GIACOMETTI por JEAN GENET.

alberto-giacometti, fonte Google, certamente foto de Ernest Scheidegger

O ATELIÊ DE GIACOMETTI, por Jean Genet.
FOTOGRAFIAS DE Ernest Scheidegger.
As fotografias. Aqui, em livro, eu não canso de ver. Na exposição mais ou menos ignorei as fotografias lá expostas. Voltarei para conferir. Foi na foto da página 24 que pude conferir o que Sartre fala de Giacometti e seu rosto antediluviano, para adivinhar seu orgulho e sua vontade de situar-se no começo do mundo”.

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biblioteca Mário 000.004

 

 

 

O Ateliê de Giacometti, de Jean Genet, contracapa. Ed. Cosac & Naify. Fotos de Ernest Scheidegger.

O livro é essencialmente um livro de fotos.

O texto é curto, mas cheio de considerações e assertivas. Quase impossível resumir o que já é quase um resumo de uma longa reflexão e de um longo contato de Jean Genet e Giacometti. Por isso, para facilitar, cito as frases que achei mais contundentes.

AS FRASES:
É a obra de Giacometti, creio, que torna nosso universo ainda mais insuprortável...”.p.12.”A beleza tem apenas uma origem: a ferida...”p.12.”Certas estátuas de Giacometti provocam em mim uma emoção bem próxima desse terror, e uma fascínio quase tão grande“.p.13.”Estão no fundo do tempo, na origem de tudo...”p.14. Assim como Sartre viu. A distância, “a distância entre mim e elas que não tinha notado, distância tão comprimida e reduzida a ponto de eu acreditá-las próximas…“p.14.”… toda obra de arte…deve…descer aos milênios, juntar-se, se possível, à noite imemorial povoada de mortos que irão se reconhecer nessa obra.”p.14-15. “Não, não, a obra de arte não se destina às novas gerações. Ela é ofertada ao inumerável povo dos mortos...”.p.15. “Ainda que presentes, onde estão essas figuras de Giacometti a que me refiro, se não na morte?”. p.15. “Suas estátuas parecem pertencer a uma era defunta”. p. 44. “Giacometti canta que certa vez teve a ideia de modelar uma estátua e enterrá-la...”.p.44. Cada Estátua parece recuar a – ou vir de – uma noite tão distante e espessa que se confunde com a morte...”.p.66

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CONVERSA DE JEAN GENET COM GIACOMETTI:

Giacometti fala a linguagem comum de um trabalhador braçal. “Ele fala áspero“. Emprega com frequência a palavra DESTRAMBELHADA. “Ele também é bastante destrambelhado“. Cabelos desgrenhados. Giacometti continua trabalhando. “Não o interesso nem um pouco“. p.18.

O POVO DOS MORTOS. “Ao povo dos mortos, a obra de Giacometti comunica o conhecimento da solidão de cada ser de de cada coisa..”. p. 21.

Alberto Giacometti, Os olhos. No livro/catálogo Giacometti, da Cosac & Naify o desenho tem fundo pardo. Este parece ter um fundo branco, o que atualizaria a teoria sobre o branco de Jean Genet, de que os traços serviriam para reforçar o branco, o espaço.

Este parece uma coisa de internet, para “melhorar” Giacometti. Coloco aqui para chamar ao cuidado e atenção.

A ABSTRAÇÃO: “…Quero dizer que se o conhecimento de um rosto pretende ser estético, deve recusar ser histórico“.p.22. Não é possível realmente, então, um retrato. Todo retrato é retrato de, Jean Genet, é de um homem em geral. Na verdade, sem rosto. Daí as garatujas e rabiscos. Ou flacidez de Sartre, a redondez, temida, de Jean Genet.

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A MULHER

Mulher em pé, c. 1961, gesso pintado. 46 X 7,6 X 11,2 cm

Nas páginas 22-24 há uma difícil discussão sobre as mulheres de Giacometti, nos bustos de Diego e as suas pinturas. As pinturas seriam muito mais dificeis de situar e entender. Os bustos, por serem mais convencionais, seriam mais próximos. Quando as mulheres seriam mais deusas que mulheres

Chama atenção para o fato de serem pintadas, douradas ou prateadas. Isso na questão mais simples.

A discussão que me pareceu difícil é sobre as mulheres serem de corpo inteiro e Diego um busto. Logo Diego seria mais “socializado“. Depois de um braço, que suponho que é a escultura de um braço que Genet achava que não poderia “viver” sozinho e no entantonão conheço braços mais intensamente, masis expressivamente braço que aquele“.

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O EPISÓDIO DO VELHO SUJO E MALVADO NO TREM.

Alberto Giacometti, Nariz, 1947; versão 1949. bronze, fundição 1965

Uma conversa intolerável, um homem feio, muito sujo e mau . Para Jean Genet, as estátuas de Giacometti narram este homem. Giacometti reconhece, todos nós,  neste homem sórdido. Não bondade, mas reconhecimento.

Jean Genet, mais que Sartre, insiste no homem Giacometti, influenciando sua obra. “Recomeça a caminhar, mancando. Conta que ficou muito contente ao saber que a operação – depois do acidente – o deixaria mae nco. Por isso, vou arriscar o seguinte: suas estátuas me dão a sensação de se refugiarem, em última instância, no sei em que enfermidade secreta que lhes proporciona solidão“. p. 42.

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O CÃO DE BRONZE


O cachorrro de bronze de Giacometti é admirável. Era ainda mais bonito quando sua estranha matéria, gesso misturado com barbante ou estopa, desfiava‘.””Sou eu. um dia me via na rua assim. Um cão“.p. 38. Esta narrativa é a narrativa de uma múmia. No entanto Genet não o diz.

Jean Genet vê estes homens esquálidos na rua. Curvados sob o peso da vida cotidiana e dura. Mas principalmente curvados pela solidão.

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MAS A VIDA  PULSANTE SE IMPÕE PELA JANELA DO ÔNIBUS

Mas Jean Genet faz questão de pontilhar que não vê o mundo da mesma forma. Apesar de todo deslumbramento e entusiasmo com a obra de Giacometti,  de reconhecer que esta solidão é conhecimento, inatacável, este é termo que usa, da condição humana. Mas A cidade – feita solidão – seria admirável de vida, não fosse meu ônibus cruzar com um casal de namorados atravessando uma praça: eles se seguram pela cintura e a moça inventou esse gesto encantador, pôr e tirar a mãozinha do bolso de trás do blue-jeans do rapaz, gesto gracioso e afetado que vulgariza uma página inteira de obras-prima. p. 40.

A desolação que Sartre viu na obra de Giacometti, que Jean Genet chama de solidão, os dois chamam de distância, também é ausência, para mim, de vida. O pulso ainda pulsa, a frase manifesto de Arnaldo Antunes. Sexo é vida, a única propaganda verdadeira que conheço, incluindo as bulas de remédio.

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QUEM FOI FLORA MAYO.

[Cabeça de Mulher (Flora Mayo)], 1926. Gesso trabalhado com canivete e pintado. Giacometti, Ed. Cosac & Naify. Foto Google

Na exposição da Pinacoteca há uma única manifestação deste sexo-sexo. Do erotismo. Flora Mayo.

Giacometti escreve a Matisse: “Eu já não podia suportar uma escultura sem cor e, muitas vezes, tentei pintá-las de observação“. p. 144-145, Giacometti, ed. Cosac & Naify.

Sartre tratou da questão do traço, dos rabiscos de Giacometti. A cor abordada por Jean Genet: “Em meio a velhas garrafas de solvente, sua paleta dos últimos dias: uma poça de lama de vários tons de cinza.

Talvez, em 1926, a cor fosse Flara Mayo. “Arnold e Isabel Geissbuhler a descrevem: Ela era bonita, mas tinha algo de trágico e desequilibrado”. “muito bonita e muito louca”. p. 144 . Giacometti, ed. Cosac & Naify.

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S Sem legenda, (detalhe) foto da foto de Ernest Scheidegger

Uns olhos vazados, apenas as órbitas. Este elemento de terror e morte é uma influência direta da arte africana tradicional, quando estes olhos são uma maneira de contato com a morte e os ancestrais.

Esta fase africana que começa em 1927, tardiamente  comparando com Braque e Picasso, e que, para mim, o acompanhara, essencialmente, a obra inteira: as figuras alongadas, os olhos vazados, este homem geral/abstrato, características das suas esculturas, também presente em pinturas. Os enormes olhos, mas indistintos, com vazados. A sua fase mais abstratas, das mulheres colher, são referências claras aos utensílios cerimoniais. Tudo isso os textos de Sartre não tocam. E também o texto de Jean Genet.

Outra grande ausência do texto são as duas guerras.  Assim como fora em Sartre, mas em Genet com uma agravante que ele fala muito da vida do artista, cuja produção começa depois do horror da primeira guerra, amadurece diante do nazismo e da preparação da segunda guerra mundial. Por mais que Jean Genet, assim como Sartre, afirmem que este rosto, construído por Giacometti, não é histórico, não deixa, para mim, de ser um rosto do horror da condição humana. Que Jean Genet liga, o tempo todo, à morte, à solidão e Sartre à desolação. Isso é a narrativa da guerra.

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O DESENHO

“… Os traços não são utilizados como valor significativo, mas unicamente para dar significado ao Branco. Estão ali para dar forma e solidez ao branco...”. p. 67

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AS ESTÁTUAS:

Sempre a distância, mesmo se estiver muito próximas. Assim como Sartre já tinha abordado. E Jean Genet, neste texto, deixa claro que conversa o tempo todo com Sartre sobre Giacometti.

As mulheres, deusas.  Todo o corpo delas foram modelados mais “amorosamente” que o rosto. “Ao lado delas, como as estátuas de Rodin e de Maillol está prestes a arrotar e em seguida dormir!“. “As estátuas(as mulheres) de Giacometti velam um morto“. A morte é a metáfora dominante em Jean Genet.Parafraseando o título de Sartre: a morte sem sepultura.

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O RETRATO DE JEAN GENET

Giacometti, retrato de Jean Genet. fonte Google

GIACOMETTI-sartre

Eu teria o rosto mais para redondo e gordo“. Sartre anotou o mesmo, a flacidez.Ao contrário das esquálidas esculturas, as pinturas e desenhos de Giacometti tem robustez, mulheres inclusive com ancas largas, rosto cheios e redondos.  Seus rabiscos e garatujas fazem todos, homens e mulheres, ficarem com rostos parecidos. Nisso há aquele homem geral/abstrato. Um homem. E não este ou aquele homem.

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TRISTEZA, SOLIDÃO, DEFORMIDADE.

Diante de suas estátuas, um outro sentimento: são todas pessoas muito belas, contudo me parece que sua tristeza e solidão são comparáveis á tristeza e solidão de um homem disforme que, subitamente nu, veria exposta sua deformidade, ao mesmo tempo oferecida ao mundo para indicar sua solidão e sua glória. Inalteráveis“.

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COMO RECEBO A OBRA DE GIACOMETTI

Acima, neste  último parágrafo do texto acaba matando um pouco a ideia de movimento que Jean Genet afirmou em várias passagens. Se não há vida não há movimento. E experiência é experiência do corpo. A divisão socrática e cristã entre corpo e alma é a danação do homem.

Vejo estes homens e mulheres de Giacometti e penso no Quasímodo de Euclydes da Cunha. Frágeis, esquálidos, desengonçados, mas se transfiguram diante da luta e serão o fundamentos do futuro.

Quem sabem este homem morto esculturado por Giacometti, tão insuportável e doente, é o homem que deve desaparecer.

Acho, é uma obra que faz frente à glorificação estúpida do realismo stalinista. Por negar este horror stalinista teria valor inestimável. Mas ainda assim, acho que há uma grande dose de detratação do homem. Aquilo que o cristianismo fez, cultivando a morte e a dor. E é, acho, uma obra seminal para conhecer  plenamente este homem que deve desaparecer. Mas há um homem que dança, que ri, que festeja, um homem que bebe arco-íris. E este homem para mim é o homem do futuro. O afirmador da vida, até à última gota, até o máximo heroísmo.

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O GATO

Para encerrar vai aqui o gato que Jean Genet achou mais belo e expressivo que o Cão.

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3 Responses to GIACOMETTI por JEAN GENET.

  1. […] Modigliani: “Eu agora possuo o orgasmo…” 02. GIACOMETTI por JEAN GENET. 03. Giacometti por Sartre 04. CIVILIZAÇÕES AFRICANAS: Memória e Altar: apontamentos 01 05. […]

  2. […] corpos: Alongamento dos corpos 1. El Greco. 02. Modigliani: “Eu agora possuo o orgasmo…” 03.Giacometti por Jean Genet 04. Giacometti por Sartre 05. CIVILIZAÇÕES AFRICANAS: Memória e Altar: apontamentos 01 06. […]

  3. […] lembrando-me do livro  ”O Ateliê de Giacometti”, de Jean Genet [https://jornaldoporao.wordpress.com/2012/06/11/giacometti-por-jean-genet/] onde Genet diz: […]

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