Giacometti: repercussão na arte brasileira

27/07/2012

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Galeria

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Este post será constantemente atualizado.


Giacometti e a civilização africanas e outras civilizações

18/06/2012

Giacometti, Mulher Colher, 1927 (versão 1953), gesso

Esta influência das Artes Africanas, em Giacometti, está em toda sua obra. Há na exposição da Pinacoteca de São Paulo uma sala especial, mostrando que houve uma fase na sua obra, começando em 1927, onde esta influência era marcante, mas acho que é um influência que perdurou a vida toda. Mesmo porque, como diz Véronique Wiesinger (02), Giacometti fazia constantes “recuos”; e uma obra concebida no início da década de 30 seria executada, por exemplo, na década de 60.

Como podemos ver pelas reproduções aqui, Giacometti, não só sofre influência, ele reaproveita imagens vistas, quase que decalcadas. Gostaria de estudar como estas incorporações são feitas. Que novo significado adquirem. Que nova dimensão Giacometti deu, por exemplo, para máscaras e esculturas que circulavam na frança quase que como souvenirs. Aqui temos duas mulheres colheres quase idênticas: uma é arte moderna, a outra arte africana, chamada por alguns de folclórica.

Certamente isto já tem até um nome no vocabulário das artes, mas eu não sei. E quem souber mande-me. Todas estas nomeclaturas são muito chatas, mas as vezes ajudam a catalogar. Apesar que tem falas e textos que são só uma sucessão de jargões que nós dá impressão de estar lendo um diário oficial da Rússia stalinsita [que, curiosamente, repetiu a o cipoal burocrático do czarismo].

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Colher Cerimonial, Civilização DAN, Libéria
The Art of Africa, the Pacific Islands, and the Americas / The Metropolitan Museum of Art Bulletin

Esta publicação do The Metropolitan Museum of Art Bulletin (Fall, 1981), tem fantásticas reproduções em página inteira. Minha biblioteca parece um sebo. A cada arrumação uma surpresa.
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biblioteca Mário 000.003

 

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O NARIZ, 1947 (versão 1949), bronze, fundição 1965, Fundation Giacometti, Paris.

Isso que eu chamei de incorporação, e que não sei que nome tem no vocabulário da arte moderna, aparece a todo instante. Na exposição, diante do Nariz, de Giacometti, fiquei brincando que era Pinóquio revisitado. E fiquei intrigado até que me deparei com os homens “mosquitos”. Não sei se são apenas canadenses.

Mosquito Mask
Coast Tsimshian
British Columbia
Before 1925
Wood and paint
Canadian Museum of Civilization, VII-C-1188, CD98-20-015

tlingit-mask, anunciada por $400,000

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Esta aqui está à venda por $400,000 [ quatrocentos mil dólares]. Será o efeito do “reaproveitamento” do “folclore” na arte moderna? Não sei destes artefatos do Canadá, mas é sabido que na década de 20 e 30, máscaras e esculturas africanas eram vendidas como souvenirs em qualquer brechó. Pode ser a lei básica e elementar do capitalismo, a da oferta e procura. Um pista é que deve ter menos máscaras Tlingit em circulação do que africanas. O mundo a arte é um mundo do mercado capitalista: “Que produz e destrói coisas belas”, como cantou Caetano Veloso.

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Mosquito Mask, Papua Nova Guiné, Oceania

Mas aqui mesmo já começo a dar alguma resposta sobre os “mosquito mask” serem apenas canadenses. Há esta máscara de Papua Nova Guiné, na Oceania. Outra pergunta já pode ser respondida. Giacometti também desenhou e se influênciou pelas máscaras, totens da Oceania [e fez vários desenhos das máscaras e esculturas da Oceania, presentes na exposição da Pinacoteca].

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LINKS:

01.levantamento de dezenas (com centenas de fotos) de publicações sobre arte africana e ao final links
02 . para imagem do “mosquitos” CANADIAN MUSEUM OF CIVILIZATION

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BIBLIOGRAFIA

01. GIACOMETTI / organização Véronique Wiesinger/ vários tradutores / São Paulo: Cosac & Naify, 2012.

02 . The Art of Africa, The Pacific Islands, and the Americas /text by Douglas Newton / Photographys by Lee Boltin / The Metropolitan Museum of Art Bulletin (Fall, 1981)


GIACOMETTI por JEAN GENET.

11/06/2012

alberto-giacometti, fonte Google, certamente foto de Ernest Scheidegger

O ATELIÊ DE GIACOMETTI, por Jean Genet.
FOTOGRAFIAS DE Ernest Scheidegger.
As fotografias. Aqui, em livro, eu não canso de ver. Na exposição mais ou menos ignorei as fotografias lá expostas. Voltarei para conferir. Foi na foto da página 24 que pude conferir o que Sartre fala de Giacometti e seu rosto antediluviano, para adivinhar seu orgulho e sua vontade de situar-se no começo do mundo”.

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O Ateliê de Giacometti, de Jean Genet, contracapa. Ed. Cosac & Naify. Fotos de Ernest Scheidegger.

O livro é essencialmente um livro de fotos.

O texto é curto, mas cheio de considerações e assertivas. Quase impossível resumir o que já é quase um resumo de uma longa reflexão e de um longo contato de Jean Genet e Giacometti. Por isso, para facilitar, cito as frases que achei mais contundentes.

AS FRASES:
É a obra de Giacometti, creio, que torna nosso universo ainda mais insuprortável...”.p.12.”A beleza tem apenas uma origem: a ferida...”p.12.”Certas estátuas de Giacometti provocam em mim uma emoção bem próxima desse terror, e uma fascínio quase tão grande“.p.13.”Estão no fundo do tempo, na origem de tudo...”p.14. Assim como Sartre viu. A distância, “a distância entre mim e elas que não tinha notado, distância tão comprimida e reduzida a ponto de eu acreditá-las próximas…“p.14.”… toda obra de arte…deve…descer aos milênios, juntar-se, se possível, à noite imemorial povoada de mortos que irão se reconhecer nessa obra.”p.14-15. “Não, não, a obra de arte não se destina às novas gerações. Ela é ofertada ao inumerável povo dos mortos...”.p.15. “Ainda que presentes, onde estão essas figuras de Giacometti a que me refiro, se não na morte?”. p.15. “Suas estátuas parecem pertencer a uma era defunta”. p. 44. “Giacometti canta que certa vez teve a ideia de modelar uma estátua e enterrá-la...”.p.44. Cada Estátua parece recuar a – ou vir de – uma noite tão distante e espessa que se confunde com a morte...”.p.66

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CONVERSA DE JEAN GENET COM GIACOMETTI:

Giacometti fala a linguagem comum de um trabalhador braçal. “Ele fala áspero“. Emprega com frequência a palavra DESTRAMBELHADA. “Ele também é bastante destrambelhado“. Cabelos desgrenhados. Giacometti continua trabalhando. “Não o interesso nem um pouco“. p.18.

O POVO DOS MORTOS. “Ao povo dos mortos, a obra de Giacometti comunica o conhecimento da solidão de cada ser de de cada coisa..”. p. 21.

Alberto Giacometti, Os olhos. No livro/catálogo Giacometti, da Cosac & Naify o desenho tem fundo pardo. Este parece ter um fundo branco, o que atualizaria a teoria sobre o branco de Jean Genet, de que os traços serviriam para reforçar o branco, o espaço.

Este parece uma coisa de internet, para “melhorar” Giacometti. Coloco aqui para chamar ao cuidado e atenção.

A ABSTRAÇÃO: “…Quero dizer que se o conhecimento de um rosto pretende ser estético, deve recusar ser histórico“.p.22. Não é possível realmente, então, um retrato. Todo retrato é retrato de, Jean Genet, é de um homem em geral. Na verdade, sem rosto. Daí as garatujas e rabiscos. Ou flacidez de Sartre, a redondez, temida, de Jean Genet.

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A MULHER

Mulher em pé, c. 1961, gesso pintado. 46 X 7,6 X 11,2 cm

Nas páginas 22-24 há uma difícil discussão sobre as mulheres de Giacometti, nos bustos de Diego e as suas pinturas. As pinturas seriam muito mais dificeis de situar e entender. Os bustos, por serem mais convencionais, seriam mais próximos. Quando as mulheres seriam mais deusas que mulheres

Chama atenção para o fato de serem pintadas, douradas ou prateadas. Isso na questão mais simples.

A discussão que me pareceu difícil é sobre as mulheres serem de corpo inteiro e Diego um busto. Logo Diego seria mais “socializado“. Depois de um braço, que suponho que é a escultura de um braço que Genet achava que não poderia “viver” sozinho e no entantonão conheço braços mais intensamente, masis expressivamente braço que aquele“.

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O EPISÓDIO DO VELHO SUJO E MALVADO NO TREM.

Alberto Giacometti, Nariz, 1947; versão 1949. bronze, fundição 1965

Uma conversa intolerável, um homem feio, muito sujo e mau . Para Jean Genet, as estátuas de Giacometti narram este homem. Giacometti reconhece, todos nós,  neste homem sórdido. Não bondade, mas reconhecimento.

Jean Genet, mais que Sartre, insiste no homem Giacometti, influenciando sua obra. “Recomeça a caminhar, mancando. Conta que ficou muito contente ao saber que a operação – depois do acidente – o deixaria mae nco. Por isso, vou arriscar o seguinte: suas estátuas me dão a sensação de se refugiarem, em última instância, no sei em que enfermidade secreta que lhes proporciona solidão“. p. 42.

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O CÃO DE BRONZE


O cachorrro de bronze de Giacometti é admirável. Era ainda mais bonito quando sua estranha matéria, gesso misturado com barbante ou estopa, desfiava‘.””Sou eu. um dia me via na rua assim. Um cão“.p. 38. Esta narrativa é a narrativa de uma múmia. No entanto Genet não o diz.

Jean Genet vê estes homens esquálidos na rua. Curvados sob o peso da vida cotidiana e dura. Mas principalmente curvados pela solidão.

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MAS A VIDA  PULSANTE SE IMPÕE PELA JANELA DO ÔNIBUS

Mas Jean Genet faz questão de pontilhar que não vê o mundo da mesma forma. Apesar de todo deslumbramento e entusiasmo com a obra de Giacometti,  de reconhecer que esta solidão é conhecimento, inatacável, este é termo que usa, da condição humana. Mas A cidade – feita solidão – seria admirável de vida, não fosse meu ônibus cruzar com um casal de namorados atravessando uma praça: eles se seguram pela cintura e a moça inventou esse gesto encantador, pôr e tirar a mãozinha do bolso de trás do blue-jeans do rapaz, gesto gracioso e afetado que vulgariza uma página inteira de obras-prima. p. 40.

A desolação que Sartre viu na obra de Giacometti, que Jean Genet chama de solidão, os dois chamam de distância, também é ausência, para mim, de vida. O pulso ainda pulsa, a frase manifesto de Arnaldo Antunes. Sexo é vida, a única propaganda verdadeira que conheço, incluindo as bulas de remédio.

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QUEM FOI FLORA MAYO.

[Cabeça de Mulher (Flora Mayo)], 1926. Gesso trabalhado com canivete e pintado. Giacometti, Ed. Cosac & Naify. Foto Google

Na exposição da Pinacoteca há uma única manifestação deste sexo-sexo. Do erotismo. Flora Mayo.

Giacometti escreve a Matisse: “Eu já não podia suportar uma escultura sem cor e, muitas vezes, tentei pintá-las de observação“. p. 144-145, Giacometti, ed. Cosac & Naify.

Sartre tratou da questão do traço, dos rabiscos de Giacometti. A cor abordada por Jean Genet: “Em meio a velhas garrafas de solvente, sua paleta dos últimos dias: uma poça de lama de vários tons de cinza.

Talvez, em 1926, a cor fosse Flara Mayo. “Arnold e Isabel Geissbuhler a descrevem: Ela era bonita, mas tinha algo de trágico e desequilibrado”. “muito bonita e muito louca”. p. 144 . Giacometti, ed. Cosac & Naify.

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S Sem legenda, (detalhe) foto da foto de Ernest Scheidegger

Uns olhos vazados, apenas as órbitas. Este elemento de terror e morte é uma influência direta da arte africana tradicional, quando estes olhos são uma maneira de contato com a morte e os ancestrais.

Esta fase africana que começa em 1927, tardiamente  comparando com Braque e Picasso, e que, para mim, o acompanhara, essencialmente, a obra inteira: as figuras alongadas, os olhos vazados, este homem geral/abstrato, características das suas esculturas, também presente em pinturas. Os enormes olhos, mas indistintos, com vazados. A sua fase mais abstratas, das mulheres colher, são referências claras aos utensílios cerimoniais. Tudo isso os textos de Sartre não tocam. E também o texto de Jean Genet.

Outra grande ausência do texto são as duas guerras.  Assim como fora em Sartre, mas em Genet com uma agravante que ele fala muito da vida do artista, cuja produção começa depois do horror da primeira guerra, amadurece diante do nazismo e da preparação da segunda guerra mundial. Por mais que Jean Genet, assim como Sartre, afirmem que este rosto, construído por Giacometti, não é histórico, não deixa, para mim, de ser um rosto do horror da condição humana. Que Jean Genet liga, o tempo todo, à morte, à solidão e Sartre à desolação. Isso é a narrativa da guerra.

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O DESENHO

“… Os traços não são utilizados como valor significativo, mas unicamente para dar significado ao Branco. Estão ali para dar forma e solidez ao branco...”. p. 67

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AS ESTÁTUAS:

Sempre a distância, mesmo se estiver muito próximas. Assim como Sartre já tinha abordado. E Jean Genet, neste texto, deixa claro que conversa o tempo todo com Sartre sobre Giacometti.

As mulheres, deusas.  Todo o corpo delas foram modelados mais “amorosamente” que o rosto. “Ao lado delas, como as estátuas de Rodin e de Maillol está prestes a arrotar e em seguida dormir!“. “As estátuas(as mulheres) de Giacometti velam um morto“. A morte é a metáfora dominante em Jean Genet.Parafraseando o título de Sartre: a morte sem sepultura.

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O RETRATO DE JEAN GENET

Giacometti, retrato de Jean Genet. fonte Google

GIACOMETTI-sartre

Eu teria o rosto mais para redondo e gordo“. Sartre anotou o mesmo, a flacidez.Ao contrário das esquálidas esculturas, as pinturas e desenhos de Giacometti tem robustez, mulheres inclusive com ancas largas, rosto cheios e redondos.  Seus rabiscos e garatujas fazem todos, homens e mulheres, ficarem com rostos parecidos. Nisso há aquele homem geral/abstrato. Um homem. E não este ou aquele homem.

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TRISTEZA, SOLIDÃO, DEFORMIDADE.

Diante de suas estátuas, um outro sentimento: são todas pessoas muito belas, contudo me parece que sua tristeza e solidão são comparáveis á tristeza e solidão de um homem disforme que, subitamente nu, veria exposta sua deformidade, ao mesmo tempo oferecida ao mundo para indicar sua solidão e sua glória. Inalteráveis“.

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COMO RECEBO A OBRA DE GIACOMETTI

Acima, neste  último parágrafo do texto acaba matando um pouco a ideia de movimento que Jean Genet afirmou em várias passagens. Se não há vida não há movimento. E experiência é experiência do corpo. A divisão socrática e cristã entre corpo e alma é a danação do homem.

Vejo estes homens e mulheres de Giacometti e penso no Quasímodo de Euclydes da Cunha. Frágeis, esquálidos, desengonçados, mas se transfiguram diante da luta e serão o fundamentos do futuro.

Quem sabem este homem morto esculturado por Giacometti, tão insuportável e doente, é o homem que deve desaparecer.

Acho, é uma obra que faz frente à glorificação estúpida do realismo stalinista. Por negar este horror stalinista teria valor inestimável. Mas ainda assim, acho que há uma grande dose de detratação do homem. Aquilo que o cristianismo fez, cultivando a morte e a dor. E é, acho, uma obra seminal para conhecer  plenamente este homem que deve desaparecer. Mas há um homem que dança, que ri, que festeja, um homem que bebe arco-íris. E este homem para mim é o homem do futuro. O afirmador da vida, até à última gota, até o máximo heroísmo.

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O GATO

Para encerrar vai aqui o gato que Jean Genet achou mais belo e expressivo que o Cão.


GIACOMETTI por SARTRE

08/06/2012

Capa do livro Alberto Giacometti, textos de Jean-Paul Sartre, Ed. Martins Fontes.

foto da contracapa do livro Alberto Giacometti textos de Jean-Paul Sartre, ed. Martins fontes, 2012
“Não é preciso olhar por muito tempo o rosto antediluviano de Giacometti paa adivinhar seu orgulho e sua vontade de se situar no começo do mundo”. Sartre, A busca do Absoluto.

ALBERTO GIACOMETTI textos de JEAN-PAUL SARTRE

biblioteca Mário 000.005

Li o livro duas vezes. E aqui vou fazer uma leitura dos fragmentos. Como diz a introdção de Célia Euvaldo: “alguns dos mais belos textos sobre arte moderna foram escritos sobre a obra de Alberto Giacometti…, entre os quais os dois ensaios de Jean-Paul Sartre aqui apresentados”. p.7. Estou apostando em o “Ateliê de Giacometti”, de Jean Genet. É uma loa rasgada a Giacometti. Além de um prosa, quase “prosa porosa”, há várias referências filosóficas, de Hegel, Kant. E achei identificar várias referências, sem citação, de Nietzsche. ………………………………………………………………………………………………………………………………………………………….

SARTRE: AS PALAVRAS E O PERSONAGEM MARCEL

Da introdução de Célia Euvaldo.
É só clicar sobre as fotos para vê-las em tamanho maior e legíveis.

As-Palavras-Jean-Paul-Sartre, fonte google.
É a capa do meu exemplar. Ao contrário de amigos jovens, adoro capas de discos, de livros. Morrerei com meus discos e livros. Com toda esta inutilidade que acumulo.

Durante a década de 70 e 80 li e reli este texto que achava a maravilha de Sartre e a o estado de arte da autobiografia. Além de me ver no texto por ter também uma mãe bonita e assediada sexualmente. E um livro com frases maravilhosas como “não tive pai, não tive superego”. Faço estas referências usando minhas curta e traiçoeira memória. Não consegui achar o livro na minha abarrotada, desorganizada, empoeirada e cheia da livros B dos sebos, estante. Personagem é invenção. Sartre mesmo mostra que a obra de Giacometti é pura invenção da imaginação. No entanto a personagem Marcel de As Palavras vai causar tal ruptura entre Sartre e Giacometti. Incomoda e atrai esta fúria entre criadores. E o efeito que pode causar uma personagem de ficcção. Me lembro sempre que Jean-Claude Bernadett dedicou um livro de crítica de cinema a Antônio das Mortes, de Glauber Rocha. Dizem que é o único livro dedicado a uma personagem. …………………………………………………………………………………………………………………………………………..

página 13.

O ROSTO DE GIACOMETTI

“Só não julga pela aparência quem não sabe julgar”. É uma frase que vem, dizem, com a chancela de Oscar Wilde. Na extrema juventude da natureza e do homem não existe o belo e feio. Dezenas de estudantes de arte da Unicamp foram a uma assembléia de funcionários da Unicamp dizer que os atos públicos eram barulhentos e feios. Alguns deles vestiam camisetas com a estampa FEIA, do Festival do Instituto de Arte/Unicamp. Nem se deram conta.

fonte: Giacometti, Cosacnaify

pág. 16

Devemos cair no abismo de olhos abertos, foi assim que li Nietzsche. Onde? Tem uma amiga universitária que sempre quer saber onde li as coisas. Mas não leio para citar nem para guardar, mas para viver. Todo escrito só vale a pena se for escrito com sangue. Deve ser de Nietzsche também. ……………………………………………………………………………………………………………………………………….

pág. 17.

Capa do livro de Marcelino Freire, BaléRalé, Ateliê Editorial.
A referência da orelha do livro é: Os homens de Weerding, são chamados de “o casal gay mais antigo da Holanda”. Acerv Drents Museum

Fotomontagem: capa do livro BaléRalé e foto do livro Giacometti, da Cosacnaify.

ATAQUE AO INDIVIDUALISMO, APOLOGIA AO ASCETICISMO, em Sartre

Sartre discute se é uma visão de campos de concentração. Via Giacometti como um detrator do homem. Ainda vejo quando não vejo erotismo nem sexualidade. Sartre escreve também sobre Giacometti e as mulheres inatingíveis. Por acaso peguei no meu amontado de livro o BléRalé, de Marcelino Freire, ed. AE; e não canso de olhar para as duas múmias que não são nada mais que um objeto, sem arte, sem artista. Mas o homem abstrato, geral, também está ali. Mas me preocupa da redução de Sartre faz da arte apenas como representação deste homem geral, como um contraponto, ou mesmo ataque indiscriminado ao individualismo. E pode ir fácil ao ataque á própria arte que depende da liberdade individual ampla e irrestrita. Neste post cito um texto seu de 1948, mesmo ano do texto principal do livro em foco, que ataca o sonho, em arte, como traição do proletariado. Nietzsche foi o único filósofo que tinha pinto e nariz. Parece que as esculturas de Rodin e Degas tem sexo e dançam.Só acreditaria num deus se ele dançasse. Há também as eculturas e máscaras africanas, onde há o homem e não a figura do chefe (há algumas). Mas em geral são esculturas que traduzem uma visão do homem diante do mundo, dos ancestrais e dos deuses. Com grande valor estético e humano. Mas, parece-me, não invalidam as buscas “individualistas” da arte moderna e contemporânea.

Há bastração, deformações, alongamentos, desproporções, tudo em em busca de uma expressão, na arte africana. Mas suas máscaras alongadas e deformadas também são feitas para a dança. Suas deformações são para defender a vida contra a doença e a morte numa luta contra os próprios espíritos ancestrais. Ou há as esculturas de sexo com animais na Grécia que narram aquele homem e o homem de hoje com seu amor profundo pelos animais. E toda arte erótica de Picasso. Há o humano dilacerado que tomou a arte do século XX, mas não acho que é a única possibilidade do homem. Entre a vida e o abismo da morte , da violência e de Deus, há ainda a vida.

Há em Sartre uma apologia ao asceticismo da vida de Giacometti, asceticismo que teria invadido sua arte.

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REFLEXÕES SOBRE A ARTE AFRICANA

Sartre, Reflexões sobre o racismo, capa, Difusão Europeia do Livro.
“Se o proletariado branco raramente usa a linguagem poética para flar de seus sofrimentos…Ao mesmo tempo, a fase atual de seu combate exige, de sua parte, uma ação contínua e positiva: cálculo político, previsões exatas, disciplina, organização de massas; o sonho, no caso, seria traição.”. p. 92. “Entretanto se tais poemas nos dão vergonha…Aos negros é que estes negros se dirigem…porque é necessariamente através de uma experiência poética que o negro, na situação presente, deve primeiro tomar consciência de si mesmo…”p.91-92

Curiosamente, Sartre não aborda a questão das esculturas e máscaras africanas, também da oceania, que foram influências dominantes em Alberto Giacometti. Tem até uma fase chamada africana. Sartre escreveu um texto, Orfeu Negro, em 1948. Está então atento à questão da arte africana. Além do mais Picasso, Blaque, Brancusi e uma gama imensa de artistas vão ser influenciados por ela num período longo que vai do início do século até 1930. E Giacometti será, inclusive, tardiamente influenciado, lá pelo anos de 1927. Influência que permaneceu até o fim da vida. E parece-me que Giacometti foi amigo de Marcel Griaule, grande estudioso da civilização Dogon, de Mali, que em 1947 publicou livro fundamental sobre esta civilização, “Dieu d’eau”, primeira edição de 1947. E para ainda falar das esculturas e máscaras africanas, cito Roger Bastide que devo reler, já que foi de grande impacto, para mim, na década de 70. E parece que vai ser agora, quando relido. “Mas é preciso mostrar ianda que esses cultos não são um tecido de supertiçoes, que, pelo contrário, subtendem um cosmologia, uma psicologia e uma deodicéia; enfim, que o pensamento africano é um pensamento culto”. Pg. 24, Roger Bastide, O candomblé da Bahia, Cia. Das Letras,2001. Este texto, escrito em 1948, é aqui citado pelo motivo de Sartre deixar de lado a questão da fase (melhor ainda, permanência) africana em Giacometti. Cito também por ser de 1948, pois o texto principal de “Alberto Giacometti, textos de Jean-Paul Sartre, Ed. Martins Fontes, traz, “A Busca do Absoluto”, datado de 1948. E, relendo este “Orfeu Negro”, também de 1948 que tanto amei, reli e conversei sobre, chego até horror a certas passagens. Que o proletariado deve ser técnico e não pode ter sonhos e se os tivesse seria traição. Ou que a poesia negra, em língua francesa, seria a única arte revolucionária naquele momento. Absolve certa poesia de má qualidade em nome de uma ideologia e condena o proletariado a aridez totalitária

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O conceito de aparência é fundamental na discussão de arte de Nietzsche, assim como na sua filosofia que, jamais, é desassociada da arte. Pelo menos de ouvir falar, esta questão da aparência e da essência é uma discussão do existencialismo. E nesta citação há acordo com Nietzsche: a aparência é fundamental. …………………………………………………………………………………………………………………………………………….

“Alberto Giacometti”, textos de Sartre.
Impõe-se mais uma citação para remeter à arte africana. Esta cabeça distante e corpo próximo vai lembrar as bonecas da civilização Dogon.

Boneca DOGON, Mali.

FASE AFRICANA DE GIACOMETTI

A influência da arte africana em Giacometti eu pretendo fazer um post inteiro sobre a questão. Aqui apenas para ilustrar que Sartre deixou de abordar a questão em conceitos que, parece-me, estão presentes, ou mesmo são oriundos das civilizações africanas. ……………………………………………………………………………………………………………………………………………….

Desenho de Sartre, ilustração do livro.

Sartre, por Giacometti, ilustração do livro “Alberto Giacometti”, textos de Jean-Paul Sartre.

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Foto do caríssimo livro/catálogo da exposição. “Giacometti”, ed. Cosac & Naify

EXPOSIÇÃO NA PINACOTECA DO ESTADO DE SÃO PAULO.

Alberto Giacometti, homem caminhando, Gogole

Em Sartre, a palavra mais emblemática do seu texto, falando de Giacometti, é DESOLAÇÃO. Por dois dias, em longas horas na Pinacoteca, anotando todas as obras ali expostas, e sem ter lido os textos de Sartre, a palavra que mais usei foi DESOLAÇÃO. E foi a palavra para todas as pinturas. Mas aqui comecei a falar em destruição e morte. Chamou minha atenção que, Sartre, de passagem fala que a obra de Giacometti não se confunde com visões de campo de concentração. Mas seus dois textos, de 1948 e o outro, sobre a pintura, de 1954, não tem qualquer referência à segunda guerra e nem à primeira. Sartre não aborda e nem nega esta influência.

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O Ateliê de Giacometti, de Jean Genet, contracapa. Ed. Cosac & Naify

JEAN GENET, O Ateliê de Giacometti

Comecei a ler o texto de Jean Genet e parei no primeiro parágrafo, para poder terminar este aqui. A palavra chave de Jean Genet é morte.


A Falecida, Nelson Rodrigues

25/05/2013
Montagem de Marco Antônio Braz, SESI

Montagem de Marco Antônio Braz, SESI

“Outra decisão discutível foi, ao utilizar-se das saborosas rubricas de Nelson para enriquecer a narrativa, enunciá-las através de um novo personagem, o próprio autor, inexistente no original.”

LUIZ FERNANDO RAMOS CRÍTICO DA FOLHA

Estranhei essa presença desse personagem, “o próprio autor”, mas por uma vantagem da ignorância, gostei. Achei que fosse uma espécie de inovação do próprio Nelson Rodrigues. Outras pessoas que não viram outra montagem de A Falecida também gostaram. O que tem de ruim em incluir numa montagem, traindo o autor, ao “utilizar-se das saborosas rubricas de Nelson”? Torna a encenação mais lenta? Quebra algum ritmo? O crítico não diz.
Essa montagem traiu Nelson Rodrigues ao calcar no cômico? Um amigo disse na saída que era não só uma traição de Nelson Rodrigues, mas da concepção de tragédia e que isso é, hoje, comum, para agradar o público imbecilizado por comédias; e que Neslon Rodrigues detestava comédias e o público que procurava divertimento no teatro. Numa entrevista Nelson Rodrigues deixa claro este ódio. Mas não ao riso. Diz ele que o filme A Falecida, de Leon Hirszman era ruim por deixar de fora o humor. E o texto de Carlos Vogt e Berta Waldman: Nelson Rodrigeus, flor de obsessão, teoriza que é impossível fixar Nelson Rodrigues num estilo, ou mais, o estilo de Neslon Rodrigues é estar nesse fronteiriço, numa “estética do QUASE”.

estética do QUASE, conforme os autores. p. 62; Nelson Rodrigues, Flor de Obsessão, de Carlos Vogt e Berta Waldman

estética do QUASE, conforme os autores. p. 62; Nelson Rodrigues, Flor de Obsessão, de Carlos Vogt e Berta Waldman

O que me fez lembrar do inacabado, na garatuja na arte moderna (ver texto de Ferreira Gullar: Uma Estética do Assombro, em Marcello Grassman, Desenhos, do Intituto Moreira Salles ou, nesse blog, textos sobre Giacometti, Michelangelo Buonaroti ou em Cèzanne que disse: ““O acabado desperta a admiração dos imbecis”, escreve Cézanne à sua mãe, depois de 1874.”

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links

01. T E X TO D E “A FALECIDA”
02. Nelson Rodrigues perde força em montagem de ‘A Falecida’ LUIZ FERNANDO RAMOS CRÍTICO DA FOLHA”>Nelson Rodrigues perde força em montagem de ‘A Falecida’:LUIZ FERNANDO RAMOS:
CRÍTICO DA FOLHA
 
03. A Falecida de Nelson Rodrigues (Leon.Hirszman.1965).Cinema.Nacional

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Tempos de Ademir:

01. Ademir Marques de Menezes
02.O Carioca de 1946 ( Supercampeonato )
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pingback

01.ANJO NEGRO, Nelson Rodrigues
02. NELSON RODRIGUES, Flor de Obsesão.


Graffiti and Urban Art. Presença, Presente e lance.

18/11/2012

Priscila Salomão, um presente – e um sol na cabeça. Dia 17/11/2012, 60 anos do diretor deste jornaleco, com performance de 40 e desejos de 20. Priscila a personal agitadora cultural e outras bossas.

Graffiti and Urban Art: Cristian Campos:Editorial Projetct. Barcelona, Espain. Biblioteca Mário VII-073.200 C001g

Presente da pequena comemoração dos meus 60 anos. Presente, Priscila. E um presente, foi sua presença, Priscila. E de presente o que poderíamos chamar de um presente, um regalo, um iniciar de presentes cotidianos, comemorações diárias, pela abertura para novas descobertas – obrigado por este caro, já querido, e magnífico livro.       [Biblioteca Mário]

Suso 33, máscara

Priscila chegou mostrando essa página em que viu as máscaras africanas que nos causaram tanto impacto – e causa. Novamente intuiu. A obra chama-se máscara.

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Na primeira olhada o que mais impressionou foi SUSO33. Aproveitando os horrores da arquitetura urbana. Principalmente as ruínas e demolições. Este horror que parece provisório terá uma arte provisória. Quase que como se quiséssemos que as ruínas continuassem. Teria, se tivesse contato direto, uma espécie de saudade antecipada.

E Priscila já da a dica:Giacometti. Não é difícil ver nesta máscara de Suso a gaiola de Giacometti enquadra e dirige o olhar.

Á árvore, ao fundo, no cemitério – parece -, também é uma garatuja natural. Como são garatujadas as máscaras, como também podemos ver em Giacometti. [há algo semelhante nas “hachuras” de Toulouse-Lutrec – a estudar e conferir].

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Desavergonhada Utopia Socialista em forma de plataforma

Primeiro uma distopia: quando é que os socialistas vão reconhecer que a chamada história do socialismo real é uma história da inimizade dos socialistas com a arte. Há períodos que fazer arte na Rússia, que se chamava União Soviética, era um crime lesa estado. Põe-se, normalmente, tudo na conta do stalinismo brutal, ignorante e sanguinolento.  Mas eu não tenho provas de que o período bolchevique houve liberdade artística, como deve ser, total absoluta, anárquica.

Gostaria de ver um jornal “nanico”, chamados de operários e de jovens operários, adotar o graffiti, a arte de rua, nas suas imagens.  Uma arte gratuita. Fora do sistema. Inventiva. De intervenção e ação. Não é e nem deve ser a única arte, mas uma intervenção na vida urbana, melhor ainda, uma intervenção na vida. Que deve ser um único metro para medir as coisas. Tudo que representa morte é religião, é cristianismo, eu auto-flagelação, é asceticismo.

E a mais revolucionária, para mim, arte de rua, é exatamente a que não é propaganda política ou social, mas que intervém, pelo visual, a vida nefasta do capitalismo, com suas demolições, degradações, exclusões.

Suso 33 , ausencia. Mas que é antes de mais nada, presença do artista num lugar totalmente inóspito, inesperado, dando vida á destruição e morte que é uma face do capitalismo.

O luta para o socialismo tem que ganhar todos os artistas, do folclórico ao arte de vanguarda-de invenção.  Para isso o total anarquismo em arte. Total e absoluta tolerância.

Substituir os  jornais feios e maçudos da esquerda, por algo ligado a uma vida pulsante seria uma ato de vanguarda revolucionária.

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links

01. SUSO 33

02. google, imagens de Suso 33
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01. Alter e Memória, apontamento 01
02. Giacometti e a civilização africanas e outras civilizações
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novidade da semana

01.RENAUD GARCIA-FONS [procure no Grooveshark, especialmente por Poussière de Ksar ]. Procurando por violoncelo na música flamenca deparei com este contrabaixo (dauble bass).  Há 3 ou 4 dias que só ouço isso. E não me cansei.


CÉZANNE, de Philippe Sollers —————————————————- Eis a moça de nádegas carnudas! Como ela exibe bem em em meio ao prado Seu corpo flexível, esplêndido desabrochador! A serpente não é capaz de tanta sinuosidade, E o sol brilhando lança complascente(sic) Seus raios dourados sobre esta carne bela.

05/10/2012

Auto-retrato. Bibloteca Mário VII-072.030 C001g (1)


Durante semanas que li e anotei sobre Cézanne o fiz, o tempo todo, horas a fio, com  música de Jimi Hendrix.  O velho e  tocante blues, catapultado ao futuro pela guitarra mais inventiva que ouvi. Hoje, se confirma, Jimi Hendrix está à frente da indústria cultural que não o suportaria hoje.  E tão poderosa guitarra que nos faz rir de alegria diante do mais triste e arrasador blues. A tragédia pessoal que o acometeu parece apenas uma anedota diante de seus solos pulsantes. Vivificadores.

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Cézanne e Picasso. Qual é o tempo de Cézanne?

“É uma estranha experiência descobrir de repente que Cézanne não conduz necessariamente a Picasso, mas ao contrário, vem de novo depois dele. Um outro “antes”? Um outro “depois”? Uma desorientação da história da arte, tão arraigada a suas classificações, seus encadeamentos, suas casualidades mecânicas? Um outra pergunta da história? Cézanne como recusa do mito da modernidade, sem que possa de modo algum significar uma volta ao passado? Cézane não PASSANDO, mas tornando-se sem cessar o que ele foi? 

Qual é o TEMPO de Cézane?”.

O Paraíso de CÉZANNE, de Philippe Sollers . [ Biblioteca Mário]

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Essas anotações são estudos muito preliminares. Há afirmações,  como essa

“Na verdade, todas as árvores são de Cézanne, deveríamos chamá-las assim. Os pinheiros, sobretudo? Sim, mas também as outras árvores”,

precisam de uma capacidade de ver que não tenho. Consigo ver que são coisas totalmente criadas, como desejava Cézane, um natureza a Cézanne – sem poder ter total certeza disso, pelo meu incipiente conhecimento (além de tudo, o pouco conseguido é através de reproduções, pálidas ideias de pintura).  E fico querendo ver mais, e mais e mais. Mas Philippe Sollers adverte:

“Muito poucos indivíduos VÊEM. Isto é mais que estranho, mas é assim. Não devemos, portanto nos surpreender se o menor espetáculo tem, sobre a maioria, tanto efeito. As vociferações, os programas, o dinheiro, o circo, a televisão, o poder, isto é que é normal no que se poderia chamar de psicose narcísica endêmica do gênero humano”.

E Cézanne:

“Eu vos devo a verdade em pintura, e a direi”

Philippe Sollers:

“Então você verá que não vê. Poderá aprender que passa seu tempo sem querer ver nem saber”

Consigo ver sim que não são naturezas mortas, mas coisas bem vivas. E Philippe Sollers faz várias afirmações bastante categóricas que não tenho a menor condição de avaliar. Mas é evidente que não é um crítica bem comportada, facilmente aceitável. Cita, para abonar suas interpretações, Nietzsche, Heidegger, Rimbaud, Lautréamont e Ducasse. E desenca, em particular, Zola e, um pouco, Sartre e Camus.

Há em mim uma ansiedade para dominar esta discussão com todas estas leituras. Há angústia de só poder ver reproduções dos quadros. Mas, mesmo em reproduções, há a determinação de ver e ver. E diz Philippe Sollers que Cézanne achava a pintura mais forte que a vida e a morte. E queria morrer pintando,  o que de fato aconteceu.



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Cézanne não é contemporâneo de Zola, diz Philippe Sollers,  como  Zola quis retratar em L’OEUVRE. Obra que levou Cézanne a romper com o amigo de juventude. Ele volta ao passado, sem ser passadista, volta a  Delacroix e Coubert, para dar um salto, como afirma Philippe Solers, para além de Picasso. Picasso e Matisse  que endeusam Cézanne, à contracorrente da direita e da esquerda.

Mas são as mesmas questões colocadas para Michelangelo Buonarroti. Também recusa seu tempo. Volta ao passado dar um salto à frente. Me parece uma das grandes questões da arte este retorno ao passado para alçar voo ao futuro.

Isso parece um constante em grandes criadores, na pintura , que foram anotados em posts do jornaldoporao : El Greco, Michelangelo Caravaggio e Giacometti. Pretendo, breve, fazer um leitura do “ABC da Literatura”, de Ezra Pound que estuda isso em literatura.

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FREUD

Freud dividiu o homem em duas metades, como fez Platão. Metade desejo(Eros), metade Tanatos, ou a pulsão de morte. Para Phillipe Sollers o erro de Freud está na proporção, pois a pulsão de morte ocupada 99 por cento dos caminhos da humanidade, em velocidade crescente. O restante um porcento seria a pintura de Cézanne e outras realizações que afirmam a vida.

E Cézanne se coloca diante da questão: “Não seja crítico de arte! Faça pintura! Aí está a salvação!

“Eros, veja bem, você pode comtemplá-lo de imediato num das últimas telas de Cézanne, NATURE MORTE AVEC L’AMOUR EN PLÂTRE (“natureza morta”!), onde as cebolas dispensam qualquer comentário em face da pintura de uma moldagem – uma estátua de Puget – cheia de energia. Como introduzir a escultura NA pintura, um espaço em outro espaço, um tempo em outro tempo?

Quando, nos EUA,  um menino de 6 anos sai algemado da escola por ter beijado no rosto um colega de 8 anos. Quando a Academia de letras censura uma conferência do professor Jorge Coli, porque ilustrava a sua exposição com o quadro, Origem do Universo, de Courbet (um dos ídolos de Cézanne) e não temos reação quase nenhuma é que o diagnóstico de Philippe Sollers é aterradoramente verdadeiro:

“É finalmente surpreendente que Freud tenha acreditado que devia introduzir uma simetria entre o desejo erótico e a morte, Eros e Tânatos, recorrendo para isto à fábula platônica de uma unidade sexual dividida à procura de si mesma. Dois gêmeos eternos em luta um contra o outro? GÊMEOS, verdadeiramente? Opostos? Prosseguir nesta via diagnosticando uma doença na civilização ou futuro de uma ilusão era, de fato, o menos importante. Aliás, nós não estamos mais doentes disso, não, a catástrofe ocorreu, ganhou depois, se se pode dizer assim, velocidade de cruzeiro. Continuamos a pensar miticamente por complementaridade, mas a morte e pulsão não ocupam a “metade” da cena humana. Noventa e nove por cento? Isto parece mais exato. Este “um por cento” de Eros, veja bem, você pode comtemplá-lo de imediato numa das últimas telas de Cézanne, NATURE MORTE AVEC L’AMOUR EN PLÂTRE(“natureza morta”!)”.

 

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nota sobre o pequeno cupido

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Uma “natureza morta” explicitamente erótica, pelo que sugere a concha vivamente pintada de carmesim. E para o simbolismo “QUAL É O TEMPO DE CÉZANE?”, notar que o relógio não tem ponteiro. Neste La Pendule Noire (o relógio negro), este substitui a caveira como símbolo da morte. Mas a concha gigantesca simboliza a vida, ao lembrar explicitamente uma xoxota.

“…e ele é ERÓTICO em um por cento num mundo movido noventa e nove porcento pela vontade de esmagamento, de igualização e morte”. p. 35

<img class=” wp-image-5649 ” title=”Sucrier, Poires et Tasse Blue., 1863-1865, Musée Granet, Aix-en-Provence. Biblioteca Mário VII-071.004 B001c detalhe .Cézanne, Les Natures Mortes, Jean-Marie Baron e Pascal Bonafoux, ed. Herscher” alt=”” src=”https://jornaldoporao.files.wordpress.com/2012/09/biblioteca-mc3a1rio-vii-071-004-b001c-detalhe-3.jpg&#8221; width=”360″ height=”259″ /> Sucrier, poires et tasse bleue.” Como introduzir a escultura NA pintura, um espaço em outro espaço, um tempo em outro tempo?”, Philippe Sollers. Cores modeladas, em grossas camadas, pela epátula também é trazer a escultura para a tela.

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O INACABADO.

“O acabado desperta a admiração dos imbecis”,    escreve Cézanne à sua mãe, depois de 1874.

“Não devo procurar completar a não ser pelo prazer de fazer mais verdadeiro e o mais correto”:  Cézanne

A mulher de Cézanne: “Sabe, Cézane não sabia o que fazia. Não sabia como acabar seus quadros. Renoir e Monet, sim, estes conheciam seu métier de pintor”.

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Philippe Sollers, “O Paraíso de Cézanne:

“Diz-me o que saber ver num quadro e eu lhe direi se conhece verdadeiramente a poesia, toda a poesia”

Cézanne:

“A cor é um ponto em que nosso cérebro e o universo se encontram, eis por que ela se manifesta tão dramática no verdadeiro pintor”.

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Cézanne por Rilke

“Por que este pintor mais que os outros?

Mas é precisamente Rilke que nos responde, em outubro de 1907, em Paris. Ele VÊ Cézanne.

“A grande harmonia de cores da mulher na poltrona vermelha é, na minha lembrança, tão difícil de rememorar quanto um número de muitos algarismos. E, no entanto, guardei muito bem na memória um algarismo após outro. Em meu sentimento, a consciência de que esta harmonia existe transformou-se numa espécie de exaltação que experimento mesmo quando durmo; meu sangue a descreve em mim, mas as palavras passam ao lado em algum lugar, sem serem admitidas dentro de mim”

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“Voltar-se para o aberto”: afirmar a vida.

“Voltar-se para o aberto”?      (ou seja, a renúncia de ler “negativamente o que é”).      O que, para mim, é o mesmo que afirmar a vida.    “Sim, trata-se aqui, sem dúvida, de Rilke, poeta em tempo de desgraça, como Holderlin ou Rimbaud. Cézane é um pintor em tempo de desgraça. Ele pinta no mesmo tempo em que a paixão metafísica antimetafísica de Nietzsche. Ele é também um homem do mais fundo, do sem fundo, um explorador, plano por plano, do mais íntimo do coração, lá onde Pensamento e Memória, Pensamento e Reconhecimento, Pensamento e Sensação meditam juntos”.

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“o ver não se determina a partir do olho mas a partir da abertura do ser”. Heidegger

Phippe Sollers:  “Em qualquer momento a derrapagem é possível; cair-se na anedota, a visão de época e, finalmente, o preconceito, como esses ideólogos apressados de hoje que, quando se pronuncia o nome do único pensador à altura de nosso tempo, Heidegger,  respondem pavlovianamente, “nazista”, sem se dar conta do que gerou o nazismo”

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Une moderne Olympia(1873-1874)

“Olhamos UNE MODERNE OLYMPIA (1873-1874). Cézanne aceita o desafio de Manet: ele supera a situação exterior do observador de quadros, recusa a comtemplação fascinada ou aterrorizada da cena, ele puxa a cortina, intervém na cena, provoca erupção na sua própria visão movimentada e solitária. A OLYMPIA? Ela é minha e para mim…Não a divido com ninguém…” : Philippe Sollers, p. 62.

Poema de Cézane:

Eis a moça de nádegas carnudas!

Como ela exibe bem em em meio ao prado

Seu corpo flexível, esplêndido desabrochador!

A serpente não é capaz de tanta sinuosidade,

E o sol brilhando lança complascente(sic)

Seus raios dourados sobre esta carne bela.

Trad. Ferreira Gullar.

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correção: complascente é complacente.

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Cézanne e Rodin

<img class=”size-full wp-image-5694″ title=”Biblioteca Mário VII-071.004 R001o” alt=”” src=”https://jornaldoporao.files.wordpress.com/2012/10/biblioteca-mc3a1rio-vii-071-004-r001o.jpg&#8221; width=”450″ height=”285″ /> Rodin, Le Rêve (O sonho), 1899

Philippe Sollers faz um lista de detratores de Cézanne .   “Assim é este pintor ridicularizado ou insultado pela Direita; ignorado ou desprezado pela esquerda; tratado como fracassado por Zola e como imbecil por Breton; considerado como um Deus por Picasso e Matisse”. Também foi chamado de “degenerado, burguês decadente, esteta impotente, pequeno burgues reacionário, traidor dos valores”. Ver p. 55-56. E Zola ao escrever L’OEUVRE, queria no fundo qu Cézanne se matasse. E desde esta obra de Zola que os amigos que eram banhistas nus e amigos de juventude tornaram-se inimigos.

Nos detratores modernos lista Sartre e Camus.

Mas, lembrando-me do livro  “O Ateliê de Giacometti”, de Jean Genet [https://jornaldoporao.wordpress.com/2012/06/11/giacometti-por-jean-genet/] onde Genet diz:  

Quando anotei algumas passagens  dos  livros de Jean Genet e de Sartre sobre Giacometti, coloquei a questão importante para mim: que Giacometti retratatava um home desencantado e que Sartre e Genet flertavam com um certo desejo de morte e dor. A grandeza aterradora de Giacometti talvez esteja, usando o que diz Philippe Sollers da análise de Freud sobre o homem: talvez Giacometti retrate, ou melhor ainda, esculpe, um homem devastado pelo desejo de morte, ou seja, descreve os 99 por cento. Este homem de Giacometti seria então o homem derrotado.

As caveiras de Cézanne, para Philippe Sollers, não tem nada  a ver com a iconografia católica, dos santos que desprezam a vida, apesar de Cézanne se dizer católico.  E nem mesmo contém morbidez. Mas apenas retratam vida e morte, e pratica cores e cria objetos, assim como pinta laranjas e peras. Cita Cézanne que diz que é uma metafísica para sair da metafísica. Como seu desejo de morrer pintando, mas não um desejo de morrer ou de sacrifício, mas a alegria de ir até um fim no seu ofício de criar novas coisas. E foi assim que a tempestade o pegou nos bosques de Aix-an-Provence, aos 83 anos.

Biblioteca Mário VII-071.004 B001c

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O BANHO

Estas anotações já estão ficando longas demais, mas há uma discussão sobre se a obra é explicada por uma psicologia, pela vida de um artista. Mas que há influências que devem ser levantadas e que Philippe Soller, não partidário de um psicologismo, julga pertinente. Que é a história do banho:

“Ah, esta história do “banho”! Trata-se de uma fonte de juventude, de uma cerimônia purificadora, de um batismo? Claro, claro, e de muitas outras coisas mais. A pintura é um banho, ELA SE NADA. Qual diversão lhe agra mais? perguntaram a Cézanne. Resposta: a natação. Na pintura é preciso comportar-se como um peixe dentro d’água”.

E continua, agora com uma referência na mitologia grega que desconheço: “As BANHEUSES de Cézane são suas Vitórias, no sentido grego. Vitória como Victoire de Somothrace.” E não um mito cristão.  Anotado aqui para conferir e estudar, já que Philippe Sollers dá grande importância a esta comparação e pela recorrente pesquisa que Cézane faz sobre o tema “banhistas”.

Mas há outra afirmação que é preciso conferir e estudar.

“Não é proibido olhar de vez em quando o BAPTÊME DU CHRIST de Piero della Francesca e o GRAND BAIGNEUR de Cézane. Se você não percebe o que pretendo dizer, ão posso fazer muita coisa para ajudá-lo”

É um repto de Philippe Sollers. Uma provocação. Começar a dizer que são grandes pintores ou grandes pinturas nada acrescentará. Que banho e batismo são o mesmo tema,  o próprio autor já tinha levantado.

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Zola e Cézanne

o amigo de juventude que se tornou, no que lhe dizia respeito, odiosamente desprezível: Zola”.p.15

Zola, ao escrever L’Oeuvre, que no fundo que Cézanne se mate”.p. 20

“Vollard a Zola:

Você possui quadros de Cézanne?

Zola: Eu os havia escondido a casa de campo. Mas jamais os penduraria na parede da minha casa… Os quadros de Cézanne estão trancados ali naquele armário, longe dos olhares malvados. Não me peça que os tire de lá, pois me daria muita pena… Foi pensando nele que escrevi L’OEuvre. O público se apaixonou por esse livro mas Cézanne se manteve fechado. Nada mais poderá arrancá-lo de seus delírios: pouco a pouco, ele se afastará cada vez mais do mundo real”

“Zola, ex-banhista visto nu por Cézanne, sente tão bem o perigo físico (ou, mais exatamente, metafísico) que ele agrava o julgamento em 1896: “É preciso que se diga, nenhum grande pintor novo se revelou,nem um Ingres, um Delacroix, um Courbet”.

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A COR É O LUGAR ONDE NOSSO CÉREBRO E O UNIVERSO SE ENCONTRAM

Bold As Love
ANGER!

he smiles,
towering in shiny metallic purple armour
Queen Jealousy, envy waits behind him
Her fiery green gown sneers at the grassy ground

Blue are the life-giving waters taken for granted,
They quietly understand
Once happy turquoise armies lay opposite ready,
But wonder why the fight is on
But they’re all bold as love, yeah, they’re all bold as love
Yeah, they’re all bold as love
Just ask the axis

My red is so confident that he flashes trophies of war,
and ribbons of euphoria
Orange is young, full of daring,
But very unsteady for the first go round
My yellow in this case is not so mellow
In fact I’m trying to say it’s frigthened like me
And all these emotions of mine keep holding me from, eh,
Giving my life to a rainbow like you
But, I’m eh , yeah, I’m bold as love
Yeah, yeah
Well I’m bold, bold as love (hear me talking, girl)
I’m bold as love
Just ask the axis (he knows everything)
Yeah,
yeah,
yeah!

Valentes Como o Amor
Raiva!

Ele sorri,
Defendendo-se em uma armadura roxa brilhante e metálica
Rainha do ciúmes, a inveja espera atrás dele
Seu ardente vestido verde zomba sobre o chão gramado

Azuis são as águas revigorantes tomadas por certas,
Elas até que entendem
Uma vez felizes exércitos turquesa se situam opostos e prontos,
Mas imaginam a razão da luta acontecer
Mas eles todos são valentes como o amor, sim, eles todos são valentes como o amor
Sim, eles todos são valentes como o amor
Apenas pergunte ao áxis

Tradução do Google

VERSÃO INSTRUMENTAL DE BOLD AS LOVE

E foi em 20 de outubro que Marie Cézanne, a irmã do pintor, escreveu ao sobrinho:
“Teu pai está doente desde 2a. feira… Ele ficou exposto à chuva durante várias horas; trouxeram-no numa carreta de limpeza e foi preciso dois homens para pô-lo na cama. No dia seguinte, já de manhã, ele foi para o jardim trabalhar no retrato de Vallier sob o pé da tília; quando voltou estava morrendo. Você conhece seu pai; não preciso dizer mais nada….seu pai montou seu ateliê no quarto de vestir de sua mãe e não está disposto a sair de lá tão cedo…
“A mulher de Cézanne e seu filho chegaram depois da morte dele. Fala-se que Hortense partiu tarde demais para Aix por não querer desmarcar um encontro com sua modista. Cézanne, de qualquer modo, havia mudado definitivamente de ateliê.
Cézanne? Onde está?
Por toda parte e em parte alguma.
No fundo do jardim do Tempo, sob o pé de tília.” Philippe Sollers, junho de 1995
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01.https://jornaldoporao.wordpress.com/2012/08/25/i-o-inacabado-as-sobras-michelangelo-por-delacroix/
02. https://jornaldoporao.wordpress.com/2012/08/26/ii-o-inacabado-as-sobras-restos-geraldo-de-barros/
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I . O inacabado. As Sobras. Michelangelo por Delacroix

25/08/2012

“Felizmente existem os restos”

Geraldo de Barros

Apesar de se dizer, muitas vezes, essencialmente escultor, Michelangelo não deixou nem uma dúzia de escultura em 88 anos de vida.

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Estava acostumado a ver reproduções das pinturas de Michelangelo e efeito em mim era de fúria e violência.

Incorreções, falta de exatidão, exageros pra expressar o que já de mais extrema violência.

É o que me prende a Caravaggio e que parece ser influência direta de Michelangelo Buonarrotti sobre Michelangelo Caravaggio. A preferência em retratar meninos nus também é a mesma.

Vi neste neste Gênios da Pintura as esculturas “inacabadas” de Michelangelo. Foi um impacto de que não quero sair. Nem vou tentar descrever. De hoje em diante este é o meu Michelangelo.

Comprei o livrinho de Delacroix  na expectativa de encontrar nele a admiração pelas esculturas inacabadas de Michelangelo.  E vou continuar buscando pintores, escultores que exprimiram opiniões sobre esta obras “inacabadas” de Michelangelo. O livro de Delacroix é um apologia, cheia de adjetivos ,para saudar Michelangelo. Principalmente sobre sua personalidade. Sua personalidade impetuosa iria marcar sua obra.

“Ímpeto extraordinário que o fazia sempre deixar algo incompleto no mármore”

É um explicação que dá Delcroix para que Michelangelo deixasse obras inacabadas ou até, uma coisa difícil de aceitar, que Michelangelo, pelo sua impetuosidade, calculava mal e obra não cabia no mármore escolhido. Mas sem deixar de elogiar sua grandeza. Mas a grande obra que Delacroix elogia, em quase todo o livro, é a pintura do Juízo Final. E num aspecto que me interessa muitíssimo que é a deformação dos corpos.  Michelangelo deforma para expressar. O cristo do Juízo Final tem um torso que nenhum homem jamais teve o terá. É um aleijão extremamente expressivo. Como diz Delacroix, um torso de um Deus potente, rigoroso e cruel. Não é o Cristo comumente visto em outros pintores.

O Espírito arrojado e a invenção andam juntos em Michelangelo.

O Davi, a escultura de Michelangelo, tão elogiado pelos séculos afora, não me cativa tanto quanto as obras “inacabadas”. O que me importa hoje são estas obras inacabadas. Já fiz minha escolha.  Mas é interessante saber quais escolhas grandes artistas fazem. Em Delecroix achei três páginas bem interessantes. Não entendi o parágrafo que fala  das figuras dos escravos, apenas o tom é elogioso é evidente(p. 33).

“É um fragmento de gênio dos mais poéticos que já li”. Delacroix fala de Stendhal que escreve sobre Juízo Final de Michelangelo.

A nota final do livro de Delacroix remete à Stendhal para um “fragmento de gênio, dos mais poéticos e mais admiráveis que já li”, falando ainda do Juízo Final. Vou atrás. Mas gostaria que a “Histoire de la Peinture en Italie”, de Stendhal falasse das esculturas inacabadas de Michelangelo. Com mesmo intuito  adquiri  “Vida de Michelangelo Buonarrotti”, de Giorgio Vasari, ed. da Unicamp.

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01. Pintura. Deformações dos corpos: Alongamento dos corpos 1. El Greco.
02. Modigliani: “Eu agora possuo o orgasmo…”
03.Giacometti por Jean Genet
04. Giacometti por Sartre
05. CIVILIZAÇÕES AFRICANAS: Memória e Altar: apontamentos 01
06. CIVILIZAÇÕES AFRICANAS: “Memória e Altar”: Exposição da Coleção de Rogério Cerqueira Leite


El Greco: A luz – Arte é invenção e não realidade = Neoplatonismo

15/08/2012

El Greco, sob influência de Plotino:……………………………………….”Recusa o princípio de beleza como harmonia e afirma que a arte não é somente imitação da natureza“…………………………………………“.A beleza da cor é também forma”………………….. Foi com essas palavras que recusei, e ainda recuso, o realismo socialista………………………………………………………………………………….” Sem luz não há forma nem cor…………………………………, conforme o místico franciscano São Boaventura. Se tirarmos Deus da parada e colocarmos o sol, mesmo o deus sol, ou ainda a luz artificial,  tudo fica resolvido para um estética materialista.

“A estética medieval manifesta um grande interesse pelas cores vivas e luminosas“. Como não me lembrar da amarelo-ovo do Abapuru, de Tarsila ou da simbólica camisa amarela de Maiakóvsky.

[Ver as citações inteiras na Galeria de fotos no fim do post]

Oficina, Macumba Antropófaga, SESC-Campinas

Acabei de ver a encenação da Macumba Antropófaga, do Teatro Oficina. Havia um fogo no centro do picadeiro, se elevando bem alto, para marcar momentos emblemáticos de cada quadro da montagem. Inclusive pensei na hora na música serial de Stravisnky, uma música em blocos. Em cada bloco de Macumba Antropófaga o fogo era estimulado e resplandecia. Essa citação do tratado de pintura de Giovanni Paolo Lomazzo, publicado em 1548, presente na biblioteca de El Greco, me ajudou a entender a insistência do fogo na montagem de Zé Celso. “Porque a maior graça e vida que pode ter uma pintura é que expresse “movimento”(…)não há forma mais adequado pra expressar esse ‘movimento’ do que a chama do fogo (…) porque tem um cone ou extremidade aguda com a qual parece fender o ar“.

“Lomazzo também insiste na superioridade neoplatônica da expressão de uma ideia sobre a representação naturalista da realidade, recusando abertamente expressar a transcendência como se fosse natural ou mundano”.A arte moderna e contemporânea levou tal princípio para os próprios objetos.

Gombrich, E.H, Meditações sobre um Cavalinho de Pau, VII-071.001

Gombrich, no seu Meditações sobre um Cavalinho de Pau, em debate com André Malraux, no capítulo “André Malraux e a crise do Expressionismo” vai usar um citação de Malraux contra Malraux: com iluminação, arranjo e ênfase especiais em determinados detalhes, obras antigas de escultura adquirem muitas vezes um modernismo surpreendente, senão espúrio”.
Mas Gombrich contesta Malraux  que disse “que toda arte é criação dos últimos séculos, século sem Deus“. Ele está enganado diz Gombrich, pois no Purgatório de Dante dois artistas discutem o valor artístico de suas obras.

“Será necessário que o tempo melhore bastante, depois do terremoto expressionista, para poder reconstruir o Museu sobre esses alicerces mais modestos porém mais seguros”. Gombrich.

Apesar da veemência da condenação que Gombrich faz da visão que ele chama de “crise do expressionismo”, ficam perguntas. Se podemos ver, se vemos fora do contexto, modernismo na arte medieval, ou mesmo do pré-barroco de El Greco, como não ver inverter o argumento e ver que os modernos se assenhoram de procedimentos deste período da história da arte? E como já registramos noutros posts, o sabido procedimento dos modernos, como Picasso, Braque, Brancusi e Giacometti se apropriando da Arte Africana?
Se a pintura das cavernas, as máscaras e esculturas africanas, os ícones bizantinos ou os santos medieviais faziam parte de rituais religiosos ou místicos, há uma possibilidade de ver a arte moderna como um ritual pagão ou materialista? Pois é comum na arte moderna apelar para encenações e até mesmo mistérios e transe? Há mesmo artistas que declaram pintar como um ritual? E o que acho mais importante, procedimentos do passado da arte continuam tocando o fruidor moderno, nas representações do passado e nas apropriações contemporâneas. Talvez hajam coisas na humanidade que não mudaram tanto assim. Talvez haja uma força considerável em permanências, as vezes mais profundas que as mudanças. Como explicar que a Ilíada, obra de quase 3.000 anos, nos toque ainda tão profundamente?
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galeria


Pintura. Deformações dos corpos: Alongamento dos corpos 1. El Greco.

14/08/2012

El Greco (1541-1614).

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Biblioteca Mário, VII-070.031 .
Destes dois livros foram retirados citações e algumas reproduções para iniciar um estudo do fenômeno da deformação dos corpos ou, aqui, alongamento dos corpos. VER GALERIA.

Que efeito buscam os pintores, escultures e desenhistas  com a deformação dos corpos? Vimos, aqui, em Memória e Altar, que é constante na arte Africana, como se quisessem “enganar” os espíritos dos antepassados, forjando formas não realistas, quando as representações de animais eram bem realistas, provando que era uma escolha representar alongadamente, ou com outras deformações, a figura humana.
Debita-se mesmo à Arte Africana grande influência na arte do chamado ocidente, principalmente na arte moderna e contemporânea.

Folheando livros de arte ocidental podemos ver vários exemplos deste procedimento. Aqui no blog pretendo fazer uma recolha deste fenômeno, tentando entender, e sentir, estes efeitos.

Em Modigliani o alongamento dos corpos é dominante, tanto na pintura como na escultura. Nas figuras femininas, para mim, ajudou a destacar a sensualidade. Numa espécie de estranheza positiva, cativante. Como deformar pode tornar mais belo?

Em Giacometti o alongamento dos corpos provoca desolação, desencanto. Uma solidão, mesmo em suas florestas de figuras. Achei quase uma desumanização. E em El Greco, vai haver uma descarnação em relação à arte renascentista. Um descarnação, uma espiritualização que, para mim, vai dar em Giacometti.

Deformação dos corpos, El Greco (1). Mestre da Pintura, Abril Cultura, 1977. Biblioteca Mário, VII-070.001

A questão que se coloca é porque um procedimento que remonta à Arte Africana, muitas vezes chamada de folclore, e, no caso de El Grego, um retorno a formas arcaicas, bizantinas e medievais, vai estar presente, de maneira sistemática na arte moderna e contemporânea. Naquele momento, de Contra-Reforma católica, da Inquisição, em Toledo, centro da inquisição, os procedimentos estéticos, de retorno ao antigo, praticado por El Grego tem um conteúdo de inovação. É uma ruptura com as repetições nada criativa do maneirismo, estética que, vejam bem, colocava como mandamento a criatividade e era pura estagnação. Assim como a busca pela África vai arejar a arte moderna e contemporânea.

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SÓ ACREDITARIA NUM DEUS QUE DANÇASSE: NIETZSCHE.

Como acho que a música é a mais alta e importante atividade humana, procuro ligar os períodos da história à música. O mundo que quero conhecer tem que ter música ou não quero conhecer. Diferente da pintura, escultura ou desenho, cujas manifestações estão gravadas nas cavernas há 50 mil anos. A música que deixou registro começa no ocidente no século XI ou XII. Mas não é difícil imaginar que todos os povos, desde sempre, cantaram e dançaram. Todos os povos cantam e dançam. Me considero um aleijão, uma espécie de gabiru, por não conhecer tecnicamente música, nem tocar qualquer instrumento. E nem mesmo conseguir cantar. Portanto meu conhecimento será sempre precário, insuficiente, parcial.

A MÚSICA NO TEMPO DE EL GRECO

…………………………………………UM DOS INSTRUMENTOS MAIS PODEROSOS DA PROPAGANDA JESUÍTICA FOI A LITURGIA ROMANA………………………………………….escreve Otto Maria Carpeaux………………………………………..“o Officium defunctorum(1605), missa de réquiem e “orações de tumba”(seis vozes)…obra de solenidade sombria, e em certos momentos, de exaltação mística; é essa que já fez pensar no Entierro del conde Orgaz, de Domenico Theotocopuli el Greco”. Música de Victoria(Tomás Luís de)”.

Enterro do Conde de Orgaz, 1586-1588. Os dois planos é volta à pintura da Idade Média. Mas os rostos, destes aristocratas, com suas barbas pontiagudas permitem um alongamento dos rostos. os corpos são alongados, radicalizando este procedimento já estava presente até em Michelangelo. Mas os amarelos e pretos são cores berrantes e contrastantes, não tão convencionais ao maneirismo. Em meio ao conservadorismo a evolução e a mudança.

A Contra-Reforma católica, cuja ideologia El Greco tentava seguir, botava muita atenção à música. O Concílio de Trento, o Concílio da Contra-Reforma, tirou diretrizes severas para domar a música. Assim escreveu Otto Maria Carpeaux: “Mas na Igreja Católica colaboraram as artes plásticas as artes plásticas e a música para representar a verdade religiosa: de uma maneira que assombra os espíritos simples, eleva os de elite e confunde a todos”. E, para isso, “Quanto à música, trata-se de uma reforma não somente litúrgica, mas também musical”. A arte tomará seu curso e, mesmo com toda repressão da Santa Inquisição, terão músicos revolucionários e obras revolucionárias na pintura.

Aqui, para anotação e sentir um pouco a época – e sem música não dá para sentir, acho – vão dois momentos de músicas grandiosas. Um mais conservador outro já no caminho de mudanças dentro daquele ambiente de repressão e controle.

“Giovanni Gabrieli já um mestre pré-barroco. Antecipa fases posteriores da evolução da música. Algumas daquelas músicas podem ser executadas ad libitum…Os musicólogos têm dedicado estudo intenso a uma obra como a Sonata Piano e Forte, de Giavanni Gabrieli, obra puramente instrumental, na qual dois coros de vozes são substituídos por dois coros de trombonees. No seu tempo, Giavanni Gabrieli foi certamente um inovador revolucionário”. Otto Maria Carpeaux, História da Música. Lembrando que o Concílio de Trento cogitou proibir qualquer instrumento, pois só a voz humana poderia cantar a deus. Permitiu apenas como acompanhamento simples ou simples introdução. No entanto a arte seguiu seu curso…tortuoso

“Quando, em 1956, Igor Stravinsky regeu na basílica de San Marco, em Veneza, seu Canticum Sacrum ad honorem Sancti Marci nominis, a execução da obra moderna foi recedida pela de alguns coros de Andrea e Giovanni Gabrieli”.


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Visitação, 1607-1614. “”Nesse cotexto, é possível entender as características conscientemente subjetivas da pintura de El Greco não como traços visionários ou místicos, mas como fruto de idéias estéticas determinadas. Quer dizer, a definição de sue estilo obedece conceitos claros, e sua obra é mental com um componente expressionista que o pintor deixar transparecer deliberadamente, cada vez em maior medida, consciente de sua genialidade individual”. Gênios da Arte”, ed. Girassol.

MODERNIDADE… Parece a mim obra moderna. Me remeteu a muitos reproduções de modernos e contemporâneos que vi. Aqui mesmo neste blog reproduzi um quadro também “fantasmagórico” de Nolde, apesar de ser uma dança, mas parecia uma dança ritual e não um carnaval. Nolde me lembrou Stravinksy. Votarei sempre a essa reprodução de El Greco e também ao quadro de Nolde. Mais que conhecer correntes quero conhecer obras, não quero uma sociologia, mas um certo catálogo de meus gostos.
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Galeria de reproduções e texto

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links

01. Modigliani: “Eu agora possuo o orgasmo…”
02. GIACOMETTI por JEAN GENET.
03. Giacometti por Sartre
04. CIVILIZAÇÕES AFRICANAS: Memória e Altar: apontamentos 01
05. CIVILIZAÇÕES AFRICANAS: “Memória e Altar”: Exposição da Coleção de Rogério Cerqueira Leite
06.El Greco:” A tendência do pintor para alongar a figura humana, aprendida em Miguel Ângelo, mas também em Tintoretto e Paolo Veronese, e em pintores maneiristas vai caracterizar toda a sua pintura”.