Um artigo do jornal Beijo da Rua.

26/09/2012

 Secretaria de Direitos das Mulheres, que não quer saber de prostituição

estigma, a discriminação e a desvalorização da prostituição, apontando o feminismo, o machismo e a religião entre os responsáveis por isso

“Chegamos à conclusão de que estamos confinadas na saúde, outra vez associadas a doenças, como no século XIX”

Gabriela encerrou sua intervenção reafirmando que “não dá para trabalhar Aids sem considerar direitos humanos, sem considerar o que o Senado e a Câmara estão discutindo sobre nós, ou sem discutir saúde da mulher. Não queremos consultórios na rua, mas promoção do acesso ao SUS, como qualquer outra pessoa. Chega de ser tratada como um caso à parte”.

“estigma, a discriminação e a desvalorização da prostituição”, apontando o feminismo, o machismo e a religião entre os responsáveis por isso. “Há movimentos feministas que fazem o discurso de que o trabalho sexual é resultado da opressão dos homens e que, portanto, somos vítimas, metendo isso na cabeça de muitas colegas. Ao mesmo tempo, nos invisibilizam nos informes de feminicídio, resultado do machismo que mata e produz a violência de gênero, esquecendo que também somos mulheres. E tem a questão da religião, de que não vamos entrar no reino dos céus”.

Ela ressaltou ainda que a pesquisa busca demonstrar “o que o Estado brasileiro está pensando sobre nós”. Deu como exemplo a Secretaria de Direitos das Mulheres, “que não quer saber de prostituição com o argumento de que não há unanimidade no discurso do movimento e por conta das criancinhas que sofrem exploração sexual”. O que se pretende, disse Gabriela, “é fazer um discurso político, para o qual a academia é fundamental, ao desvendar uma série de questões”. E concluiu: “O Estado brasileiro tem que ser criticado, sim, pelo movimento social. Muitas vezes ele se pensa o próprio movimento social. O diálogo está suspenso, mas não parado. Se esta mesa valer para isso, terá sido ótimo. Vamos continuar o diálogo”.

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Políticas de prevenção para prostitutas desconsideram direitos e cidadania

Movimento social propõe ao Estado retomar diálogo e ações históricas

Flavio Lenz

31/8/2012

Discriminação, estigma, vitimização, criminalização e outras violações de direitos humanos, como violência, são os maiores causadores das vulnerabilidades de prostitutas e demais profissionais do sexo. No entanto, essas questões deixaram de ser consideradas até mesmo em políticas de prevenção de DST e Aids, as únicas voltadas para a prostituição.

Esta foi a principal conclusão da Conversa Afiada “Prostituição, direitos e enfrentamento de vulnerabilidades no contexto da América Latina”, nesta quinta-feira, durante o macro-evento brasileiro, latino-americano e caribenho sobre HIV/Aids que se realiza no Anhembi, em São Paulo (http://sistemas.aids.gov.br/congressoprevencao/2012/).

Para Gabriela Leite, fundadora da Rede Brasileira de Prostitutas, da ONG Davida e da grife Daspu, a saúde pública voltou a ver a prostituta “apenas como um corpo, e da cintura para baixo”. Ela lembrou que movimento social e o setor de Aids do governo federal começaram a discutir, conceber e executar políticas de prevenção para prostitutas no fim dos anos 1980, e destacou a campanha Sem Vergonha, garota. Você tem profissão, de 2002, que “tratava diretamente de questões de direitos humanos”. Com o tempo, porém, até “a reprodução desses folhetos sumiu do site da Aids”, demonstrando, para Gabriela, que é preciso uma “renovação do diálogo” entre o movimento de prostitutas e o atual Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais.

“Chegamos à conclusão de que estamos confinadas na saúde, outra vez associadas a doenças, como no século XIX – tem também a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), mas é só isso. Não estamos na Secretaria de Direitos Humanos, na de Políticas para Mulheres, no Ministério da Cultura, e a justificativa é sempre que já estamos na Aids”, disse Gabriela. “Por isso, as organizações da Rede Brasileira decidiram levar essa discussão para a sociedade e não mais se candidatar a editais nacionais de Aids, enquanto não renovarmos o diálogo. Nunca houve, por exemplo, uma análise da metodologia de educação pelos pares, que vem desde 1989”.

Gabriela encerrou sua intervenção reafirmando que “não dá para trabalhar Aids sem considerar direitos humanos, sem considerar o que o Senado e a Câmara estão discutindo sobre nós, ou sem discutir saúde da mulher. Não queremos consultórios na rua, mas promoção do acesso ao SUS, como qualquer outra pessoa. Chega de ser tratada como um caso à parte”.

A pesquisadora Ilana Mountian, da USP, que desenvolve estudos sobre travestis e transexuais que trabalham na prostituição, no Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT da UFMG, em Belo Horizonte, destacou a transfobia entre as vulnerabilidades desse segmento. “Vivem questões como a violênca transfóbica e um relacionamento muito complexo com a polícia, e têm que fazer acordos para viver nas comunidades”. Outra vulnerabilidade é o uso do crack “por algumas delas”. Com relação a preservativos, disse que recebem das donas de casa e não vão aos postos de saúde para isso.

Ilana ressaltou ainda a importância de parcerias entre movimento social e academia, afirmando que há “pouca pesquisa sobre a população de travestis e transexuais prostitutas”.

Representante na América Latina da Rede Mundial do Trabalho Sexual (NSWP), a peruana Angela Villón denunciou o “estigma, a discriminação e a desvalorização da prostituição”, apontando o feminismo, o machismo e a religião entre os responsáveis por isso. “Há movimentos feministas que fazem o discurso de que o trabalho sexual é resultado da opressão dos homens e que, portanto, somos vítimas, metendo isso na cabeça de muitas colegas. Ao mesmo tempo, nos invisibilizam nos informes de feminicídio, resultado do machismo que mata e produz a violência de gênero, esquecendo que também somos mulheres. E tem a questão da religião, de que não vamos entrar no reino dos céus”.

Também dirigente da associação Miluska Vida Y Dignidad, sediada em Lima, Angela destacou ainda a confusão promovida entre tráfico de pessoas e prostituição e indicou o que considera a maior vulnerabilidade das prostitutas: “O grande problema é a violência, mas não do cliente, e sim da polícia, ou de delinquentes que se fazem passar por clientes. Com a violência não podemos fazer prevenção de DST e Aids. Temos que enfrentar antes de tudo a violência”.

Estudo aponta confinamento de políticas

Resultados preliminares da “Análise do contexto da prostituição em relação a direitos humanos, trabalho, cultura e saúde em cidades brasileiras”, apoiada pela Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais e realizada por Abia em parceria com Davida, foram apresentados pela pesquisadora Laura Murray. A primeira fase do estudo foi de levantamento de políticas nacionais e internacionais sobre direitos humanos, HIV/Aids e prostituição, ao lado de um histórico sobre como o Estado tratou esses temas. Isso tudo foi feito por meio da pesquisa de documentos, políticas e projetos de leis, da análise de PAMS e de entrevistas com 47 gestores e técnicos do Executivo federal, representantes de agências internacionais, consultores legislativos, senadores e deputados.

Em relação à saúde, Laura relacionou cinco achados. “Quando se trata da prostituição, saúde é igual a HIV/AIDS, não havendo políticas nacionais de saúde das prostitutas que não sejam dirigidas à prevenção do HIV. Mesmo nesse campo, a análise dos PAMS estaduais e municipais apontou poucas ações para essa população – em menos da metade dos municípios habilitados para receber dinheiro dos PAMS; e, durante a vigência do Plano de Enfrentamento da Feminização da Aids, de 2007 a 2009, um volume de ações nos PAMS estaduais e municipais de apenas 4,1%.”.

O terceiro achado é o de que, embora estudos mais recentes indiquem redução da prevalência do HIV entre prostitutas, a diferença entre a prevalência em prostitutas e mulheres da população geral não se alterou significativamente, mantendo-se 10 vezes maior nas primeiras. Outro achado da primeira fase do estudo aponta que as políticas de HIV/Aids para prostitutas se dão de forma isolada em relação aos outros departamentos do Ministério da Saúde, assim como a outros setores do governo, embora a interssetoralidade seja uma demanda das prostitutas já reconhecida em consultas latino-americana e brasileira e na Agenda Afirmativa das Prostitutas no Plano de Enfrentamento da Feminização.

Ainda na saúde, a integrante da equipe da pesquisa disse que houve um efeito paradoxal no período em que o setor federal de Aids assumiu um posição clara de defesa dos direitos das prostitutas. “Por um lado, foi sem dúvida positivo; mas, por outro, teve o efeito colateral perverso de fazer com que os demais setores do Executivo não tratassem diretamente do tema, pois cristalizou-se a ideia de que prostituição é um assunto da Aids”. Laura Murray não deixou de citar a inclusão da categoria “profissionais do sexo” na CBO, do Ministério do Trabalho, mas destacou que não se identifica, atualmente, nenhuma ação ou intenção de ação relacionada à promoção da profissão nessa pasta.

Já os achados sobre direitos são, até aqui, os seguintes: predomina silêncio em relação a ações de promoção de cidadania e direitos das prostitutas em quase todos os setores de governo, prevalecendo a disseminação e absorção mais rápida de parâmetros de criminalização e vitimização, evidenciados na atuação concentrada nos campos do enfrentamento ao tráfico de pessoas e da exploração sexual de crianças e adolescentes. E isso ocorre “ao mesmo tempo em que normas e diretrizes internacionais construídas na intersecção entre saúde e direitos humanos preconizam claramente a descriminalização do HIV e da prostituição”.

Nesse contexto, finalizou a representante da equipe do estudo, “as políticas relacionadas aos direitos das prostitutas estão soterradas por essas outras linhas de ação do Estado, muitas vezes parecendo produzir, em vez de reduzir, vulnerabilidades à violência e ao HIV/Aids”.

Debate

Aberto pela moderadora Elisiane Pasini, do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, o debate afiou ainda mais a Conversa. Gestoras de Aids em municípios dos estados do Rio e Espírito Santo defenderam os “consultórios na rua” para prostitutas, estratégia que vem sendo alvo de acalorado debate dentro do próprio governo. Segundo elas, o sistema incentiva as mulheres a frequentarem os centros de testagem e aconselhamento (CTAs). Já a consultora Lilia Rossi quis saber se havia alguma recomendação do estudo apresentado a partir da constatação de que a atuação do setor federal de Aids inibiu outros segmentos do governo em relação à prostituição.

Gabriela Leite voltou a questionar a vitimização e a associação de prostituição com doenças, especialmente as que têm origem “da cintura para baixo”, diante das intervenções das gestoras. “Não é o sistema de saúde em geral que vocês querem que as prostituas frequentem; são os CTAs. Por que não põem esses consultórios na rua para as mulheres donas de casa? Será que elas vão aos CTAs? Acabamos de apontar uma série de vulnerabilidades da prostituição, como viver em ambientes de trabalho sem respeito aos direitos humanos, sem vasos sanitários. Isso é vulnerabilidade. Não é ser puta. Falamos, falamos e parece que ninguém ouve”.

Ela ressaltou ainda que a pesquisa busca demonstrar “o que o Estado brasileiro está pensando sobre nós”. Deu como exemplo a Secretaria de Direitos das Mulheres, “que não quer saber de prostituição com o argumento de que não há unanimidade no discurso do movimento e por conta das criancinhas que sofrem exploração sexual”. O que se pretende, disse Gabriela, “é fazer um discurso político, para o qual a academia é fundamental, ao desvendar uma série de questões”. E concluiu: “O Estado brasileiro tem que ser criticado, sim, pelo movimento social. Muitas vezes ele se pensa o próprio movimento social. O diálogo está suspenso, mas não parado. Se esta mesa valer para isso, terá sido ótimo. Vamos continuar o diálogo”.

Um incentivo a esse diálogo, de acordo com Laura Murray, pode já ter acontecido por meio das entrevistas promovidas pelo estudo em Brasília. “Notamos um certo silêncio, mas não falta de interesse. Uma discussão interessetorial pode ter sido provocada”. Ela adiantou que uma das recomendações do estudo será a de tratar do tema indústria do sexo, “que está silenciado”. E emendou: “A resposta brasileira à Aids sempre considerou cidadania e direitos como fundamentais. Agora é preciso provocar o debate de novo. E não é tão difícil. Além de dizer que o preservativo é fundamental, também é preciso dizer que a descriminalização é fundamental, ver isso como um discurso de prevenção. Serviço de saúde não é apenas a saúde do corpo”.

O apagamento da questão dos direitos em políticas ligadas à prostituição “é ainda mais estrutural e não pode ser desvinculado do soterramento dos direitos humanos na Aids, em geral”, alertou Sonia Correia, da Abia. Ela lembrou que o governo apresentou recentemente a sua revisão periódica universal para o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas e não incluiu o HIV. “Portanto, para o governo, HIV não é uma questão de direitos humanos”.

Socióloga do Programa de Aids do Estado de São Paulo, Nina Laurindo elogiou a Conversa Afiada, por “reviver debates que havia na década de 1990 e que pareciam ter acabado”. E resumiu assim esse período: “Houve um retrocesso, os companheiros da Aids estão todos muito pautados em camisinha e teste, e não em direitos, violência, cidadania. Todos os projetos se denominam de ‘prevenção de DST/Aids e direitos das prostitutas’, mas não há essa discussão de fato”.

A moderadora Elisiane Pasini, do Departamento de Aids, encerrou a Conversa Afiada: “Precisamos avançar, ouvindo todas as vozes. Essa mesa foi feita com a intenção de que a gente possa trazer essa discussão novamente e acreditar nesses direitos humanos que estamos construindo”.

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01. Puta, Newton
Peron

02. A Puta, Carlos Drummond de Andrade
03. Me Gustán las Muchachas Putanas
04. Ana de Amsterdam, uma prostituta triste e arrependida


JORNAL DO PORÃO N. 4, 10 de dezembro de 2009

04/05/2012

O povo carioca perdeu hontem com a morte de Noel Rosa, um dos interpretes mais perfeitos da sua poesia.
Poeta instinctivo, observador profundo da vida das populações pauperrimas da cidade, Noel Rosa, compreendeu, logo no inicio de sua vida de homem a necessidade que havia de realçar-se a lidima poesia popular da terra, a despeito de toda a miseria que assoberbava o modo de viver das populações dos bairros mais afastados da cidade.”
http://musicabrasileira.org/noelrosa/ veja matérias neste endereço.
“Diário Carioca, 6 de maio de 1937

NOEL ROSA MORREU A 4 DE MAIO DE 1937 e morre todos os dias nas mãos dos nossos políticos.
Esta é a página mais lida do Jornal do Porão. Quando lançada, em 10 de dezembro de 2009, teve 119 leitores. Suponho, felizmente, que foi devido a Noel Rosa. Infelizmente a pracita continua lá com seu nome e ninguém mais se lembrou de protestar e dar um nome a uma grande praça, onde vá muita gente, tipo a praça da paz em Campinas, ao lado do parque Portugal (ou lagoa do taquaral, como é conhecido). Ali bem que podia chamar Praça Noel Rosa. Lembrei-me disso, quando vi a Praça da Paz lotada para ouvir Paulinho da Viola e, em outros shows, lotados para ouvir músicos brasileiros.

Mas o mais apropriado é que tivesse um grande centro cultural, de cultura popular, com o nome deste grande compositor. Por exemplo, a tal “estação cultura”.

E para terminar esta introdução desta reedição, no dia do aniversário de morte de Grande Compositor Noel Rosa, fica aqui a lembrança de uma dívida que tenho, escrever neste jornal um protesto pelo nome de TIM MAIA que foi dado a uma outra pracinha, tão minúscula que nem caberia TIM MAIA deitado numa rede. Parece que nossos políticos se lembram dos nossos ídolos populares para humilhá-los!

14 de setembro de 2009

PRAÇA NOEL ROSA PRAÇA DOS TRABALHADORES PRAÇA CHICO MENDES

 

Praça Noel Rosa

1 . NOEL ROSA foi um gênio da música popular brasileira. Talvez o primeiro gênio da música brasileira realmente popular. O samba de Donga, “Pelo Telefone”,[clique para Donga e Chico Buarque de Hollanda] dito o primeiro samba, já era de protesto; mas foi Noel Rosa a praticar o samba de protesto sistematicamente e, sempre, com humor. Humor mesmo no testamento que foi “O Último desejo”, onde a despedida da vida, a dor de cotovelo, era mero pretexto para o humor. Noel Rosa foi cronista do rio de janeiro, em “Com que Roupa”,[clique aqui para ouvir na voz de Noel] glosando o português aproveitador ; ou no carnaval, protestando, bem humoradamente, que o guarda noturno não recebia seu salário, em “O orvalho vem caindo”.[transcrevo as letras no pé da página – pena que sem som]. Noel Rosa foi o precursor de quase tudo que aconteceu na música popular brasileira. Na maneira de escrever versos não pomposos; ou na maneira cantar, pois seus dois intérpretes preferidos eram Mário Reis e Aracy de Almeida que cantavam quase falando (já que a nova técnica de gravações elétricas permitia que se cantasse sem o tal dó de peito). Noel Rosa, depois de esquecido e massacrado pelos boleros, sambas canções e música sertaneja das décadas de 40, 50 e 60, ressurgirá na Bossa Nova e impregnará toda a música popular brasileira da década de 70. E sua alegria não foi superada. E sua crítica bem humorada também é insuperável.

Acho que foi o tal inimigo cantado no “ O Último desejo” que deu no nome de Noel Rosa para esta rotatoriazinha, para este balãozinho no Castelo, perto da Telefônica [veja as fotos].

Praça Chico Mendes

2. CHICO MENDES

[clique para ver 65 anos de Chico Mendes] e

[clique para reportagem sobre Xapuri]

[clique aqui para vídeo herança de Chico Mendes]

[CLIQUE AQUI Jornal Inglês The Guardian – 20 anos da morte de Chico Mendes – Herói de todos os povos]

[clique aqui fotos de Chico Mendes e música de Los Porangas]

[clique aqui para vários vídeos sobre chico Mendes ]

[clique para longo documentário da TV Câmara – Cartas da Floresta – 20 anos da morte de Chico Mendes]

[Michael Jackson EARTH SONG]

parece que vai voltar à moda na próxima campanha eleitoral. Noel com certeza não, neste caso, felizmente. Já pensou os políticos usando o samba de Noel para ganhar voto? Mas Chico Mendes vai voltar. A Marina Silva em cujo período ministerial foi o momento em que mais se destruiu a floresta amazônica[clique e veja reprtagem do The Guardian] deve montar sua campanha em cima da história que compartilhou com Chico Mendes lá nos idos de 70/80. E foi a defesa da floresta que consagrou e levou Chico Mendes à morte. E é a destruição da floresta amazônica que marca a trajetória atual de infeliz ex-ministra do Meio Ambiente e colega de partido do filho de Sarney, do desenfeliz Zequinha Sarney, que também foi ministro do meio ambiente e em cujo período no ministério a devastação da Amazônia continuou na mesma batida.

Mas nossos heróis, ignorados pelo povo, servem para estes políticos cretinos fazerem campanha… ou…

dar nome a uma pracinha insignificante na periferia da nossa cidade. E foi no governo de Jocó Bittar que esta pracinha, um depósito de lixo, sofá velhos, resíduos vários, ganhou o nome de Chico Mendes. E hoje, nem mais ostenta (ou avacalhava) o nome de Chico Mendes. Melhor assim. Melhor não ter praça nenhuma com seu nome do que isso aí.

Praça dos Trabalhadores

3. PRAÇA DOS TRABALHADORES. Parece que campinas é um pólo industrial. Trabalhador é o que não falta por aqui. E já tivemos para governos municipais que fazem campanha eleitoral falando de trabalhadores. Tivemos inclusive dois prefeitos eleitos pelo Partido dos Trabalhadores e temos agora o prefeito do Partido Democrático Trabalhista, cujo vice é do Partido dos Trabalhadores.

E temos em campinas a PRAÇA DOS TRABALHADORES que também é PRAÇA DO TRABALHADOR, um nome mais de acordo, pois nesta praça não deve caber muito deles juntos. Um comício de partido nem se fala. A Praça dos Trabalhadores, na verdade, é uma ponte da Barão de Itapura sobre a Delfino Cintra.

Estas três historinhas reais demonstram que nossos dirigentes tratam nossos heróis. Estas pracinhas (essas fotos) falam tudo sobre o caráter destes políticos que dirigem e dirigiram nossa cidade. Não precisava mais do que estas fotos para sabermos quem são estes políticos que falam em trabalhadores, em cultura ou em liberdade.

Toda manhã eu passo na Praça Noel Rosa e sempre exclamo a mesma frase: estes políticos são uns canalhas. Quando passo na ex-Praça Chico Mendes, lá pertinho de casa, exclamo, estes políticos são uns oportunistas safados. Quando passo , e há mais de 20 anos me enfureço passando por lá ; e durante 10 anos que trabalhei na Andrade Neves, no Projeto Rondon, passei pela Praça dos Trabalhadores, todos os dias, às vezes duas vezes ao dia, dez anos seguidos.

Nunca consegui me conformar com o acinte, com o cinismo e pouco caso destes políticos que falam em nome dos trabalhadores, da cultura ou do progresso. O Discurso deles é lixo puro, mais lixo do que o que infesta a antiga Praça Chico Mendes. As eleições se aproximam e vamos ter que suportar uma quantidade de discurso/lixo e de sentimentalismo sobre os trabalhadores. Mas estas praças (e que praças!!!), demonstram ,concretamente , sem palavras, o quanto são vazios (ou cheios de….) os discursos e as cabeças dos políticos desses partidos.

A UNICAMP CASSA PAULO FREIRE, MAS PAULO VIVE!

Quando recebi a Moção da Congregação, votada por unanimidade, apoiando a mudança do nome do Rodovia Milton Tavares, respondi com o email abaixo. Dizendo que Zeferino Vaz, apesar de não ser um homem típico da Ditadura Militar, como este general, foi um testa de ferro de Ademar de Barros, apoiador de primeira hora do golpe de Estado de 1964. Isso porque não podemos esquecer que o golpe militar de 1964, foi um golpe civil militar. Os civis foram fundamentais para organizar o golpe. Foi Ademar de Barros, Lacerda e Magalhães Pinto os grandes organizadores deste golpe. E como falamos sempre em Ditadura Militar, esquecemos que os governadores civis foram os grandes organizadores e depois avalistas do golpe. E sonhava que a rodovia, num futuro menos covarde, chamaria RODOVIA PAULO FREIRE.

Mas parece que na Unicamp, nossos dirigentes, os chamados intelectuais não prezam muito a memória não. Ou fazem dela uma coisa de circunstância, mas ou menos manejável conforme os interesses do momento. Acabei de saber que a nossa Biblioteca Central, que homenageava o grande educador Paulo Freire mudou de nome. O novo nome seria Milton da Costa, grande matemático e lógico que, como parece, merece ter seu nome em qualquer espaço da Unicamp. Mas para que cassar novamente Paulo Freire? Porque pisar em Paulo Freire novamente como fizeram quando ele foi o mais votado e Maluf (o nefasto Maluf) escolheu Pinotti, o décimo quarto? Porque, por exemplo, não colocar o nome de Milton da Costa no prédio do Instituto de Matemática? Porque não deixam Paulo Freire em paz e com seu honrado nome, honrando nossa biblioteca central?

Tenho medo que daqui a pouco mudem o nome do Arquivo Edgar Leunroth, um anarquista da pesada, para um patrono qualquer… Ou que a biblioteca da Faculdade de Educação que homenageia o maravilhoso professor Maurício Tragtemberg, mude de nome, de uma hora para outra, sem mais nem menos… Mesmo porque o professor Maurício Tragtemberg não poupou os chamados intelectuais no seu conhecido texto “A Delinquência Acadêmica”; cujo o título quase dispensa texto. Porque Paulo Freire, Maurício Tragtemberg, Edgar Leurenroth não morreram e nem morrem, pois vão realmente educar as novas gerações, se tivermos algo que presta nas novas gerações.

Parece que políticos e burocratas querem matar as nossas mais caras lembranças!

Passou da hora. Que tal mudar o nome dos bairros 31 de março e Castelo Branco? E outros lixos. Boa iniciativa. Apenas preferia que esta Estrada chamasse Paulo Freire. Ele faz parte da história de um outra Unicamp. Paulo Freire foi o mais votado na primeira escolha para reitor depois da morte de Zeferino. No entanto foi escolhido o 14 colocado, o Dr. Pinotti, cuja dinastia manda na Unicamp desde então. Emais. Maluf, onefasto governador, neste período, impôs interventores na Universidade. Que foram rechaçados. Desta história que me reivindico. Viva Paulo Freire, oprimeiro Reitor de uma Unicamp que poderia ter sido, mas não foi. Viva Paulo Freire um educador. Equanto a Zeferino, apesar do áulico livro que saiu sobre ele, não esqueçamos, foi um pupilo de Ademar de Barros, aquele mesmo do “roubo, mas faço” e um dos primeiros governadores a apoiar o Golpe de Estado e mais: foi um dos articuladores junto com Magalhães Pinto , de Minas Gerais e Carlos Lacerta, ocorvo, governador da Guanabara do golpe militar, chamado de movimento por eles de movimento civil/militar.

Mário

Sent: Thursday, September 03, 2009 5:59 PM
Subject: MOÇÃO DA CONGREGAÇÃO DO IFCH

Prezados funcionários do CPD,

solicito que a msg abaixo seja enviada à lista de funcionários e deestudantes; atenciosamente,

caio toledo

Caros funcionários e estudantes do IFCH,

por sua relevância, informo que, ontem, por unanimidade, a Congregação do IFCH aprovou MOÇÃO que manifesta seu apoio ao projeto de lei que tramita na Assembléia Legislativa do estado de São Paulo que objetiva mudar o nome da Rodovia 332 próxima a Unicamp. Caso se transforme em lei, a Rodovia deixará de homenagear um “herói” da ditadura militar. O nome do general Milton Tavares de Souza conhecido pela odiosa alcunha de “Milton Caveirinha” deixará de estar nas placas ao longo da rodovia, sendo substituído pelo do PROFESSOR ZEFERINO VAZ.

Uma inestimável vitória no plano simbólico na luta pela eliminação dos extensos vestígios da ditadura militar ainda existentes em nossos logradouros públicos.

sds,

caio

Ifchfuncionariosl mailing list Ifchfuncionariosl@listas.unicamp.br https://www.listas.unicamp.br/mailman/listinfo/ifchfuncionariosl

Último Desejo

Composição: Noel Rosa [clique aqui para interpretação de Rildo Hora e Maysa]
[no filme sobre Noel Rosa] [Cristina Buarque – “Último desejo”, de Noel Rosa]
Nosso amor que eu não esqueço, e que teve
o seu começo
Numa festa de São João
Morre hoje sem foguete, sem retrato e sem bilhete,
sem luar, sem violão
Perto de você me calo, tudo penso e nada falo
Tenho medo de chorar
Nunca mais quero o seu beijo mas meu último desejo
você não pode negar
Se alguma pessoa amiga pedir que você
lhe diga
Se você me quer ou não, diga que você
me adora
Que você lamenta e chora a nossa separação
Às pessoas que eu detesto, diga sempre que eu não
presto
Que meu lar é o botequim, que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida que você pagou pra mim


Com Que Roupa?

Composição: Noel Rosa [clique para vídeo com voz de Noel Rosa]

Agora vou mudar minha conduta, eu vou pra luta
pois eu quero me aprumar
Vou tratar você com a força bru… .ta, pra poder me reabilitar
Pois esta vida não está sopa e eu pergunto: com que roupa?
Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?
Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?
Agora, eu não ando mais fagueiro, pois o dinheiro não
é fácil de ganhar.
Mesmo eu sendo um cabra trapacei…..ro, não consigo ter nem pra gastar.Eu já corri de vento em popa, mas agora com que roupa?
Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?
Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?
Eu hoje estou pulando como sapo, pra ver se escapo
desta praga de urubu.
Já estou coberto de farrapo, eu vou acabar
ficando nu.
Meu paletó virou estopa e eu nem sei mais com que roupa
Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?
Com que roupa que eu vou pro samba que você
me convidou?


(Carnaval de 1934)

Noel Rosa e Kid Pepe

O orvalho vem caindo
Vai molhar o meu chapéu
E também vão sumindo
As estrelas lá no céu
Tenho passado tão mal
A minha cama é uma folha de jornal
Meu cortinado é o vasto céu de anil
E o meu despertador
É o guardacivil
Que o salário ainda não viu
A minha terra dá banana e aipim
Meu trabalho é achar
Quem descasque por mim
Vivo triste mesmo assim
A minha sopa não tem osso nem tem sal
Se um dia passo bem,Dois e três passo mal
Isto é muito natural
O meu chapéu vai de mal para pior
E o meu terno pertenceu
A um defunto maior
Dez tostões no belchior

[clique aqui para vários vídeos com músicas de Noel Rosa]

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Trabalhadores do mundo inteiro, uni-vos!

06/12/2010

“Em 2006, de um contingente de 2,4 bilhões de trabalhadores com mais de 16 anos de idade, estima-se que 378,8 milhões são profissionais envolvidos diretamente com atividades terceirizadas.” […]O I Seminário Internacional SINDEEPRES – Terceirização Global promovido pelo SINDEEPRES aconteceu em 12 de fevereiro, no Intercontinental Hotel, em São Paulo. Além da apresentação do economista Marcio Pochmann, o evento teve ainda um painel com representantes dos setores trabalhistas e empresariais, sobre o rumo da terceirização no Brasil.”. VER

NA ARGENTINA, 2000(dois mil) terceirizados são incorporados como efetivos. A luta custou uma morte, de Mariano Ferreyra. E como. Assassinado pela burocaracia sindical governista. O mandante do crime aparece em fotos com o casal governante Kirchner. E os assassinos, hoje denunciados na justiça, são membros do sindicato dos ferroviários. Os métodos fascistas são comuns na burocracia sindical Argentina, como entre nós também.

Duas leituras que faço deste dois parágrafos. Diante de milhões de terceirizados, a incorporação de 2 mil é muito pouco, apenas um tênue começo. Diante da força da máquina capitalista que precariza milhões e milhões, onde os poderosos, incluisve na Unicamp, vêm terceirização como normal e, pior, como a maneira melhor de explorar e escravizar a mão-de-obra, a vitória dos trabalhadores de La Roca é simplesmente fenomenal. Auspiciosa. Antevê o futuro. Mostra que mesmo diante as mairoes dificuldades é possível vencer, mantendo a unidade e a luta.

E a terceira leitura e ver este vídido da TV PTS. Emoção. Unidade de Classe. Luta de Classe. Ódio aos exploradores e aos assassinos de Mariano Ferreyra. Pena que venceu só depois da morte. Mariano Ferreyra vive nas lutas dos trabalhadores terceirizados.http://www.youtube.com/watch?v=qf9hwNZzuxEE não podemos esquecer qualquer luta. A luta é nosso atestado de humanidade diante do capitalismo alienante. E queremos lembrar qualquer vitória, a menorzinha de todas, para afirmar nossa disposição de vencer. Nós queremos vencer a máquina trituradora capitalista, como co Canudenses, com foices, facões e espingardas tico-tico , tomaram canhões e as matadeiras, venceram 3 expedições do exército e quase venceram a 4. Como termina os Sertões, Euclydes da Cunha, Canudos não se rendeu. http://il.youtube.com/watch?v=upUtU8eWBq4&feature=relatedLembraremos sempre aqui, Mariano Ferreyra e La Roca, assim como a vitória da ocupação da Diretoria do Campus da Unesp, onde enfrentou também pelegos, professores stalinistas e a burocracia universitária e venceu. Impôs um restaurante universitário sem trabalhadores terceirizados. Contra todos os prognósticos sensatos. Contra toda a política do governo estadual e do governo federal, os estudantes da Unesp Marília impuseram um vitória contra a corrente. La Roca e Marília começaram um amizade indissolúvel.

Acompanhe esta história em:
LA VERDAD OBRERA [PTS Argentina]
LER-QI [Brasil]

Elogio de Mariano Ferreyra
José Pedraza e a gangue da Unión Ferroviaria: assassinos


Um relatório para a Academia, de LUIZ FELIPE PONDÉ

27/02/2010

LUIZ FELIPE PONDÉ

Um relatório para a Academia

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Cálculos para garantia do emprego ocupam o tempo da classe
acadêmica
——————————————————————–

CLÓVIS ROSSI pergunta em sua coluna do dia 8 de setembro, página

Pondé

A2,
se no Brasil vivemos algo como o que acontece na vida universitária
da Espanha hoje: desinteresse dos alunos e asfixia burocrática dos
professores. Sim, há semelhanças.
Nos anos 50, o filósofo norte-americano Russel Kirk descrevia um
fenômeno interessante nas universidades americanas.
A partir do momento em que a vida acadêmica se tornou objetivo da
“classe média”, gente sem posses, a vida universitária entrou em
agonia porque a proletarização dos acadêmicos se tornou inevitável.

Dar aula numa universidade passou a ter algum significado de
ascensão social. A partir de então o carreirismo necessariamente
assolaria a academia, assim como assola qualquer emprego.
Cálculos estratégicos para garantia do emprego passaram a ocupar o
tempo da classe acadêmica. E muita gente que vai dar aulas na
universidade não é tão brilhante assim ou tão interessada em
conhecimento.

O cálculo estratégico hoje passa pelo número de alunos que implica

Pondé

uma redução ou não de aulas e orientações de teses.
Ou mesmo nas públicas, onde você está mais protegido da
proletarização imediata, uma verba maior ou menor para seu projeto e
mais ou menos discípulos causarão impacto na renda final e na imagem
pública.

Daí o desenvolvimento em nós de um espírito selvagem: o
corporativismo em detrimento do ensino ou o ethos de gangues em meio
à retórica da qualidade.

Muitas pessoas (alunos e professores) buscam a universidade não para
“conhecer” o mundo, mas sim “para transformá-lo” ou ascender
socialmente.

E aqui, revolucionários (“criando o mundo que eles acham melhor”) e
burgueses (interessados em aprender informática para “melhorarem de
vida”) se dão as mãos.

Este pode ser mais individualista do que o outro, mas ambos fazem da
universidade uma tenda de utilidades.
Para mim não faz muita diferença, para a banalização da
universidade, se você quer formar gestores de negócios ou gestores
de favelas. Nenhum dos dois está interessado em “conhecer” o mundo,
mas sim “transformá-lo”.

ETHOS DE GANGUES

É claro que nos gestores de favelas o espírito selvagem pode
funcionar tão bem quanto entre os gestores de negócios. A obrigação
da universidade em produzir “conhecimento de impacto social” é tão
instrumental quanto produzir especialistas na última versão do
Windows.

Pondé

O utilitarismo quase sempre ama a mediocridade intelectual. Falemos
a verdade: a mediocridade funciona.
Ela gera lealdades, produz resultados em massa, convive bem com a
estatística, evita grandes ideias. Enfim, caminha bem entre pessoas
acuadas pela demanda de sobreviver.

A instrumentalização é quase sempre outro nome para utilitarismo.
I

sso não quer dizer que devamos excluir da universidade as almas que
querem ser gestores de negócios ou gestores de favelas -elas é que
excluem todo o resto.

Precisamos dos dois tipos de almas, e cá entre nós, acho que os
gestores de favelas são moralmente mais perigosos do que os gestores
de negócios. Como todos nós, ambos irão para o inferno, a diferença
é que os gestores de favelas acham que não.

E a asfixia burocrática? Ahhh, a asfixia burocrática! Esta contamina
tudo e em nome da democratização da produção e da produtividade da
produção.

A burocracia na universidade nasce, como toda burocracia, da
necessidade de organização, controle, avaliação.

Não é um sintoma externo a busca de aperfeiçoamento do sistema, é
parte intrínseca ao sistema. A pressão pela produtividade
proletariza tanto quanto a pressão pela carreira.

Soa absurdo, caro leitor? Quer mais?

Em nome da transparência da produção, atolamos esses indivíduos de
classe média na burocracia da transparência e do acesso à produção
universitária.

Enfim, a “produção” asfixia a universidade em nome de uma
“universidade mais produtiva, democrática e transparente em sua
produtividade”. Estamos sim falando da passagem da universidade a
banal categoria de indústria de conhecimento aplicado, e sob as
palmas bobas de quem quer “fazer o mundo melhor”. Tudo bem que
queira, mas reconheça sua participação na comédia.
Kafka, em seu conto “Um Relatório para a Academia”, já colocava um
ex-macaco, recém-homem, fazendo um relatório para os acadêmicos.
Ali ele já suspeitava que a academia continha algo de circo ou show
de variedades. Hoje sabemos que isto já aconteceu.

ponde.folha@uol.com.br
São Paulo, segunda-feira, 14 de setembro de 2009



CONCEITOS RETIRADOS DOS TEXTOS ABAIXO, CUJO TÍTULO E CONTEÚDO DO ORIGINAL SÃO MANTIDOS AO CLICAR NOS LINKS.

1. DELINQUÊNCIA ACADÊMICA, de Maurício Tragtemberg

2. BAGRINHOS, do texto de Alfredo Marques

3. HOMEM-DISPOSITIVO, do texto de Francisco Foot Hardman

4. FIM DA UNIVERSIDADE PÚBLICA, do texto de Marilena Chauí

5. ETHOS DE GANGUE, do texto de Luiz Felipe Pondé

6. MIKE BONGIORNO, do ensaio de Umberto Eco

7. CASTA DOS INTOCÁVEIS, da entrevista de Chico de Oliveira


FENOMENOLOGIA DE MIKE BONGIORNO, de Umberto Eco

21/02/2010

FENOMENOLOGIA DE MIKE BONGIORNO, de Umberto Eco

Mike Bongiorno

O homem rodeado pelas mass media é no fundo, entre todos os seus semelhantes, o mais respeitado: não se lhe pede nunca senão que se torne aquilo que já é. Por outras palavras, são-lhe provocados desejos segundo a pauta das suas tendências. Porém, uma vez que uma das compensações narcóticas a que tem direito é a evasão pelo sonho, são-lhe habitualmente apresentados ideais, entre os quais e ele próprio se possa estabelecer certa tensão. Para retirar dos últimos toda a responsabilidade, tomam-se providências de modo a fazer com que tais ideais sejam de fato inatingíveis, de forma a que a tensão se resolva numa projeção e não numa série de operações efetivas orientadas para modificar o estado de coisas dado. Em suma, pede-se ao indivíduo que se transforme num homem com frigorífico e um televisor de vinte e uma polegadas, e isto quer dizer que se lhe pede que continue a ser como é, acrescentando aos objetos que possui um frigorífico e um televisor; em compensação, a ele propõe-se como ideal Kirk Douglas ou Superman. O ideal do consumidor de mass media é um super-homem que ele nunca pretenderá tornar-se, mas que se deleita a encarnar de um modo fantástico, tal como se veste durante alguns minutos diante de um espelho uma roupa alheia, sem sequer se pensar em vir a possuí-la um dia.

A situação nova que se coloca a respeito da TV é esta: A TV não oferece, como ideal pra o ensimesmamento do indivíduo, o superman, mas sim o everyman. A TV representa como ideal o homem absolutamente médio. No teatro, Juliette Greco aparece no palco e cria subitamente um mito e funda um culto;

Josephine Baker desencadeia rituais idolátricos e dá nome a toda uma época. Na TV surge diversas vezes, repetidamente, o rosto mágico de Juliette Greco, mas o rito nem por isso nasce de modo idêntico; o ídolo não é ela, mas a locutora, e por entre as apresentadoras mais amadas e famosas estará exatamente aquele que melhor representa a média dos caracteres comuns: beleza modesta, sex-appeal limitado, gosto discutível, um certe inexpressividade doméstica.




Josephine Baker photo06

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

Ora, no campo dos fenômenos quantitativos, a média representa de fato um meio-termo e, para quem ainda não se uniformizou, representa igualmente uma meta. Se, de acordo com a conhecida boutade, a estatística é a ciência para a qual se diariamente um homem come dois frangos e o outro nenhum, os dois homens comeram um frango cada um – para o homem que não comeu, a meta de um frango por dia é algo de positivo a que ele poderá aspirar. Pelo contrário, no campo dos fenômenos qualitativos, o nivelamento pela média corresponde ao nivelamento pelo zero. Um homem que possua “todas” as virtudes morais e intelectuais em “grau médio”, acha-se imediatamente a um nível mínimo de evolução. A “mediana” aristotélica é equilíbrio no exercício das próprias paixões, dirigido pela virtude do discernimento da “prudência”. Enquanto, em contrapartida, alimentar um grau médio de paixões e ter uma prudência média significa ser um pobre exemplar de humanidade.

O caso mais vistoso de redução do superman ao everyman temo-lo, na Itália, na figura de Mike Bongiorno e na história do seu destino. Idolatrado por milhões de pessoas, este homem deve o seu êxito ao fato de, em todos os atos e todas as palavras da personagem a que ele dá vida perante as câmaras de televisão, transparecer uma mediocridade absoluta unida (sendo esta a única virtude que possui em grau excedente) a um fascínio imediato e espontâneo explicável por não estar rodeado da menor construção ou ficção cênica: quase parece que ele não quer passar senão pelo que é, sendo de molde a não colocar em situação de inferioridade espectador nenhum, nem mesmo o mais despossuído de todos. O espectador vê glorificado e condecorado oficialmente com uma autoridade nacional o retrato das suas próprias limitações.

Para compreendermos este extraordinário poder de Mike Bongiorno, poderá surgir-nos a idéia de proceder a uma análise dos seus comportamentos, a uma verdadeira “fenomenologia de Mike Bongiorno”, indicando-se, fique claro, por este nome não o homem, mas a personagem.

Mike Bongiorno não é particularmente belo, atlético, corajoso, inteligente. Representa, biologicamente falando, um grau modesto de adaptação ao ambiente. O amor histérico que lhe tributam as teen-agers deve-se em parte ao complexo maternal que ele é capaz de despertar numa mocinha, em parte à perspectiva futura que ele sugere, de um amante ideal, submisso e frágil, suave e cortês.

Mike Bongiorno não se envergonha de ser ignorante e não revela qualquer necessidade de se instruir. Entre em contato com as mais vertiginosas zonas do conhecimento e delas sai virgem e intato, confortando as naturais tendências para a apatia e preguiça mental dos outros. Cuida bastante para não impressionar o espectador, não só mostrando às escuras quanto aos acontecimentos circundantes, como, além disso, manifestando-se decididamente resolvido a não aprender coisa alguma.

Em compensação, Mike Bongiorno demonstra uma admiração sincera e primitiva pelos que sabem. Quanto a estes, o que destaca neles é, porém, as qualidades de aplicação manual, a memória, a metodologia óbvia e elementar: uma pessoa torna-se culta lendo muitos livros e fixando o que eles dizem. Não lhe passa, nem minimamente, a suspeita de qualquer função crítica e criativa da cultura. Tem dela um critério meramente quantitativo. Deste modo (acontecendo que é preciso, para se ser culto, terem-se lido durante muitos anos livros), é natural que o homem não predestinado renuncia a todas as tentativas culturais.

Mike Bongiorno professa um apreço e uma confiança ilimitados em relação ao especialista; um professor é um sábio; representa a cultura autorizada. É o técnico do ramo. É a ele que devemos perguntar as coisas, dada a sua competência.

A admiração pela cultura, entretanto, torna-se ainda maior, quando, na base dela, se pode ganhar dinheiro. Então é que se descobre que a cultura serve para alguma coisa. O homem medíocre recusa-se a aprender, mas propõe-se mandar estudar o filho.

Mike Bongiorno tem uma noção pequeno-burguesa do dinheiro e de seu valor (“Imaginem, já ganhou cem mil liras: é um belo dinheirinho!).

Mike Bongiorno antecipa assim, sobre o concorrente, as reflexões impiedosas que o espectador será levado a fazer. “Arre, como ele estará satisfeito com aquela grana toda, ele que sempre viveu com um salário tão modesto! Terá alguma vez tido tanto dinheiro nas mãos?”

Mike Bongiorno aceita todos os mitos da sociedade em suas categorias e trata-as com uma deferência cômica (a criança diz: “Desculpe, senhor guarda…”), mas usando sempre, entretanto, a qualificação vulgar e corrente, muitas vezes depreciativa: “senhor varredor, senhor camponês”.

Mike Bongiorno aceita todos os mitos da sociedade em que vive: beija a mão da senhora Balbiano d’ Aramengo e diz que o faz por se tratar de um condessa (sic).

Para além dos mitos, aceita também as convenções sociais. É paternal e condescendente com os humildes, deferente para com as pessoas socialmente qualificadas.

Ao entregar o dinheiro, parece instintivamente levado a pensar, sem o exprimir claramente, mais em termos de esmola que de ganho. Mostra a sua crença de que, na dialética das classes, a único meio de ascensão é o representado pela providência (podendo assumir ocasionalmente o rosto da Televisão).

Mike Bongiorno fala um basic Italian. O seu discurso realiza o máximo possível de simplicidade. Abole os conjuntivos, as proposições subordinadas, consegue tornar quase invisível a dimensão sintática. Evita os pronomes, repetindo sempre por extenso o sujeito, emprega um número imenso de pontos finais. Não se aventura nunca em intercalações ou formas parentéticas, não emprega expressões de elite, não faz alusões, utiliza apenas metáforas já integradas plenamente no léxico comum. A sua linguagem é rigorosamente referencial e faria a alegria de um neopositivista. Não é necessário fazer qualquer esforço para entendermos. Qualquer espectador observa que, se fosse esse o caso, poderia ser bem mais eloqüente do que ele.

Não aceita a idéia de que a uma pergunta possa corresponder mais do que uma resposta. Olha com desconfiança as variantes. Nabuco e Nabucodonosor não são a mesma coisa; reage frontalmente aos dados como um cérebro eletrônico, porque está firmemente convencido de que A é igual a A e que tertium non datur. Aristotélico por defeito, a sua pedagogia é, conseqüentemente, conservadora, paternalista, imobilista.

Mike Bongiorno é desprovido de sentido de humor. Ri por estar contente com a realidade, não por ser capaz de deformar a realidade. Escapa-lhe a natureza do paradoxo; quando se lhe apresenta um, repete-o com ar divertido e sacode a cabeça, subentendendo que o interlocutor é simpaticamente anormal; recusa-se a suspeitar de que por trás do paradoxo se esconda a verdade, precisamente como o não considera um veículo autorizado de opinião.

Evita a polêmica, mesmo com argumentos legítimos. Não deixa de informar-se acerca da estranheza do que se pode conhecer (uma nova corrente de pintura, uma disciplina abstrusa… “Diga-me uma coisa, hoje fala-se tanto de futurismo. Mas o que é ao certo esse futurismo?). Recebida a explicação, não tenta aprofundar o tema, mas deixa transparecer a sua bem-educada discordância de pessoa que pensa como deve ser. Respeita deste modo a opinião do outro, não por propósito ideológico, mas por desinteresse.

De Entre todas as perguntas possíveis sobre um tema escolhe a que primeiro viria à mente de qualquer um e que metade dos espectadores afastaria prontamente por ser demasiado banal: “O que é que o quadro pretende representar?”, “Como é que chegou a escolher um hobby tão diferente do seu trabalho?”; “Como lhe veio à cabeça ocupar-se de filosofia?”.
Leve os clichês até as últimas conseqüências. Uma moça educada com freiras é virtuosa, uma moça de meias de cor e rabo-de-cavalo é “queimada”. Pergunta à primeira, que é uma moça tal como deve ser, se gostaria de se tornar como a outra; se se lhe faz notar a comparação em tais termos é ofensiva, consola a segunda moça realçando a sua superioridade física e humilhando a educada das freiras. Neste vertiginoso jogo de gaffes não tenta ao menos empregar a perífrase: a perífrase é já uma agudeza, e as agudezas pertencem a um círculo intelectual a que Bongiorno é estranho. Para ele, como já se tinha dito, cada coisa em um nome e só um, o artifício retórico é uma sofisticação. No fundo, a gaffe nasce sempre de um ato de sinceridade não mascarada; quando a sinceridade é voluntária não há gaffe, mas desafio e provocação; a gaffe (em que Bongiorno se excede, segundo dizem os críticos e o público) nasce exatamente quando se é sincero por erro ou por desconsideração. Quando mais medíocre for, mais o medíocre se torna desajeitado. Mike Bongiorno reconforta os medíocres, elevando a gaffe à dignidade de figura de retórica, no quadro de uma etiqueta homologada pela entidade transmissora e pela nação auditora.

Mike Bongiorno regozija-se sinceramente com o vencedor porque honra o êxito. Cortesmente desinteressado em relação ao vencido, comove-se se este fica em situação difícil e torna-se promotor de uma disputa beneficente, finda a qual se mostra satisfeito e convence o público de que tudo vai bem; em seguida ocupa-se de outras coisas alentado pela sua crença de que é este o melhor dos mundos possíveis. Ignora a dimensão trágica da vida.

Mike Bongiorno convence, portanto, o público, como um exemplo vivo e triunfante, do valor da mediocridade. Não provoca complexos de inferioridade, embora se ofereça como ídolo, e o público recompensam-o, agradecido, amando-o. Representa um ideal que ninguém deve esforçar-se por atingir porque seja quem for se encontra, desde o início, já ao mesmo nível que ele. Nenhuma religião foi jamais tão indulgente para com os seus fiéis. Em Mike Bongiorno anula-se toda a tensão entre ser e dever ser. E ele diz aos seus adoradores: sois Deus, continuai imóveis.

Do “Diário Mínimo”, de Umberto Eco
Difel, 1985

MIKE BONGIORNO, tornando-se uma categoria analítica, um conceito. Acho que a nossa volta há muitos e muitos Mike Bongiorno(s), do que políticos e apresentadores de TV. O arrivismo, o puxa-saquismo fabricam Mike Bongiorno(s) aos magotes. Eles nos sufocam. E cuidemo-nos para não nos tornarmos um.

Abaixo citação de uma artigo do Estadão, onde analista usa a categoria, Mike Bongiorno, para analisar Berlusconi

“Se um homem de negócios, que em outro país ocidental com alguma tradição liberal-democrática se limitaria a construir palacetes em Milão, assume o controle absoluto dos meios de comunicação e domina a cena política por mais de 20 anos, chegando três vezes ao cargo de primeiro-ministro, como aconteceu com Berlusconi na Itália, o mínimo que nos cabe fazer é analisar o fenômeno e dele extrair o máximo de lições possível.” A proposta é de Pierfranco Pellizzetti, autor do recém-publicado Fenomenologia di Berlusconi (Manifestolibri), um exame da mutação cultural da sociedade italiana a partir da década passada, quando a “banal mediocridade” representada pelo ídolo televisivo Mike Bongiorno perdeu sua hegemonia para a “mediocridade lobisomem” representada por Berlusconi e empurrou a Itália para “um precipício humano, político e civil”.

“Pellizzetti trabalha com o mesmo instrumental analítico usado por Eco em sua Fenomenologia di Mike Bongiorno, escrita em 1961 e incluída na coletânea Diário Mínimo. Campeão de audiência na televisão italiana durante quase meio século, Bongiorno, um bobo alegre que vivia de plagiar programas de variedades americanos e foi enterrado como herói nacional em setembro deste ano, encarnava, segundo Eco, a mediocridade absoluta do italiano médio, que se identificava totalmente com o apresentador e sua alvar alegria, sobretudo porque Bongiorno, que muito se gabava de sua ignorância, o fazia sentir-se, por comparação, mais educado, mais inteligente”.
O Estado de S.Paulo,domingo, 29 de novembro de 2009

CONCEITOS RETIRADOS DOS TEXTOS ABAIXO, CUJO TÍTULO E CONTEÚDO DO ORIGINAL SÃO MANTIDOS AO CLICAR NOS LINKS.

1. DELINQUÊNCIA ACADÊMICA, de Maurício Tragtemberg

2. BAGRINHOS, do texto de Alfredo Marques

3. HOMEM-DISPOSITIVO, do texto de Francisco Foot Hardman

4. FIM DA UNIVERSIDADE PÚBLICA, do texto de Marilena Chauí

5. ETHOS DE GANGUE, do texto de Luiz Felipe Pondé

6. MIKE BONGIORNO, do ensaio de Umberto Eco

7. CASTA DOS INTOCÁVEIS, da entrevista de Chico de Oliveira


POESIA NA TRIBO

08/02/2010

Ponto de vista

Leila Míccolis

Eu não tenho vergonha
de dizer palavrões,
de sentir secreções
(vaginais ou anais).
As mentiras usuais
que nos fodem sutilmente
essas sim são imorais,
essas sim são indecentes

Ah! a poesia, que tudo põe a nu.

O bom filho a casa torra, Editora Blocos, 199

ou em POESIA NA TRIBO, Ed. da Tribo, 1997

PRECE PÓS-MODERNA
de Ulisses Tavares

a utopia virou pecado.
ajoelhem-se, revolucionários.
penitência, pirados.
jejum total, poetas.
mea culpa, mea máxima culpa,
em nome do pai e dos filhos
da puta, amém.

No “Poesia na Tribo vol. 1”, Ed. da tribo, 1997


ENTREVISTAS EM CONCURSOS Uma das artimanhas DOS CORRUPTOS

08/02/2010

Uma das artimanhas
é incluir uma “entrevista” classificatória,

CLIQUE AQUI PARA VER “DELINQUÊNCIA ACADÊMICA”, de Maurício Tragtemberg “O exame é a parte visível da seleção; a invisível é a entrevista, que cumpre as mesmas funções de “exclusão” que possui a empresa em relação ao futuro empregado.”

Parentes e amigos aprovados em concursos
Eventualmente, concursos públicos podem ser abertos
pelas autoridades recém–empossadas para pagar promessas
de campanha e dar empregos para correligionários, amigos e parentes. Isso acontece mesmo quando a
prefeitura se encontra em situação de déficit orçamentário
e impedida de contratar funcionários por força da Lei
de Responsabilidade Fiscal, que impede a administração
pública de gastar mais do que arrecada e impõe à folha
salarial um limite de 60% dos gastos totais.
Esses concursos públicos arranjados normalmente incluem
provas com avaliações subjetivas, que permitem à
banca examinadora habilitar os candidatos segundo os
interesses das autoridades municipais. Uma das artimanhas
é incluir uma “entrevista” classificatória, realizada
com critérios que retiram a objetividade da escolha.
Concursos com essas características têm sido anulados,
quando examinados pelo Judiciário, pois há uma reiterada
jurisprudência determinada pelos tribunais sobre o
assunto, inclusive por parte do Tribunal de Contas do
Estado de São Paulo.”

“O COMBATE À CORRUPÇÃO Nas Prefeituras do Brasil”, Ateliê Editorial, 2a. ed., 2003 ou no link