JORNAL DO PORÃO N. 2

28 de agosto de 2009

Ele devia ter uma apresentação. Ele teve um número zero, mesmo antes de ter nome. Não é um jornal, mas um e-mail. Não é um e-mail, pois acabo enviando-o para quem não pediu. E para não continuar sendo deselegante peço às pessoas que se sintam incomodadas, tenham um pequeno trabalho, mas me avisem para tirá-la da lista.

A primeira idéia deste Jornal do Porão era atender um repto, há anos feito, pelo meu amigo Mário Medeiros, para que eu escrevesse memórias. Resisti por anos. Sempre tinha uma desculpa diferente para não fazê-lo. E hoje, de manhã, ou de madrugada, parece que encontrei uma resposta, corri para escrever, pois à tarde posso achar outra explicação. É que sempre disse que odeio memórias, mas acho que na verdade amo demais. Exatamente porque não tenho memória. E também não acho que minha vida foi medíocre, pelo contrário, acho que tive uma vida grandiosa, desde a mais tenra idade. O que justificaria um memória. Mas hoje de manhã achei que minha relutância em escrever memória era porque gosto de contá-la em voz alta. E conto-a de maneira diferente para conforme a pessoa que está ouvindo. Sem nunca inventar, mas sempre diferente, sempre uma outra história. Como se não houvesse passado. Que o passado nem passou, pois o presente toma conta da história. E que não há futuro. E minha vida consiste em contar minhas histórias para mim e para os amigos. E que depois de escrevê-las eu não teria mais memória; e estaria matando, todas as vezes que contasse uma, um pedaço do futuro. Conclui que eu nem existo, sou uma memória que se faz presente. Então porque resolvi matar o que me mantém vivo? Já disse que quero agradar o meu amigo Mário que, além de cientista, é contista. Quem sabe ele não melhora esta minhas memórias com sua capacidade de ficção e eu possa ficar melhor na fita sem ser cabotino. Outra explicação é que talvez eu queira ir matando aos poucos o que me mantém vivo, para quando muito velho, não ter que carregar fardo muito pesado. Mas meu intuito é só entregar aos leitores, se houver, as partes mais leves, ou torná-las assim.

No número 1 do Jornal do Porão tentei ser o mais leve possível diante de uma situação que achei muito grave. Não quis fazer discursos e a gritaria que normalmente faço diante dos poderes do mundo com quem tenho um incompatibilidade de gênio. Me dei mal. A principal acusação dos sensores é que eu estava tratando problemas sérios com galhofa. Então tentei, hoje, enveredar por memórias, coisa que são só minhas, cortando as asas agourentas da realidade, e faça , realmente, um número mais leve do Jornal do Porão e me poupe também de ser convocado para mais uma passagem numa sala qualquer de admoestação.

Dos meus leitores, se houver, dos meus amigos que tenho, aceito todas as críticas e principalmente as galhofeiras. Que sério mesmo só o próximo beijo da amante e o afago dos amigos.

PRIMEIRA HISTÓRIA

Não é a primeira da minha vida, mas que para mim é muito cômica. Quereria contá-la em 10 linhas como faz Dalton Trevisan depois de 50 anos de treino em cortar, burilar as mesmas histórias. Só que, infelizmente, não terei nem 50 minutos.

Digo que meu herói sou eu mesmo. Que não quero viver, vivendo vida dos outros. Mas meu primeiro herói, nada de novo para uma criança, foi um dos irmãos mais velho dos 7 mais velhos que eu. Nasceu, acho tresloucado. Comecei a vê-lo montando burro bravo, andando em pé sobre os cavalos, toureando vaca de bezerro novo. Mas a primeira história deste meu grande herói tresloucado, desdentado e feio eu não vi, mas ouvi contar de fontes seguras – meu pai.

A professor da escola de roça, escola contígua a própria casa, com 9 aos sem receber salários – assim eram as professores da roça em Minas.
A escola tinha três séries, todas juntas, e a professora só tinha feito até a terceira série. Podia ser um heroína, mas era na verdade uma torturadora consumada. Eu vi. Ela batia e jogava a cabeça do seu próprio filho, seu aluno, na lousa até o sangue manchar o chão e verde da lousa ficar mais escuro.

Aqui a história que prometi cômica. Dona Nininha colocou, como fazia sempre, depois de espancar, colocou meu irmão de castigo no quarto de dormir dela, o mais perto da sala de aula. Quando terminou a aula vem ela aos berros puxando meu irmão pelas orelhas, para o riso, um imenso riso dos 40 diabinhos que invadiram o quarto para ver o colchão pontilhado de vários e vários montes de fezes verdes, moles e fedidas, como eram as nossas fezes em Minas, onde comíamos de tudo que topássemos, principalmente pedaços e torrões deliciosos de terra vermelha ou branca. Cada um delas com seu sabor . E cada degustador com sua preferência.

Assim como nunca serei Trotsky , nunca analisarei como Freud, nunca escreverei como Dostoievsky, nunca pude fazer esta obra revolucionária que meu herói, meu irmão, meu grande herói hoje e sempre, meu caro Zé Geraldo. Ele não acreditava em Deus, nem eu. Então, que sua natureza prevaleça nos nossos filhos.

ERRATA
11 de Setembro de 2009
No Jornal do Porão n. 2 escrevi censor com s.
Escrever censor com s é quase um elogia a eles. Eles geralmente não entendem nada. São burocratas arrecadores de impostos na Roma antiga, mas principalmente burocratas. E além do mais não têm senso algum. Cometi um trocadilho involuntário. O máximo que um censor é capaz de fazer é um censo.

Houaiss

sensor (Datação c1928)

Acepções
■ adjetivo e substantivo masculino
diz-se de ou dispositivo que responde a estímulos físicos (calórico, luminoso, sonoro, pressional, magnético, motor) e transmite um impulso (mensurável ou operante) correspondente

Etimologia
ing. sensor (c1928) ‘id.’ < lat. sensus, part.pas. de sentíre ‘perceber pelos sentidos, sentir, ter sentimento, conhecer, experimentar uma sensação ou sentimento’ + -or; ver sens- e sen(t/s)-

Homônimos
censor /ô/ (s.m.)

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