Um relatório para a Academia, de LUIZ FELIPE PONDÉ

LUIZ FELIPE PONDÉ

Um relatório para a Academia

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Cálculos para garantia do emprego ocupam o tempo da classe
acadêmica
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CLÓVIS ROSSI pergunta em sua coluna do dia 8 de setembro, página

Pondé

A2,
se no Brasil vivemos algo como o que acontece na vida universitária
da Espanha hoje: desinteresse dos alunos e asfixia burocrática dos
professores. Sim, há semelhanças.
Nos anos 50, o filósofo norte-americano Russel Kirk descrevia um
fenômeno interessante nas universidades americanas.
A partir do momento em que a vida acadêmica se tornou objetivo da
“classe média”, gente sem posses, a vida universitária entrou em
agonia porque a proletarização dos acadêmicos se tornou inevitável.

Dar aula numa universidade passou a ter algum significado de
ascensão social. A partir de então o carreirismo necessariamente
assolaria a academia, assim como assola qualquer emprego.
Cálculos estratégicos para garantia do emprego passaram a ocupar o
tempo da classe acadêmica. E muita gente que vai dar aulas na
universidade não é tão brilhante assim ou tão interessada em
conhecimento.

O cálculo estratégico hoje passa pelo número de alunos que implica

Pondé

uma redução ou não de aulas e orientações de teses.
Ou mesmo nas públicas, onde você está mais protegido da
proletarização imediata, uma verba maior ou menor para seu projeto e
mais ou menos discípulos causarão impacto na renda final e na imagem
pública.

Daí o desenvolvimento em nós de um espírito selvagem: o
corporativismo em detrimento do ensino ou o ethos de gangues em meio
à retórica da qualidade.

Muitas pessoas (alunos e professores) buscam a universidade não para
“conhecer” o mundo, mas sim “para transformá-lo” ou ascender
socialmente.

E aqui, revolucionários (“criando o mundo que eles acham melhor”) e
burgueses (interessados em aprender informática para “melhorarem de
vida”) se dão as mãos.

Este pode ser mais individualista do que o outro, mas ambos fazem da
universidade uma tenda de utilidades.
Para mim não faz muita diferença, para a banalização da
universidade, se você quer formar gestores de negócios ou gestores
de favelas. Nenhum dos dois está interessado em “conhecer” o mundo,
mas sim “transformá-lo”.

ETHOS DE GANGUES

É claro que nos gestores de favelas o espírito selvagem pode
funcionar tão bem quanto entre os gestores de negócios. A obrigação
da universidade em produzir “conhecimento de impacto social” é tão
instrumental quanto produzir especialistas na última versão do
Windows.

Pondé

O utilitarismo quase sempre ama a mediocridade intelectual. Falemos
a verdade: a mediocridade funciona.
Ela gera lealdades, produz resultados em massa, convive bem com a
estatística, evita grandes ideias. Enfim, caminha bem entre pessoas
acuadas pela demanda de sobreviver.

A instrumentalização é quase sempre outro nome para utilitarismo.
I

sso não quer dizer que devamos excluir da universidade as almas que
querem ser gestores de negócios ou gestores de favelas -elas é que
excluem todo o resto.

Precisamos dos dois tipos de almas, e cá entre nós, acho que os
gestores de favelas são moralmente mais perigosos do que os gestores
de negócios. Como todos nós, ambos irão para o inferno, a diferença
é que os gestores de favelas acham que não.

E a asfixia burocrática? Ahhh, a asfixia burocrática! Esta contamina
tudo e em nome da democratização da produção e da produtividade da
produção.

A burocracia na universidade nasce, como toda burocracia, da
necessidade de organização, controle, avaliação.

Não é um sintoma externo a busca de aperfeiçoamento do sistema, é
parte intrínseca ao sistema. A pressão pela produtividade
proletariza tanto quanto a pressão pela carreira.

Soa absurdo, caro leitor? Quer mais?

Em nome da transparência da produção, atolamos esses indivíduos de
classe média na burocracia da transparência e do acesso à produção
universitária.

Enfim, a “produção” asfixia a universidade em nome de uma
“universidade mais produtiva, democrática e transparente em sua
produtividade”. Estamos sim falando da passagem da universidade a
banal categoria de indústria de conhecimento aplicado, e sob as
palmas bobas de quem quer “fazer o mundo melhor”. Tudo bem que
queira, mas reconheça sua participação na comédia.
Kafka, em seu conto “Um Relatório para a Academia”, já colocava um
ex-macaco, recém-homem, fazendo um relatório para os acadêmicos.
Ali ele já suspeitava que a academia continha algo de circo ou show
de variedades. Hoje sabemos que isto já aconteceu.

ponde.folha@uol.com.br
São Paulo, segunda-feira, 14 de setembro de 2009



CONCEITOS RETIRADOS DOS TEXTOS ABAIXO, CUJO TÍTULO E CONTEÚDO DO ORIGINAL SÃO MANTIDOS AO CLICAR NOS LINKS.

1. DELINQUÊNCIA ACADÊMICA, de Maurício Tragtemberg

2. BAGRINHOS, do texto de Alfredo Marques

3. HOMEM-DISPOSITIVO, do texto de Francisco Foot Hardman

4. FIM DA UNIVERSIDADE PÚBLICA, do texto de Marilena Chauí

5. ETHOS DE GANGUE, do texto de Luiz Felipe Pondé

6. MIKE BONGIORNO, do ensaio de Umberto Eco

7. CASTA DOS INTOCÁVEIS, da entrevista de Chico de Oliveira

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