

A PAGINA DA UNESCO:

LINK 06 – AS INFLUÊNCIAS DA ARTE AFRICANA NA ARTE MODERNA, de José D’Assunção Barros

ALTAR E MEMÓRIA, OUTROS TEXTOS AQUI NO JORNALDOPORAO:


Memória e Altar. Apontamento 02 – CULTURA MATERIAL AFRICANA: arte ou não arte?

13/05/2012

“Não seria difícil encontrar nessa arte africana alguns elementos de aproximação com os de correntes da arte ocidental, do naturalismo ao abstracionismo. Mas esse tipo de comparação não é capaz de desvendar o verdadeiro sentido da arte africana tradicional, porque esta não foi feita para ser realista ou cubista, isto é, ela não era um exercício de reflexão sobre a forma, ou sobre a matéria, como nas artes plásticas entre nós. Apesar disso, pode-se identificar na arte africana os elementos que permitiram a artistas, como Picasso, a revolucionar a arte ocidental”.Cultura material e História
Formas de Humanidade, Museu de Arqueologia e Etimologia, USP

DUAS FACETAS QUE José D’Assunção Barros MOSTRA EXISTIR TAMBÉM NA ARTE AFRICANA E UM SÍNTESE AINDA MAIS PROFUNDA POR SEU ASPECTO DE QUERER REPRESENTAR O HOMEM EM GERAL, POR SEU ASPECTO COLETIVO.
“O cubismo, portanto, é uma invenção intelectual dos europeus, que nada tem a ver com a intenção dos africanos: enquanto no cubismo a representação do objeto se dá de diversos pontos de vista, em diversas de suas dimensões formais ao mesmo tempo, a estética africana busca, ao contrário, uma síntese do objeto ou do tema construído materialmente, plena de objetivo, inspiração e conteúdo.“Cultura material e História
Formas de Humanidade, Museu de Arqueologia e Etimologia, USP

“Uma estátua não representa, normalmente, um Homem, mas um Ser Humano integral, que tem uma parte física e espiritual – do passado e do futuro. Tem, por isso, um lado sagrado, ligado às forças da Natureza e do Universo. Uma máscara ou uma estátua concentram forças inerentes do próprio material de que são constituídas, ou que comportam em seu interior ou superfície, além de sua própria força estética. Elas não têm, portanto, uma função meramente formal.”Cultura material e Arte africana
Formas de Humanidade, Museu de Arqueologia e Etimologia, USP

No entanto o debate só se aprofunda. E esta citação que segue não é um apaziguamento. A fragmentação que é essencial no que é o Cubismo, tá presente, insistentemente, na arte africana. Portanto há mais que aparência formal. ” Características como narizes alongados e faces côncavas, visíveis em máscaras e esculturas africanas, por exemplo, mostram “a fragmentação típica da representação do nú feminino feita por Picasso”, afirma Martin”.Exposição explora influência africana na obra de Picasso

MAS MESMO ESTA EXPOSIÇÃO[na África do Sul], COMPARANDO CADA OBRA DE PICASSO COM AQUELA AFRICANA QUE INFLUENCIOU, E DA, TALVEZ, UMA PÁLIDA IDEIA DO QUE SIGNIFICOU A ARTE AFRICANA PARA A ARTE MODERNA OCIDENTAL. O ARTIGO LINCADO ABAIXO PROCURA DEMONSTRAR UMA GAMA DE LEITURAS. MOSTRA AS DIFERENÇAS DE VISÃO. MOSTRA AS INFLUÊNCIAS ESTÉTICAS, FORMAIS, EVIDENTES EM MUITOS PINTORES E ESCULTORES. MAS VAI TERMINAR MOSTRANDO QUE, PARA OS COMTEMPORÂNEOS, DEPOIS DA DÉCADA DE 60, A ARTE AFRICANA, MAIS QUE INFLUÊNCIAS QUE TEVE É, ANTES DE MAIS NADA, PRECURSORA DA ARTE A SER FEITA.
PARA MIM, SEMI-ANALFABETO EM ARTE É UM ARTIGO QUE ABRE MUITAS PERSPECTIVAS DE ESTUDO. E ESTE ARTIGO DE José D’Assunção Barros contém várias ilustrações, comparativas, interessantes.
VÃO, ABAIXO, O LINK E ALGUMAS CITAÇÕES, com títulos colocados por mim.

AS INFLUÊNCIAS DA ARTE AFRICANA
NA ARTE MODERNA
José D’Assunção Barros

“quando o encontro dos artistas europeus com diversas
alteridades artísticas permitiu uma completa recriação da arte europeia
e de suas possibilidades técnicas.” p. 01

MATISSE
“correntes da arte moderna a se interessar diretamente pela possibilidade
de aprender com as manifestações artísticas africanas foi a dos fauvistas,
sobretudo a partir de Henri Matisse”.p.02

“A escultura
matissiana é especialmente inspirada na estatuária africana – particularmente a partir de algumas peças que o artista francês adquirira em
1906 – e revela-se aí um dos gêneros através dos quais as diversas formas de expressão africanas puderam penetrar mais decisivamente na
arte moderna.”p.02

HÁ UMA GAMA IMENSA DE INFLUÊNCIAS:
“felizmente, os artistas ocidentais foram,
com alguma liberdade decifrando os artefatos africanos por camadas,
captando-lhes as dimensões que cada época permitia: a expressão, a
intensidade, a forma, a interatividade.”.p.41

BRANCUSI CRIA ESCULTURAS INÉDITAS, MAS A PARTIR DA ARTE AFRICANA:
“Foi assim que Brancusi (1856-1957), um dos principais escultores de tendência cubista, pôde apropriar-se das talhas em madeira da
África (mas também da Oceania), para idealizar e concretizar um tipo
de escultura inédito na civilização europeia”.p.43Outras escolhas foram as de Modigliani, que foi imediatamente

Memória e Altar: coleção Rogério Cerqueira LeiteMODIGLIANI, PINTURAS E ESCULTURAS CALCADAS NAS INFLUÊNCIAS AFRICANAS:
“atraído pelas esculturas e estatuetas de rostos alongados – e ele mesmo
produziu, a partir de 1908, esculturas próximas de alguns estilos africanos. Basta citar uma conhecida Cabeça de 1913, hoje na Galeria Tate
em Londres”.p.43

PICASSO, PINTURAS E ESCULTURAS, COM VÁRIAS LEITURAS DA ARTE AFRICANA. DAS MÁSCARAS E DAS ESCULTURAS.
“Em 1907, tendo como impactante marco o quadro Les Demoiselles
d’Avignon, Picasso começa a elaborar uma nova estética – logo denominada cubista, na sintonia com algumas pinturas que Braque já vinha
desenvolvendo. Essa nova estética fundamenta-se, grosso modo, na
destruição de harmonia clássica das figuras e na decomposição da realidade. Mas ela foi primordialmente inspirada nas máscaras rituais da
África, com as quais Picasso tivera contato naquele mesmo ano.”.p.44

MAIS DO QUE INFLUÊNCIAS. A PARTIR DE 1960, A ARTE AFRICANA VAI SER VISTA COMO PRECURSORA DA ARTE CONTEMPORÂNEA. OU MESMO ANTECIPADORA.
“Somente a partir da década de 1960, como veremos adiante, os
artistas ocidentais iriam dar-se conta de que a máscara poderia ser também um poderoso meio de integração com a natureza, com o ambiente e
com os misteriosos mecanismos instituidores de uma identidade mágico-religiosa. Mas, no princípio do século XX, a leitura ocidental das
máscaras africanas concentra-se nos aspectos estéticos, formais e expressivos – o que já foi certamente uma grande novidade para a época”.p.69

“A última dimensão a ser ressaltada para uma correta compreensão do que vem a ser a máscara ritualística – e esta será particularmente
importante para a segunda leitura da alteridade africana, que os artistas
ocidentais empreendem a partir dos anos 1960 – é a da coletividade”.p.70

“Assim, pode-se dizer que – mesmo quando pretende invocar com
intenso realismo o rosto humano – o artista africano libera-o daquelas
particularidades individuais que fariam dele algo como um retrato à
maneira ocidental, e, com isso, logra-se alcançar um máximo de intensidade expressiva generalizada. Os traços pessoais de um rosto são deliberadamente abolidos ou transfigurados, e a estrutura fundamental do
rosto, embora sugerindo em algumas situações um intenso realismo, é
obtida de maneira inusitada por uma bem calculada disposição dos volumes e das formas geométricas, em um vivo contraste que constitui a
sua trama fisionômica essencial. Com isto, a multiplicidade de formas
produzida pelas máscaras africanas – e também pelas esculturas dos
mesmos povos – parece recriar o próprio gênero humano transferindolhe imprevisíveis possibilidades formais e expressivas.”.p.71

“Não obstante essa imensa variedade de formas, a arte negra –
escultura ou máscara – apresenta uma direção estética bem definida:
ela é, sobretudo, uma arte de expressão que parte de dentro do humano
para fora, e que, portanto, se mostra como pura “invenção”, ao invés de
se configurar na reprodução ou na imitação da natureza, que está na
origem da escultura ocidental.”.p.71

“Quando examinamos algumas das máscaras e das esculturas negras, pertencentes às diversas culturas do continente africano, não podemos deixar de admirar a inventividade, a sofisticação e as audácias
que unem, criativamente, representação e abstração, através desses artefatos.”.p.71

John Golding, Cubism – A History of Analysis (1907-1914), Boston: Boston Book and Art
Shop, 1968, p.27:
Analisa neste livro que o que une Picasso e a arte africana é exatamente o intelectualismo. A capacidade de abstração.”Aqui, as ideias sobre certo tema é que
seriam a verdadeira chave para a elaboração dos objetos artísticos, permitindo, de um lado, a possibilidade de estilizar e reconstruir livremente a imagem de um homem, de um animal ou de qualquer outro objeto
presente na natureza, e, de outro, abrindo-se também oportunidades para
o exercício mental de uma simbolização através dessas imagens. Essa
dimensão conceitual é que estaria na base de uma ligação da arte negra
com obras como as Demoiselles e outras já francamente cubistas.”p.78

Outras analisam esta intersecção mais pelo conteúdo do que pela forma, mostrando o interesse de Picasso pelo sentido mágico.” William Rubin, um
pouco nessa direção, desenvolve a ideia de que Picasso teria sido atra-
ído pelas máscaras negras em virtude de seu significado mágico.p. 78

“É oportuno ressaltar que – à mesma época em que se desenvolvia
a assimilação das então chamadas “culturas primitivas” pelos cubistas,
fauvistas e outros campos estéticos – os músicos ocidentais também
abriam uma corrente estética que se empenhava em trabalhar com ritmos que eram percebidos como primitivos, pelos europeus, e com dan-
ças ritualísticas, fossem da África ou da América Latina. Alguns dos
exemplos mais notórios desse “primitivismo musical” – uma designa-
ção que frequentemente era evocada pelos músicos ocidentais – podem
ser encontrados na célebre Sagração da Primavera, de Stravinsky
(1913)
, ou no Allegro Bárbaro de Bela Bartók (1911). Essas obras despertaram o mesmo escândalo que algumas das pinturas cubistas, sobretudo o ballet Sagração da Primavera, que tematiza um mundo de sacrifícios pagãos e de ritmos selvagens. Dessa maneira, pode-se concluir
que a assimilação da “alteridade primitiva” foi um fenômeno amplo,
que abarcou as diversas modalidades de expressão artística e que corresponde de algum modo a uma tendência cultural mais ampla.p.”89

No mundo da arte ambiental e interativa do final dos anos 1960,
da superação dos limites tradicionais dos gêneros artísticos em direção
a um campo cada vez mais expandido, da arte pós-moderna ou da
ambiental participante, os artistas ocidentais passavam a se fascinar com
a possibilidade de encontrar uma equivalência entre “a sua atitude, o
seu trabalho, e a atitude e o trabalho do artista negro ou caduceu, nos
seus respectivos contextos sociais”.

” Os artistas ocidentais dos anos
60, preocupados com questões como a de vencer o isolamento do artista
em relação à sociedade, de alcançar o coletivo ou mesmo o mítico, subitamente se encantavam mais uma vez com a arte negra, que, no seu
contexto cultural e natural, alcançava precisamente isto.”p.92

“Esses artistas ocidentais finalmente percebiam que haviam sido
precedidos em suas atuais preocupações pelos artistas negros e de outras sociedades por eles consideradas como primitivas – estas que, como
eles, davam forma à vontade de modificar a ordem natural, de alterar de
maneira ativa e dinâmica, o ambiente em que estavam mergulhados.”p.92

OS ARTISTAS MODERNOS VÃO NOTAR QUE A ARTE NEGRA E OUTRAS CHAMADAS PRIMITIVAS, MAIS QUE INFLUÊNCIA, SÃO ARTES PRECURSORAS.
“É um mundo em que a
pintura salta para o universo escultórico, ou em que a escultura se torna
penetrável ou interferida pelo receptor de arte – interpenetrando-se, assim, de teatro e de vida – que permite que os artistas ocidentais aprendam, mais uma vez, com a alteridade africana que não conhecia obviamente estas limitações artísticas. O mundo que permite uma quarta
releitura da arte africana é o da arte ocidental, que se aventura para o
campo expandido.
Memória e Altar: coleção Rogério Cerqueira LeiteUm exemplo brasileiro pode ser dado com o Parangolé de Hélio
Oiticica, objetos artísticos que sintonizam com o conceito expandido
de máscara, que traziam os africanos desde as suas origens. O Parangolé
não é para ser contemplado como objeto imobilizado em museu: é para
envolver quem usufrui da arte, para ser vestido, para se oferecer à possibilidade das progressões espaciais e da dança. É um objeto integrador,
que cria conexões com a sociedade, com a natureza e com o mundo”

NÃO É CITADO NOS TEXTOS, mas o que poderíamos chamar da diluição das artes, nos materiais de cultura popular, não deixa de ter, para mim, um vivo interesse.

. Seria interessante fazer um levantamento das influências da arte africana na chamada cultura POP. É quase evidente ver as chamadas distorções, alongamentos, afilamentos, economia de traços, expansões da imagem… uma gama de recursos para aumentar a expressividade. Os quadrinhos, as capas dos antigos LPs, as ilustrações de livros, etc.

OUTROS PINTORES E ESCULTORES NÃO CITADOS NOS TEXTOS,

mas que numa sumária olhada vê-se a influência marcante ou dominante da arte africana, ou no que ela tem de cerebral, ou no que tem de psicológico e de conteúdo, como analisou o artigo de José D’Assunção Barros

E O CINEMA?

O Site  A Matéria do Tempo posto o documentário de Alain Resnais, Les Statues meurent aussi[As Estátuas também Morrem], um libelo anticolonial que usa as máscaras e esculturas africanas como apoio para esta denuncia políica. Outro site, Cine-engodo, comenta tal documentário. Foi postado em francês, legendado em Inglês.
O site A Matéria do Tempo ainda trouxe um link da Sociedade de Geografia de Lisboa, cujo site traz vários links para museus etnográficos.

NA FOTOGRAFIA.

De Man Ray, um dos precursores do surrealismo na fotografia, segundo o livro Man Ray, da editora Taschen.
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LINK 01 – AS INFLUÊNCIAS DA ARTE AFRICANA NA ARTE MODERNA, DeJosé D’Assunção Barros
LINK 02 – LINKS APARA ALGUNS TEXTOS SOBRE ARTE AFRICANA