Memória e Altar. Apontamento 02 – CULTURA MATERIAL AFRICANA: arte ou não arte?

“Não seria difícil encontrar nessa arte africana alguns elementos de aproximação com os de correntes da arte ocidental, do naturalismo ao abstracionismo. Mas esse tipo de comparação não é capaz de desvendar o verdadeiro sentido da arte africana tradicional, porque esta não foi feita para ser realista ou cubista, isto é, ela não era um exercício de reflexão sobre a forma, ou sobre a matéria, como nas artes plásticas entre nós. Apesar disso, pode-se identificar na arte africana os elementos que permitiram a artistas, como Picasso, a revolucionar a arte ocidental”.Cultura material e História
Formas de Humanidade, Museu de Arqueologia e Etimologia, USP

DUAS FACETAS QUE José D’Assunção Barros MOSTRA EXISTIR TAMBÉM NA ARTE AFRICANA E UM SÍNTESE AINDA MAIS PROFUNDA POR SEU ASPECTO DE QUERER REPRESENTAR O HOMEM EM GERAL, POR SEU ASPECTO COLETIVO.
“O cubismo, portanto, é uma invenção intelectual dos europeus, que nada tem a ver com a intenção dos africanos: enquanto no cubismo a representação do objeto se dá de diversos pontos de vista, em diversas de suas dimensões formais ao mesmo tempo, a estética africana busca, ao contrário, uma síntese do objeto ou do tema construído materialmente, plena de objetivo, inspiração e conteúdo.“Cultura material e História
Formas de Humanidade, Museu de Arqueologia e Etimologia, USP

“Uma estátua não representa, normalmente, um Homem, mas um Ser Humano integral, que tem uma parte física e espiritual – do passado e do futuro. Tem, por isso, um lado sagrado, ligado às forças da Natureza e do Universo. Uma máscara ou uma estátua concentram forças inerentes do próprio material de que são constituídas, ou que comportam em seu interior ou superfície, além de sua própria força estética. Elas não têm, portanto, uma função meramente formal.”Cultura material e Arte africana
Formas de Humanidade, Museu de Arqueologia e Etimologia, USP

No entanto o debate só se aprofunda. E esta citação que segue não é um apaziguamento. A fragmentação que é essencial no que é o Cubismo, tá presente, insistentemente, na arte africana. Portanto há mais que aparência formal. ” Características como narizes alongados e faces côncavas, visíveis em máscaras e esculturas africanas, por exemplo, mostram “a fragmentação típica da representação do nú feminino feita por Picasso”, afirma Martin”.Exposição explora influência africana na obra de Picasso

MAS MESMO ESTA EXPOSIÇÃO[na África do Sul], COMPARANDO CADA OBRA DE PICASSO COM AQUELA AFRICANA QUE INFLUENCIOU, E DA, TALVEZ, UMA PÁLIDA IDEIA DO QUE SIGNIFICOU A ARTE AFRICANA PARA A ARTE MODERNA OCIDENTAL. O ARTIGO LINCADO ABAIXO PROCURA DEMONSTRAR UMA GAMA DE LEITURAS. MOSTRA AS DIFERENÇAS DE VISÃO. MOSTRA AS INFLUÊNCIAS ESTÉTICAS, FORMAIS, EVIDENTES EM MUITOS PINTORES E ESCULTORES. MAS VAI TERMINAR MOSTRANDO QUE, PARA OS COMTEMPORÂNEOS, DEPOIS DA DÉCADA DE 60, A ARTE AFRICANA, MAIS QUE INFLUÊNCIAS QUE TEVE É, ANTES DE MAIS NADA, PRECURSORA DA ARTE A SER FEITA.
PARA MIM, SEMI-ANALFABETO EM ARTE É UM ARTIGO QUE ABRE MUITAS PERSPECTIVAS DE ESTUDO. E ESTE ARTIGO DE José D’Assunção Barros contém várias ilustrações, comparativas, interessantes.
VÃO, ABAIXO, O LINK E ALGUMAS CITAÇÕES, com títulos colocados por mim.

AS INFLUÊNCIAS DA ARTE AFRICANA
NA ARTE MODERNA
José D’Assunção Barros

“quando o encontro dos artistas europeus com diversas
alteridades artísticas permitiu uma completa recriação da arte europeia
e de suas possibilidades técnicas.” p. 01

MATISSE
“correntes da arte moderna a se interessar diretamente pela possibilidade
de aprender com as manifestações artísticas africanas foi a dos fauvistas,
sobretudo a partir de Henri Matisse”.p.02

“A escultura
matissiana é especialmente inspirada na estatuária africana – particularmente a partir de algumas peças que o artista francês adquirira em
1906 – e revela-se aí um dos gêneros através dos quais as diversas formas de expressão africanas puderam penetrar mais decisivamente na
arte moderna.”p.02

HÁ UMA GAMA IMENSA DE INFLUÊNCIAS:
“felizmente, os artistas ocidentais foram,
com alguma liberdade decifrando os artefatos africanos por camadas,
captando-lhes as dimensões que cada época permitia: a expressão, a
intensidade, a forma, a interatividade.”.p.41

BRANCUSI CRIA ESCULTURAS INÉDITAS, MAS A PARTIR DA ARTE AFRICANA:
“Foi assim que Brancusi (1856-1957), um dos principais escultores de tendência cubista, pôde apropriar-se das talhas em madeira da
África (mas também da Oceania), para idealizar e concretizar um tipo
de escultura inédito na civilização europeia”.p.43Outras escolhas foram as de Modigliani, que foi imediatamente

Memória e Altar: coleção Rogério Cerqueira LeiteMODIGLIANI, PINTURAS E ESCULTURAS CALCADAS NAS INFLUÊNCIAS AFRICANAS:
“atraído pelas esculturas e estatuetas de rostos alongados – e ele mesmo
produziu, a partir de 1908, esculturas próximas de alguns estilos africanos. Basta citar uma conhecida Cabeça de 1913, hoje na Galeria Tate
em Londres”.p.43

PICASSO, PINTURAS E ESCULTURAS, COM VÁRIAS LEITURAS DA ARTE AFRICANA. DAS MÁSCARAS E DAS ESCULTURAS.
“Em 1907, tendo como impactante marco o quadro Les Demoiselles
d’Avignon, Picasso começa a elaborar uma nova estética – logo denominada cubista, na sintonia com algumas pinturas que Braque já vinha
desenvolvendo. Essa nova estética fundamenta-se, grosso modo, na
destruição de harmonia clássica das figuras e na decomposição da realidade. Mas ela foi primordialmente inspirada nas máscaras rituais da
África, com as quais Picasso tivera contato naquele mesmo ano.”.p.44

MAIS DO QUE INFLUÊNCIAS. A PARTIR DE 1960, A ARTE AFRICANA VAI SER VISTA COMO PRECURSORA DA ARTE CONTEMPORÂNEA. OU MESMO ANTECIPADORA.
“Somente a partir da década de 1960, como veremos adiante, os
artistas ocidentais iriam dar-se conta de que a máscara poderia ser também um poderoso meio de integração com a natureza, com o ambiente e
com os misteriosos mecanismos instituidores de uma identidade mágico-religiosa. Mas, no princípio do século XX, a leitura ocidental das
máscaras africanas concentra-se nos aspectos estéticos, formais e expressivos – o que já foi certamente uma grande novidade para a época”.p.69

“A última dimensão a ser ressaltada para uma correta compreensão do que vem a ser a máscara ritualística – e esta será particularmente
importante para a segunda leitura da alteridade africana, que os artistas
ocidentais empreendem a partir dos anos 1960 – é a da coletividade”.p.70

“Assim, pode-se dizer que – mesmo quando pretende invocar com
intenso realismo o rosto humano – o artista africano libera-o daquelas
particularidades individuais que fariam dele algo como um retrato à
maneira ocidental, e, com isso, logra-se alcançar um máximo de intensidade expressiva generalizada. Os traços pessoais de um rosto são deliberadamente abolidos ou transfigurados, e a estrutura fundamental do
rosto, embora sugerindo em algumas situações um intenso realismo, é
obtida de maneira inusitada por uma bem calculada disposição dos volumes e das formas geométricas, em um vivo contraste que constitui a
sua trama fisionômica essencial. Com isto, a multiplicidade de formas
produzida pelas máscaras africanas – e também pelas esculturas dos
mesmos povos – parece recriar o próprio gênero humano transferindolhe imprevisíveis possibilidades formais e expressivas.”.p.71

“Não obstante essa imensa variedade de formas, a arte negra –
escultura ou máscara – apresenta uma direção estética bem definida:
ela é, sobretudo, uma arte de expressão que parte de dentro do humano
para fora, e que, portanto, se mostra como pura “invenção”, ao invés de
se configurar na reprodução ou na imitação da natureza, que está na
origem da escultura ocidental.”.p.71

“Quando examinamos algumas das máscaras e das esculturas negras, pertencentes às diversas culturas do continente africano, não podemos deixar de admirar a inventividade, a sofisticação e as audácias
que unem, criativamente, representação e abstração, através desses artefatos.”.p.71

John Golding, Cubism – A History of Analysis (1907-1914), Boston: Boston Book and Art
Shop, 1968, p.27:
Analisa neste livro que o que une Picasso e a arte africana é exatamente o intelectualismo. A capacidade de abstração.”Aqui, as ideias sobre certo tema é que
seriam a verdadeira chave para a elaboração dos objetos artísticos, permitindo, de um lado, a possibilidade de estilizar e reconstruir livremente a imagem de um homem, de um animal ou de qualquer outro objeto
presente na natureza, e, de outro, abrindo-se também oportunidades para
o exercício mental de uma simbolização através dessas imagens. Essa
dimensão conceitual é que estaria na base de uma ligação da arte negra
com obras como as Demoiselles e outras já francamente cubistas.”p.78

Outras analisam esta intersecção mais pelo conteúdo do que pela forma, mostrando o interesse de Picasso pelo sentido mágico.” William Rubin, um
pouco nessa direção, desenvolve a ideia de que Picasso teria sido atra-
ído pelas máscaras negras em virtude de seu significado mágico.p. 78

“É oportuno ressaltar que – à mesma época em que se desenvolvia
a assimilação das então chamadas “culturas primitivas” pelos cubistas,
fauvistas e outros campos estéticos – os músicos ocidentais também
abriam uma corrente estética que se empenhava em trabalhar com ritmos que eram percebidos como primitivos, pelos europeus, e com dan-
ças ritualísticas, fossem da África ou da América Latina. Alguns dos
exemplos mais notórios desse “primitivismo musical” – uma designa-
ção que frequentemente era evocada pelos músicos ocidentais – podem
ser encontrados na célebre Sagração da Primavera, de Stravinsky
(1913)
, ou no Allegro Bárbaro de Bela Bartók (1911). Essas obras despertaram o mesmo escândalo que algumas das pinturas cubistas, sobretudo o ballet Sagração da Primavera, que tematiza um mundo de sacrifícios pagãos e de ritmos selvagens. Dessa maneira, pode-se concluir
que a assimilação da “alteridade primitiva” foi um fenômeno amplo,
que abarcou as diversas modalidades de expressão artística e que corresponde de algum modo a uma tendência cultural mais ampla.p.”89

No mundo da arte ambiental e interativa do final dos anos 1960,
da superação dos limites tradicionais dos gêneros artísticos em direção
a um campo cada vez mais expandido, da arte pós-moderna ou da
ambiental participante, os artistas ocidentais passavam a se fascinar com
a possibilidade de encontrar uma equivalência entre “a sua atitude, o
seu trabalho, e a atitude e o trabalho do artista negro ou caduceu, nos
seus respectivos contextos sociais”.

” Os artistas ocidentais dos anos
60, preocupados com questões como a de vencer o isolamento do artista
em relação à sociedade, de alcançar o coletivo ou mesmo o mítico, subitamente se encantavam mais uma vez com a arte negra, que, no seu
contexto cultural e natural, alcançava precisamente isto.”p.92

“Esses artistas ocidentais finalmente percebiam que haviam sido
precedidos em suas atuais preocupações pelos artistas negros e de outras sociedades por eles consideradas como primitivas – estas que, como
eles, davam forma à vontade de modificar a ordem natural, de alterar de
maneira ativa e dinâmica, o ambiente em que estavam mergulhados.”p.92

OS ARTISTAS MODERNOS VÃO NOTAR QUE A ARTE NEGRA E OUTRAS CHAMADAS PRIMITIVAS, MAIS QUE INFLUÊNCIA, SÃO ARTES PRECURSORAS.
“É um mundo em que a
pintura salta para o universo escultórico, ou em que a escultura se torna
penetrável ou interferida pelo receptor de arte – interpenetrando-se, assim, de teatro e de vida – que permite que os artistas ocidentais aprendam, mais uma vez, com a alteridade africana que não conhecia obviamente estas limitações artísticas. O mundo que permite uma quarta
releitura da arte africana é o da arte ocidental, que se aventura para o
campo expandido.
Memória e Altar: coleção Rogério Cerqueira LeiteUm exemplo brasileiro pode ser dado com o Parangolé de Hélio
Oiticica, objetos artísticos que sintonizam com o conceito expandido
de máscara, que traziam os africanos desde as suas origens. O Parangolé
não é para ser contemplado como objeto imobilizado em museu: é para
envolver quem usufrui da arte, para ser vestido, para se oferecer à possibilidade das progressões espaciais e da dança. É um objeto integrador,
que cria conexões com a sociedade, com a natureza e com o mundo”

NÃO É CITADO NOS TEXTOS, mas o que poderíamos chamar da diluição das artes, nos materiais de cultura popular, não deixa de ter, para mim, um vivo interesse.

. Seria interessante fazer um levantamento das influências da arte africana na chamada cultura POP. É quase evidente ver as chamadas distorções, alongamentos, afilamentos, economia de traços, expansões da imagem… uma gama de recursos para aumentar a expressividade. Os quadrinhos, as capas dos antigos LPs, as ilustrações de livros, etc.

OUTROS PINTORES E ESCULTORES NÃO CITADOS NOS TEXTOS,

mas que numa sumária olhada vê-se a influência marcante ou dominante da arte africana, ou no que ela tem de cerebral, ou no que tem de psicológico e de conteúdo, como analisou o artigo de José D’Assunção Barros

E O CINEMA?

O Site  A Matéria do Tempo posto o documentário de Alain Resnais, Les Statues meurent aussi[As Estátuas também Morrem], um libelo anticolonial que usa as máscaras e esculturas africanas como apoio para esta denuncia políica. Outro site, Cine-engodo, comenta tal documentário. Foi postado em francês, legendado em Inglês.
O site A Matéria do Tempo ainda trouxe um link da Sociedade de Geografia de Lisboa, cujo site traz vários links para museus etnográficos.

NA FOTOGRAFIA.

De Man Ray, um dos precursores do surrealismo na fotografia, segundo o livro Man Ray, da editora Taschen.
…………………………………………………………………………………………………………………………………….

LINK 01 – AS INFLUÊNCIAS DA ARTE AFRICANA NA ARTE MODERNA, DeJosé D’Assunção Barros
LINK 02 – LINKS APARA ALGUNS TEXTOS SOBRE ARTE AFRICANA

One Response to Memória e Altar. Apontamento 02 – CULTURA MATERIAL AFRICANA: arte ou não arte?

  1. […] INFLUÊNCIAS DA ARTE AFRICANANA ARTE MODERNA já resumido num post neste blog, post cujo titulo é: Memória e Altar. Apontamento 02 – CULTURA MATERIAL AFRICANA: arte ou não arte? e demonstra, neste artigo, que os parangolés são um herança da arte africana. E não esquecer a […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: