UMA SEGUNDA MORTE PARA CLÓVIS GARCIA

29/06/2012

Uma estória do Café das Cinco. Para o Mário Martins.

Clóvis Garcia morreu vítima de um erro médico, que não diagnosticou uma apendicite, confundindo-a com excesso de gases no intestino. Supurada, o matou. Uma morte ridícula, todos concordaram, para alguém como ele. Uma morte ridícula, com um homem ridículo, estendido numa cama de hospital público, na área reservada à caridade aos pobres, ladeado por cortinas de banheiro e outros moribundos, com uma amante envelhecida aos pés de sua cama, chamada às pressas por aquele homem, agora tão comum e mortal, implorando perdão, juras e amor eterno. Um homem, uma cena, um quarto: fotografia amarelada pelo tempo, queimando e incensando a memória.

Quando, por fim, o lençol azul e manchado lhe cobriu a face inerte, Clóvis Garcia deixou, oficialmente, de existir. E, protocolarmente, com ele, toda a falta de potência de ser que os últimos anos acompanharam, colados à pele como uma armadura de ferro. Os anos foram implacáveis com Clóvis Garcia, e ele se deixou abater, não fazendo jus à personagem que construiu sem muitos dedos ou cuidados. Um herói é um arquiteto e o único responsável pelo edifício de símbolos e desejos que ergue em torno de si.

No fundo, apesar de mito coletivo, um herói é solitário.

E agora, Clóvis Garcia? Agora que você é isto: um pesado corpo de 120 quilos, um aglomerado de carne, sebo e sangue que, dentro em breve, irá se enrijecer e feder. E que uma infecção generalizada continua a lhe comer as entranhas, as forças que lhe vinham das entranhas, enquanto esta pele ainda tem algum calor e suor para perder? E o médico, Clóvis? Sorrindo amarelo para mim, explicando sem explicar o erro. Sem processo, ele pede. Em outros tempos, você o mataria, o esganaria milhares de vezes, sem suar. E agora, Clóvis, que sua velha amante recheada de perfume barato e dançando na calcinha larga e suja com a qual eu a encontrei e com a qual mal se vestiu e veio rapidamente te visitar, depois de todos estes anos? E agora, que ela molha a minha camisa com estas lágrimas que, tenha cá para nós, são falsas; molha e mancha não somente as minhas roupas, mas a sua memória. Clóvis Garcia, enquanto ela chora por você, alisa o meu pescoço, roça suas coxas nas minhas. Enquanto vêm os homens do necrotério, eu a levo para casa e você bem sabe o que irei fazer para consolá-la, Clóvis. Nos áureos tempos, você faria o mesmo.

Agora, Clóvis Garcia, você repousa debaixo de sete palmos de terra, ridículos e comuns, com suas pernas quebradas por nós, pois seu corpo não cabia neste caixão barato. E dentro em breve, seu corpo começará a inchar, suas extremidades crescerão e serão comidas por vermes, bem como seus olhos. Esta roupa que os amigos fizeram uma vaquinha para comprar no brechó, se deteriorará. E a pressão da terra sobre a madeira de terceira quebrará o caixão. Os vermes que entrarão comerão as carnes, dançarão nas órbitas vazias. E quando não for mais que ossos, cabelos e mau cheiro, virão os coveiros, comandados pela Administração do Cemitério Municipal, para lhe exumar o corpo, quebrar-lhe os ossos restantes e colocá-lo numa parede, com um número qualquer, dentro de uma caixa, ladeado por milhares de outros. Você ocupa muito espaço, Clóvis, no maior cemitério da América Latina.

E, daqui alguns anos, quando for a minha vez de morrer, ninguém mais se lembrará de você. Os poucos presentes no enterro comentarão a indignidade de você não ter sido cremado, Clóvis. Mas o fato é que você estava ali para ser degustado, não é?

Nem lhe depositarão flores, nem lhe acenderão velas, nem lhe cantarão os feitos, nem lhe suspirarão de amores, nem lhe repetirão o nome. Mas há muitos anos que não lhe fazem nada disso, Clóvis. Você sabe: a história oficial que hoje o Sindicato escreve não tem seu nome em lugar algum. As greves que ajudou a garantir, à base de balas e falas de seus revólveres, dizem agora que foram feitas à uma mesa de negociação. Negociação, você, Clóvis? E o dinheiro? E o dinheiro, Clóvis? Aquele dinheiro que você e outros roubavam e que eu calei, com quem estará, Clóvis? Com quem estará? Você dizia, rindo muito: Tenho fé no materialismo. Hoje e sempre. E sou herói.

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E as mulheres, Clóvis, onde andarão? Quantas vezes as levamos para a cama, para o chão, para o mato, para
detrás das estantes, para atrás dos carros de som, para quartos de limpezas e outros lugares mais, depois de nossos discursos, de nossas ações extraordinárias? Todas queriam dormir com o herói. E ele era você, Clóvis. Nós só pegávamos carona na sua fama. Hoje, elas querem dormir com o futuro, de preferência sem aventuras e com conforto. Protocolo sexual burocrático. Com a aposentadoria segura, com os filhos, com a casa e os carros e as poupanças. Com os nossos inimigos.

Clóvis, quantos você salvou naquela manifestação em 77? Lembra? Quando os seus lendários 38 canos longos, escondidos no jaquetão, deram tiros para o alto, para frente, para os lados, para trás? Quando você gritou: Chega de ser isca de polícia! Quando você, entrevistado pelos grandes jornais do Brasil, sentenciou: Se for para morrer, que se dane. Que venham. O proletariado já morre de fome. Agora tem de morrer de pé. E chumbo grosso. Você e sua jaqueta, Clóvis. Você e os livros de Mao Tsé nos bolsos internos. E, as balas, nos externos. Você e o seu cabelo, contra o vento. Você e o seu jeans apertado. Você e o seu sexo latejante. Você e o seu peito aberto, corpo fechado, filho de Xangô. Você sua voz, trovão em cima do caminhão. Você era o máximo, Clóvis.

E, agora, é isto.

Clóvis, eu poderia inventar uma estória mais feliz, mais a contento, para que os rostos que me ouvem no Café das Cinco se iluminem e se iludam. Os garotos do Café das Cinco se lembrariam de você, então, Clóvis. Mas, não. Você não fez por merecer. Os meninos do Café são bons. Mas eles não se lembrarão de você. Os heróis, Clóvis Garcia, devem, têm a obrigação de morrer cedo, jovens, de uma morte fatídica, trágica, súbita, de agonia rápida. Têm de morrer em batalha, epopéia a ser cantada, com sangue, muito sangue, embebidos em sangue. Era assim que tinha de ser com você, Clóvis Garcia. Você morrendo, trocando balas com a polícia política. Você morrendo em combate feroz, com algum adversário. Você caindo em agonia, numa tortura, sem dedurar ninguém, nenhum companheiro. Você sendo traído por alguma amante, arrastado para uma cilada. Você morto no campo de batalha, com o corpo desaparecido. Você num livro de memórias, num filme biográfico, numa canção nacional. Você…

Não isto. Não isto, Clóvis Garcia!

É engraçado – e curioso até – que eu, logo eu, aquele que o desprezava e, quem sabe?, o amei, que o tivesse como um ser abjeto e a quem devo a minha vida, por me ter salvo de um espancamento, à base de suas balas; que sabia de muitas das suas mutretas e seus roubos no Sindicato, mas que fechava com você – o que me fazia, claro, seu cúmplice – porque você era meu companheiro – o que não me fazia menos ladrão – ah, enfim, é engraçado, Clóvis, que seja eu, logo eu, a te contar aqui, agora, com estes olhos baços e desesperançados diante de mim, aqui, agora, para os meninos do Café das Cinco, Clóvis. Não tenho vocação para Esfinge, nem para Oráculo, nem para Pandora.

Você repousa numa sepultura. Você se livrou de toda a dor, do ridículo, do passado, do herói, da leveza e do peso de ser. Você é livre, Clóvis Garcia. Livre. Você é livre, livre, mas não de mim. Que estória eu devo contar a teu respeito? Que estória, Clóvis? A do ridículo? A do enfermo de apendicite mandado para casa com comprimidos para alívio de gases e dor de barriga? Ou a do herói?

Você é livre, é livre, mas não de mim.

Nem eu de você. É verdade. Eu quero o herói. E quem não quer? Clóvis Garcia, você não tinha o direito de se deixar acabar assim. De se deixar de ser, de se tornar um impotente ridículo, gordo, mal cheiroso, delicado e suplicante. Você não era só você. Não foi só você quem morreu, percebe? Foi um tempo inteiro. Clóvis Garcia, seria melhor que nem tivesse existido. E nem nós. Nem que nos tivéssemos conhecido. Não morreríamos de vergonha. Foi isso que o matou e será isso que nos levará junto com você, até o último de nós.

É compreensível que o Sindicato esconda o seu nome da História Oficial. Quem éramos nós perto de você, Clóvis? Seu nome ecoa, reboa, ressoa, enche a boca, preenche os espaços, emprenha ouvidos. Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia… Pode ouvir a multidão, a massa te gritando lá embaixo do caminhão? Menos que um poema, quase uma poesia: Clóvis Garcia, dizia uma de suas namoradas, estudante burguesa, com quem você gostava de desfilar como um troféu, apequenando, para nos deixar a ver navios. Você era o pirata, o bárbaro, você era livre. Livre, livre, mas não de mim. Nem eu de você, atado ao nosso passado, ao seu passado.

E agora, Clóvis Garcia?

Onde estão teus amigos? E as tuas amadas? E as tuas armas? Tudo desfeito, doado, vendido barato, penhorado, perdido ao longo dos anos, em tuas rondas noturnas e fantasmas matinais. Você é isto, agora, Clóvis, para alguns: menos que um fantasminha camarada, assombrado durante anos pela Era dos Resultados. Logo você, Clóvis. Quem diria? Logo você. Sindicato de Resultados, Futebol de Resultados, Relacionamento de Resultados, Sexo de Resultados, Partido de Resultados, Combate de Resultados… Não para você, não é, Clóvis? Força viva, pulsante. Não havia mais lugar para você. Nem mesmo dentro de você. Mas precisava se deixar matar assim?

Apendicite supurada. Gases. Erro médico. Não é morte de herói.

O jogo é jogado, parceirinho, você citaria João Antônio. É. Mas nunca é fair play.

Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia… Pode ouvir a multidão, a massa te gritando lá embaixo do caminhão? Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia……

Sigo, não sei se sorrindo, assobiando e contando você. E te conto tantas vezes que, chutando pedregulhos no caminho, sou até capaz de te esquecer. O sol esfria junto com o que me lembro de você.

Mário Augusto Medeiros da Silva






PELOS DIREITOS HUMANOS DE ELAINE CESAR, SEU FILHO E O TEATRO OFICINA

17/12/2010

PELOS DIREITOS HUMANOS DE ELAINE CESAR, SEU FILHO E O TEATRO OFICINA


O pai de todas as opressões está em ação. É preciso unirmos todos para destruir o moralismo sexual. O pai da opressão contra as mulheres junta-se à Vara da Família para surrar até a morte Elaine Cesar e seu filho Theo. Fazer teatro, teatro que importa, que dança sobre a cabeça de hidra do moralismo, como é o Teatro Oficina, é atacado por maridos, pais, padres e todos os reacionários. Zé Celso respondeu na sua carta. O ex-marido, macumunado com um tia de uma (in)justiça familiar tenta destruir uma das poucas coisas de arte feitas neste país, usando o moralismo sexual. Nada de novo. A cota diário do moralismo sexual é a destruição.
Mário

14/12/2010

AS DIONIZÍACAS DE 17 a 20 no TEATRO DE ESTÁDIO do ex-ESTACIONAMENTO do BAÚ da FELICIDADE


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serão dedicadas à luta pelos DIREITOS HUMANOS DE ELAINE CESAR E À LIBERDADE ARTÍSTICA VIOLADA PELA VARA DE FAMÍLIA DE SÃO PAULO

São 06:16. Acordei, apesar de estar exausto por excesso de trabalho pelos trabalhos de realizar meu maior desejo em 30 anos, de apresentar a partir de 6ª feira as DIONIZÍACAS no Teatro de Estádio que levantamos no Ex-Estacionamento do Baú da Felicidade mas não consigo dormir porque não estou mais suportando a ENORME INJUSTIÇA que a SOCIEDADE BRASILEIRA está cometendo com ELAINE CESAR, que neste momento está na UTI, correndo risco de vida.

Este caso não é diferente do de Sakineh no Irã, do de Lu Xiaobo na China e de Assange na Inglaterra. Vim pro computador porque até agora não conseguí fazer chegar nossas vozes de defesa aos DIREITOS HUMANOS desta Mãe Artista, Diretora de Video do Teatro Oficina Uzyna Uzona, que na semana passada, perdeu em duas jogadas:

1º, a guarda de seu filho THEO, de 3 anos de idade.

2º, seus instrumentos de trabalho confiscados, seus HD’s, que também são do Oficina, com todo material gravado de pelo menos 30 anos de Oficina Uzyna Uzona, e de outros trabalhos seus, e de artistas como Tadeu Jungle.

É um atentado à liberdade de produção artística, um sequestro só comparável à invasão do CCC em 1968 a “Roda Viva”.

E agora esta mulher está incapacitada de estar à frente do trabalho que adora, de comandar a direção de Video e das filmagens das Dionizíacas esta semana, e tem de ver a sociedade, a Mídia sempre tão escandalosa, impassível com este fato.

Porque tudo isso ?

Porque um ex-marido ciumento, totalmente perturbado, teve acolhidos por autoridades da Vara da Família, para esta praticar uma ação absolutamente anti-democrática, para não dizer nazista, todos seus pedidos mais absurdos de ex-marido ególatra, doente, de arrancar o filho do convívio da Mãe,


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acusando Elaine de trabalhar num “Teatro Pornográfico” e para lá levar o filho: o Teatro Oficina. Fez oficiais de justiça sequestrarem os HD’s deste Teatro, com um texto de uma obscenidade rara, para procurar cenas de pedofilia e práticas obscenas que Elaine e seu atual marido, o ator Fred Stefen, do Teatro Oficina, teriam cometido com o filho de Elaine, o menino Theo.

Quase todas as 90 pessoas que trabalham na Associação Oficina Uzyna Uzona têm se manifestado por escrito, pois tiveram contato permanente com Theo, Elaine e Fred dentro do teatro e fora dele e não se conformam com a falta de eco de seus protestos.

Porque tudo isso ?

A revolução cultural da liberdade que uma grande parte dos seres humanos vem conquistando determina uma reação absolutamente inquisitorial, fascista, como é o caso dos homofóbicos da Av. Paulista e no caso, não do Estado Brasileiro, mas da própria Sociedade Reacionária incorformada,


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querendo novamente impor censura à Arte, aos costumes, e pior à vida dos que escolheram viver livremente o Amor.

E é incrível aqui, a liberdade de imprensa tão fervorosa em escândalos moralistas, se cala totalmente diante de um atentado a dois seres humanos, Elaine, a Mãe, e Theo seu filho, e a um teatro de 52 anos como o Oficina, e não toca no assunto, como se fosse o Partido Comunista Chinês, os Republicanos dos EEUU e os fundamentalistas islâmicos do Irã.

Tenho feito inúmeras reportagens sobre as DIONIZÍACAS, e falado no assunto, mas a divisão ainda tayloriana de trabalho impede que os jornalistas levem a sério o que estou dizendo, por não estar no limite das matérias que estão fazendo comigo.

Enquanto isso uma mulher, ELAINE CESAR, praticamente corre risco de vida na UTI e o Teatro Oficina censurado estreia as DIONIZÍACAS tendo por exemplo de fazer sua propaganda para a TV com material ainda filmadas no edifício do Teatro Oficina, pois as imagens do Teatro de Estádio erguido pelo Brasil em 2010 estão sequestradas pela Vara da Família.

O moralismo desta instiuição, que parece odiar os Artistas como criminosos, dá proteção a um macho ciumento, invejoso, doente, mordido de ciúmes, que está tendo delírios sexuais, projetando em ações discricionárias como as que tem praticado, e pior com apoio da injustiça.

Fazendo um ensaio corrido de BACANTES, que conta a história de Dionisios e da luta de seu adversário moralista, que quer impedir o culto do Teatro em sua cidade, percebi o óbvio. Tudo que Penteu acusa nas BACANTES e em DIONISIOS é projeção de coisas que seu ciúme provocou em sua cabeça.

Elaine, muito tempo depois que se separou deste ex-marido, teve o privilégio de encontrar um novo amor no ator Fred, que é homem muito bonito e muito livre. O macho, ex-Hare Krishna, ciumento, invejoso, então endoidou e começou a imaginar em sua cabeça cenas de pedofilia, sexo de Elaine e de seu novo maravilhoso amor com seu filho, repressão ao TEATRO OFICINA. Elementar, Freud diria.

Os desejos de pedofilia, até de pederastia em relação ao atual marido de Elaine estão nele. Por isso o menino de 3 anos Theo, corre perigo nas mãos deste irreponsável. Uma tia procuradora aposentada, de Brasília, rica, e um deputado devem estar auxiliando o rapaz com seus contatos reacionários aqui na Vara de Família.

Nem sei os nomes das pessoas porque os autos não estão na minha mão. Elaine não tem pai nem mãe, estão mortos. Fred está sem dormir há dias, agora preocupado acima de tudo com a sobrevivência de Elaine. Segunda feira havia uma audiência com o Juiz de família, para copiarmos o absurdo de mais de 400 horas de vídeo dos HD’s. Nenhum de nós nem pôde aparecer, pois estávamos preocupados com a vida de Elaine, hospitalizada na UTI. Fred doi buscá-la no aereoporto, onde voltava de Brasília, para onde tinha ido ver o filho, sob a vigilância de uma babá contratada pela tia. Na despedida Theo o menino chorava, querendo voltar para os braços da mãe em São Paulo, segundo relato de Elaine, que do aeroporto, passando muito mal, teve de ser hospitalizada, e em estado grave o hospital resolveu colocá-la na UTI.


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Não sei o que fazer para acordar a mídia, esta Justiça Injusta que, querendo defender a Família, destreoi a vida de uma Mãe, de uma Criança e atormenta todo nosso trabalho maravilhoso neste momento vitorioso do Oficina Uzyna Uzona. Este “taylorismo”, (divisão de trabalho e competências do século 19) da vida contemporânea, esta insensibilidade aos direitos humanos que me é revelada agora neste momento, me faz dedicar as DIONIZÍACAS á todos que lutaram em 30 anos por este momento, mas sobretudo a ELAINE CESAR E THEO.

Que esse filho volte imediatamente para os braços da MÃE antes que aconteça o PIOR.

E que o material apreendido retorne imediatamente ao Oficina Uzyna Uzona.

É uma Obra de Arte sequestrada em nome de uma atitude mesquinha provocada pelo Ciúme de um Ególatra,


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de uma Justiça cega e de uma Sociedade, Mídia, conivente como a de São Paulo.

Por favor acordem os trabalhadores da difusão do que acontece de bom e de mau no Mundo e revelem isso a todos.


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Peço a todos, seja quem for, que façam esse favor de amor aos direitos humanos e batam seus tambores.

Me dirijo especialmente a Ministra da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, Nilcéa Freire. Médica, Professora da UFRJ, Nilcéa ocupa o Ministério há quase 8 anos. Tem feito um excelente trabalho. O endereço da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República é: Esplanada dos Ministérios, Bloco L, Edifício Sede, 2º andar – Brasília/DF. CEP: 70047-900. Fones: (61) 2104 – 9377 e 2104 – 9381. Faxes: (61) 2104 – 9362 e 2104 – 0355.

A OTAVIO FRIAS, na FOLHA, aos diretores do ESTADÃO, do GLOBO, das TV’S, Rádios, que apurem os fatos. Nós estamos envolvidos nos trabalhos de estrear dia 17 as DIONIZÍACAS, um marco na história do TEATRO MUNDIAL, e nos sentimos impotentes diante da gravidade do assunto, de uma VIDA HUMANA CORRENDO O RISCO, POR SEUS SENTIMENTOS DE DIREITOS HUMANOS TEREM SIDO AGREDIDOS.

Colaborem conosco,


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estamos sobrecarregados dos trabalhos das DIONIZÍACAS, mas não podemos parar pois é a ARTE somente que temos para dar Vida a Elaine nestes dias.

José Celso Martinez Corrêa

14 de dezembro de 2010, 07:40

MERDA


A INFLUÊNCIA DO JORNAL DO PORÃO. Um balanço pelos cinco mil acessos.

24/10/2010

Mike Bongiorno. FENOMENOLOGIA DE MIKE BONGIORNO, de Umberto Eco. Este ensaio de 1961 foi publicado aqui no Jornal do Porão em 21 de fevereiro de 2009. Apesar de um longo ensaio para um blog é um dos textos mais lidos. Quando foi publicado em fevereiro de 2009, digite-o inteiro de um livro, pela indignação de ver a pobreza intelectual, o servilismo e as bobagens que ouvi de alguns professores do IFCH. Como por exemplo, diante da comemoração dos 50 anos do Teatro Oficina, certo professor de história dizer que “falei durante três aulas que o Zé Celso só quer chocar as pessoas”. Pior foi outro dizendo sobre o acervo do Teatro Oficina no Arquivo Edgard Leuenroth: “Aquela bicha…”. Nem pensava em Berlusconi, mas em professores do IFCH, arrivistas, carreiristas e especialistas em exercer seus poderes.

O texto mais lido, quase todas as semanas tem 4 ou 5 pessoas acessando-o, é o Jornal do Porão 4. É um Jornal que fala de Noel Rosa, de Chico Mendes e da Praça dos Trabalhadores. Mostrando a violência da pequenez dos políticos. São os próprios Mike Bogiornos.
Como colocar numa pracinha minúscula o nome de um dos maiores compositores e personalidade da cultura popular brasileira? Estudante de medicina que se liga, imediatamente, aos fundadores do samba. O samba tem várias vertentes, mas aquela que proliferou que tomou os rádios, e que tomou a país inteiro, foi arquitetada no Estácio. Noel Rosa logo vai ser parceiro de Ismael Silva, o grande do Estácio. E a antiga tripinha chamada Praça Chico Mendes cheia de lixo, tendo hoje uma desconhecida como nome oficial. Aqui Chico Mendes foi salvo da humilhação. E a praça dos trabalhadores então que nem existe, é um canteiro debaixo de uma ponte. E aqui neste Jornal do Porão ainda virá um artigo com fotos da Praça Tim Maia, um canteirizinho de terra batida e sujo. Os políticos são uns pobre-diabos.




Mário Medeiros contra a terceirização

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Outro texto que todas as semanas têm leitores é “UMA SEGUNDA MORTE PARA CLÓVIS GARICA”, de Mário Augusto Medeiros da Silva. Como os leitores já sabem, Mário Medeiros já teve os dois contos mais lidos neste blog. “Meias de seda se esgarçando”, provocou 104 leitores num dia, um segundo lugar de leitores, pois Jornal do Porão número 4 teve 119 no dia em que foi lançado, em fevereiro de 2009. Mas seu “Membro Fantasma” será o terceiro texto mais lido do blog: 84 leitores no dia que foi lançado o conto. Mário Medeiros da Silva deixa de ser colaborador para se tornar uma co-autor do blog. Não posso deixar de citar a melhor frase escrita neste blog foi quando Mário Augusto Medeiros da Silva, escrevendo um artigo em defesa de Mário Martins, perseguido pelos Mike Bongiornos do IFCH, cunhou esta: “O ato de acochambrar pelo poder, alcoviltar, escorchar e tomar atitudes numa relação de desigualdade (chefe-subordinado) é o elogio da estupidez. O chefe que precisa usar da força – censurar, chamar em sala, beco, alcova, colocar no canto, ameaçar, impor-se pelo cargo – demonstra que a sua suposta autoridade não possui nenhuma legitimidade, para além do cargo institucional e do medo que inspira. Respeito, então, nem se fale. É um estúpido. Uma besta com polegares. É indigno de ser chamado de intelectual, de pensador. É o ato de um delinqüente acadêmico, de homem-dispositivo, na melhor acepção que deram a esses termos Maurício Tragtenberg e Franciso Foot Hardman.”
Em defesa do Jornal do Porão, de seu criador e de todos nós.
14/11/2009 IDÉIAS SE COMBATEM COM IDÉIAS.

Há textos no Jornal do Porão que não são originais, mas que são constantemente lidos. Mas são originais no sentido que foram escolhidos para serem editados aqui. E porque cumprem a função de criar o debate. Textos também esquecidos que entram novamente em circulação. O principal deles é “A Delinqüência Acadêmica”, de Maurício Tragtemberg. Sempre lido, mas ainda não lido suficientemente. É um texto de 1978, mas parece que fala de agora. E dentro desta questão da academia o texto fundamental é “Segunda Refundação”, de Marilena Chauí. Na verdade pouco lido, mesmo porque é um ensaio imenso. Texto escrito em 1994 e ainda não assimilado. O movimento estudantil, segundo minha leitura do texto, fala de uma Universidade que nem existe mais. E Marilena Chauí prova isso. Sem este texto, acho, falar de universidade é fazer um debate sobre o vazio, como se fôssemos fantasmas.

E um texto querido. É muito lido, mas eu queria que fosse mais e mais. “AMOR CRISTÃO”, de Marcelino Freire. É uma porrada nos bem pensantes e sentimentalóides. Assim como são os poemas de Roberto Piva que também são lidos, toda a semana tem pelo menos 1 leitor aqui no Jornal do Porão.




terceirização coletivo Miséria 004

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Mas o Jornal do Porão vive um momento especial. Os desenhos de João da Silva. O coletivo Miséria e sua revista Miséria é algo único na Unicamp. Algo criativo, inventivo e que marcará época. Haverá uma época da Unicamp que, no futuro, falaremos da época da Revista Miséria. Que outra época a Unicamp tem? No futuro falaremos de um passado bem distinto, marcante. Convoco as pessoas a falarem destes momentos realmente marcantes e fundadores da Unicamp, se os houver.




churrasco Hélio (7)

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O momento especialíssimo das contribuições de Mário Augusto Medeiros da Silva. Sempre presente no Jornal do Porão e sempre criando impacto e leitores. Mas alerto aos desatentos. Newton Perón eu recomendo. Minha leitura e releituras tem sido, constantemente, ir ilustrando os textos. Aos textos de Newton Perón eu tenho dedicado esta leitura ilustrativa, ALGUNS AINDA INÉDITOS, em comemoração aos 5 mil acessos ao Jornal do Porão. Tenho, acho, conseguido ponto alto. A conferir.

O Jornal do Porão nasceu para ser um jornaleco litero/político/jocoso. Tem sido. Mas sua vocação tem sido de ser uma revista de onde amigos dialogam e tentam influir, criando uma visão de mundo assentada na cultura, na luta contra opressão e toda espécie de moralismo pequeno-burguês ou carola. Tem avançado. Pois, como vimos, textos difíceis são lidos e relelidos.
Se perceberam há dois contos inéditos de Newton Peron, ainda agendadados para serem publicados, mas que podem ser lidos já. Mas para página ainda tem algo mais que é publicado hoje. Acessem o no Flicker album com algumas fotos de Josephine Baker, comentada no texto de Umberto Ecco, Mike Bongiorno.

E já ia me esquecendo de Mário Bortolotto e seu sempre lido, aqui, “Me gústan las muchachas putanas”. Que iniciou neste Jornal do Porão os textos contra o moralismo idiota. Este mesmo que não fosse lido por ninguém eu republicaria até para relelê-lo.

As fotos do Flickr são muito vistas através deste Jornal do Porão. As campeãs são as fotos da “Capoeira Angola”, desenhos de Carbé. Só na sexta-feira, 22 de outubro 2010, a página com os desenhos “capoeira angola, de Caribé” teve 9(nove) acessos.
Pretendo em todos os aniversários da primeira publicação destes textos republicá-los.
PS. Newton Peron, além de ser um formidável coloborador deste Jornal do Porão, no auge da perseguição dos “burocratas mortos” a este editor e a este jornal, Newtinho assumiu a edição deste. Portanto ele será sempre um dos editores deste jornaldoporao.

Alguns textos de Mário Augusto (Medeiros da Silva), neste blog.

Este blog, nos seus mais de 5 mil acessos, reafirma um dos seus eixos, que é a preocupação política cotidiana. Interviu. Incomodou. Mas há uma grande curiosidade e uma sociologia inteira do profressorado do IFHC. No primeiro semestre de 2009, 80 professores do IFHC, assinaram uma carta que termina de maneira arrogante diante do Reitor. Nesta carta que inicia dizendo que o ‘IFHC ESTÁ AGONIZANDO’ e na reunião que a votou diziam que não iniciariam o segundo semestre, pois era impossível continua sem enfrentar radicalmente o problema, pois em 2011 o IFCH FALIRIA. Hoje está carta só pode ser lida aqui. Nenhum professor a cita. O que mostra que todos os 80 são coniventes com a agonia do IFCH. Mais. Devem ganhar com isso. No album Flickr do Jornal do Porão você pode ver a reação e mobilização dos estudantes.Mas há muito gente atenta a esta carta, muito menos do que devia, mas toda semana, aqui no blog, ela tem pelo menos 3 leitores. A carta não dá para ser resumida. Cada parágrafo dela é um diagjnóstico profundo o IFHC, das Ciências Humanas relegada para último plano. Diante da covardia que os professeores demonstraram depois de assinarem a carta, me obrigo a lembram Nelson Rodrigues e seu complexo de vira-latas para definir a subserviência.

Veja Blog de João da Silva
Revista Miséria

Alguns textos do Jornal do Porão também foram publicados na Revista Iskra, uma revista teórica de Jovem marxistas traz artigos sobre a repressão as festas no IFCH e na Unicamp.

Um conto dos mais lidos, so de consulta pelo nome, foram 31 vezes em 2010. Um grande achado. O Arquivo, de Victor Giudice. Dizem que é o conto brasileiro mais publicado no mundo. 27 vezes.


JORNAL DO PORAO N. 3

10/12/2009

Um jornaleco litero-informativo-jocoso

“A lembrança é uma forma de atualidade” , NOVALIS.

O Jornal do Porão está aberto à contribuições assinadas, tanto notícias, ficções que qualquer “forma”, principalmente as cartas dos leitores que serão publicadas na íntegra, desde que assinadas, durante a semana sob a rubrica de JORNAL DO PORÃO REPERCUSSÃO.  Se houver alguma censura será autocensura, pois ninguém é herói/sem/glória, o tempo todo, nesta democracia de fancaria.

Irão misturados ficções e realidades. E onde começa uma e acaba a outra? Muita gente já foi condenada à morte, prisão ou degredo  por conta de romances e historinhas, de Thomas Morus , Salman Rushdie ,  Galileu e Giordano Bruno.  Parece que hoje morre-se,  aos montes,   escritores e jornalistas nas periferias do mundo, quando suas histórias atingem algum poderoso. Aqui na civilização os poderosos, com cercas e muros,  não precisam usar a espada. O peso do poder, quase por inércia,  promove o silêncio. E os de baixo sabem que falar não adianta nada, e também promovem o silêncio sobre Eldorado dos Carajás ou Heliópolis. Como diria João Bosco e Aldir Blanc: é impossível vencer satã só com orações. Perdemos o senso, mas  salvamos nossas cabeças. Ou num ditado antigo, quando os deuses querem por a perder um povo primeiro o enlouquece. Somos loucos do silêncio ou do alheamento.

O Jornal do Porão, que se pretende semanal, começa este número 3 com um conto de Mário Medeiros e duas pequenas historinhas de Mário Martins.

UMA SEGUNDA MORTE PARA CLÓVIS GARCIA

Ao som do disco Summit, de Gerry Mulligan e Astor Piazzolla.

Uma estória do Café das Cinco. Para o Mário Martins.

Clóvis Garcia morreu vítima de um erro médico, que não diagnosticou uma apendicite, confundindo-a com excesso de gases no intestino. Supurada, o matou. Uma morte ridícula, todos concordaram, para alguém como ele. Uma morte ridícula, com um homem ridículo, estendido numa cama de hospital público, na área reservada à caridade aos pobres, ladeado por cortinas de banheiro e outros moribundos, com uma amante envelhecida aos pés de sua cama, chamada às pressas por aquele homem, agora tão comum e mortal, implorando perdão, juras e amor eterno. Um homem, uma cena, um quarto: fotografia amarelada pelo tempo, queimando e incensando a memória.

Quando, por fim, o lençol azul e manchado lhe cobriu a face inerte, Clóvis Garcia deixou, oficialmente, de existir. E, protocolarmente, com ele, toda a falta de potência de ser que os últimos anos acompanharam, colados à pele como uma armadura de ferro. Os anos foram implacáveis com Clóvis Garcia, e ele se deixou abater, não fazendo jus à personagem que construiu sem muitos dedos ou cuidados. Um herói é um arquiteto e o único responsável pelo edifício de símbolos e desejos que ergue em torno de si.

No fundo, apesar de mito coletivo, um herói é solitário.

E agora, Clóvis Garcia? Agora que você é isto: um pesado corpo de 120 quilos, um aglomerado de carne, sebo e sangue que, dentro em breve, irá se enrijecer e feder. E que uma infecção generalizada continua a lhe comer as entranhas, as forças que lhe vinham das entranhas, enquanto esta pele ainda tem algum calor e suor para perder? E o médico, Clóvis? Sorrindo amarelo para mim, explicando sem explicar o erro. Sem processo, ele pede. Em outros tempos, você o mataria, o esganaria milhares de vezes, sem suar. E agora, Clóvis, que sua velha amante recheada de perfume barato e dançando na calcinha larga e suja com a qual eu a encontrei e com a qual mal se vestiu e veio rapidamente te visitar, depois de todos estes anos? E agora, que ela molha a minha camisa com estas lágrimas que, tenha cá para nós, são falsas; molha e mancha não somente as minhas roupas, mas a sua memória. Clóvis Garcia, enquanto ela chora por você, alisa o meu pescoço, roça suas coxas nas minhas. Enquanto vêm os homens do necrotério, eu a levo para casa e você bem sabe o que irei fazer para consolá-la, Clóvis. Nos áureos tempos, você faria o mesmo.

Agora, Clóvis Garcia, você repousa debaixo de sete palmos de terra, ridículos e comuns, com suas pernas quebradas por nós, pois seu corpo não cabia neste caixão barato. E dentro em breve, seu corpo começará a inchar, suas extremidades crescerão e serão comidas por vermes, bem como seus olhos. Esta roupa que os amigos fizeram uma vaquinha para comprar no brechó, se deteriorará. E a pressão da terra sobre a madeira de terceira quebrará o caixão. Os vermes que entrarão comerão as carnes, dançarão nas órbitas vazias. E quando não for mais que ossos, cabelos e mau cheiro, virão os coveiros, comandados pela Administração do Cemitério Municipal, para lhe exumar o corpo, quebrar-lhe os ossos restantes e colocá-lo numa parede, com um número qualquer, dentro de uma caixa, ladeado por milhares de outros. Você ocupa muito espaço, Clóvis, no maior cemitério da América Latina.

E, daqui alguns anos, quando for a minha vez de morrer, ninguém mais se lembrará de você. Os poucos presentes no enterro comentarão a indignidade de você não ter sido cremado, Clóvis. Mas o fato é que você estava ali para ser degustado, não é?

Nem lhe depositarão flores, nem lhe acenderão velas, nem lhe cantarão os feitos, nem lhe suspirarão de amores, nem lhe repetirão o nome. Mas há muitos anos que não lhe fazem nada disso, Clóvis. Você sabe: a história oficial que hoje o Sindicato escreve não tem seu nome em lugar algum. As greves que ajudou a garantir, à base de balas e falas de seus revólveres, dizem agora que foram feitas à uma mesa de negociação. Negociação, você, Clóvis? E o dinheiro? E o dinheiro, Clóvis? Aquele dinheiro que você e outros roubavam e que eu calei, com quem estará, Clóvis? Com quem estará? Você dizia, rindo muito: Tenho fé no materialismo. Hoje e sempre. E sou herói.

E as mulheres, Clóvis, onde andarão? Quantas vezes as levamos para a cama, para o chão, para o mato, para detrás das estantes, para atrás dos carros de som, para quartos de limpezas e outros lugares mais, depois de nossos discursos, de nossas ações extraordinárias? Todas queriam dormir com o herói. E ele era você, Clóvis. Nós só pegávamos carona na sua fama. Hoje, elas querem dormir com o futuro, de preferência sem aventuras e com conforto. Protocolo sexual burocrático. Com a aposentadoria segura, com os filhos, com a casa e os carros e as poupanças. Com os nossos inimigos.

Clóvis, quantos você salvou naquela manifestação em 77? Lembra? Quando os seus lendários 38 canos longos, escondidos no jaquetão, deram tiros para o alto, para frente, para os lados, para trás? Quando você gritou: Chega de ser isca de polícia! Quando você, entrevistado pelos grandes jornais do Brasil, sentenciou: Se for para morrer, que se dane. Que venham. O proletariado já morre de fome. Agora tem de morrer de pé. E chumbo grosso. Você e sua jaqueta, Clóvis. Você e os livros de Mao Tsé nos bolsos internos. E, as balas, nos externos. Você e o seu cabelo, contra o vento. Você e o seu jeans apertado. Você e o seu sexo latejante. Você e o seu peito aberto, corpo fechado, filho de Xangô. Você sua voz, trovão em cima do caminhão. Você era o máximo, Clóvis.

E, agora, é isto.

Clóvis, eu poderia inventar uma estória mais feliz, mais a contento, para que os rostos que me ouvem no Café das Cinco se iluminem e se iludam. Os garotos do Café das Cinco se lembrariam de você, então, Clóvis. Mas, não. Você não fez por merecer. Os meninos do Café são bons. Mas eles não se lembrarão de você. Os heróis, Clóvis Garcia, devem, têm a obrigação de morrer cedo, jovens, de uma morte fatídica, trágica, súbita, de agonia rápida. Têm de morrer em batalha, epopéia a ser cantada, com sangue, muito sangue, embebidos em sangue. Era assim que tinha de ser com você, Clóvis Garcia. Você morrendo, trocando balas com a polícia política. Você morrendo em combate feroz, com algum adversário. Você caindo em agonia, numa tortura, sem dedurar ninguém, nenhum companheiro. Você sendo traído por alguma amante, arrastado para uma cilada. Você morto no campo de batalha, com o corpo desaparecido. Você num livro de memórias, num filme biográfico, numa canção nacional. Você…

Não isto. Não isto, Clóvis Garcia!

É engraçado – e curioso até – que eu, logo eu, aquele que o desprezava e, quem sabe?, o amei, que o tivesse como um ser abjeto e a quem devo a minha vida, por me ter salvo de um espancamento, à base de suas balas; que sabia de muitas das suas mutretas e seus roubos no Sindicato, mas que fechava com você – o que me fazia, claro, seu cúmplice – porque você era meu companheiro – o que não me fazia menos ladrão – ah, enfim, é engraçado, Clóvis, que seja eu, logo eu, a te contar aqui, agora, com estes olhos baços e desesperançados diante de mim, aqui, agora, para os meninos do Café das Cinco, Clóvis. Não tenho vocação para Esfinge, nem para Oráculo, nem para Pandora.

Você repousa numa sepultura. Você se livrou de toda a dor, do ridículo, do passado, do herói, da leveza e do peso de ser. Você é livre, Clóvis Garcia. Livre. Você é livre, livre, mas não de mim. Que estória eu devo contar a teu respeito? Que estória, Clóvis? A do ridículo? A do enfermo de apendicite mandado para casa com comprimidos para alívio de gases e dor de barriga? Ou a do herói?

Você é livre, é livre, mas não de mim.

Nem eu de você. É verdade. Eu quero o herói. E quem não quer? Clóvis Garcia, você não tinha o direito de se deixar acabar assim. De se deixar de ser, de se tornar um impotente ridículo, gordo, mal cheiroso, delicado e suplicante. Você não era só você. Não foi só você quem morreu, percebe? Foi um tempo inteiro. Clóvis Garcia, seria melhor que nem tivesse existido. E nem nós. Nem que nos tivéssemos conhecido. Não morreríamos de vergonha. Foi isso que o matou e será isso que nos levará junto com você, até o último de nós.

É compreensível que o Sindicato esconda o seu nome da História Oficial. Quem éramos nós perto de você, Clóvis? Seu nome ecoa, reboa, ressoa, enche a boca, preenche os espaços, emprenha ouvidos. Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia… Pode ouvir a multidão, a massa te gritando lá embaixo do caminhão? Menos que um poema, quase uma poesia: Clóvis Garcia, dizia uma de suas namoradas, estudante burguesa, com quem você gostava de desfilar como um troféu, apequenando, para nos deixar a ver navios. Você era o pirata, o bárbaro, você era livre. Livre, livre, mas não de mim. Nem eu de você, atado ao nosso passado, ao seu passado.

E agora, Clóvis Garcia?

Onde estão teus amigos? E as tuas amadas? E as tuas armas? Tudo desfeito, doado, vendido barato, penhorado, perdido ao longo dos anos, em tuas rondas noturnas e fantasmas matinais. Você é isto, agora, Clóvis, para alguns: menos que um fantasminha camarada, assombrado durante anos pela Era dos Resultados. Logo você, Clóvis. Quem diria? Logo você. Sindicato de Resultados, Futebol de Resultados, Relacionamento de Resultados, Sexo de Resultados, Partido de Resultados, Combate de Resultados… Não para você, não é, Clóvis? Força viva, pulsante. Não havia mais lugar para você. Nem mesmo dentro de você. Mas precisava se deixar matar assim?

Apendicite supurada. Gases. Erro médico. Não é morte de herói.

O jogo é jogado, parceirinho, você citaria João Antônio. É. Mas nunca é fair play.

Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia… Pode ouvir a multidão, a massa te gritando lá embaixo do caminhão? Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia……

Sigo, não sei se sorrindo, assobiando e contando você. E te conto tantas vezes que, chutando pedregulhos no caminho, sou até capaz de te esquecer. O sol esfria junto com o que me lembro de você.

Mário Augusto Medeiros da Silva

MEUS HERÓIS MORRERAM DE OVERDOSE

Por Mário Martins de Lima

Esta letra de Cazuza sempre me coloca na no devido lugar da minha pequeneza. Meu principal herói morreu atropelado. E o outro,  Mário Medeiros contou uma história dele. Dele há muitas histórias heróicas. Mas a que mais me afetou é bem banal, nem teve seus arroubos de violência justa, desencadeada. E  se não salvou minha vida, pelo menos permitiu que eu estivesse aqui escrevendo.

Lamentei, nalguns momentos,  que, por causa do jornaleco( mal redigido, sem importância e de pequena tiragem), fui chamado à direção do AEL, chamado às falas por redigir mal, por mentir, por escrever um artigo autoritário, querendo ser o dono da verdade e lá fiquei por mais de 2 horas ouvindo tais diatribes. O primeiro espanto é uma artigo escrito em 15 minutos ser achincalhado em 2 horas e com audiência obrigatória [ e como subalterno sou realmente obrigado a ouvir].  E achei a “crítica literária” um pouco truculenta, não tanto como o Goebels, ministro da propaganda de Hitler, que se propunha a puxar o revólver(na verdade mandava puxar o revólver, pois uma das características dos poderosos é sua covardia física. Não matam ou torturam, mandam fazer). É ! Mas 2 horas de assédio chama atenção pelo quantidade de coisas que podem ser ditas. E se ficasse em silêncio seria mais doloroso ainda. Mas não me espantei tanto, pois detenho o recorde, não registrado a não ser aqui neste jornaleco, ficando  2 meses na sala do chefe, por causa de greve de 1983. Dois meses da sala do alto funcionário, ainda funcionários espiritual  da ditadura, apesar do governo democrático de Montoro. E dois meses em silêncio ou tendo que ouvir a conversa fiada, ou os  zunidos,  do sr. Zuair; tão afável era o homem no seu terno cinza impecável , mas temido por todos os funcionários naqueles idos da Ditadura e da Reitoria Zeferino Vaz/Plínio.

Mas as coisas são desimportantes e cômicas na sua brutalidade. Quando disseram sobre a banalidade do mal, tendo a achar que o mal é a banalidade. Depois de 2 meses, em silêncio, na sala do super-chefe, sem poder ler ou escrever, folheando processos que ele mandou que eu folheasse, por puro sadismo, processos que não entendia , não podia e nem devia entender, o temível, naquela época, Zuair, veio com uma proposta de promoção. Eu iria para o Acre, onde havia um Campus Avançado da Unicamp, ganhando, sei lá, o dobro que ganhava;  e mais todo o mundo dourado do acre que ele que ele desfiava, monótona e insistentemente,  para mim. Aí que apareceu meu herói, Clóvis Garcia – que morreu jovem de apendicite e dentro de um hospital – , surgiu, impetuoso, furioso e enraivecido, pois naquela época a esquerda era chamada de  raivosa, acho que não tinha ainda sido domada pela cretinice parlamentar( LENIN), comandando sei lá quantos, – diziam e acho que era mesmo uns 200 – , furiosos funcionários que me resgataram de lá; e conforme a acusação dos burocratas da  época, os funcionários praticaram cárcere privado, já que o poderoso e temível Zuair, tremia, encurralado. Ali mesmo c foi obrigado a aceitar, de livre espontânea pressão, de que eu não iria mais ser promovido para o Acre. Depois fiquei encostado num no mesmo Projeto Rondon, em Campinas, por 10 anos, sem nada para fazer ou quase nada. Mas aqui também tem sua comicidade, paga com o dinheiro público, fiquei lotado neste Projeto Rondon, muitos anos, talvez cinco  anos,  depois do novo republicano Sarney ter extinto o tal Projeto Rondon.

Não Sei porque fico tão indignado com estas histórias. Se apenas eu fui espezinhado e era apenas dinheiro público jogado fora, e não o meu! Quando conto ninguém fica.  E porque ficariam? Se hoje mesmo pudemos ver ao vivo e em cores a repressão aos vândalos da favela de heliópolis, que protestavam contra uma simples, cotidiana, repetitiva, bala perdida no peito de uma jovem evangélica. E na TV os responsáveis por tudo  são as próprias vítimas. Fico um pouco envergonhado de contar uma historieta diante de tantas, cotidianas, repetitivas histórias brutais . Ficar indignado para que serve?  Mas vamos lá, se me propus a contar estes caquinhos sem importância.  Mas  fico puto, sim,  de ter sido punido, ficando  2 meses incomunicável na sala de um chefão e  10 anos numa sala, exilado no centro da cidade,  repito, punido por ter feito um greve em  1983. Fico agora mesmo indignado em ter sido  um preso-albergado ao-contrário, livre para dormir em casa e preso no trabalho, massacrado pela banalidade, pelo silêncio de todos, inclusive do sindicato. E quantas coisas mais fizeram para tentar me calar. Seria fastidioso continuar contando…

Mas a história aqui deveria ser do meu herói Clóvis Garcia, militante da Convergência Socialista,  que morreu jovem  e de apendicite.

TOCA RAUL

Por Mário Martins de Lima

Como é legal ir em shows da prefeitura na praça. Covers. Uns horrosos. Outros maravilhosos que nunca mais vai se ouvir falar. Pena que só alguns prefeitos promovem. E se um faz, o sucessor acaba com a graça.

O cara era Cover de Legião Urbana e Raul Seixas. Enquanto cantou uns15 músicas de Legião Urbana vários jovens aplaudiam, pois o cara imitava realmente bem. Mas quando começou a cantar Raul Seixas o cheiro da praça começou a mudar. Mendigos e loucos mendigos iam aparencendo de tudo quanto era canto, como se houvesse buracos em todos os cantos. Apareciam em toda volta , arrastando seus imundos cobertores. Dançavam, abaixando e levantando, abrindo largamente os braços quase encostando-os  no chão, querendo abraçar o mundo, como os bêbados desesperados bebem como se tragassem o mar, outros se abraçando e fundindo-se, como se fosse para sempre, imundície com  imundície;  gruniam palavras ininteligíveis e algumas bem claras, maluco beleza, sociedade alternativa, quero dizer agora o oposto do que disse antes, controlando minha maluquez,  oh baby a gente ainda nem começou…

Eu e meu filho guitarrista nos abraçamos de olhos mareados. Sentimos que tínhamos que ir embora antes de acabar, ouvindo ainda de lá da esquina

cadê meu rock and roll?
cadê meu velho blues?
está tudo tão chato,
cadê o grande Raul?

TRANSE

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Um jornaleco litero-jocoso-informativo-pornográfico, melhor e mais completo que este Jornal do Porão que é apenas um jornaleco litero-informativo-jocoso. Mas os dois não prestam,  pois  não conseguem falar de futebol.

[Propaganda gratuita, de nossa responsabilidade]

Quem desejar receber os números atrasados do JORNAL DO PORÃO é só pedir. É de graça!!!


AUTOFLAGELAÇÃO, Santa Margarida de Cortona

25/09/2014

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Santa Margarida de Cartona

Ordem Terceira de São Francisco – Salvador, BA Ordem Terceira de São Francisco, …, é o salão de santos

“Um dos espaços mais interessantes e instigantes da Ordem Terceira de São Francisco, ao meu ver, é o salão de santos, que expõem imagens, muitas delas, em tamanho natural. Santa Margarida de Cortona, que praticava a auto-flagelação, muito comum como forma de expurgar os pecados, é uma das imagens mais fortes e dramáticas expostas no local, assim como a de Jesus, também produzida em tamanho natural.” Ordem Terceira de São Francisco – Salvador, BA
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“Por meio da santa vida, se segue glorioza morte”: práticas ascéticas no Convento de Jesus de Setúbal (séculos XV a XVII)

“Sentada a mestra como pella manham se deitão a seos pés asdiscipulas com os rostos em terra dizendo cada huma per sisua culpa com hũa grande humildade e são gravemente pellaMestra repreendidas e castigadas de qualquerdesfalecimento geral ou particular que hajão cometido, tendose por mui grave, mui pequena falta em o estado tão perfeitoe asim são punidas e castigadas com asperas repreensões erigorosas disciplinas e alem destas particulares e as dacumunidade he custume açoutar a mestra ás discipulas nassegundas, quartas e sestas, e porque se dispão com maispresteza se lhe fazem o habito aberto e a tunica atadas comfitas que dezatadas se despem athe a sintura e com sinco varas de marmeleiro bem juntas se dão os açoutes ordinariosa sim na escolla como na cumunidade no rigor que a Madre Abbª ou Mestra lhe parece necessário (…)”
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Veja também Resenha desta tese:
Revista de História, 1, 1 (2009), pp. 3-28 http://www.revistahistoria.ufba.br/2009_1/a01.pdf
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bibliografia

 

01.

DELUMEAU, Jean.
O Pecado e o Medo: a Culpabilização no Ocidente.
Bauru: EDUSC, 2003. 2v.

 

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A.(1917) junho: é possível achar algum ordem no caos? (anotações)

19/12/2013

Gostaria que fosse lido e questionado sobre essas anotações. E procurarei responder, como vou fazer, logo em seguida, com algumas objeções de Léo, de Campinas. O propósito primeiro destas anotações é deixar registrado o que vi e pensei sobre as manifestações, assim como um diário ou arquivo pessoal. Um dos propósitos parque criei o jornaldoporao. Registrar. E o desejo de escrever, mesmo que muito preguiçosamente. Este texto aqui, são mesmos anotações, feitas de um fôlego só, sem correção, sem reeleitura. Hoje mesmo, 19/12/2013 vou começar a dialogar com Léo, pois o que mais espero é que alguém comente para me forçar a aprofundar esta reflexão.
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a-marcha-do-dia-17-de-junho-de-2013
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01.As jornadas de junho em 1917, dirigidas pelo ultradieitista General Kornilov, colocou mais de um milhão nas ruas de São Petersburgo, Trotsky narra na História da Revolução Russa, que o partido bolchevique, ele e Lenin, puderam ler os cartazes, aos milhares, pedindo “Paz, Pão e Terra”, a palavra de ordem central do Partido Bolchevique. O povo nas ruas, dirigido pela direita golpista, era bolchevique inconscientes. Diz Trostsky que essa manifestão, com esses cartazes e faixas “bolcheviques” indicavam que estavam na hora de se preparar para tomar o poder, mesmo que fossem cartazes empunhados por um massa dirigida por um General direitista, golpista e anti-bolchevique, pois grande partes dos cartazes atacavam o partido bolchevique como agentes alemães, pedindo sua exterminação e morte como traidores da pátria.

As jornadas de junho de 2013, que tomaram todo o país, não tinham palavra de ordem central. Fragmentos e caos são sua marca. Ler o que aconteceu em junho teremos que lançar mão dos método da arqueologia ou da paleontologia. Com pequenos fragmentos tentar montar algumas peças mais significativas dessa cultura que se expressou em junho. Sabendo que é parcial. Por maior sucesso na montagem, ainda assim será fragmentário.

Junho de 2013 não tem texto. Tem fragmentos de textos. Milhares de fragmentos. Muito lixo ideológico. Convívio de “culturas” diferente. Manifestações direitistas, nacionalistas, moralistas e reivindicações as mais díspares e contraditórias.

Acho que nesse caos deveríamos achar o eixo. O que disseram, centralmente, as manifestações de junho de 2013. É possível achar alguma ordem nesse caos?

Não basta, para mim, comemorar que foram grandes manifestações. Que o país adormecido acordou. Que o país não será mais o mesmo. São coisas que dizem pouco, exatamente por serem muito óbvias. O ponto de partida é aí, não o ponto de chegada. Não é possível fazer um balanço da participação da esquerda, pois ela é quase nula, menor talvez que o seu próprio tamanho. As grandes manifestações de junho, não alavancaram a pequena esquerda brasileira. Pelo contrário, parece que essa pequena esquerda reduziu sua importância. Apequenou-se o que já era pequeno.
O que tem de importante para a classe trabalhadora e à classe operária nesse movimento, onde ela estava ausente?
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02.Onde estava a revolução em junho de 2013?

Monte de cartazes precários

Comumente acostumamos, pleonasticamente acostumamos, a analisar todos os acontecimentos pela questão da crise econômica mundial. Os próprios ideólogos da burguesia, a pequena burguesia universitárias, os jornais burgueses e as publicações da esquerda de diversas matizes, desde 1972 que leio tais coisas, falam sempre num economês. Uns buscando saída para crise capitalista outros para a saída revolucionária.

Mas a crise econômica estava ausente das manifestações de junho no Brasil. Mas não quer dizer que não houvesse crise profunda nesse dominação capitalista no Brasil. Mais apropriadamente, qualquer falta de saída é a crise. É crise geral e sem saída. A ausência da classe operária na cena é a crise mais profunda. É um crise política maior que qualquer crise econômica. Por mais que não sinta qualificado para isso, não conseguiria ficar sem dizer que todas os levantes no oriente médio, alguns colossais e sangrentos, ao final, pioraram a situação da classe operária e trabalhadora. Até mesmo a mais elementar democracia burguesa saiu derrotada desses grandes levantes. E a perspectiva de organização da classe operária mais reduzida. No Egito, as manifestações que derrubaram Mubarak contavam com a militância da irmandade muçulmana, até dita nos jornais como moderada, que não queria o poder religioso. A Irmandade no governo teve que ser derrubada pelos militares que dizem querem impedir um governo de autocracia religiosa. Hoje, na oposição, a Irmandade Muçulmana, seria, por critérios democráticos a legítima herdeira do poder. Na Síria o drama é mais patético. A oposição em guerra, por dois anos, como milhres de mortos e atrocidades mil, é formada por setores imperialistas e Al Qaeda. A bárbarie aliada a super-barbárie e vice-versa. E novamente a crise aqui é sem saída. E tem o nome. A ausência de qualquer eixo mundial da luta de classe. A crise é claramente a crise de ausência do setor fundamental para a saída: a ausência do partido mundial da classe operária, por menor que fosse. Nada mais atual do que o vaticínio de Trotsky de que estamos mais perto da barbárie do que do socialismo.

Essa digressão é para colocar que o Governo Dilma, questionado nas ruas em Junho, despencando sua aprovação nas pesquisas, nada tinha ver com crise econômica e, pasmado, vejo que nem um crise moral ou política. E agora, neste mês de dezembro, tem seus índices de aprovação bem satisfatórios, para ela e para o PT, quando em junho parecia que era o fim dos dois.[veja dados pulicados no momento que estou escrevendo: 01/12/2013 – 03h00 Aprovação de Dilma sobe para 41%, mas 66% pedem mudança]. O texto diz que a aprovação de Dilma beira a 50% e que 66% querem mudanças. Ou seja, junho de 2013 continua vivo, no entanto ainda querem Dilma, pelo menos parte dos que querem mudança, querem mudança com Dilma. Junho de 2013 foi um ensaio de uma peça sem texto. Um espécie de mímica ou expressão corporal. Potente, assustadora pelo número, pujança e contradições, mas que para ser entendida e continuar seu trabalho de sapa é preciso de um texto. Um caos de bandeirolas, cartazes díspares e contraditórios, que é preciso antes de mais nada podar as frases que não prestam e procurar as que dão um rumo.
Se a crise econômica não foi elemento propulsor da manifestações de junho de 2013, se não é crise política os embates de classe e frações de classe poem em cheque o governo e a governança, se não é uma crise moral, como um corrupção inaceitável que comova e mobilize (cujas saídas são medíocres, com substituição de uma corrução pela outra. E no Brasil a corrupção é epidêmica desde o império, aumentando na república, crescendo ainda mais nas ditaduras tanto de Vargas como dos militares de 1964 e na democratização tivemos Sarney, atacado por Collor e Lula, por ser um governo corrupto, Collor derrubado por corrupção, sob fogo do hoje hípe-rcorrupto PT e, ainda teve o super-badalado governo FHC, que tornou a corrupção algo irrelevante diante da sua tarefa de entregar o país ao imperialismo).

Que mistério é esse das manifestações de Junho de 2013
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03.Uma digressão necessária para que o texto avance

No mundo medieval, na Europa, Deus é o centro. Se podemos falar em luta política ela se dava no seio da religião. Mesmo as lutas políticas da burguesia nascente,principalmente da burguesia comercial, as disputas pela divisão do novo mundo, vão passar por disputas no seio da religião católica e sua oposição protestante.
No século XIX, o demiurgo é o Estado. A Revolução Francesa, a Americana que a antecedeu, põe no centro o estado nacional. E o termidor naopoleônico, o retrocesso na revolução, vai ser um elemento para levar a revolução para a Europa inteira. Napoleão vai aparecer para os intelectuais e filósofos alemães como a encarnação do espirito absoluto, como a chegada da revolução francesa, a última palavra do progresso. No entanto reacionário. Apesar que só um ato mais reacionário ainda fundará o Estado alemão na figura de Bismarck. Essa tarefa burguesa de construção de seus estados nacionais permear todo século XIX e na África será o sonho revolucionário da década de 70. E é talvez o debate central que envolve os grandes revolucionários de século XX, Lênin, Trotsky e Rosa Luxemburgo. E dará o triste colorido da atuação de Stalin e do estado burocrático na União soviética. E com o fim da chamado socialismo real, em meio a mais selvagem neoliberalismo e globalização, é ainda a questão nacional, dos estados nacionais que dará o tom, com guerras regionais, como Bósnia e tantas outras.
Assim como Deus está morto, apesar de suas religiões crescerem exponencialmente. O Estado burguês e toda sua potencialidade, como na época da formação da burguesia como classe hegemônica, está morto, mas continua sendo um questão pendente e profunda. Esta é, para mim, a tradução da dominação imperialista
Tanto esse morto Deus medieval, como esse estado burguês putrefazendo-se, gestor mesmo da barbárie, continuam sendo o mistério por trás dos levantes, das decadências e das dores do mundo. E tem um nome não mais pronunciado, imperialismo.
A ausência da palavra faz parte, hoje, da estratégia de dominação no terreno ideológico. O pensamento único, hoje, o politicamente correto exige que não pronunciemos a palavra imperialismo. A última vez que isso foi possível numa escala significativa foi na America Central, de Cuba, passando por Nicaragua e El Salvado, nos anos 60 a 80. A palavra imperialismo sumiu do mapa há mais de 30 anos. Quem tem menos de 40 anos talvez nunca ouviu tal som. E sem texto não há drama, nem comédia, nem tragédia a ser encenadas.
A burguesia, na época de dominação imperialista, é reacionária por completo. Serve dos Estados da autocracia religiosa para impor sua dominação. O Estado laico não lhe diz mais respeito, como fora na revolução francesa. As ditaduras foram seu método de governo em quase todos países atrasados em todo o século XX. E no século XX é o terror de Estado a sua política mais visível. Nos Estados Unidos tudo é pretexto para castrar a democracia. A Rússia burguesa de hoje é um autocracia mafiosa e herdeira da estado policial stalinista. Na China algo assim. E é com seu lixo cultural, lixo tecnológico que se apresenta ao mundo. E as drogas e as armas dão o sentido para a vida sem sentido de grande parte da juventude, até mesmo nos país chamados desenvolvidos. E grande parte da acumulação e circulação do capital se dá pela indústria do lixo cultural, do tráfico de drogas e armas(os dois últimos dependem de altos financiamentos bancários). E sobre nossas cabeças dominadas o terror de estado, as potencias nucleares, as armas químicas, as armas bacteriológicas, as armas da nanotecnologia capazes de extermínios invisíveis. A contra-revolução tomou nosso cérebro, em escala planetária. O nome da contra-revolução, hoje, é terror de Estado. O nome que não faz mais parte do nosso cotidiano, nem mesmo na nossa cultura erudita ou mesmo os textos revolucionários é imperialismo. Se o século XX foi chamado de século das guerras e revoluções. Talvez esse século que se inicia possa ser chamado do século do Terror. Terror de Estado. Terror imperialista. E também Terror das organizações religiosas, querendo um estado “medieval”, para colocar no lugar do vazio que a burguesia deixou, quando abandonou, para sobreviver como imperialismo, quase todas as chamadas tarefas democráticas. E sob o Terror, principalmente o terror do Estado, vivemos numa sociedade que se traduziria facilmente pela palavra horror, horror, horror.
50 mil mortes no trânsito, num ano no Brasil, 50 mil mulheres mortas em 10 anos no Brasil, tendo como a maior causa de morte entre jovens o tráfico de drogas. Terror, horror e barbárie.
Distorcido, confuso, caótico, esse horror permeia as manifestações de junho. E o nome, talvez difuso demais disso tudo, circulando no interior das manifestações, é o medo do futuro. O medo dos sem futuro. O medo dos sem saída. As manifestações de junho de 2013 sem texto, sem som, sem cor, sem saída.
Se Deus está morto, tudo é permitido. Se o Estado Nacional de revoluções de libertação está morto, qualquer dominação é permitida e aceita naturalmente. O que chamaram de pensamento único é, para mim, a naturalização da dominação, da miséria e do horror, sob esse deus moderno, o Terror de Estado.

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04.A juventude, a maioria de classe média, foi para as ruas em Junho carregado um caos de papeizinhos acanhados. Cada um escrevia o que queria ou que leu na internet. Os cartazes minúsculos para participar de imensas manifestações é uma confissão da mediocridade de cada indivíduo que estava ali, sem perspectiva. Talvez a grandeza desse movimento não seja possível ler nos cartazes, como Lênin e Trostsky fizeram em junho de 1917. Até mesmo as manifestações da direita contra os partidos repercutia muito mais em quem não tinha qualquer sentimento ou pensamento de direita. E a própria direita ali era órfã, pois seus partidos mais tradicionais, como DEM está no governo petista. Os religiosas das novas seitas pentecostais fazem parte da base do governo Lula e Dilma. Uma manifestação de órfãos.
A ausência da burocracia sindical é uma outra política ser analisada. Estava ausente porque não sabia o que estava acontecendo. E na raiz das manifestações não havia nem a mais incipiente iniciativa dos sindicatos. Nem mesmo os dirigidos pelos pequenos setores da esquerda mais radical. A ausência dos sindicatos faz com que analisemos que eles estão completamente por fora do país real e vivem apenas às expensas do governo e dos seus cargos no aparato sindical e estatal. Vivem a mesma crise sonolenta do aparato estatal. Sem política, sem qualquer programa que não seja se manter no poder enquanto der. Daí poderem sofrer uma repulsa que os partidos sofreram.
Os Partidos. A repulsa aos partidos era quase unânime. Em Campinas a esquerda, foi expulsa do ato, ou melhor achou por bem cair fora antes que apanhasse bastante dos manifestantes impulsionados pelos gritos da direita(agrupamentos de direita que também não tem partido, órfão. Mas que podem, com seus pequenos grupos, assenhorem dos impulsos mais obscuros das manifestações de junho de 2013).
Aquele momento pedia clareza e agilidade.
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No CongressoNo Congresso Nacional
05.Sabendo da repulsa ao políticos, repulsa momentânea, hoje sabemos, ao Governo Dilma, os manifestantes aos milhares que caminhavam para o Congresso Nacional precisavam que se apontasse uma saída. Os sem futuro e os sem saída que é toda a juventude brasileira (não esqueçamos que o conceito de jovem hoje é bem mais elástico que em 1968. Hoje um indivíduo de 40 anos podem estar começando sua carreira. Outros de 30 nem mesmo tem família constituída, ou já a desfizeram. Sem perspectiva, sem deus, sem família, podem caminhar com os sem saída e perspectiva, juntando com os sentido para a vida – os drogados, os doentes nervosos, os que sofrem depressão, os desesperados, nem porque não têm emprego, ou não têm o que comer, mas porque não têm futuro, nem mesmo uma simples palavra que aponte o futuro.Talvez 50 milhões de doentes crônicos no Brasil. Os sem texto).
Ali caminhando para o Congresso Nacional o grito seria Constituinte Livre e Soberana, com liberdade de formação de partidos e candidaturas avulsas, para nos livrar, já, de todos esse políticos. E ali mesmo avançaríamos alguns gritos entalados, exigindo que as tarefas democráticas avançassem. A primeira delas, nos livrar da dominação imperialista. E devemos ainda voltar a isso. Não há qualquer saída, nem a mais comezinha, nem revolucionária, a não ser se livrando da dominação imperialista.

Mas repito, antes de mais nada centralizar a vontade de se livrar desse políticos corruptos, mas antes de mais nada, inoperantes, precisava-se de apontar para uma nova legislação, sobre todas as coisas, todas as carências, todas as reivindicações. O povo não, acho, odeia os políticos porque vivem votando coisas nefastas contra o povo. Não é uma reação de ódio. Mas é uma reação diante da inutilidade deles que não fazem nada para o povo.[Os programas policiais e populares exploram a exaustão esse imobilismo dos políticos. Evidentemente pedindo legislações mais reacionárias contra o crime, contra menores, etc.] Esse vazio, inclusive é muito perigoso. Um direita que não quer congresso algum, democracia nenhuma, pode muito bem ter um audiência muito superior ao seu número. E na verdade se formar uma direita a partir dessa letargia. Ou seja, os políticos congressuais nem mesmo tem força para defender o próprio congresso. Quando os manifestantes “tomaram” o congresso nem mesmo houve reação, ou qualquer alarme. Na Alemanha o povo correu para as ruas para ver o incêndio do se Congresso e festejar a “coragem” dos nazistas.

O momento passou. Não. Continua tudo de pé. Já que nada foi resolvido, nem mesmo como engando.
Dilma e seu Staff leu corretamente. Imediatamente propôs uma constituinte temática. Logo abandonada, pois ninguém queria isso na classe dominante. E os de baixo não tinha ninguém para se interessar por isso. E tudo deveria continuar como antes, e hoje sabemos, até mesmo a popularidade da Dilma. E Dilma, no meu ponto de vista, foi lendo a realidade de junho de maneira eficiente. Depois veremos.
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06.Sobre a Constituinte Livre e Soberana

A pressão da convocar uma Constituinte, na década de 80, veio diretamente das mobilizações pelas Diretas-já em 1984. A vontade do povo foi fraudada em 1984 por um congresso que manteve a eleição indireta. Acho que não devemos ignorar o desejo de democracia de um povo e dos trabalhadores. A a democracia burguesa é fundamental para avançar a organização dos trabalhadores, operários e de todos os setores oprimidos. O PT, na final da Constituinte de 1978, não assinou o texto em protesto contra suas limitações. Foi correto. Mas não esqueçamos que a liberdade de organização e manifestação é uma das cláusulas daquela constituição saída ali. As próprias manifestações de junho de 2013, são herdeiras da luta pelas Diretas-já, que eram contra a ordem política da época, os políticos corruptos e inoperantes da época, contra os políticos da época que comiam na mão da ditadura militar. Naquelas manifestações de 1984 o a Direção do PT põe o olho grande no Governo, decide criar um direção, com embates e mais embates, para construir um centro para ganhar o Governo. Deflaga-se ali o processo para construir a Articulação, articulando-se no PT e nos sindicalista da CUT, para domesticar completamente o PT. Um processo que há meu ver já estará consolidado em 1988, mesmo o PT ainda sendo obrigado a fazer movimento tímidos à esquerda (como não assinar a nova Constituição). Não me lembro de outro momento do PT indo à esquerda.
O grande esforço para construir o PT drenou todas as energias dos trabalhadores mais enérgicos e organizados. E na maioria organizados pela Igreja Católica, organizados em comunidades e pastorais. A esquerda toda, e infelizmente aos trotskistas sucumbiram a essa imensa pressão que era o poder de atração que exercia o PT sobre os trabalhadores. Grupos trotskistas ficaram no PT muitos depois de 1988, quando ficava claro, pelo seu regime interno e pela suas propostas públicas que o PT era, já aí, uma partido parlamentar, e que fazia de tudo para se livrar da pressão das bases. Uma das maneiras de impedir, foi transforma se regime interno, seus encontros e congressos, em votação em urna, sem debate, sestm disputa, esvaziando suas instâncias para que elas sucumbissem se sentido inúteis. Ou uteis apenas para escolher a direção e textos que já estavam escolhidos em conchavos bem articulados. E o PT morreu para a classe sem qualquer alternativa no lugar.
As chamadas esquerdas, no processo constituinte, não tentou construir organismo de base, nas fábricas, repartições ou escolas, para criar organismo de duplo poder, que num primeiro momento fossem para fazer com a constituinte ouvisse as reivindicações. A força persuasiva do PT esvaziou a vontade de construir algo. Tudo ficou na mão da direção do PT e, pasmem, dos seus pouquíssimos parlamentares.
No entanto a fraude não foi completa. Para fraudar a constituinte tiveram que atender centenas de demandas advinda da vontade popular.
Então deveríamos construir os organismos de base antes de pressionar para convocar uma Constituinte?
Qualquer organismo de base, mesmo nua situação revolucionária, não tem poder para convocar uma constituinte a não ser se tomar o poder. E se tomar o poder uma constituinte não está descartada, mas é uma constituinte pós-revolucionária, para negociar uma forma de governar com aliados refratários ao poder da classe operária. Por hipótese, no Brasil, ou nos Estados Unidos, se se tivesse um grande partido negro. Ou um partido camponês em países de economia agrária, como na Bolívia. Ou mesmo reivindicações tribais em certos países africanos. Ou mesmo reivindicações separatistas como na Espanha de hoje. Cabe uma constituinte depois de revolução. Antes da revolução, independente do grau de organização da classe trabalhador, operários e seus aliados, ela é um instrumento, dentro da democracia, para permitir centralizar reivindicações democráticas e populares e demonstrar para a nação inteira que a burguesia é incapaz de resolver as mais elementares reivindicações. E no processo mesmo de pressão para sua convocação, no momento de sua instalação, dentro dos seus debates, preparar a classe operária, os trabalhodores e os aliados, para se organizar sob um programa de tomada do poder para resolver estas questões colocadas.
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07.a questão nacional, a questão das questões democráticas

Como traduzir a luta anti-imperialista para a linguagem comum. Mesmo porque a tarefa de “explicar e explicar pacientemente” quase sempre é uma questão de traduzir. Ou ainda, quando Marx no Manifesto Comunista diz, mais ou menos assim, que a tarefa dos comunistas não é fazer revolução, mas atuar no processo revolucionário em curso levantado as palavras de ordem que apontam para as necessidades históricas da classe operária. Há, todos nós já conhecemos, processos revolucionários sem a presença de um comunista sequer, como foi a luta guerrilheira em Cuba, ou insurreições populares, ou revoluções políticas ue se inciam, como Tchecoslováquia ou Hungria, onde não há presença de uma organização revolucionária, mas que precisa, mesmo que fosse de pequenos grupos colocando as bandeiras revoucionárias. O primeiro exemplo disso foi a Comuna de Paris.
A luta anti-imperialista é a saída que concentra todas as necessidades históricas para avançar na revolução. Não é possível atender qualquer reivindicação mais significativa, as vezes as mais elementares, sem um rompimento com o imperialismo.
E onde estava a luta anti-imperialista nas jornadas de junho de 2013. Na Rússia de 1917 estava em “paz, pão e terra”. Três palavras que concentravam a luta democrática e anti-imperialista. Paz: porque a guerra era imperialista (mesmo que confundisse e almalgamasse com um certo pacifismo), “pão: óbvio, porque a fome grassava, até por conta da guerra”, Terra: porque a maioria do povo russo era camponês, na ordem de 80 por cento da população. Cadê as palavras de ordem socialistas? Todas elas eram no sentido de que só a classe operária, organizada e assumindo o interesse de toda a nação, poderia resolver essas tarefas. A classe operária, na voz do Partido Bolchevique, falava em nome de todo o povo.
E nas jornadas de junho de 2013 que reivindicação ou desejo falava em nome de toda a nação e colocava as massas em choque com o imperialismo?
A classe operária mobilizada pelos seus interesses imediatos é sindicalista. E se minoria numa sociedade, será incapaz fazer qualquer revolução. A classe operária e os trabalhadores, pelo lugar que ocupa na produção, pode, por essa força econômica, dar soluções para toda a nação oprimida e para a opressão em escala internacional. Mas o território concreto da revolução é o território nacional. E o terreno da revolução é social-democrata, porque é uma luta política pelo poder. Greve Geral não faz revolução, como explicou Rosa Luxemburgo, em “Sindicatos Partidos e direção”. É a revolução em curso que faz a Greve Geral, em particular a Greve Geral política, que permite avançar na dualidade de poder e impulsionar os organismos de duplo poder.
Na década de 80 inteira, organização tratkista, como a Conversgência Socialita, fazia um fetiche tremendo quanto à Greve Geral. Era uma espécie de Deus ex-machina. Com a Greve Geral tudo estava resolvido. Um fracasso total de política, ou falta dela. Imobilizava todo mundo diante de algo que cada vez parecia mais inviável. Parecia porque não existia essa luta revolucionária em curso. A greve de 1979 e 1980, começando em S. Bernardo do Campo, tinha seu conteúdo revolucionário expresso no desejo de derrubar a ditadura. Em 1980 era totalmente explícito. A junção da reivindicação econômica com a luta política, mesmo que apenas como um desejo não expresso, como foi mais ou menos em 1979, é que fez a grande potencialidade política das greves do início. Não é fortuito, nem coincidência, que Lula em 1978 falava que jamais participaria de um partido político, para esta na frente da fundação de um, o PT, já em 1980.
E o PT nascia para desenvolver o que estava intestino ou não claramente explícito nas greves de 1979/1980, como que para centralizar e dar voz ao movimento, sendo fruto de um processo revolucionário, e ao mesmo tempo, pela composição e pelo programa que a sua direção tentava construir, e construiu, para frear a revolução e colocar tudo a serviço da ordem. Houve um dos primeiros manifestos do PT assinado por Enos Amorina, grã-pelego de Osasco, Cid Ferreira, arqui-pelego de Campinas(traidor da greve de 1979 e expulso a cusparada do sede do sindicato) e presidente do sindicato dos metalúrgicos de Santo André,qualquer coisa Marcílio, naquele momento estreito aliado dos trotskistas da Convergência Socialista. Este manifesto, assinado por três pelegos traidores, nada mais era que um acinte e traição da vontade expressa nas greves. No entanto, não serão eles que vão construir o PT. Isso é para dizer que nem a revolução, nem a contra-revolução vão por caminhos retos. E que o PT nunca abandonará essa dualidade: em expressar uma vontade revolucionária e uma luta encarniçada para colocar o PT a serviço da ordem burguesa. Uma dualidade que acabou quando conseguiram colocar o partido dos trabalhadores a serviço da ordem e hoje, com as privatizações principalmente, cristalinamente a serviço do imperialismo.

Parece que a questão nacional morreu. A questão da terra foi esquecida e fraudada também pelo MST em aliança com o PT. Logo nenhuma mobilização popular coloca a questão da terra e se mobilizações, em grande parte, da classe média, jovem, urbana, nem mesmo se pronuncia contra. Um questão que não existe. E também esvaziada pelo aprofundamento do papel do agro-negócio na composição do capital, na ordem de 48 por cento. Na fundação do PT e da CUT as discussão giravam e as composições das direções se revolviam como os representantes dos sindicatos rurais. Parece que nem existe mais o sindicato de Guaíba tão importante nas greves dos cortadores de cana em 1979/80. Acho que um estudo vai comprovar que muitos sindicatos rurais desapareceram. E o próprio MST parece algo que caminha para a extinção.

A questão negra. Um questão democrática não resolvida.No meu ponto de vista, a segunda questão mais importante da luta democrática, e o aliado mais próximo da classe operária. E acredito nessa escala de valores. A maioria absoluta dos negros e seus descentes fazem parte da classe operária e dos chamados pobres.Portanto com o menor grau de heterogeneidade em comparação com qualquer outro setor aliado da classe operária. Grande parte do movimento negro das décadas de 70 e 80 foram cooptados pelo poder. E interromperam seu processo de luta independente, e como consequência, interrompeu o processo de formação de lideranças e organizações independentes. E as migalhas de cotas limitadas acabam atenuando a crítica de alguns. Ou até mesmo contentando outros. Esvaziando o movimento.

Quanto às mulheres quero escrever um parágrafo um box à parte.
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08.”É muito mais que 20 centavos”

Esses movimentos e reivindicações estavam nas ruas em junho 2013? Estavam. Difusos como tudo que estava manifestando lá. Fragmentário. Misturado. Caótico. Mas estava. Como?
Este é o motivo desse texto.
O movimento que se destacou foi o do passe livre, quando tudo começou em São Paulo. Logo havia dezenas de reivindicações na rua. Para dar conta de tal confusão o movimento de rua começou logo a gritar que “era mais que 20 centavos
Logo a questão dos transportes era um agudo problema, capaz de mobilizar inclusive que não usa transporte coletivo normalmente que parece o caso da maioria dos manifestantes. Logo não era mesmo só por causa dos 20 centavos.
Então o a questão dos transportes era a questão central ali colocada? A que deve ser desenvolvida. A que tem potencialidade de colocar no movimento geral, majoritariamente pequeno-burguês, necessidades históricas da classe operária e dos trabalhadores? – Como deve ser o papel dos comunistas. Acho que não.
O movimento dessa classe média é o movimento que colocou tudo. Tudo é o sem futuro, o sem saída, o sem esperança, o sem hospital, o sem atendimento médico, o sem moradia, sem isso, sem aquilo, mas antes de mais nada sem perspectiova.
E a uma questão de falar em coisas exequíveis. Que é possível crer que há mesmo solução. Na questão do transporte nas grandes cidades (mais de 1 milhão de habitantes) é impossível falar em estatizar transportes e ser crível, sabendo que economicamente inviável, mesmo no socialismo, manter um transporte tão caro e ineficiente. Só trens, metros, ou mesmo os simples bondes elétricos são viáveis. E não é uma questão que envolve toda a nação. A não ser que falemos em transporte fluvial e indústria naval para o norte, junto com energia solar, ou para o nordeste energia solar e trens inter-ubanos, e isso tudo junto, nas devidas proporções para o sudeste. Ao contrário, para um ataque ao imperialismo, no terreno ideológico, que pressupõe uma plataforma exequível, é preciso atacar a indústria automobilística, o transporte individual que torna as cidades um caos e faz um trabalhador voltar a trabalhar 12, 14 ou 16 horas, voltando a ser totalmente escravo do trabalho como o era antes da luta vitoriosa pelas 8 horas.
Além da cultura individualista e predatória do carro. Só estaríamos antenados com a época se falarmos em trens, metrôs, barcos e, em consequência, de energia solar e eólica. O máximo que vamos conseguir são os inoperantes corredores ônibus. Ou se formos muitos vitoriosas, falirmos todas as prefeituras com transporte estatizado, assentado sobre ônibus. Além de destruir a vida e o planeta com ônibus poluidores. Ou na melhor das hipóteses ônibus elétricos. Porque a invés de corredores de ônibus, propor, já, par este momento, corredores de trens nessas mesmas grandes avenidas? Ou um Tietê, em são Paulo, navegável, muito antes de totalmente despoluído e as suas marginais, com linhas de trens, modernos e rápidos? A brutalidade da burguesia predatório é em particular reproduzir os modelos perversos. Mesmo que isso custe 50 mil mortes por ano, e a maioria de jovens. Esse talvez seja o verdadeiro “custo Brasil” de que devemos falar.

A classe operária na voz dos seus pequeniníssimos representantes , organizados em quase seitas pequeniníssimas, isolados, tem a tarefa, a única realmente importante, que é descobrir o que interessa à classe operária que estava circulando ali. Vivemos uma situação bloqueada. Vivemos num mundo e aqui no Brasil numa espécie de fundo do poço ideológico. As palavras mais caras ao movimento operário de 200 anos nem mesmo podem ser pronunciada sem causar risotas, como se fosse algo pornográfico. Internacionalismo. Anti-imperialismo. ou até mesmo o relés solidariedade, a mesma que deu origem às primeiras organizações de apoio mútuo. E ao mesmo tempo discutimos grandes questões estratégicas. Tudo em vão, acho, se não falarmos ao coração do povo oprimido. Se não falarmos em nome de toda a nação.
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09.Olhar a realidade com os olhos do futuro e das metas históricas da classe operária, dos trabalhadores e seus aliados.

Logo precisamos de campanha sistemática para colocar no centro necessidades de todos os trabalhadores e que tenha vocação de soldar um aliança, para hoje e para a construção do socialismo, como todas as massas oprimidas e até miseráveis. Que una toda a nação. Que a classe operária possa dirigir esse processo, ganha do a hegemonia dentro desse movimento. Colocando o futuro como o centro do debate. E o futuro é o desbloquei do cerco imperialista. Ruptura possível com o Terror imperialista que paralisa e massacra a juventude e os trabalhadores e seus aliados.
Na década de 50 e um pouco antes, no rio e são paulo, qualquer greve na light colocava na rua o debate da luta contra o imperialismo. Getúlio, Jango e Brizola se notabilizaram por falar, demagogicamente, ou por necessidade de aliar-se com burguesia nacional, ou para paralisar o movimento operário, contando com o trabalho de sapa do PCB, emitiam ruídos nacionalistas aqui e acolá, e denuncias contra o imperialismo. E o imperialismo hegemônico dos EUA patrocinou o golpe militar de 64, para impedir que os trabalhadores fossem mais longe, caminhado dentro dessa demagogia janguista e do PCB. Vemos de novo que revolução e contra-revolução não são caminhos retos.
Poderia ser a questão do transporte, no caso estatização dos transportes, que realmente era uma aguda questão colocado pelo movimento.
Poderia ser a questão da saúde pública que é o caos. E aí Dilma responde, ou seja lê o movimento, propondo médicos estrangeiros. Qual um pode ver a falácia. Precisamos é de milhares de médicos generalistas, médicos de família, ou pé descalços, precisamos de acabar com subnutrição, verminose, ou lepra no Acre, ou mesmo a simples saúde dentária. A igreja Católica, propagandizando o soro caseiro e a multimistura, salvou mais vida no nordeste que toda a política governamental ou médica de toda história do Brasil (é um chute, mas se pesquisar vão confirmar isso). A medicina privada é um crime. Ela vive e especula com a doença e a morte, macumunada com os grandes laboratórios multinacionais/imperialistas. A medicina pública, junto com o elitismo da privada, aliada com os laboratórios, é uma gritante e eficiente campanha de extermínio de pobres e em particular das crianças e particularissimamente dos idosos (os mesmos que sustentaram o Brasil com seu sangue). Logo deveria ser a campanha central. Inclusive coloca, ao meu ver, com mais potencia a luta anti-imperialista e pode falar em nome de toda a nação. O programa dos médicos da Dilma é uma demagogia nesse sentido. Mas na verdade nem de longe raspa no problema.

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10.Então que mágica é essa, que mistério houve empurrando milhares de jovens de classe média e alguns da periferia. Esses da periferia, os black blocks, ou mascarados, a fim de enfrentar a polícia na sua tática, espontânea, nem por isso menos suicida e desesperada.
Nem era a palavra mais explícita. Não fazia parte da maioria dos cartazes que vi. Mas ao meu ver é centro e estava presente lá por qualquer ângulo que se olhe o problema brasileiro de país dominada pelo imperialismo.
É tão modesto chamar de problema da educação. Mas é o olhar que devemos ter sobre a realidade brasileira, dominada, bloqueada pelo imperialismo. Nenhum reivindicação será possível ser romper com o imperialismo. Nesse momento sem guerra de libertação nacional em qualquer lugar do planeta (talvez à exceção e quase sem saída plausível, estão os palestinos). No entanto, libertação nacional é centro da política revolucionária na época imperialista.
Como traduzir isso nesse fundo do poço ideológico?
Alguns países deram passos na sua relativa e estreita libertação do jugo imperialista quando para sair do atraso crônico investiu em educação e tecnologia própria, mesmo que tecnologia de segunda linha e super-exploração da classe trabalhador como na China. A Educação é o carro chefe os chamados tigres asiáticos, imunes, em décadas às crises capitalistas. Tudo no marco do capitalismo e de papéis subordinados a ele.
Proponho que todas as palavras de ordem, o mais simples cartaz, a própria bandeira brasileira enrolada no corpo de uma manifestante idiota, ou até mesmo da direita que lá estava, sob o ângulo da educação para a libertação nacional e a luta anti-imperialista.
Como? Será substituir a realidade pelo desejo, algo completamente paralisante e ridículo? Vejamos. Desdobremos. Argumentemos. Mesmo que a jornada seja longa.
Vamos pegar do mais geral e chegar no mais particular.

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11.Para romper com o imperialismo é preciso uma ciência, uma tecnologia e uma cultura própria

Tentarei escrever pequenas teses.

a. A educação e o professor ocupam o lugar que ocuparam a religião na idade média, e o Estado para burguesia, como elemento centralizador da vontade de toda a nação.

Vontade de avançar para o futuro, completamente impossível com a dominação imperialista. Vontade explora todas as potencialidades da nação, no caso Brasileiro, água, florestas, sol e suas ricas manifestações culturais (em particular as festas).

b. Educação e Ciência, coloca o laicismo no centro da questão,

quando se desenvolve os mais nefastos obscurantismos religiosos, no Brasil, agudamente na África, e epidemicamente no Oriente Médio; O laicismo, no Brasil, é uma potência a ser explorada urgentemente; nada, na que tange as tais super-estruturas, tão eficiente contra o socialismo e o internacionalismo do que um Estado religioso ou os retrocessos que vemos em busca dele (como Egito). É um elemento contra-revolucionário, uma volta a épocas anteriores às revoluções burguesas; que nos obriga a por em circulação ideários da revolução francesa. E o imperilalismo, usa, manobra, e se mantém alicerçado nesses regimes autocráticos/religiosos, veja o papel Arábia Saudita e os estados Unidos, e outros também.
c. A educação não provoca de imediato um boom na mobilidade social. Mas os trabalhadores e principalmente a classe média sabem que estão condenados à paralisia, ou mesmo jogados fora do tal mercado de trabalho, se não tiverem uma educação continuada. Hoje isso é um senso comum universal. E verdadeiro. Vi pesquisas que mostravam que em Brasília a educação de multiplicado os salários de 22 por cento da população. Suponho que o inverso deve acontecer noutros estados, onde a falata de educação escolar deve jogar milhões na falta de perspectiva.

d. uma carreira nacional de professores. Mas eu acho que é essa a campanha central que deve ser desenvolvida e dela derivar o debate que envolve as questões nacionais e a luta anti-imperialista.

Campanha que  obriga os outros debates, e pode ser o elemento que faltava para construir um movimento amplo, ca permitir falar em nome de toda a nação. Pode ser, acho, o fator para construir o partido operário, em particular na juventude operária e trabalhadora. Se ninguém, parece-me, falou nisso no meio das mobiliações de junho de 2013. Mas no entanto acho que estava lá em potência. Porque será que, logo em seguida, eclodiram o movimento dos professores no Rio de Janeiro, com apoio de população e dos black blocks? E colocavam o governo Sérgio Cabral em questão. Mas o jogo é outro. É uma questão nacional, de desenvolvimento nacional e de luta contra o imperialismo, por um ciência, uma tecnologia e uma cultura própria.

Luta contra a burocracia sindical.

Uma carreira única dos professores esvaziaria as burocracias estaduais e locais. Não esqueçamos que a burocracia sindical dos professores, principalmente da APEOESP, deram os chamados quadros para administração petista. Dirigiram a CUT e produzem deputados em profusão (gostaria até de saber quantos, mas são muitos). Lutar contra a burocracia sindical não basta um diagnóstico, mostrado seu papel nefasto e contra-revolucionário, o que todas as tendências trotskistas sempre fizeram, por décadas, desde que tive contato com essas tendências, sempre fizeram esse diagnóstico. E nas greves de 1979/80 eram os principais impulsionadores da luta contra a burocracia. No entanto essa burocracias continuam intactas em muitos lugares, como metalúrgicos de São Paulo, ou renovadamente mais eficientes no caso dos petistas e cutistas. “não dá prá vencer satã só com orações”, como dizia Aldir Blanc. Acho que vencer a burocracia é conseguir criar uma plataforma que fale a amplas massas e que eles não possam carregar. Para assumir tal plataforma seriam jogadas no furacão revolucionário. Vou repetir à exaustão, o olho do furacão revolucionário é traduzir tudo em luta anti-imperialista. No mundo de hoje o olhar é a educação, o agente imediato é o professorada, os estudantes, os deserdados de cultura e perspectiva, os jovens. Jovens operários, jovens trabalhadores e jovens da classe média (lembrando aqui, o conceito de jovem, hoje, vai para muito além dos adolesce

A carreira única dos professores coloca a questão o orçamento para educação como um questão nacional e que desemboca no congresso. E que coloca, sempre, o próprio governo em questão, e a sua posição diante do imperialismo. Sua vontade de romper ou não.Uma simples greve salarial seria sempre um palanque para grandes questões nacionais.

Para lutar contra as desigualdades regionais.

Na esqueçamos que o imperialismo também explora e fossiliza as desigualdades entre as nações, mas também sabe explorar bem as desigualdades regionais. Sabre explorar as contradições internas. Sabe como f orça uma migração interna para explorar mão-de-obra barata e desqualificada, quando interessa. Portanto as desigualdades entre as regiões e “províncias” provoca uma questão central da divisão no interior da classe operária e trabalhador. Pegando São Paulo como exemplo, seria uma espécie de imperialismo interno. Que se desenvolve explorando e oprimindo os outros estados da federação. Essa carreira única permitira uma mobilidade dos próprios professores que escolheria em que estado se fixar para dar aulas e produzir conhecimento. E tarefa principal dos professores seja produzir conhecimento e cultura. Se um professor do berçário que produza conhecimento sobre educação da tenra infância, que faça doutorados sobre isso.

Criar um currículo mínimo obrigatório; Na carreira nacional todos seriam professores.

e. 100 por cento de estudantes do ensino médio nas universidades públicas,mantendo a cota para os negros , conforme a população negra e descentes em cada região ou cidade:

Mais vagas. Para mais vagas: ensino noturno, já, em massa. Criação de novas universidades, depois de um debate e levantamento nas escolas públicas. Universidades temáticas. Consequentemente fim do vestibular. Estatização das escolas privadas.  Aqui uma argumentação necessária. Falar em fim do vestibular a ceco parece algo impossível, ou até impertinente, já que muitos jovens vem o vestibular com algo limpo ou onde passa o melhor, pelo critério elitista da excelência.  100 por cento de estudantes das escolas públicas na universidade, ou sistema público de ensino do elementar a universidade, todo ele público, esvazia essa discussão de mérito e coloca a questão no âmbito da igualdade de direitos. E esvazia tanto a questão do ensino privado que amacia o caminho para que a questão da privatização das escolas públicas seja uma derivação da primeira. E 100 por cento nas universidades advindo da escola pública coloca a questão do acesso como uma questão de classe, os pobres, os operários, os trabalhadores e classe média desde que queiram terão acesso. É preciso de mais vagas, é preciso estatizar as escolas privadas.  Exigir as cotas para negros, mesmo com os 100 vindos da escola pública é porque, mesmo vitoriosa, um luta dessa demoraria algum tempo para criar vagas para todos, logo é preciso manter a questão de cotas para negros.  E colocar as escolas e universidades sob a ótica da luta anti-imperialista só pode ser uma tarefa estatal e federal. É um ataque direto, uma desconfiança generalizada contra o ensino privado. Assim justifica-se obviamente o fim do vestibular. Fim dos vestibular justifica-se com luta por vagas para todos. E a estatização das do ensino privado, justifica-se facilmente por precisarmos de um ensino voltado para as necessidades de toda a nação e também porque precisa-se de todas as vagas disponíveis para esse projeto. Seria os agrupamentos, partidos e organizações dos trabalhadores se alçando a carregar o projeto de libertação de todo o povo. E classe operária, com suas organizações, pode de alçar a isso, porque ocupa um lugar ímpar na produção, portando na capacidade de executar o que pensa.

f . As escolas devem ser todas escolas técnicas para adultos e jovens que assim quiserem.

Como subproduto cultura disso, com a vinda dos pais para a escola, haverá a possilidade de combate à violência. E aumenta a responsabilidade dos pais pela educação dos filhos, aliviando professores dessa carga inadequado.

g. As escolas devem ser todas centros culturais.

Espaços largos e sem muros (contra as escolas prisões).
As escolas tem que ter centros esportivos para toda a população, em horários estipulados na semana, e completamente abertas nos fins de semana. Todas as escolas tem que ter aprendizado de instrumentos musicais, para alunos, pais e moradores. A escola, espaço laico, deve se transformar no centro das preocupação e para onde se dirige toda população fisicamente e para ela deve se voltar todos os olhares.

h. A questão dos transportes passa pelas escolas e universidades..
Universidades temáticas que deverão ocupar de vários temas nacionais e regionais, como centro solucionar a questão republicana das diferenças regionais, que provoca divisões profundas no interior da classe operária, dos trabalhadores e seus aliados. Não esqueçamos nunca que o socialismo é republicano. Menos,claro, o “socialismo norte-coreano” que é uma espécie de reinado, e também o cubano tem um quê de dinastia.
Já comentado parágrafos acima, no norte falar em estrada por terra é uma aberração completa. Grande partes das estradas estão abertas que são os rios navegáveis. Parte do amazonas comporta até navegação de grande porte. É preciso universidades ali que estudem e construam projetos de navios e barcos. Inclusive tendo como centro a energia solar e eólica.
Cabe também na região do São Francisco que deveria ser recuperado, principalmente para a navegação, e não transposto e esgotado, como Lula começou a fazer e Dilma continua.
Assim como São Paulo precisa de transportes sobre trens urbanos. É preciso desenvolver, nas centros tecnológicos, formas mais baratas deles, formas de usar com mais eficiência a energia elétrica. Por exemplo, como evitar uma parafernália de fios enfeiando a cidade.
Como desenvolver uma forte navegação de cabotagem em todo literal, barcos mais baratos, com energia solar, combinada com outras fontes energéticas.
O transporte barato e eficiente, por exemplo, permitiria uma forte indústria pesqueira na região do São Francisco, em grande parte do Norte e em toda a costa. Baseado na economia familiar.
E evidente, todas essas universidades e escolas públicas federalizadas, seriam plenamente ocupada por ensino técnico necessário às atividades da indústria das pequenas famílias.
E repitamos, a questão dos transportes pode levantar uma grande batalha contra as indústrias de automóvel, as que conformaram o desenvolvimento brasileiro sobre estradas, estrangulando o país e criando caos urbano, e fazendo a classe operária voltar a trabalhar como o início da industrialização na Inglaterra. Com 2, 3, 4, 5 ou 6 horas dentro de ônibus e trens lentos e lotados, somando as 8 costumeiras e já exaustivas horas, soma-se 10 e até 14 horas de trabalho. Neste ritmo nem há vida e sem vida e sociabilidade a luta principal é arranjar tempo para dormir.
Claro que numa revolução socialista muito mais eficiente seriam grandes cooperativas. Mas lembremos sempre da política de Stalin e a mecanização forçada: há ritmos e prazos. Muitas vezes coletivização forçadas é o caminha mais curto para o fracasso, a brutalidade policial, o estado policial.
Mas nesse momento de campanha pós-junho, é preciso mesmo convencer os jovens sem perspectiva que há uma perspectiva para eles. Instaurar um profissionalização em todas escolas públicas e universidades, federalizadas, em horário diurno e noturno. E uma campanha de vagas para todos.
09. Universidades temáticas
Não é contraditório uma carreira nacional de professores, um ensino da infantil às universidades, totalmente federalizado e universidades e escolas técnicas temáticas, regionais. Isso permitira a emergência de vocações científicas e técnicas. E mais um elemento de na direção da quebra das desigualdades regionais. Mas há mais. Permitiria que a universidade e as escolas públicas pudessem desenvolver técnicas e mesmo descobertas, como por exemplo na biodiversidade, nas culturas se sementes, que nos levassem no caminha da ruptura com a dependência. A batalha por isso é a luta ideológica contra o imperialismo.
Evitar o risco de uma nacionalismo estreito é desenvolver junto a esse programa a luta para construir organismo de controle da classe trabalhadora, em todos os locais de trabalho, estudo e produção de conhecimento. Hoje a burguesia, a Montesanto, mantém segredos industriais, para sua dominação imperialista, macumunada e macumunados com governos vendidos e pró-imperialistas. E o próprio pensamento da elite formada nas universidades públicas elitistas e formadoras do cães de guarda do capitalismo.
Mas há uma programa que deve ser desenvolvido, preparando as bases para o um política socialista e internacionalista no poder. Nossas instituições escolares, federalizadas, devem ter como meta uma profunda cooperação com os países dominadas pela imperialismo, em particular todo o continente Africano.
Hoje é um combate ideológico, num governo socialista é a única diplomacia capaz de desenvolver um solidariedade entre povos e abrir vias para o socialismo. Nada vem antes nem depois. É já. O futuro se constrói no presente. O socialismo é hoje lutar por uma cultura de solidariedade entre as classes oprimidas e as nações oprimidas. As universidades de hoje, as de amanha devem estar voltadas para essa colaboração. Os lutadores socialistas, dentro de escolas e universidades, devem batalhar para que pesquisas, conhecimentos sejam voltados para essa solidariedade imediata, construindo bases para o internacionalismo. Princípio não devem ficar nas gavetas. Devemos forjar, dia-a-dia, situações para provocar e desenvolver nossa ideologia anti-imperialista, calcando-a em práticas cotidianas. Por exemplo, os revolucionários nas escolas devem propor e batalhar para uma ampla colaboração e solidariedade com os estudantes estrangeiros, principalmente dos países atrasados. Mas principalmente ainda da África, para quem devemos quase todo nosso chamado desenvolvimento econômico, quando surrupiamos 4 milhões de vidas escravas. Nossos socialistas na universidades devem estar na linha de frente dessa reparação: luta por cotas para os negros, mas lutar para abrir vagas para estudantes africanos. E obrigar a criação de linha de pequisa voltadas para África. Essa colaboração é uma luta que deve começar agora, já, forjando um ideologia, preparando as bases para um colaboração estreita no futuro, trabalhando hoje e sempre para aprofundar a solidariedade e uma unidade na luta anti-imperialista.
i.
Poderia, como já dissemos, ser a saúde pública a campanha derivada da chamada voz das ruas.

Dilma, novamente, tentou ler na direção correta. Primeiro com a demagogia dos médicos estrangeiros. Logo em seguida propondo 50 por cento dos royalties do petróleo do pré-sal para a saúde e os outros 50 para educação. O congresso votou 25 para saúde e 50 para educação. No fundo uma mixaria. E um mixaria que via apenas servir para fortalecer um pouquinho as universidades elitistas e formadoras de algozes da classe operária. E quanto a tecnologia, replicadores de tecnologia produzidas nos países imperialista, que fortalecem a dependência. O que é comum na química, na indústria automobilística (na Unicamp, por exemplo, a coqueluche agora é um grande laboratório da Petrobrás, o que vai reforçar a dependência do automóvel e da indústria automobilística, a mesma que aprofundou nossa dependência do capital imperialista. A piada é chamar as Universidades Brasileiras, as paulistas em particular, de autônomas. Falaremos um pouquinho, abaixo, sobre autonomia universitária. Voltemos à saúde pública e aos médicos.  A morte é a opressão suprema para um materialista consequente. O metro, o instrumento de medida do materialista é a vida. Qualquer outra foram de ver o mundo não é materialista. Logo a suprema opressão do capitalismo, da violência de classe contra classe, é o sistema de saúde, o acesso à prevenção (que envolve nutrição, claro), os acidentes de trabalho, o escabroso tratamento no serviço público de saúde e a total canalhice que se chama laudo médico, que os trabalhadores chamam apenas de laudo, para comprovar para pedir aposentadoria por invalidez. E sistema cruel coloca o médico como um dos principais algozes dos trabalhadores, dos operários e dos pobres. E a medicina privada é um acinte. E um forma clara de dizer que há gente que merece viver e gente que deve morrer (no caso do Brasil, li que as pessoas morrem com um quantidade de dor dez vezes ou mais que um americano, já que analgésicos de primeira linha são muito mais caros e, claro, sonegados aos pobres). Hospitais e seus corredores são câmeras de tortura.

Os médicos das nossa universidades públicas e privadas são formados para isso. 85 ou 90 por cento dos cursos médicos formam especialistas. Na verdade especialistas em ler exames caríssimos. Enquanto isso 40 milhões de deficientes ficam sem atendimento algum, sobrecarregando famílias. Enquanto isso os remédios para depressão crescem sua venda 22 por cento ao ano, perfazendo um crescimento de mais de 100 por cento ao ano. Não sabemos quantos são já que sem atendimento, sem profissionais, a maioria não é atendida. Os corredores dos hospitais são masmorras fedorentas.

Tanta miséria devia revoltar. Por milhões de doentes, deficientes e mutilados pelo trabalho nas ruas acho que seria um pouco difícil. Parte dos seus parentes estão cuidando deles, ou sofrendo jundo com eles. Nos protestos de junho essa questão estava lá, naquele tudo que devia mudar.

Mas a principal questão é a já tratada em mais de um lugar aqui, e que voltará sempre. As escolas médicas formam seus médicos para eliminar os mais fracos, como uma eutanásia coletiva e dolorosa. Os médicos, formados nas nossas universidades, os grandes especialistas formados nas nossas escolas públicas, paga pelo povo, são especialista em deixar morrer os trabalhadores, os pobres e os operários.

Um ataque direto a medicina privada é exigir formação de médicos generalistas, criar profissionais de saúde para tratar a população pobre. E romper com os laboratórios e criar um indústria farmacêutica estatizada.

Poderia sim ser uma campanha central advinda das vozes da rua de junho.  Tem inclusive elementos fortes de independência nacional que falaria em nome de toda nação, como estatização dos laboratórios e criação de laboratórios estatais para produzir remédios adequados e baratos.

Mas ao mesmo tempo isso tudo passa pela formação do médico como foi dito e passa pela pesquisa feita no sistema educacional, nos laboratórios das universidades e escolas.

Vendo a realidade pelo olhar da educação para a libertação nacional, na luta anti-imperialista, em certo momento, talvez a saúde pública, a luta conta a medicina privada, a estatização dos laboratórios, tome um lugar até preponderante.  Mas é que acho, ainda, que a questão da produção de ciência, tecnologia e cultura própria é o lugar, o campo, privilegiado para se dar essa luta.

Dizendo de outra forma, coisas já ditas, essa plataforma da educação, vista assim, é plataforma de lançamento para uma luta hoje de solidariedade, amanhã de colaboração e organização da luta internacional para o socialismo, ou para a construção da revolução socialista mundial.

Acredito que a classe operária poderá se alçar a dirigir todo o povo porque ela ocupa um lugar ímpar na produção. Mas hoje, século XXI, acho que ela precisa mais que em toda sua história de luta, dos conhecimentos científicos, da tecnologia e do saber. E, principalmente, da apropriação e do controle.  Talvez seja a revolução a única forma de impedir, o que já está em andamento, a criação de uma “raça” superior, através da engenharia genética. Uma “raça” superior, imune a milhares de doenças genéticas, capaz, de unidas ao capital, criar o “Admirável mundo novo”, na verdade uma escravização, tendo por base castas ou “raça”.  Sem delírios futuristas, a eutanásia coletiva já uma realidade na maioria dos países pobres: velhos, doentes crônicos, inúteis para a produção, são deixados morrer a míngua de alimentação e remédios. A solução final nazista parece menos cruel. Mas faz parte dos esgotos da sociedade capitalista. É um trabalho subterrâneo, obscuro, quase invisível.


Sua autonomia consiste em criar uma espécie de casta burocrática com um imenso poder de mando e privilégio. Autônomos seriam se pesquisassem, já que os sustentam é do povo, na busca de independência desse mesmo povo. Mas novamente acho que a classe operária é a vocacionada, pelo lugar que ocupa na produção a colocar a Universidade a serviço dos interesses nacionais e produtora de projetos dirigidos a solidariedade internacional. A Universidade de hoje, cada dia que passa, só ajuda a aprofundar nossa dependência. É preciso lutar para inverter isso hoje, não só depois no socialismo.
O movimento por uma carreira federal de professores, de todos os professores, faz parte dessa luta anti-imperialista, traduzida para uma categoria que está no centro dessa questão. E o movimento estudantil teria de ter uma plataforma calcada na luta pela libertação nacional e a luta anti-imperialista. Assim iria no rumo da aliança com os operários.
j. O movimento Estudantil.
. Quando, em momentos muitos especiais, como na década de 70, que o movimento estudantil levantou bandeira pelo democracia e contra a ditadura, ele teve um papel importante e progressista. Quando o movimento estudantil fica pedindo mais verbas, verbas essas que vão fortalecer o elitismo e a exclusão dos pobres, quando pedem autonomia que é autonomia para que os professores, aumentando seu poder de casta, possa oprimir mais e mais os trabalhadores das universidades, que tenham autonomia para implementar a terceirização generalizada, como foi na Unicamp e USP esse movimento, para mim, é totalmente reacionário. Recentemente, com a reivindicação de 10 por cento para educação, para um educação elitista e excludente, 10 por cento para ajudar a elitização e exclusão. Reacionário. O debate que coloca a questão sob a bandeira a aliança operário estudantil é a bandeira da luta anti-imperialista em primeiro lugar. Produzir ciência voltada para um projeto nacional, de libertação nacional, produzir tecnologias nas universidades temáticas, criar estudos e projetos de colaboração com povos oprimidos, devolver conhecimento em forma de divulgação e acesso à tecnologia produzida (em universidades e escolas técnicas temáticas, nas regiões, na direção da superação das diferenças regionais, se preparando para promover, e promovendo já, intercâmbio com as nações oprimidas, e distribuindo conhecimento e tecnologias para pobres e oprimidos do Brasil), esse é um movimento estudantil aliado da classe operária e dos trabalhadores.
A Universidade pode até ser defendida se acaso há uma ataque da direita. Mas hoje ele tem que ser denunciada como produtora de exclusão e alimentadora de dependência diante do imperialismo.
A carreira nacional de professores se efetivada detona o privilégio dos professores universitários. E coloca que o conhecimento deve estar a serviço dos bebês, dos trabalhadores, dos pobres, de todo povo. É um jeito possível hoje de falar em nome de toda a nação, de interesses nacionais profundos.


NORKA RUSKAIA e Mariátegui, por Rubem Braga

27/09/2012

Biblioteca Mário, I-010.003 B001r

Biblioteca Mário

Leio  crônicas com certa relutância. Não gosto muito do humor melancólico que parece ser uma constante do gênero. Mas leio porque gosto de levar a vida que é do que trata a crônica. Há, claro, disfarçadas em banalidades, reflexões sobre o homens e as coisas.No outro extremo etão os textos de vocação realista. A própria ciência, muito comumente, não passa de repetição burocrática em busca de cargos e verbas. O rigor científico esconde tudo que de ruim tem uma burocracia. Esconde, em particular, os crimes que vão desde a engenharia predatória à física das armas nucleares.  A ciência tornada tecnologia nasceu e prosperou e é, preponderantemente,  uma máquina de guerra e crueldade. Como máquina poderosíssima tem subprodutos muito úteis à humanidade, exatamente a justificativa para que tal máquina continue operando como tal.  E as chamadas ciências humanas que são a máquina ideológica da dominação e da escravização.  O que perturba na crônica é que, apesar de falar de um homem real, cotidiano, quase sempre faz vistas grossas desta realidade pesada. Como se fosse mais uma face, já uma terceira face da conivência; e tem muitas.   Fica parecendo pura banalidade. Mas as grandes crônicas parecem dizer que a vida deve continuar. Assim como faz o nosso ego que não envelhece, que cria milhares de estratégias para fugir da inevitabilidade da morte ,  da dor e, principalmente,  da loucura. Estratégia bem sucedida, quase sempre, mas  que do alheamento profundo pode leva a alienação mental, como apenas um aprofundamento desta mesma estratégia de defesa e saúde. Machado de Assis, no Alienista, mostrou que a tal objetividade científica pode ser um discurso de um alienado.   Mas a crônica nesse empenho de cantar a vida merece fazer parte da nossa vida. Da minha faz. Com relutância.

E o humor melancólico das crônicas são memórias aceitáveis. Narráveis. Assim uma crônica de guerra fala de pequenas grandezas da guerra, pequenos heroísmos. E Rubem Braga, correspondente de guerra, dede a chamada revolução 30 e também da segunda guerra, tem dessas. Dificilmente o gênero crônica daria conta dos campos de concentração. Diferentemente das grandes reportagens ou grandes romances, como George Orwel na revolução espanhola ou Narman Mailer na guerra da Coréia, que nos primeiros parágrafos narram o cheiro das revoluções e da guerra que são as fezes, o sangue e suor frio e fedorento do medo. George Orwel narra que era o cheiro de merda o acompanhou por anos já no café da manhã, confortavelmente instalado na Inglaterra. Uma realidade que não seria narrável em crônicas, deliberadamente escondida em textos políticos e muito suja para entrar em textos científicos.

Este pequeno texto sobre um livro de crônica está enveredando para a defesa do romance que não tem compromisso como qualquer limitação destes campos aí citados. E pode ainda, como os Sertões, de Euclydes da Cunha, que, sem ser ciência, é capaz de manipular conceitos da ciência da época, narrar como um grande reportagem, fazer um crônica dos fenômenos da natureza e do homem e ainda contar com uma  poesia intencional, como demonstrou Haroldo de Campos.   E que faz dele um grande romance: fazer falar a terra, o homem e a luta, como grandes personagens, como invenção. E que não é exigência para um grande romance, mas parece que ao  escrevê-lo, o romance se impôs ao escritor, que passa a denunciar um crime. Cinco anos antes, Euclydes da Cunha, escrevia textos laudatórios à república e exército. Em 1902 são os criminosos denunciados.  Mas  a crônica, compromissada com o cotidiano, tendo mesmo que fazer média com o leitor de jornal, veículo recorrente das crônicas, falta distanciamento e coragem de peitar o leitor. Assim como se dá com nosso   ego é preciso, nem sei se mentir, mas esconder a verdade.

Na mais banal das vidas há epifanias. Ali uma frase perdida. Ou uma cena, como esta de Norka Ruskaia. E conhecendo o moralismo anti-sexo dos comunistas – e dos intelectpuais também –  ver Mariátegui, líder e intelectual comunista peruano, numa festa em um cemitério e nua sob uma manta NORKA RUSKAIA, dançando sobre túmulos, tocada por violões e vinho.  É o tipo de cena que valeu ler Rubem Braga. E vemos uma Mariátegui comprometido com a vida, com o sexo e, pasmem,  com voyeurismo tão condenado pelo politicamente correto. Mas é 1917 e Mariátegui era jovem e ainda vivia.

Mas há frases perdidas que merecem ser anotadas, como essa da crônica “Era um sonho feliz”:

“Senti alguma diferença em sua voz, pressenti que ia acontecer uma tristeza, no mesmo instante senti pena de mim – “

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Biblioteca Mário, I-010.003 B001r

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link

01. 27/01(de 1917): La bailarina rusa Norka Rouskaya escandaliza Lima


ANJO NEGRO, Nelson Rodrigues.

22/08/2012

Anjo Negro, Nelson Rodrigues-1948-Orlando Guy-Nicette Bruno. FUNARTE: Brasil , Memória das Artes. http://www.funarte.gov.br/brasilmemoriadasartes/imagens/imagens-fotos/page/119/.

 

Um resumo muito bom sobre “Anjo Negro”

“O que, na peça, é fadado ao silêncio? O que não pode ser mostrado e, ao mesmo tempo, é explicitado no texto? Nelson aponta para a problemática racial em que, certamente, se articulam os subsídios para uma teoria social do Brasil, onde se destaca a violência como fator de base dos fundamentos estruturais do modelo étnico-social brasileiro. A peça explicita a vivência de amor/ódio num casal inter-racial e a ambigüidade diante de sua linhagem mestiça. O estilo poético-realista de Nelson Rodrigues revela, de maneira perturbadora, temas adormecidos no inconsciente. Ele revolve esse universo profundo do espectador trazendo à consciência o recalcado e utiliza-se da tragédia para falar do racismo. Assim, remete-nos ao drama grego: a tragédia, pois somente o trágico daria conta de desvendar essa realidade brasileira relegada às trevas – o racismo. Algo da ordem do trágico, tal qual é explicitado no drama grego, pode estar muito próximo de nós, se considerarmos que, enquanto humanos, vivenciamos as emoções que o perpassam.”  Resumo Comentado:

  Liliane Negrão Pinto, Mestranda (Instituto de Estudos da Linguagem), UNICAMP |Eliana Maria Delfino, José Tiago Reis Filho, Sílvia Regina Gomes Foscarini, Wanda Avelino – Círculo Psicanalítico de Minas Gerais | Seleste Michels da Rosa, formada em Letras (UFRGS), especialista em Literatura Brasileira (PUCRS) e mestranda em Literatura Brasileira (UFRGS)

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” O autor, em várias ocasiões, afirma ter escrito o personagem para seu amigo Abdias representar, pois, segundo ele, era o “único negro do Brasil”.” em “Resumos Comentados: Anjo Negro de Nelson Rodrigues”

” A singularidade Ismael contrasta com a grande galeria de homens e mulheres rodriguianos, onde, em determinado momento da ação, os personagens retiram as máscaras e se apresentam, inesperadamente, na mais completa nudez psíquica.” Idem
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UM NEGRO COMO PROTAGONISTA DE UMA PEÇA EM 1948.

Diz Ruy Castro, em documentário do SESI, que Nelson Rodrigues ficou muito frustrado de ter que aceitar um ator não negro, maquiado, fazer o papel de Ismael, o médico negro da peça.  Orlando Guy foi escalado para que a censura do Ministério da justiça liberasse a peça –  que havia sido interditada.

“Orlando Guy fará o marido preto. O argumento de que não é negro retinto não é válido. Considerado o caso de um estrito e honesto ponto de vista teatral – o único que importa – basta, que sua discreta maquilage e seu desempenho dramático dêem a ilusão do “negro Ismael”. E não teremos direito à menor restrição. E se Ziembinski o escolheu entre muitos que se candidataram ao papel deve-se a que o tipo de Orlando Guy era o único que correspondia à concepção do tipo X que o ensaiador polonês exigia.”, Nelson Rodrigues, para o Correio da Manhã de 02/04/1948, dia da estréia da peça.

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O ODOR E O NOJO: o racista é movido a paixão e violência.

“Reflexões sobre o Racismo”, por Jean-Paul Sartre

Fui à  leitura no SESI/Campinas e  fiz a leitura caseira do texto, sob a influência de Sartre, pois é um influência de mais de 40 anos  de “Reflexão dobre o Racismo”. O livro da Difusão Européia do Livro tem dois textos, o primeiro sobre o anti-semitismo e o segundo sobre o racismo contra os negros. Mas o texto sob cujo olhar vejo a questão racial é, particularmente, o primeiro, o texto que estuda o anti-semitismo. É um texto que vai elencando absurdo trás absurdos, risíveis incoerências das falas dos racistas anti-semitas. Mostrando a irracionalidade completa. É pura paixão e violência.  Usando aqui a terminologia de Sartre, o anti-semita é um ser inautêntico.

No resumo citado acima, e é um resumo, falta uma coisa essencial que está bem chamativo no texto de Nelson Rodrigues que a repulsa da mulher branca ao cheiro e ao suor do negro. Esta invenção odiosa vai ser um dos temas mais agudos da análise de Sartre. A repulso ao judeu pelo seu pretenso cheiro.

Em Sartre, também em Anjo Negro, mas mais central ainda em Sartre,  esta repulsa se traduz em atração para a violência e a curra. As judias serão sempre curradas por anti-semitas.  No texto de Nelson Rodrigues a curra é narrada e o autor não propõe que seja encenada.  O que me leva a pensar que funciona como funcionam as estatísticas.  Acho que encenar é superior  narrar, assim como narrar é mais humanizador do que um levantamento estatístico.

O texto de Sartre analisa dezenas de situações do racismo. Mas acho esta questão odor, ou do cheiro, uma das questões mais profundas, sempre presente nos xingamentos e calúnias, mas, durantes décadas,  só pude encontrar  no texto de Sartre. Mas se trata de  um texto filosófico e tem um frieza insuperável.  No teatro seria diferente. Durante muitos anos fiquei pensando se seria mesmo possível  estar no teatro, vivenciando portanto e não apenas lendo ou ouvindo, frases explicitamente racistas. Vê-se isso em novelas da globo, mas são racistas caricatos. Em Nelson Rodrigues são personagens completos, do mundo aceito e vencedor. O personagem principal é um médico bem sucedido e sua mulher,  extremada racista,  pertence a este mundo  oficial , bem sucedido mundo  e invejado mundo.

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OS FILÓSOFOS: Não têm nariz, negam o corpo, ineptos para a vida.

“A Arte de Ter Prazer – Por um Materialismo Hedonista, por Michel Onfray

Mas há um texto que li nos últimos 5 anos,  para mim mais direto e arrasador.  Um ataque aos próprios filósofos. Os filósofos não têm olfato, paladar ou tato. A exceção dos pré-socráticos, tendo Demócrito o filósofo do nariz,  que coloca no centro da sua percepção.  Dos modernos, Nietzsche, que vai devolver o corpo ao homem. Kant, por exemplo,  vai banir o olfato da filosofia.

Frases de Michel Onfray

“A antiguidade apreciava os perfumes: nos banquetes ofereciam-se aos convivas guirlandas de flores diversas”. p. 111

“Entre os filósofos, o perfume não tem boa reputação: é associado ao luxo, à devassidão, à depravação”. p. 111

“o luxo dos odores da Ásia(…) era tido como suspeito pelo helenismo clássico”. p. 112

“O ódio ao corpo é acompanhado por um ódio tenaz ao olfato. O nariz concentra as aversões e as paixões como um revelador”. p. 112

“Assim veremos alguns filósofos dos mais sérios recorrerem ao olfato…elegem  esse sentido, entre cinco, pra apenas dizer suas repugnâncias: analisará o odor dos negros e tentará compreender por que tal fedor(!), outro se gabará de distinguir o Foetor Judaicus  – o fedor judeu -, um terceiro descreverá com uma complacência afetada o odor dos pobres…”. p. 112

Nietzsche colocou o nariz no centro das suas investigações e transformou o odor numa metáfora sobre a vida. Instinto, em Nietzsche, uma qualidade que tinha que ser defendida e restabelecida, se confundia com o odor, assim como a ruminância.

Mas os mesmos filósofos que baniram o olfato da filosofia vão ser os que usarão o olfato para caluniar os corpos dos que lhes eram diferentes. Numa incoerência tão evidente que beira à estupidez.

Kant que banira o olfato do seu sistema filosófico é com o nariz que vai julgar os negros. “O odor forte dos negros, que nenhum cuidado de limpeza consegue dissipar, permite supor que sua pele elimina  se seu sangue uma grande quantidade de flogístico…”. Miche Onfray diz que Kant lança mão de um emaranhado de hipóteses mais ou menos fantasiosas, lugares comuns mais banais, para assentar sua visão sobre o tal odor do negro. Sem nunca ter visto um negro sequer. ver p. 138

Schopenhauer:  “O bom Deus, prevendo em sua sabedoria que seu povo eleito se dispersaria pelo mundo inteiro, deu a todos os seus membros um odor específico que lhes permitissem reconhecer-se e encontrar-se por toda parte, é o Foetor Judaicus”.  M. Onfray comenta: “O fedor é portanto um toque de reunião, um código”.

Marx descreve a multidão de agentes de câmbio num escritório de Amsterdã nos seguintes termos( em O Capital): “A linguagem falada cheira fortemente a Babel, e aliás, o perfume que invade o recinto não é dos mais refinados”.  M. Onfray: “O judeu portanto, é infecto, nauseabundo e fétido”.p. 149

Depois dos filósofos vem os santos. Os santos  cheiram bem.  O diabo sempre cheira mal. Isabel, um santa católica, que gostava dor rolar na lama, viver com os porcos… dela diz a hagiografia: “É evidente que ela possuía uma grande pureza e uma grande inocência, como prova a exalação do seu corpo. Por ter brilhado na vida de toda inocência e castidade, seu corpo exalou na morte um odor delicioso”. … “Os gnósticos atribuíram a Cristo um existência sem defecção…. E Teresa de Liseux dá a receita para acompanhar Cristo na sua subida aos céus: é só acompanhar o rastro do seu perfume. p. 154-155

Sartre: Michel Onfray questiona o próprio Sartre que, em viagem à Itália, fala em termos depreciativos dos napolitanos, inclusive destacando a questão dos odores e aparência destes. E em suas cartas da Itália ignorar o fascismo; isso em 1936.

Filósofos, deste a antiguidade clássica na Grécia. Cristãos.  Vão atribuir ao bem um cheiro agradável e mal odores fétidos. E este capítulo do livro de Michel Onfray mostra a tradição milenar do racismo e da exclusão. Na filosofia e na religião. São formas de pensamento que destronam e detratam o nariz porque não conseguem aceitar a vida.  Desprezam o nariz porque desprezam a vida. E desprezam tudo que é diferente, pois a vida é formada de formas e corpos diferentes.

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A CIÊNCIA LEGITIMADORA DO RACISMO.

A Falsa Medida do Homem, de Stephen Jay Gould

Mas há um outro grande livro para nos armar contra o racismo que impregnou a filosofia e depois as chamadas ciências biológicas. “A Falsa Medida do Homem”. Stephen Jay Gould, vai mostrar como as ciências, durante décadas, falsificou dados, manipulou resultados, para provar inferioridade de povos e o que, naquela época, denominavam de raças.

Não esqueçamos que a escravidão negra foi aceita e promovida pelo cristianismo católico e protestante. Que o extermínio dos índios foi feito por cristãos. Que o colonialismo , extermínio e dominação do povos e nações foi feito –  e ainda é –  por nações ditas cristãs, sem condenação, ou apenas com tímidas reprovações, bem retóricas.

Se  grande partes destes filósofos vão dirigir seus ataques raciais,  preferencialmente,  ao odor insuportável, ou animalesco, das vítimas de seu racismo, cientistas de muitas áreas vão fazer um ataque concentrado a vários aspectos do homem. Vão criar teorias. Falsificar medidas. Criar infames testes para mostrar inferioridade de todos aqueles que não fossem brancos europeus. Em muitos casos seriam os alemães os superiores. Há um episódio que beira ao mais insano ridículo. Testes nos EUA chegaram ao resultado de que mais de 80 por cento dos estadunidenses teriam deficiência mental. E Stephen Jay Gould alerta. Estes testes, mais ou menos modificados, são usados até hoje em escolas. E outra curiosidade para a história. Grande parte destas teorias e cronometrias para escalonar raças nasceram, ou prosperaram,  nos EUA e não na Alemanha , como comumente se pensa.

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A filha, cegada depois de fixar atentamente o pai negro,  vai “chamar” negros de branco e o que ela chama de brancos são os negros. Acho genial esta simples inversão para mostrar o absurdo do racismo,  já que tudo não passa de convenção, de um nome

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A nova Vanguarda: o teatro sem público. foto do Teatro do IA-Unicamp

 

Campinas, cidade de milhares de universitários, milhares de professores universitários, com a segunda universidade de São Paulo e uma das maiores do país, com uma classe média arrogante e metida a besta, faz um leitura dramática para comemorar os 100 anos de Nelson Rodrigues. Melhor que nada!!!

Campinas de mais de um milhão de habitantes. Tem este Teatro do SESI. Outro do SESC. Ou seja, mantidos pela comércio e pela indústria. Conheço mais dois pequenos teatros de grupos. Na Unicamp constroem um imenso teatro, dentro do campus, para que alunos apresentem suas peças para eles mesmos. De costas para a população, como fica toda a Unicamp, excetuando-se o HC, parasitando a cidade, terão um Teatro contra toda a tradição histórica do teatro que nasceu em praça pública, em arenas; ou como Shakespeare, em zona portuária e de meretrício. Com a Unicamp, para os filhos diletos da burguesia apreciarem a si mesmo, a aplaudirem a si mesmo. Que humanidade apresentarão neste teatro?

Uma  leitura dramática. Melhor ouvir o texto que apenas lê-lo em casa. As falas ditas por atores já se aproxima um pouco do teatro, um teatro falado. As tragédias gregas, em versos, eram declamadas pelos atores.
Mas seguindo o roteiro de texto de Sábato Magaldi (link) ali faltava o encenador que é que realmente responde pelo teatro contemporâneo. Falta o cenógrafo que o grande condutor do teatro brasileiro revolucionário, como em Vestido de Noiva, com cenário de …. Acrescento aqui que em 1946, Anjo Negro teve cenário de Portinari (ver entrevista de Abdias Nascimento, no final da página).
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Palavras de Nelson Rodrigues sobre teatro:

a pretexto da estreia de Senhoras dos Afogados, em 1954:

” O que caracteriza uma peça trágica é, justamente, o poder de crear a vida e não imitá-la. Isso a que chamamos “vida” é o que se apresenta no palco e não a que vivemos cá fora. Evidentemente excluo, daqui, as peças digestivas…”

“O personagem do palco é mil vezes mais real, mais denso e, numa palavra ‘mais homem’ que cada um dos expectores”.

“…Ponha-se do lado de certa senhora na platéia. Perceberemos, então, que a expectadora de carne e osso não vive realmente, imita apenas a vida, Finge que é mulher, finge que é creatura humana e continua fingindo até no leito conjugal…”.

“Não sou pornográfico. Pelo contrário, me chamo de moralista. O único lugar onde o homem sofre e paga pelos pecados é em minhas peças.” Revista Brasilis[frases]

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“O personagem do palco é mil vezes mais real, mais denso e, numa palavra ‘mais homem’ que cada um dos expectores”.

Essa frase de Nelson Rodrigues diz que não é possível discutir a vida sem teatro. Que em Campinas não há vida. Que é ilusão toda acúmulo de teses, dissertações e estatísticas. Precisamos de teatro. Quem reivindica isso? Há candidatos que se dizem de esquerda nestas eleições. Começaram já as arengas. Alguém defende teatros na Cidade de Campinas? Duvido!!!

“Antunes Filho, ao realizar, em 1981, Nelson Rodrigues o eterno retorno, sintetizou a sua visão do universo do dramaturgo também em quatro textos: Álbum de família, Os sete gatinhos, Beijo no asfalto e Toda nudez será castigada, reduzindo-o, depois, em Nelson 2 Rodrigues, a Álbum de família e Toda nudez será castigada.”. link.

Que lástima! Depois de tudo isso olhar em volta e ver que Campinas não tem teatro. E não há perspectiva alguma. Nem um simples rumor.

Aprendi a adorar Nelson Rodrigues no “Beijo no Asfalto”, em “Toda Nudez será Castigada”, o filme de Jabour, “Na vida como ela é”, da Globo, no filme “Bonitinha, mas ordinária”. Mas parece que nunca saberei o que Antunes Filho fala por aí:  que Nelson Rodrigues é o maior dramaturgo do Brasil. Só dá para conhecer um dramaturgo se ele for encenado, acho.   Desde o modernismo, passando pela antropofagia, oswaldiana, até a tropicália, há um anseio profundo de quebrar o isolamento cultural do Brasil, condenado, inclusive, pela barreira da língua minoritária. Mas ser condenado a ignorar o próprio Brasil.  Ter em perto um universidade que pratica  e é ciosa na defesa do seu isolamento. Nossos jovens intelectuais se formam para serem europeus de segunda e brasileiros de quinta.

O teatro privado dos estudantes de arte da Unicamp deveria ser público

E para começar a sonhar haveria de ter um movimento [que não vai ter] para que o Teatro da Unicamp fosse construído no centro de Campinas, perto da catedral, talvez no mesmo lugar onde o antigo teatro foi derrubado e hoje é uma Praça cimentada, com barraca de salgadinhos: um anti-praça.  Ou na antiga rodoviária, hoje um imenso buraco abandonado. Este buraco é uma metáfora explicativa para Campinas.

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links

01. Texto da Peça, Anjo Negro, de Nelson Rodrigues

02. Artigos e fotos da época. Várias encenações. Anjo Negro também.
03. Tendências contemporâneas do teatro brasileiro, Sábato Magaldi

04. Revista Brasilis: Amigos e intelectuais relembram Nelson Rodrigues
05. FUNARTE: Memória das Artes [fotos de montagens de peças de Nelson Rodrigues
06. Bate-papo em torno da obra de Nelson Rodrigues [Funarte]

07. Correio da Manhã, sobre estréia de Anjo Negro 02/04/1948

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Documentário: Abdias Nascimento

Entrevista. Fala dos cenários de Portinari para Anjo Negro.

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Algumas frases publicas pela revista Brasilis

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pingback

o1. Teatro sem público: deve ser a grande sacada da vanguarda da Unicamp


A Serbian Film, de Srđan Spasojević

09/07/2012

[Lembrete: quem não assistiu ao filme e não quer saber o final, não leia tal post. Foi inevitável dedurar o final para argumentar]

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“Madeleine Albright, secretária de Estado de Bill Clinton, que, ao responder a uma pergunta em rede nacional de TV sobre as 500 mil crianças mortas no Iraque como resultado das sanções impostas pelo governo dos Estados Unidos, asquerosamente afirmou: “Acredito que o custo compensou”.” [ver link 10]. Razões de estado dirão os estudiosos universitários. Talvez se fizesse um filme onde Madeleine Albright aparecesse se masturbando, o filme seria proibido.

E que tal fazer um com Bill Clinton esporrando na cara de Monica Levinski.
Bem ao contrário das crianças mortas no Iraque, Monica Lewinsky é notícia de 1988 até hoje. Este é o peso da moral sexual. Desde Helena e a Guerra de Troia, sexo e a moral sexual é a única coisa que realmente conta. Para mim, aí mora o engano, o auto-engano, ou a enganação de Srđan Spasojević, quando diz que seu filme é uma metáfora sobre aquela guerra na Sérvia[ver link 07] e os ataques da OTAN. Em paz ou em guerra  e revoluções, há, houve e haverá muita tortura, violência e prazer na violência.  Ninguém se surpreenderia de a primavera árabe também fosse chamada de primavera sangrenta. Neste instante mesmo, em qualquer delegacia, em qualquer lugar do mundo, há gente gritando de dor e outros de prazer com a tortura. E bilhões de pessoas fingindo que não é com ele.

Ricardo Kotcho[ver link 01] chama o filme de sórdido. Será que empregaria o mesmo adjetivo para Bill Clinton, Madalena Albright, Churchi[ver link 13]l (o primeiro a usar bombas químicas no Iraque, o primeiro a bombardear civis na segunda guerra). Churchil apenas continuava um tradição inglesa como conta o artigo de Isto É [ver link 13]: “Mas foram os britânicos os primeiros a devastar as fileiras inimigas com a ajuda de métodos biológicos. A chance veio no final das guerras Franco-Indígenas (1754-63), quando a Grã-Bretanha derrotou a França na luta pelo Canadá. Lord Jeffrey Amherst, o comandante-em-chefe das forças britânicas na América, mandou distribuir cobertores e mantas contaminados com varíola para infectar as tropas indígenas do chefe Pontiac”
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Assisti a Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick pelo menos 10 vezes.
Alex comete crimes odiosos e se compraz com a violência. Em comum com Milos, Alex comete os crimes sob efeito de alguma droga. No caso de Alex no inocente – ou até nojento para alguns – leitinho. Milos afoga-se no Whisky e a piadinha, insistentemente lembrada no filme, é que malte é brochante, ninguém acha  leite  excitante. Não sei se são nos filmes de horror e violência, ou se é todo o cinema que as piadinhas e pegadinhas são incontornáveis. A aparência dedes personagens e desse assassino aí parece um charada do filme. Só que Alex tem seu livre arbítrio preservado, pois toma as drogas por livre escolha, portanto sem o perdão fácil que suscitaria se fosse à força, ou ministrada num complô como no caso de Milos de A Serbian Film. Mas Kubrick, crítico feroz da sociedade, também expõe um falso livre arbítrio, quando o religioso, um padre Anglicano, lamenta – Kubrick deixa a dúvida: será que lamenta mesmo?, ou este padre é um filho da puta de um manipulador escorregadio – que Alex escolha submeter-se a um tratamento para perder sua agressividade. E vê-se logo que Alex não é sincero, mas está é querendo se livrar da cadeia. O Alex de Kubrick é colocado entre a ingenuidade e o cinismo. Alex nunca é totalmente vítima. Alex gosta da violência. Alex gosta de lutar. Alex gosta imensamente de sexo e orgia. Alex gosta de música de Bethoven e traduz a violência dos acordes em violência física. Alex é sórdido e grandioso. Ao contrário, Milos de Serbian Film se apresenta como sempre como a vítima, sonha em si castrar, se culpa e destrói sua família que ele julgou culpada de tudo. Milos é um pobre diabo sem pensamento e sem prazer. No final seu suicídio e da sua mulher (que também é uma consciência culpada) e o assassinato da criança é banal e não me comoveu. Nem é vítima, com Alex foi da psiquiatria, do padre, da família, de todo o sistema, mas antes mais nada é um traste.

Torci por Alex, todas as 10 vezes que assisti ao filme, sob o som da arrasador da nona sinfonia. Não me lembro de qualquer música de Serbian Film. E na vida real os bombardeios no Iraque eram feitos sob o som de rock pesado. A arte, a vida, a política: a estética é politizada, a política estetizada. Havia um jogo chamado War, falava-se em jogos de guerra, em games, quando do Iraque.

Em 1988 quando assisti a este filme não tinha dúvida que esta era a mulher mais bonita e tesuda do mundo. E que deveria assistir a todos os filmes de Alan Parker. Nunca mais assisti a qualquer filme dele e nunca mais vi uma cena de Lisa Bonet. Mas também jamais esqueci, ou melhor, lembrei-me quase todos os dias. E continuo fugindo deste poder dominador da imagem, principalmente da imagem cinematográfica ditatorial, acachapante. A Serbian Filme é um filme, neste ponto de vista, inofensivo. Nenhum personagem meu deu tesão ou empatia.
Outro medo é de lembrar dele mais do que o impacto que causou em mim, já que escrevo sobre ele, e este elemento da cultura, escrever ou falar sobre, imprime uma falsa lembrança. Uma lembrança de gabinete. Lisa Bonet parece cinzelada no corpo. Só hoje sei que chama Lisa Bonett.

Há ainda rituais religiosos com derramamento de sangue e vítimas. Há ainda. Mesmo reprimidos continuam existindo. Me pergunto se este cinema de violência, assim como os games para crianças, não encenam estes sacrifícios? Assim como os contos de fadas introduzem as crianças na violência e no sexo, de maneira sub-reptícia ; outros. como Chapeuzinho Vermelho, bem claramente. Estas encenações não aplacam, talvez, a sede de sangue?

Dizem que o quadro é de má qualidade técnica. [ver link 12]. Vendo reproduções da mesma fase azul não consegui ver qualquer diferença técnica. E não acredito que Picasso o escondeu por 28 anos por motivos de insuficiência técnica. Nem os tantos outros anos que ficou escondido.

Alex, em Laranja Mecânica,  é a melhor pessoa do filme. Todos são muito mais sórdidos na sua vidinha comum e horrorosa. As pessoas comuns a idiotia e a covardia repulsiva. Os psiquiatras a violência e a droga para domar e castrar. Políticos de esquerda e de direita manipulam e torturam Alex para torná-lo dócil e usá-lo. Policias e ex-amigos de gangues viram policias para torturarem-no. O escritor, o inelectual, cuja mulher foi estuprada e morta por Alex se tem quase um orgasmo em imaginar a tortura que planeja e executa ministrando drogas na refeição de oferece a Alex. Piedade e tortura se misturam o tempo todo. E Alex se humaniza diante de tanta podridão. Fala-se que é um filme fascista. Talvez seja o fascismo que está em todos nós então, mas, em algum momento da vida, ou em muitos, sonhamos ser, nem que seja por um momento, um furioso Alex.
A Serbian Film, tem algumas citações de Laranja Mecânica. Quando um escultura é usada para esmagar a cabeça da vítima. Nos dois casos não há um esmagamento explícito, mas sugerido.
Quanto ao incesto que Milos comete sob efeito de Viagra para cavalo – outra piadinha – há no cinema hollywoodiano, em Coração Satânico, de Allan Parker, com prazer e erotismo, sob o subterfúgio de se dar sob possessão demoníaca. Parece que a questão é com que maestria ou felicidade cada diretor encontrou sua maneira de mostrar.Assim como a pedofilia que o argumento para proibir o filme. Ela, por exemplo, é mostrada com sinal invertido, mulheres com garotos, e aí não é nem tão chocante, nem há pedidos de proibição. Podemos ver isso, tanto em Picasso ou no Amor Estranho Amor, protagonizado por Xuxa, a rainha dos baixinhos.

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Uma desculpa para proibir o filme foi que é de má qualidade [ver link 08]. Com esta desculpa poderia proibir quase tudo feito em Hollywood,  na Índia ou na Rede Globo.

Me lembrei  bastante de Laranja Mecânica, por ser um filme que me marcou.  Também o diretor de A Serbian Film, Srđan Spasojević,  faz várias referênias e citações do filme de Stanley kubrick.  Kubrick abordava a violência, mas sem moralismos e complexo de culpa. Qualquer um de nós foi ou queria ser, em algum momento, Alex. Já Milos, de Serbian Film, é um pobre diabo, um traste. Ele se julga assim e é. É um joguete que não consegue nem refletir nem lutar.

Esse cartaz me fez lembrar, imediatamente, de o Iluminado de Stanley kubrick, onde não havia droga, mas a loucura do cotidiano e da banalidade. O mal é a banalide.

Homossexuais enforcados em praça pública no Irã. Parece desfocado isso aqui. Mas não há sexo e violência sem deus. E A Serbian Filme não aborda isso. Mesmo as humilhações e torturas em Guantánamo eram feitas em nome da democracia e do cristianismo.

Jeová pede que Jacó sacrifique seu filho único. Isaac sobreviveu para encher a cultura judaica e cristã de neurose. Como discutiu Dostoiévski, um condenado a fuzilamento que foi apenas encenado, narrando que carregou esta tortura pelo resto da vida.

“Sem sangue não há amor”, do Amor Cristão, de Marcelino Freire
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Ainda comparando com Laranja Mecânica. Há a música de Bethoven[trilha sonora,[ ver link 14]. Muitas vezes a música conduz o filme. O cinema, quase sempre, usou a música como um elemento narrativo. Não ouvi isto em A Servian Film.  Há coreografia, figurino e dança em Laranja Mecânica. Há solidariedade e traição. Em a Serbian Film quando o irmão trai não há qualquer grande choque. Como se a traição fizessem parte desta banalidade da vida comezinha. A Serbian Film, muitas vezes, é moralista, mas sempre muito pobre. Não a a grandeza escancarada e ridícula de um Nelson Rodrigues. E também muito maniqueísta. A droga é usada para o mal, uso que Alex e sua Gang faz, mas é também usada para “bem”, para corrigir Alex, e Kubrick faz-nos ver como, a droga na mão dos poderosos pode ser o supremo mal. E nos coloca do lado de Alex contra o poder. Em Laranja Mecânica há sexo e prazer. Em Serbian Film há violência. Não fica nunca evidente se algum personagem sente algum prazer com o que está acontecendo na tela. A não ser que alguém acredite que ejaculação é sinônimo de prazer.

Em O Erotismo, George Bataille registra que o público, masculino claro, ejaculava nos enforcamentos. Dele é a frase: “Deus, sexo e violência são intercambiáveis”

Se houver alguma aposta do diretor é que a platéia, mais violenta que os personagens, vá sentir prazer.
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Alex tem vivo prazer com o que faz. Alex só tenta mudar por puro oportunismo, para escapar da punição. No final de Laranja Mecânica parece recobrar sua humanidade contraditória e prazeroso.

Poderia se dizer que não dá para comparar pois Laranja Mecânica não é um filme pornográfico. O mesmo se pode dizer de A Serbian Film que é mesmo um filme sobre ator do cinema pornográfico, e que vai fazer um filme sobre violência, sob efeito de uma droga poderosa, sem qualquer controle sobre sua vida. Alex também usa droga, mas como os comuns dos mortais. Faz crimes porque os humanos fazem crime, não parece que a droga explique e o absolva. E é pego porque cometeu erros e foi traído. Milos é o erro. É antes um robô, um puro joguete, pois a droga que o conduz, totalmente, inescapavelmente.

O que há de mentiroso no filme é que o diretor parece dizer que só alguns Milos cometeriam tais desatinos, sob efeito destas drogas. Mas ele e todo mundo que gosta ou odeia o filme sabe que não. Que o crime, a violência, a dominação são  a droga mais dominadora que existem. E que os assassinos estão no poder. E que no limite mais baixo, os assassinos tem poder. E que os deuses sempre quiseram sangue, dos deus primevos da Grécia a Jeová.  E que os deuses curraram as virgens, de Zeus a Jeová. Em nome deles foram destruídos homens e nações. Não dá para falar de sexo e violência sem falar de deus.  Uma das grandezas de Laranja Mecânica é o padre bondoso, cuidadoso e, ninguém sabe?!, cínico, aliado do sistema de punição. Milos, o joguete, o menos culpado – e ao final já não mais drogado, aplica a pena de morte nele, na sua mulher (culpada de ganância, já que sóbria) e seu pobre filho. Alex escolhe vida, Milos a morte e o assassinato.
Não achei um mau filme. Acho que pode ser um filme bem feito sobre um homem/robô, levado a total inconsciência. E quando consciente, ao desatino. Mas quando eu quiser refletir, usando um filme, acho que vou assistir pela undécima vez Laranja Mecânica que retrata a humanidade como ela é: multifacetada e perigosa.b

E também se me der na telha assisto novamente A Serbian Film que  agora foi liberado, depois de um ano apreendido. Um ano, quando a justiça tinha estipulado 30 dias para o veredito. Acho até que vou assisti-lo na tela grande, ou seja, ver cinema é no cinema.

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links

01. Justiça está certa, sim, ao proibir filme escabroso.[Ricardo Kotcho apoia a proibição do filme (sem assisti-lo) ]
02. Depois da Caixa e do Ministério da Justiça, agora é o MPF e a Justiça Federal que censuram “A Serbian Film”
[Tinha prazo de 30 dias para “julgar” o filme e levou um ano]
03. Como é determinada a censura de um filme?
04. Brasil censura primeiro filme após 26 anos
05. A Tortura do Medo (Michael Powell, 1960) [diz, a certa altura, que este filme homenageia Blow Up, de Antonioni]
06. A Serbian Film – Terror Sem Limites – Censura É o Melhor Marketing[“Este filme é realmente doentio, violento, polêmico, com muitas transgressões; mas “Irreversível”; “Saló ou 120 Dias de Sodoma”; “O Albergue”; “Ichi, o Assassino”; “Cannibal Holocaust”; “A Vingança de Jennifer” (o original) e muitos outros filmes também o são e tem seu público e fãs.”]
07. A Serbian Film – Censurado no Brasil? [Tem trechos de entrevistas do diretor onde diz de objetivos morais do filme .Mas não fala de estar sob efeito de droga]
08. A Serbian Film – Terror Sem Limites[ Uma crítica com argumentos cinematográficos]
09.Crítica – A Serbian Film: Terror Sem Limites Afirmo também que filmes como, por exemplo, Oldboy (2003), Martyrs (2008), Tetsuo (1989), A Invasora (2007), Audition (1999), me deixaram mais boquiabertos e intrigados do que o filme Sérvio.”]
10. Davis, Mike. Apologia dos bárbaros: ensaios contra o império Resenha de Waldir José Rampinelli

11. Picasso, Erotic Scene, Erotic Scene (known as “La Douleur”) Pablo Picasso  (Spanish, Malaga 1881–1973 Mougins, France)
12. Um Picasso “picante” que ficou guardado durante 28 anos será exibido em NY
13. Uma sedução fatal
Armas químicas e biológicas tornaram-se a “bomba atômica dos pobres”

14 . Trilha Sonora de Laranja Mecânica


GIACOMETTI por JEAN GENET.

11/06/2012

alberto-giacometti, fonte Google, certamente foto de Ernest Scheidegger

O ATELIÊ DE GIACOMETTI, por Jean Genet.
FOTOGRAFIAS DE Ernest Scheidegger.
As fotografias. Aqui, em livro, eu não canso de ver. Na exposição mais ou menos ignorei as fotografias lá expostas. Voltarei para conferir. Foi na foto da página 24 que pude conferir o que Sartre fala de Giacometti e seu rosto antediluviano, para adivinhar seu orgulho e sua vontade de situar-se no começo do mundo”.

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biblioteca Mário 000.004

 

 

 

O Ateliê de Giacometti, de Jean Genet, contracapa. Ed. Cosac & Naify. Fotos de Ernest Scheidegger.

O livro é essencialmente um livro de fotos.

O texto é curto, mas cheio de considerações e assertivas. Quase impossível resumir o que já é quase um resumo de uma longa reflexão e de um longo contato de Jean Genet e Giacometti. Por isso, para facilitar, cito as frases que achei mais contundentes.

AS FRASES:
É a obra de Giacometti, creio, que torna nosso universo ainda mais insuprortável...”.p.12.”A beleza tem apenas uma origem: a ferida...”p.12.”Certas estátuas de Giacometti provocam em mim uma emoção bem próxima desse terror, e uma fascínio quase tão grande“.p.13.”Estão no fundo do tempo, na origem de tudo...”p.14. Assim como Sartre viu. A distância, “a distância entre mim e elas que não tinha notado, distância tão comprimida e reduzida a ponto de eu acreditá-las próximas…“p.14.”… toda obra de arte…deve…descer aos milênios, juntar-se, se possível, à noite imemorial povoada de mortos que irão se reconhecer nessa obra.”p.14-15. “Não, não, a obra de arte não se destina às novas gerações. Ela é ofertada ao inumerável povo dos mortos...”.p.15. “Ainda que presentes, onde estão essas figuras de Giacometti a que me refiro, se não na morte?”. p.15. “Suas estátuas parecem pertencer a uma era defunta”. p. 44. “Giacometti canta que certa vez teve a ideia de modelar uma estátua e enterrá-la...”.p.44. Cada Estátua parece recuar a – ou vir de – uma noite tão distante e espessa que se confunde com a morte...”.p.66

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CONVERSA DE JEAN GENET COM GIACOMETTI:

Giacometti fala a linguagem comum de um trabalhador braçal. “Ele fala áspero“. Emprega com frequência a palavra DESTRAMBELHADA. “Ele também é bastante destrambelhado“. Cabelos desgrenhados. Giacometti continua trabalhando. “Não o interesso nem um pouco“. p.18.

O POVO DOS MORTOS. “Ao povo dos mortos, a obra de Giacometti comunica o conhecimento da solidão de cada ser de de cada coisa..”. p. 21.

Alberto Giacometti, Os olhos. No livro/catálogo Giacometti, da Cosac & Naify o desenho tem fundo pardo. Este parece ter um fundo branco, o que atualizaria a teoria sobre o branco de Jean Genet, de que os traços serviriam para reforçar o branco, o espaço.

Este parece uma coisa de internet, para “melhorar” Giacometti. Coloco aqui para chamar ao cuidado e atenção.

A ABSTRAÇÃO: “…Quero dizer que se o conhecimento de um rosto pretende ser estético, deve recusar ser histórico“.p.22. Não é possível realmente, então, um retrato. Todo retrato é retrato de, Jean Genet, é de um homem em geral. Na verdade, sem rosto. Daí as garatujas e rabiscos. Ou flacidez de Sartre, a redondez, temida, de Jean Genet.

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A MULHER

Mulher em pé, c. 1961, gesso pintado. 46 X 7,6 X 11,2 cm

Nas páginas 22-24 há uma difícil discussão sobre as mulheres de Giacometti, nos bustos de Diego e as suas pinturas. As pinturas seriam muito mais dificeis de situar e entender. Os bustos, por serem mais convencionais, seriam mais próximos. Quando as mulheres seriam mais deusas que mulheres

Chama atenção para o fato de serem pintadas, douradas ou prateadas. Isso na questão mais simples.

A discussão que me pareceu difícil é sobre as mulheres serem de corpo inteiro e Diego um busto. Logo Diego seria mais “socializado“. Depois de um braço, que suponho que é a escultura de um braço que Genet achava que não poderia “viver” sozinho e no entantonão conheço braços mais intensamente, masis expressivamente braço que aquele“.

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O EPISÓDIO DO VELHO SUJO E MALVADO NO TREM.

Alberto Giacometti, Nariz, 1947; versão 1949. bronze, fundição 1965

Uma conversa intolerável, um homem feio, muito sujo e mau . Para Jean Genet, as estátuas de Giacometti narram este homem. Giacometti reconhece, todos nós,  neste homem sórdido. Não bondade, mas reconhecimento.

Jean Genet, mais que Sartre, insiste no homem Giacometti, influenciando sua obra. “Recomeça a caminhar, mancando. Conta que ficou muito contente ao saber que a operação – depois do acidente – o deixaria mae nco. Por isso, vou arriscar o seguinte: suas estátuas me dão a sensação de se refugiarem, em última instância, no sei em que enfermidade secreta que lhes proporciona solidão“. p. 42.

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O CÃO DE BRONZE


O cachorrro de bronze de Giacometti é admirável. Era ainda mais bonito quando sua estranha matéria, gesso misturado com barbante ou estopa, desfiava‘.””Sou eu. um dia me via na rua assim. Um cão“.p. 38. Esta narrativa é a narrativa de uma múmia. No entanto Genet não o diz.

Jean Genet vê estes homens esquálidos na rua. Curvados sob o peso da vida cotidiana e dura. Mas principalmente curvados pela solidão.

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MAS A VIDA  PULSANTE SE IMPÕE PELA JANELA DO ÔNIBUS

Mas Jean Genet faz questão de pontilhar que não vê o mundo da mesma forma. Apesar de todo deslumbramento e entusiasmo com a obra de Giacometti,  de reconhecer que esta solidão é conhecimento, inatacável, este é termo que usa, da condição humana. Mas A cidade – feita solidão – seria admirável de vida, não fosse meu ônibus cruzar com um casal de namorados atravessando uma praça: eles se seguram pela cintura e a moça inventou esse gesto encantador, pôr e tirar a mãozinha do bolso de trás do blue-jeans do rapaz, gesto gracioso e afetado que vulgariza uma página inteira de obras-prima. p. 40.

A desolação que Sartre viu na obra de Giacometti, que Jean Genet chama de solidão, os dois chamam de distância, também é ausência, para mim, de vida. O pulso ainda pulsa, a frase manifesto de Arnaldo Antunes. Sexo é vida, a única propaganda verdadeira que conheço, incluindo as bulas de remédio.

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QUEM FOI FLORA MAYO.

[Cabeça de Mulher (Flora Mayo)], 1926. Gesso trabalhado com canivete e pintado. Giacometti, Ed. Cosac & Naify. Foto Google

Na exposição da Pinacoteca há uma única manifestação deste sexo-sexo. Do erotismo. Flora Mayo.

Giacometti escreve a Matisse: “Eu já não podia suportar uma escultura sem cor e, muitas vezes, tentei pintá-las de observação“. p. 144-145, Giacometti, ed. Cosac & Naify.

Sartre tratou da questão do traço, dos rabiscos de Giacometti. A cor abordada por Jean Genet: “Em meio a velhas garrafas de solvente, sua paleta dos últimos dias: uma poça de lama de vários tons de cinza.

Talvez, em 1926, a cor fosse Flara Mayo. “Arnold e Isabel Geissbuhler a descrevem: Ela era bonita, mas tinha algo de trágico e desequilibrado”. “muito bonita e muito louca”. p. 144 . Giacometti, ed. Cosac & Naify.

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S Sem legenda, (detalhe) foto da foto de Ernest Scheidegger

Uns olhos vazados, apenas as órbitas. Este elemento de terror e morte é uma influência direta da arte africana tradicional, quando estes olhos são uma maneira de contato com a morte e os ancestrais.

Esta fase africana que começa em 1927, tardiamente  comparando com Braque e Picasso, e que, para mim, o acompanhara, essencialmente, a obra inteira: as figuras alongadas, os olhos vazados, este homem geral/abstrato, características das suas esculturas, também presente em pinturas. Os enormes olhos, mas indistintos, com vazados. A sua fase mais abstratas, das mulheres colher, são referências claras aos utensílios cerimoniais. Tudo isso os textos de Sartre não tocam. E também o texto de Jean Genet.

Outra grande ausência do texto são as duas guerras.  Assim como fora em Sartre, mas em Genet com uma agravante que ele fala muito da vida do artista, cuja produção começa depois do horror da primeira guerra, amadurece diante do nazismo e da preparação da segunda guerra mundial. Por mais que Jean Genet, assim como Sartre, afirmem que este rosto, construído por Giacometti, não é histórico, não deixa, para mim, de ser um rosto do horror da condição humana. Que Jean Genet liga, o tempo todo, à morte, à solidão e Sartre à desolação. Isso é a narrativa da guerra.

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O DESENHO

“… Os traços não são utilizados como valor significativo, mas unicamente para dar significado ao Branco. Estão ali para dar forma e solidez ao branco...”. p. 67

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AS ESTÁTUAS:

Sempre a distância, mesmo se estiver muito próximas. Assim como Sartre já tinha abordado. E Jean Genet, neste texto, deixa claro que conversa o tempo todo com Sartre sobre Giacometti.

As mulheres, deusas.  Todo o corpo delas foram modelados mais “amorosamente” que o rosto. “Ao lado delas, como as estátuas de Rodin e de Maillol está prestes a arrotar e em seguida dormir!“. “As estátuas(as mulheres) de Giacometti velam um morto“. A morte é a metáfora dominante em Jean Genet.Parafraseando o título de Sartre: a morte sem sepultura.

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O RETRATO DE JEAN GENET

Giacometti, retrato de Jean Genet. fonte Google

GIACOMETTI-sartre

Eu teria o rosto mais para redondo e gordo“. Sartre anotou o mesmo, a flacidez.Ao contrário das esquálidas esculturas, as pinturas e desenhos de Giacometti tem robustez, mulheres inclusive com ancas largas, rosto cheios e redondos.  Seus rabiscos e garatujas fazem todos, homens e mulheres, ficarem com rostos parecidos. Nisso há aquele homem geral/abstrato. Um homem. E não este ou aquele homem.

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TRISTEZA, SOLIDÃO, DEFORMIDADE.

Diante de suas estátuas, um outro sentimento: são todas pessoas muito belas, contudo me parece que sua tristeza e solidão são comparáveis á tristeza e solidão de um homem disforme que, subitamente nu, veria exposta sua deformidade, ao mesmo tempo oferecida ao mundo para indicar sua solidão e sua glória. Inalteráveis“.

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COMO RECEBO A OBRA DE GIACOMETTI

Acima, neste  último parágrafo do texto acaba matando um pouco a ideia de movimento que Jean Genet afirmou em várias passagens. Se não há vida não há movimento. E experiência é experiência do corpo. A divisão socrática e cristã entre corpo e alma é a danação do homem.

Vejo estes homens e mulheres de Giacometti e penso no Quasímodo de Euclydes da Cunha. Frágeis, esquálidos, desengonçados, mas se transfiguram diante da luta e serão o fundamentos do futuro.

Quem sabem este homem morto esculturado por Giacometti, tão insuportável e doente, é o homem que deve desaparecer.

Acho, é uma obra que faz frente à glorificação estúpida do realismo stalinista. Por negar este horror stalinista teria valor inestimável. Mas ainda assim, acho que há uma grande dose de detratação do homem. Aquilo que o cristianismo fez, cultivando a morte e a dor. E é, acho, uma obra seminal para conhecer  plenamente este homem que deve desaparecer. Mas há um homem que dança, que ri, que festeja, um homem que bebe arco-íris. E este homem para mim é o homem do futuro. O afirmador da vida, até à última gota, até o máximo heroísmo.

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O GATO

Para encerrar vai aqui o gato que Jean Genet achou mais belo e expressivo que o Cão.