coração, de Newton Peron

o cavaquinho afinava, atravessava a janela fechada. a pálpebra melada insistia em não abrir, apesar do barulho, da frestas com luz, do cheiro de fumaça. acordou. jogou água na cara e foi para o quintal.

mais cavaquinho. cocoricós do quadrado de madeira no fundo do quintal. tijolos bambos em forma de churrasqueira. seus olhos seguiram o rastro de sangue que dava para a vasilha de plástico. lingüiça, asinha, mais uma carne estranha, em bolinhas. laialaiá laialaiá, golpes no surdo.

aproximou-se da mãe. eu refoguei com manteiga, dona cida, depois misturei com a farinha. a mãe gorda, inofensiva e as amigas dela, tão moles que se via dereterem como manteiga na parte concretada do quintal. afastou-se.

o que é isso, pai? o pai engolia mais cerveja, conversava com um amigo barbudo. coração, respondeu o barbudo. mas coração de quê? a barba gargalhou. de galinha, moleque. queria que fosse de boi, é?, interviu o pai.

não faz assim, meu coração, volta pra mim, que solidão. a linguiça estralava, mais fumaça. tá boa, rita?, eu fiz com miúdo de galinha. uma delicía, maria. o que é miúdo? é porque eu refoguei com manteiga. o que é miúdo, mãe? miúdo é figado, coração… mas o pai não tá assando o coração? rá rá rá… o do seu pai é de outra galinha. laialaiá laialaiá. eu quero, mãe. pega!, não com a mão, moleque, é pra passar na carne.

o cavaquinho já se confundia com o cocorejo ouriçado do quadrado. a primeira rodada, de linguiça. pôe o coração, ô silvio. furou as bolinhas de carne no espeto e o repousou nos tijolos. fumaça, estralo. uma rodela de linguiça, pegada por dedos gordos, antes de triturada pelos dentes, tomava banho de farofa. cocoricólaralaiá.

o coração quase pronto. chama o danilo, ele queria experimentar coração. cadê o moleque? tum tum tum não faz assim, meu coração tá pronto. cocoláricá. cadê a faca? có có, gritando. tum volta pra mtum. não é azeite, dona cida, é manteiga, manteiga! có có có. ô maria as galinha o que tá acontecendo? preciso da faca silvio solidão cadê o danilo? vou lá ver essa gritaria.

achei o coração, mãe!

danilo, faca, galinha ainda viva com o coração pra fora.

2 Responses to coração, de Newton Peron

  1. Newton Peron disse:

    Olá, Mario.

    Excelente imagens e muito bem selecionadas. Acredito que representam bem a atmosfera de “coração”.

    Alías, essa idéia de ilustrar contos é muito boa: deixa o blog mais chamativo e menos pesado.

    abraços,

    Newton.

    • jornaldoporao disse:

      Oi, Newtinho
      Não sei desenhar. Um dos horrores da minha vida, assim como não sei música – e aí me considero um aleijão. Há pesquisas que apontam, ou discutem, que o cérebro humano modifica-se com o aprendizado de música na infância. Eu aposto que isso acontece com o desenho. Duas atividades que as escolas procuram matar logo cedo. Creio mesmo quem não desenha e pratica música deve ser mesmo considerado deficiente. O meu caso.
      Aí que lancei mão de ilustrar os contos, como se desenhasse via internet, mas um operação puramente intelectual, de fazer escolhas, de um catador de predinhas. Divertido, mas não o profundamente lúdico, essencial, do desenho e da música.
      Mas neste conto, acho que fui muito feliz em me lembrar de Francis Bacon. Por pintar horrores das carcaças, foi a lembrança mais imediata. Mas o auto retrato de Francis Bacon de olhos fechados, como narra o conto, com ar de náusea, como narra o conto foi um achado inesperado.
      Não sei ainda qual a ligação possível entre Sade e Francis Bacon, mas vou buscar.
      Um abraço,
      Mário Martins

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: