bom dia, conto de Newton Peron

bom dia, querido, disse a voz empapuçada do banheiro. bom dia, respondi da cama. estou indo preparar o café, cuspindo espuma de pasta de dente.


Desvario Carlos Zéfiro

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

fui para cozinha, comecei a beber seu café doce e frio, beijei sua bochecha áspera enquanto ela preparava sua missa matinal. mergulhou o pão com manteiga no café com leite. partiu o pão e entregou para mim dizendo toma, amorzinho, eu não aguento um inteiro. olhei para seus lábios lambuzados, sua xícara com pedaços de manteiga boiando, e afastei minha metade de pão molhado no pires.

pensei em nosso casamento. ela havia sido bonita, corpo quase atlético. hoje ela era a típica esposa perfeita, dedicada ao marido, velha, insossa. tinha um jeito irritante de ser simpática e era tão agradável quanto seu café da manhã. muitas vezes eu entrava no carro rezando para que ele pegasse antes que desse tempo dela se despedir com um beijo mole no rosto.


Busca Carlos Zéfiro

Upload feito originalmente por Jornal do Porão

mas no trabalho não era diferente. papel, dedo cortado, arquivo, ofício, solicitação, computador, caneta, papel. chefe mal-humorado, cliente mal-humorado, eu mal-humorado. colega de serviço de minissaia se esfregando em mim no bebedouro.

sempre gostei de mulheres, especialmente as de coxas robustas, de seios duros, de barriga definida. prefiro as de cabelos pretos, curtos, pele clara. minha mulher, jovem, era assim, mas sempre de cabelo comprido. parece crente.


carlos Zéfrio

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a mulher do serviço era loura, meio feia, mas de corpo malhado. não entendia porque queria transar comigo, meu chefe ganhava muito mais do que eu. talvez fosse tara, sei lá. mulher doente. mas nunca achei que valesse a pena.

e não valeu. o motel barato, o champanhe mais doce que o café, sua barriga não tão definida, seu rosto mais feio de perto. beijava mecanicamente, tirava a roupa estupidamente, abria as pernas exageradamente, gemia ridiculamente.

quer que eu esquente o leitinho?. não, sempre odiei leite com café, principalmente no diminutivo. mas olhando de perto aquela cara enrugada, o café melado, o leite com nata, o pão murcho com manteiga light, respondi só um pouco, bem. e derramou o leite na xícara com um sorriso idiota na cara.

mais idiota era a cara que fazia quando transávamos. uma mistura de menina e de puta, com o pior das duas. inexperiente como uma menina, gelada como uma puta. por isso às vezes ia para o puteiro, mas nunca tive dinheiro para pagar uma bonita, malhada. sempre paguei aquilo que poderia achar na rua de graça, ou quase isso.

não vou deixar você ir para escola desse jeito, parece uma puta. virei e olhei para aquela mulher de dezesseis anos. havia cortado o cabelo preto. tinha batom vermelho nos lábios carnudos, leve maquiagem no rosto. a camisa justa, a saia míni. por baixo da meia-calça, pernas longas e roliças. dentro da sandália, pés de porcelana. não parecia minha filha.

Filha de Minha Amante, Carlos Zéfiro

Filha de Minha Amante, Carlos Zéfiro

 

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era sua mãe, rejuvenescida. os traços mais bonitos do que ela quando jovem. corpo perfeito. não dizia bom dia pai, apenas oi. nunca levava a sério a mãe, apenas sentou e pediu para passar o café, puro. não era sua mãe, nem rejuvenescida.

você não vai dizer nada, bem?. uma mistura de menina e de puta, com o melhor das duas. não, eu não diria nada. apenas olharia seu decote enquanto lhe passava o café. enquanto ela tocava minha mão e olhava para mim lasciva. como uma menina. como uma puta.

estou atrasado. e estava mesmo. o papel, o computador, a caneta e a colega de serviço me esperavam afoitos. me leva na escola?. você não vai na escola desse jeito, menina!. olhadela de desprezo para a mãe. me leva?.


Carlos Zéfiro

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então vamos já!. minha filha saltitou da cadeira e abandonou sua xícara. um naco de pão velho enroscou na minha garganta. dei uma talagada no leite marrom açucarado. levantei fingindo pressa enquanto olhava minha filha de um ângulo melhor. uma mão escamosa me segurou pelo braço e disse eu não acredito que você vai levar ela assim. depois conversamos, querida. soltou meu braço com força e virou a cara bufando. fui lentamente até a porta com minha filha e aguardei por uns instantes o beijo-matinal-no-rosto de minha mulher. pela primeira vez em vinte anos ela não quis dar.

entramos no carro. dei partida. nada. de novo. nada. fuscas sessenta e nove não costumam pegar na primeira vez. eu nunca dei a mínima para isso. minha mulher ficava roxa de vergonha. a colega do serviço me olhava com desdém. de novo. nada. mas quando minha filha me olhou e deu um sorriso de canto de boca, comecei a soar. percebi a carroça que andava, o banco rasgado, a maçaneta pendurada. olhei para o retrovisor, um homem de meia-idade, com resquícios de beleza, barba por fazer, cabelos despenteados. comecei a me pentear com as mãos. ela virou e disse deixa isso comigo. começou a massagear meus cabelos. um pente surgiu de sua mão, talvez da bolsa. me penteava, com calma. de novo. o carro pegou. guardou o pente e me deu um beijo vermelho na bochecha.


A Queda Carlos Zefiro

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começamos a andar. gostou do meu cabelo?. sim, adorei. cortei ontem, fiquei esperando até meia noite para mostrar para você. eu não lembrava a que horas havia chegado no dia anterior. havia bebido sozinho em algum boteco, como sempre, para esquecer o serviço burocrático, meu casamento burocrático, meu caso burocrático. havia chegado em casa e me jogado na cama com a mesma roupa, como sempre. se eu a tivesse visto de noite com o cabelo curto e de camisola, provavelmente não teria conseguido dormir. eu sei que você gosta de mulheres de cabelo curto.

eu sei que você gosta de mulheres de cabelo curto. minha mulher tinha cabelo preto, liso, comprido. minha amante louro, crespo, comprido. semáforo fechado. olhei para ela novamente, estava obscena. vamos tomar um café de verdade ali na padaria?, odeio o café dela. também nunca a chamava de mãe. tampouco pelo nome. estou atrasado. eu sei, mas só um cafezinho, vai, eu pago. como eu poderia recusar um convite de uma mulher de lábios carnudos, olhos negros, sobrancelhas delicadas, cabelos curtos?. pode deixar, eu pago. nunca fui cavalheiro, mas com ela eu tinha que ser, era minha filha. mas rápido, einh?, estou atrasado. abriu o semáforo.

dois expressos, por favor. parece que ela não gostou muito da minha roupa – reticências – mas não quero saber a opinião dela, quero saber a opinião de um homem, o que você acha?. levantou do banco, empinou o bumbum, virou um pouco os ombros com os braços para trás. a camisa ficou mais colada e pude ver o contorno do sutiã. eu não acho nada. quase sem voz. aproximou sua boca de minha orelha. fala vai, o que você acha?. você está bem. gaguejando. sentou. pousou sua mão em minha coxa. dedos carinhosos. unhas bem cuidadas. palma macia fazendo círculos lentos sobre minha calça. café de verdade com uma mulher de verdade. estou atrasado, vamos!. paguei o café.


bernini_proserpina3

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dentro do carro. essa mulher é minha filha lembro dela criança nos seios de minha mulher em meu colo na rua de amarelinha na escola chorando saindo com as amigas de repente acorda de cabelos curtos pescoço longo pernas longas cintura curta sei que nunca terei coragem de fazer algo mais que beijos na bochecha abraços mão no ombro nas costas na barriga mas vou pensar nela semanas meses anos dias horas até ela casar com algum idiota com dinheiro – nunca será minha – mas continuarei abraçando beijando tocando ainda casada – sempre será minha – seu corpo escultural é parte do meu e meu sangue ferve em seus músculos e ela brotou de meu sêmen e eu a quero de volta quero a boca macia que me sussurra quero suas mãos dedos longos unhas curtas – nunca será minha – vou imaginar seu rosto de marfim e olhar para o de granito de sua mãe e vou acabar com meu caso e não suporto aquela mulher desengonçada e vou homenagear todo dia minha filha no banheiro da firma mas nunca serei capaz de tocá-la porque sou covarde porque sou escroto.


FrutosProibidos Carlos Zéfiro

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chegamos na escola. nunca será minha. ela soltou o cinto de segurança e me deu um beijo.

na boca.

newton peron

6 Responses to bom dia, conto de Newton Peron

  1. Newton Peron disse:

    Oi, Mário!

    Belas ilustrações. Aprecio muito as ilustrações de Carlos Zéfiro. Os títulos também foram bem selecionados: “Frutos Proibidos”, “A filha de minha amante”, “Desvario”, … descrevem bem o cenário de “bom dia”.

    Gostei muito da foto em PB. De quem que é? Qual é o título?

    Abraços!

  2. jornaldoporao disse:

    É um foto de uma estátua de Bernini. E nem é em preto e Branco, é de uma suave colorido. Foi uma amiga que me enviou, nem conhecia este escultor chamado Bernini.

    Mário Martins

  3. Carlos Zéfiro é foda. Quadrinho muito bom. Meu pai conta que era a única publicação do tipo no Brasil na época. Muitos adolescentes iniciaram suas vidas sexuais lendo o Zéfiro.
    Vale a pena dar uma olhada nesse site:

    http://www.carloszefiro.com/

    Abração Mário, Abração Newton

    • jornaldoporao disse:

      Olá João da Silva,
      O que seria dos jovens daquela época sem Carlos Zéfiro?
      O que será de nós de Carlos Zéfiro?
      O que o substitui?
      O que será do povo coreano do norte, dos Chineses, dos Cubanos e outros povos, sem Carlos Zéfiro?
      O desenho, para mim, é muito mais erótico, muito mais expressivo que fotos? Que coisa mais caralo, sem graça, sem expressão que as tais revistas masculinas? São muito ruins, mas prefiro que existam do que não existir nada. Por exemplo, não só é fácil aceitar as críticas políticamente corretas, sobre qualquer manifestação popular de arte, ou mesmo erudita, que tenha machismo, sexismo e outros ismos pejorativos. É fácil fazer, inclusive a crítica. Mas o desafio é fazer algo melhor. Algo mais erótico. Algo mais tesudo. Nese caso, particularissimamente, a melhor crítica é fazer algo melhor. A crítica simplesmente moralista é puro Paulo Apóstolo, o misógino, ascético , anti-humano , o cultuador da morte, o fundador do Cristianismo.

  4. joao da silva disse:

    Vi um documentário argentino – quem passou foi o sumido Pablo Robles – em que um cara falava: na América Latina substituiram a crença na Pacha Mama, a mãe terra, uma crença que se relacionava com a produção, com a natureza, com a vida, pela virgem Maria. Com a colonização substitui-se a pachamama por uma virgem esquálida sem sexualidade que depositou suas frustrações e doenças no filho.

    Vejam esse link. Produção do Coletivo Miséria(texto do libertário Daniel Guérin):

    Abração

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