Um artigo profético, Jornal do Porão no. 1

Para quê reeditar um jonalzinho? Para não precisar escrever outro quase igual. E para provar que dava prever o que iria acontecer. A burocracia não vive sem se reproduzir. E quando ela perde um tentáculo, nasce automaticamente outro, como os dentes dos tubarões, feitos para devorar. Quando foi escrito este Jornal do Porão 1, a celeuma foi grande. O antigo diretor ameaçava de punição. Puniu, na verdade, chamando na sua sala. Diga-se de passagem, os 10 números do Jornal do Porão foram assediados, ameaçados. Como uma agenda do IFCH registrou, em foto de uma faixa, “no IFCH tem fala-se muito em democracia, o que falta são democratas”. A previsão fundamental deste Jornal de mais de um ano é que voltaríamos a ter 6 chefes. E todas as mudanças era para voltar mais ou menos o mesmo, piorado. Se antes tínhamos 7 chefes, voltaríamos a ter 6, mas destes, um super-chefe. Piores dias virão. Porque tanta certeza? Porque burocracia é algo parasitário. E quanto mais burocratas, pior ficam as coisas.

[Jornal do Porão n. 1 – A DANÇA DOS NÚMEROS]
26 de agosto de 2009

Acabei de me dar conta que no ARQUIVO, notem bem, no AEL não tem arquivista. É um pequeno exagero, pois entre os atuais 17 funcionários, se incluirmos 2 chefes, talvez destes 17, 2 destes funcionários têm curso de especialização em arquivo e exerce a função. Há outros 2 que têm mas não exerce. Veremos que não apenas os números do Arquivo são dúbios, oscilantes…

Outra notícia intrigante é que no AEL tínhamos 7 chefes para 18 funcionários; ou seja, 1 chefe para 2,5 funcionários. Está havendo mudanças. Agora temos 4 chefes para…. 15 …. , pois às 4 chefes das antigas seções que estão sendo reestruturadas, foram solicitadas a entregar seus cargos e foi nomeada uma “chefia técnica”.

[ E aqui começa a dança dos números e das palavras]

Se são, atualmente, 4 chefes para 15 funcionários, mas quem manda mesmo são dois professores , o Diretor e o Vice.

Então poderíamos ser 19, mas não somos, continuamos 17. Pois professores são, ocupam o topo da carreira de funcionário, mas não exerce qualquer função de funcionário. Eles são super-funcionários, mas nunca simples funcionários. Não estão submetidos ao estatuto dos funcionários, mas ganham as gratificações que seriam dos funcionários. Por exemplo, já houve caso de antigo Diretor do AEL saiu para assumir outro posto, deixando coisas para assinar. Isto pelo estatuto dos funcionários daria demissão por justa causa. Outros dois antigos diretores foram embora sem mesmo se despedir; de repente soubemos que tinham desistido de ser diretores. Também numa espécie de abandono de suas responsabilidades. Mas quem iria responsabilizá-los? Não foram e não serão.

Podemos ter nomeado mais dois chefes para os atuais 15 funcionários, pois as antigas 4 secções virariam 2. Então seriamos 13 funcionários para 6 chefes, ou seja, 1 chefe para cada 2.

Voltando a falar em 15. Destes 15 uma funcionária já é aposentada. Outra aposenta em outubro, o que nos tornaríamos 13; está para chegar uma bibliotecária para o arquivo, seríamos então 14. {Parece piada pronta mais não é. Recrutaram para um arquivo que não tem arquivista uma bibliotecária}. Terminaremos o ano com 14 funcionários para 4 (ou 6) chefes.

Notícia fresquinha, neste momento chegou um patrulheiro.

SAÍDAS DO AEL. Uma das ex-chefes que ajudou a destruir sua secção, brigando com 5 funcionários que por isso mesmo saíram do arquivo, esta ex-chefe “responsável” por um das principais atividades do arquivo, saiu, com vaga e verba, ou seja, ela não pode ser substituída. A atual direção do instituto permitiu este desfalque. Talvez porque tenhamos muitos funcionários!!!! E foi esta mesma ex-chefe, numa secção que precisa muito de arquivista, que ficou na banca, para selecionar, segunda a sua própria sugestão, uma bibliotecária, para um seção que precisa de arquivista (seção que pelo organograma de 10 anos atrás previa 10 funcionários e hoje tem 3, uma podendo aposentar a qualquer momento.

É para o bem do Arquivo e da Unicamp que alguns funcionários morram. Os dirigentes esperam ansiosamente por isso. Pois existe uma lei estadual que veta a substituição dos funcionários estatutários (CLE) quando aposentam. Um deles é este que vos escreve. Em 18 meses me aposento e sou CLE. Logo é um dos motivos para torcerem para que eu morra, ou o Arquivo não poderá contar com um novo funcionário. Perderão, agora não poderei usar mais o nós, perderão portanto mais uma vaga. Acrescentando um pitadinha de caos à notícia, as duas anteriores funcionárias que se aposentam também são CLE e não podem ser substituídas. Ou melhor, talvez serão por terceirizados ou contratados.

Outra noticinha funesta. Um das melhores funcionárias do Arquivo, do meu ponto de vista. Cheia de iniciativa. Determinada. Responsável. Pau-para-toda-obra. Trabalhou tanto e com tanto afinco que teve sua coluna comprometida e passou por uma operação de risco. Talvez nunca mais poderá fazer tanto esforço. O capitalismo é cruel, mas as pessoas são mais ainda. Ela será demitida, quase que por justa causa, pois não receberá nada, pois teve seu contrato considerado nulo. Ela pagará pelos erros e …. dos nossos reitores e administradores… Ela não poderá trabalhar mais como sempre trabalhou. Por ser uma “subalterna”, ela deixa aqui no Arquivo um pedaço fundamental do seu próprio corpo. Vai embora sem glória e sem nada daqui a três meses. Poderia dizer que ficaríamos então com 13 funcionários para 4 (ou 6 ) chefes. Mas os números aqui também mentem. Pois a Neidinha trabalhou pelo Arquivo muito mais que todos os ex-chefes e, bem provável, muito mais trabalhou, ralou, deformou-se, trabalhando pelo Arquivo mais que a maioria dos funcionários também. Mais que trabalhou, mostrou sua inteligência e disposição para aprender, cumprindo com excelência tarefas bem complexas. Acho que seremos muito menos que 13 com a saída da Neidinha, apesar da aritmética dizer que seremos 13 para 4 (ou 6) chefes.

Nosso Arquivo é conhecido e reconhecido pela qualidade do seu atendimento, pelo seu acervo, pelas suas publicações… Mas isso está em risco. Esta qualidade foi mantida também pelo nível de seus funcionários. A decadência começou quando 6 deles, de nível superior , foram meio que chutados do arquivo. Destes 6 pelo menos 3 eram arquivistas . 3 destes 6 foram expelidos por aquela chefe muito responsável que saiu do arquivo com vaga e verba, desfalcando para sempre os nossos quadros. Esta chefe responsável que saiu também tinha curso superior. Saiu uma outra chefe, ou ex-chefe, também com curso superior. E aí vem a notícia do nosso atual diretor do Arquivo que vai pedir funcionários de nível médio, pois de nível seria impossível conseguir. Não há demérito algum, já que precisamos também, no arquivo, de funcionários de nível médio e muitos. O que não dá é para trocar 8 funcionários de nível superior + 1 que já está aposentada, portanto 9 funcionários de nível superior , por 2 de nível médio. É aceitar a decadência como nosso futuro. É aceitar que os funcionários de nível superior que existiam no Arquivo não eram necessários. Mas acho é que vamos decair mais ainda de qualidade.

Outra possível noticinha que não põe em risco o arquivo, nem muito menos significa qualquer caos ou problema grave, já que nossos diretores e chefes abominam qualquer destas palavras, mas que deve ser prevista, é que destes 13 presumíveis funcionários do AEL para 4 (ou 6) chefes ; que sem a Neidinha que vale por muitos, podemos ter ainda 2 outras aposentadorias a qualquer momento, ao que tudo indica. O que restaria 11 funcionários para 4 (ou 6) chefes. Ou mesmo voltaríamos a ter 13 funcionários para 4 (ou 6) chefes, caso nosso diretor conseguisse a “troca” dos 9 de nível superior que saíram por 2 de nível médio. Mas a conta se complica quando poderíamos ter 2 chefes saídos dos 11 ou 13 funcionários; o que nos tornaríamos 9 ou 11. Na melhor das hipóteses, destas duas hipóteses , seríamos 11 funcionários para 6 chefes,ou seja, 1 chefe para cada quase 2 funcionários. Mas, acho, há hipóteses muitos melhores que ter 6 chefes para 9, quase um chefe para cada funcionário, ou 6 chefes para 11 funcionários!!!! Mas a aritmética bastante complicada, esta dança de números, daria lugar ao caos/cômico, pois, nossa principal chefe, a Diretora Técnica, recém escolhida para o posto, a responsável por todo o quadro atual, poderia simplesmente aposentar a hora que quisesse, ou pelo menos brevemente se quisesse.

O número de funcionários, e mesmo de chefes, como quis demonstrar é um número flutuante e aleatório e com perspectiva nada animadoras. Saíram 9. Podem aposentar 4, digamos nos próximos 2 anos. Veio um. Virá mais 1. Podem vir mais 2. Este quadro é, para mim, um catástrofe. Indica um futuro de sobrecarga, doença (como já aconteceu com a Neidinha), afastamento por doença… Ou o que é pior, terceirização e contratação por tempo determinado, o que seria um risco maior ainda para um Arquivo do movimento operário (a biblioteca, e o risco que correu, atesta do que pode a terceirização para gerar catástrofes e irresponsabilidade).

A importância do Arquivo para a pesquisa acadêmica é mais que comprovada pelas quase 500 teses ou dissertações produzidas aqui. No entanto há outra importância muito maior. Aqui estão documentos originais e únicos do movimento operário, popular e democrático deste país. Qualquer ataque a este arquivo, por negligência, cupim ou água, ou até sabotagem da direita, coloca em risco documentos dos heróis do nosso povo. A classe dominante sempre soube prezar pela sua história e pagar regiamente seus escribas para contá-la. A história dos de baixo quase sempre foi contada pelos escribas a soldo dos de cima. Há muito pouco tempo na história que trabalhadores, operários ou escravos juntam e guardam documentos. Mas guardar documentos também é um documento da luta dos trabalhadores contra a opressão, pois ditadores, é até mesmo “democratas” como o presidente Sarney, mandou destruir documentos dos trabalhadores (pior, quase sem protesto na democracia da nova república de Sarney – é uma outra história). E é com estas pessoas, ligadas e amantes da luta do povo com que eu gostaria de corresponder, para cumprir nosso papel também nesta frente de luta árdua que é preservar a história dos trabalhadores, que, repito, está sempre em risco, por cupim, traça, descaso, fogo, água, desorganização, ideologia…

Pretendo manter este tipo “jornalzinho”, com notícias e lembranças. Mas esperaria que as pessoas se correspondessem comigo, dando sugestões e fazendo perguntas.

Um abraço,

One Response to Um artigo profético, Jornal do Porão no. 1

  1. […] Nacional sem ar-condicionado—— Vazamento de água,—- como aconteceu com o AEL(Arquivo Edgard Leuenroth) , ou ainda será que ainda corre, vários riscos: na Biblioteca Nacional, danificando parte do […]

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