JORNAL DO PORAO N. 3

Um jornaleco litero-informativo-jocoso

“A lembrança é uma forma de atualidade” , NOVALIS.

O Jornal do Porão está aberto à contribuições assinadas, tanto notícias, ficções que qualquer “forma”, principalmente as cartas dos leitores que serão publicadas na íntegra, desde que assinadas, durante a semana sob a rubrica de JORNAL DO PORÃO REPERCUSSÃO.  Se houver alguma censura será autocensura, pois ninguém é herói/sem/glória, o tempo todo, nesta democracia de fancaria.

Irão misturados ficções e realidades. E onde começa uma e acaba a outra? Muita gente já foi condenada à morte, prisão ou degredo  por conta de romances e historinhas, de Thomas Morus , Salman Rushdie ,  Galileu e Giordano Bruno.  Parece que hoje morre-se,  aos montes,   escritores e jornalistas nas periferias do mundo, quando suas histórias atingem algum poderoso. Aqui na civilização os poderosos, com cercas e muros,  não precisam usar a espada. O peso do poder, quase por inércia,  promove o silêncio. E os de baixo sabem que falar não adianta nada, e também promovem o silêncio sobre Eldorado dos Carajás ou Heliópolis. Como diria João Bosco e Aldir Blanc: é impossível vencer satã só com orações. Perdemos o senso, mas  salvamos nossas cabeças. Ou num ditado antigo, quando os deuses querem por a perder um povo primeiro o enlouquece. Somos loucos do silêncio ou do alheamento.

O Jornal do Porão, que se pretende semanal, começa este número 3 com um conto de Mário Medeiros e duas pequenas historinhas de Mário Martins.

UMA SEGUNDA MORTE PARA CLÓVIS GARCIA

Ao som do disco Summit, de Gerry Mulligan e Astor Piazzolla.

Uma estória do Café das Cinco. Para o Mário Martins.

Clóvis Garcia morreu vítima de um erro médico, que não diagnosticou uma apendicite, confundindo-a com excesso de gases no intestino. Supurada, o matou. Uma morte ridícula, todos concordaram, para alguém como ele. Uma morte ridícula, com um homem ridículo, estendido numa cama de hospital público, na área reservada à caridade aos pobres, ladeado por cortinas de banheiro e outros moribundos, com uma amante envelhecida aos pés de sua cama, chamada às pressas por aquele homem, agora tão comum e mortal, implorando perdão, juras e amor eterno. Um homem, uma cena, um quarto: fotografia amarelada pelo tempo, queimando e incensando a memória.

Quando, por fim, o lençol azul e manchado lhe cobriu a face inerte, Clóvis Garcia deixou, oficialmente, de existir. E, protocolarmente, com ele, toda a falta de potência de ser que os últimos anos acompanharam, colados à pele como uma armadura de ferro. Os anos foram implacáveis com Clóvis Garcia, e ele se deixou abater, não fazendo jus à personagem que construiu sem muitos dedos ou cuidados. Um herói é um arquiteto e o único responsável pelo edifício de símbolos e desejos que ergue em torno de si.

No fundo, apesar de mito coletivo, um herói é solitário.

E agora, Clóvis Garcia? Agora que você é isto: um pesado corpo de 120 quilos, um aglomerado de carne, sebo e sangue que, dentro em breve, irá se enrijecer e feder. E que uma infecção generalizada continua a lhe comer as entranhas, as forças que lhe vinham das entranhas, enquanto esta pele ainda tem algum calor e suor para perder? E o médico, Clóvis? Sorrindo amarelo para mim, explicando sem explicar o erro. Sem processo, ele pede. Em outros tempos, você o mataria, o esganaria milhares de vezes, sem suar. E agora, Clóvis, que sua velha amante recheada de perfume barato e dançando na calcinha larga e suja com a qual eu a encontrei e com a qual mal se vestiu e veio rapidamente te visitar, depois de todos estes anos? E agora, que ela molha a minha camisa com estas lágrimas que, tenha cá para nós, são falsas; molha e mancha não somente as minhas roupas, mas a sua memória. Clóvis Garcia, enquanto ela chora por você, alisa o meu pescoço, roça suas coxas nas minhas. Enquanto vêm os homens do necrotério, eu a levo para casa e você bem sabe o que irei fazer para consolá-la, Clóvis. Nos áureos tempos, você faria o mesmo.

Agora, Clóvis Garcia, você repousa debaixo de sete palmos de terra, ridículos e comuns, com suas pernas quebradas por nós, pois seu corpo não cabia neste caixão barato. E dentro em breve, seu corpo começará a inchar, suas extremidades crescerão e serão comidas por vermes, bem como seus olhos. Esta roupa que os amigos fizeram uma vaquinha para comprar no brechó, se deteriorará. E a pressão da terra sobre a madeira de terceira quebrará o caixão. Os vermes que entrarão comerão as carnes, dançarão nas órbitas vazias. E quando não for mais que ossos, cabelos e mau cheiro, virão os coveiros, comandados pela Administração do Cemitério Municipal, para lhe exumar o corpo, quebrar-lhe os ossos restantes e colocá-lo numa parede, com um número qualquer, dentro de uma caixa, ladeado por milhares de outros. Você ocupa muito espaço, Clóvis, no maior cemitério da América Latina.

E, daqui alguns anos, quando for a minha vez de morrer, ninguém mais se lembrará de você. Os poucos presentes no enterro comentarão a indignidade de você não ter sido cremado, Clóvis. Mas o fato é que você estava ali para ser degustado, não é?

Nem lhe depositarão flores, nem lhe acenderão velas, nem lhe cantarão os feitos, nem lhe suspirarão de amores, nem lhe repetirão o nome. Mas há muitos anos que não lhe fazem nada disso, Clóvis. Você sabe: a história oficial que hoje o Sindicato escreve não tem seu nome em lugar algum. As greves que ajudou a garantir, à base de balas e falas de seus revólveres, dizem agora que foram feitas à uma mesa de negociação. Negociação, você, Clóvis? E o dinheiro? E o dinheiro, Clóvis? Aquele dinheiro que você e outros roubavam e que eu calei, com quem estará, Clóvis? Com quem estará? Você dizia, rindo muito: Tenho fé no materialismo. Hoje e sempre. E sou herói.

E as mulheres, Clóvis, onde andarão? Quantas vezes as levamos para a cama, para o chão, para o mato, para detrás das estantes, para atrás dos carros de som, para quartos de limpezas e outros lugares mais, depois de nossos discursos, de nossas ações extraordinárias? Todas queriam dormir com o herói. E ele era você, Clóvis. Nós só pegávamos carona na sua fama. Hoje, elas querem dormir com o futuro, de preferência sem aventuras e com conforto. Protocolo sexual burocrático. Com a aposentadoria segura, com os filhos, com a casa e os carros e as poupanças. Com os nossos inimigos.

Clóvis, quantos você salvou naquela manifestação em 77? Lembra? Quando os seus lendários 38 canos longos, escondidos no jaquetão, deram tiros para o alto, para frente, para os lados, para trás? Quando você gritou: Chega de ser isca de polícia! Quando você, entrevistado pelos grandes jornais do Brasil, sentenciou: Se for para morrer, que se dane. Que venham. O proletariado já morre de fome. Agora tem de morrer de pé. E chumbo grosso. Você e sua jaqueta, Clóvis. Você e os livros de Mao Tsé nos bolsos internos. E, as balas, nos externos. Você e o seu cabelo, contra o vento. Você e o seu jeans apertado. Você e o seu sexo latejante. Você e o seu peito aberto, corpo fechado, filho de Xangô. Você sua voz, trovão em cima do caminhão. Você era o máximo, Clóvis.

E, agora, é isto.

Clóvis, eu poderia inventar uma estória mais feliz, mais a contento, para que os rostos que me ouvem no Café das Cinco se iluminem e se iludam. Os garotos do Café das Cinco se lembrariam de você, então, Clóvis. Mas, não. Você não fez por merecer. Os meninos do Café são bons. Mas eles não se lembrarão de você. Os heróis, Clóvis Garcia, devem, têm a obrigação de morrer cedo, jovens, de uma morte fatídica, trágica, súbita, de agonia rápida. Têm de morrer em batalha, epopéia a ser cantada, com sangue, muito sangue, embebidos em sangue. Era assim que tinha de ser com você, Clóvis Garcia. Você morrendo, trocando balas com a polícia política. Você morrendo em combate feroz, com algum adversário. Você caindo em agonia, numa tortura, sem dedurar ninguém, nenhum companheiro. Você sendo traído por alguma amante, arrastado para uma cilada. Você morto no campo de batalha, com o corpo desaparecido. Você num livro de memórias, num filme biográfico, numa canção nacional. Você…

Não isto. Não isto, Clóvis Garcia!

É engraçado – e curioso até – que eu, logo eu, aquele que o desprezava e, quem sabe?, o amei, que o tivesse como um ser abjeto e a quem devo a minha vida, por me ter salvo de um espancamento, à base de suas balas; que sabia de muitas das suas mutretas e seus roubos no Sindicato, mas que fechava com você – o que me fazia, claro, seu cúmplice – porque você era meu companheiro – o que não me fazia menos ladrão – ah, enfim, é engraçado, Clóvis, que seja eu, logo eu, a te contar aqui, agora, com estes olhos baços e desesperançados diante de mim, aqui, agora, para os meninos do Café das Cinco, Clóvis. Não tenho vocação para Esfinge, nem para Oráculo, nem para Pandora.

Você repousa numa sepultura. Você se livrou de toda a dor, do ridículo, do passado, do herói, da leveza e do peso de ser. Você é livre, Clóvis Garcia. Livre. Você é livre, livre, mas não de mim. Que estória eu devo contar a teu respeito? Que estória, Clóvis? A do ridículo? A do enfermo de apendicite mandado para casa com comprimidos para alívio de gases e dor de barriga? Ou a do herói?

Você é livre, é livre, mas não de mim.

Nem eu de você. É verdade. Eu quero o herói. E quem não quer? Clóvis Garcia, você não tinha o direito de se deixar acabar assim. De se deixar de ser, de se tornar um impotente ridículo, gordo, mal cheiroso, delicado e suplicante. Você não era só você. Não foi só você quem morreu, percebe? Foi um tempo inteiro. Clóvis Garcia, seria melhor que nem tivesse existido. E nem nós. Nem que nos tivéssemos conhecido. Não morreríamos de vergonha. Foi isso que o matou e será isso que nos levará junto com você, até o último de nós.

É compreensível que o Sindicato esconda o seu nome da História Oficial. Quem éramos nós perto de você, Clóvis? Seu nome ecoa, reboa, ressoa, enche a boca, preenche os espaços, emprenha ouvidos. Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia… Pode ouvir a multidão, a massa te gritando lá embaixo do caminhão? Menos que um poema, quase uma poesia: Clóvis Garcia, dizia uma de suas namoradas, estudante burguesa, com quem você gostava de desfilar como um troféu, apequenando, para nos deixar a ver navios. Você era o pirata, o bárbaro, você era livre. Livre, livre, mas não de mim. Nem eu de você, atado ao nosso passado, ao seu passado.

E agora, Clóvis Garcia?

Onde estão teus amigos? E as tuas amadas? E as tuas armas? Tudo desfeito, doado, vendido barato, penhorado, perdido ao longo dos anos, em tuas rondas noturnas e fantasmas matinais. Você é isto, agora, Clóvis, para alguns: menos que um fantasminha camarada, assombrado durante anos pela Era dos Resultados. Logo você, Clóvis. Quem diria? Logo você. Sindicato de Resultados, Futebol de Resultados, Relacionamento de Resultados, Sexo de Resultados, Partido de Resultados, Combate de Resultados… Não para você, não é, Clóvis? Força viva, pulsante. Não havia mais lugar para você. Nem mesmo dentro de você. Mas precisava se deixar matar assim?

Apendicite supurada. Gases. Erro médico. Não é morte de herói.

O jogo é jogado, parceirinho, você citaria João Antônio. É. Mas nunca é fair play.

Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia… Pode ouvir a multidão, a massa te gritando lá embaixo do caminhão? Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia, Cló-vis Garcia……

Sigo, não sei se sorrindo, assobiando e contando você. E te conto tantas vezes que, chutando pedregulhos no caminho, sou até capaz de te esquecer. O sol esfria junto com o que me lembro de você.

Mário Augusto Medeiros da Silva

MEUS HERÓIS MORRERAM DE OVERDOSE

Por Mário Martins de Lima

Esta letra de Cazuza sempre me coloca na no devido lugar da minha pequeneza. Meu principal herói morreu atropelado. E o outro,  Mário Medeiros contou uma história dele. Dele há muitas histórias heróicas. Mas a que mais me afetou é bem banal, nem teve seus arroubos de violência justa, desencadeada. E  se não salvou minha vida, pelo menos permitiu que eu estivesse aqui escrevendo.

Lamentei, nalguns momentos,  que, por causa do jornaleco( mal redigido, sem importância e de pequena tiragem), fui chamado à direção do AEL, chamado às falas por redigir mal, por mentir, por escrever um artigo autoritário, querendo ser o dono da verdade e lá fiquei por mais de 2 horas ouvindo tais diatribes. O primeiro espanto é uma artigo escrito em 15 minutos ser achincalhado em 2 horas e com audiência obrigatória [ e como subalterno sou realmente obrigado a ouvir].  E achei a “crítica literária” um pouco truculenta, não tanto como o Goebels, ministro da propaganda de Hitler, que se propunha a puxar o revólver(na verdade mandava puxar o revólver, pois uma das características dos poderosos é sua covardia física. Não matam ou torturam, mandam fazer). É ! Mas 2 horas de assédio chama atenção pelo quantidade de coisas que podem ser ditas. E se ficasse em silêncio seria mais doloroso ainda. Mas não me espantei tanto, pois detenho o recorde, não registrado a não ser aqui neste jornaleco, ficando  2 meses na sala do chefe, por causa de greve de 1983. Dois meses da sala do alto funcionário, ainda funcionários espiritual  da ditadura, apesar do governo democrático de Montoro. E dois meses em silêncio ou tendo que ouvir a conversa fiada, ou os  zunidos,  do sr. Zuair; tão afável era o homem no seu terno cinza impecável , mas temido por todos os funcionários naqueles idos da Ditadura e da Reitoria Zeferino Vaz/Plínio.

Mas as coisas são desimportantes e cômicas na sua brutalidade. Quando disseram sobre a banalidade do mal, tendo a achar que o mal é a banalidade. Depois de 2 meses, em silêncio, na sala do super-chefe, sem poder ler ou escrever, folheando processos que ele mandou que eu folheasse, por puro sadismo, processos que não entendia , não podia e nem devia entender, o temível, naquela época, Zuair, veio com uma proposta de promoção. Eu iria para o Acre, onde havia um Campus Avançado da Unicamp, ganhando, sei lá, o dobro que ganhava;  e mais todo o mundo dourado do acre que ele que ele desfiava, monótona e insistentemente,  para mim. Aí que apareceu meu herói, Clóvis Garcia – que morreu jovem de apendicite e dentro de um hospital – , surgiu, impetuoso, furioso e enraivecido, pois naquela época a esquerda era chamada de  raivosa, acho que não tinha ainda sido domada pela cretinice parlamentar( LENIN), comandando sei lá quantos, – diziam e acho que era mesmo uns 200 – , furiosos funcionários que me resgataram de lá; e conforme a acusação dos burocratas da  época, os funcionários praticaram cárcere privado, já que o poderoso e temível Zuair, tremia, encurralado. Ali mesmo c foi obrigado a aceitar, de livre espontânea pressão, de que eu não iria mais ser promovido para o Acre. Depois fiquei encostado num no mesmo Projeto Rondon, em Campinas, por 10 anos, sem nada para fazer ou quase nada. Mas aqui também tem sua comicidade, paga com o dinheiro público, fiquei lotado neste Projeto Rondon, muitos anos, talvez cinco  anos,  depois do novo republicano Sarney ter extinto o tal Projeto Rondon.

Não Sei porque fico tão indignado com estas histórias. Se apenas eu fui espezinhado e era apenas dinheiro público jogado fora, e não o meu! Quando conto ninguém fica.  E porque ficariam? Se hoje mesmo pudemos ver ao vivo e em cores a repressão aos vândalos da favela de heliópolis, que protestavam contra uma simples, cotidiana, repetitiva, bala perdida no peito de uma jovem evangélica. E na TV os responsáveis por tudo  são as próprias vítimas. Fico um pouco envergonhado de contar uma historieta diante de tantas, cotidianas, repetitivas histórias brutais . Ficar indignado para que serve?  Mas vamos lá, se me propus a contar estes caquinhos sem importância.  Mas  fico puto, sim,  de ter sido punido, ficando  2 meses incomunicável na sala de um chefão e  10 anos numa sala, exilado no centro da cidade,  repito, punido por ter feito um greve em  1983. Fico agora mesmo indignado em ter sido  um preso-albergado ao-contrário, livre para dormir em casa e preso no trabalho, massacrado pela banalidade, pelo silêncio de todos, inclusive do sindicato. E quantas coisas mais fizeram para tentar me calar. Seria fastidioso continuar contando…

Mas a história aqui deveria ser do meu herói Clóvis Garcia, militante da Convergência Socialista,  que morreu jovem  e de apendicite.

TOCA RAUL

Por Mário Martins de Lima

Como é legal ir em shows da prefeitura na praça. Covers. Uns horrosos. Outros maravilhosos que nunca mais vai se ouvir falar. Pena que só alguns prefeitos promovem. E se um faz, o sucessor acaba com a graça.

O cara era Cover de Legião Urbana e Raul Seixas. Enquanto cantou uns15 músicas de Legião Urbana vários jovens aplaudiam, pois o cara imitava realmente bem. Mas quando começou a cantar Raul Seixas o cheiro da praça começou a mudar. Mendigos e loucos mendigos iam aparencendo de tudo quanto era canto, como se houvesse buracos em todos os cantos. Apareciam em toda volta , arrastando seus imundos cobertores. Dançavam, abaixando e levantando, abrindo largamente os braços quase encostando-os  no chão, querendo abraçar o mundo, como os bêbados desesperados bebem como se tragassem o mar, outros se abraçando e fundindo-se, como se fosse para sempre, imundície com  imundície;  gruniam palavras ininteligíveis e algumas bem claras, maluco beleza, sociedade alternativa, quero dizer agora o oposto do que disse antes, controlando minha maluquez,  oh baby a gente ainda nem começou…

Eu e meu filho guitarrista nos abraçamos de olhos mareados. Sentimos que tínhamos que ir embora antes de acabar, ouvindo ainda de lá da esquina

cadê meu rock and roll?
cadê meu velho blues?
está tudo tão chato,
cadê o grande Raul?

TRANSE

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Um jornaleco litero-jocoso-informativo-pornográfico, melhor e mais completo que este Jornal do Porão que é apenas um jornaleco litero-informativo-jocoso. Mas os dois não prestam,  pois  não conseguem falar de futebol.

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