Debatendo e anotando textos do movimento das ruas 2013 – (03)

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Debate na faculdade de educação da USP: sobre o “pensamento mágico” de Marilena Chauí

junho 27, 2013 – Outros – no comments

Iuri Tonelo e Edison Salles

É aquela velha história, se algum desavisado ousasse entrar na USP e ir até a Faculdade de Educação, na última terça-feira, encontraria na fala da profa. Marilena Chauí um terreno fértil para a confusão.

Numa mesa que esteve composta também por Bianca (militante do Juntos -MES/PSOL), Carlos Carlos (jornalista da TVT, canal demídia da CUT), André Ciola, do MPL, além deDiana Assunção, diretora do Sintusp e dirigente da LER-QI, a profa. Marilena, a mais expressiva intelectual petista hoje, resolveu, em meio a todo esse processo, intervir nodebate como aquela que está com a visão “para além das esquerdas”, que pensam “pequeno”, não veem as grandes barreiras e grandes lutas que terão de ser enfrentadas nesses tempos.

 Comentário: Três problemas com os quais concordo plenamente. É preciso um reforma urbana total, tendo com centro a moradia e o transporte. Significa estatização do transporte coletivo e expropriação para distribuição de lotes e construção de moradias populares de todos os “latifúndios” urbanos

tudofantoche, de Cancrópolis , por João da Silva. Ilustrando os comentários.

tudofantoche, de Cancrópolis , por João da Silva. Ilustrando os comentários.

Marilena Chauí falou de três dos grandes problemas sociais que incendeiam as manifestações atuais: o “inferno urbano”, imerso nas contradições de megalópoles como São Paulo construídas pelo irracionalismo capitalista; a especulação imobiliária e o caos nas questões de moradia no Brasil; o “indecente” e ineficiente transporte coletivo.

Pois bem, segundo a intelectual petista, a grande luta é contra o capital: a chave seria entender que se tratade enfrentar montadoras, empreiteiras e o grande cartel do transporte. Será uma luta dura, que envolve “sangue e mortes” (nas palavras de “quem já viveu isso”).

 Há sempre a justificativa do pequeno tamanho das organizações de esquerda, mas os grupos mais conhecidos sempre colocam com centro do seu combate a questão dos governos. A mim sempre me deu a sensação de que se esquece de combater os monopólios. Por exemplo, sou contra, terminantemente, que se ataque e destrua o Metrô, apesar do preço da passagem. A destruição de ônibus se justificaria nua luta pela estatização, no caminho da tarifa Zero. Assim como sou contra a destruição dos estádios de futebol, que deviam ser estatizados, com ingressos a preço de custo de manutenção deles. Mas antes de mais nada precisa de um lugar e um momento para discutir e votar isso: UMA ASSEMBLÉIA CONSTITUINTE, COM LIBERDADE TOTAL DE FORMAÇÃO DE PARTIDOS. Acho que a Gavião da Fiel fez bem em defender o estádio do Corinthians. Uma fala de esquerda? Não, nada há de extraordinário no discurso de Chauí: quando um petista enfatiza a direita, a burguesia, o capital financeiro (e até aqui em geral está tudo muito correto), esconde e quer “preservar” sempre sua posição política institucional. Aqui se desfaz o primeiro “mistério” de seu discurso, porque era tudo para a mobilização não se concentrar contra o governo municipal do PT, de Fernando Haddad, ou seja, entender que a luta é contra o grande capital como se nós, os petistas e o governo estivéssemos num bloco só! Abram o olho, Haddad está dentro dessa máquina burguesa e ainda ontem estava com Geraldo Alckmin no pérfido plano de não reduzir R$0,20 centavos “porque não dava no orçamento” (e nos lucros do cartel). Haddad, aliado de Alckmin. Vergonhoso. Mas nos meios decomunicação e na própria esquerda, vi muito mais ataque ao Haddad que ao direitoso e sempre brutal Alckmin.

Mas o discurso de Chauí escondia um “mistério” superior. Começando por supostamente criticar a fluidez do facebook no chamado às manifestações, esses eventos (“passageiros”), Aí mora minha dúvida. Tanto que este movimento tem potencialidade de questionar toda a ordem vigente e se aliar aos trabalhadores, como acho que tem traços de intolerância(proto-fascista), anti-petismo(duma direita, tanto parlamentar como a mais a direita anti-parlamentar) pera direita “indiferenciados””sem controle”, evidente que são (nas palavras dela) acabavam por gerar uma ideia mágica de que após derrubar os R$0,20 centavos, poderia “ousar” ir por mais. Assim, o “pensamento mágico” não entende que a grande luta dura contra o capital é mais difícil do que imagina.

Marilena Chauí, dentro do pensamento que “fala da dura luta contra o capital” mas ainda ontem se calava frente a Haddad dizer que é impossível abaixar R$0,20 centavos no preço da passagem, nos fez lembrar aquela linda frase de maio de 1968: “sejamos realistas, exijamos o impossível” (ela não cabe no pensamentode Chauí, que às vezes parece propor justamente o oposto: “sejamos utópicos, aceitemos o que estámarilena chauidado”).

Voltando ao “mistério chave”, e aqui reside o principal, ela fez questão de dizer que não bastam essas manifestações em Osasco, Guaianazes, zona leste, “aqui e ali”, é preciso se organizar. Está ótimo, Marilena, mas deixe todos nós vibrarmos com a população da Zona Leste, tão arrasada no governo do PSDB e de seu partido, sair às ruas e desbravar as palavras de ordem engasgadas em toda a década de2000. Evidentemente é preciso se organizar, é preciso construir um partido revolucionário que ultrapasse os limites impostos pela degeneração do PT, mas esse partido deve se construir em conexão com a auto-organização dos trabalhadores e da juventude. Comentário: Mas é preciso a auto-organização dos trabalhadores e da juventude. Essa é a principal questão colocada pelos movimentos, exatamente pela ausência dessa “auto-organização dos trabalhadores e da juventude”. Nas manifestações, os mais organizados eram exatamente o que chamaram de “poeira do capitalismo”, os minúsculos grupos de direita. Onde desembocará o ódio, mesmo que tardio,  ao petismo? Como provocar através de uma propaganda eficiente e como aproveitar os elementos de auto-organização que estão circulando nos movimentos, dispersos e espontâneos? O elemento que conheço é o Movimento do Passe Livre. O que desencadeou tudo, mas muito limitado diante da amplitude de questões que o movimento levantou, principalmente sobre saúde e educação. E quanto ao governo, além de denúncias o que podemos esperar e oferecer? Daí uma Constituinte Soberana, com total liberdade partidária, para que aja possibilidade de decantar e centralizar essa vontade, para dar um passo a frente nessa mesma auto-organização e também em conquistas.

 Dessa necessidade de decantar e centralizar em palavras de ordem que o próprio movimento já colocou, remeto ao papel dos bolcheviques que centralizaram sua intervenção , logo depois de revolução de fevereiro, em “Pão, Terra e Paz”. E para conseguir isso impulsionar os soviets(conselhos), para substituir um governo que continuava fazendo a guerra imperialista, não distribuía as terras – num país de maioria absoluta decamponeses – (não consigo deixar de lembar que nosso país hoje é quase 80 por cento urbano, logo terra aqui é terra urbana, moradia e transporte e outros serviços públicos) e um governo que saiu da revolução defevereiro, que substitui o czarismo, mas não consegui resolver a questão elementar da fome, pois seus vínculos com a classe dominante, pois com a continuidade da guerra imperialista que trazia mais fome e penúria, esse governo devia ser derrubado. E os bolcheviques, ainda com aos soviets sendo formados, propõe a Assembléia Constituinte, para acabar com a guerra, para distribuir terra aos componeses (maioria da população, inclusive maioria  de soldados era camponês e acabar com a fome. Constituinte que cumpria um papel tático e também estratégico. Sua dissolução com a revolução de Outubro, deve ser muito estudada, pois ficou no ar a questão de que foi uma dissolução prematura e que isolou bastante o partido bolchevique. É bom aprender com a história, principalmente os métodos empregados, mas não resolve o nosso problema com nossos minúsculos partidos, diante das grandes manifestações. Daí a enorme desorganização desses movimentos.

Por fim, Marilena Chauí falou bastante sobre a manipulação da mídia. Nós também não semeamos nenhuma ilusão no jornalismo burguês e estamos contra qualquer tentativa de transformar o movimento num “grande nacionalismo” que se volte contra os partidos de esquerda. Achamos que faz parte sim da ideologia neoliberal. Mas o mais chocante foi Chauí querer misturar tudo isso no termo “massas”. Ontem nós (a esquerda organizada e classista) combatíamos todo tipo de autonomismo que quisesse dizer que as classes acabaram, que a classe trabalhadora não é mais sujeito, que não se precisa mais de partidos e sindicatos (e mantemos esse combate). Mas, Chauí, seu horror ao termo “massa” Mas podemos ignorar o enorme desatino que atacar lojas e pequenos comércios. Claro que há bandidos e provocadores infiltrados, não se pode negar. A maioria, provavelmente, é formada por  jovens trabalhadores da periferia e estudantes secundaristas. Mas essa raiva dirigida contra comerciantes, bancas de jornal, ou seja, a uma pequena burguesia, só levará a maior isolamento e esvaziamento do movimento – esvaziamento que, até agora, não aconteceu, mas vai acontecer, nesse momento não se refere à ideologia neoliberal, mas sim ao fato demilhões de jovens estarem nas ruas aniquilando um dos pilares do lulismo: a estabilidade social burguesa, o controle da classe trabalhadora e da juventude!  Acho que essa é a política do Lulismo, estabilidade social. Mas o pilar do Lulismo é ainda os sindicatos e o MST. Esse é o problema que nesse dia 11 começa a ser abordado, já que há uma paralisação convocada pelas centrais sindicais. Com que palavras de ordem?

Como terminou dizendo Diana Assunção no mesmo debate, é hora de dar nome aos bois e denunciar que essa fúria das “massas” (num primeiro momento da classe média, mas da juventude trabalhadora que já começa a ganhar cena nos combates) contra a burguesia e o capital mas também contra os governos que, nos termos de Marx, fazem parte do “comitê de negócios comuns da burguesia”, como os do PT, aliado dos mais corruptos e reacionários do parlamento brasileiro. Como afirmou a companheira Diana, toda a tese deChauí sobre o reacionarismo da classe média, termina servindo para ocultar o verdadeiro antagonismo declasse, que é entre os trabalhadores e a grande burguesia (que está com o governo). A professora, com sua tese, sequer se coloca de fato a favor das manifestações, e suas propostas para dialogar com a juventude, como a de apoiar a “reforma política” por meio da “Constituinte específica” proposta por Dilma, nada mais são do que a velha agenda do PT, agora requentada; não passam de tentativas de mudanças cosméticas, a serviço de restaurar a ordem, e nada têm a ver com os anseios profundos da juventude, das mulheres, do povo negro, da classe trabalhadora, anseios que não podem se cumprir sem escancarar aqueles antagonismos e encarar o combate frontal contra esse sistema de exploração e opressão.

É preciso terminar dizendo, a todos os intelectuais da ordem, inclusive e em primeiro lugar aos petistas: vão ter que continuar se horrorizando com os atos “aqui e ali”, na Zona leste de São Paulo e em todo o Brasil, com as “massas” nas ruas. É, professora Marilena, parece que vai ficar cada vez mais claro que o verdadeiro “pensamento mágico”, é achar que será possível mudar de fato a vida da juventude e todos os oprimidos, por dentro desse sistema de miséria. E então a força das ideias revolucionárias e materialistas de Karl Marx, que dizia que “tudo que é estável e sólido desmancha no ar”, podem ganhar corpo no novo país que irá emergir das atuais manifestações, deixando a burguesia e seus partidos, intelectuais petistas incluídos… à espera de uma “solução mágica”.

 Mas o grande problema desse texto, e de outros, é que tem alguma análise, mas nenhuma proposta deatuação, concreta, pão, pão, terra, terra, liberdade, liberdade. O texto parece dizer que Marilena Chauí condena as manifestações. Lamentável. Mas é bom dizer que até os programas policiais, tipo Datena e Marcelo qualquer coisa, apoiam e atacam, dia-e-noite, o governo Dilma e o petismo. Eu concordo com algumas teses de Marilena Chauí, como a questão de que a reivindicações centrais que são de origem urbana, pois vivemos num caos urbano de 80 por cento da população, com os horrores das mortes em corredores hospitalares, um educação, principalmente do ensino médio que é um edifício que não permite, pela degradação arrasadora, nem mesmo qualquer reforma e um transporte que arrebenta o trabalhador, talvez menos pelo preço, mas mais pela sua condição desumana. Mas me incomoda ligar a televisão e ver Datane e Marcelo horroroso dizer do governo e do PT o que eu comecei a dizer desde 1988.

Mas o que, para mim, é a grande ausência deste texto é analisar a participação das chamadas esquerdas, PSOL, PSTU, LER-QI, PCO e outros. Pequenos. Vacilantes. Revolucionários. Antes de mais nada incapazes de se comunicar com o movimento. Ou mesmo isolados pelo movimento. Nalguns casos atacados pelo movimento. Será que o negócio é deixar o tsuname passar e depois juntar o que der?

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