O IFCH ESTÁ AGONIZANDO DIZEM OS 80 PROFESSORES

24/11/2009

O CACH é obrigado a levantar a bandeira da defesa do IFCH e do ensino público.

Em 2011 o IFCH não terá como funcionar, diz a carta de 2009, assinada por 80 professores. Este é o momento em que se dá a eleição do CACH. Esperamos, desde o primeiro semestre de 2009, que os professores cumpram sua palavra de parar o IFCH e exigir do reitor que reponho mais de 80 professore que faltarão para repor o que havia há 15 anos atrás, como diz a carta.
Upload feito originalmente por Jornal do Porão


IFHC CONTRA A TERCEIRIZAÇÃO 008

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

Esta carta foi postada no jornaldoporao em 10/02/2010 e teve 231 leitores. Muito pouco. Mas foi postada quase em protesto aos silêncios dos 80 professores que não cumpriraram com a palavra dada, numa espécie de falsidade ideológica.

Espero que mais gente a leia e debata.

Os estudantes da chapa “A poesia está nas ruas” têm debatido e publicaram a carta dos professores na revista ISKRA, cuja publicação alguns dos membros da chapa impulsionam. O CACH precisará de gente de muita luta para romper este silêncio conivente dos professores do IFCH. Enquanto eles catam as migalhas que caem da mesa do poder, a Unicamp ligada aos interesses burgueses cresce (o Campus de Limeira é um exemplo gritante disso). Estes 80 professores diziam que em 2011 o IFCH ficaria inviável. Os estudantes precisam de um CACH de luta e que procurem, insistentemente, a aliança com os trabalhadores.

Este é sentido de republicar aqui esta carta que já está indo para seu 2º. Aniversário.


CARTA ABERTA DOS DOCENTES DO IFCH AO REITOR DA UNICAMP

O IFCH EM ESTADO DE EMERGÊNCIA

Ao Magnífico Reitor da Unicamp
Professor Dr. Fernando Costa

O IFCH está agonizando. O trabalho de pelo menos duas décadas, que resultou na excelência desse Instituto, está em sério risco de extinguir-se.
Nos últimos anos, temos encaminhado à Reitoria diversos ofícios justificando pormenorizadamente a necessidade urgente de novas contratações de docentes e nossas demandas não têm sido atendidas. No contexto da limitada política de contratações vigente, é preciso sublinhar que as quatro vagas destinadas ao IFCH no ano de 2009 são absolutamente insuficientes para recompor o quadro docente no patamar em que esse se encontrava há 15 anos.
Atendendo a necessidades acadêmicas ou a exigências da LDB, a Graduação e a Pós-Graduação do IFCH experimentaram nos últimos quinze anos uma expansão de cursos, de cargas horárias e de vagas discentes sem precedentes. Desde 1994, o número de vagas oferecidas no vestibular pelos cinco cursos de graduação aumentou 28% (de 140 para 180 em 2008) – sem contar as vagas do curso de Arquitetura, criado em 1998 e do qual participam professores do IFCH – e o total de alunos matriculados na graduação passou de 707 em 1998 para 1048 em 2008 (um aumento de 48%). Chegamos assim ao índice de 11,6 alunos por professor, superior à média da Unicamp que é de 8,3, conforme pode ser constatado no Anuário Estatístico da Unicamp (2009). No mesmo período, os cursos na pós-graduação passaram de 5 mestrados e 4 doutorados para 7 mestrados e 11 doutorados – e o total de alunos matriculados aumentou de 741 em 1998 para 885 em 2008. Se contarmos os alunos de graduação e pós-graduação, num total de 1933 em 2008, a relação número de alunos por professor sobe para 21,5. Nesse ano, também segundo o Anuário Estatístico da Unicamp, o IFCH era a terceira unidade em número de alunos na graduação e a segunda em número de programas e alunos de mestrado e doutorado, ficando atrás apenas da FCM. No mesmo período, entretanto, o número de docentes diminuiu drasticamente. Éramos 128 docentes em 1994, 101 em 1998, 90 em 2008 – e somos hoje apenas 89: uma diminuição de 30% do corpo docente.
Isso não significa apenas sobrecarga de trabalho. Certamente há mais cursos a serem dados e mais alunos a serem orientados, mais bancas para participar, mais coordenações de programas para serem exercidas. Ao mesmo tempo, as demandas por projetos e pareceres cresceram, assim como aumentou muito a pressão para ocupar cargos administrativos e acadêmicos. O crescimento de nossa produção e dos indicadores numéricos que contabilizam nossas atividades cotidianas básicas esconde, entretanto, uma crise acadêmica substantiva.
É lamentável constatar, por exemplo, que nossos alunos podem concluir a Graduação ou a Pós-Graduação sem a chance de cursar disciplinas eletivas importantes, simplesmente por falta de professores especialistas para ministrá-las. O vínculo entre as aulas e a experiência de pesquisa, que sempre caracterizou os cursos do IFCH está se perdendo: diante da necessidade de cobrir a oferta de disciplinas obrigatórias, muitos de nossos professores não têm mais a oportunidade de oferecer disciplinas nas áreas em que atuam e publicam – e nas quais são nacional e internacionalmente reconhecidos. Nesse quadro é praticamente impossível pensar em criar novas disciplinas na graduação, mesmo as que têm sido demandadas pelos alunos nas avaliações de curso feitas a cada semestre.
Áreas importantes de conhecimento na Antropologia, na Ciência Política, na Demografia, na Filosofia, na História e na Sociologia estão desguarnecidas, por falta de docentes especialistas para ministrar aulas, coordenar pesquisas e orientar novos pesquisadores. Há linhas de pesquisa na pós-graduação e nos centros de pesquisa que tiveram uma produção acadêmica densa e expressiva que praticamente desapareceram por falta de professores plenos. Há cursos de pós-graduação que estão na iminência de fechar áreas e linhas de pesquisa, pois contam com apenas um professor. Não temos condições, portanto, de criar novas áreas de pesquisa que seriam necessárias para continuar a oferecer um ensino de ponta e acompanhar os avanços científicos e as novas demandas da sociedade.
A projeção internacional de nossos docentes é notória e facilmente verificável em uma consulta aos currículos e grupos de pesquisa da Plataforma Lattes. Os Anuários Estatísticos da UNICAMP também reconhecem essa liderança intelectual e acadêmica: desde 2006, pelo menos, temos sido a primeira Unidade em produtividade intelectual em termos proporcionais (em relação à quantidade de docentes), e a segunda em termos numéricos absolutos. A CAPES também reconhece essa liderança, já que nossos programas de pós-graduação vêm conseguindo manter notas altas: um programa com nota 7, dois com nota 6 e quatro com nota 5; nos últimos anos, várias das teses defendidas no IFCH obtiveram prêmios da CAPES, do Arquivo Nacional e da ANPOCS. Esta liderança está sendo ameaçada pela estagnação de contratações e a conseqüente sobrecarga de trabalho; não é sem sacrifícios que vimos conseguindo manter a qualidade e a excelência do nosso desempenho acadêmico e científico.
O futuro é alarmante: em 2010 teremos 42 aposentáveis, 6 dos quais pela compulsória. Ou seja: em um ano podemos perder 47% do atual quadro docente do Instituto, perfazendo uma possível diminuição total de 63% do corpo docente do IFCH entre 1994 e 2010 (queda de 128 professores para 47). Com tantas perdas acumuladas, está em risco também a larga experiência do trabalho que conseguimos acumular até aqui. É eloqüente o que esses dados apontam: o corpo docente está envelhecendo. A formação de grupos de pesquisa demanda a construção de patamares comuns de trabalho conjunto, o amadurecimento de discussões e a consolidação de eixos de investigação. Essa não é uma tarefa que possa ser simplesmente transmitida por escrito: demanda convivência, laços institucionais e trocas intelectuais que não podem ser empreendidas da noite para o dia. Novos docentes necessariamente devem conviver com seus colegas mais experientes. A convivência é um modo de formar novos quadros e manter a continuidade na excelência da pesquisa e da docência que tem nos caracterizado. Há, portanto, prejuízos evidentes se continuarmos a contar com uma reposição das vagas em futuro indefinido ou depois que departamentos e linhas de pesquisa estiverem extintos.
Também é preocupante nossa posição no cenário científico nacional. Nos últimos anos, temos assistido a uma incorporação crescente de novos docentes (muitos dos quais formados por nós) em outras universidades, por meio de concursos públicos. O quadro é particularmente alarmante quando comparado ao das universidades federais, que hoje oferecem salários mais altos do que os nossos. Ou quando comparado à própria USP que, na última reunião com o Fórum das Seis, anunciou a contratação de 1285 docentes na atual gestão – um número surpreendente diante das melancólicas 55 contratações previstas para este ano pela Unicamp. Em breve os Programas de Pós-Graduação do IFCH poderão perder pontos nas avaliações da CAPES, deixando de ser competitivos na disputa por recursos e na procura dos estudantes por uma formação de excelência.
Diante deste quadro crítico, não basta simplesmente repor a perda de 39 docentes que sofremos nos últimos 15 anos. É preciso mais que isso. Queremos redimensionar o quadro docente de acordo com as necessidades acadêmicas de nossos cursos, considerando a expansão dos últimos anos, e assegurar a dinâmica criativa das linhas de pesquisa para continuar a desenvolver um trabalho de excelência. Queremos também ter o direito de realizar uma expansão de nossas atividades assentada nos desdobramentos de nossas pesquisas e na combinação entre elas e o exercício da docência.
É preciso, portanto, que a Reitoria da Unicamp reflita sobre o seu próprio projeto para o futuro do IFCH e reavalie o tratamento que tem dispensado às nossas necessidades ao longo dos últimos anos, sob pena de que o patrimônio que duramente construímos ao longo dos anos soçobre em meio ao descaso e à indiferença. Não podemos aceitar que seja esse o projeto para o futuro do IFCH. O IFCH e a UNICAMP não podem sobreviver por muito mais tempo apenas com base na reputação construída ao longo da sua história. Restaurar e ampliar esse patrimônio é uma responsabilidade inescapável da atual Reitoria.
Convidamos, pois, o Reitor de nossa Universidade a vir ao IFCH o quanto antes. Esperamos que essa visita possa ser agendada rapidamente, pois precisamos ter a garantia de uma política de contratações que atenda de fato a essas demandas: reivindicamos medidas urgentes para que possamos continuar a trabalhar. Estamos em ESTADO DE EMERGÊNCIA!

Campinas, 30 de junho de 2009

Os Docentes do IFCH:
Álvaro Gabriel Bianchi Mendez – matrícula 286817
Amnéris A. Maroni – matrícula 075663
Andrei Koerner – matrícula 285394
Ângela Maria Carneiro Araújo – matrícula 103872
Arley Ramos Moreno – matrícula 087467
Armando Boito – matrícula 075701
Bela Feldman Bianco – matrícula 054810
Bruno Speck – matrícula 256021
Cláudio Henrique de Moraes Batalha – matrícula 165115
Cristina Meneguello – matrícula 278611
Daniel Joseph Hogan – matrícula 038229
Emília Pietrafesa de Godoi – matrícula 252531
Enéias Forlin – matrícula 288083
Evelina Dagnino – matrícula 039098
Fátima Rodrigues Évora – matrícula 174947
Fernando Antonio Lourenço – matrícula 106844
Fernando Teixeira da Silva – matrícula 286457
Gilda Figueiredo Portugal Gouvea – matrícula 039802
Guita G. Debert – matrícula 106330
Heloisa André Pontes – matrícula 118559
Itala M. L. D’Ottaviano – matrícula 040436
Jesus José Ranieri – matrícula 287264
John Manuel Monteiro – matrícula 252557
Jorge Sidney Coli Junior – matrícula 116335
José Alves de Freitas Neto – matrícula 287069
José Carlos Pinto de Oliveira – matrícula 237108
José Marcos Pinto da Cunha – matrícula 268593
José Oscar de Almeida Marques – matrícula087467
Josué Pereira da Silva – matrícula 272787
Laymert Garcia dos Santos – matrícula 057614
Leandro Karnal – matrícula 273597
Leila da Costa Ferreira – matrícula: 220884
Leila Mezan Algranti – matrícula 165263
Luciana Ferreira Tatagiba – matrícula 286986
Luiz César Marques Filho – matrícula 198935
Luzia Margareth Rago – matrícula 117021
Marcelo Siqueira Ridenti – matrícula 274941
Marcio Bilharinho Naves – matrícula 053554
Marcos Lutz-Müller – matrícula 288083
Marcos Nobre – matrícula 237574
Maria Coleta Ferreira Albino de Oliveira – matrícula 073466
Maria Filomena Gregori – matrícula 222861
Maria Helena Guimarães de Castro – matrícula 088595
Maria Lygia Quartim de Moraes – matrícula 249068
Maria Stella Bresciani – matrícula 043842
Mauro W. B. de Almeida – matrícula 048071
Michael McDonald Hall – matrícula 043222
Nelson Alfredo Aguilar – matrícula 214141
Néri de Barros Almeida – matrícula 286112
Omar Ribeiro Thomaz – matrícula 28293
Oswaldo Giacoia Junior – matrícula 251470
Paulo Celso Miceli – matrícula 117030
Rachel Meneguello – matrícula 152790
Renato Ortiz – matrícula 206547
Ricardo Antunes – matrícula 144061
Rita de Cássia Lahoz Morelli – matrícula 220752
Robert Wayne Andrew Slenes – matrícula 087092
Roberto Luiz do Carmo – matrícula 290280
Roberto Romano – matrícula 069311
Ronaldo de Almeida – matrícula 286526
Rosana Baeninger – matrícula 273996
Rubem Murilo Leão Rêgo – matrícula 045721
Sebastião Velasco e Cruz – matrícula 129062
Shiguenoli Miyamoto – matrícula 20.4722
Silvana Barbosa Rubino – matrícula 285534
Silvia Hunold Lara – matrícula 14634-9
Suely Kofes – matrícula 043851
Thomas Patrick Dwyer – matrícula 100455
Tirza Aidar – matrícula 292552
Valeriano Mendes Ferreira Costa – matrícula 274887
Vanessa R. Lea – matrícula 079154
Walquiria Domingues Leão Rego – matricula 224812
Yara Adário Frateschi – matrícula 287070

Professores Colaboradores:
Arlete Moysés Rodrigues – matrícula 283825
Caio Toledo – matrícula 28374-0
Elide Rugai Bastos – matrícula 292167
Izabel Andrade Marson – matrícula 220426
Luis Orlandi – matrícula 292557
Maria Clementina Pereira Cunha – matrícula 053309
Mariza Correa – matrícula 290598
Vera H. F. P. Borges Itala M. L.

Veja coletânea de textos sobre a academia, acadêmicos, homens-dispositivo, Mike Bongiorno, cães pastores , delinqüência acadêmica, ethos de quadrilha e bagrinhos

MAIS LIDOS DE 2011
Continua, nestes 03/05/2012, sendo acessado. Já perfazem 128 acessos. Talvez só os professores do IFCH esqueceram da carta, alarmante e dramática, que 80 deles assinaram.


A Delinqüência Acadêmica, por Maurício Tragtemberg

19/11/2010

Este artigo publicado em 1978. Publicado aqui neste Jornal do Porão em 19 de novembro de 2009 é um dos textos mais lidos do Jornal do Porão. Mas ainda pouco lido. A biblioteca da da Faculdade de Educação da Unicamp tem uma coleção de Maurício Tragtemberg. Mas o que significa Maurício Tratgemberg para os professores da Unicamp?
Ano a ano republicarei este texto dele , esperando respostas.

Assim como Maurício Tratgtemberg, é convenientemente esquecido Paulo Freire. Que não devemos cansar de lembrar, foi escolhido como Reitor e quem ficou em 14o. lugar na consulta, o Dr. Pinotti, foi quem assumiu. E assim a coligação que escolheu Pinotti, o décimo quarto colocado, manda na Unicamp até hoje. Mais de 20 anos de mando. Será que esta coligação, herdeira de Pinotti, tem algum mérito próximo a Paulo Freire e Maurício Tragtemberg?

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por Maurício Tragtenberg* [* Texto apresentado no I Seminário de Educação Brasileira, realizado em 1978, em Campinas-SP. Publicado em: TRAGTENBERG, M. Sobre Educação, Política e Sindicalismo. Sã Paulo: Editores Associados; Cortez, 1990, 2ª ed. (Coleção teoria e práticas sociais, vol 1)]

O tema é amplo: a relação entre a dominação e o saber, a relação entre o intelectual e a universidade como instituição dominante ligada à dominação, a universidade antipovo.

A universidade está em crise. Isto ocorre porque a sociedade está em crise; através da crise da universidade é que os jovens funcionam detectando as contradições profundas do social, refletidas na universidade. A universidade não é algo tão essencial como a linguagem; ela é simplesmente uma instituição dominante ligada à dominação. Não é uma instituição neutra; é uma instituição de classe, onde as contradições de classe aparecem. Para obscurecer esses fatores ela desenvolve uma ideologia do saber neutro, científico, a neutralidade cultural e o mito de um saber “objetivo”, acima das contradições sociais.

No século passado, período do capitalismo liberal, ela procurava formar um tipo de “homem” que se caracterizava por um comportamento autônomo, exigido por suas funções sociais: era a universidade liberal humanista e mandarinesca. Hoje, ela forma a mão-de-obra destinada a manter nas fábricas o despotismo do capital; nos institutos de pesquisa, cria aqueles que deformam os dados econômicos em detrimento dos assalariados; nas suas escolas de direito forma os aplicadores da legislação de exceção; nas escolas de medicina, aqueles que irão convertê-la numa medicina do capital ou utilizá-la repressivamente contra os deserdados do sistema. Em suma, trata-se de “um complô de belas almas” recheadas de títulos acadêmicos, de um doutorismo substituindo o bacharelismo, de uma nova pedantocracia, da produção de um saber a serviço do poder, seja ele de que espécie for.

Na instância das faculdades de educação, forma-se o planejador tecnocrata a quem importa discutir os meios sem discutir os fins da educação, confeccionar reformas estruturais que na realidade são verdadeiras “restaurações”. Formando o professor-policial, aquele que supervaloriza o sistema de exames, a avaliação rígida do aluno, o conformismo ante o saber professoral. A pretensa criação do conhecimento é substituída pelo controle sobre o parco conhecimento produzido pelas nossas universidades, o controle do meio transforma-se em fim, e o “campus” universitário cada vez mais parece um universo concentracionário que reúne aqueles que se originam da classe alta e média, enquanto professores, e os alunos da mesma extração social, como “herdeiros” potenciais do poder através de um saber minguado, atestado por um diploma.

A universidade classista se mantém através do poder exercido pela seleção dos estudantes e pelos mecanismos de nomeação de professores. Na universidade mandarinal do século passado o professor cumpria a função de “cão de guarda” do sistema: produtor e reprodutor da ideologia dominante, chefe de disciplina do estudante. Cabia à sua função professoral, acima de tudo, inculcar as normas de passividade, subserviência e docilidade, através da repressão pedagógica, formando a mão-de-obra para um sistema fundado na desigualdade social, a qual acreditava legitimar-se através da desigualdade de rendimento escolar; enfim, onde a escola “escolhia” pedagogicamente os “escolhidos” socialmente.

A transformação do professor de “cão de guarda” em “cão pastor” acompanha a passagem da universidade pretensamente humanista e mandarinesca à universidade tecnocrática, onde os critérios lucrativos da empresa privada, funcionarão para a formação das fornadas de “colarinhos brancos” rumo às usinas, escritórios e dependências ministeriais. É o mito da assessoria, do posto público, que mobiliza o diplomado universitário.

A universidade dominante reproduz-se mesmo através dos “cursos críticos”, em que o juízo professoral aparece hegemônico ante os dominados: os estudantes. Isso se realiza através de um processo que chamarei de “contaminação”. O curso catedrático e dogmático transforma-se num curso magisterial e crítico; a crítica ideológica é feita nos chamados “cursos críticos”, que desempenham a função de um tranqüilizante no meio universitário. Essa apropriação da crítica pelo mandarinato universitário, mantido o sistema de exames, a conformidade ao programa e o controle da docilidade do estudante como alvos básicos, constitui-se numa farsa, numa fábrica de boa consciência e delinqüência acadêmica, daqueles que trocam o poder da razão pela razão do poder. Por isso é necessário realizar a crítica da crítica-crítica, destruir a apropriação da crítica pelo mandarinato acadêmico. Watson demonstrou como, nas ciências humanas, as pesquisas em química molecular estão impregnadas de ideologia. Não se trata de discutir a apropriação burguesa do saber ou não-burguesa do saber, mas sim a destruição do “saber institucionalizado”, do “saber burocratizado” como único “legítimo”. A apropriação universitária (atual) do conhecimento é a concepção capitalista de saber, onde ele se constitui em capital e toma a forma nos hábitos universitários.

A universidade reproduz o modo de produção capitalista dominante não apenas pela ideologia que transmite, mas pelos servos que ela forma. Esse modo de produção determina o tipo de formação através das transformações introduzidas na escola, que coloca em relação mestres e estudantes. O mestre possui um saber inacabado e o aluno uma ignorância transitória, não há saber absoluto nem ignorância absoluta. A relação de saber não institui a diferença entre aluno e professor, a separação entre aluno e professor opera-se através de uma relação de poder simbolizada pelo sistema de exames – “esse batismo burocrático do saber”. O exame é a parte visível da seleção; a invisível é a entrevista, que cumpre as mesmas funções de “exclusão” que possui a empresa em relação ao futuro empregado. Informalmente, docilmente, ela “exclui” o candidato. Para o professor, há o currículo visível, publicações, conferências, traduções e atividade didática, e há o currículo invisível – esse de posse da chamada “informação” que possui espaço na universidade, onde o destino está em aberto e tudo é possível acontecer. É através da nomeação, da cooptação dos mais conformistas (nem sempre os mais produtivos) que a burocracia universitária reproduz o canil de professores. Os valores de submissão e conformismo, a cada instante exibidos pelos comportamentos dos professores, já constituem um sistema ideológico. Mas, em que consiste a delinqüência acadêmica?

A “delinqüência acadêmica” aparece em nossa época longe de seguir os ditames de Kant: “Ouse conhecer.” Se os estudantes procuram conhecer os espíritos audazes de nossa época é fora da universidade que irão encontrá-los. A bem da verdade, raramente a audácia caracterizou a profissão acadêmica. Os filósofos da revolução francesa se autodenominavam de “intelectuais” e não de “acadêmicos”. Isso ocorria porque a universidade mostrara-se hostil ao pensamento crítico avançado. Pela mesma razão, o projeto de Jefferson para a Universidade de Virgínia, concebida para produção de um pensamento independente da Igreja e do Estado (de caráter crítico), fora substituído por uma “universidade que mascarava a usurpação e monopólio  da riqueza, do poder”. Isso levou os estudantes da época a realizarem programas extracurriculares, onde Emerson fazia-se ouvir, já que o obscurantismo da época impedia a entrada nos prédios universitários, pois contrariavam a Igreja, o Estado e as grandes “corporações”, a que alguns intelectuais cooptados pretendem que tenham uma “alma”.[1]

Em nome do “atendimento à comunidade”, “serviço público”, a universidade tende cada vez mais à adaptação indiscriminada a quaisquer pesquisas a serviço dos interesses econômicos hegemônicos; nesse andar, a universidade brasileira oferecerá disciplinas como as existentes na metrópole (EUA): cursos de escotismo, defesa contra incêndios, economia doméstica e datilografia em nível de secretariado, pois já existe isso em Cornell, Wisconson e outros estabelecimentos legitimados. O conflito entre o técnico e o humanismo acaba em compromisso, a universidade brasileira se prepara para ser uma “multiversidade”, isto é, ensina tudo aquilo que o aluno possa pagar. A universidade, vista como prestadora de serviços, corre o risco de enquadrar-se numa “agência de poder”, especialmente após 68, com a Operação Rondon e sua aparente democratização, só nas vagas; funciona como tranqüilidade social. O assistencialismo universitário não resolve o problema da maioria da população brasileira: o problema da terra.

A universidade brasileira, nos últimos 15 anos, preparou técnicos que funcionaram como juízes e promotores, aplicando a Lei de Segurança Nacional, médicos que assinavam atestados de óbito mentirosos, zelosos professores de Educação Moral e Cívica garantindo a hegemonia da ideologia da “segurança nacional” codificada no Pentágono.

O problema significativo a ser colocado é o nível de responsabilidade social dos professores e pesquisadores universitários. A não preocupação com as finalidades sociais do conhecimento produzido se constitui em fator de “delinqüência acadêmica” ou da “traição do intelectual”. Em nome do “serviço à comunidade”, a intelectualidade universitária se tornou cúmplice do genocídio, espionagem, engano e todo tipo de corrupção dominante, quando domina a “razão do Estado” em detrimento do povo. Isso vale para aqueles que aperfeiçoam secretamente armas nucleares (M.I.T.), armas químico-biológicas (Universidade da Califórnia, Berkeley), pensadores inseridos na Rand Corporation, como aqueles que, na qualidade de intelectuais com diploma acreditativo, funcionam na censura, na aplicação da computação com fins repressivos em nosso país. Uma universidade que produz pesquisas ou cursos a quem é apto a pagá-los perde o senso da discriminação ética e da finalidade social de sua produção – é uma multiversidade que se vende no mercado ao primeiro comprador, sem averiguar o fim da encomenda, isso coberto pela ideologia da neutralidade do conhecimento e seu produto.

Já na década de 30, Frederic Lilge[2] acusava a tradição universitária alemã da neutralidade acadêmica de permitir aos universitários alemães a felicidade de um emprego permanente, escondendo a si próprios a futilidade de suas vidas e seu trabalho. Em nome da “segurança nacional”, o intelectual acadêmico despe-se de qualquer responsabilidade social quanto ao seu papel profissional, a política de “panelas” acadêmicas de corredor universitário e a publicação a qualquer preço de um texto qualquer se constituem no metro para medir o sucesso universitário. Nesse universo não cabe uma simples pergunta: o conhecimento a quem e para que serve? Enquanto este encontro de educadores, sob o signo de Paulo Freire, enfatiza a responsabilidade social do educador, da educação não confundida com inculcação, a maioria dos congressos acadêmicos serve de “mercado humano”, onde entram em contato pessoas e cargos acadêmicos a serem preenchidos, parecidos aos encontros entre gerentes de hotel, em que se trocam informações sobre inovações técnicas, revê-se velhos amigos e se estabelecem contatos comerciais.

Estritamente, o mundo da realidade concreta e sempre muito generoso com o acadêmico, pois o título acadêmico torna-se o passaporte que permite o ingresso nos escalões superiores da sociedade: a grande empresa, o grupo militar e a burocracia estatal. O problema da responsabilidade social é escamoteado, a ideologia do acadêmico é não ter nenhuma ideologia, faz fé de apolítico, isto é, serve à política do poder.

Diferentemente, constitui, um legado da filosofia racionalista do século XVIII, uma característica do “verdadeiro” conhecimento o exercício da cidadania do soberano direito de crítica questionando a autoridade, os privilégios e a tradição. O “serviço público” prestado por estes filósofos não consistia na aceitação indiscriminada de qualquer projeto, fosse destinado à melhora de colheitas, ao aperfeiçoamento do genocídio de grupos indígenas a pretexto de “emancipação” ou política de arrocho salarial que converteram o Brasil no detentor do triste “record” de primeiro país no mundo em acidentes de trabalho. Eis que a propaganda pela segurança no trabalho emitida pelas agências oficiais não substitui o aumento salarial.

O pensamento está fundamentalmente ligado à ação. Bergson sublinhava no início do século a necessidade do homem agir como homem de pensamento e pensar como homem de ação. A separação entre “fazer” e “pensar” se constitui numa das doenças que caracterizam a delinqüência acadêmica – a análise e discussão dos problemas relevantes do país constitui um ato político, constitui uma forma de ação, inerente à responsabilidade social do intelectual. A valorização do que seja um homem culto está estritamente vinculada ao seu valor na defesa de valores essenciais de cidadania, ao seu exemplo revelado não pelo seu discurso, mas por sua existência, por sua ação.

Ao analisar a “crise de consciência” dos intelectuais norte-americanos que deram o aval da “escalada” no Vietnã, Horowitz notara que a disposição que eles revelaram no planejamento do genocídio estava vinculada à sua formação, à sua capacidade de discutir meios sem nunca questionar os fins, a transformar os problemas políticos em problemas técnicos, a desprezar a consulta política, preferindo as soluções de gabinete, consumando o que definiríamos como a traição dos intelectuais. É aqui onde a indignidade do intelectual substitui a dignidade da inteligência.

Nenhum preceito ético pode substituir a prática social, a prática pedagógica.

A delinqüência acadêmica se caracteriza pela existência de estruturas de ensino onde os meios (técnicas) se tornam os fins, os fins formativos são esquecidos; a criação do conhecimento e sua reprodução cede lugar ao controle burocrático de sua produção como suprema virtude, onde “administrar” aparece como sinônimo de vigiar e punir – o professor é controlado mediante os critérios visíveis e invisíveis de nomeação; o aluno, mediante os critérios visíveis e invisíveis de exame. Isso resulta em escolas que se constituem em depósitos de alunos, como diria Lima Barreto em “Cemitério de Vivos”.

A alternativa é a criação de canais de participação real de professores, estudantes e funcionários no meio universitário, que oponham-se à esclerose burocrática da instituição.

A autogestão pedagógica teria o mérito de devolver à universidade um sentido de existência, qual seja: a definição de um aprendizado fundado numa motivação participativa e não no decorar determinados “clichês”, repetidos semestralmente nas provas que nada provam, nos exames que nada examina, mesmo porque o aluno sai da universidade com a sensação de estar mais velho, com um dado a mais: o diploma acreditativo que em si perde valor na medida em que perde sua raridade.

A participação discente não constitui um remédio mágico aos males acima apontados, porém a experiência demonstrou que a simples presença discente em colegiados é fator de sua moralização.

* Texto apresentado no I Seminário de Educação Brasileira, realizado em 1978, em Campinas-SP. Publicado em: TRAGTENBERG, M. Sobre Educação, Política e Sindicalismo. Sã Paulo: Editores Associados; Cortez, 1990, 2ª ed. (Coleção teoria e práticas sociais, vol 1)

[1] Kaysen pretende atribuir uma “alma”à corporação multinacional; esta parece não preocupar-se com tal esforço construtivo do intelectual.

[2] Frederic LILGE, The Abuse of Learning: The Failure of German University. Macmillan, New York, 1948

 


Você pode também abaixar o arquivo em pdf. Basta clicar no link abaixo:

A Delinqüência Acadêmica – Maurício Tragtenberg


CONCEITOS RETIRADOS DOS TEXTOS ABAIXO, CUJO TÍTULO E CONTEÚDO DO ORIGINAL SÃO MANTIDOS AO CLICAR NOS LINKS.

1. DELINQUÊNCIA ACADÊMICA, de Maurício Tragtemberg

2. BAGRINHOS, do texto de Alfredo Marques

3. HOMEM-DISPOSITIVO, do texto de Francisco Foot Hardman

4. FIM DA UNIVERSIDADE PÚBLICA, do texto de Marilena Chauí

5. ETHOS DE GANGUE, do texto de Luiz Felipe Pondé

6. MIKE BONGIORNO, do ensaio de Umberto Eco

7. CASTA DOS INTOCÁVEIS, da entrevista de Chico de Oliveira

8. CARTA DOS PROFESSORES DO IFCH, “O IFCH ESTÁ AGONIZANDO”


LINKS PARA TEXTOS CONCEITUAIS

27/02/2010

CONCEITOS RETIRADOS DOS TEXTOS ABAIXO, CUJO TÍTULO E CONTEÚDO DO ORIGINAL SÃO MANTIDOS AO CLICAR NOS LINKS.

1. DELINQUÊNCIA ACADÊMICA, de Maurício Tragtemberg

2. BAGRINHOS, do texto de Alfredo Marques

3. HOMEM-DISPOSITIVO, do texto de Francisco Foot Hardman

4. FIM DA UNIVERSIDADE PÚBLICA, do texto de Marilena Chauí

5. ETHOS DE GANGUE, do texto de Luiz Felipe Pondé

6. MIKE BONGIORNO, do ensaio de Umberto Eco

7. CASTA DOS INTOCÁVEIS, da entrevista de Chico de Oliveira

8 . “O IFCH ESTÁ AGONIZANDO”, carta dos professores do IFCH, dirigida ao Reitor e à comunidade acadêmica, assinada por 80 prefessores


Máfia de Branco, II. O Ensino Médico no Brasil, a formação da máfia.

07/12/2014

 

wdolaro Ensino universitário no Brasil é para a elite. Os estudantes de medicina são da classe média alta ou filhos da burguesia. Acostumados com o luxo, tem nojo dos pobres. Depois, como especialistas, se empregam nas empresas de medicina privada que exploram a dor, a doença e a morte. São propagandistas de laboratórios. São como traficantes, viciam as pessoas com um cem número de  drogas. E como máfias se auto-protegem e levam uma vida de semi-ilegalidade e com uma moral de comerciantes; e até numa espécie de pirataria, ou mesmo no crime aberto nas clínicas de aborto. Mas o normal é se formarem para servir à empresas de
medicina privada ou a laboratórios. A medicina, no Brasil, formam exploradores da fragilidade humana. Fazem parte da indústria da morte.
Tanto horror é virou uma banalidade. E o poder de humilhar, explorar, assediar ou mesmo estuprar continua. E este poder, com os anos, só aumenta. Em 1970 O Pasquim denunciava a máfia de Branco. Hoje esta Máfia é muito maior, mais rica e mais inatingível.
Um das características deste momento que vivemos, de excesso de informação, de redes sociais é que você pode falar o que quiser, mas também ninguém lhe ouve.
É preciso mudar é a composição social dos estudantes de Medicina. De resto de todo ensino.

UM COMENTÁRIO:
Claro que pobres também cometem abusos. Mas este elitismo dos médicos (e de todo o ensino no Brasil) que os coloca acima de todos, e por cima de quase todos, permitem a impunidade.
Anos e anos ouço e já vi denúncias formais de abusos em hospitais e até profanação de cadáveres em festas. Nenhum medida nunca é tomada.

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PROPOSTAS:

1. Precisamos de 100 por cento de acesso às universidades públicas sejam destinados a alunos do ensino público, mantendo a cota para negros e indígenas;
2 . Por uma carreira nacional de professores que iguale todos os professores: “todos somos professores”;
3. Por um Sistema Único de Educação (pelo fim da educação parcelada dos municípios e estados);
4 . Mudança radical na formação dos médicos (pelos menos 85 por cento de médicos generalistas, médicos de família e 15 por cento para especialidades – invertendo a lógica de hoje);
5. que todo médico formado tenha que trabalhar por 4 anos em unidades de saúde pública, onde for designado – que, para começar, todas a cidades do interior do Brasil tenham 6,9 médicos por mil habitantes, a taxa Cubana;
6. Que os médicos ganhem como professores de um Sistema Único de Educação (e que os professores ganhem como juízes)
7. Defensores públicos (advogados) que ganhem como juízes, para defender os pobres dos erros médicos;
8 .E será preciso complementar tudo isso com uma campanha sistemática, dia pós dia, ano pós anos, anos a fio, contra a medicina privada.

Caos

(Até um antigo secretário do Maluf e Ministro da saúde de Collor e FHC, em uma entrevista, deixou implícito o ensino das escolas privadas de medicina produz gente incapaz que vai cometer crimes e que nas escolas públicas o ensino voltado para especializações vai pelo mesmo caminho de produzir horrores e exclusão, que na medicina significa morte.). E num ensaio que escreveu para a Revistada USP http://www.revistas.usp.br/revusp/article/viewFile/76170/79914, o primeiro diagnóstico que faz é que desde Ditatura Militar e principalmente no período posterior, foram criadas mais de uma centena de faculdades de medicina, faculdades privadas sem qualquer qualificação. Ele não diz neste artigo, mas num outro http://febrasgo.luancomunicacao.net.br/artigo-exagero-de-escolas-medicas-por-adib-jatene/ mostra grande preocupação com medidas judiciais contra os médicos.

 

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Devemos denunciar sim, mas é preciso avançar. Das denúncias devemos passar a propostas para revirar o ensino de medicina no Brasil e a prática de medicina.
Para isso é preciso que organizações de trabalhadora assuma a luta para mudanças. Cada dia que passar serão contabilizados em dor e mortes.
As organizações de trabalhares devem buscar aliados nas filas dos postos de saúde, dos hospitais do INSS. Aliados dos pobres nas periferias. Dos sem-médicos de todo interior do país. É uma tarefa democrático/nacional que precisa da intervenção da classe operária para ter uma solução. Para avançar outras lutas (mesmo porque os mortos e doentes não farão luta nenhuma).
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VIRAR A MEDICINA DE CABEÇA PARA BAIXO É UMA TAREFA DEMOCRÁTICA QUE A CLASSE OPERÁRIA DEVE ASSUMIR E DIRIGIR, BUSCANDO ALIADOS NA CLASSE MÉDIA POBRE, NOS POBRES URBANOS, NUM PROCESSO REVOLUCIONÁRIO.

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Se um movimento deste tipo conseguir vitórias e, nestas lutas, houver o protagonismo da classe operária e dos trabalhadores, será uma mostra patente que que a classe operária caminha para dirigir todo o país.
Ainda que a classe operária e trabalhadora não conseguisse este protagonismo a luta não pode ser adiada.
Acho que o processo revolucionário depende muito de vitórias, mesmo que parciais, nesta área que permite que a classe operária leve atrás de si amplas massas oprimidas. Num breve levantamento: a questão da saúde da mulher, a questão do aborto, o tratamento da anemia falciforme que atinge a população negra, ou a pressão alta que atinge em primeiro lugar esta mesma população, ou ainda, os mais de 40 milhões de pessoas que se declaram com alguma deficiências (o que podemos ver em um estudo da FGV, de 2000, Retrato da Deficiência no Brasil.

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A VIDA, PARA UM MATERIALISTA, É O ÚNICO PATRIMÔNIO
E a questão da medicina concentra este problema em grau máximo. E é o maior anseio da população. É só conferir quantos planos de saúde privados tem no Brasil; e montante de dinheiro que os trabalhadores gastam.

“Virar a medicina brasileira de cabeça para baixo é uma tarefa para a revolução operária e socialista. (01). Este é o fecho de um artigo de um ex-aluno de Medicina de uma escola privada. Espero que uma revolução socialista que se preze realmente faça isso. Mesmo Cuba, onde nem houve uma revolução socialista exemplar e que logo, muito cedo se burocratizou, a Medicina foi virada de cabeça para baixo. Haja vista que Cuba tem 6,9 médicos para cada mil habitantes, 3,5 vezes ao que tem o Brasil, quase 11 vezes a Índia e o dobro da Alemanha.
Abaixo destes apontamentos faço um pequeno resumo do ensino de Medicina no Brasil. Adib Jatene, um dos que faz este levantamento, apesar de ter sido Secretário de Saúde de Maluf, Ministro de Collor e FHC e professor de rede de ensino privado, não deixa de mostrar que este ensino privado é uma espécie de crime. E termina vários de seus artigos expressando, no espírito de corpo comum aos médicos, o temor de processos judiciais contra médicos. E diz mesmo que este ensino chegou ao máximo do perigo. E não só o privado. Pois no ensino público de Medicina a distorção que é a formação de especialistas é uma acinte. Pois forma com dinheiro público milhares de médicos que vão servir a uma minoria. E pior, vão tratar de 10 ou 15 por cento de doenças, quando 85 por cento são doenças que atingem a maioria do povo. E que precisam de outro tipo de Medicina.

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Assédios, estupros e racismo na Faculdade de Medicina da USP

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Funcionários do restaurante da USP se mobilizam contra e estupros, assédio e homofobia. Vários setores da USP fizeram os mesmos cartazes e uma campanha no facebook. O mesmo fizeram outros trabalhadores do Movimento Nossa Classe e do Jornal Palavra Operária.

 

 

 

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Paulo Saldiva. Indignado com as atitudes dos dirigentes da USP

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links da campanha no facebook

01. Trabalhadores do Hospital Universitário da USP
02.Diana Assunção: “Na Faculdade de Medicina da USP há métodos profissionalizados de estupro”
03. Folha e Estadão divulgam campanha dos trabalhadores da USP contra estupros na Faculdade de Medicina
04. Funcionários da USP fazem fotos em apoio as vítimas de estupro
05. Show de horrores na Faculdade de Medicina da USP, Palavra Operária
06. Campanha contra machismo e homofobia chega a centenas de milhares de pessoa, Palavra Operária
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 links

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01. Medicina, racismo e elitismo no Brasil: uma combinação de classe feita para matar
02 .Conselho Federal de Medicina deu atestado de ignorância ao repudiar campanha contra racismo<a href=”https://jornaldoporao.files.wordpress.com/2014/12/20141125160716424093u.jpg”>20141125160716424093u

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ADIB JATENE, na revista da USP
Brasil precisa de muito mais médicos.
Alguns exemplos da tabela de quantidade de Médicos por mil habitantes. Alemanha são 3,64 para cada mil. Brasil 1,95. Índia 0,60 por mil. E cuba 6,39 por mil.
Distribuição dos Médicos.
60% deles estão nas capitais onde residem apenas 20% da população. A maior das distorções é Vitória que tem 10 médicos para cada mil habitantes. 5 vezes mais que o Brasil. Quase 3 vezes mais que Alemanha. E quase 20 vezes mais que a Índia.

As especialidades.mafia-de-branco-1
Quem dá aula na graduação são Médicos especialistas que, por óbvio, dão aulas sobre sua especialidade. Há especialidades que um médico trabalhando 3 anos num posto de saúde não encontrará um caso sequer. A graduação precisa forma médicos e não especialistas.

“A situação atual do ensino médico tem causado
muita preocupação, mas acredito que estamos no
limiar de mudanças, já que a coisa chegou a um
nível intolerável.” Como termina o texto de Adib Jatene

Ensino privado.

“Em 1996 tí-
nhamos, portanto, 82 faculdades de medicina. E
daquele ano até 2011 abrimos mais 103, com uma
particularidade: mais de 50% eram privadas, com
os mesmos defeitos das anteriormente criadas.DESCASO COM A SAÚDE
Em 2012, no dia 5 de junho, o governo autorizou
mais nove faculdades privadas, além de 18
novos cursos em universidades federais. Ficamos,
assim, com 63 federais, 27 estaduais, 7 municipais
e 115 privadas, num total de 212 faculdades de medicina.” Adib Jatene
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DEMOGRAFIA MÉDICA NO BRASIL, VOL. 2,
Cenário e Indicadores. Relatório de pequisa, fevereiro de 2013, CMF/CREMESP (02)

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ESPECIALIDADES MÉDICAS.

Eram, em 2013, 387.289 médicos. Destes por volta de 180 mil são generalistas, e o restante, por volta de 54% são especialistas.
Mas o número de quase 180 mil generalistas tem que ser relativizados. Destes 46 mil são jovens até 29 anos que podem se especializar, ou provavelmente vão se especializar não grande maioria; nesta faixa de idade apenas 5% são especialistas. E a maioria absoluta dos generalistas tem mais de 40 anos, o que indica que não serão substituídos quando chega a idade, pois ao vermos a tebela CREMESC, p. 135 do relatório,verificamos que da faixa do 35 aos 54 anos a porcentagem de especialistas beira a quase 70 por cento. Ou seja, mesmo que não tivesse um onda de especialização, se se mantivesse um ritmo constante como o que até aqui, teríamos de qualquer maneira, 70 por cento de especialistas. Mas não é assim. Adib Jatene, no seu artigo para a revista da USP, que a maioria, quase a totalidade dos estudantes hoje, buscam a especialização. Como ele mesmo diz, especialistas não vão atender a população carente e vão praticar uma medicina de luxo.

“A tendência de crescimento dos especialistas
pode ser observada entre os mais jovens
– 52,06% dos médicos entre 30 e 34 anos
já estão com título. Nas faixas etárias seguintes,
a porcentagem de especialistas cresce até
atingir 72,20% entre aqueles com 40 a 44.”  CFM/CREMESP

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links

01. O Ensino Médico no Brasil, por Adib Jatene
02. Demografia Médica no Brasil, vol. 2, Cenários e Indicadores. Relatório de pesquisa, fevereiro/2013 CFM/CREMESP

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pingback

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01. https://jornaldoporao.wordpress.com/2013/07/29/mafia-de-branco/
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A.(1917) junho: é possível achar algum ordem no caos? (anotações)

19/12/2013

Gostaria que fosse lido e questionado sobre essas anotações. E procurarei responder, como vou fazer, logo em seguida, com algumas objeções de Léo, de Campinas. O propósito primeiro destas anotações é deixar registrado o que vi e pensei sobre as manifestações, assim como um diário ou arquivo pessoal. Um dos propósitos parque criei o jornaldoporao. Registrar. E o desejo de escrever, mesmo que muito preguiçosamente. Este texto aqui, são mesmos anotações, feitas de um fôlego só, sem correção, sem reeleitura. Hoje mesmo, 19/12/2013 vou começar a dialogar com Léo, pois o que mais espero é que alguém comente para me forçar a aprofundar esta reflexão.
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01.As jornadas de junho em 1917, dirigidas pelo ultradieitista General Kornilov, colocou mais de um milhão nas ruas de São Petersburgo, Trotsky narra na História da Revolução Russa, que o partido bolchevique, ele e Lenin, puderam ler os cartazes, aos milhares, pedindo “Paz, Pão e Terra”, a palavra de ordem central do Partido Bolchevique. O povo nas ruas, dirigido pela direita golpista, era bolchevique inconscientes. Diz Trostsky que essa manifestão, com esses cartazes e faixas “bolcheviques” indicavam que estavam na hora de se preparar para tomar o poder, mesmo que fossem cartazes empunhados por um massa dirigida por um General direitista, golpista e anti-bolchevique, pois grande partes dos cartazes atacavam o partido bolchevique como agentes alemães, pedindo sua exterminação e morte como traidores da pátria.

As jornadas de junho de 2013, que tomaram todo o país, não tinham palavra de ordem central. Fragmentos e caos são sua marca. Ler o que aconteceu em junho teremos que lançar mão dos método da arqueologia ou da paleontologia. Com pequenos fragmentos tentar montar algumas peças mais significativas dessa cultura que se expressou em junho. Sabendo que é parcial. Por maior sucesso na montagem, ainda assim será fragmentário.

Junho de 2013 não tem texto. Tem fragmentos de textos. Milhares de fragmentos. Muito lixo ideológico. Convívio de “culturas” diferente. Manifestações direitistas, nacionalistas, moralistas e reivindicações as mais díspares e contraditórias.

Acho que nesse caos deveríamos achar o eixo. O que disseram, centralmente, as manifestações de junho de 2013. É possível achar alguma ordem nesse caos?

Não basta, para mim, comemorar que foram grandes manifestações. Que o país adormecido acordou. Que o país não será mais o mesmo. São coisas que dizem pouco, exatamente por serem muito óbvias. O ponto de partida é aí, não o ponto de chegada. Não é possível fazer um balanço da participação da esquerda, pois ela é quase nula, menor talvez que o seu próprio tamanho. As grandes manifestações de junho, não alavancaram a pequena esquerda brasileira. Pelo contrário, parece que essa pequena esquerda reduziu sua importância. Apequenou-se o que já era pequeno.
O que tem de importante para a classe trabalhadora e à classe operária nesse movimento, onde ela estava ausente?
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02.Onde estava a revolução em junho de 2013?

Monte de cartazes precários

Comumente acostumamos, pleonasticamente acostumamos, a analisar todos os acontecimentos pela questão da crise econômica mundial. Os próprios ideólogos da burguesia, a pequena burguesia universitárias, os jornais burgueses e as publicações da esquerda de diversas matizes, desde 1972 que leio tais coisas, falam sempre num economês. Uns buscando saída para crise capitalista outros para a saída revolucionária.

Mas a crise econômica estava ausente das manifestações de junho no Brasil. Mas não quer dizer que não houvesse crise profunda nesse dominação capitalista no Brasil. Mais apropriadamente, qualquer falta de saída é a crise. É crise geral e sem saída. A ausência da classe operária na cena é a crise mais profunda. É um crise política maior que qualquer crise econômica. Por mais que não sinta qualificado para isso, não conseguiria ficar sem dizer que todas os levantes no oriente médio, alguns colossais e sangrentos, ao final, pioraram a situação da classe operária e trabalhadora. Até mesmo a mais elementar democracia burguesa saiu derrotada desses grandes levantes. E a perspectiva de organização da classe operária mais reduzida. No Egito, as manifestações que derrubaram Mubarak contavam com a militância da irmandade muçulmana, até dita nos jornais como moderada, que não queria o poder religioso. A Irmandade no governo teve que ser derrubada pelos militares que dizem querem impedir um governo de autocracia religiosa. Hoje, na oposição, a Irmandade Muçulmana, seria, por critérios democráticos a legítima herdeira do poder. Na Síria o drama é mais patético. A oposição em guerra, por dois anos, como milhres de mortos e atrocidades mil, é formada por setores imperialistas e Al Qaeda. A bárbarie aliada a super-barbárie e vice-versa. E novamente a crise aqui é sem saída. E tem o nome. A ausência de qualquer eixo mundial da luta de classe. A crise é claramente a crise de ausência do setor fundamental para a saída: a ausência do partido mundial da classe operária, por menor que fosse. Nada mais atual do que o vaticínio de Trotsky de que estamos mais perto da barbárie do que do socialismo.

Essa digressão é para colocar que o Governo Dilma, questionado nas ruas em Junho, despencando sua aprovação nas pesquisas, nada tinha ver com crise econômica e, pasmado, vejo que nem um crise moral ou política. E agora, neste mês de dezembro, tem seus índices de aprovação bem satisfatórios, para ela e para o PT, quando em junho parecia que era o fim dos dois.[veja dados pulicados no momento que estou escrevendo: 01/12/2013 – 03h00 Aprovação de Dilma sobe para 41%, mas 66% pedem mudança]. O texto diz que a aprovação de Dilma beira a 50% e que 66% querem mudanças. Ou seja, junho de 2013 continua vivo, no entanto ainda querem Dilma, pelo menos parte dos que querem mudança, querem mudança com Dilma. Junho de 2013 foi um ensaio de uma peça sem texto. Um espécie de mímica ou expressão corporal. Potente, assustadora pelo número, pujança e contradições, mas que para ser entendida e continuar seu trabalho de sapa é preciso de um texto. Um caos de bandeirolas, cartazes díspares e contraditórios, que é preciso antes de mais nada podar as frases que não prestam e procurar as que dão um rumo.
Se a crise econômica não foi elemento propulsor da manifestações de junho de 2013, se não é crise política os embates de classe e frações de classe poem em cheque o governo e a governança, se não é uma crise moral, como um corrupção inaceitável que comova e mobilize (cujas saídas são medíocres, com substituição de uma corrução pela outra. E no Brasil a corrupção é epidêmica desde o império, aumentando na república, crescendo ainda mais nas ditaduras tanto de Vargas como dos militares de 1964 e na democratização tivemos Sarney, atacado por Collor e Lula, por ser um governo corrupto, Collor derrubado por corrupção, sob fogo do hoje hípe-rcorrupto PT e, ainda teve o super-badalado governo FHC, que tornou a corrupção algo irrelevante diante da sua tarefa de entregar o país ao imperialismo).

Que mistério é esse das manifestações de Junho de 2013
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03.Uma digressão necessária para que o texto avance

No mundo medieval, na Europa, Deus é o centro. Se podemos falar em luta política ela se dava no seio da religião. Mesmo as lutas políticas da burguesia nascente,principalmente da burguesia comercial, as disputas pela divisão do novo mundo, vão passar por disputas no seio da religião católica e sua oposição protestante.
No século XIX, o demiurgo é o Estado. A Revolução Francesa, a Americana que a antecedeu, põe no centro o estado nacional. E o termidor naopoleônico, o retrocesso na revolução, vai ser um elemento para levar a revolução para a Europa inteira. Napoleão vai aparecer para os intelectuais e filósofos alemães como a encarnação do espirito absoluto, como a chegada da revolução francesa, a última palavra do progresso. No entanto reacionário. Apesar que só um ato mais reacionário ainda fundará o Estado alemão na figura de Bismarck. Essa tarefa burguesa de construção de seus estados nacionais permear todo século XIX e na África será o sonho revolucionário da década de 70. E é talvez o debate central que envolve os grandes revolucionários de século XX, Lênin, Trotsky e Rosa Luxemburgo. E dará o triste colorido da atuação de Stalin e do estado burocrático na União soviética. E com o fim da chamado socialismo real, em meio a mais selvagem neoliberalismo e globalização, é ainda a questão nacional, dos estados nacionais que dará o tom, com guerras regionais, como Bósnia e tantas outras.
Assim como Deus está morto, apesar de suas religiões crescerem exponencialmente. O Estado burguês e toda sua potencialidade, como na época da formação da burguesia como classe hegemônica, está morto, mas continua sendo um questão pendente e profunda. Esta é, para mim, a tradução da dominação imperialista
Tanto esse morto Deus medieval, como esse estado burguês putrefazendo-se, gestor mesmo da barbárie, continuam sendo o mistério por trás dos levantes, das decadências e das dores do mundo. E tem um nome não mais pronunciado, imperialismo.
A ausência da palavra faz parte, hoje, da estratégia de dominação no terreno ideológico. O pensamento único, hoje, o politicamente correto exige que não pronunciemos a palavra imperialismo. A última vez que isso foi possível numa escala significativa foi na America Central, de Cuba, passando por Nicaragua e El Salvado, nos anos 60 a 80. A palavra imperialismo sumiu do mapa há mais de 30 anos. Quem tem menos de 40 anos talvez nunca ouviu tal som. E sem texto não há drama, nem comédia, nem tragédia a ser encenadas.
A burguesia, na época de dominação imperialista, é reacionária por completo. Serve dos Estados da autocracia religiosa para impor sua dominação. O Estado laico não lhe diz mais respeito, como fora na revolução francesa. As ditaduras foram seu método de governo em quase todos países atrasados em todo o século XX. E no século XX é o terror de Estado a sua política mais visível. Nos Estados Unidos tudo é pretexto para castrar a democracia. A Rússia burguesa de hoje é um autocracia mafiosa e herdeira da estado policial stalinista. Na China algo assim. E é com seu lixo cultural, lixo tecnológico que se apresenta ao mundo. E as drogas e as armas dão o sentido para a vida sem sentido de grande parte da juventude, até mesmo nos país chamados desenvolvidos. E grande parte da acumulação e circulação do capital se dá pela indústria do lixo cultural, do tráfico de drogas e armas(os dois últimos dependem de altos financiamentos bancários). E sobre nossas cabeças dominadas o terror de estado, as potencias nucleares, as armas químicas, as armas bacteriológicas, as armas da nanotecnologia capazes de extermínios invisíveis. A contra-revolução tomou nosso cérebro, em escala planetária. O nome da contra-revolução, hoje, é terror de Estado. O nome que não faz mais parte do nosso cotidiano, nem mesmo na nossa cultura erudita ou mesmo os textos revolucionários é imperialismo. Se o século XX foi chamado de século das guerras e revoluções. Talvez esse século que se inicia possa ser chamado do século do Terror. Terror de Estado. Terror imperialista. E também Terror das organizações religiosas, querendo um estado “medieval”, para colocar no lugar do vazio que a burguesia deixou, quando abandonou, para sobreviver como imperialismo, quase todas as chamadas tarefas democráticas. E sob o Terror, principalmente o terror do Estado, vivemos numa sociedade que se traduziria facilmente pela palavra horror, horror, horror.
50 mil mortes no trânsito, num ano no Brasil, 50 mil mulheres mortas em 10 anos no Brasil, tendo como a maior causa de morte entre jovens o tráfico de drogas. Terror, horror e barbárie.
Distorcido, confuso, caótico, esse horror permeia as manifestações de junho. E o nome, talvez difuso demais disso tudo, circulando no interior das manifestações, é o medo do futuro. O medo dos sem futuro. O medo dos sem saída. As manifestações de junho de 2013 sem texto, sem som, sem cor, sem saída.
Se Deus está morto, tudo é permitido. Se o Estado Nacional de revoluções de libertação está morto, qualquer dominação é permitida e aceita naturalmente. O que chamaram de pensamento único é, para mim, a naturalização da dominação, da miséria e do horror, sob esse deus moderno, o Terror de Estado.

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04.A juventude, a maioria de classe média, foi para as ruas em Junho carregado um caos de papeizinhos acanhados. Cada um escrevia o que queria ou que leu na internet. Os cartazes minúsculos para participar de imensas manifestações é uma confissão da mediocridade de cada indivíduo que estava ali, sem perspectiva. Talvez a grandeza desse movimento não seja possível ler nos cartazes, como Lênin e Trostsky fizeram em junho de 1917. Até mesmo as manifestações da direita contra os partidos repercutia muito mais em quem não tinha qualquer sentimento ou pensamento de direita. E a própria direita ali era órfã, pois seus partidos mais tradicionais, como DEM está no governo petista. Os religiosas das novas seitas pentecostais fazem parte da base do governo Lula e Dilma. Uma manifestação de órfãos.
A ausência da burocracia sindical é uma outra política ser analisada. Estava ausente porque não sabia o que estava acontecendo. E na raiz das manifestações não havia nem a mais incipiente iniciativa dos sindicatos. Nem mesmo os dirigidos pelos pequenos setores da esquerda mais radical. A ausência dos sindicatos faz com que analisemos que eles estão completamente por fora do país real e vivem apenas às expensas do governo e dos seus cargos no aparato sindical e estatal. Vivem a mesma crise sonolenta do aparato estatal. Sem política, sem qualquer programa que não seja se manter no poder enquanto der. Daí poderem sofrer uma repulsa que os partidos sofreram.
Os Partidos. A repulsa aos partidos era quase unânime. Em Campinas a esquerda, foi expulsa do ato, ou melhor achou por bem cair fora antes que apanhasse bastante dos manifestantes impulsionados pelos gritos da direita(agrupamentos de direita que também não tem partido, órfão. Mas que podem, com seus pequenos grupos, assenhorem dos impulsos mais obscuros das manifestações de junho de 2013).
Aquele momento pedia clareza e agilidade.
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No CongressoNo Congresso Nacional
05.Sabendo da repulsa ao políticos, repulsa momentânea, hoje sabemos, ao Governo Dilma, os manifestantes aos milhares que caminhavam para o Congresso Nacional precisavam que se apontasse uma saída. Os sem futuro e os sem saída que é toda a juventude brasileira (não esqueçamos que o conceito de jovem hoje é bem mais elástico que em 1968. Hoje um indivíduo de 40 anos podem estar começando sua carreira. Outros de 30 nem mesmo tem família constituída, ou já a desfizeram. Sem perspectiva, sem deus, sem família, podem caminhar com os sem saída e perspectiva, juntando com os sentido para a vida – os drogados, os doentes nervosos, os que sofrem depressão, os desesperados, nem porque não têm emprego, ou não têm o que comer, mas porque não têm futuro, nem mesmo uma simples palavra que aponte o futuro.Talvez 50 milhões de doentes crônicos no Brasil. Os sem texto).
Ali caminhando para o Congresso Nacional o grito seria Constituinte Livre e Soberana, com liberdade de formação de partidos e candidaturas avulsas, para nos livrar, já, de todos esse políticos. E ali mesmo avançaríamos alguns gritos entalados, exigindo que as tarefas democráticas avançassem. A primeira delas, nos livrar da dominação imperialista. E devemos ainda voltar a isso. Não há qualquer saída, nem a mais comezinha, nem revolucionária, a não ser se livrando da dominação imperialista.

Mas repito, antes de mais nada centralizar a vontade de se livrar desse políticos corruptos, mas antes de mais nada, inoperantes, precisava-se de apontar para uma nova legislação, sobre todas as coisas, todas as carências, todas as reivindicações. O povo não, acho, odeia os políticos porque vivem votando coisas nefastas contra o povo. Não é uma reação de ódio. Mas é uma reação diante da inutilidade deles que não fazem nada para o povo.[Os programas policiais e populares exploram a exaustão esse imobilismo dos políticos. Evidentemente pedindo legislações mais reacionárias contra o crime, contra menores, etc.] Esse vazio, inclusive é muito perigoso. Um direita que não quer congresso algum, democracia nenhuma, pode muito bem ter um audiência muito superior ao seu número. E na verdade se formar uma direita a partir dessa letargia. Ou seja, os políticos congressuais nem mesmo tem força para defender o próprio congresso. Quando os manifestantes “tomaram” o congresso nem mesmo houve reação, ou qualquer alarme. Na Alemanha o povo correu para as ruas para ver o incêndio do se Congresso e festejar a “coragem” dos nazistas.

O momento passou. Não. Continua tudo de pé. Já que nada foi resolvido, nem mesmo como engando.
Dilma e seu Staff leu corretamente. Imediatamente propôs uma constituinte temática. Logo abandonada, pois ninguém queria isso na classe dominante. E os de baixo não tinha ninguém para se interessar por isso. E tudo deveria continuar como antes, e hoje sabemos, até mesmo a popularidade da Dilma. E Dilma, no meu ponto de vista, foi lendo a realidade de junho de maneira eficiente. Depois veremos.
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06.Sobre a Constituinte Livre e Soberana

A pressão da convocar uma Constituinte, na década de 80, veio diretamente das mobilizações pelas Diretas-já em 1984. A vontade do povo foi fraudada em 1984 por um congresso que manteve a eleição indireta. Acho que não devemos ignorar o desejo de democracia de um povo e dos trabalhadores. A a democracia burguesa é fundamental para avançar a organização dos trabalhadores, operários e de todos os setores oprimidos. O PT, na final da Constituinte de 1978, não assinou o texto em protesto contra suas limitações. Foi correto. Mas não esqueçamos que a liberdade de organização e manifestação é uma das cláusulas daquela constituição saída ali. As próprias manifestações de junho de 2013, são herdeiras da luta pelas Diretas-já, que eram contra a ordem política da época, os políticos corruptos e inoperantes da época, contra os políticos da época que comiam na mão da ditadura militar. Naquelas manifestações de 1984 o a Direção do PT põe o olho grande no Governo, decide criar um direção, com embates e mais embates, para construir um centro para ganhar o Governo. Deflaga-se ali o processo para construir a Articulação, articulando-se no PT e nos sindicalista da CUT, para domesticar completamente o PT. Um processo que há meu ver já estará consolidado em 1988, mesmo o PT ainda sendo obrigado a fazer movimento tímidos à esquerda (como não assinar a nova Constituição). Não me lembro de outro momento do PT indo à esquerda.
O grande esforço para construir o PT drenou todas as energias dos trabalhadores mais enérgicos e organizados. E na maioria organizados pela Igreja Católica, organizados em comunidades e pastorais. A esquerda toda, e infelizmente aos trotskistas sucumbiram a essa imensa pressão que era o poder de atração que exercia o PT sobre os trabalhadores. Grupos trotskistas ficaram no PT muitos depois de 1988, quando ficava claro, pelo seu regime interno e pela suas propostas públicas que o PT era, já aí, uma partido parlamentar, e que fazia de tudo para se livrar da pressão das bases. Uma das maneiras de impedir, foi transforma se regime interno, seus encontros e congressos, em votação em urna, sem debate, sestm disputa, esvaziando suas instâncias para que elas sucumbissem se sentido inúteis. Ou uteis apenas para escolher a direção e textos que já estavam escolhidos em conchavos bem articulados. E o PT morreu para a classe sem qualquer alternativa no lugar.
As chamadas esquerdas, no processo constituinte, não tentou construir organismo de base, nas fábricas, repartições ou escolas, para criar organismo de duplo poder, que num primeiro momento fossem para fazer com a constituinte ouvisse as reivindicações. A força persuasiva do PT esvaziou a vontade de construir algo. Tudo ficou na mão da direção do PT e, pasmem, dos seus pouquíssimos parlamentares.
No entanto a fraude não foi completa. Para fraudar a constituinte tiveram que atender centenas de demandas advinda da vontade popular.
Então deveríamos construir os organismos de base antes de pressionar para convocar uma Constituinte?
Qualquer organismo de base, mesmo nua situação revolucionária, não tem poder para convocar uma constituinte a não ser se tomar o poder. E se tomar o poder uma constituinte não está descartada, mas é uma constituinte pós-revolucionária, para negociar uma forma de governar com aliados refratários ao poder da classe operária. Por hipótese, no Brasil, ou nos Estados Unidos, se se tivesse um grande partido negro. Ou um partido camponês em países de economia agrária, como na Bolívia. Ou mesmo reivindicações tribais em certos países africanos. Ou mesmo reivindicações separatistas como na Espanha de hoje. Cabe uma constituinte depois de revolução. Antes da revolução, independente do grau de organização da classe trabalhador, operários e seus aliados, ela é um instrumento, dentro da democracia, para permitir centralizar reivindicações democráticas e populares e demonstrar para a nação inteira que a burguesia é incapaz de resolver as mais elementares reivindicações. E no processo mesmo de pressão para sua convocação, no momento de sua instalação, dentro dos seus debates, preparar a classe operária, os trabalhodores e os aliados, para se organizar sob um programa de tomada do poder para resolver estas questões colocadas.
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07.a questão nacional, a questão das questões democráticas

Como traduzir a luta anti-imperialista para a linguagem comum. Mesmo porque a tarefa de “explicar e explicar pacientemente” quase sempre é uma questão de traduzir. Ou ainda, quando Marx no Manifesto Comunista diz, mais ou menos assim, que a tarefa dos comunistas não é fazer revolução, mas atuar no processo revolucionário em curso levantado as palavras de ordem que apontam para as necessidades históricas da classe operária. Há, todos nós já conhecemos, processos revolucionários sem a presença de um comunista sequer, como foi a luta guerrilheira em Cuba, ou insurreições populares, ou revoluções políticas ue se inciam, como Tchecoslováquia ou Hungria, onde não há presença de uma organização revolucionária, mas que precisa, mesmo que fosse de pequenos grupos colocando as bandeiras revoucionárias. O primeiro exemplo disso foi a Comuna de Paris.
A luta anti-imperialista é a saída que concentra todas as necessidades históricas para avançar na revolução. Não é possível atender qualquer reivindicação mais significativa, as vezes as mais elementares, sem um rompimento com o imperialismo.
E onde estava a luta anti-imperialista nas jornadas de junho de 2013. Na Rússia de 1917 estava em “paz, pão e terra”. Três palavras que concentravam a luta democrática e anti-imperialista. Paz: porque a guerra era imperialista (mesmo que confundisse e almalgamasse com um certo pacifismo), “pão: óbvio, porque a fome grassava, até por conta da guerra”, Terra: porque a maioria do povo russo era camponês, na ordem de 80 por cento da população. Cadê as palavras de ordem socialistas? Todas elas eram no sentido de que só a classe operária, organizada e assumindo o interesse de toda a nação, poderia resolver essas tarefas. A classe operária, na voz do Partido Bolchevique, falava em nome de todo o povo.
E nas jornadas de junho de 2013 que reivindicação ou desejo falava em nome de toda a nação e colocava as massas em choque com o imperialismo?
A classe operária mobilizada pelos seus interesses imediatos é sindicalista. E se minoria numa sociedade, será incapaz fazer qualquer revolução. A classe operária e os trabalhadores, pelo lugar que ocupa na produção, pode, por essa força econômica, dar soluções para toda a nação oprimida e para a opressão em escala internacional. Mas o território concreto da revolução é o território nacional. E o terreno da revolução é social-democrata, porque é uma luta política pelo poder. Greve Geral não faz revolução, como explicou Rosa Luxemburgo, em “Sindicatos Partidos e direção”. É a revolução em curso que faz a Greve Geral, em particular a Greve Geral política, que permite avançar na dualidade de poder e impulsionar os organismos de duplo poder.
Na década de 80 inteira, organização tratkista, como a Conversgência Socialita, fazia um fetiche tremendo quanto à Greve Geral. Era uma espécie de Deus ex-machina. Com a Greve Geral tudo estava resolvido. Um fracasso total de política, ou falta dela. Imobilizava todo mundo diante de algo que cada vez parecia mais inviável. Parecia porque não existia essa luta revolucionária em curso. A greve de 1979 e 1980, começando em S. Bernardo do Campo, tinha seu conteúdo revolucionário expresso no desejo de derrubar a ditadura. Em 1980 era totalmente explícito. A junção da reivindicação econômica com a luta política, mesmo que apenas como um desejo não expresso, como foi mais ou menos em 1979, é que fez a grande potencialidade política das greves do início. Não é fortuito, nem coincidência, que Lula em 1978 falava que jamais participaria de um partido político, para esta na frente da fundação de um, o PT, já em 1980.
E o PT nascia para desenvolver o que estava intestino ou não claramente explícito nas greves de 1979/1980, como que para centralizar e dar voz ao movimento, sendo fruto de um processo revolucionário, e ao mesmo tempo, pela composição e pelo programa que a sua direção tentava construir, e construiu, para frear a revolução e colocar tudo a serviço da ordem. Houve um dos primeiros manifestos do PT assinado por Enos Amorina, grã-pelego de Osasco, Cid Ferreira, arqui-pelego de Campinas(traidor da greve de 1979 e expulso a cusparada do sede do sindicato) e presidente do sindicato dos metalúrgicos de Santo André,qualquer coisa Marcílio, naquele momento estreito aliado dos trotskistas da Convergência Socialista. Este manifesto, assinado por três pelegos traidores, nada mais era que um acinte e traição da vontade expressa nas greves. No entanto, não serão eles que vão construir o PT. Isso é para dizer que nem a revolução, nem a contra-revolução vão por caminhos retos. E que o PT nunca abandonará essa dualidade: em expressar uma vontade revolucionária e uma luta encarniçada para colocar o PT a serviço da ordem burguesa. Uma dualidade que acabou quando conseguiram colocar o partido dos trabalhadores a serviço da ordem e hoje, com as privatizações principalmente, cristalinamente a serviço do imperialismo.

Parece que a questão nacional morreu. A questão da terra foi esquecida e fraudada também pelo MST em aliança com o PT. Logo nenhuma mobilização popular coloca a questão da terra e se mobilizações, em grande parte, da classe média, jovem, urbana, nem mesmo se pronuncia contra. Um questão que não existe. E também esvaziada pelo aprofundamento do papel do agro-negócio na composição do capital, na ordem de 48 por cento. Na fundação do PT e da CUT as discussão giravam e as composições das direções se revolviam como os representantes dos sindicatos rurais. Parece que nem existe mais o sindicato de Guaíba tão importante nas greves dos cortadores de cana em 1979/80. Acho que um estudo vai comprovar que muitos sindicatos rurais desapareceram. E o próprio MST parece algo que caminha para a extinção.

A questão negra. Um questão democrática não resolvida.No meu ponto de vista, a segunda questão mais importante da luta democrática, e o aliado mais próximo da classe operária. E acredito nessa escala de valores. A maioria absoluta dos negros e seus descentes fazem parte da classe operária e dos chamados pobres.Portanto com o menor grau de heterogeneidade em comparação com qualquer outro setor aliado da classe operária. Grande parte do movimento negro das décadas de 70 e 80 foram cooptados pelo poder. E interromperam seu processo de luta independente, e como consequência, interrompeu o processo de formação de lideranças e organizações independentes. E as migalhas de cotas limitadas acabam atenuando a crítica de alguns. Ou até mesmo contentando outros. Esvaziando o movimento.

Quanto às mulheres quero escrever um parágrafo um box à parte.
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08.”É muito mais que 20 centavos”

Esses movimentos e reivindicações estavam nas ruas em junho 2013? Estavam. Difusos como tudo que estava manifestando lá. Fragmentário. Misturado. Caótico. Mas estava. Como?
Este é o motivo desse texto.
O movimento que se destacou foi o do passe livre, quando tudo começou em São Paulo. Logo havia dezenas de reivindicações na rua. Para dar conta de tal confusão o movimento de rua começou logo a gritar que “era mais que 20 centavos
Logo a questão dos transportes era um agudo problema, capaz de mobilizar inclusive que não usa transporte coletivo normalmente que parece o caso da maioria dos manifestantes. Logo não era mesmo só por causa dos 20 centavos.
Então o a questão dos transportes era a questão central ali colocada? A que deve ser desenvolvida. A que tem potencialidade de colocar no movimento geral, majoritariamente pequeno-burguês, necessidades históricas da classe operária e dos trabalhadores? – Como deve ser o papel dos comunistas. Acho que não.
O movimento dessa classe média é o movimento que colocou tudo. Tudo é o sem futuro, o sem saída, o sem esperança, o sem hospital, o sem atendimento médico, o sem moradia, sem isso, sem aquilo, mas antes de mais nada sem perspectiova.
E a uma questão de falar em coisas exequíveis. Que é possível crer que há mesmo solução. Na questão do transporte nas grandes cidades (mais de 1 milhão de habitantes) é impossível falar em estatizar transportes e ser crível, sabendo que economicamente inviável, mesmo no socialismo, manter um transporte tão caro e ineficiente. Só trens, metros, ou mesmo os simples bondes elétricos são viáveis. E não é uma questão que envolve toda a nação. A não ser que falemos em transporte fluvial e indústria naval para o norte, junto com energia solar, ou para o nordeste energia solar e trens inter-ubanos, e isso tudo junto, nas devidas proporções para o sudeste. Ao contrário, para um ataque ao imperialismo, no terreno ideológico, que pressupõe uma plataforma exequível, é preciso atacar a indústria automobilística, o transporte individual que torna as cidades um caos e faz um trabalhador voltar a trabalhar 12, 14 ou 16 horas, voltando a ser totalmente escravo do trabalho como o era antes da luta vitoriosa pelas 8 horas.
Além da cultura individualista e predatória do carro. Só estaríamos antenados com a época se falarmos em trens, metrôs, barcos e, em consequência, de energia solar e eólica. O máximo que vamos conseguir são os inoperantes corredores ônibus. Ou se formos muitos vitoriosas, falirmos todas as prefeituras com transporte estatizado, assentado sobre ônibus. Além de destruir a vida e o planeta com ônibus poluidores. Ou na melhor das hipóteses ônibus elétricos. Porque a invés de corredores de ônibus, propor, já, par este momento, corredores de trens nessas mesmas grandes avenidas? Ou um Tietê, em são Paulo, navegável, muito antes de totalmente despoluído e as suas marginais, com linhas de trens, modernos e rápidos? A brutalidade da burguesia predatório é em particular reproduzir os modelos perversos. Mesmo que isso custe 50 mil mortes por ano, e a maioria de jovens. Esse talvez seja o verdadeiro “custo Brasil” de que devemos falar.

A classe operária na voz dos seus pequeniníssimos representantes , organizados em quase seitas pequeniníssimas, isolados, tem a tarefa, a única realmente importante, que é descobrir o que interessa à classe operária que estava circulando ali. Vivemos uma situação bloqueada. Vivemos num mundo e aqui no Brasil numa espécie de fundo do poço ideológico. As palavras mais caras ao movimento operário de 200 anos nem mesmo podem ser pronunciada sem causar risotas, como se fosse algo pornográfico. Internacionalismo. Anti-imperialismo. ou até mesmo o relés solidariedade, a mesma que deu origem às primeiras organizações de apoio mútuo. E ao mesmo tempo discutimos grandes questões estratégicas. Tudo em vão, acho, se não falarmos ao coração do povo oprimido. Se não falarmos em nome de toda a nação.
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09.Olhar a realidade com os olhos do futuro e das metas históricas da classe operária, dos trabalhadores e seus aliados.

Logo precisamos de campanha sistemática para colocar no centro necessidades de todos os trabalhadores e que tenha vocação de soldar um aliança, para hoje e para a construção do socialismo, como todas as massas oprimidas e até miseráveis. Que una toda a nação. Que a classe operária possa dirigir esse processo, ganha do a hegemonia dentro desse movimento. Colocando o futuro como o centro do debate. E o futuro é o desbloquei do cerco imperialista. Ruptura possível com o Terror imperialista que paralisa e massacra a juventude e os trabalhadores e seus aliados.
Na década de 50 e um pouco antes, no rio e são paulo, qualquer greve na light colocava na rua o debate da luta contra o imperialismo. Getúlio, Jango e Brizola se notabilizaram por falar, demagogicamente, ou por necessidade de aliar-se com burguesia nacional, ou para paralisar o movimento operário, contando com o trabalho de sapa do PCB, emitiam ruídos nacionalistas aqui e acolá, e denuncias contra o imperialismo. E o imperialismo hegemônico dos EUA patrocinou o golpe militar de 64, para impedir que os trabalhadores fossem mais longe, caminhado dentro dessa demagogia janguista e do PCB. Vemos de novo que revolução e contra-revolução não são caminhos retos.
Poderia ser a questão do transporte, no caso estatização dos transportes, que realmente era uma aguda questão colocado pelo movimento.
Poderia ser a questão da saúde pública que é o caos. E aí Dilma responde, ou seja lê o movimento, propondo médicos estrangeiros. Qual um pode ver a falácia. Precisamos é de milhares de médicos generalistas, médicos de família, ou pé descalços, precisamos de acabar com subnutrição, verminose, ou lepra no Acre, ou mesmo a simples saúde dentária. A igreja Católica, propagandizando o soro caseiro e a multimistura, salvou mais vida no nordeste que toda a política governamental ou médica de toda história do Brasil (é um chute, mas se pesquisar vão confirmar isso). A medicina privada é um crime. Ela vive e especula com a doença e a morte, macumunada com os grandes laboratórios multinacionais/imperialistas. A medicina pública, junto com o elitismo da privada, aliada com os laboratórios, é uma gritante e eficiente campanha de extermínio de pobres e em particular das crianças e particularissimamente dos idosos (os mesmos que sustentaram o Brasil com seu sangue). Logo deveria ser a campanha central. Inclusive coloca, ao meu ver, com mais potencia a luta anti-imperialista e pode falar em nome de toda a nação. O programa dos médicos da Dilma é uma demagogia nesse sentido. Mas na verdade nem de longe raspa no problema.

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10.Então que mágica é essa, que mistério houve empurrando milhares de jovens de classe média e alguns da periferia. Esses da periferia, os black blocks, ou mascarados, a fim de enfrentar a polícia na sua tática, espontânea, nem por isso menos suicida e desesperada.
Nem era a palavra mais explícita. Não fazia parte da maioria dos cartazes que vi. Mas ao meu ver é centro e estava presente lá por qualquer ângulo que se olhe o problema brasileiro de país dominada pelo imperialismo.
É tão modesto chamar de problema da educação. Mas é o olhar que devemos ter sobre a realidade brasileira, dominada, bloqueada pelo imperialismo. Nenhum reivindicação será possível ser romper com o imperialismo. Nesse momento sem guerra de libertação nacional em qualquer lugar do planeta (talvez à exceção e quase sem saída plausível, estão os palestinos). No entanto, libertação nacional é centro da política revolucionária na época imperialista.
Como traduzir isso nesse fundo do poço ideológico?
Alguns países deram passos na sua relativa e estreita libertação do jugo imperialista quando para sair do atraso crônico investiu em educação e tecnologia própria, mesmo que tecnologia de segunda linha e super-exploração da classe trabalhador como na China. A Educação é o carro chefe os chamados tigres asiáticos, imunes, em décadas às crises capitalistas. Tudo no marco do capitalismo e de papéis subordinados a ele.
Proponho que todas as palavras de ordem, o mais simples cartaz, a própria bandeira brasileira enrolada no corpo de uma manifestante idiota, ou até mesmo da direita que lá estava, sob o ângulo da educação para a libertação nacional e a luta anti-imperialista.
Como? Será substituir a realidade pelo desejo, algo completamente paralisante e ridículo? Vejamos. Desdobremos. Argumentemos. Mesmo que a jornada seja longa.
Vamos pegar do mais geral e chegar no mais particular.

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11.Para romper com o imperialismo é preciso uma ciência, uma tecnologia e uma cultura própria

Tentarei escrever pequenas teses.

a. A educação e o professor ocupam o lugar que ocuparam a religião na idade média, e o Estado para burguesia, como elemento centralizador da vontade de toda a nação.

Vontade de avançar para o futuro, completamente impossível com a dominação imperialista. Vontade explora todas as potencialidades da nação, no caso Brasileiro, água, florestas, sol e suas ricas manifestações culturais (em particular as festas).

b. Educação e Ciência, coloca o laicismo no centro da questão,

quando se desenvolve os mais nefastos obscurantismos religiosos, no Brasil, agudamente na África, e epidemicamente no Oriente Médio; O laicismo, no Brasil, é uma potência a ser explorada urgentemente; nada, na que tange as tais super-estruturas, tão eficiente contra o socialismo e o internacionalismo do que um Estado religioso ou os retrocessos que vemos em busca dele (como Egito). É um elemento contra-revolucionário, uma volta a épocas anteriores às revoluções burguesas; que nos obriga a por em circulação ideários da revolução francesa. E o imperilalismo, usa, manobra, e se mantém alicerçado nesses regimes autocráticos/religiosos, veja o papel Arábia Saudita e os estados Unidos, e outros também.
c. A educação não provoca de imediato um boom na mobilidade social. Mas os trabalhadores e principalmente a classe média sabem que estão condenados à paralisia, ou mesmo jogados fora do tal mercado de trabalho, se não tiverem uma educação continuada. Hoje isso é um senso comum universal. E verdadeiro. Vi pesquisas que mostravam que em Brasília a educação de multiplicado os salários de 22 por cento da população. Suponho que o inverso deve acontecer noutros estados, onde a falata de educação escolar deve jogar milhões na falta de perspectiva.

d. uma carreira nacional de professores. Mas eu acho que é essa a campanha central que deve ser desenvolvida e dela derivar o debate que envolve as questões nacionais e a luta anti-imperialista.

Campanha que  obriga os outros debates, e pode ser o elemento que faltava para construir um movimento amplo, ca permitir falar em nome de toda a nação. Pode ser, acho, o fator para construir o partido operário, em particular na juventude operária e trabalhadora. Se ninguém, parece-me, falou nisso no meio das mobiliações de junho de 2013. Mas no entanto acho que estava lá em potência. Porque será que, logo em seguida, eclodiram o movimento dos professores no Rio de Janeiro, com apoio de população e dos black blocks? E colocavam o governo Sérgio Cabral em questão. Mas o jogo é outro. É uma questão nacional, de desenvolvimento nacional e de luta contra o imperialismo, por um ciência, uma tecnologia e uma cultura própria.

Luta contra a burocracia sindical.

Uma carreira única dos professores esvaziaria as burocracias estaduais e locais. Não esqueçamos que a burocracia sindical dos professores, principalmente da APEOESP, deram os chamados quadros para administração petista. Dirigiram a CUT e produzem deputados em profusão (gostaria até de saber quantos, mas são muitos). Lutar contra a burocracia sindical não basta um diagnóstico, mostrado seu papel nefasto e contra-revolucionário, o que todas as tendências trotskistas sempre fizeram, por décadas, desde que tive contato com essas tendências, sempre fizeram esse diagnóstico. E nas greves de 1979/80 eram os principais impulsionadores da luta contra a burocracia. No entanto essa burocracias continuam intactas em muitos lugares, como metalúrgicos de São Paulo, ou renovadamente mais eficientes no caso dos petistas e cutistas. “não dá prá vencer satã só com orações”, como dizia Aldir Blanc. Acho que vencer a burocracia é conseguir criar uma plataforma que fale a amplas massas e que eles não possam carregar. Para assumir tal plataforma seriam jogadas no furacão revolucionário. Vou repetir à exaustão, o olho do furacão revolucionário é traduzir tudo em luta anti-imperialista. No mundo de hoje o olhar é a educação, o agente imediato é o professorada, os estudantes, os deserdados de cultura e perspectiva, os jovens. Jovens operários, jovens trabalhadores e jovens da classe média (lembrando aqui, o conceito de jovem, hoje, vai para muito além dos adolesce

A carreira única dos professores coloca a questão o orçamento para educação como um questão nacional e que desemboca no congresso. E que coloca, sempre, o próprio governo em questão, e a sua posição diante do imperialismo. Sua vontade de romper ou não.Uma simples greve salarial seria sempre um palanque para grandes questões nacionais.

Para lutar contra as desigualdades regionais.

Na esqueçamos que o imperialismo também explora e fossiliza as desigualdades entre as nações, mas também sabe explorar bem as desigualdades regionais. Sabre explorar as contradições internas. Sabe como f orça uma migração interna para explorar mão-de-obra barata e desqualificada, quando interessa. Portanto as desigualdades entre as regiões e “províncias” provoca uma questão central da divisão no interior da classe operária e trabalhador. Pegando São Paulo como exemplo, seria uma espécie de imperialismo interno. Que se desenvolve explorando e oprimindo os outros estados da federação. Essa carreira única permitira uma mobilidade dos próprios professores que escolheria em que estado se fixar para dar aulas e produzir conhecimento. E tarefa principal dos professores seja produzir conhecimento e cultura. Se um professor do berçário que produza conhecimento sobre educação da tenra infância, que faça doutorados sobre isso.

Criar um currículo mínimo obrigatório; Na carreira nacional todos seriam professores.

e. 100 por cento de estudantes do ensino médio nas universidades públicas,mantendo a cota para os negros , conforme a população negra e descentes em cada região ou cidade:

Mais vagas. Para mais vagas: ensino noturno, já, em massa. Criação de novas universidades, depois de um debate e levantamento nas escolas públicas. Universidades temáticas. Consequentemente fim do vestibular. Estatização das escolas privadas.  Aqui uma argumentação necessária. Falar em fim do vestibular a ceco parece algo impossível, ou até impertinente, já que muitos jovens vem o vestibular com algo limpo ou onde passa o melhor, pelo critério elitista da excelência.  100 por cento de estudantes das escolas públicas na universidade, ou sistema público de ensino do elementar a universidade, todo ele público, esvazia essa discussão de mérito e coloca a questão no âmbito da igualdade de direitos. E esvazia tanto a questão do ensino privado que amacia o caminho para que a questão da privatização das escolas públicas seja uma derivação da primeira. E 100 por cento nas universidades advindo da escola pública coloca a questão do acesso como uma questão de classe, os pobres, os operários, os trabalhadores e classe média desde que queiram terão acesso. É preciso de mais vagas, é preciso estatizar as escolas privadas.  Exigir as cotas para negros, mesmo com os 100 vindos da escola pública é porque, mesmo vitoriosa, um luta dessa demoraria algum tempo para criar vagas para todos, logo é preciso manter a questão de cotas para negros.  E colocar as escolas e universidades sob a ótica da luta anti-imperialista só pode ser uma tarefa estatal e federal. É um ataque direto, uma desconfiança generalizada contra o ensino privado. Assim justifica-se obviamente o fim do vestibular. Fim dos vestibular justifica-se com luta por vagas para todos. E a estatização das do ensino privado, justifica-se facilmente por precisarmos de um ensino voltado para as necessidades de toda a nação e também porque precisa-se de todas as vagas disponíveis para esse projeto. Seria os agrupamentos, partidos e organizações dos trabalhadores se alçando a carregar o projeto de libertação de todo o povo. E classe operária, com suas organizações, pode de alçar a isso, porque ocupa um lugar ímpar na produção, portando na capacidade de executar o que pensa.

f . As escolas devem ser todas escolas técnicas para adultos e jovens que assim quiserem.

Como subproduto cultura disso, com a vinda dos pais para a escola, haverá a possilidade de combate à violência. E aumenta a responsabilidade dos pais pela educação dos filhos, aliviando professores dessa carga inadequado.

g. As escolas devem ser todas centros culturais.

Espaços largos e sem muros (contra as escolas prisões).
As escolas tem que ter centros esportivos para toda a população, em horários estipulados na semana, e completamente abertas nos fins de semana. Todas as escolas tem que ter aprendizado de instrumentos musicais, para alunos, pais e moradores. A escola, espaço laico, deve se transformar no centro das preocupação e para onde se dirige toda população fisicamente e para ela deve se voltar todos os olhares.

h. A questão dos transportes passa pelas escolas e universidades..
Universidades temáticas que deverão ocupar de vários temas nacionais e regionais, como centro solucionar a questão republicana das diferenças regionais, que provoca divisões profundas no interior da classe operária, dos trabalhadores e seus aliados. Não esqueçamos nunca que o socialismo é republicano. Menos,claro, o “socialismo norte-coreano” que é uma espécie de reinado, e também o cubano tem um quê de dinastia.
Já comentado parágrafos acima, no norte falar em estrada por terra é uma aberração completa. Grande partes das estradas estão abertas que são os rios navegáveis. Parte do amazonas comporta até navegação de grande porte. É preciso universidades ali que estudem e construam projetos de navios e barcos. Inclusive tendo como centro a energia solar e eólica.
Cabe também na região do São Francisco que deveria ser recuperado, principalmente para a navegação, e não transposto e esgotado, como Lula começou a fazer e Dilma continua.
Assim como São Paulo precisa de transportes sobre trens urbanos. É preciso desenvolver, nas centros tecnológicos, formas mais baratas deles, formas de usar com mais eficiência a energia elétrica. Por exemplo, como evitar uma parafernália de fios enfeiando a cidade.
Como desenvolver uma forte navegação de cabotagem em todo literal, barcos mais baratos, com energia solar, combinada com outras fontes energéticas.
O transporte barato e eficiente, por exemplo, permitiria uma forte indústria pesqueira na região do São Francisco, em grande parte do Norte e em toda a costa. Baseado na economia familiar.
E evidente, todas essas universidades e escolas públicas federalizadas, seriam plenamente ocupada por ensino técnico necessário às atividades da indústria das pequenas famílias.
E repitamos, a questão dos transportes pode levantar uma grande batalha contra as indústrias de automóvel, as que conformaram o desenvolvimento brasileiro sobre estradas, estrangulando o país e criando caos urbano, e fazendo a classe operária voltar a trabalhar como o início da industrialização na Inglaterra. Com 2, 3, 4, 5 ou 6 horas dentro de ônibus e trens lentos e lotados, somando as 8 costumeiras e já exaustivas horas, soma-se 10 e até 14 horas de trabalho. Neste ritmo nem há vida e sem vida e sociabilidade a luta principal é arranjar tempo para dormir.
Claro que numa revolução socialista muito mais eficiente seriam grandes cooperativas. Mas lembremos sempre da política de Stalin e a mecanização forçada: há ritmos e prazos. Muitas vezes coletivização forçadas é o caminha mais curto para o fracasso, a brutalidade policial, o estado policial.
Mas nesse momento de campanha pós-junho, é preciso mesmo convencer os jovens sem perspectiva que há uma perspectiva para eles. Instaurar um profissionalização em todas escolas públicas e universidades, federalizadas, em horário diurno e noturno. E uma campanha de vagas para todos.
09. Universidades temáticas
Não é contraditório uma carreira nacional de professores, um ensino da infantil às universidades, totalmente federalizado e universidades e escolas técnicas temáticas, regionais. Isso permitira a emergência de vocações científicas e técnicas. E mais um elemento de na direção da quebra das desigualdades regionais. Mas há mais. Permitiria que a universidade e as escolas públicas pudessem desenvolver técnicas e mesmo descobertas, como por exemplo na biodiversidade, nas culturas se sementes, que nos levassem no caminha da ruptura com a dependência. A batalha por isso é a luta ideológica contra o imperialismo.
Evitar o risco de uma nacionalismo estreito é desenvolver junto a esse programa a luta para construir organismo de controle da classe trabalhadora, em todos os locais de trabalho, estudo e produção de conhecimento. Hoje a burguesia, a Montesanto, mantém segredos industriais, para sua dominação imperialista, macumunada e macumunados com governos vendidos e pró-imperialistas. E o próprio pensamento da elite formada nas universidades públicas elitistas e formadoras do cães de guarda do capitalismo.
Mas há uma programa que deve ser desenvolvido, preparando as bases para o um política socialista e internacionalista no poder. Nossas instituições escolares, federalizadas, devem ter como meta uma profunda cooperação com os países dominadas pela imperialismo, em particular todo o continente Africano.
Hoje é um combate ideológico, num governo socialista é a única diplomacia capaz de desenvolver um solidariedade entre povos e abrir vias para o socialismo. Nada vem antes nem depois. É já. O futuro se constrói no presente. O socialismo é hoje lutar por uma cultura de solidariedade entre as classes oprimidas e as nações oprimidas. As universidades de hoje, as de amanha devem estar voltadas para essa colaboração. Os lutadores socialistas, dentro de escolas e universidades, devem batalhar para que pesquisas, conhecimentos sejam voltados para essa solidariedade imediata, construindo bases para o internacionalismo. Princípio não devem ficar nas gavetas. Devemos forjar, dia-a-dia, situações para provocar e desenvolver nossa ideologia anti-imperialista, calcando-a em práticas cotidianas. Por exemplo, os revolucionários nas escolas devem propor e batalhar para uma ampla colaboração e solidariedade com os estudantes estrangeiros, principalmente dos países atrasados. Mas principalmente ainda da África, para quem devemos quase todo nosso chamado desenvolvimento econômico, quando surrupiamos 4 milhões de vidas escravas. Nossos socialistas na universidades devem estar na linha de frente dessa reparação: luta por cotas para os negros, mas lutar para abrir vagas para estudantes africanos. E obrigar a criação de linha de pequisa voltadas para África. Essa colaboração é uma luta que deve começar agora, já, forjando um ideologia, preparando as bases para um colaboração estreita no futuro, trabalhando hoje e sempre para aprofundar a solidariedade e uma unidade na luta anti-imperialista.
i.
Poderia, como já dissemos, ser a saúde pública a campanha derivada da chamada voz das ruas.

Dilma, novamente, tentou ler na direção correta. Primeiro com a demagogia dos médicos estrangeiros. Logo em seguida propondo 50 por cento dos royalties do petróleo do pré-sal para a saúde e os outros 50 para educação. O congresso votou 25 para saúde e 50 para educação. No fundo uma mixaria. E um mixaria que via apenas servir para fortalecer um pouquinho as universidades elitistas e formadoras de algozes da classe operária. E quanto a tecnologia, replicadores de tecnologia produzidas nos países imperialista, que fortalecem a dependência. O que é comum na química, na indústria automobilística (na Unicamp, por exemplo, a coqueluche agora é um grande laboratório da Petrobrás, o que vai reforçar a dependência do automóvel e da indústria automobilística, a mesma que aprofundou nossa dependência do capital imperialista. A piada é chamar as Universidades Brasileiras, as paulistas em particular, de autônomas. Falaremos um pouquinho, abaixo, sobre autonomia universitária. Voltemos à saúde pública e aos médicos.  A morte é a opressão suprema para um materialista consequente. O metro, o instrumento de medida do materialista é a vida. Qualquer outra foram de ver o mundo não é materialista. Logo a suprema opressão do capitalismo, da violência de classe contra classe, é o sistema de saúde, o acesso à prevenção (que envolve nutrição, claro), os acidentes de trabalho, o escabroso tratamento no serviço público de saúde e a total canalhice que se chama laudo médico, que os trabalhadores chamam apenas de laudo, para comprovar para pedir aposentadoria por invalidez. E sistema cruel coloca o médico como um dos principais algozes dos trabalhadores, dos operários e dos pobres. E a medicina privada é um acinte. E um forma clara de dizer que há gente que merece viver e gente que deve morrer (no caso do Brasil, li que as pessoas morrem com um quantidade de dor dez vezes ou mais que um americano, já que analgésicos de primeira linha são muito mais caros e, claro, sonegados aos pobres). Hospitais e seus corredores são câmeras de tortura.

Os médicos das nossa universidades públicas e privadas são formados para isso. 85 ou 90 por cento dos cursos médicos formam especialistas. Na verdade especialistas em ler exames caríssimos. Enquanto isso 40 milhões de deficientes ficam sem atendimento algum, sobrecarregando famílias. Enquanto isso os remédios para depressão crescem sua venda 22 por cento ao ano, perfazendo um crescimento de mais de 100 por cento ao ano. Não sabemos quantos são já que sem atendimento, sem profissionais, a maioria não é atendida. Os corredores dos hospitais são masmorras fedorentas.

Tanta miséria devia revoltar. Por milhões de doentes, deficientes e mutilados pelo trabalho nas ruas acho que seria um pouco difícil. Parte dos seus parentes estão cuidando deles, ou sofrendo jundo com eles. Nos protestos de junho essa questão estava lá, naquele tudo que devia mudar.

Mas a principal questão é a já tratada em mais de um lugar aqui, e que voltará sempre. As escolas médicas formam seus médicos para eliminar os mais fracos, como uma eutanásia coletiva e dolorosa. Os médicos, formados nas nossas universidades, os grandes especialistas formados nas nossas escolas públicas, paga pelo povo, são especialista em deixar morrer os trabalhadores, os pobres e os operários.

Um ataque direto a medicina privada é exigir formação de médicos generalistas, criar profissionais de saúde para tratar a população pobre. E romper com os laboratórios e criar um indústria farmacêutica estatizada.

Poderia sim ser uma campanha central advinda das vozes da rua de junho.  Tem inclusive elementos fortes de independência nacional que falaria em nome de toda nação, como estatização dos laboratórios e criação de laboratórios estatais para produzir remédios adequados e baratos.

Mas ao mesmo tempo isso tudo passa pela formação do médico como foi dito e passa pela pesquisa feita no sistema educacional, nos laboratórios das universidades e escolas.

Vendo a realidade pelo olhar da educação para a libertação nacional, na luta anti-imperialista, em certo momento, talvez a saúde pública, a luta conta a medicina privada, a estatização dos laboratórios, tome um lugar até preponderante.  Mas é que acho, ainda, que a questão da produção de ciência, tecnologia e cultura própria é o lugar, o campo, privilegiado para se dar essa luta.

Dizendo de outra forma, coisas já ditas, essa plataforma da educação, vista assim, é plataforma de lançamento para uma luta hoje de solidariedade, amanhã de colaboração e organização da luta internacional para o socialismo, ou para a construção da revolução socialista mundial.

Acredito que a classe operária poderá se alçar a dirigir todo o povo porque ela ocupa um lugar ímpar na produção. Mas hoje, século XXI, acho que ela precisa mais que em toda sua história de luta, dos conhecimentos científicos, da tecnologia e do saber. E, principalmente, da apropriação e do controle.  Talvez seja a revolução a única forma de impedir, o que já está em andamento, a criação de uma “raça” superior, através da engenharia genética. Uma “raça” superior, imune a milhares de doenças genéticas, capaz, de unidas ao capital, criar o “Admirável mundo novo”, na verdade uma escravização, tendo por base castas ou “raça”.  Sem delírios futuristas, a eutanásia coletiva já uma realidade na maioria dos países pobres: velhos, doentes crônicos, inúteis para a produção, são deixados morrer a míngua de alimentação e remédios. A solução final nazista parece menos cruel. Mas faz parte dos esgotos da sociedade capitalista. É um trabalho subterrâneo, obscuro, quase invisível.


Sua autonomia consiste em criar uma espécie de casta burocrática com um imenso poder de mando e privilégio. Autônomos seriam se pesquisassem, já que os sustentam é do povo, na busca de independência desse mesmo povo. Mas novamente acho que a classe operária é a vocacionada, pelo lugar que ocupa na produção a colocar a Universidade a serviço dos interesses nacionais e produtora de projetos dirigidos a solidariedade internacional. A Universidade de hoje, cada dia que passa, só ajuda a aprofundar nossa dependência. É preciso lutar para inverter isso hoje, não só depois no socialismo.
O movimento por uma carreira federal de professores, de todos os professores, faz parte dessa luta anti-imperialista, traduzida para uma categoria que está no centro dessa questão. E o movimento estudantil teria de ter uma plataforma calcada na luta pela libertação nacional e a luta anti-imperialista. Assim iria no rumo da aliança com os operários.
j. O movimento Estudantil.
. Quando, em momentos muitos especiais, como na década de 70, que o movimento estudantil levantou bandeira pelo democracia e contra a ditadura, ele teve um papel importante e progressista. Quando o movimento estudantil fica pedindo mais verbas, verbas essas que vão fortalecer o elitismo e a exclusão dos pobres, quando pedem autonomia que é autonomia para que os professores, aumentando seu poder de casta, possa oprimir mais e mais os trabalhadores das universidades, que tenham autonomia para implementar a terceirização generalizada, como foi na Unicamp e USP esse movimento, para mim, é totalmente reacionário. Recentemente, com a reivindicação de 10 por cento para educação, para um educação elitista e excludente, 10 por cento para ajudar a elitização e exclusão. Reacionário. O debate que coloca a questão sob a bandeira a aliança operário estudantil é a bandeira da luta anti-imperialista em primeiro lugar. Produzir ciência voltada para um projeto nacional, de libertação nacional, produzir tecnologias nas universidades temáticas, criar estudos e projetos de colaboração com povos oprimidos, devolver conhecimento em forma de divulgação e acesso à tecnologia produzida (em universidades e escolas técnicas temáticas, nas regiões, na direção da superação das diferenças regionais, se preparando para promover, e promovendo já, intercâmbio com as nações oprimidas, e distribuindo conhecimento e tecnologias para pobres e oprimidos do Brasil), esse é um movimento estudantil aliado da classe operária e dos trabalhadores.
A Universidade pode até ser defendida se acaso há uma ataque da direita. Mas hoje ele tem que ser denunciada como produtora de exclusão e alimentadora de dependência diante do imperialismo.
A carreira nacional de professores se efetivada detona o privilégio dos professores universitários. E coloca que o conhecimento deve estar a serviço dos bebês, dos trabalhadores, dos pobres, de todo povo. É um jeito possível hoje de falar em nome de toda a nação, de interesses nacionais profundos.


ANJO NEGRO, Nelson Rodrigues.

22/08/2012

Anjo Negro, Nelson Rodrigues-1948-Orlando Guy-Nicette Bruno. FUNARTE: Brasil , Memória das Artes. http://www.funarte.gov.br/brasilmemoriadasartes/imagens/imagens-fotos/page/119/.

 

Um resumo muito bom sobre “Anjo Negro”

“O que, na peça, é fadado ao silêncio? O que não pode ser mostrado e, ao mesmo tempo, é explicitado no texto? Nelson aponta para a problemática racial em que, certamente, se articulam os subsídios para uma teoria social do Brasil, onde se destaca a violência como fator de base dos fundamentos estruturais do modelo étnico-social brasileiro. A peça explicita a vivência de amor/ódio num casal inter-racial e a ambigüidade diante de sua linhagem mestiça. O estilo poético-realista de Nelson Rodrigues revela, de maneira perturbadora, temas adormecidos no inconsciente. Ele revolve esse universo profundo do espectador trazendo à consciência o recalcado e utiliza-se da tragédia para falar do racismo. Assim, remete-nos ao drama grego: a tragédia, pois somente o trágico daria conta de desvendar essa realidade brasileira relegada às trevas – o racismo. Algo da ordem do trágico, tal qual é explicitado no drama grego, pode estar muito próximo de nós, se considerarmos que, enquanto humanos, vivenciamos as emoções que o perpassam.”  Resumo Comentado:

  Liliane Negrão Pinto, Mestranda (Instituto de Estudos da Linguagem), UNICAMP |Eliana Maria Delfino, José Tiago Reis Filho, Sílvia Regina Gomes Foscarini, Wanda Avelino – Círculo Psicanalítico de Minas Gerais | Seleste Michels da Rosa, formada em Letras (UFRGS), especialista em Literatura Brasileira (PUCRS) e mestranda em Literatura Brasileira (UFRGS)

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” O autor, em várias ocasiões, afirma ter escrito o personagem para seu amigo Abdias representar, pois, segundo ele, era o “único negro do Brasil”.” em “Resumos Comentados: Anjo Negro de Nelson Rodrigues”

” A singularidade Ismael contrasta com a grande galeria de homens e mulheres rodriguianos, onde, em determinado momento da ação, os personagens retiram as máscaras e se apresentam, inesperadamente, na mais completa nudez psíquica.” Idem
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UM NEGRO COMO PROTAGONISTA DE UMA PEÇA EM 1948.

Diz Ruy Castro, em documentário do SESI, que Nelson Rodrigues ficou muito frustrado de ter que aceitar um ator não negro, maquiado, fazer o papel de Ismael, o médico negro da peça.  Orlando Guy foi escalado para que a censura do Ministério da justiça liberasse a peça –  que havia sido interditada.

“Orlando Guy fará o marido preto. O argumento de que não é negro retinto não é válido. Considerado o caso de um estrito e honesto ponto de vista teatral – o único que importa – basta, que sua discreta maquilage e seu desempenho dramático dêem a ilusão do “negro Ismael”. E não teremos direito à menor restrição. E se Ziembinski o escolheu entre muitos que se candidataram ao papel deve-se a que o tipo de Orlando Guy era o único que correspondia à concepção do tipo X que o ensaiador polonês exigia.”, Nelson Rodrigues, para o Correio da Manhã de 02/04/1948, dia da estréia da peça.

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O ODOR E O NOJO: o racista é movido a paixão e violência.

“Reflexões sobre o Racismo”, por Jean-Paul Sartre

Fui à  leitura no SESI/Campinas e  fiz a leitura caseira do texto, sob a influência de Sartre, pois é um influência de mais de 40 anos  de “Reflexão dobre o Racismo”. O livro da Difusão Européia do Livro tem dois textos, o primeiro sobre o anti-semitismo e o segundo sobre o racismo contra os negros. Mas o texto sob cujo olhar vejo a questão racial é, particularmente, o primeiro, o texto que estuda o anti-semitismo. É um texto que vai elencando absurdo trás absurdos, risíveis incoerências das falas dos racistas anti-semitas. Mostrando a irracionalidade completa. É pura paixão e violência.  Usando aqui a terminologia de Sartre, o anti-semita é um ser inautêntico.

No resumo citado acima, e é um resumo, falta uma coisa essencial que está bem chamativo no texto de Nelson Rodrigues que a repulsa da mulher branca ao cheiro e ao suor do negro. Esta invenção odiosa vai ser um dos temas mais agudos da análise de Sartre. A repulso ao judeu pelo seu pretenso cheiro.

Em Sartre, também em Anjo Negro, mas mais central ainda em Sartre,  esta repulsa se traduz em atração para a violência e a curra. As judias serão sempre curradas por anti-semitas.  No texto de Nelson Rodrigues a curra é narrada e o autor não propõe que seja encenada.  O que me leva a pensar que funciona como funcionam as estatísticas.  Acho que encenar é superior  narrar, assim como narrar é mais humanizador do que um levantamento estatístico.

O texto de Sartre analisa dezenas de situações do racismo. Mas acho esta questão odor, ou do cheiro, uma das questões mais profundas, sempre presente nos xingamentos e calúnias, mas, durantes décadas,  só pude encontrar  no texto de Sartre. Mas se trata de  um texto filosófico e tem um frieza insuperável.  No teatro seria diferente. Durante muitos anos fiquei pensando se seria mesmo possível  estar no teatro, vivenciando portanto e não apenas lendo ou ouvindo, frases explicitamente racistas. Vê-se isso em novelas da globo, mas são racistas caricatos. Em Nelson Rodrigues são personagens completos, do mundo aceito e vencedor. O personagem principal é um médico bem sucedido e sua mulher,  extremada racista,  pertence a este mundo  oficial , bem sucedido mundo  e invejado mundo.

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OS FILÓSOFOS: Não têm nariz, negam o corpo, ineptos para a vida.

“A Arte de Ter Prazer – Por um Materialismo Hedonista, por Michel Onfray

Mas há um texto que li nos últimos 5 anos,  para mim mais direto e arrasador.  Um ataque aos próprios filósofos. Os filósofos não têm olfato, paladar ou tato. A exceção dos pré-socráticos, tendo Demócrito o filósofo do nariz,  que coloca no centro da sua percepção.  Dos modernos, Nietzsche, que vai devolver o corpo ao homem. Kant, por exemplo,  vai banir o olfato da filosofia.

Frases de Michel Onfray

“A antiguidade apreciava os perfumes: nos banquetes ofereciam-se aos convivas guirlandas de flores diversas”. p. 111

“Entre os filósofos, o perfume não tem boa reputação: é associado ao luxo, à devassidão, à depravação”. p. 111

“o luxo dos odores da Ásia(…) era tido como suspeito pelo helenismo clássico”. p. 112

“O ódio ao corpo é acompanhado por um ódio tenaz ao olfato. O nariz concentra as aversões e as paixões como um revelador”. p. 112

“Assim veremos alguns filósofos dos mais sérios recorrerem ao olfato…elegem  esse sentido, entre cinco, pra apenas dizer suas repugnâncias: analisará o odor dos negros e tentará compreender por que tal fedor(!), outro se gabará de distinguir o Foetor Judaicus  – o fedor judeu -, um terceiro descreverá com uma complacência afetada o odor dos pobres…”. p. 112

Nietzsche colocou o nariz no centro das suas investigações e transformou o odor numa metáfora sobre a vida. Instinto, em Nietzsche, uma qualidade que tinha que ser defendida e restabelecida, se confundia com o odor, assim como a ruminância.

Mas os mesmos filósofos que baniram o olfato da filosofia vão ser os que usarão o olfato para caluniar os corpos dos que lhes eram diferentes. Numa incoerência tão evidente que beira à estupidez.

Kant que banira o olfato do seu sistema filosófico é com o nariz que vai julgar os negros. “O odor forte dos negros, que nenhum cuidado de limpeza consegue dissipar, permite supor que sua pele elimina  se seu sangue uma grande quantidade de flogístico…”. Miche Onfray diz que Kant lança mão de um emaranhado de hipóteses mais ou menos fantasiosas, lugares comuns mais banais, para assentar sua visão sobre o tal odor do negro. Sem nunca ter visto um negro sequer. ver p. 138

Schopenhauer:  “O bom Deus, prevendo em sua sabedoria que seu povo eleito se dispersaria pelo mundo inteiro, deu a todos os seus membros um odor específico que lhes permitissem reconhecer-se e encontrar-se por toda parte, é o Foetor Judaicus”.  M. Onfray comenta: “O fedor é portanto um toque de reunião, um código”.

Marx descreve a multidão de agentes de câmbio num escritório de Amsterdã nos seguintes termos( em O Capital): “A linguagem falada cheira fortemente a Babel, e aliás, o perfume que invade o recinto não é dos mais refinados”.  M. Onfray: “O judeu portanto, é infecto, nauseabundo e fétido”.p. 149

Depois dos filósofos vem os santos. Os santos  cheiram bem.  O diabo sempre cheira mal. Isabel, um santa católica, que gostava dor rolar na lama, viver com os porcos… dela diz a hagiografia: “É evidente que ela possuía uma grande pureza e uma grande inocência, como prova a exalação do seu corpo. Por ter brilhado na vida de toda inocência e castidade, seu corpo exalou na morte um odor delicioso”. … “Os gnósticos atribuíram a Cristo um existência sem defecção…. E Teresa de Liseux dá a receita para acompanhar Cristo na sua subida aos céus: é só acompanhar o rastro do seu perfume. p. 154-155

Sartre: Michel Onfray questiona o próprio Sartre que, em viagem à Itália, fala em termos depreciativos dos napolitanos, inclusive destacando a questão dos odores e aparência destes. E em suas cartas da Itália ignorar o fascismo; isso em 1936.

Filósofos, deste a antiguidade clássica na Grécia. Cristãos.  Vão atribuir ao bem um cheiro agradável e mal odores fétidos. E este capítulo do livro de Michel Onfray mostra a tradição milenar do racismo e da exclusão. Na filosofia e na religião. São formas de pensamento que destronam e detratam o nariz porque não conseguem aceitar a vida.  Desprezam o nariz porque desprezam a vida. E desprezam tudo que é diferente, pois a vida é formada de formas e corpos diferentes.

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A CIÊNCIA LEGITIMADORA DO RACISMO.

A Falsa Medida do Homem, de Stephen Jay Gould

Mas há um outro grande livro para nos armar contra o racismo que impregnou a filosofia e depois as chamadas ciências biológicas. “A Falsa Medida do Homem”. Stephen Jay Gould, vai mostrar como as ciências, durante décadas, falsificou dados, manipulou resultados, para provar inferioridade de povos e o que, naquela época, denominavam de raças.

Não esqueçamos que a escravidão negra foi aceita e promovida pelo cristianismo católico e protestante. Que o extermínio dos índios foi feito por cristãos. Que o colonialismo , extermínio e dominação do povos e nações foi feito –  e ainda é –  por nações ditas cristãs, sem condenação, ou apenas com tímidas reprovações, bem retóricas.

Se  grande partes destes filósofos vão dirigir seus ataques raciais,  preferencialmente,  ao odor insuportável, ou animalesco, das vítimas de seu racismo, cientistas de muitas áreas vão fazer um ataque concentrado a vários aspectos do homem. Vão criar teorias. Falsificar medidas. Criar infames testes para mostrar inferioridade de todos aqueles que não fossem brancos europeus. Em muitos casos seriam os alemães os superiores. Há um episódio que beira ao mais insano ridículo. Testes nos EUA chegaram ao resultado de que mais de 80 por cento dos estadunidenses teriam deficiência mental. E Stephen Jay Gould alerta. Estes testes, mais ou menos modificados, são usados até hoje em escolas. E outra curiosidade para a história. Grande parte destas teorias e cronometrias para escalonar raças nasceram, ou prosperaram,  nos EUA e não na Alemanha , como comumente se pensa.

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A filha, cegada depois de fixar atentamente o pai negro,  vai “chamar” negros de branco e o que ela chama de brancos são os negros. Acho genial esta simples inversão para mostrar o absurdo do racismo,  já que tudo não passa de convenção, de um nome

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A nova Vanguarda: o teatro sem público. foto do Teatro do IA-Unicamp

 

Campinas, cidade de milhares de universitários, milhares de professores universitários, com a segunda universidade de São Paulo e uma das maiores do país, com uma classe média arrogante e metida a besta, faz um leitura dramática para comemorar os 100 anos de Nelson Rodrigues. Melhor que nada!!!

Campinas de mais de um milhão de habitantes. Tem este Teatro do SESI. Outro do SESC. Ou seja, mantidos pela comércio e pela indústria. Conheço mais dois pequenos teatros de grupos. Na Unicamp constroem um imenso teatro, dentro do campus, para que alunos apresentem suas peças para eles mesmos. De costas para a população, como fica toda a Unicamp, excetuando-se o HC, parasitando a cidade, terão um Teatro contra toda a tradição histórica do teatro que nasceu em praça pública, em arenas; ou como Shakespeare, em zona portuária e de meretrício. Com a Unicamp, para os filhos diletos da burguesia apreciarem a si mesmo, a aplaudirem a si mesmo. Que humanidade apresentarão neste teatro?

Uma  leitura dramática. Melhor ouvir o texto que apenas lê-lo em casa. As falas ditas por atores já se aproxima um pouco do teatro, um teatro falado. As tragédias gregas, em versos, eram declamadas pelos atores.
Mas seguindo o roteiro de texto de Sábato Magaldi (link) ali faltava o encenador que é que realmente responde pelo teatro contemporâneo. Falta o cenógrafo que o grande condutor do teatro brasileiro revolucionário, como em Vestido de Noiva, com cenário de …. Acrescento aqui que em 1946, Anjo Negro teve cenário de Portinari (ver entrevista de Abdias Nascimento, no final da página).
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Palavras de Nelson Rodrigues sobre teatro:

a pretexto da estreia de Senhoras dos Afogados, em 1954:

” O que caracteriza uma peça trágica é, justamente, o poder de crear a vida e não imitá-la. Isso a que chamamos “vida” é o que se apresenta no palco e não a que vivemos cá fora. Evidentemente excluo, daqui, as peças digestivas…”

“O personagem do palco é mil vezes mais real, mais denso e, numa palavra ‘mais homem’ que cada um dos expectores”.

“…Ponha-se do lado de certa senhora na platéia. Perceberemos, então, que a expectadora de carne e osso não vive realmente, imita apenas a vida, Finge que é mulher, finge que é creatura humana e continua fingindo até no leito conjugal…”.

“Não sou pornográfico. Pelo contrário, me chamo de moralista. O único lugar onde o homem sofre e paga pelos pecados é em minhas peças.” Revista Brasilis[frases]

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“O personagem do palco é mil vezes mais real, mais denso e, numa palavra ‘mais homem’ que cada um dos expectores”.

Essa frase de Nelson Rodrigues diz que não é possível discutir a vida sem teatro. Que em Campinas não há vida. Que é ilusão toda acúmulo de teses, dissertações e estatísticas. Precisamos de teatro. Quem reivindica isso? Há candidatos que se dizem de esquerda nestas eleições. Começaram já as arengas. Alguém defende teatros na Cidade de Campinas? Duvido!!!

“Antunes Filho, ao realizar, em 1981, Nelson Rodrigues o eterno retorno, sintetizou a sua visão do universo do dramaturgo também em quatro textos: Álbum de família, Os sete gatinhos, Beijo no asfalto e Toda nudez será castigada, reduzindo-o, depois, em Nelson 2 Rodrigues, a Álbum de família e Toda nudez será castigada.”. link.

Que lástima! Depois de tudo isso olhar em volta e ver que Campinas não tem teatro. E não há perspectiva alguma. Nem um simples rumor.

Aprendi a adorar Nelson Rodrigues no “Beijo no Asfalto”, em “Toda Nudez será Castigada”, o filme de Jabour, “Na vida como ela é”, da Globo, no filme “Bonitinha, mas ordinária”. Mas parece que nunca saberei o que Antunes Filho fala por aí:  que Nelson Rodrigues é o maior dramaturgo do Brasil. Só dá para conhecer um dramaturgo se ele for encenado, acho.   Desde o modernismo, passando pela antropofagia, oswaldiana, até a tropicália, há um anseio profundo de quebrar o isolamento cultural do Brasil, condenado, inclusive, pela barreira da língua minoritária. Mas ser condenado a ignorar o próprio Brasil.  Ter em perto um universidade que pratica  e é ciosa na defesa do seu isolamento. Nossos jovens intelectuais se formam para serem europeus de segunda e brasileiros de quinta.

O teatro privado dos estudantes de arte da Unicamp deveria ser público

E para começar a sonhar haveria de ter um movimento [que não vai ter] para que o Teatro da Unicamp fosse construído no centro de Campinas, perto da catedral, talvez no mesmo lugar onde o antigo teatro foi derrubado e hoje é uma Praça cimentada, com barraca de salgadinhos: um anti-praça.  Ou na antiga rodoviária, hoje um imenso buraco abandonado. Este buraco é uma metáfora explicativa para Campinas.

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links

01. Texto da Peça, Anjo Negro, de Nelson Rodrigues

02. Artigos e fotos da época. Várias encenações. Anjo Negro também.
03. Tendências contemporâneas do teatro brasileiro, Sábato Magaldi

04. Revista Brasilis: Amigos e intelectuais relembram Nelson Rodrigues
05. FUNARTE: Memória das Artes [fotos de montagens de peças de Nelson Rodrigues
06. Bate-papo em torno da obra de Nelson Rodrigues [Funarte]

07. Correio da Manhã, sobre estréia de Anjo Negro 02/04/1948

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Documentário: Abdias Nascimento

Entrevista. Fala dos cenários de Portinari para Anjo Negro.

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Algumas frases publicas pela revista Brasilis

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pingback

o1. Teatro sem público: deve ser a grande sacada da vanguarda da Unicamp


Existem humanos nos mais baixos patamares da escala social?

02/06/2012

Existem humanos nos mais baixos patamares da escala social?

Mário Augusto Medeiros da Silva

[NOTA INTRODUTÓRIA: SE ASSISTIR AO VÍDEO DE BORIS CASSOY ATÉ O FIM, OU INDO ATÉ O FIM, TERÁ ACESSO A VÁRIOS VÍDEOS COM A REPERCUSSÃO DO CASO – Mário Martins]

Trinta e um de dezembro de 2009, noite de virada. As pessoas
comemoram, como querem ou como podem, a passagem entre os anos. As
imagens são triviais acerca desse evento e compartilhadas, no
imaginário coletivo, por quase todos: famílias se reunindo, amigos
confraternizando, cidades iluminadas, gente circulando por aí com um
sorriso nos lábios. Vez ou outra, pessoas dormindo nas ruas, alguma
reportagem sobre os que perderam o rumo de casa (ou que não querem,
decididamente, voltar para lá), sobre a solidão nas metrópoles ou
sobre aqueles que trabalham nessas datas a que é dado a quase todos o
direito de relaxar. O de sempre, quase sempre.

Quem estava diante da televisão, sintonizado na programação
aberta, precisamente na Rede Bandeirantes, via a gravação do Jornal da
Band, apresentado por Bóris Casoy. Não interessa discutir a falta de
opção, gosto ou solidão do telespectador. Inúmeros se encontravam
nessa situação. E puderam ver aquele que, de há muito tempo, se
embandeirou como um defensor da moralidade pública da classe média,
criador e propalador do bordão Isto é uma vergonha!, comentar uma cena
trivial, típica de fim de ano: pessoas entrevistadas nas ruas,
instadas a desejar um feliz natal, próspero ano novo para a câmera da
tevê. Típico.

Uma dupla de garis, vestidos com uniformes laranjas, fazem o que
lhe foi pedido. Feliz 2010 etc., dizem, alegres, os companheiros de
trabalho, ambos idosos, encerrando aquela parte do bloco. Chamada a
vinheta, o âncora do jornal, inadvertido pelo áudio ainda aberto, faz
seus comentários sobre a cena: “Que merda, dois lixeiros desejando
felicidades…do alto de suas vassouras. Dois lixeiros! O mais baixo
da escala do trabalho…”. As imagens correram a internet e podem ser
vistas no Youtube (por exemplo, no endereço

http://www.youtube.com/watch?v=0H9znNpeFao). No dia seguinte, Casoy,
levemente constrangido, afirma no começo do telejornal: “Ontem,
durante o intervalo do Jornal da Band, num vazamento de áudio, eu
disse uma frase infeliz, que ofendeu os garis. Por isso, quero pedir
profundas desculpas aos garis e aos telespectadores do Jornal da
Band”. (ver, por exemplo, o endereço

Para a emissora e para o jornalista, a história acabava por aí,
simples assim. Não para os garis. Ofendidos e humilhados, Francisco
Gabriel de Lima e José Domingos de Melo deram entrevista, nos
primeiros dias de janeiro, à Folha Online, dizendo como se sentiram ao
aparecer na televisão para desejar boa virada no Jornal da Band e como
ficaram depois dos comentários de Casoy (ver
http://www.youtube.com/watch?v=OoQrkA3oQfQ). A fala de Lima é
distintiva: “Fiquei muito feliz de poder falar[…] Pensava que ia
fazer uma coisa bonita, falar no Jornal da Band. Prá mim foi uma
tragédia”. Os sindicatos que representam os trabalhadores de serviço
de limpeza urbana, bem como garis individuais, moveram três ações
judiciais contra Casoy e a emissora de televisão, no dia 06/01/2010
(http://entretenimento.r7.com/famosos-e-tv/noticias/garis-movem-tres-acoes-contra-boris-casoy-e-band-20100106.html).
No dia 03 de março, a ação civil pública foi julgada em São Paulo e
ambos, emissora e âncora, foram absolvidos de pagar indenização por
danos morais aos garis
(http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u701860.shtml).
Fim.

As informações acima são notícias velhas. Vejamos outras. Nesta
última semana, a Folha de São Paulo divulgou reportagem sobre a garota
23225. A adolescente é uma menina, cuja identidade é preservada nos
jornais, em função do Estatuto da Criança e Adolescente, através do
número de seu prontuário de internação no Hospital Psiquiátrico Pinel,
em São Paulo. Há quatro anos, ela foi levada ali por ser uma garota
difícil. 23225 foi considerada “[…] inteligente, agressiva,
indisciplinada, sem respeito, fria e calculista”. E por isso,
abandonada por 1500 dias (e contando) na instituição (ver: Menina é
‘esquecida’ no Pinel por 4 anos, Folha de São Paulo, 21/03/2010,
Cotidiano, p. C5;
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2103201005.htm). Para
acrescentar má sorte ao seu infortúnio, seu caso veio à tona na mesma
semana em que se constituiu um júri popular para julgar o caso
Nardoni, cuja repercussão ofuscou toda e qualquer outra notícia nos
últimos dias – até mesmo de agressões e assassinatos de outras
crianças em famílias de classe média.

Mas quem é 23225? De acordo com Laura Capriglione, responsável
pela matéria da Folha, é hoje uma garota com quinze anos, cuja mãe,
dependente de crack, se encontra condenada a prisão por sete anos, em
função de tráfico de drogas. Sobre seu pai, nada consta. A avó
materna, responsável pela menor desde a prisão da mãe, não a quer.
Desde os quatro anos, a avó já a havia colocado num abrigo para
crianças de famílias desestruturadas. Ela afirma não ter condições de
cuidar de 23225, pelos motivos que se encontram em seu prontuário. E
também por agora ter conseguido um emprego de auxiliar de serviços
gerais, que paga R$480,00 e tem carteira assinada. A senhora é
categórica: “Não vou pôr a perder por causa dela”. O julgamento moral
sobre esta senhora é o que menos importa aqui. Amor filial não é
automático. E, ao que parece, um salário mínimo com carteira assinada
e benefícios, neste caso, faz toda diferença na balança dos afetos.

Sobrou, então, para o Pinel. Desde 2005, data da internação, é
diagnosticado que a menina não possui problema algum que justifique
sua entrada ali na sua Clínica de Infância e Adolescência. Segundo o
diretor da instituição, o psiquiatra Eduardo Guilherme Guidolin, tem
sido feito um périplo através de diversos abrigos municipais para
menores, para a acolhida de 23225. Várias instituições de São Paulo e
arredores se negaram a recebê-la, onde teria um lugar para morar,
possibilidade de estudar e receber atenção psicológica. As alegações
são: ou não há vagas ou não é de bom tom receber alguém com “passagem
pelo Pinel”. A máquina pública negando a si própria. Em 10 de novembro
de 2009, o diretor do Pinel encaminhou ofício ao Ministério Público
Federal sobre a situação de 23225, bem como de outros menores que se
encontram na mesma situação que ela.

Como sempre pode piorar, no dia 24/03/2010, Laura Capriglione
escreve a matéria: “Polícia apura estupro de menina do Pinel”
(http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2403201007.htm). O crime
teria sido cometido em fevereiro, por funcionário de segurança,
contratado por firma terceirizada, dentro do Hospital Psiquiátrico.
Depois de flagrado, o acusado fugiu. E agora o caso corre em segredo
de Justiça. Desde então, nada mais foi publicado sobre 23225.

Em que ponto as duas histórias se cruzam? A meu ver, há
elementos muito significativos em ambas sobre a maneira como lidamos
com as classes baixas, desprovidos, lúmpens, pobres etc. Não é
necessário matá-los, fisicamente (como nas maternidades e presídios
públicos, que ocuparam os jornais recentemente). Retirar o direito à
voz, a possibilidade de se manifestar, humilhar numa exceção
permanente, já é um começo bastante eficaz. O objetivo final é sempre
dizer: “Você não é humano. Pelo menos, não um humano como nós”. Porque
a questão de ser ou não cidadão, nesses casos, é uma balela e nem está
em questão. Eles não são. Significam nada, não chegam a esse grau de
sofisticação. Antes de tudo, tratam-se os pobres e desvalidos ora como
máquinas que limpam dejetos, máquinas que executam tarefas; ora como
coisas humanóides (que possuem a nossa imagem e semelhança, mas não
são iguais a nós) e podem ser manipuladas ao bel prazer. Alguns,
descartáveis desde o nascimento. Outros, ao longo disso que se chama
vida. Viver é uma tragédia, um pesadelo desperto numa sociedade que
equaliza lixo e vida humana.

A história de Francisco Lima e José Melo é exemplar.
Publicamente, nosso defensor da classe média, que desde o começo dos
anos 1990 tacha de vergonhosa a vida política e costumeira nacional,
expressou o que a grande maioria de nós sentimos ao vermos esses
homens e mulheres varrendo as ruas, recolhendo nossos lixos,
uniformizados. Há alguns poucos anos, um jovem psicólogo social fez um
experimento para sua tese de doutoramento na Universidade de São
Paulo. Vestido como gari da USP, durante o dia, varria as ruas do
entorno da faculdade onde há anos era aluno. Professores e colegas
seus não o reconheciam de uniforme. Ou nem lhe devolviam um bom dia.
Quando publicou sua tese e esse aspecto dela veio aos jornais, virou
um escândalo. Mas por quê o alarme? É tão desagradável assim
escancarar o quotidiano? Se fosse, a emissora de televisão teria
demitido Bóris Casoy no dia seguinte, no ar, emitindo uma nota pública
em que repudiasse as opiniões do jornalista, que não expressariam as
da cúpula da Rede Bandeirantes e seus funcionários. Não o fez.
Limitou-se a pedir que ele afirmasse, lendo o teleprompter, que
expressou comentário infeliz. Suponho que com alguma recomendação para
demonstrar constrangimento, leve. Constituiu advogado junto ao âncora
para que se defendesse das ações dos sindicatos e dos garis. E estamos
conversados. Abalou a credibilidade de Casoy e do jornal? Não. Porque
esse bem, tão perseguido e ostentado por diversos jornalistas e
veículos de informação – mesmo quando nunca o possuíram – ao que
parece, se baseia em dizer… a verdade, acima de tudo, antes de
qualquer coisa, custe o que custar. O raciocínio é simplório, admito:
Se Casoy não foi demitido e a rede de televisão não tomou nenhuma
outra atitude, ele disse a verdade. Ele tem credibilidade. Que merda,
então, dois lixeiros… etc.

O problema é o uniforme, essa roupa de controle, de
identificação, inclusive, dos grupos perigosos e que reduz a
identidade a cores e tecidos? Não creio. O caso de 23225 pode ser
considerado como clássico para qualquer leitor de Michel Foucault ou
Erving Goffman, autores de História da Loucura e Manicômios, Asilos e
Prisões (ambos publicados pela Editora Perspectiva). Ou qualquer
pesquisador/curioso que, estando em São Paulo, um dia vá ao Arquivo
Público do Estado e solicite ler qualquer prontuário dos internos do
Juqueri, arquivados ali perto da Estação Portuguesa-Tietê do Metrô.

O problema é: o caso 23225 não é literatura das ciências
sociais. E, pelo visto nos jornais, não temos hoje intelectuais como
Foucault, capazes de liderar movimentos contra as prisões
psiquiátricas francesas. Ou uma Nise da Silveira, criadora do Museu do
Imaginário. Ou médicos engajados, como na década de 1980, que se
dedicaram a promover, no Brasil, a descolonização de internos dos
hospitais psiquiátricos (como o Juqueri, por exemplo). 23225 é a
atualização do nosso momento presente. Atualização, claro, para pior.
Opinião pública (ela existe?) e intelectuais rebaixados. É um número
de prontuário, perdido na burocracia do Estado, num jogo de
empurra-empurra entre a Prefeitura, o Ministério Público, os pareceres
médico-legais, abrigos e hospitais. Os únicos posicionamentos claros
até agora foram de sua família (que não a quer e não pode assumi-la) e
do Pinel (que não possui razões para tê-la sob sua guarda. Presta-lhe,
então, deve-se concluir, um favor). Para brincar com os leitores de
Foucault, autor de Isto não é um cachimbo, 23225 não é um número. O
desafio está lançado.

Pobres e sem fala, oriundos e atolados desde há várias gerações
nos patamares mais baixos da sociedade (ou, para lembrar Casoy, nos
degraus mais baixos da escala do trabalho) são considerados incapazes.
Organismos-máquinas, que a nossa imagem e semelhança estão por aí,
executando tarefas. Mas longe de ser como nós. Vez ou outra espanam e
se dão ao luxo de pensar, falar, desejar, denunciar. Como podem? Como
pôde 23225 querer ser inteligente e insubordinada, demandar afeto e
invejar outras crianças que recebiam beijos e abraços de avó e mãe?
Como pôde ela, ao ser pega em flagrante na guarita do segurança
terceirizado do Pinel, dizer: “Vai, tio, conta que a gente teve
relação”. Ela que, para conter seus “distúrbios”, segundo a reportagem
de Caprigilione (jornalista, aliás, admirável), é medicada com
haloperidol, cujos efeitos colaterais são sonolência, letargia e
torpor. Ou seja: a todo tempo, 23225 é mantida fora da realidade. Como
pôde ter algum momento de lucidez? Como puderam os garis expressar
sentimentos que não combinam com seus uniformes?

Todo e qualquer chavão crítico das ciências sociais, nesses
casos, me parece pouco e ineficaz. Todos eles estarão certos e não
provocarão nada. Aliás, diria Itamar Assumpção numa de suas canções,
que chavão só serve para abrir porta grande. Coisa que nem os garis e
nem 23225 conseguirão. De favor, já fizemos muito de deixá-los falar.
Não abriremos nenhuma outra porta para eles que não seja de uma outra
instituição, outro abrigo ou de uma fila de hospital,
seguro-desemprego. As portas do cemitério, talvez. Ou de um aterro
municipal.

Campinas, 30 de março de 2009.


A INFLUÊNCIA DO JORNAL DO PORÃO. Um balanço pelos cinco mil acessos.

24/10/2010

Mike Bongiorno. FENOMENOLOGIA DE MIKE BONGIORNO, de Umberto Eco. Este ensaio de 1961 foi publicado aqui no Jornal do Porão em 21 de fevereiro de 2009. Apesar de um longo ensaio para um blog é um dos textos mais lidos. Quando foi publicado em fevereiro de 2009, digite-o inteiro de um livro, pela indignação de ver a pobreza intelectual, o servilismo e as bobagens que ouvi de alguns professores do IFCH. Como por exemplo, diante da comemoração dos 50 anos do Teatro Oficina, certo professor de história dizer que “falei durante três aulas que o Zé Celso só quer chocar as pessoas”. Pior foi outro dizendo sobre o acervo do Teatro Oficina no Arquivo Edgard Leuenroth: “Aquela bicha…”. Nem pensava em Berlusconi, mas em professores do IFCH, arrivistas, carreiristas e especialistas em exercer seus poderes.

O texto mais lido, quase todas as semanas tem 4 ou 5 pessoas acessando-o, é o Jornal do Porão 4. É um Jornal que fala de Noel Rosa, de Chico Mendes e da Praça dos Trabalhadores. Mostrando a violência da pequenez dos políticos. São os próprios Mike Bogiornos.
Como colocar numa pracinha minúscula o nome de um dos maiores compositores e personalidade da cultura popular brasileira? Estudante de medicina que se liga, imediatamente, aos fundadores do samba. O samba tem várias vertentes, mas aquela que proliferou que tomou os rádios, e que tomou a país inteiro, foi arquitetada no Estácio. Noel Rosa logo vai ser parceiro de Ismael Silva, o grande do Estácio. E a antiga tripinha chamada Praça Chico Mendes cheia de lixo, tendo hoje uma desconhecida como nome oficial. Aqui Chico Mendes foi salvo da humilhação. E a praça dos trabalhadores então que nem existe, é um canteiro debaixo de uma ponte. E aqui neste Jornal do Porão ainda virá um artigo com fotos da Praça Tim Maia, um canteirizinho de terra batida e sujo. Os políticos são uns pobre-diabos.




Mário Medeiros contra a terceirização

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

Outro texto que todas as semanas têm leitores é “UMA SEGUNDA MORTE PARA CLÓVIS GARICA”, de Mário Augusto Medeiros da Silva. Como os leitores já sabem, Mário Medeiros já teve os dois contos mais lidos neste blog. “Meias de seda se esgarçando”, provocou 104 leitores num dia, um segundo lugar de leitores, pois Jornal do Porão número 4 teve 119 no dia em que foi lançado, em fevereiro de 2009. Mas seu “Membro Fantasma” será o terceiro texto mais lido do blog: 84 leitores no dia que foi lançado o conto. Mário Medeiros da Silva deixa de ser colaborador para se tornar uma co-autor do blog. Não posso deixar de citar a melhor frase escrita neste blog foi quando Mário Augusto Medeiros da Silva, escrevendo um artigo em defesa de Mário Martins, perseguido pelos Mike Bongiornos do IFCH, cunhou esta: “O ato de acochambrar pelo poder, alcoviltar, escorchar e tomar atitudes numa relação de desigualdade (chefe-subordinado) é o elogio da estupidez. O chefe que precisa usar da força – censurar, chamar em sala, beco, alcova, colocar no canto, ameaçar, impor-se pelo cargo – demonstra que a sua suposta autoridade não possui nenhuma legitimidade, para além do cargo institucional e do medo que inspira. Respeito, então, nem se fale. É um estúpido. Uma besta com polegares. É indigno de ser chamado de intelectual, de pensador. É o ato de um delinqüente acadêmico, de homem-dispositivo, na melhor acepção que deram a esses termos Maurício Tragtenberg e Franciso Foot Hardman.”
Em defesa do Jornal do Porão, de seu criador e de todos nós.
14/11/2009 IDÉIAS SE COMBATEM COM IDÉIAS.

Há textos no Jornal do Porão que não são originais, mas que são constantemente lidos. Mas são originais no sentido que foram escolhidos para serem editados aqui. E porque cumprem a função de criar o debate. Textos também esquecidos que entram novamente em circulação. O principal deles é “A Delinqüência Acadêmica”, de Maurício Tragtemberg. Sempre lido, mas ainda não lido suficientemente. É um texto de 1978, mas parece que fala de agora. E dentro desta questão da academia o texto fundamental é “Segunda Refundação”, de Marilena Chauí. Na verdade pouco lido, mesmo porque é um ensaio imenso. Texto escrito em 1994 e ainda não assimilado. O movimento estudantil, segundo minha leitura do texto, fala de uma Universidade que nem existe mais. E Marilena Chauí prova isso. Sem este texto, acho, falar de universidade é fazer um debate sobre o vazio, como se fôssemos fantasmas.

E um texto querido. É muito lido, mas eu queria que fosse mais e mais. “AMOR CRISTÃO”, de Marcelino Freire. É uma porrada nos bem pensantes e sentimentalóides. Assim como são os poemas de Roberto Piva que também são lidos, toda a semana tem pelo menos 1 leitor aqui no Jornal do Porão.




terceirização coletivo Miséria 004

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

Mas o Jornal do Porão vive um momento especial. Os desenhos de João da Silva. O coletivo Miséria e sua revista Miséria é algo único na Unicamp. Algo criativo, inventivo e que marcará época. Haverá uma época da Unicamp que, no futuro, falaremos da época da Revista Miséria. Que outra época a Unicamp tem? No futuro falaremos de um passado bem distinto, marcante. Convoco as pessoas a falarem destes momentos realmente marcantes e fundadores da Unicamp, se os houver.




churrasco Hélio (7)

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

O momento especialíssimo das contribuições de Mário Augusto Medeiros da Silva. Sempre presente no Jornal do Porão e sempre criando impacto e leitores. Mas alerto aos desatentos. Newton Perón eu recomendo. Minha leitura e releituras tem sido, constantemente, ir ilustrando os textos. Aos textos de Newton Perón eu tenho dedicado esta leitura ilustrativa, ALGUNS AINDA INÉDITOS, em comemoração aos 5 mil acessos ao Jornal do Porão. Tenho, acho, conseguido ponto alto. A conferir.

O Jornal do Porão nasceu para ser um jornaleco litero/político/jocoso. Tem sido. Mas sua vocação tem sido de ser uma revista de onde amigos dialogam e tentam influir, criando uma visão de mundo assentada na cultura, na luta contra opressão e toda espécie de moralismo pequeno-burguês ou carola. Tem avançado. Pois, como vimos, textos difíceis são lidos e relelidos.
Se perceberam há dois contos inéditos de Newton Peron, ainda agendadados para serem publicados, mas que podem ser lidos já. Mas para página ainda tem algo mais que é publicado hoje. Acessem o no Flicker album com algumas fotos de Josephine Baker, comentada no texto de Umberto Ecco, Mike Bongiorno.

E já ia me esquecendo de Mário Bortolotto e seu sempre lido, aqui, “Me gústan las muchachas putanas”. Que iniciou neste Jornal do Porão os textos contra o moralismo idiota. Este mesmo que não fosse lido por ninguém eu republicaria até para relelê-lo.

As fotos do Flickr são muito vistas através deste Jornal do Porão. As campeãs são as fotos da “Capoeira Angola”, desenhos de Carbé. Só na sexta-feira, 22 de outubro 2010, a página com os desenhos “capoeira angola, de Caribé” teve 9(nove) acessos.
Pretendo em todos os aniversários da primeira publicação destes textos republicá-los.
PS. Newton Peron, além de ser um formidável coloborador deste Jornal do Porão, no auge da perseguição dos “burocratas mortos” a este editor e a este jornal, Newtinho assumiu a edição deste. Portanto ele será sempre um dos editores deste jornaldoporao.

Alguns textos de Mário Augusto (Medeiros da Silva), neste blog.

Este blog, nos seus mais de 5 mil acessos, reafirma um dos seus eixos, que é a preocupação política cotidiana. Interviu. Incomodou. Mas há uma grande curiosidade e uma sociologia inteira do profressorado do IFHC. No primeiro semestre de 2009, 80 professores do IFHC, assinaram uma carta que termina de maneira arrogante diante do Reitor. Nesta carta que inicia dizendo que o ‘IFHC ESTÁ AGONIZANDO’ e na reunião que a votou diziam que não iniciariam o segundo semestre, pois era impossível continua sem enfrentar radicalmente o problema, pois em 2011 o IFCH FALIRIA. Hoje está carta só pode ser lida aqui. Nenhum professor a cita. O que mostra que todos os 80 são coniventes com a agonia do IFCH. Mais. Devem ganhar com isso. No album Flickr do Jornal do Porão você pode ver a reação e mobilização dos estudantes.Mas há muito gente atenta a esta carta, muito menos do que devia, mas toda semana, aqui no blog, ela tem pelo menos 3 leitores. A carta não dá para ser resumida. Cada parágrafo dela é um diagjnóstico profundo o IFHC, das Ciências Humanas relegada para último plano. Diante da covardia que os professeores demonstraram depois de assinarem a carta, me obrigo a lembram Nelson Rodrigues e seu complexo de vira-latas para definir a subserviência.

Veja Blog de João da Silva
Revista Miséria

Alguns textos do Jornal do Porão também foram publicados na Revista Iskra, uma revista teórica de Jovem marxistas traz artigos sobre a repressão as festas no IFCH e na Unicamp.

Um conto dos mais lidos, so de consulta pelo nome, foram 31 vezes em 2010. Um grande achado. O Arquivo, de Victor Giudice. Dizem que é o conto brasileiro mais publicado no mundo. 27 vezes.


Mas o prédio novo e pomposo do laboratório da Física está afundando

23/04/2010

A UNICAMP QUE AFUNDA NAS MÃOS DAS EMPRESAS TERCEIRIZADAS.

Você não acredita nisso. Mas o prédio novo e pomposo do laboratório do Instituto de Física está afundando. Vá lá ver ou olhe as fotos aqui. Como podem ver nas fotos, vão fazer nove pilotes para tentar sustentar o prédio. Chegamos, com as empresas terceirizadas, à arquitetura das “palafitas”.

Parece incrível o Instituto de Física expunha restos de laboratório, confessadamente contaminados, a céu aberto. É de uma banalidade inenarrável escrever aqui que poderia contaminar qualquer incauto ou que não soubesse ler. Expunha, pois este blog serve para alguma coisa, pois um dia após estas fotos eles retiraram os restos contaminados. Ou foi uma coincidência. Não podem nem negar ignorância, pois estava escrito nas caixas, mais ou menos visível, os perigos.

Bom seria se acontecesse o mesmo com o alojamento das trabalhadoras terceirizadas, do outro lado da rua, no Instituto de Química. Alojamento até, surpreendentemente, bem aparentado. Só que do lado de um laboratório e de um, acreditem, olhem na foto, do lado inflamáveis. E do lado dos inflamáveis ficam alojamento, banheiro e refeitório, dos operários das empresas terceirizadas que tentam impedir que o prédio do laboratório da Física afunde. Será de mau gosto escrever aqui que o refeitório destes operários, um muquifo, fica contíguo, separado por tábuas, a um banheiro. Seria de mau tom, de gosto duvidoso, coisa de ex-peão, escrever aqui que eles comem perto da bosta. E que é o que, por certo, tem na cabeça dos nossos dirigentes que permitem isso!

Perguntas que o Jornal do Porão sabe que ficarão sem respostas. Quem é responsável por tais descalabros? Quem foi responsabilizado até hoje? Quem pagará os prejuísos?

Ou perguntas mais simplesinhas que também ficarão sem respostas. Mesmo porque vivemos num ambiente acadêmico sui generis, onde quase ninguém faz perguntas e menos gente ainda tem respostas. E a biblioteca do Instituto de Biologia tantos anos parada? Ou e o prédio das Geociências que parece que já comemora alguma boda? E o aranzel que é o prédio dos núcleos do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas?

Os professores do IFCH escreveram ao Reitor, constatando que o “IFCH agoniza”, que “está em estado de emergência”. Um dia vão descobrir que na Unicamp as empresas terceirizadas, além de super-explorar a mão-de-obra, levam dinheiro DO público, o chamado impropriamente de dinheiro público, para instaurar a má qualidade, o desperdício, o desmazelo e o desmantelo do patrimônio público. E ainda tem um montão de burocratas, ricamente pagos, para gestar este descalabro.

Este Blog espera reações indignadas dos leitores.
Acompanhe a luta contra as empresas terceirizadas que danam e dominam a Unicamp, neste blog, no jornal e blog do CACH, ou nas páginas dos materiais de LER-QI, que faz uma campanha nacional, principalmente na USP, contra as terceirizações e precarização do trabalho.

Aqui um album de fotos da entrega da Carta contra as terceirizações para a Diretoria do IFCH, cobrando que se pronuciem, já que o IFCH é um dos grandes atingidos pelos contratos feitos pela reitoria que lesam o interesse do IFCH, como disse certa vez o vice-diretor.


USP 94: a terceira fundação

19/11/2009

Por Marilena Chauí

Tenho, sobre a mesa, um documento de 1967, escrito pelo professor Simão Mathias, em nome da comissão de reestruturação da USP, e um conjunto de documentos de 1979, redigidos por membros da recém-criada Adusp, produzidos durante a primeira greve de docentes da Universidade. Ao lado, um artigo de 1984, do professor Azis Simão, rememorando, no ano do cinqüentenário, a fundação da Universidade, os anos de ferro do terror político e do autoritarismo. Estão aqui, também, entrevistas, publicadas em vários jornais, com professores e pesquisadores, durante a comemoração dos 50 anos da Universidade. Mais além, documentos da Adusp, alguns de 1980, outros de 1984, sobre reestruturação da Universidade, questões salariais e divergências de posições entre os diferentes autores. À sua volta, artigos e documentos de pesquisa, escritos por vários professores, entre 1988 e 1994, relacionados com a avaliação da Universidade. Coleção heteróclita, revela momentos de grandes debates e, outros, de monotonia repetitiva.

Entre o texto de 1967 e os de 1994 pressente-se um abismo, porém, contraditoriamente, uma grande proximidade. Proximidade, porque todos os textos e entrevistas voltam-se para questões de fundo, relativas à estrutura da Universidade, às suas finalidades, ao sentido da docência e da pesquisa, à exigência de autonomia universitária, de representatividade concreta dos órgãos colegiados de direção da USP e da qualidade do trabalho que deve ser realizado pela instituição acadêmica. Se tal proximidade não afasta o sentimento de distância intransponível não é porque cada um dos textos exprima seu momento histórico e, portanto, a diferença entre passado e presente. Não se trata de diferença dos tempos, mas de diferença temporal: os temas discutidos são os mesmos, mas seu conteúdo e significado não têm parentesco.

Abismo, portanto, porque o documento do professor Mathias refere-se à necessidade de passar das escolas e faculdades isoladas a uma universidade propriamente dita, com departamentos e institutos ou faculdades regidos por um estatuto comum, sob a direção da reitoria e de um conselho universitário articulado, enquanto os de 1979 insurgem-se contra o centralismo, a burocracia, a falta de representatividade do Conselho Universitário e exigem a autonomia universitária, os de 1984 indicam diferenças de perspectiva entre os que lutavam pela democratização e renovação da USP, e os de 1994 ocupam uma posição inversa à de Simão Mathias, advogando, agora, a racionalização e modernização universitárias, através da divisão das diferentes atividades acadêmicas. O texto de Simão Mathias vem no bojo da luta pela escola pública; os de 1994, no do elogio à privatização de grandes parcelas do espaço público. Entre 1967 e 1994, as grandes mudanças na forma do modo de produção capitalista e, conseqüentemente, das relações sociais, do lugar ocupado pela ciência e pela tecnologia, das novas expectativas de uma sociedade de massa e de consumo, fascinada por imagens velozes e fugazes, determinaram outras maneiras de perceber a universidade e parecem impor-lhe outras finalidades.

Entre 1967 e 1984, uma nova USP foi criada. Houve uma segunda fundação. Quis a ironia da história que os prepostos da ditadura, na universidade, realizassem as propostas contidas no documento de Simão Mathias, disso resultando o que vimos: ali onde Mathias falava em integração, fez-se a centralização; onde falava em reformulação curricular e vestibular unificado por áreas de conhecimento, fez-se a escolarização e a massificação dos testes de múltipla escolha; onde propunha articular pesquisa básica e aplicada, graduação e pós-graduação, formação de novos docentes, pesquisadores e profissionais, fez-se a partilha entre pesquisa financiada por poder público e iniciativa privada, instituiu-se a distinção hierárquica e de prestígio entre os dois níveis do ensino, e a separação entre docentes, pesquisadores e profissionais ligados ao mercado.

Lendo o documento de 1967 e os vários textos aduspianos de 1979, pode-se observar que são muito semelhantes porque guiados por um mesmo espírito universitário. Entre eles há a continuidade de um projeto que a ditadura interrompera e que poderia ser retomado, na perspectiva do retorno democrático em curso no país. No entanto, entre o conjunto formado pelos textos de 1967 e 1979, de um lado, e os que foram produzidos em 1984, de outro, o contraste das propostas já é grande e torna-se uma fonte preciosa para a compreensão do que se passara e ainda se passa na USP.

De fato, a leitura desses escritos, particularmente do contraste entre 1967-1979 e 1984, lança algumas luzes históricas sobre a origem e as causas das posições adotadas por professores e estudantes entre 1970 e 1994, isto é, a discussão incansável sobre os efeitos da reforma universitária ditatorial e a necessidade de encontrar caminhos para desfazê-la. Mas também revela algo surpreendente, pois muito do que se passou a propor para a USP, no final dos anos 80 e início dos 90, cindindo os uspianos em várias facções, encontrava-se em germe entre 1970 e 1984. Ali, já se anunciava a divisão entre os que desejavam manter as posições de defesa da democratização da universidade e aqueles que pretendiam corrigir os erros cometidos pela ditadura e prosseguir no projeto de modernização universitária. Em outras palavras, há hoje, na USP, um antagonismo que já não se traduz nos termos em que apareceu, sucessivamente, no correr dos anos 70 e início dos 80, colocando autonomia versus servilismo, representação versus autoritarismo, participação versus centralização, democratização versus modernização, mas refere-se à questão contemporânea do público e do privado, dos conceitos de democracia, docência e pesquisa que se encontravam adormecidos e, ao despertarem, revelaram velhas e consideráveis diferenças entre os antigos aliados.

Explicitar essas diferenças tem sido tarefa de seminários, colóquios, artigos e entrevistas, cuja importância, todavia, não impediu a implantação de uma estrutura institucional que tende a aguçar as divergências não tendo energia criativa para trabalhá-lhas e superá-las. Donde o sentimento de repetição monótona dos debates, em certos períodos, e agora mais do que nunca.

Imperceptivelmente, a estrutura e a organização da Universidade de São Paulo transformaram-se, apesar de críticas, alertas e discussões acaloradas. Se, em certas ocasiões, como durante os dois primeiros congressos realizados pela Adusp, ou durante a formulação e votação dos estatutos da Universidade, ou nas campanhas por eleições diretas das direções universitárias, parecia ser clara a percepção do risco iminente de uma reorganização da universidade bastante distanciada dos ideais da escola e da pesquisa públicas, da ênfase na qualidade da docência e nas formas de avaliação dos trabalhos e títulos acadêmicos, hoje esses temas possuem um tom nostálgico e envelhecido, sob o impacto do que se convencionou designar como modernização racionalizadora. Em suma, o que muitos pressentiam como risco possível, tornou-se realidade.

Há, hoje, na Universidade de São Paulo, três tipos de escola que não correspondem à divisão institucional da universidade em institutos e faculdades, mas ao modo como a atividade universitária é pensada e exercida, os três tipos podendo existir e coexistir em qualquer dos institutos e faculdades: a que propicia prestígio curricular ao docente; a que oferece complementação salarial a docentes e pesquisadores; e a universidade pública.

A escola do prestígio curricular é aquela na qual o docente não é pesquisador e tampouco se dedica à docência em tempo integral, mas ali leciona em tempo parcial, dedicando-lhe algumas horas por semana. Embora a verdadeira profissão seja exercida noutro lugar (consultório, escritório particular, empresas privadas), o profissional tem interesse em apresentar-se com o currículo de professor da USP porque este vale clientes ricos ou um bom cargo na firma. Sabe-se que o regime do tempo parcial foi proposto a muitos profissionais eminentes para que a universidade pudesse contar com a experiência e o prestígio que lhe traziam. Hoje, porém, instalou-se a situação inversa, a USP legitimando carreiras não-acadêmicas que prestigiam o docente e não a instituição.

A escola de complementação salarial é aquela em que as pesquisas são financiadas por empresas e organismos privados que subsidiam a montagem e manutenção de laboratórios, bibliotecas e equipamentos, congressos e simpósios nacionais e internacionais, publicações, bolsas, viagens e cursos no estrangeiro. Como esses recursos externos são vinculados pelos órgãos financiadores direta e autonomamente a institutos e departamentos, orçamentos, finalidades e resultados dos trabalhos não são públicos, no duplo sentido do termo, isto é, não têm origem pública e não são publicizados. Além disso, os financiadores fazem uso privado da instituição pública, tendo em vista que esta forma os pesquisadores, cede seus espaços e infra-estrutura, mas os resultados são apropriados privadamente pela fonte de financiamento. Este tipo de escola é visto — dentro e fora da USP — como modelo de modernidade porque desincumbe o poder público da responsabilidade com os custos da pesquisa e recebe o nome de cooperação entre a universidade e a sociedade civil. Nela, consagra-se a idéia de que a universidade é essencialmente prestadora de serviços, sendo por isso produtiva. É o tipo acabado da universidade moderna do Terceiro Mundo, visto que os grandes e verdadeiros financiamentos privados para pesquisas fundamentais e de ponta são destinados a universidades e institutos do Primeiro Mundo.

A terceira escola é a universidade pública propriamente dita. Nela, os docentes dedicam-se ao ensino e à pesquisa em tempo integral, dependem inteiramente dos recursos públicos (nos dois sentidos do termo: os orçamentos e os resultados são públicos e publicizados) e destinam a totalidade de seus trabalhos à sociedade, seja formando profissionais de várias áreas, seja formando novos professores, seja publicando suas pesquisas e as de seus estudantes, seja realizando atividades de extensão universitária para profissionais de várias áreas e para atualização de professores de primeiro e segundo graus, seja realizando pesquisas ou participando na formulação e supervisão de projetos e programas sociais para os governos. Esta terceira escola é aquela que mantém um vínculo interno entre docência e pesquisa, portanto, entre formação e criação, conhecimento e pensamento, realizando as pesquisas fundamentais, ou seja, as de longo prazo, independentes, que acarretam aumento de saber, mudanças no pensamento, descobertas de novos objetos de conhecimento e novos campos de investigação, reflexões críticas sobre a ciência, as humanidades e as artes, e compreensão-interpretação das realidades históricas. Esta terceira escola foi a que nasceu com o nome de Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e, no documento de Simão Mathias, punha-se como coração da Universidade de São Paulo.

Quando confrontamos, de um lado, essa situação institucional e o documento de Simão Mathias e, de outro, os debates do final dos anos 70, é fantástico perceber que, atualmente, a USP concretiza tudo quanto foi combatido durante quase três decênios! Nos idos de 67, a discussão se fazia entre a escola de prestígio e a de docência-pesquisa, ou na linguagem do professor Mathias, entre as escolas profissionalizantes e a universidade propriamente dita. Por seu turno, nas discussões do final dos anos 70, já estava na pauta o problema das fundações operando como complementação salarial e com autonomia face à universidade. No vocabulário de 1970, o fenômeno era designado, por seus defensores, como desburocratização e agilização da universidade, e por seus opositores, como uso da universidade pública pela classe dominante.

Também é interessante observar, comparando documentos, que, nos anos 60, buscava-se a universidade. No centro dessa busca, encontravam-se a autonomia docente — criação de departamentos sem o antigo poder da cátedra e a integração dos campos de pesquisa — formação de institutos a partir do agrupamento interdisciplinar de pesquisas afins. Dessa busca, seguiu-se a separação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras em uma Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, e nos institutos científicos. Em contrapartida, quando tomamos as dicussões dos anos 80, prevalece a idéia de que a separação de faculdades e institutos em outros, menores, ou a divisão qua divisão, é racionalizadora, desburocratizando e agilizando o trabalho universitário. Levada às últimas conseqüências, essa idéia desemboca exatamente naquilo que se combatia nos anos 60: a dispersão e fragmentação dos trabalhos de docência e pesquisa, uma vez que sua diferença tanto quanto sua integração não eram (e não são) levadas em conta.

Também chama a atenção, quando comparamos os debates de 60 e 70, com os dos anos 80, a mudança do lugar e papel da docência: altamente valorizada anteriormente, vista como base indispensável para a pesquisa, nos debates recentes a tendência é lançá-la para um lugar menor e dar-lhe o papel reduzido de reprodutora, dissociável, de fato e de direito, da pesquisa, considerando-se esta última mais importante e prioritária. Desaparece, assim, a idéia de formação acadêmica e de preparação de novos docentes, aptos para a pesquisa tanto quanto para o ensino.

Finalmente, o tema acalorado dos anos 60 e 70 sobre a universidade participativa, tanto porque professores e estudantes participariam das decisões, quanto porque a universidade marcaria seu lugar e papel na sociedade, combatendo a destruição operada no ensino público de primeiro e segundo graus, lutando contra a massificação do ensino como substituto da democratização educacional, resistindo ao autoritarismo estatal, defendendo a socialização dos conhecimentos e orientando suas pesquisas para finalidades diretamente sociais, foi substituído, nos anos 80, pelas idéias de eficácia, produtividade e vínculo preferencial com as fontes privadas de financiamento das pesquisas, pela tendência a criar funis seletivos que excluem boa parte dos estudantes do campo das pesquisas, e pela imagem da sociedade vista por um único prisma: o das relações de mercado e, portanto, sob o signo da idéia de interesse.

Reunindo os fios esparsos da memória, um curioso tecido surge diante de nós. Os anos 60 sonharam com a revolução social que teria na universidade pública (a universidade crítica, como a chamávamos) uma de suas principais frentes de luta. Os anos 70, silenciando a universidade crítica, deixaram realizar o sonho de ascensão social da classe média da ditadura, destruindo a qualidade do ensino público em todos os graus, na alegria da massificação. Os anos 80 acreditaram numa universidade autônoma e democrática, capaz de equilibrar as exigências do rigor acadêmico e as demandas de uma sociedade marcada pela carência, pela miséria e pela violência. Os anos 90 tornaram-se prosaicamente realistas: do lado das associações docentes, estudantis e de funcionários, o discurso está centrado na idéia de interesse das categorias, enquanto do lado das direções universitárias prevalece o discurso de eficiência, produtividade e competitividade, associado à imagem de ligação umbilical entre os interesses da sociedade civil e da pesquisa, isto é, os interesses do mercado. Da utopia revolucionária à adesão à ideologia neoliberal, a Universidade de São Paulo entra na sua terceira fundação.

Terceira fundação

Seria longo e cansativo continuar na perspectiva comparativa. Superficialmente, ela nos indica o óbvio: o tempo passou, a sociedade e a USP mudaram, novos problemas se colocam e novas respostas são necessárias. Todavia, o que se nos afigura é que essa aparência de superfície é exatamente isto, aparência e superfície. Por um lado, porque os problemas continuaram os mesmos, sob a mudança de vocabulário, mas, por outro, porque a diferença temporal fez seu trabalho secreto e profundo e as soluções propostas indicam, sob nova terminologia, a consolidação de três vigas mestras: as idéias de privatização (através de convênios com empresas e fundações privadas e pagamento de anuidades pelos estudantes mais ricos), de enxugamento da máquina administrativa (através da terceirização dos serviços) e de distinção entre escola profissionalizante e centro de pesquisa (isto é, graduação e pós-graduação). A novidade surpreendente está no fato de que parte dos defensores dessas idéias foi, ontem, defensora da escola pública democrática.

Basicamente, os que fazem a engenharia de implantação daquelas três vigas mestras alegam como motivos principais a compreensão das transformações do modo de produção capitalista e a nova forma de inserção sócio-econômica da universidade. Partindo da idéia de que houve a proletarizado dos universitários (e dos intelectuais, em geral), acarretando a ilusão corporativa que bloqueia o avanço moderno da universidade, os novos engenheiros da mudança universitária alegam:

  • à medida em que o modo de produção capitalista transformou a ciência e a tecnologia em forças produtivas, não só tornou obsoletos os antigos humanistas e pesquisadores puros, como ainda exige adequação da universidade à nova realidade histórica, se esta não quiser perder-se em vagas abstrações;
  • à medida em que os agentes da ciência e da tecnologia formam a classe média e que é esta quem procura a universidade, será preciso atender às demandas daquela classe, sem o que a universidade se torna inútil, essa demanda sendo dupla, isto é, demanda de diploma profissionalizante para entrada competente no mercado de trabalho e demanda de qualificação como pesquisador para atrair fundos privados para a universidade;
  • à medida em que a sociedade contemporânea é uma sociedade de massa, combater abstratamente a massificação do ensino universitário é inócuo e, no fundo, antidemocrático, de sorte que a universidade deve combinar duas tarefas: a massificadora, através da escolarização dos cursos de graduação; e a seletiva, formadora de quadros propriamente científicos, através da pós-graduação.

Essas idéias têm doce encanto persuasivo, mesmo quando seus defensores não são doces nem encantadores, pois correspondem à maneira como a sociedade está dada na experiência imediata. A persuasão aumenta quando o discurso vem seguido de números, curvas, médias, indicadores e variáveis. E torna-se hegemônica porque os opositores, colocando-se no mesmo plano em que os persuasores, mantém o mesmo discurso que seus adversários, ou seja o discurso dos interesses (no caso, das categorias), enfraquecendo suas posições por não parecerem capazes de fazer valer o restante de suas propostas: defesa da escola pública nos três graus de ensino, recuperação e reformulação do ensino de primeiro e segundo graus, exigência de reconhecimento do valor da docência, exigência de infra-estrutura adequada às pesquisas, exigência de financiamentos públicos constantes e regulares para as pesquisas fundamentais e trabalhos de extensão universitária, em suma, responsabilidade do poder público com a docência e a pesquisa.

As transformações da USP, iniciadas ao longo dos anos 70 e, hoje, consubstanciadas na absorção irrefletida do modelo neoliberal tiveram como data de nascimento a instalação de fundações privadas no interior da universidade. No batismo, receberam o nome de modernização pela ampliação de recursos externos. No dia do crisma, foram confirmadas como avaliação do desempenho e produtividade universitários.

É inegável que toda instituição pública deve prestar contas de suas atividades à sociedade. Sob este aspecto, a avaliação das atividades universitárias é necessária e indispensável, além de auxiliar na orientação da política universitária, graças a um saber da universidade sobre si mesma, sobre seu modo de inserção na sociedade e o significado de seu trabalho, e para reorientação de programas e projetos. Dadas as dimensões da USP, avaliá-la é também necessário para orientar a análise técnica dos problemas operacionais e financeiros, oferecer fundamentos para propostas orçamentárias, suprir carências, atender demandas, quebrar bolsões de privilégios e de inoperância. Ao realizá-la, a universidade cumpre o dever da prestação de contas aos cidadãos.

Ora, se para muitos, o crisma foi sentido como extrema-unção, é porque a avaliação que vem sendo realizada na USP não cumpre qualquer dessas finalidades. Um dos aspectos mais surpreendentes dos embaraços e desencontros do denominado processo avaliativo encontra-se num fato paradoxal. Com efeito, a universidade, como centro de investigação, é (ou deveria ser) o lugar em que, por princípio e por definição, tudo quanto existe deveria transformar-se em objeto de conhecimento e, no caso da avaliação universitária, o sujeito e o objeto do saber seriam o mesmo, de sorte que avaliação deveria ser, rigorosamente, reflexão, dela devendo surgir os critérios avaliativos. Ora, a universidade tem-se mostrado incapaz de colocar-se como objeto de saber, criando métodos próprios que permitam elaborar técnicas específicas de auto-avaliação. Resultado: vem aplicando, de modo acrítico e desastrado, os critérios usados pelas empresas, imitando — e muito mal — procedimentos ligados à lógica do mercado (compreensivelmente, a lógica necessária para as empresas), portanto, uma aberração científica e intelectual, quando aplicados à docência e à pesquisa. Além disso, elegeu como paradigma de avaliação de uma instituição pública as universidades privadas norte-americanas que, por força de seu modo de inserção social, são regidas claramente pela lógica do mercado, especialmente pela competição mortal dos docentes por postos e títulos e a dos estudantes por vagas em pós-graduação para o PhD.

Conseqüentemente, a USP vêm empregando critérios que visam à homogeneidade (necessária à lógica empresarial), despojando a universidade de sua riqueza e especificidade, isto é, a diversidade e pluralidade de suas atividades, determinadas pela natureza própria dos objetos de pesquisa e de ensino, regidos por lógicas específicas, temporalidades e finalidades diferentes. A avaliação amortece a peculiaridade de uma instituição cuja vida é a diversidade. Bastaria lembrar que, nas Humanidades, um livro possui maior relevância do que artigos (estes, em geral, são esboços ou partes de um todo que somente o livro revela), enquanto nas Ciências dá-se exatamente o contrário, de sorte que usar um deles como critério geral de avaliação é impossibilitar que se avalie adequadamente uma das áreas do conhecimento. Pior do que isto. No caso das Humanidades, o critério publicação de artigos estimula a proliferação do mesmo artigo em versões variadas, sem qualquer contribuição efetiva. Além disso, nas condições precárias do mercado editorial brasileiro, o critério da publicação, no caso de livros e revistas, deve ser usado com extremo cuidado, uma vez que a demora para publicar ou intervalos longos entre publicações não indicam necessariamente ausência de pesquisa, mas podem estar assinalando dificuldades editoriais. Também vale recordar que o critério empregado pelas Ciências Exatas e Naturais, qual seja, a publicação de trabalhos em revistas e periódicos internacionais, pode não fazer muito sentido em várias áreas das Humanidades, nas quais o tema pesquisado pode estar referido à particularidade brasileira. Sem dúvida, em certas ocasiões, congressos e publicações buscam apreender e revelar uma mesma questão sob diferentes perspectivas locais e, neste caso, a pesquisa particular insere-se numa totalidade internacional ou transnancional, mas não é esta a situação mais freqüente. Estes breves exemplos e muitos outros indicam os equívocos da modernização racionalizadora em curso entre nós.

Por conseguinte, nada é conseguido como autoconhecimento da instituição, obtendo-se apenas um catálogo de atividades e publicações (acompanhadas de inexplicados conceitos classificatórios) que, absurdamente, passa a orientar a alocação de recursos, vagas, postos e concursos.

Além disso, a prestação de contas à sociedade não se cumpre porque tanto orçamentos quanto execuções orçamentárias são apresentados com os números agregados, sem explicitação de critérios, prioridades, objetivos e finalidades e sem explicitar publicamente os convênios privados (montante dos recursos, destinação, prazos das pesquisas, usos dos resultados etc).

Em geral, os critérios empregados para avaliar a excelência acadêmica, costumam ser identificados aos indicadores usados para medi-la, acarretando, como já observamos, um número razoável de problemas, pois seria necessário que a noção de qualidade acadêmica fosse explicitada e dela surgissem os critérios e indicadores para a avaliação. Além disso, por qualidade acadêmica, costuma-se entender o número de teses e de publicações, estágios no estrangeiro e participação em congressos, numa visão simplista da pesquisa, e deixando na sombra a docência, seus problemas e sua qualidade própria, uma vez que o ensino, como observamos, é, agora, considerado tarefa menor e simplesmente reprodutora, sem qualquer papel formador.

A respeito da qualidade acadêmica

Valeria a pena que a USP, na comemoração de seus 60 anos, propusesse questões e assinalasse caminhos que explicitassem as idéias de qualidade da docência e da pesquisa. Que indagações poderiam balizar a definição da qualidade da docência? Para iniciar o debate, sugerimos, entre muitas outras, as seguintes:

Os professores variam os conteúdos de seus cursos, preparam suas aulas, pesquisam para novos cursos, introduzem novas questões para os alunos, exigem pesquisas dos estudantes, alunos, transmitem os clássicos de sua área, as principais questões e impasses, as inovações mais significativas? Ou prevalecem rotina, repetição, pouca exigência para avaliação dos alunos, pouco conhecimento dos clássicos da área e dos principais problemas e inovações da área?

Os cursos são capazes de mesclar e equilibrar informação e formação? Os estudantes são iniciados, por meio do estilo de aula e do método de trabalho do professor, ao estilo acadêmico, ou não? Qual a bibliografia usada? Como o estudante é introduzido ao trabalho de campo e ao laboratório? Como o professor e os alunos enfrentam a precariedade do segundo grau quanto a informações e desconhecimento de línguas estrangeiras? Que tipos de trabalhos são exigidos dos alunos? Que condições de trabalho são dadas a docentes e estudantes pela universidade?

O que poderíamos considerar elementos indispensáveis da excelência do trabalho docentes? Pensamos que, entre outros aspectos, a docência excelente seria aquela que:

  • inicia os estudantes aos clássicos, aos problemas e às inovações da área;
  • varia e atualiza cursos, bibliografias, aproveitando os trabalhos de pesquisa que o professor está realizando (tanto para uma tese, um livro ou um artigo);
  • inicia ao estilo e às técnicas de trabalho próprios da área;
  • informa e forma novos professores ou profissionais não-acadêmicos da área;
  • força os estudantes ao aprendizado de outras línguas e consegue que os departamentos de línguas lhes ofereçam cursos;
  • luta por condições de infra-estrutura para os estudantes: bibliotecas, laboratórios, computadores, instrumentos de precisão, veículos para trabalho de campo etc.;
  • exige trabalhos escritos e orais contínuos dos estudantes, oferecendo-lhes uma correção explicativa de cada trabalho realizado, de tal modo que cada novo trabalho possa ser melhor do que o anterior, graças às correções, observações e sugestões do professor;
  • o professor incentiva os diferentes talentos, sugerindo trabalhos que, posteriormente, auxiliarão o estudante a optar por uma área de trabalho acadêmico, ou uma área de pesquisa ou um aspecto da profissão escolhida e que será exercida logo após a graduação — em suma, a docência forma novos docentes, incentiva novos pesquisadores ou prepara profissionalmente para atividades não-acadêmicas.

No caso da pesquisa, também poderíamos discutir o estabelecimento de alguns parâmetros, a partir de um conjunto de indagações sobre a qualidade desse trabalho. Assim, por exemplo, podemos indagar:

Os temas escolhidos são relevantes na área, seja porque enfrentam impasses e dificuldades teóricas e práticas nela existentes, seja porque inovam em métodos e resultados, abrindo caminho para novas pesquisas?

O pesquisador conhece as várias alternativas metodológicas e as implicações científicas, políticas e ideológicas de cada uma delas, de modo que, ao escolher a metodologia, o faz com conhecimento de causa?

O pesquisador conhece o estado da arte no tema que está pesquisando: as discussões clássicas e as discussões mais recentes sobre o assunto e a bibliografia clássica e atual sobre o assunto? O pesquisador dispõe de tempo para várias horas seguidas de trabalho? Recebe auxílio financeiro para isto?

O orientador estimula caminhos novos para seus orientandos e é cientificamente receptivo a conclusões, mesmo quando estas contrariam resultados e idéias a que ele próprio havia chegado em suas pesquisas? O orientador estimula estágios no estrangeiro, escolhendo os locais onde, de fato, o tema trabalhado pelos orientandos tem sido objeto de pesquisas importantes? O orientador luta para que haja condições de infra-estrutura para o trabalho dos orientandos e o seu próprio? O orientador tem clareza da necessidade de diferenciar prazos para seus orientandos, em função do tema por eles escolhido, das diferentes condições de vida e trabalho dos orientandos, das dificuldades ou facilidades de expressão de cada um dos orientandos, da infra-estrutura e da bibliografia disponíveis para os diferentes trabalhos dos orientandos?

O orientador estimula a formação de pequenos grupos de discussão e de seminários de seus orientandos? Respeita a pesquisa solitária, conforme o tipo de tema ou dos orientandos? O orientador não se apropria da pesquisa dos orientandos e não a publica em seu próprio nome? Não explora os orientandos como força-de-trabalho?

A universidade reconhece a importância da pesquisa e cria condições para que se realize, se renove e se amplie (bibliotecas, laboratórios, instrumentos e equipamentos, intercâmbios nacionais e internacionais, verbas para publicação de revistas; para editora universitária; para co-edições com editoras comerciais, bolsas)?

O pesquisador pode contar com o reconhecimento público de seu trabalho, tanto pela publicação quanto pela utilização acadêmica, profissional ou social que dele é ou será feito? O pesquisador pode ter expectativa de reproduzir seu aprendizado e formar novos pesquisadores porque outras universidades do país poderão contratá-lo, ou sua própria universidade tem uma previsão de ampliação dos quadros? O pesquisador tem clareza da diferença entre pesquisa e consultoria, pesquisa e assessoria?

Indagações como estas podem auxiliar-nos a formular um conceito geral da excelência na pesquisa e encontrar critérios qualitativos para avaliá-la. Aqui, sugerimos alguns:

  • a inovação — seja pelo tema, seja pela metodologia, seja pela descoberta de dificuldades novas, seja por levar a uma reformulação do saber anterior sobre a questão;
  • a durabilidade — a pesquisa não é servil a modismos e seu sentido não termina quando a moda acadêmica acabar porque não nasceu de uma moda;
  • a obra — a pesquisa não é um fragmento isolado de idéias que não terão seqüência, mas cria passos para trabalhos seguintes, do próprio pesquisador ou de outros, sejam seus orientandos, sejam os participantes de mesmo grupo ou setor de pesquisa; há obra quando há continuidade de preocupações e investigações, quando há retomada do trabalho de alguém por um outro, e quando se forma uma tradição de pensamento na área;
  • dar a pensar — a pesquisa faz com que novas questões conexas, paralelas ou do mesmo campo possam ser pensadas, mesmo que não tenham sido trabalhadas pelo próprio pesquisador; ou que questões já existentes, conexas, parelas ou do mesmo campo possam ser percebidas de maneira diferente, suscitando um novo trabalho de pensamento por parte de outros pesquisadores;
  • impacto ou efeito social, político ou econômico — a pesquisa alcança receptores extra-acadêmicos para os quais o trabalho passa a ser referência de ação, seja porque leva à idéia de pesquisa aplicada, a ser feita por outros agentes, seja porque seus resultados são percebidos como direta ou indiretamente aplicáveis em diferentes tipos de ação; • autonomia — a pesquisa suscita efeitos para além do que pensara ou previra o pesquisador, mas o essencial é que tenha nascido, de exigências próprias e internas ao pesquisador e ao seu campo de atividades, da necessidade intelectual e científica de pensar sobre um determinado problema, e não por determinação externa ao pesquisador (ainda que tenham sido outros sujeitos acadêmicos, sociais, políticos ou econômicos que possam ter despertado no pesquisador a necessidade e o interesse da pesquisa, esta só consegue tornar-se excelente, se nascida de uma exigência interna ao pensamento e à ação do próprio pesquisador);
  • articulação de duas lógicas diferentes, a lógica acadêmica e a lógica histórica (social, econômica, política) — a pesquisa inovadora, duradoura, autônoma, que produz uma obra e uma tradição de pensamento e que suscita efeitos na ação de outros sujeitos é aquela que busca responder às questões colocadas pela experiência histórica e para as quais a experiência, enquanto experiência, não possui respostas; em outras palavras, a qualidade de uma pesquisa se mede pela capacidade de enfrentar os problemas científicos, humanísticos e filosóficos postos pelas dificuldades da experiência de seu próprio tempo; quanto mais uma pesquisa é reflexão, investigação e resposta ao seu tempo, menos perecível e mais significativa ela é;
  • articulação entre o universal e o particular — a pesquisa excelente é aquela que, tratando de algo particular, o faz de tal maneira que seu alcance, seu sentido e seus efeitos tendam a ser universalizáveis — quanto menos genérica e quanto mais particular, maior possibilidade de possuir aspectos ou dimensões universais (por isso, e não para contagem de pontos, é que poderá vir a ser publicada e conhecida internacionalmente, quando o tempo dessa publicação surgir). Donde a preocupação que os orientadores deveriam ter com o momento em que os estudantes escolhem um tema de iniciação à pesquisa, que antecipa o futuro mestrado e o futuro doutorado, de modo o que o primeiro tema fosse um exercício preparatório para as escolhas seguintes, garantindo, ao final do percurso, um novo pesquisador em condições de realizar novos trabalhos nos quais a articulação entre o particular e o universal se tornem perceptíveis para ele por haver aprendido, na iniciação e no mestrado, a trabalhar sobre o particular com rigor e originalidade.

Irracionalismo pós-moderno e cidadania

De maneira muito sumária, recordemos que a economia capitalista contemporânea se realiza a partir da desmontagem do modelo fordista e da concepção keynesiana. Ao modelo fordista, a economia contrapõe a dispersão e terceirização da produção, a centralização e velocidade espaço-temporal da informação, o abandono das noções de estoque e de durabilidade dos produtos, com predomínio dos descartáveis, a absorção da ciência e da tecnologia como forças produtivas e um modo de acumulação do capital que não opera por absorção crescente de toda a sociedade ao mercado da mão-de-obra e do consumo, mas, ao contrário, pela velocidade crescente do turn-over da mão-de-obra e pela exclusão crescente de grandes parcelas da sociedade desses dois mercados, criando, assim, bolsões de miséria e de riqueza que cindem o social numa divisão que não corresponde mais à antiga divisão das classes, retirando os referenciais que permitiam à classe trabalhadora organizar-se na luta de classes. À concepção keynesiana, contrapõe-se a visão monetarista da economia, a idéia de desregulação do mercado, acompanhada das idéias de competitividade e de Estado mínimo, afastado tanto da ação planejadora, no nível da economia, quanto da ação social, no nível dos serviços públicos, encaminhados progressivamente à privatização. Encolhimento do espaço público e alargamento do espaço privado marcam a nova fase do capitalismo.

A essa base material, corresponde, no plano da ideologia, o predomínio do fetichismo da mercadoria, particularmente a mais abstrata e enfeitiçada de todas: o dinheiro ou a moeda, fazendo do consumo e da busca de ganhos financeiros a aspiração mais forte, além de imprimir sua efígie naquele consumo e naquele ganho, isto é, a velocidade e a imagem do tempo como instante fugaz. A nova ideologia estabelece o privilégio da intimidade contra a sociedade, do narcisismo contra movimentos sociais e populares, da contingência e do acaso contra a necessidade natural e histórica, et pour cause, refugia-se na astrologia, na magia, nas fadas, duendes, cristais e pirâmides.

A nova ideologia declara o fim da modernidade ou da razão moderna, posta, agora, como mito iluminista, etnocêntrico, repressivo e totalitário. Ao fazê-lo, instaura a célebre crise dos paradigmas científicos. Fala-se numa crise da razão, resumível em alguns aspectos principais:

  • negação da existência de uma esfera da objetividade, substituída pela subjetividade narcísica desejante;
  • negação de que a razão possa conhecer uma continuidade temporal e captar o sentido imanente do tempo e da história, substituída por temporalidades descontínuas, locais e fragmentadas;
  • negação de que a razão possa captar núcleos de universalidade no real, posto, agora, como dispersão de diferenças e alteridades, reino das particularidades sem conexão;
  • negação da diferença entre Natureza e Cultura, tanto porque os movimentos ecológicos místicos tendem a antropomorfizar a Natureza, quanto porque a biogenética, a bioquímica e a engenharia genética determinam o cultural como mero efeito dos códigos genéticos naturais;
  • negação de que o poder se realize à distância do social, através de instituições que lhe são próprias, fundadas tanto na lógica da luta de classes e da dominação, quanto nas ações emancipatórias. Em seu lugar, surgem as idéias de micropoderes capilares, que disciplinam a sociedade, e políticas que se realizam sem as mediações institucionais, resultando, no primeiro caso, em ações fragmentadas que terminam em meras demandas, e, no segundo, em reforço dos populismos e dos fascismos.

Diante desse quadro, torna-se incompreensível que a USP, auto-colocada como a primeira e mais excelente universidade do país, não realize atividades docentes, de pesquisa e de discussões interdisciplinares voltadas para estas questões que afetam todos os campos do conhecimento. A docência se submete ao consumismo estudantil, à pesquisa, aos imperativos competitivos do mercado, às discussões, às lutas dos interesses conflitantes cuja origem e sentido não são objeto de análise, mas de aceitação passiva.

Inúmeras conseqüências desse alheamento poderiam ser apontadas. Pretendemos, porém, assinalar apenas uma delas, clara e imediatamente política.

Sabemos que a democracia não é um simples regime político, mas uma forma da existência social fundada nas idéias e práticas do conflito e da contradição, na igualdade perante a lei e perante a opinião pública, na representação e participação nas decisões coletivas, no alargamento da esfera pública e no estímulo a contrapoderes sociais que limitem, regulem e transformem o poder estatal. Longe de ser, como desejariam os cientistas políticos neoliberais, a forma política do consenso e do equilíbrio, a democracia é a única forma política cuja peculiaridade e grandeza está no fato de considerar conflitos, oposições, desequilíbrios e contradições legítimos e o coração pulsante do social e do político. Essas características da democracia derivam de uma outra, fundadora dessa forma sócio-política: a idéia dos direitos e da criação de novos direitos, ampliando a noção clássica de cidadania para alcançar a esfera da economia, da cultura e do todo social. As lutas democráticas, contrariando a lógica do liberalismo clássico, foram sempre lutas populares e sociais por direitos novos, tornando a democracia uma forma político-social eminentemente histórica, pois continuamente transformada pelas conquistas e pelo reconhecimento de novos direitos.

Um direito diferencia-se de uma carência, de um privilégio e de um interesse. Carência e privilégio são, por definição, particulares e específicos, não podendo generalizar-se em interesses comuns nem transformar-se em direitos universais. Por este motivo, satisfazer carências e quebrar privilégios é pré-condição da democracia e não a própria democracia, uma vez que esta opera com o princípio da igualdade e da universalidade. Interesses são gerais, referindo-se a grupos e classes sociais que definem seu modo de inserção na sociedade, seus antagonismos e diferenças no campo da generalidade da divisão social. Direitos são universais, seja porque são os mesmos para todos, seja porque são universalmente reconhecidos quando explicitam diversidades (de gênero, religião, etnia, sexualidade etc).

Ora, a forma atual do capitalismo opera gerando carências crescentes — os bolsões de excluídos e desorganizados — e privilégios crescentes — os bolsões de riqueza — e tende a apresentar estes últimos como interesses gerais, dissolvendo a noção democrática da universalidade dos direitos na particularidade de privilégios generalizados como interesses. Em outras palavras, a lógica neoliberal é internamente contrária à lógica democrática.

Se assim é, temos visto as conseqüências da absorção passiva do neoliberalismo pela USP. Assim, a proposta da universidade paga pelos mais ricos, aparentemente igualitária e justa, esconde o fato de que o direito à educação se transforma em privilégio dos ricos e benemerência para os carentes (resolve-se o efeito, abandonando-se a gênese do problema). A proposta da universidade prioritariamente financiada pelas empresas, liga a pesquisa científico-tecnológica aos interesses específicos de grupos e do mercado, deixando de lado o papel da pesquisa pública, voltada para os direitos de toda a sociedade. A idéia da avaliação segundo critérios de produtividade, eficácia e competitividade transforma a natureza conflitiva e antagônica da democracia, estimuladora de novos direitos, em luta mortal dos interesses, fazendo com que a cisão universitária surja como cisão dos interesses e, sobretudo, fazendo com que os opositores à universidade neoliberal caiam na armadilha do neoliberalismo, uma vez que se sentem forçados, pelas condições econômicas, a centrar suas lutas nas questões salariais e nos interesses da categoria. Em outras palavras, dois corporativismos encontram-se em choque na USP: o das entidades ou corporações empresariais e financeiras e o das associações ou corporações de professores e funcionários. Os critérios de tempo da produção acadêmica, empregados para a avaliação universitária, incorporam, sem perceber, a velocidade e a fugacidade do mercado de consumo e da moda. O menosprezo pela docência indica menosprezo pela melhoria da qualidade em todos os graus do ensino, impedindo que a escola pública seja garantidora de um dos direitos fundamentais da cidadania, e, pior, tenta-se corrigir a injustiça atual do acesso à USP por meio da escola pública paga e benemerente.

A título de exemplo, a respeito de alguns problemas postos pelos indicadores existentes, menciono:

  • congressos e seminários: em geral, sobretudo quando não são pequenos colóquios e seminários específicos, os acadêmicos vão para fazer relações profissionais de intercâmbio e não para apresentar trabalhos originais e de fôlego — não é um bom critério de aferição;
  • na área de filosofia pega mal publicar muito — significa ou que está reciclando artigos ou que há pouco pensamento, pouca pesquisa, pouca reflexão. Ninguém tem grandes e novas idéias anualmente — não é um bom critério;
  • nas humanidades, os livros, mesmo os ensaísticos, são mais importantes do que os artigos isolados e o tempo para preparar e publicar um livro é muito maior do que para artigos — é inadequado o prazo de três anos para um livro, a menos que sejam coletâneas de artigos já publicados esparsamente;
  • o mercado editorial brasileiro é muito precário, com graves problemas técnicos para a edição e, sobretudo, para a distribuição; portanto, o pequeno número de livros e revista não indica que não houve pesquisa, e sim que é possível não haver verba para publicar a revista e, no caso do livro, o autor pode estar na fila de espera de uma editora sem ter idéia do prazo quanto à espera — o critério da publicação pode ser abstrato quando não leva em conta as condições editoriais concretas;
  • em certas áreas, como na de filosofia por exemplo, um bom doutorado deve ser feito em cinco anos; infelizmente, o uso do critério norte-americano (três anos, em média) prejudica a qualidade da produção;
  • problemas graves de infra-estrutura: bibliotecas, laboratórios, instrumentos de precisão, material para trabalho de campo, computadores etc.; a deficiência e carência são tão grandes que a maioria dos universitários já nem as percebe e sente-se satisfeita com o que tem;
  • preparo dos estudantes: com o segundo grau tal como é, quem está contente com o nível dos estudantes? O que se pode fazer numa graduação em que os estudantes não estão preparados para a vida universitária e em instituições nas quais não há condições de trabalho adequadas? A qualidade da docência decai quando precisa adaptar-se ao nível em que os estudantes chegam à universidade; em lugar de uma excelente graduação que permita preparar uma boa pós-graduação, o curso tende a ser um colegial avançado e a pós, a antiga graduação — omitir na avaliação da qualidade da docência e da pesquisa a situação dos primeiro e segundo graus também é uma abstração que distorce os resultados;
  • critérios de financiamentos: embora tenha havido grande melhoria na decisão para financiamentos, ainda existem os casos de bolsa em Paris para doutoramento sobre os engenhos de açúcar; bolsa em Londres para doutoramento sobre imigração italiana para o Brasil; bolsa para doutoramento nos USA sobre movimentos populares — em suma: critério coronelístico de uso dos recursos; • as burocracias das agências de financiamento consomem mais da metade dos recursos para sua auto-reprodução, de tal modo que recursos preciosos para criar infra-estrutura em universidades que desejam estimular a pesquisa e para auxílios individuais ou para grupos tornam-se escassos — além disso, as agências financiadoras tendem a uma rotina que gera não-senso; por exemplo, uma agência exigiu exame de habilitação em língua estrangeira para uma bolsista que ia fazer pesquisa em Portugal!;
  • como a forma atual do capitalismo opera com a terceirização e com a alta rotatividade de bens e mão-de-obra, a tendência de todas as formas de trabalho — universitárias ou não — é o individualismo extremamente competitivo e que se realiza sob duas formas principais, no caso universitário: ou o uso e abuso da patronagem (é o prestígio de alguém mais velho na carreira que permite o trabalho de um mais jovem, numa relação de clientela) ou a formação de núcleos autônomos que fragmentam a universidade — em geral, acha-se isto muito bom e fala-se em pluralismo e diversificação, quando na verdade se tem clientelismo acadêmico, individualismo competitivo e fragmentação dos trabalhos acadêmicos.

O que tem faltado nas avaliações sobre a excelência acadêmica? Entre outras coisas:

  • histórico do que aconteceu com o primeiro e o segundo graus durante o milagre e seus efeitos sobre todo o trabalho universitário;
  • histórico das causas de criação da maioria das universidades federais durante a ditadura: para satisfazer ao desejo de prestígio de caciques e oligarcas locais que empregam nelas seus apadrinhados (lembrar o que Quércia-Fleury fizeram com a Unesp, absorvendo faculdades privadas de baixo nível) e as conseqüências tanto para os que desejam transformá-las em universidades verdadeiras e entram em desespero, quanto para os que nelas se empoleiraram definitivamente, bloqueando o esforço dos primeiros e desconhecendo os critérios mínimos da atividade universitária;
  • avaliação das agências de financiamento;
  • diversificação dos critérios avaliativos: por exemplo, nas áreas de ciências básicas — exatas, naturais, humanas e filosofia — o intercâmbio internacional é muito importante, mas seu grau de importância, de necessidade e de intensidade não é o mesmo em cada uma delas; se, para um químico ou um físico, é essencial ter sua pesquisa imeditamente publicada em periódicos internacionais, no caso das humanas, dependendo do assunto, a urgência não é tão grande, sendo muito mais importante torná-la imediatamente conhecida no Brasil — se a publicação internacional for um critério decisivo, como julgam alguns, a relevância de pesquisas básicas locais se perde;
  • perversidade de alguns critérios: exemplo: o número de citações de um trabalho é um bom indicador da relevância e qualidade da pesquisa. Resultado: como este critério passa a servir para determinar financiamentos, cargos, empregos melhores, os universitários norte-americanos passaram a duas atitudes: formar grupos de citação recíproca e a reciclar artigos para serem citados novamente; mas, muito pior, passaram a reduzir e restringir as áreas de pesquisa, mantendo apenas as já existentes, pois quando um campo novo está sendo aberto, não há como ter citações dos trabalhos porque são pioneiros e não há muita gente pesquisando o assunto — o critério da citação, que poderia ser um bom indicador, acaba oscilando entre a picaretagem e o modismo.

De modo muito esquemático, gostaria de propor algumas perguntas e algumas respostas, enfatizando a idéia de excelência qualitativa da docência e da pesquisa.

Marilena Chauí é professora do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.


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USP 94 – a terceira fundação MARILENA CHAUÍ