Meias de seda se esgarçando, de Mário Augusto Medeiros da Silva

22/10/2012

Ao som de Gato Barbieri, Last Tango in Paris.

Quando Alice foi embora? Eu não sei muito bem o que senti.
Eu escrevia, no meio da tarde, no meio da sala. Era um domingo. Ela apareceu do nada. Eu, inocentemente, perguntei se havia dormido bem, se estava se sentindo mais disposta. Ela a tudo respondeu que sim. Ambos sorrimos, porque sabíamos que, do contrário, iríamos nos ferir mais que há três horas atrás, quando tentáramos mais uma vez o amor e nada saíra como imagináramos. Nós éramos educados demais para falar a verdade, fosse ela qual fosse. Nós tínhamos nos tornado assim.
Alice, então, se sentou. Cruzou as pernas com a elegância que me fez prestar atenção nela desde aquela primeira vez, no metrô. Ela tinha um jeito infreqüente de cruzar suas pernas. Nada vulgar. Nada forçado. Cruzou suas pernas delicadamente, descrevendo um arco comedido pelo espaço. No metrô, ela vestia uma saia longa e preta, calçava sapatilhas de bailarina, pretas, com fivela por cima, deixando à vista apenas o peito dos pés, com suas veias, azuis esverdeadas. Gostava de notar seus pés e suas veias salientes. Ela sempre me dizia que sentia vergonha que olhassem suas pernas. Mas também gostava de me afirmar que não se sentira devassada pelo meu olhar, quando me notou no metrô. Eu teria sido elegante. Nós gostávamos de nos lembrar desse encontro. Foi esquisito mesmo.
Alice me disse que viu primeiro. Mas que me achara com uma expressão excessivamente séria. Ela não gostava de rostos que poderiam dissertar facilmente sobre vitrais franceses do século XVI. Essa era a sua anedota. Eu lhe perguntava se ela achava mesmo, desde a primeira vez, que eu poderia fazer isso. Alice sorria. Puxava delicadamente um cigarro de menta de seu estojo. Nunca se sabe, ela dizia. Mas desconfiara de mim, porque eu usava um sobretudo bege, com calça preta e tênis. Ah, e a camisa também era importante, ela sempre dizia. Camisa rolê. Mas o que ela mais gostava de frisar era o meu sobretudo bege, que não combinava com nada. E que tinha, às costas, uma foice e um martelo em vermelho, com a sigla U.R.S.S. Comunistas não devem se interessar por vitrais franceses do século XVI, Alice dizia. E, além do mais, era evidente que eu comprara aquilo num brechó, que não me importava com a opinião alheia, porque nada combinava com nada. Nós ríamos do seu acento em evidente.
Alice puxava agora o mesmo cigarro de menta. Ela me olhava doce e tristemente, na sala, a escrever mais alguns contos que ela gostava de ler, mesmo que achasse que nunca seriam publicados. Nós saltamos na mesma estação de metrô. Ela sempre se perguntava – e nós nunca confessamos – se realmente tínhamos de descer ali. Mas ela sempre dizia que gostou quando eu me desequilibrei com o tranco do trem, deixando cair o Cortázar que trazia debaixo do braço. Eu, ela dizia, de propósito teria me deixado cair, deixado cair Octaedro, perto de seus pés, junto com meus olhos. Pois eu não tinha cara de quem se desequilibrasse fácil no metrô ou que deixasse um livro cair ou que olhasse fácil para alguém. Eu era um homem sério, que sabia me segurar nas curvas, com amor aos livros e somente a eles. Alice me fazia rir.
Eu, então, lhe perguntava se ela ensaiara ou improvisara rapidamente – quanta diferença isso fazia? – ao pegar Octaedro, me devolver com um sorriso e um golpe de vista e desdenhar sorrateiramente, ponderando suas palavras, que O perseguidor superava todos os contos de Octaedro. Nesse momento, nossos olhos se fixaram.
Ela me achara um conquistador barato quando eu lhe disse que aquilo tudo era suspeito, considerando que entre nós havia um Manuscrito encontrado num bolso. Ela tinha entendido a senha. Mas não queria se deixar levar. Odiava cantadas intelectuais, confessou-me depois. Nós nos silenciamos. E eu nem havia agradecido por seu gesto.
Alice, agora, dizia, sentada no sofá: Vou partir. No metrô, sem que eu lhe perguntasse – mas ela me dizia que meus olhos queriam saber – ela anunciou que ia descer na próxima estação. Apressado, eu parei de escrever meu conto sobre uma velha senhora que trabalhava num cinema noturno e lhe perguntei o por quê. No metrô, eu lhe disse, sem pensar: aqui é onde eu saio também. Alice, nas duas situações, só apertou os lábios do jeito que sempre gostava de sorrir e me olhou por sobre os óculos.
Eu havia colocado Octaedro no bolso do sobretudo. Alice disse que desde o princípio vira meu bloco de notas no bolso do sobretudo. Mentira, eu dizia. Eu estava em crise naqueles dias, não conseguia escrever nada, nada, nada. Eu não levava o bloco. Aí, ela se saía com sua jogada triunfal: você tinha que ser escritor. Eu o imaginei assim. E os vitrais franceses, eu gargalhava? Ela, séria, dizia que tinha esquecido deles ao ver Octaedro e o meu sobretudo de brechó. E eu era um homem sério, que não combinava com nada, que gostava de olhar e não ser olhado, que não deveria ter muito dinheiro e que comprara meu livro num sebo, porque tinha aspecto velho, bem velho. Eu tinha que ser um escritor.
No começo, depois de fazermos amor, Alice gostava de tomar café. Em geral, eu saía primeiro da cama, para medir o pó e ligar o aparelho. Ela vinha depois. Não gostávamos de ficar abraçados ou de conversar logo depois de fazer o amor. Gostávamos de café e seu cheiro fresco. No metrô, foi ela que se virou e me disse: ei, estranho, quer tomar um expresso? Chorava de rir, contando aos nossos amigos, que eu fechei meu rosto como quem tivesse levado um soco no estômago e anunciei solenemente que, sim, dez minutos.
Sim, dez minutos. Alice, nesta parte, chorava de rir. Agora, no sofá, ela sorria, ela me olhava com seus grandes olhos negros, ela dizia: porque eu só quero te ver de vez em quando e não ao acordar de manhã.
Alice tinha uma memória espetacular. Ela me disse exatamente isso quando terminamos nosso café e combinamos, depois de três horas de uma conversa amena e interessante, de irmos dormir na minha casa, como se já tivéssemos acertado tudo.

***

Eu gosto das suas fotografias em sépia. Eu gosto de suas fotos de outono, em preto e branco. Gosto de seus bancos vazios, de suas folhas caindo, de becos e vielas com folhas dançando ao vento. Gosto dos seus velhos e garotos de rostos devastados. Gosto do seu Chet Baker, anos 80, no quadro da sala, quase rezando num solo. Gosto de sua forma de escrever sobre o filme. Gostei quando ela disse que meu rosto era um tormento.
Eu pedia a Alice que me ensinasse a fotografar. Ela ficava muito séria – mais do que jamais a vi – e respondia duramente: alguém te ensinou a escrever? Alguém te ensinou a respirar? Não me peça para ensinar coisas que eu não sei. Depois ela ria, ria muito, até me deixar constrangido e eu não sabia se eu ou ela havíamos dito algo insólito demais para ser repetido.
Cruzou as pernas como eu gosto de vê-las. Alice veste sapatilhas pretas de dançarina, com a fivela correndo pelo peito dos pés. Gosto de seus pés, Alice. Gosto mesmo. Escreveria páginas e mais páginas sobre as veias dos seus pés, sobre a sua saia ou o vestido. Sobre você vestida, tomando café. Sobre o movimento de sua boca. Sobre o arquear de suas sobrancelhas. Mas o que mais gosto em você é que não me acha idiota ou gargalha na minha cara quando eu te pergunto, antes de tomarmos café e depois de termos feito o amor, se você acha que é realmente possível representar som e fúria, cor e forma através de palavras, se você acredita no poder da palavra. Eu gosto de você, porque você passa olhos em revista por mim e me diz, simplesmente, que a tentativa é uma busca. E você continua a me passar os olhos em revista. Eu volto a olhar para o teto e pensar. Nós não dizemos mais nada, nada, nada até que sorvamos nossas xícaras de café. Alice, eu gosto da sua busca, amargada com o gosto do café.
Nós não estamos vivendo nada novo novamente, Alice. Parece ridículo.
Eu gosto de você, Alice, pelo seu rosto duro de um general em campo de batalha, pronto ao ataque, pronta a disparar pela objetiva a sua visão de mundo e discutí-la o tempo todo. Uma vez eu te perguntei se, nas suas fotografias, não era permitido representar velhos felizes. Você me golpeou sem me olhar: você acha realmente possível ser feliz aos noventa anos? Ninguém mais é inocente nesta idade. Para ser feliz aos oitenta, noventa deve-se ter causado a infelicidade de muita gente pelo caminho. Ou não ter vivido nada para não se deixar ser ferido.
Você vai me deixar, Alice?

Eu gosto de você porque você diz que nós temos e não temos opções. Gosto das inúmeras vezes em que nós discutíamos em alto e bom som numa mesa de bar, Alice. Que nossos amigos diziam que a gente só dava voltas para chegar no mesmo lugar e concordar. Que você dizia que eu ainda não tinha me livrado do meu ranço pequeno-burguês, que eu arrotava a revolução de plantão, permanentemente de guarda, sem mover um fio do meu pijama, que eu usava um sobretudo de brechó com o símbolo da U.R.S.S. E eu te dizia, Alice, tentando me defender, eu te dizia que não era possível, jamais, confiar em alguém que acreditasse em falsa consciência, que se achasse superior por dizer que existia uma verdadeira consciência dos fatos e da realidade e que um dia, um dia sim, todos a enxergariam, como alguns poucos sábios iluminados.
E quantas vezes nós não saímos da mesa do bar sem nos falar. E quantas vezes essas discussões inúteis não se repetiram, para se diluir no ralo do banheiro, numa chuveirada quente, numa noite silenciosa, escura e tensa, com Chet Baker enquadrado no canto da sala e o neon do prédio da frente machucando os olhos de quem dormiu na sala.
Alice, você vai me deixar?

***

Agora a gata não come mais a planta falsa que fica ao chão. Ela aprendeu.
Debaixo do seu sobretudo e óculos escuros, às seis da manhã na metrópole, cavando com os olhos o fato necessário para enviar ao jornal, você me dizia, Alice, sair de casa já é se aventurar. Sair da cama já é se aventurar. Só depois de muito tempo eu entendi o que você queria dizer.
Nós não estamos vivendo nada novo novamente.

Enquanto eu buscava os grandes fatos, o grande ato heróico e glorioso que iria redimir toda essa lama de civilização – ahahahaha, você se lembra quando eu realmente disse isso? – você focava anônimos. Eu demorei para entender. Alice. Sair de casa já é se aventurar. Você os focava ao acordar, com seus olhos ramelentos, trocando notas sebentas por uma média com pão e manteiga no bar. Quantos anos, hoje, Alice?
Lembra do lançamento do nosso livro? Cenas de um Quotidiano Singular. A gente ria, ria, ria e ria do crítico que arrotava o fato extraordinário de alguém ainda escrever a palavra com Q. A gente ria e ria debaixo do balcão da livraria dos nossos amigos impressionados, tristemente impressionados que o lançamento fora numa livraria pequena, numa rua lateral, com mendigos e catadores. Que nós fazíamos a cosmética da pobreza. Alice, tudo era mais engraçado antes. Que nós unimos soberbamente… foi essa a palavra mesmo que o jornal usou? Soberbamente foto e texto, duas linguagens numa só. À noite, comendo uma pizza, a gente ficou se perguntando o que exatamente aquele crítico iria querer de nós mais tarde, enquanto engordurávamos as paginas do livro meio calabresa, meio quatro queijos.

***

Eu acordo com o meu cachimbo pendurado no canto da boca, sem saber por quê. Eu acordo sem um tema, sem um problema. Eu não sei mais escrever. Eu saio às ruas e não vejo nada. Todos os dias se assemelham a domingos interioranos. Todos os domingos se parecem, todos os dias se parecem com a celebração de um funeral indigente, toda essa merda se acumulando entre as nossas peles, entre nossos órgãos, pulsando, pulsando, pulsando, pulsando, pulsando, fluxo fluindo fino, finalmente escorrendo escorraçado bidê abaixo. Ridículo, não, Alice? Se escrever for fazer aliterações e mais aliterações, se escrever for só isso, Alice, eu já não sei mais escrever. Se escrever for técnica, pura técnica, sem nem mesmo a ilusão de um ato exemplar, sem nem mesmo algo que justifique toda essa dúvida idiota que nos move, de que vale? Mais certo não ter dúvida. Mais certo estar crente de que se morrerá como se nem tivesse vivido.
Eu caminho pela avenida de nosso bairro, à cata de um tema. Vampirando existências que não vivo, descrevendo o que não sinto. Você sempre riu dos meus contos. Você dizia: Você faz algo que não consigo: dar charme ao risível, nobilitar o execrável. Como se tudo estivesse resolvido, você puxava sua máquina para o quarto escuro e me deixava ali, com um calhamaço de papel, reduzido ao escritor idiota que conferia charme ao risível e dignificava o execrável.
Você é a própria técnica, gostava de me dizer. Escrever é técnica, é a criação, é o convencimento, é a construção de uma parede sem tijolos que seja uma parede. Mas tem que ter algo mais. E é esse algo mais que eu perdi, junto com você, numa manhã por aí.

***

Pois muito bem. Agora, partir é a solução. Nem fácil, nem tortuoso. Nem nada. É só partir, como se nem tivesse começado. É só mais um domingo atravessado na garganta, que se engole rápido, esperando terminar. É só isso. Os atos exemplares, os grandes atos, se foram. Eu agora trabalho para o jornal, eu escrevo um texto curto por dia. Você me arranjou o emprego, quando eu estava na pior. Foi onde tudo degringolou? Não os chamo de crônicas, de contos, de cartas, de nada. São textos. Eu escrevo uma coluna, cinco parágrafos, cinco linhas, quinhentas palavras, dois mil caracteres bem batidos e sem erros ortográficos ou gramaticais, seguindo o manual do jornal. Sem qualquer tipo de ambigüidade ou dificuldade evidente. A técnica se faz soberba. A seção de cartas do jornal todo dia me elogia. Há algum tempo, um missivista me disse que guardava meus textos e que eles eram ensinados em escolas, para que os estudantes soubessem como e o quê era escrever. Meu editor fica feliz.
Tudo sempre começa com um erro, Alice. Sobre o quê eu escrevo, não importa. Falta tudo. Eu admito. Não há mais tempo para buscar e essa tentativa já se tornou um tanto ridícula. Acorde de manhã e se veja como realmente é. Acorde simplesmente, você disse. Depois de ter entrado em becos e vielas, ziguezagueado entre muros, caçando vida por aí. Você entra no local que procurava. Há música alta, as pessoas bebem e riem. As pessoas pulam ao seu redor. É capaz de um camarada lhe vir apertar a mão e dizer sente-se. Sente-se, meu senhor, sente-se. Você ficaria chocada. Ou então repentinamente, todos param, a música, as risadas, os cigarros. Os dançarinos, os putos no banheiro. Todo mundo pára e você não entende muito bem por quê. Sente-se, sente-se, meu senhor.
Você vai para casa com o ouvido ribombando. E novamente, de maneira repentina, o chuveiro cai na sua cabeça como um golpe de martelo. Você fica lá, deixando a água cair simplesmente. Se quente ou fria, não interessa. Paremos com o tom piegas. Você sai do banho, fecha o box, você está com frio, fecha a janela, porque pode entrar uma corrente de ar. Você pega a toalha e se enxuga rápido, porque não pode se resfriar. Você não quer se masturbar para não perder tempo e voltar a se sujar. E você só consegue pensar no texto em cinco parágrafos, quinhentas palavras, dois mil caracteres que tem de enviar logo pela manhã, se quiser continuar comendo alguma coisa que julga ser decente e fará bem ao seu estômago combalido.
Sente-se, sente-se, meu senhor. E, então, você está um velho.
E você sabe que não há mais tempo para buscar aquilo que você não viveu, que não está mais ao seu alcance. Seu texto, de soberbo, vira um amontoado de citações, de pistas para leitores que se julgam atentos e enigmas para as gerações mais novas. Os críticos comentaram. E, se forem honestos, te denunciarão. Mas não são. Nem podem ser. É a técnica, Alice. É o primado da técnica. Sente-se, sente-se, meu senhor.

***


Nunca soube finalizar bem nada. Aprendi com você. Fez ver que o feijão deve prevalecer sobre o sonho, que fricotes emocionais não caem bem quando o que importa é o preto no branco. Eu aprendi a lição, meu bem. Foi num dia, muitos meses atrás, havia sol e ventava. Você disse: Não dá mais. Não dá mais. Você repetia enlouquecida que alguma coisa não era mais possível. Eu não sabia o quê tinha medo de perguntar. Eu conhecia seus ataques e tinha medo deles. De repente você começou a me apontar e aos meus erros e ao ridículo e risível de ser quem eu sou. Foi feio, baixo e cretino. Mas teve um sentido. No final das contas, era impossível não enxergar. Foi feio, baixo e cretino. Estávamos andando pela calçada. Um rato passou por nós e me senti menos homem que ele. Eu aprendi a lição. Eu soube ali, naquele momento, que algo se partiu, se foi. E quando, talvez com pena, você se aproximou de mim dizendo algo Enfim, não é bem assim, nem sei se você vai entender que… Eu também não sei se… Ali naquele momento algo já tinha ido embora há muito tempo, para jamais voltar. Seja cínico, meu senhor. Seja cínico.

***

Eu gostaria de poder dizer que tenho uma doença terminal. Sim, uma doença. Sei lá, um câncer qualquer, que doa muito, que vá deixar você com pena, que vá deixar qualquer estranho na rua apiedado quando eu disser Tenho câncer, estou morrendo. Que vá fazer com que alguém me pegue pelo braço, e conduza a uma cadeira, me diga Quer algo, Quero, quero sim. Quero. Quero muito. E que eu balbucie apenas, fique assim. A pessoa pergunte Quando Aconteceu. Eu fique ali balbuciando, me babando de raiva ou de dor. Que sirva de consolo para mim ou para ela, que nós dois nos olhemos sem mais. E que um e outro sirva de consolo, de justificativas para as falhas alheias e não assumidas.
Seria fácil, não? Toda a minha culpa, todos os meus fracassos eu colocaria numa doença agônica. Seria bonito. As pessoas teriam dó de mim. Ninguém tem coragem de criticar um doente, mesmo sabendo que no fundo ele é também um chantagista. Todo mundo gosta de redimir o pecado de alguém. Quem não quer brincar de Deus, Pai, Partido? Mas não. Nada disso. Eu estou bem, muito bem, muito lúcido e de olhos bem abertos. E não sinto nada. Nada, nada, nada, nada. Ouviu, bem, Alice: nada. E eu já nem sei se a encontrei de fato num metrô um dia, se estava lendo Cortázar, se tinha um sobretudo com uma foice e um martelo… se essa é história que a gente quis contar para mostrar aos outros, ok somos legais, fomos legais, melhor que a média etc. se era você, se era eu, eu quero mais é que se foda. Alice, eu quero mais é que se dane. A culpa não é toda minha por tudo. Não pode ser. O câncer também alcançou você. E quer saber? Eu não lamento.

***

Você nem sabe mais reconhecer alguém interessante quando tem a chance. Vocês se cruzam, conversam vinte minutos como se fossem velhos amigos, futuros amantes. Vocês não deixam de olhar um no olho do outro. E e então você se levanta, diz que o seu ponto é o próximo e foi um prazer conhecer. Sente-se, sente-se meu senhor.
E então, Alice, você diz que vai partir. E tenho de confessar, não sei se rio, se choro, se chuto uma parede ou imploro para que fique, se anuncio para o mundo, abrindo a janela do nosso quarto, felicidades, canalha, você conseguiu, mais uma vez conseguiu. Ou se simplesmente te digo, como agora, tchau, boa sorte, seja feliz e se puder mande um cartão postal, o que importa é ter saúde. Volto para o meu texto, que pode ser uma crônica, um conto, prosa poética e mudo tudo, tudo, tudo dentro das cinco linhas, cinco parágrafos etc. para que caiba nossa despedida e suas meias de seda se esgarçando no cimento da sacada.

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A INFLUÊNCIA DO JORNAL DO PORÃO. Um balanço pelos cinco mil acessos.

24/10/2010

Mike Bongiorno. FENOMENOLOGIA DE MIKE BONGIORNO, de Umberto Eco. Este ensaio de 1961 foi publicado aqui no Jornal do Porão em 21 de fevereiro de 2009. Apesar de um longo ensaio para um blog é um dos textos mais lidos. Quando foi publicado em fevereiro de 2009, digite-o inteiro de um livro, pela indignação de ver a pobreza intelectual, o servilismo e as bobagens que ouvi de alguns professores do IFCH. Como por exemplo, diante da comemoração dos 50 anos do Teatro Oficina, certo professor de história dizer que “falei durante três aulas que o Zé Celso só quer chocar as pessoas”. Pior foi outro dizendo sobre o acervo do Teatro Oficina no Arquivo Edgard Leuenroth: “Aquela bicha…”. Nem pensava em Berlusconi, mas em professores do IFCH, arrivistas, carreiristas e especialistas em exercer seus poderes.

O texto mais lido, quase todas as semanas tem 4 ou 5 pessoas acessando-o, é o Jornal do Porão 4. É um Jornal que fala de Noel Rosa, de Chico Mendes e da Praça dos Trabalhadores. Mostrando a violência da pequenez dos políticos. São os próprios Mike Bogiornos.
Como colocar numa pracinha minúscula o nome de um dos maiores compositores e personalidade da cultura popular brasileira? Estudante de medicina que se liga, imediatamente, aos fundadores do samba. O samba tem várias vertentes, mas aquela que proliferou que tomou os rádios, e que tomou a país inteiro, foi arquitetada no Estácio. Noel Rosa logo vai ser parceiro de Ismael Silva, o grande do Estácio. E a antiga tripinha chamada Praça Chico Mendes cheia de lixo, tendo hoje uma desconhecida como nome oficial. Aqui Chico Mendes foi salvo da humilhação. E a praça dos trabalhadores então que nem existe, é um canteiro debaixo de uma ponte. E aqui neste Jornal do Porão ainda virá um artigo com fotos da Praça Tim Maia, um canteirizinho de terra batida e sujo. Os políticos são uns pobre-diabos.




Mário Medeiros contra a terceirização

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

Outro texto que todas as semanas têm leitores é “UMA SEGUNDA MORTE PARA CLÓVIS GARICA”, de Mário Augusto Medeiros da Silva. Como os leitores já sabem, Mário Medeiros já teve os dois contos mais lidos neste blog. “Meias de seda se esgarçando”, provocou 104 leitores num dia, um segundo lugar de leitores, pois Jornal do Porão número 4 teve 119 no dia em que foi lançado, em fevereiro de 2009. Mas seu “Membro Fantasma” será o terceiro texto mais lido do blog: 84 leitores no dia que foi lançado o conto. Mário Medeiros da Silva deixa de ser colaborador para se tornar uma co-autor do blog. Não posso deixar de citar a melhor frase escrita neste blog foi quando Mário Augusto Medeiros da Silva, escrevendo um artigo em defesa de Mário Martins, perseguido pelos Mike Bongiornos do IFCH, cunhou esta: “O ato de acochambrar pelo poder, alcoviltar, escorchar e tomar atitudes numa relação de desigualdade (chefe-subordinado) é o elogio da estupidez. O chefe que precisa usar da força – censurar, chamar em sala, beco, alcova, colocar no canto, ameaçar, impor-se pelo cargo – demonstra que a sua suposta autoridade não possui nenhuma legitimidade, para além do cargo institucional e do medo que inspira. Respeito, então, nem se fale. É um estúpido. Uma besta com polegares. É indigno de ser chamado de intelectual, de pensador. É o ato de um delinqüente acadêmico, de homem-dispositivo, na melhor acepção que deram a esses termos Maurício Tragtenberg e Franciso Foot Hardman.”
Em defesa do Jornal do Porão, de seu criador e de todos nós.
14/11/2009 IDÉIAS SE COMBATEM COM IDÉIAS.

Há textos no Jornal do Porão que não são originais, mas que são constantemente lidos. Mas são originais no sentido que foram escolhidos para serem editados aqui. E porque cumprem a função de criar o debate. Textos também esquecidos que entram novamente em circulação. O principal deles é “A Delinqüência Acadêmica”, de Maurício Tragtemberg. Sempre lido, mas ainda não lido suficientemente. É um texto de 1978, mas parece que fala de agora. E dentro desta questão da academia o texto fundamental é “Segunda Refundação”, de Marilena Chauí. Na verdade pouco lido, mesmo porque é um ensaio imenso. Texto escrito em 1994 e ainda não assimilado. O movimento estudantil, segundo minha leitura do texto, fala de uma Universidade que nem existe mais. E Marilena Chauí prova isso. Sem este texto, acho, falar de universidade é fazer um debate sobre o vazio, como se fôssemos fantasmas.

E um texto querido. É muito lido, mas eu queria que fosse mais e mais. “AMOR CRISTÃO”, de Marcelino Freire. É uma porrada nos bem pensantes e sentimentalóides. Assim como são os poemas de Roberto Piva que também são lidos, toda a semana tem pelo menos 1 leitor aqui no Jornal do Porão.




terceirização coletivo Miséria 004

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

Mas o Jornal do Porão vive um momento especial. Os desenhos de João da Silva. O coletivo Miséria e sua revista Miséria é algo único na Unicamp. Algo criativo, inventivo e que marcará época. Haverá uma época da Unicamp que, no futuro, falaremos da época da Revista Miséria. Que outra época a Unicamp tem? No futuro falaremos de um passado bem distinto, marcante. Convoco as pessoas a falarem destes momentos realmente marcantes e fundadores da Unicamp, se os houver.




churrasco Hélio (7)

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

O momento especialíssimo das contribuições de Mário Augusto Medeiros da Silva. Sempre presente no Jornal do Porão e sempre criando impacto e leitores. Mas alerto aos desatentos. Newton Perón eu recomendo. Minha leitura e releituras tem sido, constantemente, ir ilustrando os textos. Aos textos de Newton Perón eu tenho dedicado esta leitura ilustrativa, ALGUNS AINDA INÉDITOS, em comemoração aos 5 mil acessos ao Jornal do Porão. Tenho, acho, conseguido ponto alto. A conferir.

O Jornal do Porão nasceu para ser um jornaleco litero/político/jocoso. Tem sido. Mas sua vocação tem sido de ser uma revista de onde amigos dialogam e tentam influir, criando uma visão de mundo assentada na cultura, na luta contra opressão e toda espécie de moralismo pequeno-burguês ou carola. Tem avançado. Pois, como vimos, textos difíceis são lidos e relelidos.
Se perceberam há dois contos inéditos de Newton Peron, ainda agendadados para serem publicados, mas que podem ser lidos já. Mas para página ainda tem algo mais que é publicado hoje. Acessem o no Flicker album com algumas fotos de Josephine Baker, comentada no texto de Umberto Ecco, Mike Bongiorno.

E já ia me esquecendo de Mário Bortolotto e seu sempre lido, aqui, “Me gústan las muchachas putanas”. Que iniciou neste Jornal do Porão os textos contra o moralismo idiota. Este mesmo que não fosse lido por ninguém eu republicaria até para relelê-lo.

As fotos do Flickr são muito vistas através deste Jornal do Porão. As campeãs são as fotos da “Capoeira Angola”, desenhos de Carbé. Só na sexta-feira, 22 de outubro 2010, a página com os desenhos “capoeira angola, de Caribé” teve 9(nove) acessos.
Pretendo em todos os aniversários da primeira publicação destes textos republicá-los.
PS. Newton Peron, além de ser um formidável coloborador deste Jornal do Porão, no auge da perseguição dos “burocratas mortos” a este editor e a este jornal, Newtinho assumiu a edição deste. Portanto ele será sempre um dos editores deste jornaldoporao.

Alguns textos de Mário Augusto (Medeiros da Silva), neste blog.

Este blog, nos seus mais de 5 mil acessos, reafirma um dos seus eixos, que é a preocupação política cotidiana. Interviu. Incomodou. Mas há uma grande curiosidade e uma sociologia inteira do profressorado do IFHC. No primeiro semestre de 2009, 80 professores do IFHC, assinaram uma carta que termina de maneira arrogante diante do Reitor. Nesta carta que inicia dizendo que o ‘IFHC ESTÁ AGONIZANDO’ e na reunião que a votou diziam que não iniciariam o segundo semestre, pois era impossível continua sem enfrentar radicalmente o problema, pois em 2011 o IFCH FALIRIA. Hoje está carta só pode ser lida aqui. Nenhum professor a cita. O que mostra que todos os 80 são coniventes com a agonia do IFCH. Mais. Devem ganhar com isso. No album Flickr do Jornal do Porão você pode ver a reação e mobilização dos estudantes.Mas há muito gente atenta a esta carta, muito menos do que devia, mas toda semana, aqui no blog, ela tem pelo menos 3 leitores. A carta não dá para ser resumida. Cada parágrafo dela é um diagjnóstico profundo o IFHC, das Ciências Humanas relegada para último plano. Diante da covardia que os professeores demonstraram depois de assinarem a carta, me obrigo a lembram Nelson Rodrigues e seu complexo de vira-latas para definir a subserviência.

Veja Blog de João da Silva
Revista Miséria

Alguns textos do Jornal do Porão também foram publicados na Revista Iskra, uma revista teórica de Jovem marxistas traz artigos sobre a repressão as festas no IFCH e na Unicamp.

Um conto dos mais lidos, so de consulta pelo nome, foram 31 vezes em 2010. Um grande achado. O Arquivo, de Victor Giudice. Dizem que é o conto brasileiro mais publicado no mundo. 27 vezes.