sangue, de Newton Peron

nunca mais me esqueceria do vermelho e daquela dor gostosa. talvez porque estivesse tomando cerveja num copo sujo quando me vi sentado com ela a boca suculenta e vermelha se mexia sem parar, mas eu só escutava os agudos de sua fala. vez ou outra colocava sua mão enorme sobre a minha e dava uma gargalhada rouca.

ficamos assim por um tempo, ela abrindo e fechando a boca e eu arrotando cerveja. enfim, me perguntou algo que não entendi, mas fiz que sim. então me puxou pelos braços com as unhas vermelhas e me levou para dançar.

começou a se esfregar em mim e a me jogar para os lados. voltei para meu copo sujo porque não gosto de dançar e estava com enjôo. ela também sentou e recomeçaram as gargalhadas, a manzorra e a perna.
a essa hora ela colocava a mão sobre minha perna.

cerveja, copo sujo, amendoim, pagode e aquela boca pornô falou algo sobre carro. respondi que do outro lado da rua. tirei a nota amassada para pagar a bebida e o couver, mas ela já estava berrando de fora.
dentro do carro. vi suas pernas enormes de meia-calça e entendi pela primeira vez sua voz preguiçosa, longe da banda de pagode. já está tarde, não, talvez fosse melhor a gente dormir num motel.
não estava tarde, era onze e meia. mas na hora imaginei a desculpa que iria inventar para minha mulher, porque dormi no paulão se era ele que estava bêbado, ou porque não chamei um taxi se o carro tinha quebrado.

mas já era onze e meia e eu tinha tomado cerveja. que motel, tem um aqui perto e até que é barato, e você é barata?, depende do serviço meu bem. mostrei a nota amassada e ela fez que sim.
quando saímos com o carro, ela começou a cruzar e descruzar as pernas. O carro cheirava cerveja e cigarro, com filtro vermelho. no semáforo, ela se aproximou e pôs minha mão no meio de suas pernas. dava para sentir o perfume e o shampoo que ela usava, ambos vermelhos.
chegamos ao motel de neón. o atendente me disse quarto cento e vinte e dois, senhor. ela saiu do carro rebolando, de mão dada comigo.

depois dele tirar minhas calças e vir por trás de mim eu nunca mais me esqueceria daquela dor gostosa.

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