Toda beleza das coisas nasceu da pintura: LEON BATTISTI ALBERTI

“Talvez não se encontre arte de algum valor que não tenha vínculo com a pintura, de tal forma que se pode dizer que toda beleza que se encontra nas coisas nasceu da Pintura

“O texto de Alberti que se vai ler é o primeiro, na literatura artística, a constituir a pintura como objeto de teoria e doutrina sistematizadas”: Leon Kossovithc na Apresentação de Da Pintura, de Alberti.

“Em que grau contribuiu a pintura para as justíssimas delícias do espírito e para a beleza das coisas pode-se ver não apenas de outras coisas, mas principalmente do seguinte: não se pode conceber nada tão precioso que não tenha se tornado muito mais caro e gracioso pela pintura. O marfim, as gemas e outras coisas caras do gênero tornam-se mais preciosos pela mão do artista.  Até o outro trabalhado com a arte da pintura se equipara a muito mais ouro não trabalhado. Até mesmo o chumbo, o mais barato dos metais, transformado em figura pelas mãos de Fídias ou Praxiteles será tido como mais valioso que a prata.”

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NÃO FOI O MERCADO CAPITALISTA DAS ARTES QUE SUPERVALORIZOU OS QUADROS, COMO COMUMENTE SE DIZ

“Zêuxis pôs-se a doar suas obras porque, como dizia, não podiam ser compradas. Pensava ele que era impossível achar um preço justo que satisfizesse a quem, figurando, pintando animais, se assemelhava quase a um deus”

VÁRIOS PINTORES RETRATARAM A LENDA DE ZÊUXIS

Francesco Solimena – Zeuxis and the Maidens of Croton

Edwin Longesden Long – The Chosen Five (Zeuxis at Crotona)

“Registram-se preços inacreditáveis de quadros pintados. O tebano Aristides vendeu uma só de suas pinturas por 100 talentos.”    (*)

“Dizem que Rodes não foi incendiada pelo rei Demétrio de medo que um quadro de Protógenes pudesse ser destruído. Podemos dizer aqui que a cidade de Rodes foi resgatada do inimigo por uma única pintura”

“Assim, esta arte proporciona prazer, aos que a praticam, e glória, riquezas e fama eternas, aos que nela são mestres”

(*) 100 TALENTOS:  por volta de 342 gramas de ouro, equivalente com o preço do ouro hoje, quase 50 mil reais. Ver tabela

 

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CIRCUNSCRIÇÃO, A ORLA, A LINHA

“A circunscrição nada mais é que o delineamento da orla, que se for feito com linha muito aparente, não indicará ser margem da superfície, mas uma fenda…Nenhuma composição e nenhuma recepção de luz se pode louvar onde não exista uma boa circunscrição;:Alberti

A casa do enforcado, Cézanne, 1872; 417 anos depois da questão colocada por Alberti.

A mesma questão na pintura de Cézanne parece ter solução diferente ( conforme “Cézanne, Grandes Mestres, Abril Coleções VII-072.060 Coo1g):   “Desapareceram também os contornos dos objetos, antes traçados com lápis ou carvão vegetal, abrindo espaço em alguns casos para linhas sutis sem pintura, que assinalam os limites entre os vários elementos”.

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A COR

Cézanne: “Não há senão um caminho para expressar totalmente, para o interpretar: a cor . A cor está viva: por si só torna viva as coisas”.  O texto do fascículo “A Grande Arte na Pintura” da editora Salvat comenta(VII-073.059 C001s): “Esta foi outra das grandes lições que os pintores do nosso tempo descobriram  na obra de Cézanne”

“Dizem que Zêuxis, pintor muito antigo e famoso, foi quase o príncipe dos pintores por conhecer a força da luz e da sombra”. Alberti, Da Pintura, 1435

“A luz tem força para variar as cores, ensinamos como uma mesma cor, de acordo com a luz que recebe, altera sua aparência”. Alberti

“Concordo que muito contribuem pra a graça e o prestígio da pintura a copiosidade e variedade das cores. Gostaria , porém, que os pintores doutos estivessem convencidos de que o ponto mais alto da competência e da arte está em saber usar o branco e o preto…”Alberti

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“arte agradável aos doutos e indoutos”

“Quanto a mim considero o deleite da pintura como o melhor indício do mais perfeito engenho, embora ocorra que essa arte seja agradável tanto aos doutos quanto aos indoutos.  Em qualquer outra arte raramente acontece  que agrada ao experiente possa comover o inexperiente, nem é frequente encontrar quem não deseje grandemente ser versado em pintura”
“inúmeros cidadãos romanos ensinavam aos filhos a pintura, ao lado das práticas para viver bem e feliz. Esse excelente costume era bem mantido pelos gregos. Eles queriam que seus filhos, bem instruídos, aprendessem a pintura, lado a lado com a geometria e a música. Até mesmo para as mulheres era um honra saber pintar. Márcia, filha de Varrão, é louvada pleos escritores porque sabia pintar”.
“E tal foi a honra e o prestígio da pintura entre os gregos que foi promulgado, por edito e lei, que aos escravos fosse proibido aprendera  pintar”

Da Pintura, Alberti.

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UM SÉCULO DEPOIS DO LIVRO DE ALBERTI. PINTURA PARA INFUNDIR TEMOR E TERROR.

bosch – cristo carregando a cruz

Sabemos que a Igreja Católica usou a pintura para doutrinar e infundir terror aos analfabetos.  Assim foi a indescritível pintura de Hieronimus Bosch.

O movimento barroco foi um subproduto da luta da igreja católica, através da chamada contra-reforma, na sua luta contra a reforma protestante. O Concíilo de Trento propõe aumentar as imagens em reposta aos protestantes que as abolia.  El Grego, grande inovador da pintura, era amigo de inquisidores espanhóis e ele mesmo partidário da contra-reforma. Todo este reacionarismo não impediu que fosse um grande inovador da pintura.
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O inacabado

Alberti, em Da Pintura, 1435, já encontrava lugar para o inacabado na pintura, mesmo que louvando o realismo e a perfeição entre o a representação e o representado.

“Tenho visto alguns pintores, escultores e mesmo retóricos ou poetas – se é que em nossa época se encontrem retóricos e poetas – entregarem-se com empenho ardente a uma obra; posteriormente, esfriado o ardor do engenho, deixam a obra inacabada e tosca e com nova paixão se dão a novas coisas. Eu não tenho dúvida em criticá-los. Todo aquele que deseja que suas coisas sejam agradáveis e aceitas pela posteridade deve primeiramente refletir com cuidado sobre o que tem a fazer e, depois, torná-lo bem-acabado;mas deve-se evitar o escrúpulo daqueles que querem que em tudo não haja nenhum defeito e que tudo seja polido demais. Nas suas mãos a obra se torna velha e desgastada antes de terminada. “Da pintura, Alberti

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Da apresentação de Leon Kossovitch ao livro Da Pintura de Leon Battisti Alberti.

 

APRESENTANDO O LIVRO I DE “Da Pintura”:

“O texto de Alberti… é o primeiro, na literatura artística, a constituir a pintura como objeto de teoria e doutrina”

“Alberti monta seu discurso com geometria e retórica (e poética), instruindo aprendiz distinto do dos autores precedentes, pois familiarizado com artes liberais. Problematizador apesar de didático, o DA PINTURA, como referência da investigação de pintores posteriores (muito de Leonardo dele deriva) e como gênero discursivo (a tratadística do XVI o pressupõe), singulariza-se na história das teorias da pintura…”

…”A geometria de base euclidiana, exposta nas definições elementares e operante na análise da perspectiva, é, todavia, superada por noções tiradas da óptica, porquanto é a visão, no texto, a interessada…”

…”DA PINTURA não se deseja matemático por inteiro: não é obra  de geômetra escrita para geômetra, mas, de pintor, para pintores… Por isso, após a sucessão de definições geométricas, como ponto, linha, etc., a superfície, também assim definida, dirige a análise em outro sentido: distinguindo , por um lado, as qualidades permanentes, que constituem a superfície como tal, independente do olhar, a saber, as linhas e os ângulos …”

“…As superfícies variam com o lugar e a luz, cuja consideração extrapola a geometria…”

“… Implícitos na visão, lugar e luz delineiam dois  dos principais temas do escrito, a perspectiva e a recepção de luzes, respectivamente…”

“A superfície também varia com a luz, tema aflorado nos “rudimentos”, tratá-se da análise gtdos efeitos luminosos na superfície colorida: na sombra a cor fica escura e, na luz, clara…  Luz e sombra pensam a cor, que em si mesma é pouco analisada…”

“Geradoras das mutáveis, as quatro cores são gêneros, e as misturadas, espécies. A verdade das geradoras está em sua correspondência com os quatro elementos (fogo=vermelho, ar=azul, água=verde, terra=cinzento ou pardo)…”

“…No que se refere às cores, são elas pouco desenvolvidas em Alberti, assim como nos autores do século XVI em geral; a cor torna-se objeto de discussão apenas a partir de meados do século XVI veneziano. No Quatrocentos, ela está subordinada ao desenho e ao claro-escuro…”

APRSENTANDO O LIVRO II DE “DA PINTURA”:

“DA PINTURA: ela participa do movimento que expele as referencias cristãs (centrias em Teófilo, Dionísio ou Cennini) em benefício das humanistas…”

“…A arquitetura tira da pintura os ornamentos, no que é acompanhada por outras artes que também têm nela modelo…”

“…a pintura supera a escultura em razão da dificuldade de sue objeto; esta superioridade comporta riscos, pois os defeitos são comuns na pintura e raros na escultura…”

“Desenho e véu estendem-se à composição. Esta noção complexa, excede-os. A composição de partes não trata apenas de superfícies, pois, abrangente, abarca a “história”, o mais elevado dos objetos do pintor. Conceito central, a história, a narração…”

“… a poesia e a pintura. Narrativa, esta determina por propriedade do discurso do poeta e do orador (por isso, aliás, Alberti exorta o pintor a frequentá-los…”

“A história, figurada como cena, é homóloga ao discurso do orador, que, instruindo, agrada e comove o ouvinte…”

“…faz o espectador pensar estar vendo mais do que vê (a recepção pauta-se pela retórica, pois introduz o tema do excedente, do significar-se mais do que se  significa…”, [tendo em conta que Alberti, em todo livro III propõe a imitação da natureza, mas vê-se, que não esquece a distorção para significar, assim como não esquecera do inacabado, quando fala da perfeição]”.

“Comover difere de agradar… A conveniência das partes do corpo para a figuração exata das afecções é difícil, propondo Alberti preceitos para a determinação do efeito visado…”

“… o triste é lento, tem membros pálidos e malseguros, enquanto o melancólico tem testa franzida, cabeça lânguida, membros caídos e descuidados…”

“Os movimentos do corpo são extensamente analisados, pois agradáveis como poses e comoventes expressivos dos sentimentos da alma…”

“…Além dos movimentos dos seres animados (há-os de animais…), os dos seres inanimados detêm Alberti, pois estes participam nas cenas: na figura humana os cabelos e panos movem-se dignamente e, não sendo admitido inverossímel na figuração, de tal movimento representa-se a causa, vento, que, suplementarmente, desnuda as partes belas dos corpos. O Vento está assim figurado no Nascimento de Vênus, de Boticelli.

botticelli, nascimento de vênus

“A terceira parte da pintura, recepção de luzes, conclui o Livro II. dois efeitos da luz são analisados. como se viu, a luz e a sombra, expressas por branco e preto, estendem as quatro cores elementares e, copiosas variadas, suas espécies [misturas]  repropõem, aqui, o ornato. Todavia, o efeito mais louvado, a “maravilha” da Antiguidade, está no relevo, produzido pelo suso parcimonioso do branco e do preto: fingindo escultura, o relevo vence a bidimensionalidade do suprote, fazendo o rosto saltar à sua frente. Tal ilusionismo também é referido à perspectiva, que aprofunda o olhar…”

APRESENTANDO O LIVRO III DE “DA PINTURA”:

Chiaroscuro-Da Vinci

“No “pintor”, Alberti avança pelo ofício e pela conduta. Reinterpreta as partes da pintura, tendo em vista a execução: retomando o fim do Livro II, faz o pintor descrever com linhas e pintar com cores as superfícies dos corpos em tábua ou paredes; seguindo as regras da perspectiva, ele figura o relevo, tornando as superfícies semelhantes aos corpos. Com o claro-escuro, o pintor imita a natureza e, assim, instrui, comove e agrada o espectador…”

O Baglione na tela “Amor sagrado frente ao Amor profano”

Caravaggio-Amore vincitore

 

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o autor, retirado do texto de  Cecil Grayson

alberti-leon-battista

Leon Battisti Alberti nasceu em Gênova em 14 de fevereiro de 1404.  Alberti escreveu várias obras literárias, antes e depois de Da Pintura.  Escreveu elegias e églogas e prosa amatória, narrativas de viagem. E provavelmente verteu para o italiano, em versão livre, Dissuasio Valerii ne uxorem ducat, de Walter Map, “expressão extremada de uma misoginia que ocorre com freqüência, a seguir, nas obras de Alberti”. “…É difícil datar as obras em italiano, quase todas amorosas, notáveis pela variedade de forma (sonetos, sextilhas, baladas, madrigais, frottole, églogas), pelo vigor da linguagem e força de expressão, de tal modo que hoje Alberti é reconhecido como um dos mais importantes inovadores do Quatrocento nesse campo.”

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links

Leon Battista Alberti (1404-1472)- Da pintura(1435) – Richard John

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